Episódios de Passes e Impasses

Passes e Impasses #89 Copa do Mundo de 2022: A consagração de Messi e a estreia em um país islâmico

28 de julho de 20261h20min
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O assunto do episódio #89 é a Copa do Mundo de 2022.

Para aprofundar essa discussão, o convidado do dia é Flávio de Campos, doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e coordenador científico do LUDENS (Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas).

No episódio, Flávio analisa a Copa do Mundo do Catar a partir de diferentes perspectivas: a trajetória de Messi rumo ao tão sonhado título mundial e as particularidades de uma Copa realizada, pela primeira vez, em um país islâmico.

O podcast Passes e Impasses é um projeto de extensão do Laboratório de Mídia e Esporte (LEME).

EQUIPE :

Coordenação do laboratório: Ronaldo Helal

Coordenação do projeto de extensão: Fausto Amaro

Roteiro e produção: Júlya Braga

Edição: Jerson Pita

Suporte técnico: Clara Quintaneira

Convidado: Flávio de Campos

Participantes neste episódio3
I

Isabela Topfer

Host
J

Júlya Braga

HostRoteirista e produtora
F

Flávio de Campos

ConvidadoDoutor em História Social pela USP e coordenador científico do LUDENS
Assuntos6
  • Copa do Mundo 2026Primeira Copa no Oriente Médio · Realização no final do ano · Controvérsias sobre direitos humanos · Sportswashing · Permissão de álcool em país muçulmano
  • PIX na ArgentinaConsagração de Lionel Messi · Final emocionante contra a França · Terceiro título mundial da Argentina
  • Desigualdade SocialBanquete de jogadores com ouro · Hospedagens e camarotes luxuosos · Participação de políticos brasileiros · Desigualdade social global e brasileira · Crítica ao 'futebol de milionários'
  • Seleção BrasileiraSaída precoce de jogadores do Brasil · Perda da rivalidade clubística e bairrista · Futebol brasileiro como 'segunda divisão' · Brasil como exportador de mão de obra · Captura política da camisa da seleção
  • Conflitos e brigas em futebolInvasão da Ucrânia pela Rússia · Exclusão da Rússia de competições · Copa do Mundo e Futebol · Histórico de guerras em Copas
  • Seleção Argentina· EsportesEspetáculo impressionante da 'hincha' · Apoio que ajudou a equipe na Copa · Cultura do futebol com questões sociais
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JBJúlya Braga

Estamos em meio à Copa do Mundo de 2026, acompanhando mais uma vez a emoção do maior torneio de futebol do planeta. Mas antes de olharmos para o futuro, a série Copas do Passes em Passes volta no tempo para relembrar a edição de 2022 realizada no Catar. Nesse episódio, iremos discutir os principais acontecimentos da primeira edição do torneio disputada no Oriente Médio. A 22ª Copa do Mundo da FIFA entrou para a história como a última com formato de 32 seleções participantes.

Além disso, as partidas foram distribuídas em 5 cidades-sede e pela primeira vez a competição foi realizada no final do ano, isso em razão das elevadas temperaturas enfrentadas pelo país durante os meses de junho e julho.

ITIsabela Topfer

Vale lembrar que o Catar, por ser o país-sede, garantiu automaticamente sua vaga no sem necessidade de disputar as eliminatórias. Dentro de campo, a grande campeã da edição foi a Argentina. Em uma das finais mais emocionantes da história, os argentinos enfrentaram a França em uma partida que terminou empatada em 3x3 após a prorrogação. Na decisão por pênaltis, a seleção sul-americana levou a melhor e levantou a taça ao vencer por 4x2.

Fora das 4 linhas, a Copa de 2022 também foi cercada por debates. O país sede recebeu críticas relacionadas às condições de trabalho dos operários envolvidos na construção dos estádios. Já a FIFA impediu que algumas seleções utilizassem a braçadeira One Love, Símbolo de apoio à comunidade LGBTQIA+, devido às leis restritivas vigentes no Catar.

JBJúlya Braga

O evento aconteceu em meio a um cenário mundial marcado por grandes acontecimentos políticos, sociais e esportivos. Além do Mundial no Catar, o esporte também foi marcado pelos Jogos Olímpicos de Inverno realizados na China. Ao mesmo tempo, a invasão da Ucrânia pela Rússia gerava tensões internacionais, levando a FIFA a suspender a seleção russa das competições oficiais. Já no Brasil, foi um ano intenso, marcado pelos efeitos pandemia, inflação e eleições.

No futebol, o Atlético Mineiro conquistou a Supercopa do Brasil, o Flamengo venceu a Libertadores e o Palmeiras se consagrou campeão brasileiro. Com esse contexto dentro e fora dos gramados, hoje vamos revisitar mais uma Copa do Mundo, relembrando sua história, seus personagens, os acontecimentos que marcaram essa edição. Eu sou Júlia Braga, estou na companhia de Isabela Topfer, e esse é mais um episódio do Passes em Passes, o esporte como você nunca ouviu.

ITIsabela Topfer

No episódio de hoje estamos na companhia de Flávio de Campos, que é graduado em História e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo. É professor do curso de pós-graduação em História Sociocultural do Futebol e coordenador científico do LUDENS, Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol e Modalidades Lúdicas, que reúne pesquisadores dedicados aos estudos dos jogos e esportes em geral. Oi Flávio, tudo bem? Seja bem-vindo!

FDFlávio de Campos

Oi Isabela, oi Júlia, obrigado pelo convite, tudo bem?

JBJúlya Braga

Quando a FIFA anunciou em 2010 que o Catar sediaria a Copa do Mundo de 2022, a decisão chamou atenção do mundo inteiro. Afinal, seria a primeira vez que o torneio aconteceria no Oriente Médio e também a primeira vez em que um país tão pequeno em extensão territorial receberia o principal evento do futebol mundial. Mais do que organizar uma Copa, o Catar enxergou a competição como uma oportunidade de se apresentar ao mundo como um país moderno, estável e influente.

Para isso, investiu bilhões de dólares em infraestrutura, construindo novos estádios e até mesmo uma cidade, Lusail, que recebeu a final do torneio. A curta distância entre as sedes também foi uma novidade, permitindo que torcedores acompanhassem mais de um jogo no mesmo dia.

