O riso crítico de Juca de Oliveira em “Caixa 2” retorna
Na coluna desta quarta-feira, Atílio Bari relembra a trajetória do ator e dramaturgo Juca de Oliveira, falecido há pouco mais de um mês, e sua formação no histórico Teatro de Arena, ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Milton Gonçalves e tantos outros. Surgido no início dos anos 1960, o grupo desenvolveu uma dramaturgia voltada às questões sociais e políticas do Brasil, em contraste com o repertório clássico do Teatro Brasileiro de Comédia e a estética mais acadêmica ligada à Escola de Arte Dramática. Foi nesse ambiente de intensa efervescência política que Juca consolidou uma carreira marcada pelo engajamento crítico.
Ele nunca abandonou o olhar atento às contradições do país. Essa postura se reflete em “Caixa 2”, comédia de sua autoria que expõe, com humor ácido, as relações obscuras entre o sistema financeiro e figuras de poder. Na trama, uma quantia milionária vai parar em uma conta errada, desencadeando um conflito que revela suspeitas de corrupção, propinas e crimes diversos.
Montada originalmente em 1997, a peça foi um grande sucesso. Agora, retornou aos palcos no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, sob direção de Alexandre Reinecke, com Paulo Gorgulho no papel do banqueiro, ao lado de Cássio Scapin, Taumaturgo Ferreira e Flávia Garrafa. O espetáculo, em cartaz até 31 de maio, constrói um retrato irônico e perturbador das engrenagens da corrupção, convidando o público a rir — e se indignar — diante de escândalos que já não surpreendem, mas seguem profundamente presentes.
Atílio Bari
- Peça "Caixa 2" e corrupçãoCaixa 2 · Corrupção · Sistema financeiro · Paulo Gorgulho · Alexandre Reinecke · Cássio Scapin · Taumaturgo Ferreira · Flávia Garrafa
- Juca de Oliveira e Teatro de ArenaJuca de Oliveira · Teatro de Arena · Gianfrancesco Guarnieri · Augusto Boal · Milton Gonçalves · Escola de Arte Dramática
Há pouco mais de um mês perdemos o ator e dramaturgo Juca de Oliveira. Juca é daquela leva de artistas que se formaram politicamente no Teatro de Arena, ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Milton Gonçalves e tantos outros jovens no início dos anos 60, que em sua maioria viriam a trilhar um largo caminho nas artes cênicas.
Ali pesquisaram e levaram para o palco uma dramaturgia calcada na problemática social e política do Brasil. Descobriram um modo de falar próprio, uma prosódia brasileira, que se contrapunha ao estilo mais acadêmico do professor Alfredo Mesquita, baluarte da Escola de Arte Dramática, e dos diretores italianos que vieram trazer a sua expertise para o teatro brasileiro de comédia.
Enquanto o TBC colocava no palco os clássicos dos grandes dramaturgos universais, o Arena se debruçava sobre a vida do operário de fábrica e da gente das periferias ou de figuras como zumbi e tiradentes, sempre tratados de maneira atravessada pelos historiadores oficiais.
Foi nesse ambiente de discussões políticas acaloradas que Juca forjou a sua carreira. O golpe militar de 64 e depois o ato institucional número 5 inviabilizou que esse teatro continuasse a ser feito. Nessa época, a TV Globo tinha acabado de ser fundada e carecia de atores e dramaturgos. Juca foi um dentre tantos que encontraram refúgio nas novelas e teleteatros. Então, vamos lá.
Mas ele nunca deixou de lado a sua veia de crítico dos desmandos e trapaças da política nacional. Daí que, em boa parte da sua carreira como ator, ele se dedicou a espetáculos que servissem ao propósito de discutir os problemas sociais, econômicos e políticos que afligem o povo brasileiro desde que aportou por aqui o primeiro navegador português.
Foi o que ele fez, por exemplo, em Caixa 2, uma comédia de sua autoria em que ele expõe as ligações perigosas, umbilicais, entre um banqueiro e uma pessoa não perfeitamente identificada, que tem lá algum tipo de relação econômica, da ordem aí de 100 milhões de reais.
Coisa pouca se considerarmos que o caso Master envolve cifras que chegam a 50 ou 60 bilhões de reais. Mas para o que o Juca se propõe a mostrar na sua peça, 100 milhões já está bom. Até porque esse provavelmente é apenas um dos casos em que o banqueiro está envolvido.
de onde vem exatamente esse dinheiro alguma propina um pagamento de algum favor ilícito tráfico de drogas contrabando sabe-se lá o fato é que o dinheiro por um descuido de alguém vai parar numa conta errada
E aí está armado o conflito que se resolverá de maneira inesperada no final da história. A primeira montagem de Caixa 2 foi em 1997 e ficou cinco anos em cartaz. Excursionou por todo o país um enorme sucesso com um elenco de estrelas. Fulvio Stefanini, Suzy Rego, o próprio Juca, dentre outros, sob a direção segura de Fauzi Arape.
Juca interpretava o banqueiro, um sujeito grosso, mau caráter, que pouco se importa com as pessoas ao seu redor. Agora a peça volta aos palcos, sob a direção de Alexandre Reinec, e é Paulo Gorgulho quem compõe o banqueiro, ainda mais grosso e mais mau caráter. Sinal dos tempos, sem dúvida. Basta ver as figuras grotescas que habitam boa parte do nosso meio político e empresarial.
No elenco brilham também Cássio Escapim, Talmaturgo Ferreira e Flávia Garrafa nos papéis centrais. Um retrato debochado de como certas falcatruas acontecem nos andares mais altos da sociedade, das relações promíscuas entre comandantes de sistemas financeiros e poderosos do meio político e também das esferas criminais.
Juca coloca no palco um pedacinho, um pingo de tinta dessa aquarela de corrupção deslavada, um recorte da presença ostensiva da criminalidade que o brasileiro acompanha perplexo, pasmado de ver nos noticiários essa gente que até se orgulha de ostentar uma tornozeleira eletrônica, por exemplo, ou de tentar destruí-la para se livrar da vigilância.
Escândalos a que já nos habituamos nem nos escandalizam mais, mas nos indignamos e rimos deles. Foi o que Juca propôs ao escrever esse texto. Caixa 2 está em cartaz até 31 de maio no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado.