Trabalho por turnos e os ciclos de stress no cérebro
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João Ribeira
- Trabalho por turnos e stressImpacto no ritmo circadiano · Alterações do sono · Pico e mínimo de cortisol · Turno duplo vs. turno simples · Irritabilidade e explosão comportamental
- Adaptação do organismo a turnosDificuldade de adaptação a turnos duplos · Tempo de recuperação após alterações de sono · Apelo a empregadores para atenção à saúde dos trabalhadores
- Estresse e cortisolCortisol como hormona de alerta · Efeitos do cortisol nos receptores do cérebro · Stress como reação fisiológica positiva
- Ritmo circadiano e luz solarRegulação do sistema de vigília e sono · Programação humana para a luz do sol
Neuropsicologia para todos. Na Antena Umas Horas, com o Dr. João Ribeira.
Cá estamos nós, nesta rádio, que agora temos que chamar de RTP Antena 1 Açores. E nesta rádio trabalha-se por turnos. Ah! E, portanto, por turnos, não trabalhamos, por exemplo, entre a meia-noite e as seis da manhã, mas fazem-se turnos ao longo do dia.
Mas há muitas profissões em que sim, em que se trabalha entre a mim e a minha. De madrugada. É verdade. E possivelmente o assunto de hoje, o tema da nossa conversa, tem a ver muito mais com essas pessoas que trabalham em turnos de madrugada e não só, e algumas até fazem turnos duplos, não é? Ora está.
E portanto, normalmente essas pessoas têm alguma dificuldade em manter a calma, ou seja, quando acontece ficam um bocadinho irritadas.
podem aumentar a irritabilidade efetivamente. Não é obrigatório. Não é obrigatório. Tal como não é obrigatório que todas as pessoas que trabalhem por turnos tenham alterações do sono. A verdade é que a grande maioria das pessoas que trabalham por turnos têm alterações do sono com as respectivas consequências que isto traz, obviamente. Depois de tocar a noite pelo dia e o dia pela noite. Claro, isso tem tudo o seu motivo. Nós aqui há tempos, a propósito...
Da primavera, penso eu, falávamos da importância do sol no bom humor e tal. Exato. E uma das coisas que eu me recordo dizer é que a luz solar tinha um papel super importante na regulação justamente do sistema de vigília e de sono, portanto, de alerta ou a ausência do alerta. E o ser humano é programado como uma boa parte dos...
dos vertebrados, vamos dizer, que existem na natureza, para funcionar como a luz do sol, e para descansar quando há ausência dessa luz. Aqui, o que nós dois podemos acrescentar é...
Os turnos, e em particular o chamado turno duplo, já vamos ver porque é que é um bocadinho diferente, influenciam efetivamente não só o ritmo de sono, mas também, se quisermos chamar, os padrões de stress do cérebro. Explico.
Eu já muitas vezes disse que a questão do stress, que é uma reação fisiológica, e a ação do cortisol, da adrenalina, da noradrenalina, são necessárias ao organismo. As pessoas aprenderam a identificar o cortisol como algo negativo, etc. Mas o cortisol não é negativo. O cortisol é uma das hormonas responsáveis por nos manter ativos.
alerta, por nos colocar e limpar um pouco o sistema, vamos dizer assim, para funcionar. Ora bom, e quando é que o cortisol tem o seu pico no organismo humano? De manhã, em termos de hora, de manhã, de manhã, com o nascer do sol, etc. E quando é que, teoricamente, tem o seu ponto mais baixo? Com muitas aspas, à meia-noite.
Ou seja, no ponto intermédio, vamos dizer assim, a meia-noite, naquele ponto em que nós estávamos nas 24 horas do dia, certamente a descansar ou prestes a descansar, o cortisol atinge o seu mínimo diário. Isto é o que permite que nós adormeçamos, que nós descansemos. Então isso aí é um... Fica alterado. Fica alterado. Lá está. Ora, vamos pensar no seguinte. Para aqueles que começam à meia-noite. Justamente. Repare. E aí eu ia fazer esta distinção.
Trabalhar por turnos, apesar de tudo, pode ser menos mau do que fazer um turno duplo. Explica-me, por favor. Trabalhar por turnos, se eu tiver, apesar de trabalhar em turnos diversos, tiver um período suficientemente grande em que o meu cérebro se adapte a determinado turno e depois lhe der um período, um hiato temporal suficiente para ele mudar para o outro turno,
O efeito, enfim, embora não seja fantástico, mas o efeito é menos prejudicial do que a tal acumulação de turnos. Porquê? Rosa deu um exemplo. Imagino que eu comece a trabalhar à meia-noite, mas faço isso durante duas semanas.
Bom, apesar de eu estar a contrariar o ritmo circadiano normal do meu organismo, o meu organismo vai conseguir adaptar-se. De uma forma ou de outra vamos nos adaptar, seja com um comprimido e te ajudar, seja com técnicas que eu tenha de gestão de sono, etc. Eu vou conseguir adaptar-me. E depois, quando tiver que passar para um turno, por exemplo, das 8 às 4 ou das 8 às 5, se fizer ali uns dias de intervalo para me reeducar em termos de sono, embora dê trabalho lá consigo.
O turno duplo é diferente. O turno duplo é assim. Vamos imaginar que a pessoa faz das 4 horas à meia-noite e depois da meia-noite às 8 da manhã. Exato. Ora, a pessoa está a fazer das 4 horas à meia-noite. Quando chega à meia-noite, o seu cortisol, teoricamente, estava a diminuir. Até porque a pessoa está a acabar o seu turno de trabalho. E em vez de ir descansar, força o organismo a um novo pico de cortisol e de adrenalina.
