Episódios de salvei

EP 82 CARLA CAMURATI | QUANDO, ERUPCJA, SERGEI PROKOFIEV e mais

21 de setembro de 20261h11min
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a nossa conversa é dividida em 3 blocos: o que estamos lendo, vendo e ouvindo. tudo isso com um convidado ilustre. recebemos Carla Camurati, atriz, diretora e produtora. estreou com CARLOTA JOAQUINA, marco da Retomada do cinema brasileiro, e realizou também COPACABANA. é criadora do Festival Internacional de Cinema Infantil – FICI em 2003 e presidiu por oito anos a Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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extras: TUDO É RIO, de Carla Madeira; A GRANDE DESCOBERTA (série);

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roteiro: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@nastachadeavila⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ | edição: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@carolineholder⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠ e ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@niksilva⁠⁠ | intérprete e compositor da melodia tema: ⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠@eduardoarndt⁠⁠⁠⁠⁠⁠⁠

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Participantes neste episódio2
N

Nastacha de Avila

Host
C

Carla Camurati

ConvidadoAtriz, diretora e produtora
Assuntos10
  • A profundidade da escrita de Carla Madeira e suas abordagens sobre famíliadescrição de cenas e sentimentos·dramaturgia familiar sofrida·ansiedade da espera de um filho·ausência de maniqueísmo nos personagens
  • A complexa relação de Emmanuel Carrère com sua mãe e a escritaexposição de relações pessoais·mãe como figura intelectual gigante·conflito de ego com a mãe·liberdade através da morte da mãe
  • O filme 'Erupção' e a liberdade criativa em produções de baixo orçamentocasal inglês na Polônia·Charli XCX como atriz·filme curto e sem gastar muito dinheiro·Varsóvia como personagem
  • A investigação genealógica e a busca por identidade pessoalsegredo do avô georgiano·reaprendizado do russo·dossiê da família·série A Grande Descoberta
  • A minissérie 'Nova York Contra a Máfia' e a representação da máfiamáfia nos anos 70 e 80·operação gigantesca do FBI·personagens reais da máfia e do FBI·funcionamento interno das famílias
  • O audiolivro 'O Aniversário' e a experiência de ouvir livrosfilho que não vê os pais há 10 anos·narrador como analista·mãe como personagem central·precisão poética da narrativa
  • A série 'Brooklyn Coffee Shop' e a produção de conteúdo no Instagramcafeteria fictícia no Brooklyn·barista hipster entediada·sátira de personagens da internet·produção sem licença de estúdios
  • A importância da música clássica para a concentração na escritaProkofiev e Romeu e Julieta·música instrumental para trabalhar·calma e baixa energia·evitar músicas com letra
  • O álbum 'Brat' de Charli XCX e sua conexão com a realidademúsicas 'So I', 'Girl So Confusing', 'Sympathies Are'·artista com pé no chão·conectada com a realidade·opiniões no Letterboxd
  • A decepção com a adaptação de 'Odisseia' para o cinematransformação em estilo Marvel·perda de sutilezas e poesia·foco em efeito e barulho·linguagem de imagem e som repetitiva
Transcrição103 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
NDNastacha de Avila

Olá, este é o Salvei, o podcast de cultura da Salvo, com basicamente tudo pronto pra você salvar.

CCCarla Camurati

Ela tem uma temperatura muito interessante pra descrever as cenas, os sentimentos.

NDNastacha de Avila

É, e sempre os títulos são uma piada, tipo assim, ah, a ética protestante, o espírito do capitalismo. Deixa eu te contar uma coisa importante: o Salvei faz parte da Salvo, uma plataforma de descobertas que explora literatura, cinema, arte e mais. Por aqui, a gente transforma essas descobertas em vários formatos: podcast, newsletter, clube de leitura, cineclube, eventos e cursos. Pra que tudo isso continue existindo de forma independente, a gente conta com você.

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A Carla Camurati é atriz, como eu falei, ela é diretora, ela é produtora, ela tem atuação no cinema, no teatro, ópera e gestão cultural. Como diretora, ela estreou com Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, um filme que eu absolutamente amo. Eu amo a Marieta Severo. E também realizou Copacabana. Nos últimos anos, ela tem se dedicado a documentários como Oito Presidentes e um Juramento, que fala do processo de redemocratização do Brasil.

E o Raízes do Sagrado Feminino, que a gente já comentou aqui, via spot. Que investiga as 5 maiores religiões com escrituras e que determinam o papel das mulheres na sociedade. Mas não só isso! A Carla também criou o Festival Internacional de Cinema Infantil. Fiz em 2003. Ela presidiu por 8 anos a Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro e ela também participou da criação da Academia Brasileira de Cinema. Na ópera, ela assinou montagens como Tosca, Madame Butterfly e Carmen.

E a sua carreira reúne criação artística, produção, gestão cultural, com foco na cultura brasileira. Ou seja, super a ver com o Salvei. Seja bem-vinda, Carla!

CCCarla Camurati

Obrigada, gente!

?Voz C

Obrigada. Nossa, chiquérrima!

CCCarla Camurati

Aquela que é compulsiva, né? Você ia falando, eu falo: que vergonha, que compulsiva, né? As pessoas devem olhar e dizer assim: cara, essa mulher não teve vida, né? Por que que ela se mete em tudo? Na realidade, me meto porque gosto de aprender. Então não tenho medo de aprender, de sair do que eu já sei e mergulhar no que eu não sei. Então isso fez com que eu fizesse tantas coisas ao longo da minha vida tão diferentes, né? E sempre feliz de estar fazendo, porque me sentindo— aprender é muito bom, né, gente?

?Voz C

Que honra, que honra, que honra você tá aqui com a gente. Vamos aprender com você.

CCCarla Camurati

Maravilhoso.

?Voz C

Só um comentário.

NDNastacha de Avila

Pra quem quiser assistir o Raízes do Sagrado Feminino, ele tá no Aquarius, no streaming Aquarius. Confiram lá. Vou começar perguntando pra Carla. Carla, o que tu tá lendo?

CCCarla Camurati

Eu tô lendo... Eu ganhei, chegou no final da semana passada o último livro da Carla Madeira. E eu adoro a Carla. Eu acho a Carla uma escritora sofisticada, aguda. Ela tem uma temperatura muito interessante descrever as cenas, os sentimentos. Ela me leva fácil, sabe? Uma coisa assim, eu começo a ler, eu caio. Eu ia dizer, eu caio na conversa dela, eu caio dentro dos livros dela, né? Porque no fundo, quando a gente fala, por exemplo, eu me lembro, eu às vezes eu assisto filmes, eu tô, eu fico assistindo e eu tô chorando, eu tô totalmente emocionada, mas no fundo eu tô vendo o que que o cara tá fazendo.

Por isso que talvez eu tenha dito eu quero na conversa, porque ela me encanta profundamente. E falar de família para mim é muito legal, sempre foi. Eu tive uma família muito forte, então assuntos familiares. E é esse livro dela, eu acho que eu só li por enquanto 50 páginas porque ele acabou de chegar, e a minha vida nas últimas 48 horas foi intensa, tive muitas coisas ao mesmo tempo aguardo. Mas estou encantada com o livro. Mas é a história de uma mãe que é— eu ainda tô no princípio da história— que aguarda ansiosamente a chegada do filho que ela não vê há muitos anos.

E ela— e na realidade são essa dramaturgia sofrida familiar que mistura muito amor muito sofrimento, muita crítica, muito carinho, né? São sentimentos tão intensos e tão contraditórios, né? São humanidades tão profundas que a gente tem na relação com a família, né? Então, para mim, tá sendo muito interessante, porque, como eu tava dizendo, a minha estrutura familiar eram 3 irmãs, minha avó e meu avô. E isso, e as irmãs todas casaram e todas tiveram filhos, cada uma com um marido de uma origem, um japonês, um francês, um italiano.

Então a minha estrutura familiar é muito intensa e de culturas diferentes. Então eu caio nessas histórias, né, na ansiedade de você aguardar um filho que não chega, né. Eu, de forma diferente, tenho esse sentimento, né, a expectativa. Quando você tem um filho adolescente, você vive, é totalmente diferente, porque eu acho que o livro vai se encaminhar para uma tragédia onde o personagem central vai passar por coisas muito difíceis.

Mas eu procuro não ficar lendo tudo que vai acontecer, eu procuro ficar navegando, imaginando e não prevendo, entendeu?

?Voz C

É, eu acho que esse livro, o motivo dela tá esperando e o motivo de ter feito ela estar tanto tempo longe do filho é muito impactante, né? Porque esse, porque esse gap de 20 anos, né? Porque eles estão há 20 anos sem se ver. Por que que ela tá ali ansiosa por essa espera, né? Será que tem um acerto de contas? O que será que aconteceu? O que será que fez com que mãe e filho ficassem 20 anos sem se ver, né? Eu acho que também é uma surpresa aí que eu não vou falar nada aqui para não dar nenhum spoiler, mas por quê?

E eu acho que a Carla Madeira, como você falou muito bem, ela trata muito da humanidade, né? Não tem maniqueísmo, ninguém é só bom nem mal, né? Então ela vai mergulhando nesses valores humanos.

CCCarla Camurati

Nesse tecido, né? Porque a humanidade é um tecido, né? Com gramaturas diferentes, né? Mais sedoso, mais áspero.

?Voz C

Primeiro, assim, achei essa capa linda, achei que a Record arrasou. Nessa capa. Que linda essa mistura de estampas, ficou tão bonita, muito linda essa capa. E ontem eu vi essa capa gigante porque a Carla Madeira, para nossa surpresa e alegria, ela foi convidada no quadro Extraordinários, que é um quadro do Jornal das 10 da GloboNews, que eu trabalho. E a Aline Midler entrevistou ela ao vivo ali no estúdio do nosso lado. E foi uma entrevista assim muito profunda, apesar de ser num jornal, ou seja, com tempo muito limitado, foram 15 minutos ali ao vivo.

Mas quando acabou a entrevista, ela conversou muito com a gente no pós-entrevista, que foi fantástico assim. E porque não deu tempo explorar tudo que a Aline queria na entrevista, mas é assim, na estética, né, que televisão é estética, né? Você, Carla, mais do que ninguém sabe disso, né? O audiovisual, você olha e aí tem um telão gigante agora na GloboNews. E o livro, a gente colocou o livro, né, a gente que eu falo a equipe, mas foi Clarissa, editora desse quadro, que colocou o livro gigante assim no telão.

E eu fiquei apaixonada, fiquei maravilhada por aquela capa enquanto ela ia falando sobre o livro, sobre esse tecido humano que você bem colocou. E a gente falou muito sobre a questão da violência, da tragédia e do perdão, que é uma questão que permeia muitos livros dela. E ela falou que perdão, fugindo da questão do perdão no sentido religioso, indo mais perdão no sentido filosófico que ela estuda muito, que que é muito interessada no perdão.

E isso, e o perdão tá em vários livros dela, né, principalmente Tudo é Rio, que até polêmico, né, que até é muito polêmica essa questão do perdão ali naquela situação. E ela falou que perdão, que perdoar é cessar a dor, é acabar a dor. Não tem a ver com o outro, não tem a ver com você minimizar o que o outro fez, né, não tem a ver com isso. Tem a ver com cessar a sua dor. Aquilo ali né, parar de doer, a dor deixar de ser latente.

Então ela falou muito sobre essa filosofia do que é você perdoar e que não é uma decisão, né? Não é, ah, vou perdoar. Não é assim, é um processo e que quando chega, chega. E é um alcance filosófico da coisa. Eu achei muito interessante ela falar isso falando de Tudo é Rio, principalmente. Não, a gente ficou assim, tipo, o jornal acaba meia-noite, a gente ficou meia-noite e 10, meia-noite e 15, meia-noite e 20 lá escutando ela.

CCCarla Camurati

Aí eu fui catar na Globoplay para assistir.

?Voz C

Ah, eu mando para você o link, porque mando, mando, porque é muito boa a entrevista. E ela fala muito então desse processo. E na personagem de Tudo É Rio, por exemplo, ela disse que aquela mulher permaneceu ali porque quando você tem ódio, né, quando você tá cheia de ódio, você quer mostrar para o outro que você está com ódio, e você quer mostrar dia após dia: olha só o que você fez, veja a imensidão o quão perverso, cruel foi o que você fez.

Então ela permanece ali para mostrar, porque embora o ódio não deixa você ir embora, não deixa, não deixa. Então é ali você querer mostrar, quase esfregar na cara do outro. Olha o que você fez, é esfregar. Então ela foi colocando assim, eu sofri. Então exatamente, olha o que eu sofri, e olha o que eu sofri por causa de você, olha o que você provocou. Então é uma necessidade humana de falar, olha, não é simplesmente falar, olha, você fez um absurdo, eu vou embora.

Porque aí o outro, você sai do campo de visão do outro e pode ficar mais fácil você. Exato, é ótimo, é ótimo para quem, para quem praticou aquela, aquela violência absurda. Então não, você vai ficar aqui, eu vou lhe lembrar todos os dias o que você fez. Assim como eu lembro, você vai lembrar também. Então ela foi colocando assim outras camadas nesse, nesse tecido. E eu acho que saindo um pouco do estigma do que a gente tem sobre perdão, porque talvez seja uma coisa que a gente ligue muito ao campo religioso, né, a perdoar como uma coisa mais, é uma coisa quase uma coisa divina, né.

E ela leva mais para questão humana assim. E sobre, sobre quando ela, ela só uma curiosidade que ela falou do Tudahiro, que quando ela escreveu aquela cena brutal, ela passou 14 anos parada, não escreveu mais. Ela escreveu a cena e parou, passou 14 anos com o livro parado. Aí depois de 14 anos ela retomou e aí finalizou o livro em 9 meses, que foi todo esse sucesso. Ela falou um pouco também sobre aquele livro dela, que é uma mãe que deixa o filho, né, que quer dar um susto no filho e acaba perdendo o filho.

E aí ela fala muito que não tem a ver com a criança, né, tem a ver com todos os demônios daquela pessoa, daquele ser humano, né, e que naquele momento ela tomou aquela atitude. E em relação a quando é sobre essas relações, é como você falou, sobre esses tecidos. Então eu fiquei muito curiosa.

CCCarla Camurati

É muito interessante, é muito interessante. Eu tô totalmente, por isso que eu falei, eu tô adorando, não, estou devorando. Eu comecei e aí eu levo, porque qualquer tempinho, às vezes eu tenho uns buracos, entendeu? Eu falo, deixa eu só ler, terminar aqui aquela página que eu tive que fechar no meio. Mas muito legal, muito, muito legal.

?Voz C

Eu comecei a ler no Kindle e tô esperando ansiosamente o físico para continuar. E vocês sabem que a Carla Madeira é uma das autoras mais lidas naquele projeto nas prisões, nos presídios, né, que você vai lendo para diminuir a pena. Ela é uma das mais lidas assim, campeã. E ela foi convidada pelos presídios, ela aqui no Rio de Janeiro, ela foi a dois presídios, um feminino e um masculino. Ela não sabe os crimes que as pessoas cometeram e ela vai lá para uma roda de conversa porque convidaram e ela se prodificou aí, já que ela era todo mundo, os livros dela eram muito lidos, eles escolhiam muito os livros dela.

E ela chegou para um dos presos e perguntou, tá, você gostou muito do meu livro, adorou, mas o que que ele mudou na sua vida? E o presidiário falou para ela, eu parei de sentir ódio depois de ler você. Então assim, é isso, porque eu acho que ela, eu acho que o livro dela, dessas violências todas, é meio por que que aquele ser humano diante daquela atitude, ele tem aquela explosão, né? Por que que ele comete aquelas violências?

Por que que essa mãe, no meio dessa confusão e desse desespero, ela abre a porta do carro e deixa o filho descer, né? Ou a mãe agora do Quando, que faz o que faz, né? Que você vai descobrir logo porque desse gap de 20 anos. Então, por quê, né? E que ódio é esse, né? Que, que permeia, né? Que que faz o ser humano colocar para fora aquele sentimento assim?

NDNastacha de Avila

Não, eu ia falar que eu acho que tem muitas conexões com— acho que sem querer a gente fez um episódio de novo que se conversa.

?Voz C

Ah, sim.

NDNastacha de Avila

Porque o livro que eu vou falar tem a história de um filho que não fala com os pais, cortou relações com os pais há 10 anos. E vou falar sobre isso. E tu vai falar agora sobre, na matéria do Lendo, também tem alguma coisa a ver com mãe, não? O que que tu tá lendo, Carol?

?Voz C

Sim, é isso mesmo, a gente tá conectado. Vocês vão ver que tá tudo conectado. Eu tô lendo uma matéria na Quatro Cinco Um agora de agosto, do mês de agosto, que é quando a gente tá gravando, que eu gostei demais. Primeira coisa que me chamou atenção quando eu vi, eu abri a Quatro Cinco Um, foi esse título: Tudo sobre minha mãe. Que é um filme incrível da Moldova que eu adoro. A capa é maravilhosa, né, que é um desenho assim, né, é linda aquela capa, é o pôster, né, o pôster do filme, né, o cartaz é lindo, né, a capa assim.

E é um filme que eu vi há muito tempo e nunca esqueci desse título, eu adoro. E aí me chamou atenção só que era sobre o Carrère, que é esse escritor francês que a mim, olha só, me provoca assim Tem tudo, muitas sensações.

NDNastacha de Avila

Agora já sei o que tu vai falar, já sei, dele, não é?

?Voz C

É do Coscóis. Exatamente, exatamente. E aí a mim ele me provoca assim muitas sensações diferentes, o Carré, sabe? Assim, a escrita dele, ele, as coisas que ele coloca na página. Assim, eu acho que ele expõe demais, eu acho que é muito sobre ele, porém é sobre ele mais explanando as outras pessoas. Eu tenho ali, ele me provoca umas sensações diferentes. E a matéria vai exatamente dissecar um pouquinho, né, tudo sobre minha mãe, porque a mãe dele era uma gigante.

É uma mulher assim escritora, é, sabe, assim, recebeu várias honrarias nas universidades, uma mulher super intelectual, mulher que produzia muito, publicava muitos livros na França. Assim, ela acordava todos os dias cedo e passava 3 horas escrevendo, publicou muita coisa. Então é assim, imagina se tem uma mãe desse tamanho, né? Como deve ser ter uma mãe gigante, tão talentosa? E ele, né, não por acaso virou escritor também. Mas deve ter aí algum conflito dele, que tem um ego enorme, de ter que lidar com essa mãe gigante, né?

Como é que ele conviveu com isso? Então o novo livro dele, o Kolskoi, que Kolskoi significa fazenda comunitária soviética, né, esse é o sentido da palavra, mas que na família dele significa uma brincadeira, que quando o pai dele viajava a trabalho, a mãe puxava dois colchões. Eu consigo imaginar essa cena assim, puxando dois colchões e levando dois colchões para o quarto para ele e os irmãos dormirem todos juntos nesse couscous, né, nessa fazenda comunitária, que esse quarto comunitário.

Então esse é o título do livro e a matéria fala sobre essa relação que ele tinha com a mãe dele. E uma coisa que me deixou muito impactada foi porque ele escreveu, ele, porque é isso, ele explana as relações, explanou com a ex-mulher no yoga, ele falou sobre o avô dele que teve relação com os nazistas e foi uma coisa que a mãe dele nunca quis tocar nesse assunto. E ele fala que sabia que isso poderia acabar com a relação dele com a mãe, mesmo assim ele foi lá e escreveu.

É como se a força da escrita fosse maior do que qualquer coisa, né? Só que aí eu acho uma coisa sufocante, né? Tipo, a qualquer coisa, né?

CCCarla Camurati

É, não, e também tem essa, porque tem, eu acho que nunca deixa de ter a relação homem e mulher, não na sexualidade, mas na relação de poder entre a mãe e um filho, aonde socialmente, né, a mulher ocupa um lugar dentro da sociedade e o homem outro. E isso, independente de como sejam as relações, acaba acontecendo. Claro, dentro de um grau ou outro, mas um adolescente pode responder para você de uma maneira altamente violenta.

?Voz C

Sim, é isso, altamente.

CCCarla Camurati

Não que o Antônio seja assim, mas eu já assisti cenas e já vivi cenas, né? Porque imagina, hoje ele até já não é mais um adolescente, já tem 23 anos, graças a Deus passou. Mas adolescência É uma loucura, é dureza. E o engraçado é que a violência, quem sente a violência é quem sofre, né? Quem pratica violência acha apenas que tava expressando o seu sentimento, não consegue enxergar a violência dentro dele. Eu tô nervosa e aí eu falei, a pessoa estoura, né?

Ela, e para ela, ela pode estar sendo altamente violenta, mas ela só tá liberando alguma coisa que é um sentimento dela. Por isso que é, né, por isso a gente vive esse conflito hoje, né, liberdade de expressão. As pessoas estão matando em nome da liberdade de expressão, é isso, entendeu? Tem limite mesmo, mas a violência só sente quem sofre.

?Voz C

Aí tem umas aspas que o Carrère fala nessa matéria, que ele fala assim: minha mãe realmente acreditou que minha feroz exigência de contar a verdade destruiria tudo o que ela tinha construído. E mesmo assim ele, ele o fez, né? E outras aspas que eu, que me chamaram atenção, é o Carreira fala o seguinte: estou procurando uma porta por onde entrar. É sempre isso que procuro, uma porta por onde entrar. Ainda não sei que essa porta será em breve a morte da minha mãe.

Gente, eu fiquei assim paralisada nisso. Ele só, ele só vai ter a liberdade quando a mãe dele morrer? Tipo assim, Só quando ela sair de cena que ele vai estar livre. Assim, olha, eu fiquei com muita vontade de ler o livro a partir dessa matéria. E eu comecei a olhar o Carré de outro jeito, porque isso é esse cara que mistura a vida doméstica com a vida histórica, né? Ele tá sempre situando aquilo em algum momento da história, né?

Do, teve a questão do Charlie Hebdo, Sempre, sempre tem ali um pano de fundo, né, histórico, né. Eu acho que ele quer dar veracidade, né, aquilo. Então ele coloca fatos que aconteceram, que o mundo inteiro sabe, que o mundo inteiro viveu e sofreu e acompanhou. E aí no meio ele vai lá e coloca a vida dele doméstica, né. Ele vai lá e coloca o que aconteceu.

CCCarla Camurati

É porque ele se apropria do fato comum e introduz o particular, né.

?Voz C

E é uma fórmula, e a matéria tem essa opinião, que é uma fórmula que ele repete em todos os livros. E o que leva a matéria a ser escrita é investigar por quê. E aí ele termina esse arco com a questão da relação dele com a mãe. Então eu achei assim a matéria super interessante. Acho que para quem leu, para quem quer ler, para quem tem esse sentimento dúbio com ele, como eu tenho, não posso falar assim, jamais posso falar que ele não é um bom escritor, mas eu tenho ali minhas ressalvas com ele.

Então ler essa matéria foi bom para dar um entender, encaixar um pouquinho essa obra dele. E você, Naná, o que que você tá lendo?

NDNastacha de Avila

A gente não combinou, mas o livro que eu estou lendo, aliás, eu acabei de ler, acabei de ler hoje, é um romance russo do Emmanuel Carrère, que justamente ele fala sobre a história do avô dele, aquela que a mãe dele não queria que ele contasse de jeito nenhum. Mais um da Alfaguara, né? Todos os livros dele são editados pela Alfaguara no Brasil, que é do grupo Companhia das Letras. Tem tradução do André Telles. E esse livro, ele tá no— ele é um dos livros do ano, né, do clube de leitura da Salvo.

E aí eu comecei a ler por causa disso, enfim. Mas eu fiquei completamente— explodiu a minha cabeça em mil aspectos. Eu vou tentar trazer tudo que o livro me causou, porque é muita coisa. Vamos lá. O livro foi publicado em 2007, e como vocês já falaram, Enfim, Carol falou muito, ele mistura um relato autobiográfico com jornalismo, confissão íntima, enfim, mil coisas. E aí ele narra 2 anos da própria vida dele, de 2000 a 2002, e tem 3 histórias se entrelaçando que parecem que não têm absolutamente nada a ver uma coisa com a outra, mas elas têm muito a ver uma coisa com a outra.

No início do livro, ele é chamado para cobrir uma história muito maluca, que só isso já me deixou tipo um pouco obcecada, eu fui procurar. Na internet, porque eu pensei assim, não, não é possível que isso tenha acontecido. O húngaro de Kotelnich. O carreiro vai para a Rússia porque um homem em determinado momento foi preso depois da Segunda Guerra, enfim, da Segunda Guerra, e aí ele foi parar por X motivos numa cidade do interior da Rússia que vem a ser Kotelnich, uma daquelas cidadezinhas que passa o Transiberiano, então assim, um buraco perdido no tempo, no espaço.

E essa pessoa ficou mais de 50 anos dentro de uma instituição psiquiátrica, lá dentro, tipo assim, preso, sei lá, né, até alguém um dia concatenar e ele ser repatriado, sem nem saber exatamente qual era o nome dele correto, enfim. E aí falaram, Carrer, como tu gosta de temas muito obscuros, coisas muito bizarras, a gente quer que tu faça uma matéria sobre isso, enfim. E aí ele vai para Rússia para pegar informações sobre então o András Toma, era o nome desse presidiário, que era um soldado húngaro que foi capturado pelo Exército Vermelho em 1944.

E aí ele foi esquecido nessa instituição psiquiátrica, basicamente porque em algum momento, quando ele foi transferido para lá, ele tava sem nenhum arquivo, sem nenhum documento, ele não falava russo. Então, bem que assim, tá, Então tá, então ninguém, nenhum russo fazia esforço para entender húngaro. E aí ele foi ficando lá, nem o nome direito sabiam dessa pessoa. E aí o Carrero vai com uma equipe, vai com um, ele vai com um intérprete, né, que fala russo e fala francês.

Ele vai com uma pessoa para gravar, outro de áudio, enfim. E aí ele chega lá, ele começa a fazer entrevistas. Ah, eu quero ver o prontuário desse desse prisioneiro, né, porque ele era um paciente também. E aí ele vai perguntando e vai fazendo entrevistas com pessoas de lá que evidentemente são russas e falam russo, né. E aí ele nas entrevistas começa a falar assim, dai, dai, dai, iapanimayo, quer dizer, sim, sim, eu entendo. E aí o intérprete dele fica puto, o Sasha, fala assim, meu amigo, se tu vai ficar falando que tu entende tudo, tu não precisa de mim.

Aí ele fala, não, deixa eu me explicar. Aí vem a segunda história. Na verdade, eu falava russo até os 6 anos. A minha mãe é russa. Na verdade, a minha mãe, ela é georgiana, né? E fazia parte do território, enfim, na época.

?Voz C

Meu avô é russo. Aí o coscóis, né? Isso, exatamente.

NDNastacha de Avila

É isso aí. E aí eu falava russo, então eu entendo algumas coisas. Inclusive, eu tenho um sotaque muito bom quando eu vou pronunciar uma palavra. Se a pessoa não sabe, Ela ouve, acha que eu sou local, até tipo assim eu caí por terra, porque não fala russo de verdade, entendeu? Mas algumas coisas ele consegue entender. E aí ele vai para a segunda história, que é esse segredo do avô georgiano, que é o George Zourabchvili, que enfim foi migrado para França.

Um cara que, sei lá, ele teve acesso a vários— isso é muito interessante. Ele teve acesso a muitas cartas que ele trocava, porque o tio dele guardou um monte de informação e deu para ele. Então ele pôde meio que estudar como é que era a personalidade desse avô. E em determinado momento ele foi levado, em 1944 também, tal qual o húngaro, ele foi levado por homens armados, ele nunca mais foi visto, provavelmente ele foi assassinado, tá?

E a mãe dele aparece muito no livro, as conversas que ele tem e a investigação que ele começa a fazer e a negativa dela, né? Porque enfim, a mãe dele é uma pessoa muito, como a Carol falou, uma pessoa muito famosa na França, foi uma pessoa muito famosa, né? Porque ela acabou de falecer, faleceu em 2023. Ela é uma renomada historiadora, ela é política, foi uma super especialista em Rússia, né? E enfim, ela era uma intelectual muito importante, né?

E ela falava várias vezes para ele assim, por favor, não escreva sobre meu pai, não escreva sobre meu pai. Enfim, ele escreveu. E aí, bom, ele fala sobre a questão do avô dele. E aí tem uma outra coisa que eu achei maravilhosa, que essa busca pelo húngaro que levou ele para Rússia e levou ele a pesquisar sobre o avô faz com que ele também entre numa pira de querer reaprender russo. Então ele visita várias vezes a Rússia depois desse episódio da primeira reportagem, né, vai a Kotelnich de novo.

Porque ele quer reaprender russo, enfim, ficar testando, parará. No final das contas, eu ainda não assisti, mas ele acaba gravando um documentário nessa cidade em que nada acontece, que ele achou que nada ia acontecer, até que uma coisa acontece, uma coisa trágica e chocante, e que tá no livro, enfim. E aí a última história, aí ele traz também relatos da vida privada dele, e que também tem o que a Carol falou de assim, a gente, a pessoa, o leitor tem uma relação de amor e ódio com ele, fica muito interessado porque ele fala, muito intrigado, ao mesmo tempo tem coisas que são desnecessárias.

Ele traz o relacionamento dele com a Sophie, que era namorada dele na época, e ele escreve uma novela erótica para o Le Monde, que ele foi contratado, e essa novela tinha algumas instruções muito precisas assim do que que ela tinha que fazer para ler e tal, Era uma carta como se fosse para ela, só que foi publicada para milhares de leitores na época, né? E ela não lê essa carta porque tá acontecendo um mal, enfim, problema na vida dela.

Tudo que ele planeja não funciona. E aí acontece, o relacionamento desanda de uma forma completamente catastrófica. Então tudo isso acontece no livro. Mas enquanto eu estava lendo a questão da família dele, eu falei, gente, isso é um sinal, é a décima vez que eu penso nisso. Eu preciso pesquisar. Aí eu entrei no Google e pesquisei assim: qual profissional faz pesquisa de árvore genealógica de família? Porque eu acho esse tema muito interessante, me intriga muito.

E aí apareceu lá genealogista. Aí eu falei: vou botar genealogista Porto Alegre, porque Porto Alegre foi onde eu nasci, muito mais fácil de achar os documentos no Rio Grande do Sul, né? E aí eu achei uma empresa que faz e cotei um trabalho de genealogia Fiquei assim muito interessada sobre isso. E aí estou nesse momento fazendo toda uma busca da árvore genealógica. Mas não só isso, eu vou receber meio que um dossiê da minha família.

Estou interessadíssima. Demora 25 dias, estou muito angustiada. Meu pai, minha mãe também estão, porque eu tive que perguntar os nomes tipo completos dos avós e não sei o quê para passar o máximo de informações possíveis. E eles estão naquela angústia de também saberem sobre as suas histórias pregressas. Então, e o meu pai falou assim, cara, tu precisa assistir a uma série que é bobinha, enfim, não é, ah, meu Deus, a grande série, mas que tem uma coisa muito interessante, que é a série A Grande Descoberta, da Netflix, sobre um duplo assassinato sueco que foi resolvido depois de 16 anos por conta da genealogia.

E aí eu assisti uma série bem curtinha assim, tem 4 capítulos. E aí tem uma frase que me chamou atenção, que eu acho que tem tudo a ver com o livro, a história e milhões de outras coisas, que é: da onde vem seu interesse pela genealogia genética? O personagem pergunta para o genealogista. Aí ele responde: ao saber quem são seus ancestrais, você sabe quem você é. Está tudo conectado, todas as pessoas, às vezes mais, às vezes menos, mas está tudo conectado, gostemos ou não. Então é isso, gente.

?Voz C

Uau, eu adorei! E eu acho muito isso. Eu tenho 3 filhos, né? E eu vejo muito assim do meu pai, que já morreu, eu vejo muito dele nas crianças assim. Então essa herança genética, né?

CCCarla Camurati

Quando a gente vê as coisas boas, é ótimo.

?Voz C

Eu não vejo só coisa boa não, hein?

CCCarla Camurati

Mas quando a gente vê os defeitos, como eles atravessam as gerações, é uma coisa incrível.

?Voz C

Inacreditável. Muito interessante, gostei.

CCCarla Camurati

É muito interessante e apavorante também, né? Porque você se vê reproduzindo coisas que a origem não é sua, né? Embora elas já sejam suas.

?Voz C

É, mas é do que você fez, né?

CCCarla Camurati

Vem na sua bagagem. Então tem uma coisa que é isso que é interessante, né? Porque tem coisas que a gente absorve, que a gente se apropria, talvez no código genético, né? Isso daqui eu quero, isso daqui eu quero. E tem coisas que vão embora, né? Ficam aonde elas têm que ficar.

?Voz C

Mas é para a gente entender um pouquinho do que a gente é feito, né? Dessa máquina.

CCCarla Camurati

A gente não precisa se grudar nessa corrente, embora ela seja clara e a gente consiga ver, porque muitas coisas não são as mesmas e você não tem a mesma necessidade. É, mas é um pouco apavorante às vezes, eu acho.

?Voz 1

Hoje eu vim te indicar um livro que atravessou a Itália no boca a boca antes de chegar aqui. Em Como Laranja Amarga, estamos na Sicília em 1960. Carlota, uma jurista que dirige o arquivo notarial, encontra por acaso um documento sobre a própria mãe e sobre ela. O que esse papel revela desmonta tudo o que ela sabia sobre a própria história. Para entender aquele documento, o romance volta a 1924 e acompanha 3 mulheres de mundos que não deveriam se cruzar: uma baronesa, uma agiota de povoado e uma menina de 16 anos que trabalha numa fazenda.

O que acontece entre elas atravessa 40 anos de fascismo, guerra e silêncio. A estreia de Milena Palminteri virou fenômeno na Itália e venceu o Prêmio Cancarella de 2025. Agora chegou ao Brasil pela Record com tradução de Ivone Benedetti. Como Laranja Amarga já está nas livrarias.

NDNastacha de Avila

Vamos para o próximo bloco. O que estamos assistindo? Vou começar pela Carla. Carla, o que que tu tá vendo?

CCCarla Camurati

A máfia contra Nova York, Fear City.

NDNastacha de Avila

Acabei de ver, né?

CCCarla Camurati

Tô assistindo, são 3 capítulos que eu assisti de uma vez só, mas foi a última série que eu assisti que eu gostei muito de assistir, que eu não me deu que não me deu tédio, nem que me— eu fiquei curiosa o tempo inteiro. Acho que o cara conseguiu fazer, esse diretor, ele conseguiu fazer uma coisa muito interessante, que é você pegar, né, porque Nova York nos anos 70, 80, a máfia mandava em Nova York, e é o auge de Nova York, era quando todo mundo queria ir para Nova York.

Nova York era tudo, acontecia lá. No entanto, a máfia Tinham 5 famílias que tomavam conta de tudo, da gasolina ao que você possa imaginar. E a polícia, o FBI, ninguém conseguia. E aí consegue-se, depois de uma operação gigantesca na qual tudo foi filmado. Olha que loucura, foi tudo filmado. E esse cara, esse diretor, ele conseguiu uma proeza que foi pegar os personagens reais, tanto da máfia quanto do FBI, e botar eles hoje, na época do filme, falando sobre o que aconteceu.

Então, o que você tem ali de ida e vinda e de pontos de vista e de situações? Porque, sei lá, como é que eles começaram a realmente encostar, a entrar dentro da casa dos caras? Como é que foi esse processo? Processo de escuta, botar dentro da TV, tudo filmado na época. Então você tem uma quantidade de imagens tão interessante e ao mesmo tempo você tem uma coisa que sempre foi muito blindada, até deu origem a grandes filmes, O Poderoso Chefão 1, 2 e 3.

Mas isso é o que você vê ali nesse filme, é o real, né? Como as pessoas foram assassinadas, como as pessoas— e o normal, ele não gosta desse tipo de coisa, mas o cara conseguiu fazer uma química tão interessante, sabe, de imagens e de idas e vindas no tempo, sabe, onde você tá ali vivendo, como é que eles conseguiram entrar por dentro do coração daquelas famílias, né, e como é que internamente aquelas famílias funcionam. De novo, nós voltamos para as famílias, né, que engraçado.

Agora eu tava falando, foi que eu percebi. Voltando, eu choro a família. Como é que elas funcionavam? Onde é que estavam os escapes? Então é bem interessante, vale a pena ver rapidamente. E é isso, eu acho que o nome do diretor é difícil, é Sam Hobbitson.

NDNastacha de Avila

Tá disponível no Netflix, certo? Nova York Contra a Máfia.

CCCarla Camurati

Exatamente.

NDNastacha de Avila

E tu, Carol, o que que tu tá vendo?

?Voz C

Ai, minha gente, primeiro assim, a Salvo tá chiquérrima, né? Está com um cupom incrível. Qualquer ouvinte aqui do Salvei, qualquer pessoa que curta Salvo pode ter 30 dias de graça na MUBI.

NDNastacha de Avila

Ah, tá assim, temos a nossa landing page. Isso, a MUBI, enfim, a gente tem uma parceria tem como experimentar 30 dias grátis. Tu sabe qual é a URL? Fala aí, Carol.

?Voz C

Ah, sim, mubi.com/pt/salvconteúdo. Então assim, aproveitem essa parceria com 30 dias grátis para aproveitar o melhor do cinema. E assim, o primeiro filme que vocês vão ver, se quiserem seguir a minha indicação, é Erupção.

CCCarla Camurati

Que filme!

?Voz C

Ah, eu assisti, é muito lindo. Você assistiu também, cara? Essa semana, puta merda, esse filme, gente, eu tava ansiosa.

CCCarla Camurati

Vou até anotar isso.

?Voz C

Anota, significa erupção em polonês. Eu tava louca para ver, tava ansiosa que entrasse no catálogo da MUBI.

NDNastacha de Avila

Entrou, uhul!

?Voz C

E assim que entrou, eu fui ver uma horinha, uma horinha e pouco de filme. E eu, caraca, como é que pode o Pete Oz conseguir em uma hora e pouco, uma hora e 15, sei lá, uma hora e 17, fazer tanta coisa, falar de tanta coisa ao mesmo tempo? Que cara bom, que filme bom! O que que acontece? Um casal inglês vai para Polônia, para Varsóvia, para passar um fim de semana romântico e A Bethany, Bethany tá sabendo que vai rolar alguma coisa ali, né?

Tipo assim, tá vendo que acha que talvez o namorado esteja ali querendo pedir a mão dela em casamento e tal. E essa moça ela vai querendo fugir desse roteiro, desse roteiro romântico, ela vai querendo fugir dessa situação. E ela vai para uma cidade que ela já foi várias outras vezes, que ela gosta muito e que acho que lá ela consegue viver a liberdade dela assim num grau assim máximo. E quem faz Bethany é nada mais nada menos que Charli XCX, que é uma moça assim ultra talentosa.

Primeiro, adorei ela no filme. É uma cantora pop assim que bomba muitíssimo. Durante a gravação desse filme, ela tava gravando um álbum dela que tipo assim que foi um divisor de águas na carreira, que todo que a galera foi ao delírio. Chama Brett, que é um verde-limão assim, que na época que foi lançado todo mundo Era só o que tinha nas redes sociais, enfim. Ela embarcou nesse filme, foram só 2 semanas, porque o Petiós queria um filme possível, tanto financeiramente, ele não queria aquelas coisas de Hollywood que gastam-se muito dinheiro, porque ele falou assim, cara, quando você gasta muito dinheiro, você passa muito tempo gravando, você tem uma pressão enorme, né?

Você tem uma pressão da indústria, né? Você tem que vender, tem que dar certo, todo mundo tá envolvido ali, fica naquela pressão. E ele não queria isso. Então foram só 2 semanas, que era o tempo que ele acha que conseguiria reunir essa galera, principalmente a Charli, que é uma estrela pop assim, que tem uma agenda super concorrida. Então ela parar por 2 semanas, ela parou mais ou menos, né, porque ela gravava e ainda tava ali envolvida no álbum que ela também tava produzindo na época.

Então foram 2 semanas, ele queria um filme curto sem gastar muito dinheiro para poder ficar mais livre, e foi o que ele fez. É um filme muito livre assim. Você, Carla, que é dessa praia, você vai amar, porque um roteiro muito interessante. Assim, eu amei que tem um narrador, sabe? Assim, então é muito curioso. Eu me senti num filme de Woody Allen, mas ao mesmo tempo passando na Polônia e com esses jovens assim com essa latência por viver.

E a Bethany principalmente, que é uma menina que ela tá— é isso, é como se fosse realmente um vulcão em erupção, porque o vulcão tá ali, você acha que tá acontecendo nada com ele, que ele tá ali paradinho, ali naquela paisagem, mas por dentro tá acontecendo coisa, tá acontecendo coisa. Tem horas que ele, né, tem horas que entram, que ele entra em erupção. E esse, desse caso específico, o casal ele tem que passar mais dias na Polônia, mais dias em Varsóvia, porque esse vulcão, o Etna, entrou em erupção.

E foi muito bom porque uma amiga minha já morou na Itália e a casa dela era de frente para o Etna, assim, não muito perto, né, mas lá longe ela conseguia ver. Então também lembrei de Ana Luísa, essa minha amiga que falava, nossa, eu fico de frente para um vulcão, o vulcão Etna. E esse vulcão tem que estar no nome, né? Erupção, erupção, que tá no título, tem a ver ali com que, com que a Bethany sente quando tá em contato com uma amiga, Nil, que é polonesa.

Então elas se conheceram há muito tempo, e quando elas estão juntas, elas têm uma química muito grande, elas têm uma conexão muito grande. Então é isso. E sempre que elas se encontram, um vulcão entra em erupção. Então tem toda, tem toda essa, essa magia por trás, assim.

?Voz 1

Embora eu esteja falando de muita coisa, coisa.

?Voz C

Vocês, quando estiverem assistindo, não tô falando de nada, porque o legal desse filme é a conversa, é o olhar, é como aquilo tá acontecendo. Eu acho que é um filme que é o puro suco do audiovisual, assim. Eu acho que todos aqueles elementos ali conseguem contar essa história. Tipo, essa sinopse que eu tô dando aqui, tipo, e nada, sabe? Tipo, é isso. E o legal é que ele é um filme que ele é ele é escrito junto. O Pete Hobbs, que é esse diretor americano, ele vai produzindo junto com a galera que tá trabalhando com ele.