ITIsabela Topfer

Outra mudança histórica foi a realização do evento entre novembro e dezembro, fugindo do calendário tradicional por causa das altas temperaturas da região no meio do ano. Mas a escolha do Catar também gerou muitas controvérsias. Houve acusações de corrupção no processo de escolha de sede, embora a FIFA tenha posteriormente absolvido o país após uma investigação interna. Além disso, organizações de direitos humanos denunciaram as condições de trabalho de muitos operários envolvidos nas obras para o Mundial.

O país também foi alvo de críticas por suas posições em relação aos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+, como a já mencionada proibição da abraçadeira em arco-íris. Flávio, para você, o que representou a escolha do Catar como sede e como a FIFA equilibra seu discurso de futebol como espaço universal e integração dos povos com essas controvérsias que cercaram sua escolha?

FDFlávio de Campos

Então, Isabela, a gente está diante de uma série de contradições nesse discurso que escolheu o Catar como país sede, né? Eu acho que é interessante lembrar que O regime político do Catar é algo semelhante a uma monarquia hereditária, é um emirado, que é um modelo político bastante diferente, pelo menos por enquanto, né, daquilo que no Brasil nós designamos como democracia. Já de cara, é interessante notar que a representação, a maneira como a mídia europeia e americana trata o Catar, e também a maneira como trata a Arábia Saudita, os Emirados Árabes e até mesmo o Egito, por estarem alinhados, né, por estarem muito próximos dos interesses dos Estados Unidos e submetidos ao capital internacional, há muito poucas menções às particularidades autoritárias desses estados.

Essas menções praticamente não aparecem, ou então elas são relativizadas, elas são minimizadas. Que práticas eu tô me referindo? Eu tô falando de pena de morte, Eu tô falando de tortura, de flagelação, de homofobia, de transfobia, de um machismo estrutural que são constitutivas das práticas cotidianas da sociedade catarí. Por que que eu tô falando isso? Porque em contrapartida, quando essa mesma mídia se refere ao Irã, ao Iraque, ao Afeganistão, que são, se tornaram adversários em alguns momentos dos interesses dos Estados Unidos, a categoria conceitual ditadura ela é fartamente utilizada.

Aí nesses casos do Irã, do Iraque, do Afeganistão, o orientalismo é operacionalizado. E aí características desses países são salientadas para contrapor ao modelo de sociedade pretensamente civilizada que seria o nosso. A mesma operação discursiva é empregada para se referir a Cuba e a Venezuela. Há uma demonização que reforça um repertório preconceituoso e ideologicamente orientado. O Catar, né, além de abrigar uma base militar dos Estados Unidos, foi apresentado como um país rico, de IDH elevado, com as imagens de uma arquitetura ultramoderna e extremamente rica, opulenta, e grande exportador de petróleo.

Além disso, eu prefiro não utilizar o termo Oriente Médio porque esse termo define uma região em relação à distância da Europa, né, o Oriente Médio, Oriente Próximo. E portanto, esse termo, né, ele tá carregado, às vezes a gente não percebe, mas ele tá carregado de uma perspectiva eurocêntrica. Eu acharia melhor falar de Levante, que é como é a categoria que os povos islâmicos, os povos árabes árabe e muçulmano se referem à região, Península Arábica, né, que é onde o Catar se insere, apesar de também ser uma pequena península dentro da Península Arábica, ou até mesmo Ásia Menor, a região da Ásia Menor.

De qualquer maneira, o que eu quero salientar foi uma Copa realizada em um país árabe islâmico de maioria muçulmana. Essa seria a caracterização mais importante, mais precisa para a gente apresentar o significado. E aí, respondendo mais diretamente a pergunta que você me fez, o significado do Catar como país sede evidentemente não é a integração dos povos, mas eu diria o cinismo, a hipocrisia das relações internacionais esportivas atuais.

A escolha do Catar é sportswashing. Óbvio que um país com menos visibilidade, mas é esse conceito, essa categoria que a gente tem que utilizar para se referir à escolha do Catar como país sede de uma Copa do Mundo masculina. Nessa Copa 2022 predominou mais uma vez a lógica dos mega eventos esportivos. Com uma gigantesca operação econômica das mais diversas naturezas, com corrupção, evidentemente, com denúncias de corrupção, a maior parte delas não apuradas, com interferências nas leis internas do país.

No caso específico do Catar, mais uma hipocrisia a permissão para o consumo de bebidas alcoólicas em locais licenciados, em determinados lugares autorizados, e nas fanfests. Num país que, pela cultura muçulmana, pelos preceitos do Corão, o consumo de bebidas alcoólicas é crime e fere as regras da religião. Então acho que numa primeira abordagem eu diria que esses são os significados, né, dessa escolha do Catar como país sede da Copa de 2022.

ITIsabela Topfer

É como a gente mencionou na introdução, a Copa do Mundo de 2022 aconteceu em um cenário internacional conturbado. O mundo ainda lidava com os impactos da pandemia de COVID-19, acompanhava manifestações pelos direitos das mulheres no Irã, e observava o agravamento das tensões entre Rússia e Ucrânia. No esporte, a Rússia, sede da Copa do Mundo 2018, enfrentava sanções desde 2020, quando o Tribunal Arbitral do Esporte determinou restrições ao país em razão de violações das regras antidoping.

Atletas e equipes russas passaram a competir sem bandeira, hino e outros símbolos nacionais em diversas competições. Em fevereiro de 2022, a situação se tornou ainda mais delicada com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Guerra que dura até hoje. A reação da comunidade esportiva foi imediata. Federações, seleções e entidades passaram a pressionar por medidas mais rígidas contra o país.

JBJúlya Braga

Vittorio Brustolin, professor de relações internacionais da UFI e pesquisador de Harvard, afirma que logo após a invasão da Ucrânia, seleções como Polônia, Suécia e República Tcheca anunciaram que se recusariam a enfrentar os russos, o que colocava em risco a organização dos torneios da FIFA. Diante desse cenário, a entidade e outras organizações esportivas adotaram medidas que resultaram resultou na exclusão da Rússia das competições internacionais, incluindo o processo classificatório para a Copa do Mundo do Catar.

Mais uma vez, o esporte se viu diretamente impactado por acontecimentos políticos e conflitos internacionais. Flávio, ao longo da história, guerras, disputas ideológicas e conflitos internacionais já influenciaram diversas competições esportivas. Inclusive, comentamos sobre isso no último episódio dessa série sobre as Copas do Mundo em relação à Rússia. Mas gostaríamos de saber como você avalia o papel de uma Copa do Mundo em um cenário global tão turbulento.

FDFlávio de Campos

Então, é bom, é exatamente isso, né? Eu acho que as questões políticas, evidentemente, elas sempre se apresentaram na organização das competições internacionais, com maior ênfase ou menor ênfase, dependendo do momento. Eu não vou me aprofundar em discussões que vocês fizeram anteriormente, mas só para efeito do argumento aqui, eu gostaria de lembrar 3 exemplos em contextos diferentes. A realização dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, com já com Hitler no poder e a Alemanha nazista, e a postulação da Alemanha, a pretensão da Alemanha para realizar a Copa que não aconteceu em função da guerra, que era a Copa do Mundo masculina de 1942.

Lembrar o banimento da África do Sul de competições esportivas pelo Comitê Olímpico Internacional, COI, em 1964 e pela FIFA em 61, em virtude do apartheid. E um episódio que particularmente me sempre mexe muito comigo, porque eu tenho lembranças desse episódio de infância, quando eu comecei a acompanhar o futebol, eu tinha 10 para 11 anos, que é a classificação da seleção do Chile por W.O. para Copa da Alemanha Ocidental de 1974.

Por que que a classificação do Chile por W.O.? Naquela ocasião eram 16 seleções. A 16ª vaga seria disputada por um classificado da repescagem da América do Sul Brasil e um classificado para repescagem da Europa. No caso, Chile representando a América do Sul e União Soviética representando a Europa. A segunda partida, primeira partida ocorreu em Moscou, foi 0 a 0 em agosto de 1973. A segunda partida tava marcada para novembro de 1973.

Entre uma partida e outra o golpe, o golpe contra o Allende, e o golpe que derruba o governo democrático do Allende e instaura a ditadura do Pinochet. A União Soviética solicita à FIFA que não haja partida, que não seja realizada a partida no Estádio Nacional de Santiago, porque o Estádio Nacional de Santiago foi transformado num campo de prisioneiros, de tortura e de assassinato de opositores políticos, violando, portanto, uma das premissas do esporte, que é a não vinculação com a política, né, essa coisa de imaginar o esporte pairando sobre a sociedade.

A FIFA se negou e manteve a partida, e a seleção da União Soviética não compareceu à partida, e por isso o Chile ganhou para o W.O. Eu lembrei essas três situações com características diferentes. Eu não vou me alongar aqui nessas três, mas de qualquer maneira, a Copa de 2022, ela foi a Copa pós-pandemia de COVID, que além do drama, né, mundial, né, da pandemia e das mortes, ela escancarou o chorume volumem negacionista e obscurantista da necropolítica da extrema-direita no mundo todo, com características particulares no Brasil.

Aqui, o Brasil de Bolsonaro, do governo Bolsonaro, mas no mundo todo nós tivemos que lidar, além de lidar com a pandemia, tivemos que lidar com essa irracionalidade. A banalização da reflexão e a reflexão mais rasa possível. Hoje há uma acirrada discussão acadêmica sobre como caracterizar essa atual extrema-direita, e alguns apontam para a possibilidade de utilizar a categoria fascismo, neofascismo, para essa extrema-direita. Alguns colegas, alguns intelectuais criticam essa utilização.

Independentemente do posicionamento que a gente vem adotar nessa discussão acadêmica, essa extrema-direita tem características em comum, que é o estímulo à guerra, é o estímulo ao armamentismo, é o discurso da eliminação dos adversários. É o discurso da imposição da força, é o hard power, é o poder bruto. E é isso que a gente viu se desenvolver, sobretudo, né, nesse período da pandemia e da Copa de 2022. Eu tô colocando isso porque as tensões e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia Elas envolvem interesses da OTAN, envolvem armamentismo, interesses geopolíticos, e de parte a parte.

E eu tenho me recusado a entrar em guerra a favor ou da Ucrânia ou da Rússia, né? E aí é uma crítica que eu faço alguns colegas intelectuais, alguns companheiros até de militância política. Acho que não faz muito sentido entrar na guerra, nem entrar neste campo. Tudo isso envolto, né, esse contexto em argumentos. E como é que se apresenta esse conflito entre Ucrânia e Rússia, Rússia e Ucrânia, em argumentos pretensamente críticos que no fundo se revelam seletivos e, mais uma vez, eu diria cínicos.

A guerra entre Rússia e Ucrânia, ela se reveste dessa roupagem cínica, como também as reações esportivas contra a Rússia, que culminam, né, com a sua exclusão da possibilidade de participar da Copa do Catar. Isso até seria, vai lá, admissível se os mesmos argumentos ou argumentos semelhantes, sanções, banimentos, também pudessem ser direcionados a Israel e aos Estados Unidos. Nesse momento nós estamos no transcurso de uma Copa do Mundo, num contexto marcado por ameaças de invasões pela guerra, pelo genocídio e por violações de direitos humanos.

Todo esse combo patrocinado pelos Estados Unidos. Se a gente utilizasse a mesma régua, não poderia haver Copa nos Estados Unidos. Os Estados Unidos teriam que ser banidos, como Israel também, banidos de competições esportivas quanto mais patrocinarem uma Copa do Mundo de futebol masculino. Eu diria que essa é a parte, uma parte do contexto desta Copa de 2022. A outra parte, me parece que isso tá em discussão também, o pessoal das relações internacionais, os sociólogos, o pessoal da política, os historiadores estão discutindo se a gente não tá vivendo a dissolução daquela nova ordem mundial que se estabeleceu a partir ali do final da década de 80 do século passado, com o fim da União Soviética, e que passou a ser marcado pela hegemonia estadunidense e por um dogmatismo do ponto de vista do pensamento econômico, que é a perspectiva neoliberal, né, que ninguém— eu vou depois falar um pouquinho disso no final— mas ninguém ousa enfrentar de verdade os dogmas e as perspectivas neoliberais.

Junto com isso, né, com talvez essa dissolução dessa nova ordem mundial, a ascensão econômica e tecnológica da China e de outros países do continente asiático que oferecem uma perspectiva de um novo cenário que ainda está se desenhando, e que não sei se me parece muito otimista esse cenário que vai aparecer aqui. Uma Copa do Mundo de futebol masculino, ela oferece uma gama de oportunidades para a gente problematizar questões das mais diversas naturezas.

