Passes e Impasses #90 Cobertura midiática do futebol de mulheres
O assunto do episódio #90 é a cobertura midiática do futebol de mulheres.
Para aprofundar essa discussão, a convidada do episódio é Soraya Barreto Januário, que é Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e coordenadora da Rede Brasileira de Mulheres Pesquisadoras de Futebóis (ReMuFut), vinculada à Universidade Federal de Pernambuco.
No episódio, Soraya analisa a história do futebol de mulheres, sob o enfoque da cobertura midiática, explorando temas como memória, apagamento histórico, construção de narrativas e mudanças em curso.
O podcast Passes e Impasses é um projeto de extensão do Laboratório de Mídia e Esporte (LEME).
EQUIPE:
Coordenação do laboratório: Ronaldo Helal
Coordenação do projeto de extensão: Fausto Amaro
Roteiro e produção: Júlya Braga
Edição: Jerson Pita e Stela Nunes
Suporte técnico: Clara Quintaneira
Convidada: Soraya Barreto Januário
Isabela Topfer
Júlya Braga
Soraya Barreto Januário
- A exclusão institucionalizada do futebol de mulheres no Brasil e seus impactosProibição de esportes de contato para mulheres·Decreto de Getúlio Vargas·Masculinidade hegemônica no futebol·Defasagem estrutural e orçamentária·Preconceito e estigma social
- A importância da preservação da memória do futebol de mulheresApagamento histórico·Construção de referências e identidade·Combate ao discurso condescendente·Reescrita da narrativa histórica·A Copa de 71
- A evolução da cobertura midiática do futebol de mulheres e seus desafiosAusência de transmissões e cobertura regular·Hipersexualização e comparação com o futebol masculino·Aumento da visibilidade e audiência·Permanência de vícios patriarcais·Efeito sanfona na cobertura
- Perspectivas futuras e a importância da pesquisa acadêmica para o futebol de mulheresObservatório do Futebol Feminino·Rede Brasileira de Mulheres Pesquisadoras de Futebol·Investimento em categorias de base·Mulheres na gestão do futebol·Legado da Copa de 2027 no Brasil
- Curiosidades e desafios históricos do futebol feminino no BrasilTermo 'jogadoras' e 'meninas'·Sofia Senna·Falta de investimento e prioridade·Transmissão da Copa do Mundo de 2019·Campeonato Brasileiro Feminino
O futebol é um dos principais fenômenos culturais da sociedade brasileira e uma importante forma de expressão da identidade nacional. Mais do que uma modalidade esportiva, ele integra a cultura, a memória coletiva e o cotidiano do país, além de mobilizar diferentes setores como a mídia, publicidade, economia e a indústria do entretenimento. Nesse sentido, o esporte pode ser compreendido como um espaço de produção de significados, representações sociais e disputas simbólicas.
Porém, esse espaço nunca foi neutro. Desde a sua consolidação no nosso país, a modalidade esteve associada a um recorte específico, sendo inicialmente uma prática restrita aos homens brancos e pertencentes às elites.
No caso das mulheres, essa exclusão foi institucionalizada por mais de 4 décadas. As brasileiras foram proibidas de praticar futebol de forma profissional sob a justificativa de que a modalidade seria incompatível com a natureza feminina. Discursos médicos, jurídicos e morais defendiam que o futebol não seria um espaço para elas. Ainda assim, muitas atletas resistiram a esse cenário, praticando o esporte de forma clandestina e desafiando as normas sociais impostas à época.
Ao olhar para essa trajetória, também é importante refletirmos sobre o papel da mídia. Os meios de comunicação não apenas informam sobre o esporte, mas também ajudam a construir memórias, produzir representações, definir quais histórias ganham visibilidade e quais acabam sendo esquecidas.
Ao longo dos anos, a invisibilização do futebol de mulheres não aconteceu apenas dentro dos campos, mas também nas narrativas construídas sobre elas. Durante muito tempo, atletas, equipes e conquistas receberam pouco espaço na cobertura jornalística, contribuindo para um apagamento histórico que ainda produz reflexos nessa atualidade. Mas de que forma a mídia participou desse processo? E quais mudanças têm sido observadas nos últimos anos?
É exatamente sobre a cobertura midiática do futebol de mulheres que iremos conversar no episódio de hoje.
Eu sou Júlia Braga, estou na companhia de Isabela Topfer e esse é mais um episódio de Passes e Impasses, o esporte como você nunca No episódio de hoje estamos na companhia de Soraya Barreto de Anuário, que é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, professora no Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, coordenadora da pós-graduação em Comunicação da mesma universidade, líder do Núcleo de Estudos Críticos de Feminismos, Gênero, Consumo e Capitalismo do OOB Mídia da UFPE e coordenadora da Rede Brasileira de Mulheres Pesquisadoras de Futebol. Oi, Soraya, tudo certo? Seja bem-vinda.
Oi, gente, tudo certo? Boa tarde a todas. Primeiramente Quero agradecer o convite, Delaine, para estar aqui conversando com vocês. É um prazer.
Quando pensamos na história do futebol brasileiro, é importante lembrar que esse esporte, hoje considerado um dos maiores símbolos da identidade nacional, conforme mencionamos na introdução, nem sempre foi um espaço acessível para todos. Durante muito tempo foi construído e consolidado a partir de uma lógica que privilegiava as masculinidades dominantes. Nesse contexto, as mulheres enfrentaram e ainda enfrentam uma trajetória de exclusão.
É importante lembrarmos que em abril de 1941, o presidente Getúlio Vargas assinou um decreto que proibia as mulheres de praticarem esportes de contato, considerados incompatíveis com a sua natureza, incluindo o futebol. A medida defendia que o esporte poderia masculinizar as mulheres, comprometer a maternidade e afastá-las de seus papéis sociais esperados: esposa, mãe e dona de casa.
Durante a pesquisa para esse roteiro, encontramos uma reflexão interessante da historiadora Giovanna Capucin Silva, autora do livro Mulheres Impedidas. Ela explica que essa proibição buscava consolidar o futebol como um espaço de afirmação da masculinidade, e apesar disso, muitas mulheres resistiram e reivindicaram o direito de praticar o esporte. O decreto foi revogado apenas em 1979, e alguns anos depois, em 1983, o futebol feminino foi regulamentado no Brasil.
Já a primeira seleção brasileira feminina foi oficialmente formada em 1988. Embora essa proibição tenha chegado ao fim há mais de 4 décadas, seus efeitos ainda são sentidos na modalidade. Soraia, ao olharmos para esse caminho percorrido, na sua avaliação, quais são os principais impactos dessa exclusão histórica para o desenvolvimento do futebol de mulheres no nosso país?
Então, essa exclusão, né, é importante pontuar que ela não foi só uma exclusão cultural. Né, ela foi uma exclusão estatal e institucionalizada. Isso é muito importante para entender, né, os efeitos que foram produzidos, né, nesse ato de quase 4 décadas, que aí vão gerar um apagamento, né, de diferentes dimensões, desde a defasagem estrutural e orçamentária que a gente vive até hoje, né, que a proibição ela impediu a formação de categoria de base, a criação de clubes, né, dedicados ao futebol de mulheres, deles, a formação profissional especializada e o próprio investimento contínuo em infraestrutura, que aí vai forçar a modalidade, né, a começar do zero na década de 80, né, quando é retomado com a queda da lei.
O próprio preconceito e estigma social, né, que tem uma perspectiva mais cultural e social, que Pensando que o futebol foi construído no imaginário brasileiro, né, com esse bastião da masculinidade hegemônica, essa exclusão ela vai moldar um ambiente hostil, né, que associa as jogadoras a uma descaracterização de sua feminilidade ou a marginalidade social. Tanto que há muito essa questão da própria lei, ela traz essa questão da incompatibilidade com as condições da natureza, né, que aí vamos questionar.
E é no âmbito mais do consumo, do mercado, a gente vai ter aí 4 décadas sem transmissão, sem investimento, sem patrocínio, né, que aí vão gerar essa defasagem comercial histórica, que é essa questão mais comercial é o que gera bons salários, estrutura de base, estrutura de treinamento, Então, essa narrativa que até hoje ainda perdura em alguns clubes, que o futebol de mulheres não dá lucro, é uma falácia estrutural que ignora o fato de que a modalidade foi ativamente impedida de construir o seu mercado, o seu espaço.
Outro aspecto que chama atenção é a dificuldade de reconstruir essa trajetória do futebol de mulheres no Brasil. Durante muito tempo, A modalidade encontrou dificuldade em construir acervos, contando com poucos registros oficiais, poucas pesquisas acadêmicas e pouca repercussão midiática. Nas décadas de 1930 e 1940, por exemplo, já existiam partidas de futebol praticadas por mulheres, especialmente nos subúrbios. Alguns jornais da época, como o Jornal dos Esportes e O Jornal do Rio de Janeiro, chegaram a registrar esses jogos.
No entanto, logo depois veio a proibição, interrompendo esse desenvolvimento e contribuindo para o apagamento de boa parte dessa história. Além da pouca visibilidade, quando as mulheres apareciam na imprensa, muitas vezes eram desvalorizadas. Em publicações como a revista Placar e a Gazeta Esportiva Ilustrada, predominou fortemente na década de 1990, apresentando muitas vezes uma cobertura focada na aparência física e na feminilidade das jogadoras.
Apesar desse histórico, o cenário vem se transformando gradualmente. Hoje, referências como a Marta, maior vencedora da Bola de Ouro do futebol brasileiro, o crescimento da presença de mulheres no jornalismo esportivo e o aumento da cobertura da modalidade sinalizam avanços importantes. Ainda assim, é possível notar que a ausência de memória e de registros históricos continua sendo um dos desafios para a consolidação do futebol de mulheres no Brasil.
Soraya, além dos impactos na prática esportiva, conforme conversamos anteriormente, essa exclusão também deixou marcas na forma como a história do futebol de mulheres foi registrada e lembrada. Por que preservar essa memória é tão importante para o fortalecimento da modernidade?
Então, esse é um tema que eu tenho me debruçado um pouquinho mais, né, nos últimos tempos, porque as pesquisas que a gente tem feito aqui no Observatório, no FGCAP, especialmente com relação à Copa do Mundo, A gente tem visto a partir de 2019, de forma muito tímida, mas depois de 2023, uma tentativa de preservação da memória do futebol feminino, né, na condição de estruturar e fortalecer a modalidade. Então eu acho que é sempre importante pensar que a mídia, por exemplo, ela tem um papel pedagógico Mas ela tem um papel social também muito importante de agendar publicamente, né, os assuntos, as pautas que vão ser socialmente mais relevantes, e também na construção da memória coletiva, né, na memória de um povo, de uma cultura.
E na Copa de 2023 aparece para gente como uma categoria que antes não aparecia. E a importância dessa preservação dessa memória é que, primeiro, acho que a primeira de todas, que é a construção de referências, né, de identidade, de pertencimento. Eu fui uma criança que amava futebol, que jogava futebol, mas que não tinha uma grande referência, porque na época da minha infância a Marta não aparecia. Marta é mais nova que eu, né?
A Cici não era conhecida, a Pretinha não era conhecida, não havia um reconhecimento né, na construção dessas mulheres que foram pioneiras, né, no futebol de mulheres, a Fanta, né, e tantas outras. A gente também tem, né, que é o entendimento de que preservar a memória ela vai desarmar o discurso condescendente de que o futebol de mulheres ele tá começando agora. Ele tem uma história, ele tem uma resistência, ele tem uma tradição.
Né, que faltou uma visibilidade até de ordem midiática, social, mas também de ordem estatal, né. A gente não teve políticas públicas, uma base de políticas públicas para fortalecer a modalidade, né. Não houve investimento, não houve criação de ligas, não houve formação de atletas, e houve uma proibição, como a gente falou agora anteriormente. Então hoje a gente vê esse resgate memorial como uma reescrita, uma correção de narrativa, porque a história do futebol oficial, do futebol brasileiro, ela é incompleta sem as mulheres, né?
O trabalho da Aida Bonfim, por exemplo, vai demonstrar isso, que o futebol das mulheres não começou nos anos 80, né? Ele foi deliberadamente apagado. E aí recuperar essa memória é dar voz e dar visibilidade a outras que vieram antes da gente, é dar uma maior precisão historiográfica, né, e não necessariamente é uma perspectiva apenas de militância, como muitos querem imputar diretamente para gente, né. E há também o combate ao apagamento institucional, né.
A crítica cultural, por exemplo, vai dizer que o que não é registrado, documentado, ele deixa de existir no debate público. A memória histórica, ela serve de alicerce para reivindicar políticas públicas, investimentos privados e espaço de museus e acervos, como por exemplo o Museu do Futebol aí passou por uma grande reforma, né, para abarcar essa história e outras histórias dos diversos futebols. Então Preservar a memória, contar essa história, é saber que houve outras mulheres jogando futebol há mais de um século, que mostra que o lugar delas no esporte não é uma concessão recente, mas é um direito histórico que foi suprimido.
Acho que um grande elemento que tem sido agora, né, no último ano, foi o lançamento do documentário A Copa de 71. Eu acho que ele é assim um resgate histórico inestimável E quando a gente vê atletas como a Alex Morgan, por exemplo, que é uma referência do futebol norte-americano, falando que nunca ouviu falar daquela história, que não conheceu e que não sabia, né, você vê o quanto é grave esse apagamento. Porque mesmo aquelas mulheres que vivem do futebol, em um país que culturalmente é construído o futebol, o soccer, como um espaço de socialização feminina, mesmo assim essa história não foi contada.
Né, então há uma escolha aí de ordem privada, patriarcal, né, de uma determinada classe, de uma determinada raça que optou pelo apagamento dessa história. Então esse resgate é muito importante.
Agora faremos uma breve pausa, pois aqui no Passes e Impasses é hora de relembrar uma história marcante ou descobrir uma curiosidade sobre o tema do dia no quadro Let Me Tell You. No Let Me Tell You sempre trazemos informações e fatos interessantes sobre grandes clubes, atletas ou momentos marcantes do esporte. O nome do quadro vem da expressão inglesa let me tell you, que significa deixa eu te contar em português.
Então deixa eu te contar algumas curiosidades sobre o futebol feminino no nosso país. Você sabia que a palavra jogadoras demorou Durante décadas, era comum que as atletas fossem chamadas de meninas. Esse termo, com caráter infantil, claramente descredibilizava profissionalmente as jogadoras. Uma curiosidade que também nos faz refletir foi quando, em 2019, após uma derrota do Sport para o Santos pelo Campeonato Brasileiro, a jogadora Sofia Senna desabafou em uma entrevista à CBF TV, que posteriormente repercutiu em diversos portais esportivos como o GE.
A atleta afirmou que sua equipe treinava apenas algumas vezes por semana, enquanto as adversárias contavam com uma estrutura muito superior. Segundo ela, faltava investimento e prioridade para o futebol feminino no clube, situação que observamos ainda hoje em diferentes clubes do nosso país. Infelizmente, poucas semanas depois da entrevista, Sofia foi dispensada da equipe.
Ainda em 2019, outro momento marcou a história da modalidade. Pela primeira vez, a TV Globo transmitiu em canal aberto todos os jogos da Seleção Brasileira Feminina e uma Copa do Mundo. E aproveitando esse foco nas transmissões, vale lembrar que o formato atual do Campeonato Brasileiro Feminino só foi criado pela CBF em 2013. Esse também foi um dos temas analisados no Relatório Brasileiro Feminino A1 2025, produzido pela professora Leda Costa e pelos bolsistas aqui do LEME, no projeto de extensão Observatório Social do Futebol.
Destacamos que na primeira fase do campeonato, das 120 partidas realizadas durante a primeira fase, 61 foram transmitidas por canais de televisão. Flamengo e Corinthians foram os clubes com mais jogos transmitidos, com 14 transmissões cada. Então, Soraia, depois de todas essas curiosidades, existe alguma que você gostaria de comentar um pouco mais ou acrescentar alguma informação?
Eu acho que é sempre interessante a gente retomar um pouco do, do que a gente entende, né, da palavra torcida, apesar de haverem várias histórias e relatos Eu acho que é sempre interessante trazer que o termo torcida, diferente de como os adeptos de futebol são conhecidos no mundo, né, se a gente vai para o norte global é fã, se a gente vai para Portugal é adepto, se a gente vai para Espanha ou aqui na América Latina, hinchas, né, são nomes diferentes, mas o entendimento de cultura de fã é muito forte no âmbito do futebol.
E o Brasil, ele se difere nessa narrativa falando da torcida pelo ato, né, das mulheres e pessoas na arquibancada torcerem seus lenços. Então eu acho que esse, esse ponto ele nos ajuda a perceber o quanto a história das mulheres é entrelaçada ao futebol, só que ela realmente foi apagada de maneira deliberada dessa participação, quando as mulheres também são afastadas inicialmente já das arquibancadas, antes mesmo da prática.
Voltando agora o nosso olhar para comunicação, durante nossa pesquisa para esse episódio encontramos um dos seus artigos, Soraya, publicado na revista Iluminuras, sobre a relação entre a mídia esportiva e as Copas do Mundo de futebol de mulheres. Pode-se dizer que a mídia não apenas transmite os acontecimentos esportivos, ela também ajuda a construir sentidos e representações. Durante muito tempo, a ausência de transmissões e de cobertura regular contribuiu para que o futebol feminino ocupasse pouco espaço no imaginário esportivo.
Quando a modalidade aparecia na mídia, muitas vezes era mais valorizada a aparência física das atletas do que suas habilidades esportivas. Um exemplo disso é a fala do comentarista Neto durante a transmissão da final da Libertadores Femininas 2009, na qual ele declara que no futebol feminino tem só mulher bonita. Além disso, o esporte é frequentemente comparado ao masculino em vez de ser repensado a partir de sua própria história.
Nos últimos anos, porém, esse cenário vem passando por algumas mudanças voltadas ao crescimento das transmissões e a maior atenção dada às competições internacionais, ampliando o espaço da modalidade na mídia. Além do surgimento de novas profissionais ocupando a narração, como Renata Silveira e Natália Lara, temos a Copa do Mundo de 2023, a maior edição de um torneio de futebol feminino até então, como exemplo, em que a mídia passou a resgatar registros de edições anteriores e as trajetórias de jogadoras como Marta e Formiga.
Esse movimento é muito importante porque permite ao público conhecer histórias e referências que durante muito tempo permaneceram apagadas ou dispersas. Soraya, a partir dessas informações e das suas pesquisas, podemos dizer que estamos diante de uma mudança profunda na cobertura esportiva ou ainda convivemos com antigos padrões, mesmo em cenário de maior visibilidade?
A gente pode dizer que vive essa realidade dupla, né? A gente vive certamente um momento de transição, né? Vive uma transição real, mas eu não diria que é uma revolução consolidada. É uma coexistência entre esses avanços expressivos e a permanência de velhos vícios patriarcais. Se por um lado a gente tem uma visibilidade inédita, tem ganho de uma visibilidade inédita com aumento significativo das audiências nas transmissões de TV, contratação de narradoras, comentaristas, maior espaço das mulheres nas notícias esportivas, Por outro lado, como frequentemente a gente vê as denúncias da Mili Lacombe e da Alice Klein, esses padrões retrógrados e machistas, sexistas, eles persistem, né?
Então a gente tem toda a questão da sintaxe da condescendência e as comparações, aonde as atletas mulheres são sempre comparadas com os homens. A modalidade, ela é constantemente coberta a partir da régua do futebol masculino, né, pela lógica do futebol masculino, por uma perspectiva paternalista, em vez de ser analisada pelo seu próprio valor histórico, cultural, técnico, né. E há uma hipervisibilidade episódica, né, em relação à cobertura cotidiana.
A gente tem uma grande visibilidade no que é aquilo que a Márcia Morel e a Ludmila Mourão vão chamar de efeito sanfona. Só que hoje em dia tem uma linearidade maior de notícias, apesar da hiperexposição em alguns momentos e uma diminuição, coisa que não existia tanto antes, né? A gente pode ver pela própria estudo do Leme, né, em relação ao Campeonato Brasileiro Feminino, há uma exposição tanto de transmissão quanto de notícia desses campeonatos que não existia antes, né?
Mas há realmente uma hipervisibilidade durante Copa e Olimpíadas, né? Nem o Sul-Americano ele consegue ter esse nível de retorno, né, de visibilidade. E há um esvaziamento na cobertura dos campeonatos estaduais e locais, mas existe algo acontecendo, né? Há uma resistência, obviamente, nas redações Embora haja mais mulheres no jornalismo esportivo, os cargos de chefia e de linha editorial ainda estão majoritariamente enquadrados, né, de forma tradicionalmente, ao naturalizar privilégios do futebol masculino.
Então a gente vê essa coexistência, né, real. Agora, há mudanças que a gente deve comemorar: o aumento quantitativo expressivo A gente demonstrou nas pesquisas de observatório, vocês falaram do artigo do Iluminuras, a gente vê a diferença entre a Copa de 2019 e a Copa, a Copa de 2015 e a Copa de 2019, aonde a gente tem o boom midiático, um aumento de 533%. A gente vai ter um aumento de quase 50% da Copa de 2019 para a Copa de 2023, que é bastante significativo também.
Só que uma coisa que chama mais atenção é o salto qualitativo. A pauta migrou do futebol feminino como nicho para um futebol como esporte. Então a gente vê mais análises táticas, entrevistas com atletas como especialistas, cobertura pré e pós-jogo, diversidade temática, né? Então saúde mental, igualdade salarial, infraestrutura, racismo, né, assédio começam a ser debatidos também. Então a cobertura ela ainda é muito reativa e sazonal.
Mas ela tem tido, né, algumas mudanças interessantes. E uma coisa que eu acho que é bem importante de citar em relação aos estudos mais antigos é que a hipersexualização ela foi um tanto superada, mas a gente ainda tem um tom muito de superação, né? Atleta que venceu apesar de ser mulher, né, aparece com frequência naquela coisa da jornada da heroína. Mas eu não posso, eu não considero sinceramente ainda uma mudança profunda, mas é uma mudança em curso, incompleta e infelizmente extremamente reversível se não houver uma pressão contínua, como já diria Simone de Beauvoir, se a gente não tiver vigilante, né?
O retrocesso, no caso das mulheres, o backlash em relação à conquista de direitos, ele é muito rápido e muito estruturado. Né, no âmbito de uma cultura patriarcal.
Falando sobre perspectivas para o futuro, não poderíamos deixar de mencionar duas iniciativas: o Observatório do Futebol Feminino, iniciativa acadêmica voltada para o monitoramento, análise e visibilidade do futebol feminino no Brasil, em que você atua como conselheira, e também coordena a Rede Brasileira de Mulheres Pesquisadoras de Futebol. A existência de iniciativas como essas mostram que o futebol de mulheres não precisa apenas de mais espaço, ele também precisa ser acompanhado, pesquisado e compreendido.
A modalidade ainda enfrenta desafios relacionados a investimento, a profissionalização, estrutura dos clubes e formação de atletas. O Relatório Brasileiro Feminino A1 2025 também evidencia alguns desses desafios. Na edição de 2025, por exemplo, foram observadas mudanças frequentes nos horários das partidas e na localização das rodadas, fatores que podem impactar diretamente a presença do público nos estádios e a divulgação dos jogos.
Por isso, a consolidação do futebol de mulheres depende da atuação conjunta de clubes, federações, patrocinadores, imprensa, universidades, para que se repita no público. Ainda há muito a avançar para que essa visibilidade não se concentre apenas em grandes competições, mas transforme uma presença midiática contínua, no fomento de uma cultura torcedora da modalidade e mais oportunidades para as jogadoras. Nesse sentido, o futuro do futebol de mulheres passa não apenas por ocupar mais espaços, mas por garantir que esses espaços sejam permanentes.
Então, Soraya, depois de tudo que conversamos, quais os principais caminhos que você gostaria de ver a modalidade percorrer nos próximos anos? E qual a importância de iniciativas e das pesquisas acadêmicas para compreender essas transformações da modalidade?
Tem alguns pontos que são principais com relação à mídia, né, que é o que a gente estuda. A gente precisa de uma cobertura contínua e não apenas uma cobertura sazonal. A mídia precisa tratar o futebol de mulheres como pauta permanente e não como evento esporádico, como Copa do Mundo e Olimpíadas. O investimento em categorias de base, né, nos clubes com estrutura, salário digno, apoio, né, para a vida escolar e etc. Políticas públicas de combate ao assédio e à discriminação nos estados e nos clubes, mas também políticas públicas visando, né, a sedimentação da modalidade nos clubes.