Então por isso que ele quis fazer uma equipe assim enxuta e uma equipe que ele pensou muito na hora de convidar. Ele, o Jeremy O. Harris, que é aquele, ele é roteirista, ele também atuou, ele fez Emily in Paris, Ele fazia um estilista que era meio excêntrico assim na série. Então quando eu bati o olho, quando eu bati o olho, eu falei, cara, conheço ele de algum lugar.

NDNastacha de Avila

Gente, eu não reconheci, é isso?

?Voz C

Pois é, ele tá muito diferente.

NDNastacha de Avila

Ah tá, super sei quem ele é.

?Voz C

É, ele tá muito diferente e ele é ator, né? Mas ele também é roteirista, também escreve muito. Ele escreveu uma peça que bombou muito assim, que chama Slave Play, que é muito polêmica. Polêmica, assim, muito, muito polêmica. Já foi na Broadway, já rodou o mundo, mas recebeu assim críticas controversas assim. Mas ele é um cara, ele é um cara interessantíssimo, então vale a pena dar uma lida sobre ele, né, sobre o que ele produz.

Então assim, eu achei que foi isso, eu acho que foi essa química. E o Pete Oz juntou uma galera muito boa. Então além do roteiro ser massa, e outra coisa, ver Varsóvia de um jeito que não tá no nosso imaginário, que era uma cidade jovem, urbana, sabe, onde tudo acontece. Então foi muito bom esse jeito que o Pete Holmes deu, essa cara que ele deu para cidade, e essa cidade como um personagem assim, porque ela tem tudo a ver com aquela, com a química que acontece ali entre os personagens.

E aí eu tava lendo sobre, sobre o Pete Holmes e ele falou assim, cara, o objetivo desse filme para mim não é prender as pessoas no cinema por 3 horas, histórias. O objetivo para mim é dar inspiração, é dar cor, é fazer com que as pessoas olhem para o mundo, se juntem, conversem e jantem juntas, e depois fiquem falando assim, cara, será que eu sou mais o Rob ou a Bethany ou a Nil? Quem que eu sou, né? Eu me identifico mais com qual personagem dessa história?

Então eu achei, gostei, né? Porque é uma coisa, é uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida, né? Tipo assistir alguma coisa, ler alguma coisa, e depois tá aqui batendo papo. Sabendo o que que as pessoas acharem. Então essa era a intenção dele, assim. E eu gostei porque ele meio que, ele fala sobre essa questão de ser tão curto, né?

NDNastacha de Avila

Tava fazendo uma pesquisa aqui porque esse filme eu assisti ele essa semana também e também me impressionou como eu fiquei, eu assisti o filme e pensava, nossa, caramba, como é que pode, né, fazer um filme que me prenda para assistir, achar umas coisas engraçadas? E ele vai para um rumo que tu não sabe o que vai acontecer. Os personagens fazem coisas que são um pouco inesperadas, assim, né? Ele me lembrou outro filme da MUBI, pequeno também, que eu já falei aqui, que eu adoro, que é o Magic Farm, que uns nova-iorquinos vão parar numa cidade cu da Argentina, assim, um lugar minúsculo, que é um filme excelente da Malia Uman, que tem o quê?

Eles são irmãos, esses filmes, porque a cidade também é um personagem, a microcidade, né? No filme também.

?Voz C

E é engraçado porque você, quando você vai vendo os bastidores, quando você vai pesquisando como é que o filme foi feito, você vai entendendo, eu acho, que o que eles conseguiram colocar ali para o telespectador, né? Assim, a essência ali. Porque o Pete, ele fala que foi o que ele queria, um espaço de brincadeira, de libertação. E a gente sente isso, né? Parece que as pessoas não tá muito levando a sério aquilo, não estão se levando muito a sério assim, sabe?

Assim, o Rob que é o namorado, cara, ele tem reações assim, é isso, né? Ele não tá tipo assim uma coisa mais livre, assim, você espera uma atitude dele, ele tem outra, né? E aí o Pete fala, né, que é um espaço de brincadeira, libertação, e que é longe desse roteiro milionário, da burocracia dos grandes estúdios de Hollywood. Então ele quis, ele quis fazer um filme de baixo orçamento e de alta criatividade. Então ele acreditou na premissa dele é que quanto menos dinheiro e menos tempo eu gastar aqui, menos eu vou estar obrigado a pensar na caixa, né, a fazer uma fórmula de sucesso.

Eu tô mais livre aqui, eu posso deixar minha criatividade rolar, porque, entre aspas, eu não tô perdendo nada, né? Não parei a vida de um ator por 2, 3 meses, né? Não tô com um orçamento gigante que eu preciso depois devolver em lucro, né, para quem tá investindo aqui. Eu não tô. Então ele queria esse espaço sem amarras, e eu acho que ele conseguiu. Acho que o objetivo dele. E você vê que é uma coisa meio experimental aquele filme, assim, você vê que é muito— eu achei que é o suco da criatividade, assim, é isso, ele deixou ir e achei que o resultado foi incrível.

Mas assim, lembrando que são pessoas talentosíssimas, ele é muito bom, a Charlie é uma menina jovem assim muito talentosa, muito, muito antenada com ela mesma, com o mundo, com o momento, assim, eu acho. Então a interpretação dela tem muito disso. E o Jeremy O. Harris, que é um cara incrível, roteirista famosão no teatro, muito talentoso, é ligado à moda, ligado, e ele faz uma coisa incrível, né? Exato, ele juntou poucas e boas pessoas, é, foram poucas e boas pessoas.

E então ele tem até umas aspas do Jeremy que eu gostei, que ele fala assim: passei os últimos 4 anos da minha vida esperando por sims, é como se eu tivesse entrando em uma fábrica de sims e nãos. E isso me separou muito do puro ato de criar, de colocar a minha imaginação.

NDNastacha de Avila

Então, cara, não, eu ia falar que o que eu tô vendo tem a ver com isso.

?Voz C

Ai, que maravilha! E você, Naná, o que que você tá vendo?

NDNastacha de Avila

Então tem a ver com um pouquinho com que a Carla tava vendo, porque se passa em Nova York, e um pouco com que tu assistiu porque tem a questão de criar sem um grande estúdio. Na verdade, é um formato muito diferente. Eu nunca tinha prestado atenção nisso porque talvez fosse uma coisa mais de YouTube, de fazer séries, mas é uma série no Instagram. Existe um perfil chamado Brooklyn Coffee Shop, que é uma cafeteria fictícia no Brooklyn, evidentemente.

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NDNastacha de Avila

I literally always forget that. A criadora, ela é roteirista e atriz. O nome dela é muito difícil, gente. Eu vou me esforçar para falar porque é indiano. Pooja Tripathi. Eu acho que é isso, tá? Ela interpreta Time, que é uma barista hipster. Sempre entediada, ela tá sempre com um livro, a pessoa entra na cafeteria, ela tá sempre com um livro, ela sempre atrás do livro, com uma preguiça de atender o cliente, enfim. E sempre os títulos são uma piada, tipo assim, a ética protestante e o espírito do capitalismo, enfim.

Aí ela tem um colega de balcão, o Kale, e os dois meio que, sei lá, zombam dos clientes. E aquela coisa do barista assim com um, sei lá, é muito bom. E aí tudo uma piada no negócio, né? É um sitcom, gente, é um sitcom disfarçado de perfil e que cada vídeo é um episódio diferente. E aí os preços são absurdos, horários são aleatórios, o ambiente tá escuro de propósito, tipo não tem café normal, sei lá, gente, é uma, é uma zoação, né, evidentemente.

E aí tem um monte de personagens que— vou dar alguns exemplos, alguns personagens da internet assim, tipo assim, o tech bro escroto, a wellness girl, sabe, aquela branca na jornada espiritual que recomenda yoga para todo mundo. Enfim, eles fazem uma sátira disso e eu acho muito legal, que borra um pouco a linha de realidade e ficção na internet. E a criadora ela fala que As pessoas não te veem como ator se você é criador de conteúdo, mas eu considero isso uma série.

E a Time, personagem dela, é um papel que eu escrevi para mim. E basicamente o que ela quer dizer com isso? Que tipo assim, ela não pode ficar esperando um estúdio, alguém, um sim chegar. Ela pode ela mesma produzir usando a plataforma que hoje as pessoas utilizam. E eu adorei que ela falou que assim, tem uma entrevista que eles fazem, que ela faz com a Vogue Índia, que ela fala assim, você está no celular e isso, gente, é a TV.

Se conscientizem, sabe? Tipo, e é muito isso. Enfim, e aí é um lugar que ela pode produzir e não precisa pedir licença para ninguém, né? Não é um canal, ela faz o próprio conteúdo dela, ela é a TV dela, e todo mundo é a sua própria TV, né? Enfim, então eu achei muito, muito legal a ousadia, o formato. Acho massa quem quiser quem quiser seguir lá o perfil para poder assistir os vídeos é Brooklyn Coffee Shop, BK Coffee Shop no Instagram.