Eu diria que há um leque de problemas, de preconceitos, de intoleráveis intolerâncias que a gente poderia explorar, que poderiam ser exploradas. Por exemplo, A brutal desigualdade social no mundo, a fome e as condições subhumanas a que estão submetidos milhões de pessoas. Isso é central no mundo de hoje. Essa é uma questão fundamental que ela, ela não é simplesmente abordada. A questão da crise climática, e os efeitos ambientais no planeta.

Uma Copa de 2022 sediada num país exportador de petróleo no momento de crise climática, em que se discute restrições ao uso de combustíveis derivados de petróleo. A violência de gênero e as práticas machistas e misóginas, né, que se apresentam em todos os países em graus variados. E o mesmo, né, a gente poderia se referir à transfobia, ao racismo, a homofobia, xenofobia. São questões que eu tô querendo apontar que só apareceriam numa Copa, elas aparecem de leve, elas aparecem nas margens, nas bordas, né?

A gente identifica isso. Mas se os interesses econômicos não tivessem tomado o futebol como tomaram, e se a gente reconhecesse a importância, enfrentasse a importância das discussões políticas que são suscitadas pelos esportes? É óbvio, eu tô falando de um outro futebol, futebol, né? Eu tô falando não só do futebol existente, mas de um outro futebol, e que talvez a gente tenha que ter pelo menos como horizonte, mesmo que ele não consiga se realizar.

Eu tô falando da capacidade da gente pensar além dos limites distópicos do presente, né? Eu acho que pelo menos pensar para além dessa distopia é fundamental. E o princípio, né, que deveria ser perseguido para a gente entender essas questões políticas, a régua a ser utilizada, me parece ser uma coisa tão simples, tão básica: são os direitos humanos, a defesa da humanidade como postura, no lugar de avaliações e sanções seletivas Como se faz normalmente, como se fez na Rússia na Copa de 2022.

Evidentemente, eu não tenho, eu não sou um cara iludido, isso poderia aparecer mais claramente nas condutas, nas organizações esportivas, nas representações esportivas, mas óbvio que não se resolveria ali. Não seria resolvido ali nas competições esportivas.

ITIsabela Topfer

Bom, agora faremos uma breve pausa, pois aqui no Passes e Impasses é hora de relembrar uma história marcante ou descobrir uma curiosidade sobre o tema do dia no quadro Leme e Teio. No Leme e Teio sempre trazemos informações e fatos interessantes sobre grandes clubes, atletas ou momentos marcantes do esporte. O nome do quadro vem da expressão inglesa let me tell you, que significa deixa eu te contar em português.

JBJúlya Braga

Então deixa eu te contar sobre algumas curiosidades da 22ª edição da Copa do Mundo. Pela primeira vez, as seleções puderam convocar 26 jogadores para disputar a competição. Até então, o limite era de 23 atletas. Outra novidade histórica foi a autorização de 5 substituições por partida. Uma mudança que ampliou as possibilidades táticas das equipes ao longo dos jogos. A arbitragem viveu outro momento marcante. Pela primeira vez, mulheres comandaram partidas de uma Copa do Mundo masculina, sendo uma das assistentes a brasileira Neusa Inês.

Tivemos também a presença de pelo menos uma seleção de cada continente nas oitavas de final, demonstrando o avanço e a competitividade do esporte em diferentes regiões.

ITIsabela Topfer

Até a bola oficial trouxe inovação. Batizada de Al Hila, ela foi desenvolvida pela Adidas com uma tecnologia que prometia maior velocidade e precisão durante os jogos. E quando o assunto são as surpresas dentro de campo, poucas histórias foram tão marcantes quanto a de Marrocos. A seleção africana terminou a fase de grupos na liderança de sua chave, eliminou Espanha e Portugal no mata-mata e se tornou a primeira equipe do continente africano a alcançar uma semifinal na Copa do Mundo.

Japão e Coreia do Sul também chamaram atenção ao avançarem para as oitavas de final após campanhas marcadas por resultados surpreendentes, reforçando o crescimento das seleções asiáticas no cenário internacional. Flávio, entre todas as curiosidades e acontecimentos inéditos, teve algum que te marcou ou qual você acredita que melhor representou a Copa naquele ano?

FDFlávio de Campos

Então, tem algumas coisas. Eu queria só retomar um pouquinho essa coisa do o número de jogadores, né? Sem dúvida é um futebol cada vez mais que exige mais preparação física, há mais intensidade do que havia no futebol praticado há 30, 40 anos, e por isso o maior número de substituições. Isso é uma parte da explicação. A outra parte da explicação eu diria que está na possibilidade maior de exibição desses atletas e nos mercados de transferências e de patrocínios.

Então há também aí uma vitrine, é como se a gente tivesse mais jogadores nessa atual Copa, além de mais jogadores, mais seleções. Então você amplia aí o número de produtos a serem ofertados. Em relação à presença de árbitras mulheres, né, Sim, a Stéphanie Frappat se tornou a primeira mulher a apitar uma partida de Copa do Mundo masculina, né, apitando Alemanha e Costa Rica. É muito pouco ainda. É, sim, é um avanço a gente ter árbitras mulheres, mas é muito pouco, né.

E eu diria que a gente tem muito ainda que percorrer, mas O que eu queria chamar atenção, e aí qual seria o meu destaque, né? Eu tô nessa pegada mais da questão social e econômica. Eu chamaria atenção para aquilo que eu denomino de futebol ostentação, e sobretudo em relação a jogadores da seleção brasileira de futebol. E me chamou atenção durante a Copa, né, aquele banquete aquele jantar em que o Vini Júnior, o Éder Militão, o Gabriel Jesus e o ex-atleta Ronaldo Fenômeno foram comer o bife folhado a ouro, né, o bife salpicado com ouro, que é assim, além de ser muito brega, né, é de uma breguice luxuosa é uma afronta ao mundo e ao país de onde eles vêm.

Junto com esse, esse banquete do bife salpicado e folheado a ouro, as hospedagens no Catar de altíssimo custo e os camarotes super suntuosos, não eram nem luxuosos, E esse, todo esse cenário frequentado por algumas personagens da política brasileira. Eu acho importante a gente destacar isso. O Eduardo Bolsonaro assistindo às partidas da seleção brasileira enquanto havia aqui no Brasil manifestações golpistas. E aí um duplo, né, fomentando as manifestações contra o regime democrático brasileiro e deixando os trouxas aqui tomando chuva, né, o gado, seguidores aí dos bolsonaristas.