É imperativo a gente ter mais mulheres na gestão do futebol, né, não só técnicas, mas dirigentes, árbitras, jornalistas, assim como atletas, obviamente, né. E na Copa de 27, uma coisa que tem me incomodado muito na mídia, do que eu tenho visto é a gente evitar esse ufanismo, né, ufanismo acrítico. Então, é celebrar o evento, né, sem questionar as estruturas que seguem desiguais, né, é um retrocesso disfarçado de progresso. Então, a gente precisa que iniciativas como o caso Observatório Futebol Feminino, grupos de pesquisa como o LEME, o Hipercap, o UOB Mídia, né, trata e reúne acervo sobre futebol de mulheres, cheguem mais junto da mídia, das políticas públicas, para cumprir uma função estratégica, que é produzir dados, né, onde antes só existia silêncio.
Sem evidências sistematizadas, não é possível cobrar mudanças, mensurar avanço ou denunciar retrocessos. E nisso eu super parabenizo, por exemplo, a pesquisa que o LEM tem feito aí no Campeonato Brasileiro, Porque a gente tá apresentando dados, como vocês falaram aí durante a fala de vocês, né, de atrasos, de falta de distribuição de ingressos para se validar público, etc. Essa falta de informação, isso não é aleatório, isso é um projeto político de apagamento, isso é um projeto político, né, de não geração de informação sobre a modalidade.
E aí a pesquisa acadêmica ela oferece o que o jornalismo do dia a dia não consegue, né, uma profundidade histórica, uma análise estrutural, né, e um distanciamento crítico. É a pesquisa que permite enxergar que o problema não é a falta de interesse do público, mas um processo secular de exclusão, de apagamento e desinvestimento na modalidade. Então a gente precisa também garantir a profissionalização real e sustentável. A gente precisa garantir uma linguagem, enquadramento noticioso, informativo próprio.
A gente precisa democratizar o acesso aos jogos e trazer uma maior profissionalização, a seriedade naquilo que diz respeito ao futebol de mulheres, né, para que a gente possa ver um desenvolvimento tanto de público, tanto de cultura quanto de investimento, mais efetivo. Porque se eu atraso os jogos o tempo todo, o público deixa de se interessar, o público deixa de participar, né? Se eu não divulgo que vai haver aquele jogo, eu não divulgo, né, as consequências, os principais lances táticos, técnicos do jogo, eu não gero interesse, eu não gero criação de cultura, eu não gero memória.
Então automaticamente eu tô contribuindo para o silenciamento. Então é preciso que essas, essas dinâmicas elas andem conjuntamente para que a gente veja um crescimento mais efetivo, porque não adianta só visibilidade. A gente tem Marta ganhando uma grana que não é nem de longe a grana que os jogadores homens ganham, mas a gente tem uma série de outras jogadoras que vivem situações precárias. Que pagam do seu próprio bolso para poder jogar ainda.
Não tô dizendo que isso não existe também no masculino, mas existe uma estrutura de quando eu furo essa bolha aí, chego em determinados lugares, nos peneirões da vida, eu vou ter um investimento em mim para ser um atleta. No caso das mulheres, isso ainda é muito, muito, muito diminuto, né? Então é o papel dessas iniciativas, da academia, da pesquisa, das políticas públicas, elas têm que andar em conjunto também com o mercado, com as entidades, com as federações esportivas, para que a gente crie uma cultura de modalidade de futebol de mulheres mais séria, mais profissional, né?
E isso não parte infelizmente só das atletas, você tem que partir das políticas e dos clubes.
Perfeito, Soraya. Agora é hora do quadro Leme Indica. No qual recomendamos livros, filmes e séries. No Passes e Impasses, nossos convidados participam e você fica por dentro dos conteúdos relacionados ao tema de cada episódio. Então, Soraia, qual seria a sua indicação para hoje e para que os nossos ouvintes possam entender sobre o tema de hoje?
É difícil porque tem muitas indicações boas, mas eu vou deixar as duas que eu acho que é muito importante para entender essa história que a gente citou aqui, tanto eu citei quanto vocês, o livro da Aira Bonfim, né, do futebol de mulheres no Brasil, que ela vai contar essa história, essa história lá desde a década de 20 até, né, os anos 40, que é um período não muito falado. O próprio livro da Camposinho que você citou, né, Mulheres Impedidas.