?Voz C

Que legal, que legal! Eu fiz várias conexões com cafeterias aí pelo mundo.

NDNastacha de Avila

Vamos para o próximo bloco então. Que que estamos ouvindo? Vou começar pela Carla. Carla, o que O que você tá ouvindo?

CCCarla Camurati

Ah, gente, toda vez que eu começo a escrever alguma coisa, eu preciso ouvir música clássica. Não posso ouvir nem ópera, tem que ser concertos ou algumas peças especiais. Eu agora tô com Prokofiev, eu tô totalmente nesse movimento que eu tô escrevendo. Eu começo a escrever, eu vou lá e ponho Romeu e Julieta. E não é que eu tô escrevendo uma coisa Romeu e Julieta. Aliás, não tem nada a ver com isso, mas a melodia e o tempo, porque eu adoro Prokófiev.

Assim, para mim, aliás, eu adoro música clássica, me faz muito bem. Independente da ópera, sabe, os concertos, tem hora que é a única coisa que me acalma, que baixa minha energia, me faz sair de uma coisa para outra. Eu não consigo, por exemplo, trabalhar ouvindo uma música, por melhor que ela seja, com letra. Uma música popular, entendeu? Eu imediatamente, meu ouvido sai, a minha atenção sai do que eu tô fazendo e vai toda para o ouvido. É uma coisa horrível.

NDNastacha de Avila

Eu concordo plenamente. Uma vez eu dei uma dica aqui no Salvei, que não é música clássica, mas é música instrumental do Hermano Gutiérrez, que é totalmente instrumental, e eu escuto muito para trabalhar, porque faz com que eu atinja um nível de concentração diferente diferente do que se tiver uma música com letra, né? Tipo, isso totalmente é impossível.

CCCarla Camurati

Ela pode até ter variações grandes instrumentais, mas ela não pode ter letra. A letra, para mim— então eu ando afundada nesse momento nisso por causa desse trabalho que eu tô escrevendo.

NDNastacha de Avila

Engraçado que tem conexão também com, de alguma forma tem conexão com com o livro do Carrère, com o romance russo, tem conexão com a Rússia. Adorei, adorei a tua dica.

CCCarla Camurati

Um dia temos que falar mais sobre eles, porque eles são completamente polêmicos, é bem polêmico, eu diria. Mas, e você, na realidade, qual é o seu autor russo predileto? É ele?

NDNastacha de Avila

Predileto é o Dostoiévski, com certeza. Com certeza. Com certeza, eu já li 9 livros dele, vou ler o décimo esse ano.

CCCarla Camurati

Cara, é uma coisa, né?

NDNastacha de Avila

É uma doença.

?Voz C

Nossa, chiquérrima! Mas eu tenho que falar que eu amo música clássica, que a minha mãe ela tinha um costume quando eu era criança de colocar música clássica na hora do almoço. Então Chopin, Tchaikovsky, e eu lembro que eu dava uns sustos assim, né? Porque tá tudo assim, assim, assim, Aí Chopin, ele faz, tomava um susto assim. Mas eu adoro música clássica, eu tenho isso que eu não comento muito assim, parece maluca. E só lembrando agora que quando era muito nova, não sei se ela vai continuar querendo ser minha amiga depois disso, mas eu li 50 Tons de Cinza, 50 Tons de Mais Cinza, sei lá, todos os tons e tal.

NDNastacha de Avila

Aí eu já sei disso, já superamos essa fase, gente.

?Voz C

Ai, você, a gente continua amigo mesmo assim? Ah, então ufa, graças a Deus. Aí no livro ele fala que nessa relação nessas relações lá calientes, tinha, eles colocavam as baquianas, e eu amo as baquianas. Então assim, cara, é muito maravilhosa assim. Então eu gosto, eu gosto de música instrumental, gosto de música clássica. Então amei, Carla, a sua dica.

NDNastacha de Avila

Carol, o que que você tá ouvindo?

?Voz C

Então, como eu já adiantei lá em cima, né, a Charli XCX, eu acho que fiquei assim encantada por ela. E fui ouvir esse, o Brett, que é o que foi o álbum que bombou muito na carreira dela e que foi na época do filme assim. Então eu fiquei muito curiosa para ouvir. E cara, é muito bom! A galera fala que parece que é uma fritura, sabe? Mas tem algumas músicas que são, que são um pouquinho menos da fritação, que são, que são mais tranquilas, digamos assim.

Eu assim, eu vi o álbum inteiro, fui para o trabalho, hoje eu fui correr ouvindo e achei, e achei muito massa. Mas eu, a que eu mais gostei, a música que eu mais gostei, se quiserem começar por essa faixa, é So I. É assim super legal. Tem Girl So Confusing, que é massa, ela e a Yorks, que é tipo assim super legal, que parece um bate-papo assim, é massa. E Sympathies Are também é show. Então eu destaco essas 3 músicas. Mas assim, eu gostei muito de quem ela é como artista num todo.

Então por isso que eu fui ouvi-la, por isso que eu fui ver esse álbum. Mas eu fui descobrindo coisas. Então eu achei que a grande diferença dela, talvez para outras divas pop assim do momento, é que eu acho que ela tem muito pé no chão assim. Eu acho que ela é muito conectada com a realidade. E eu acho que algumas vezes que esses artistas assim dão uma pirada ou sei lá, é quando sai um pouquinho, né, do, eu acho, da realidade mesmo.

E ela é muito conectada, tipo assim, por exemplo, ela, ela super escreve nas redes sociais, ela ama cinema, tanto que ela foi, né, que ela teve algumas participações como atriz. E ela, ela escreve, ela tem o Letterboxing dela, tipo assim, ela, ela escreve, ela dá opinião dela lá. Isso. E aí bombou porque algum fã descobriu que era ela E aí, assim, super bombou, porque ela escreve coisa assim muito, muito como eu e você, sabe? Assim, umas opiniões de pessoas normais assim, sabe?

Tipo, então bombou. Assim, eu gostei dela assim como um todo. E aí eu super indico para quem não ouviu ainda, assim, se por acaso você é como eu assim, de repente, que nunca tinha ouvido o Brett, indico ouvir de cabo a rabo esse álbum. E essas faixas que eu falei aí são especiais. E você, Naná, que você tá ouvindo?

NDNastacha de Avila

Então, tudo com conexão desse episódio. Deu um problema XPTO lá nos envios da companhia e o livro O Aniversário, que é tema do clube de leitura de setembro, que vai ser presencial em São Paulo no dia 26 de setembro no restaurante Stella Passione, com patrocínio do Enjoei, a gente vai falar mais disso em breve, não chegou o livro. E aí eu falei, gente, eu preciso saber porque me falaram que esse livro é muito bom, não sei o quê, nanã.

Aí eu vou escutar a amostra no Audible, que é o aplicativo da Amazon para livros, né? Beleza, aí botei lá, aí fiquei muito intrigada porque a história basicamente é um filho que não vê os pais há 10 anos, né, esse narrador, né. E aí ele abre com a última vez, a última vez que a mãe o acompanha até a porta, e ela faz uma pergunta que ela nunca tinha feito em, tipo assim, 21 anos de visitas quinzenais. Ela pergunta assim, volta nos visitar?

Ou tipo assim, você vai voltar? Alguma coisa assim. E ele responde, claro! Só que ele nunca mais volta. E aí ele muda de telefone, de casa, de continente, sei lá, Basicamente ele fala assim, foram os melhores 10 anos da minha vida. Aí eu não consegui parar, daí eu comprei a versão do livro em áudio e comecei a escutar correndo e tal. Tem 3 horas, tem quase 4 horas praticamente de narração. Já acabei, acabei hoje. Tipo, comecei faz, sei lá, 2 dias e já acabei. É muito foda. Eu não sei.

?Voz C

E aí, como é que você achou? Como é que foi a experiência? Muito bom de ter ouvido um livro inteiro.

NDNastacha de Avila

Amei, eu amei, eu amei. Eu tava totalmente entregue, eu tava viajando na história enquanto eu corria, eu tava lá. Porque qual que é o rolê? Como ele conta lá, né, ele conta em primeira pessoa e ele não tem nome, os pais não têm nome, mas ele fala: meu pai, minha mãe, a mãe da minha mãe, a mãe do meu pai. E aí ele vai relatando aquilo, a sensação que dá é que tu é o analista ou a analista, o leitor ou o escutador, o ouvinte é o analista e ele está no consultório contando a vida dele.