O Arthur Lira, então presidente da Câmara dos Deputados, ligado ao Centrão, representante do Centrão, mas também ligado ao bolsonarismo, acompanhando a Copa do Mundo. O Ciro Nogueira, esse mesmo que tá envolvido, totalmente envolvido no escândalo do Master, bolsonarista também, acompanhando a Copa do Mundo. É bem interessante ver isso, né, esse, esse patriotismo de ostentação. Esses patriotas de ostentação que largam as suas atividades da política, os seus compromissos, e tem ainda, né, alguns compromissos, e vão acompanhar a Copa do Mundo in loco, né, e desfrutando aí desse luxo que também os atletas, alguns atletas brasileiros também desfrutaram.

E um caso interessante que é o então presidente da CBF, o Edinaldo Rodrigues, que bancou com dinheiro da CBF a viagem de quase 50 pessoas, cerca de 49 pessoas que não tinham nada a ver com futebol e que foram ali no grande avião da alegria, né, para o Catar para acompanhar. E junto com isso, junto com esses políticos que participaram dessa farra durante a Copa de 2022, o então presidente da CBF, o Edinaldo Rodrigues, que bancou um avião da alegria com 49 pessoas que não tinham nada a ver com futebol e que foram lá acompanhar os jogos da seleção brasileira in loco e participar, né, e participar dessa, dessa excursão luxuosa.

O que que eu tô querendo salientar, que eu tô querendo frisar, e que me incomoda profundamente, imagino que incomode também a vocês, é esse futebol ostentação, que é um futebol dirigido por milionários e alpinistas, né? Milionários, alpinistas, aproveitadores, pessoas sem escrúpulos, que não tem na verdade não tem capilaridade no futebol, não tem história no futebol, com investimentos de bilionários, de empresas, de interesses do grande capital, muitas vezes fazendo, operando lavagem de dinheiro, de dinheiro sujo, dinheiro de transações ilegais.

Dinheiro, dinheiro sonegado e jogado, e o futebol jogado também por milionários. É óbvio que eu tô falando, quando eu falo jogado por milionários, eu tô falando de uma pequena parcela de atletas, uma pequena parcela que consegue uma ascensão social e na carreira futebolística, e que passam a viver como milionários. É uma minoria extrema, não só em relação ao futebol brasileiro, mas em relação ao mundo todo. E eu diria que o papel dessas exceções, né, desses milionários, é muito semelhante ao papel das bets, dos vencedores, daqueles que ganham.

Então, um em milhares vai ganhar em algum momento com as suas apostas, né? Os jogos de azar, eles são, eles criam exceções. Em um passado mais distante aqui no Brasil, a loteria esportiva, e eu lembro de um vencedor que ficou na memória de todos, que é o Dudu da Loteca. O Dudu da Loteca venceu, ganhou o certame dos 13 pontos da loteria esportiva em duas situações, duas ocasiões. Ele foi duplamente, duas vezes, o vencedor sozinho da loteria esportiva.

O que que ele é? Ele não é só uma exceção, ele é a isca, ele é a isca da propaganda para manter a engrenagem. Então esses atletas, essa minoria extremada, serve, né, tem o mesmo mecanismo, a mesma função que os vencedores das bets. Esses atletas, eles revelam essa ostentação no corpo, no corpo, não jogando porque é proibido, mas quando eles estão fora do jogo, fora da partida, com joias, né? Os brincos de diamantes cada vez maiores, os colares de ouro, Os relógios, né, são acessórios que transmitem uma representação desse sucesso material.

Os carros caríssimos, né, carros importados e caríssimos, os helicópteros, né. O Neymar às vezes vai, baixa na concentração do Santos ou da seleção brasileira de helicóptero. Então ele chega de helicóptero, ele vem dos céus de helicóptero, iates, jatinhos, e obviamente nesse padrão machista, dessa macheza truculenta, acompanhados de mulheres com uma beleza hegemônica, do padrão hegemônico, que compõem essa ostentação que revela aí esses índices de sucesso na carreira.

Todo esse quadro, ele se torna mais grave ainda se a gente comparar com a tremenda desigualdade social do mundo, não só do Brasil. Do Brasil também é gritante, um dos países com a maior desigualdade social do planeta. Mas a estimativa que eu coletei, até para a gente conversar aqui hoje é de que existem hoje cerca de 3.428 bilionários, que a gente poderia chamar de trilhardários. São pessoas, são 3 mil, não chega a 3.500, são pessoas que têm um patrimônio acima de 20 trilhões de dólares.

Entre esses 3.500 71 brasileiros. 3.500, pessoal, não enche uma ala de um estádio, de uma arena de futebol, né? Dá para a gente colocar juntinho, botar esses caras todos numa cadeira. A gente poderia até, eu penso várias coisas que a gente poderia fazer com esses 3.500, mas como tá sendo gravado, eu só vou dizer, a gente pode colocar esses caras sentadinhos bonitinhos e eles uma pequena parcela, uma pequena parte dos espaços de expectação de uma arena de futebol.

No mundo que tem uma população estimada em 8 bilhões de pessoas, então nós temos 3 mil, cerca de 3.500 trilhardários no mundo de 8 bilhões de pessoas. Agora, não bastasse esse esse dado, 700 milhões de pessoas, 700 milhões vivem com menos de $7 por dia. Mais de 1 bilhão de pessoas são consideradas pobres, não só porque não tem recursos, mas porque não tem acesso às condições básicas de existência: saúde, educação e moradia. Então é escandaloso que a gente tenha, escandaloso e revelador, que o principal esporte do mundo contemporâneo ele escancare a hipocrisia e o cinismo diante da desigualdade social no mundo com esses atletas, né?

E aí os brasileiros, parece que alguns brasileiros eles fazem questão ultimamente de exibir essa, de fazer parte dessa ostentação no mundo tão desigual. Então a minha curiosidade, desculpem ser mais truculento aqui, a minha curiosidade é triste, é perceber este futebol ostentação se disseminando e sendo aplaudido, né, e sendo cultuado sem questionamento.