Para se manter acordado Bom, isto pensando que são turnos em que a pessoa não pode estar a dormir Passa a brincadeira Que isso há em algumas atividades Apesar de serem por turnos A pessoa possa descansar um bocadinho Mas por exemplo, estou-me a lembrar Em certas
profissões ligadas à saúde, se calhar não todas, mas algumas delas, sobretudo em regimes mais intensivistas, o sono não é permitido, não é possível. E, portanto, é nestes casos de turno duplo que este problema se torna mais premente. Porque o que é que vai acontecer? Eu vou forçar o meu organismo a nova injeção de cortisol e de adrenalina quando ele estava a preparar para limpar essa mesma hormona, retirá-la do sistema para eu poder descansar. Obrigado.
O que é que isto faz? O cortisol, particularmente, tem um efeito super importante nos receptores, nos receptores não, nas estruturas do nosso cérebro ligadas à resposta de stress. E quando eu falo de resposta de stress, de forma muito genérica podemos falar da dita irritabilidade, da explosão comportamental, do facto de eu me exasperar com mais facilidade. E, portanto, estes duplos turnos vão mexer com o meu ritmo de stress. É isto que eu quero dizer. Eu digo sempre que o stress é, em princípio, algo positivo.
Aliás, eu digo sempre que nós não podemos viver sem stress. É o stress que nos faz estar acordados. A reação de stress do organismo, sim, o aumento do batimento cardíaco, o aumento do débito respiratório, o aumento do tono muscular, são elementos essenciais para eu me manter desperto. Eu estou a pensar que esses turnos duplos não acontecerão dias seguidos, naturalmente, quer dizer, para determinadas pessoas.
Ora bem... Imagina que uma pessoa faz isso durante 3, 4 dias. Isso ainda piora, não é? É prejudicial na mesma. É prejudicial. Ou seja, se fizermos uma vez, é menos mal do que se fizermos várias vezes. Isso é óbvio, não é? Mas lá está. Mas já agora outra coisa. Ainda bem que fala disso. Mesmo que eu faça só uma vez, o efeito prejudicial, o efeito nefasto da acumulação de cortisol não se limpa de um dia para o outro.
Leva o seu tempo, não é? Aqui podemos usar aquele exemplo muito comum da questão das diretas No sono Se eu fizer uma direta A gente diz, ah fiz só uma direta, depois recupero Pode levar semanas até recuperar de uma direta Portanto, e uma direta é isto mesmo Uma direta no fundo é uma espécie de um turno duplo Uma direta eu acordo num dia de manhã Vamos supor às sete e meia Faço o meu dia inteiro e quando chego ao fim do dia Às onze ou meia-noite Em vez de me deitar, continuo vigilo Porque tenho que continuar a trabalhar ou a fazer já aquilo que for Obrigado
Isto não é porque eu faço uma vez Que não faz mal Que não tem consequências Exatamente, tem e demora a corrigir O que é que eu quero dizer com isto? É óbvio, nós vamos sempre bater na realidade Há pessoas que têm que fazer o turno duplo Por uma vicissitude Por algo que é urgente, por algo que acontece Enfim, mas vamos tentar E eu faço sempre este apelo, sobretudo Não sei se somos ouvidos por empregadores Que tenham este cuidado Eu conheço uma pessoa, por exemplo Para dar um exemplo Mas não sei se não
que tem uma profissão em que trabalha justamente por turnos, tem uns turnos muito, muito, muito estranhos, de começar às 4 da manhã e acabar à 1 da tarde, por exemplo, que é mesmo estranho para o organismo, começar a trabalhar às 4 da manhã e acabar à 1 da tarde. E estes turnos acontecem, por exemplo, vamos supor, durante 4 dias ou 5 dias, e depois muda para o outro turno.
Estas pessoas têm que fazer um esforço acrescido, muitas vezes usar apoio químico para conseguirem dormir, para conseguirem conciliar o sono e com isso regular um bocadinho melhor o seu organismo. Mas é extremamente difícil. Todos os trabalhos que acontecem por turnos, e eu sei que é necessário, com certeza, há pessoas que têm que trabalhar durante a noite, há profissões que têm que trabalhar durante a noite, não tem questão. Era muito importante.
que os diversos empregadores fossem estando atentos a estes fenómenos e que conseguissem, pelo menos, pelo menos, fazer com que houvesse determinado turno durante mais tempo. Ou seja, a alteração dos turnos, eu sei que é chato para a vida de muita gente, imagino que era ficar três semanas, ou mesmo duas semanas, sempre a entrar à meia-noite e sair às oito da manhã.
É complicado para a vida das pessoas, eu percebo. Mas em termos de saúde, muitas vezes é menos mau. Porque estas duas semanas, por exemplo, já permitem um grau de adaptação ao meu organismo diferente, que não acontece quando eu faço um determinado turno diferente a cada três ou quatro dias e estou constantemente a mudar o meu ritmo circadiano. E aí é mais prejudicado. É. Portanto, o organismo adapta-se. Eu digo sempre isto, o organismo é capaz de se adaptar.
Mas temos que lhe dar tempo. E, portanto, é só um lembrete e para esclarecer, efetivamente, que esta história de não dormir quando é suposto para o ser humano estar a dormir tem efeitos nefastos e adversos. Tomem nota. Mais conselhos na próxima semana com o Dr. João Ribeira.
Neuropsicologia para todos. Na Antena Umas Horas, com o Dr. João Ribeira.