Episódios de Lucena Explica

#308 - Desenrola 2.0 e os riscos do incentivo ao endividamento

05 de maio de 20263min
0:00 / 3:58

No 308º episódio do podcast Lucena Explica, o doutor em Relações Internacionais analisa o programa Desenrola 2.0, destacando como uma política voltada para aliviar dívidas pode gerar efeitos contrários no médio e longo prazo.

O episódio explica que, apesar da proposta de renegociar débitos de famílias, especialmente ligados ao FIES, cartão de crédito e despesas básicas, a experiência anterior do programa mostrou resultados preocupantes, com aumento da inadimplência. Além disso, ao oferecer benefícios maiores para quem não pagou suas dívidas, a medida cria um incentivo negativo, conhecido como risco moral, desestimulando o pagamento em dia.

Por fim, ele aponta que o alto endividamento das famílias está ligado a problemas estruturais da economia brasileira, como juros elevados, baixa produtividade e renda comprimida. Sem enfrentar essas causas, programas como o Desenrola tendem apenas a adiar o problema, ampliando o risco fiscal e mantendo a população presa a ciclos de dívida.

Participantes neste episódio1
L

Lucena

HostDoutor em Relações Internacionais
Assuntos3
  • Desenrola 2.0Objetivo de aliviar endividamento · Risco moral e incentivo ao endividamento · Comparação com o primeiro Desenrola · Impacto em quem pagou em dia
  • Endividamento das FamíliasJuros elevados · Baixa produtividade · Renda comprimida · Endividamento para despesas básicas
  • Intervenção estatal em economia de mercadoEfeitos contrários de políticas de alívio de dívidas · Risco fiscal ampliado
Transcrição10 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Bom dia a todos e hoje a gente começa uma terça-feira falando sobre um tema que é importante do ponto de vista nacional, mas também a gente sempre faz uma análise internacional, que é o programa Desenrola 2.0 do governo federal, que inicialmente tem como objetivo...

Aliviar o endividamento das famílias, principalmente em aquelas que não estão pagando fiéis, cartão de crédito e outras dívidas que as consomem. E é importante a gente falar o que é um problema deste tamanho. Isso porque o desenrola, o primeiro desenrola, teve uma situação complicada.

Para cada R$ 1,00 que foi refinanciado, a gente teve uma nova dívida que ficou inadimplente de R$ 1,16. Ou seja, algo não estava correto na formulação do projeto. E isso significa, e tem uma visão muito básica, de que quando o Estado intervém demais na economia, gera situações que podem parecer boas, mas no final não é.

Vou dar um exemplo claro. O novo desenrola que está saindo agora pode até mesmo diminuir as dívidas do FIES do valor principal e não das multas e juros. Ou seja, para aquelas pessoas que pagavam o FIES religiosamente em dia e nunca atrasaram nada, não tem benefício nenhum.

Mas para aqueles que atrasaram e que por algum motivo não conseguem pagar suas dívidas, vão pagar valores até menor do que a dívida principal. Na prática, a gente chama isso de risco moral, porque você beneficia quem não pagou suas dívidas corretamente. Isso faz com que gere um estímulo para que qualquer outro empréstimo, principalmente do governo,

você tome e não pague, porque você sabe que lá na frente vai pagar menos do que se estiver pagando tudo em dia. Ou seja, isso gera mais dívida para as pessoas, incentiva as pessoas a não pagarem suas contas e o governo federal fica com um rombo fiscal ainda maior. Isso é importante dizer porque essa política é uma intervenção direta na economia.

tentando resolver um outro problema, que é taxa de juros muito alta e as pessoas com salários achatados porque não têm produtividade. A grande maioria dos países...

Quando você tem uma política econômica séria, atacam esses problemas, diminuem gastos, taxa de juros cai e tentam fazer reformas estruturais para aumentar a produtividade e salários. Como nada disso é feito no Brasil, as pessoas têm que se endividar para pagar contas básicas.

E eu não estou falando de bet. Os dados reais mostram que a maioria das pessoas que têm até dois salários mínimos são endividados para pagar gasolina, comida, itens básicos da sobrevivência humana.

Por causa disso, cria-se um programa para tentar refinanciar essas dívidas que no final vão trazer novas dívidas. A gente precisa de uma mudança estrutural dentro da nossa economia. Caso contrário, a gente está apenas tapando o sol com a peneira.