Tem um livro que eu organizei com Jorge Quindim que chama Futebol de Mulheres no Brasil, acho que é Emancipação, Resistência e Alguma Coisa, que tem vários artigos sobre o assunto, mas eu acho muito importante indicar que assistam o documentário A Copa de 71. Eu fiquei muito impactada por esse documentário. Tem A Nova Onda, A Onda Nova, na verdade, eu acho. Tem vários documentários surgindo aí falando sobre futebol de mulheres, mas eu achei A Copa de 71, porque é um espetáculo tão grandioso que é surreal que a gente nunca tenha ouvido falar até então.
Então eu acho que é um pontapé importante para entender um pouco dessa história de apagamento.
É, eu queria perguntar agora, se tá tudo certo, é que você tinha falado antes sobre as diferenças dos números entre 2019 e 2023 das Copas. Eu queria saber qual a expectativa agora para a Copa de 2027 sendo no Brasil e qual que é o papel da mídia nessa Copa, como é que essa Copa pode ser importante para um ponto de virada, de chave, talvez.
Olha, eu, a expectativa é muito grande, né? Apesar de é aquilo que a gente vem falando, né? A gente tem gerado expectativa. Obviamente a Copa vai ser no Brasil, isso por si só já gera um novo boom, né, de visibilidade, que eu acho que a gente vai sentir muito numa Copa posterior, né, de 31, que vai ser em outro país, que vai haver um boom de visibilidade, que a Copa vai ser aqui, isso vai gerar um buzz, porque isso mexe com a economia local, isso mexe com uma série de outras questões que quando a Copa não é no seu país não mexe, né?
Mas a gente tá vendo uma crescibilidade de visibilidade, a gente tá vendo aí o filme sobre a história de Marta ser rodado, a gente tem uma série de outros elementos aí de âmbito cultural, de pedagogias culturais que vão apoiar a procura das pessoas por essa modalidade, por esse esporte. Então A expectativa em termos de construção de visibilidade midiática é altíssima, né? Com certeza vai aumentar quantitativamente e qualitativamente, isso eu não tenho dúvida.
Mas a minha preocupação maior é sobre o legado que essa Copa vai deixar, né? O que é que o Brasil vai fazer efetivamente? E isso também depende muito, a gente tá em outro momento muito crucial, né? A gente sai da Copa de 2019, que foi o grande boom, E logo depois a gente tem uma pandemia que, por mais que a gente tem em 23 crescido, foi um elemento também de break num processo que tava começando a evoluir. E a gente depende muito de como é que vai ser as eleições no Brasil ano que vem, esse ano, né?
A gente vai depender disso para ver políticas públicas efetivas para um esporte que é tão marginalizado. Então, a depender de quem, né, leva essa eleição, a gente pode ver uma continuidade, a gente pode ver um outro processo de apagamento, né, e de destruturação da modalidade. Então, realmente, as expectativas são muito altas. Em termos de mídia, eu tenho certeza que a construção, a amplitude vai ser muito maior, o crescimento qualitativo e quantitativo vai ser muito maior.
Mas o que eu quero realmente, efetivamente, que eu é realística, de forma realista, mas ao mesmo tempo otimista, quero ver é um incentivo maior do que a gente já tem visto para construções de base do futebol de mulheres, para construção de campeonatos regionais, nacionais mais fortes, mais visíveis culturalmente, para que a gente possa construir uma cultura mais rica de futebol. No Brasil, pensando a participação de mulheres nessa construção.
Maravilha, Soraia! Então é fim de papo no Passes e Impasses. Muito obrigada pela sua paciência, por todo o conhecimento que você passou para gente aqui hoje e por aceitar o convite de estar aqui com a gente.
Eu que agradeço, gostei muito de conversar com vocês e queria deixar registrado todo o meu carinho e minha admiração pelo trabalho do Leme, pelo trabalho de todas vocês, galerinha, e toda a galera que faz o Leme ser essa coisa linda aí.
Passos em Passos é uma realização do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes, com coordenação geral de Ronaldo Elau e Fausto Amado. O episódio de hoje teve roteiro e a produção de Júlia Braga e edição de Gerson. Nosso programa é lançado na última quarta-feira de todo mês. Esperamos vocês no próximo episódio.
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