ITIsabela Topfer

Bom, se passaram 4 anos desde a Copa do Catar, mas uma coisa continua fazendo parte da cultura brasileira: a expectativa em torno da nossa seleção. Afinal, o futebol ainda ocupa um espaço importante na identidade do país, e durante o torneio grande parte das atenções se volta para os jogos. Em 2022, a equipe comandada novamente por Tite havia realizado uma campanha dominante nas eliminatórias sul-americanas, garantindo a classificação com 5 rodadas de antecedência.

Além disso, O grupo reunia jogadores experientes e jovens talentos que viviam uma boa fase em seus clubes. Mas a trajetória no Catar acabou ficando abaixo das expectativas. Apesar da liderança no grupo, a equipe sofreu uma derrota para Camarões no último jogo. E nas quartas de final, após o empate por 1 a 1 com a Croácia na prorrogação, a classificação foi decidida nos pênaltis e os croatas avançaram para a semifinal.

JBJúlya Braga

Embora a seleção brasileira continue mobilizando milhões de torcedores durante as Copas Mundo, muitos têm impressão de que o entusiasmo e a identificação com a equipe já não são os mesmos das gerações anteriores. Exemplo disso é a pesquisa realizada em maio na Datafolha, em que apenas 3 em cada 10 pessoas acreditam que o Brasil será campeão este ano, e 54% dos brasileiros com idade até 16 anos não têm interesse na Copa do Mundo.

Em um contexto marcado pela globalização do futebol, exageros, mudança, mudanças na forma de consumir o esporte e pela crescente internacionalização da carreira dos jogadores, a relação entre seleção e os brasileiros parece ter se transformado ao longo das últimas décadas. Flávio, aproveitando o que você falou no momento das curiosidades, você concorda com essa percepção de que existe hoje um certo distanciamento emocional entre seleção brasileira e sua torcida?

E aproveitando ainda mais essa discussão, Quais transformações sociais, culturais e esportivas podem ajudar a explicar a mudança nessa relação entre brasileiros e torcedores nas últimas décadas?

FDFlávio de Campos

Júlia, totalmente de acordo, né? Eu acho que há um desenraizamento, né, dessa seleção. A campanha, né, eu tenho uma coisa, eu não conheço o Tite pessoalmente, né, mas eu, eu sempre me chamou atenção Desde quando ele era treinador de clubes no Brasil, foi treinador do meu Palmeiras, foi treinador do Corinthians, né? Eu gostava do jeito mais ponderado do Tite, né? Apesar do vocabulário dele, que alguns brincavam, ridicularizavam, chamavam de titês, né, o vocabulário técnico.

Mas eu gostava do jeito mais sóbrio do Tite. Né, não gostaria de um dia ter oportunidade de conversar com ele para identificar o manejo que ele fazia da seleção. Na verdade, nessa Copa, né, do ponto de vista futebolístico, né, o Brasil fez até uma boa campanha até enfrentar a Croácia, né. Perdeu para Camarões, entrou com time reserva, né, poupou jogadores e tal. Então O da Croácia foi, eu acho que foi naquelas fatalidades do futebol, né?

E talvez a única vez, ou uma das poucas vezes, que eu concorde com o Neymar, né, que não tinha que atacar, tinha que segurar ali o jogo, né? E já tava ganho, tava 1 a 0 para o Brasil, toma o empate, depois vai ser eliminado. Mas de qualquer maneira O que eu acho, eu acho que a campanha foi razoável. E só fazendo uma comparação, acho essa seleção, né, de 2022 tecnicamente melhor que essa seleção que nós estamos vendo hoje, né. Então talvez essa atual seja, acho que, acho não, é a pior seleção brasileira que eu vi jogar, né, e que tá mais abaixo das favoritas ao título.

Mas voltando a essa questão desse descolamento da seleção com a sociedade brasileira, eu acho que isso tem um fundamento maior que tá relacionado à saída de jogadores muito jovens do Brasil, muito jovens. Então os meninos estão saindo com 19, 20 anos Então aparece um atleta, ele desponta num clube brasileiro e ele já vai imediatamente ser transferido e vai circular pelo mercado internacional. Se a gente tivesse hoje Pelé e Garrincha jogando no Brasil, a gente não teria visto, a gente não veria Pelé e Garrincha jogando.

Para se ter uma ideia, né? Eles já estariam jogando lá nos grandes clubes europeus. Eu acho que tem uma questão que a gente perdeu e que era muito legal, que às vésperas de uma convocação— e eu sou mais velho, né? Eu, a primeira Copa do Mundo que eu acompanhei foi a Copa de 1970. Eu era pequeno, era criança, mas eu me lembro que o meu letramento, a minha alfabetização para o futebol se deu em 1970. Então, a partir dali, eu segui, a partir de 1970, eu segui todas as Copas do Mundo como torcedor e depois como pesquisador.

E às vésperas da convocação de uma seleção, havia uma outra disputa interessante, que era uma disputa clubística, das rivalidades clubísticas. Quantos atletas do meu time seriam convocados e quantos atletas dos meus times rivais seriam convocados, e se eu ganharia, né, se eu teria mais atletas do meu time do que dos times rivais. Às vezes a gente perdia, às vezes tinha mais atletas do time rival, mas eu tinha o craque, eu tinha o titular.

Então havia uma disputa simbólica de pertencimento de olhar para aquele atleta e verificar que aquele atleta joga no teu time por muito tempo. Ele tá associado ao seu time, tá associado ao clube, né? Eu me recordo de quando o Ademir da Guia foi convocado em 74 para Copa da Alemanha Ocidental. A minha alegria! O Ademir da Guia era o maior atleta, o maior ídolo da minha infância, né? E ver o Ademir da Guia jogando, quer dizer, jogou uma partida só, mas foi convocado para seleção.

Aquela seleção tinha uma base que era a base do Palmeiras e do Botafogo do Rio de Janeiro. Eram os clubes que mais atletas cederam para seleção. Mas de qualquer maneira, havia essa disputa que trazia a seleção para muito perto do pertencimento e da rivalidade. Havia uma outra disputa que é disputa de atletas dos estados. Ah, tem mais carioca nessa seleção, essa seleção é muito carioca, essa seleção é muito paulista. Então tinha o bairrismo, que também é uma rivalidade que faz parte da história do futebol brasileiro desde o início do século 20, e é uma rivalidade gostosa.