Enquanto ele conta, ele vai fazendo um milhão de elaborações e pensando, e também questionando a memória dele, do que que era verdade, o que ele se lembrava, e quantos apagamentos são importantes. Tipo assim, velho, eu não me lembro como eu reagi, eu não me lembro o que eu fiz depois. Enfim, aí tem um milhão de episódios muito pitorescos que acontecem enfim, né, com o pai e a mãe. E a abordagem que ele faz é muito interessante, porque para falar do pai ele fala muito, muito, muito da mãe.

A mãe é um personagem central nesse livro, e ele usa muitas palavras, muitos sinônimos, tipo assim: a mãe ausente de vida, a mãe abdicou da vida, a mãe renunciou no sentido de que nenhuma, como se ela não tivesse nenhuma vontade, nenhum desejo, nenhuma, nem sei lá, não gostasse de nada. Não, é impressionante o relato dele. E aí ele tenta lembrar, né, das incursões, tipo assim, em que momento a mãe dele pareceu ter algum lampejo de vontade ou algum lampejo de desejo ou mesmo sequer de personalidade, enfim.

E aí, com base nessa mulher tolhida, ele constrói a figura do pai dele, essa figura ameaçadora, violenta. Então assim, eu fiquei enlouquecida ouvindo esse audiolivro. Eu amei, o livro é maravilhoso, é muito maravilhoso. Eu recomendo pra caramba. E fala muito sobre tipo família, fala muito sobre Sabe que eu fiz até uma relação com Os Nomes, que a gente também leu no clube, que é da Record. Só que eu acho que Os Nomes talvez seja muito mais explícito assim em termos de violência, e talvez até menos profundo.

Esse livro é muito profundo, é muito complexo. O nível de entendimento dele, o jeito como ele narra a família, é uma coisa impressionante. Eu acho que é muito— a precisão poética dele é bizarra, o jeito como ele, como ele se expressa, né? E até um pouco distante assim, ele é um pouco frio, talvez gere uma percepção, um estranhamento, né, no leitor. Enfim, mas a narração é maravilhosa, eu super recomendo. Eu acho que combina com audiolivro porque é uma confissão em primeira pessoa e tipo é um monólogo, né, quase praticamente um monólogo analítico sem diálogos, então não tem muito o que perder.

Eu acho que funciona muito como um audiolivro e eu acho também, recomendo como uma outra, um outro jeito de consumir livro, que eu preciso falar que eu tinha um pouco de preconceito, eu acho. Tipo assim, putz, ouvir um audiolivro? Não consegue ler um livro? Mas, gente, é muito prático, porque tipo, terminei o romance russo ontem, sei lá, anteontem, comecei a escutar o aniversário e não consegui parar de escutar o aniversário, não consegui.

E aí, tipo assim, e os dois têm muito, muita conexão um com o outro. Para o nosso caso, Carol, que tipo assim recebe trocentos mil livros, tem 500 mil lançamentos, a gente fica naquela angústia, naquela fome, né? Puts, eu preciso acompanhar o mercado editorial, preciso saber o que estão fazendo e tal. E às vezes a gente não tem tempo para ler tudo. De repente é uma alternativa para poder nos fazer consumir mais de um jeito não explodir a nossa cabeça.

?Voz C

Entendeu? E eu achei legal que você falou que o formato dele, né, por ser um narrador em primeira pessoa, tipo isso causa um monólogo também. Eu acho que talvez é uma estrutura que é legal, que é bacana, que funciona, né? Acho que isso que você falou é legal, tipo assim, também saber escolher que livro a gente vai ouvir, né, o que vai ouvir e que livro tem que ser lido, né, para poder pegar. Então isso, acho que até porque até sua escolha aí, pelo que você falou do romance russo, foi fantástica, né, ter lido romance russo e ter ouvido Fantástico, o aniversário.

E quando você não, e quando você não tá correndo ouvindo, e quando você consegue ouvir e sem fazer nada, rola também? Sim ou não?

NDNastacha de Avila

Sim, eu tava almoçando quando eu terminei de ouvir, eu tava almoçando em silêncio, só escutando nos fones de ouvido e viajando no livro ali, viajando, viajando, viajando.

?Voz C

Ai, amei essa dica, amei!

NDNastacha de Avila

Audible, vem para cá, por favor! Audible, vem nos patrocinar! Brincadeira, só alguns comentários. O Bajani veio, é Baiane, eu acho que pronuncia o sobrenome dele italiano. E aí, bom, ele veio para Flip. Eu não gostei muito da mesa por outros motivos, acho que foi meio confuso ali o negócio como foi feito. A outra pessoa que foi convidada não casou, o troço, sei lá. Mas ele é uma figura interessante, ele nasceu em Roma e mora nos Estados Unidos há muito tempo.

Enfim, é o primeiro livro dele publicado no Brasil. E ele ganhou o Prêmio Estrega de 2025, que é o prêmio mais importante da Itália. Então assim, é um puta de um livro. Com certeza eu vou colocar ele no Salva Awards no final do ano. Então vamos para as ressalvas. Eu já sei que Carol não tem ressalva essa semana. Eu também Eu também excepcionalmente não tenho, mas eu sei que a Carla tem uma muito boa que nem eu nem Carol assistimos e a gente quer saber qual que é a tua ressalva, Carla.

CCCarla Camurati

Minha ressalva é com Odisseia. Olha, gente, eu fui porque eu tava achando que ia ser demais e na realidade eu me decepcionei muito porque o que que eu acho é que ele transformou num Marvel, porque você pode transformar tudo né, numa linguagem Marvel, aonde você perde as sutilezas, você perde a poesia, você perde a moral da história, você fica sempre no efeito, no barulho, na briga, na guerra, no vencer. Então chega uma hora que eu tava no cinema, eu falo, meu Deus, por que que ele fez isso? Por que que, entendeu?

NDNastacha de Avila

Por que que ele Eu adoro Batman, não tem nada contra, tá tudo certo.

CCCarla Camurati

São linguagens e elas cabem em determinadas situações, entendeu? Se você quiser fazer um Marvel de Romeu e Julieta, você vai, você faz um Marvel do que você quiser, do sua fé de táxi. É uma linguagem, é uma linguagem de imagem, de efeito, que é igual em todos os filmes. Eu não entendo como as pessoas não têm a sensação de já ter assistido, porque para mim é tão igual que eu sento ali, eu falo: nossa, não vi esse filme, mas parece que eu já vi, parece que eu já sei, parece, entendeu, que eu já conheço.

Ele é íntimo exatamente porque tem essa linguagem tão radical, aonde você tem no som, na imagem, nos efeitos especiais, independente do conteúdo que você esteja abordando. Então, para mim, a Odisseia, que era o processo de iniciação do Homero, que ele põe tão lindo na história, entendeu? O nosso Homero deve estar, entendeu? Tudo bem que eu tenho que realmente dizer que é muito importante, foi muito bom porque aumentou a venda do livro, né?

Você viu isso? Vertiginosamente, vertiginosamente. Então provavelmente muitas pessoas ou estão tendo a mesma sensação que eu ao ler o livro, ou se tomaram conhecimento ao contrário, podem estar tendo uma grande decepção ao ler o livro. Porque, Eunice, entendeu? É outra coisa. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Então a minha ressalva vai pro Odisseia, porque na hora eu fui ficando, passou a primeira, passou a segunda, né, porque são iniciações, são processos que o personagem vai, contigo eu falei, não tô acreditando.

E até porque para mim a relação de som no cinema é muito importante, e essa linguagem imprime batalhas muito semelhantes sonoramente, entendeu? Se você destacar só o som, se você tivesse uma audiodescrição, você não ia saber a diferença entre uma coisa e outra, jamais, porque é muito igual, é muito igual. Então eu acho que o melhor foi ter vendido os livros. O melhor desse filme foi o impulso que ele deu na venda dos livros, porque vale a pena ler.

Me deu até vontade, eu falei, Eu vou reler, eu vou pegar e vou reler porque eu li 500 anos atrás, entendeu? E você tem, porque na realidade é tão saboroso essa e ao mesmo tempo tão difícil.

NDNastacha de Avila

Muito bom. Acho que temos um episódio que queria te agradecer, Carla, pelo teu tempo, por esse espaço, pela nossa conversa. Achei maravilhoso.

?Voz C

Ai, Carla, foi bom demais! Amei, amei conhecer você. Que prazer, que honra! Obrigada.

CCCarla Camurati

Eu também adorei, meninas, mas adorei. Foi um prazer enorme estar com vocês.

NDNastacha de Avila

É isso então, tchau! O roteiro desse podcast é da Nastácia Diabo. A edição é do Nick Silva e da Caroline Holder. O intérprete e compositor da nossa trilha é o Eduardo Arndt. Até a próxima!

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