Quantos atletas do Rio, quantos de São Paulo Ah, tem atleta de Minas Gerais, tem atleta do Rio Grande do Sul, atleta jogando, né, não de nascimento. Eu queria lembrar, por exemplo, em 1919, no Sul-Americano, havia essa discussão, e 3 jogadores que atuavam no futebol paulista foram participar da campanha de 1919: o Neco, o Amílcar e o Friederreich. Em 1930, a seleção não tinha atletas jogando, os atletas do futebol paulista. Em 58, é feito um arranjo de maneira que metade e metade de paulistas e jogadores atuando no futebol paulista e jogadores atuando no futebol carioca.

Esses arranjos, eles traziam para muito perto né, essas discussões a respeito da seleção. A seleção tava no cotidiano de todo mundo, né. 2022, apenas 3 jogadores atuavam em clubes brasileiros: o Everton do Palmeiras, o Everton Ribeiro e o Pedro do Flamengo. 3, 3. E eu diria que a maior parte da população brasileira, dos torcedores brasileiros, e até mesmo de nós pesquisadores, muitas vezes aparece um menino lá, você fala: da onde veio esse menino?

Onde esse menino jogou? Em que clube? Qual clube ele foi revelado? Qual que é a trajetória dele, né? Quais campeonatos ele disputou? Muitas vezes a gente se surpreende com a falta de conhecimento sobre os atletas que a trajetória, a carreira desses atletas, muito diferente do que acontecia até pelo menos a década de 90 do século passado. Tudo isso para dizer que há um descolamento, há uma falta de proximidade com essa seleção, e Pior ainda, né, o nosso futebol, futebol brasileiro praticado aqui no Brasil pelos clubes brasileiros e o futebol da nossa seleção nacional masculina é um futebol de segunda divisão do ponto de vista da hegemonia internacional.

Nós não temos mais, não adianta a gente construir uma ilusão e a gente se entorpecer dessa ilusão virando, olhando para o passado. Os clubes brasileiros, os melhores clubes brasileiros, os clubes mais estruturados e com uma equipe mais arranjadinha disputaria, né, na Premier League, a 8ª, 9ª posição. Disputaria 4º, 5º lugar no campeonato espanhol, 4º, 5º lugar no campeonato alemão. Não disputaria título, né? Nós não temos clubes competitivos e não temos seleção, uma seleção competitiva, né?

A nossa seleção, ela vai ficar ali no meio da tabela. Então essa é uma questão forte, porque só reconhecendo isso a gente pode tentar mudar. É só reconhecendo o nosso lugar hoje no ranking mundial do futebol é que a gente pode tentar mudar, e mudar sobretudo uma posição que é de exportador de pé de obra. Onde nós estamos? Qual que é o nosso lugar na economia do futebol, exportar aquilo que hoje se chama de joia, cria, talento, né, numa linguagem bem escravista, né.

O plantel de jogadores é outra linguagem bem escravista. Mas de qualquer maneira, nós exportamos pés de obra como a gente exporta commodity, e isso coloca o Brasil numa posição de subserviência do ponto de vista do mercado futebolístico, numa posição secundária. Tem que reverter isso, tem que reverter, ou nós vamos dizer que é assim mesmo que vai ser e nós vamos continuar deixando, permitindo que os nossos principais atletas joguem nos clubes europeus e a gente fique aqui com o futebol de menor qualidade.

Para reverter isso, e por isso eu falei lá em cima antes, né, na questão do neoliberalismo, tem que enfrentar o neoliberalismo. E aí companheiros e companheiras de esquerda, eu vejo isso muito nos debates, sucumbem ao clubismo, e o que importa mesmo é que o seu clube consiga se fortalecer, mesmo que isso signifique esmagar os outros clubes menores, né? Enfrentar o neoliberalismo significa a gente ter uma postura de igualdade, de equidade no futebol brasileiro.

É mudar o calendário, é mexer no calendário de maneira que a gente tem um calendário inclusivo para as agremiações médias e menores, que a gente redistribua melhor os recursos dos direitos de transmissão e não concentre os direitos de transmissão nos clubes que têm maior torcida e têm maior capital, porque senão a gente reproduz a desigualdade. Que a gente crie mecanismos para segurar os atletas. E aí é interferir no mercado, é realmente enfrentar o mercado e dizer: atletas nossos com menos de 25 anos, de 26 anos, que são jovens, nós estamos falando de jovens, 25, 26 anos são jovens, a gente cria restrições, limitações, obstáculos para manter esses atletas dentro do mercado futebolístico brasileiro.

Ou seja, reserva de mercado, realmente interferência do Estado no mercado e não deixar o mercado seguir as suas regras livremente. É óbvio que isso que eu tô falando é uma, traz uma polêmica tremenda, né? Isso vai deixar as pessoas com urticária porque eu tô falando mesmo que a gente tem que interferir no mercado da bola, tem como ter que interferir nas entidades da bola, né, nos clubes, nas federações e na Confederação Brasileira de Futebol.

Se a gente quiser retomar nesse mundo, né, nesse mundo do hard power, se a gente quiser ter um lugar que é um lugar de respeito, eu não digo que seja um lugar de, um lugar vencedor, mas um lugar de respeito, respeito ao futebol brasileiro, respeito a sociedade brasileira. E aí sim, acho que a gente teria uma maior aproximação da torcida com os atletas que representam a seleção brasileira. E para fechar essa ideia, o que é a seleção brasileira senão um símbolo oficioso do Brasil?

Não é o hino, não é a bandeira, não é o selo nacional. O brasão. Eu, quando era menino, estudei durante a ditadura, a gente estudava os símbolos nacionais, tinha que decorar os símbolos nacionais, e tinha uma aula maravilhosa: como dobrar a bandeira brasileira depois de recolhida. Conhecimento inútil para cacete. Mas de qualquer maneira, a seleção brasileira é um símbolo oficioso. Ela representa oficiosamente o país. E o núcleo desse símbolo, núcleo dessa representação, é a camiseta amarela, é a nossa camiseta amarela.

Tem um filme inglês, My Name Is Joe, que é uma uma passagem que um time de ingleses proletários, ferrados, bêbados, assim, fora de forma, um time perna de pau para cacete, rouba o uniforme da seleção brasileira de uma loja, uniforme completo, e entra para jogar uma partida. E os adversários veem aquele uniforme novinho, camiseta amarela, o calção azul, meião azul, né? E um dos integrantes do time adversário vira e fala para o outro: isso é uma heresia, né?

Esse time de perna de pau com esse uniforme da seleção brasileira. Aquela camiseta amarela, ela brilha na memória do futebol brasileiro. Ela é a camiseta da consagração do futebol brasileiro, e ela foi capturada politicamente pelos representantes da extrema-direita e do bolsonarismo. Isso vem, eu não vou me alongar aqui, mas isso vem desde 2013, né, desde as jornadas de junho de 2013, e foi se intensificando ano após ano até hoje a gente ter essa dificuldade, essa questão com a camisa da Seleção Brasileira.

Então, além dessas questões práticas, eu acho que a gente tem que retomar. E é um esforço, a gente talvez tem que tomar aí um engove, um sal de frutas, mas a gente tem que retomar esse símbolo, que é um símbolo importante do futebol brasileiro e um símbolo oficioso do país. A gente tem que retomar numa chave democrática, inclusiva e de combate à desigualdade social.

JBJúlya Braga

Flávio, mais à frente a gente vai voltar sobre o assunto Seleção Brasileira, mas ao longo da nossa conversa nós falamos sobre curiosidades, surpresas e acontecimentos que marcaram essa Copa de 2022. É impossível encerrar o episódio sem falar da grande campeã daquele ano, a Argentina. A campanha argentina começou de forma inesperada com a derrota para Arábia Saudita na estreia. Apesar desse tropeço, a equipe se recuperou ao longo da competição e protagonizou uma história marcante.

Na final disputada contra a França, os argentinos viveram uma partida histórica. Após abrir 2 gols de vantagem, viram Kylian Mbappé empatar o jogo com 2 gols em poucos minutos. Na prorrogação, Messi volta a colocar a Argentina na frente, mas Mbappé marcou novamente e levou a decisão para os pênaltis. Nas cobranças, a seleção argentina levou a melhor Conquistando seu terceiro título mundial, encerrando um jejum que durava desde 1986.

Aos 35 anos, Lionel Messi levantou a taça que faltava em sua carreira e consolidou o seu nome entre os maiores jogadores da história do futebol mundial.

ITIsabela Topfer

Mas a conquista não foi construída apenas dentro de campo. A torcida argentina também chamou atenção pela presença massiva no Catar. Milhares de torcedores viajaram para acompanhar a seleção e transformaram os estádios e as ruas de Doha em uma extensão das arquibancadas sul-americanas. Vídeos das comemorações nas ruas circularam pelo mundo, reforçando a imagem da paixão argentina pelo futebol. Inclusive, muitos observadores apontaram que o apoio dos torcedores ajudou a criar um ambiente favorável para a equipe ao longo da competição, especialmente nos momentos mais decisivos da campanha.

Então, Flávio, essa conquista pode ser associada também à força da torcida? Na sua avaliação, o que tornou aquela partida tão especial E qual a importância das arquibancadas no desempenho da seleção e suas conquistas?

FDFlávio de Campos

Olha, Isabela, eu tenho que reconhecer que eu tenho um carinho e uma admiração tremenda pela hincha argentina, pela torcida argentina. Eu considero os torcedores argentinos fazem o espetáculo mais impressionante que eu já vi e que eu presenciei. Talvez haja outros na Alemanha. Eu nunca assisti uma partida na Alemanha, mas o que eu vejo da torcida argentina é algo impressionante, tanto as torcidas de clubes quanto também a torcida da seleção, né?

Eu tenho, eu tenho realmente uma admiração muito grande. Essa final, eu acho que ela salva a Copa. Eu acho que ela salva a Copa porque é uma final espetacular, é uma final eletrizante, né, com duas seleções excelentes, né, e que são excelentes até hoje, e que tem um desempenho nas últimas competições, um desempenho extremamente positivo. Lembrar que a França foi campeã em 98, campeã 2018, vice em 2006, vice em 2022. A Argentina, vice em 2014, campeã em 2022.

Então essas duas, e nesse momento, nesta Copa atual que a gente tá vendo, espontâneo, despontando as duas seleções com desempenho bastante bom, né, e fazem parte, né, se constituem aí nas seleções favoritas, né, apontadas como favoritas para Copa. Além dessa, dessa, dessas, do desempenho coletivo dessas seleções, dois atletas que despontam, né? Obviamente o Messi. E o que me chama atenção no Messi, se eu falei um pouco da ostentação desses atletas, né, dos atletas brasileiros, não que o Messi não seja também um milionário, né, também não esteja nesse rol, mas o Messi é mais discreto.

E ser discreto neste mundo já é uma virtude. Então, apesar do Messi ter apertado a mão do Trump, eu vejo no Messi uma postura um pouco menos deselegante do que eu vejo nos atletas brasileiros. E o Mbappé que além de ser um extraordinário jogador, ele tem um posicionamento político e social muito consistente. Então eu chamo atenção para essas duas seleções, a qualidade técnica dessas duas seleções, e dois principais atletas dessas seleções que despontam, né, que despontam no cenário do futebol mundial, né.

Então essa final é maravilhosa. E só para fechar aqui, além da vida acadêmica, eu tenho uma vida boêmia. Eu tenho um bar de vinhos aqui em São Paulo e tem várias coisas aqui que ornamentam o bar, né? E tem a imagem de um único atleta de futebol, e não é nenhum atleta brasileiro. Isso causa algum, alguma discussão, alguma polêmica. Eu tenho uma foto do Maradona, que não era discreto, né? Eu falei do Messi, mas o Maradona tinha uma questão interessante, que era o posicionamento dele, né?

E aí, apesar também de um deslumbramento, apesar de uma vida também suntuosa, ostentatória, um posicionamento político e uma sensibilidade em relação à desigualdade social. O que é óbvio, né, me chama atenção, portanto, na cultura do futebol francês e na cultura do futebol argentino. E aí a cultura, tanto a cultura torcedora quanto a cultura dos atletas, é que essas questões sociais E essas questões políticas, elas aparecem ainda hoje com muita frequência, né?

Ao contrário do que nós temos que buscar garimpar no futebol brasileiro, representantes de treinadores, atletas, e mesmo nas torcidas, né? A gente tem movimentos de torcidas, de coletivos de torcidas que se posicionam de uma maneira interessante, mas não chega perto da consciência política e do papel que a torcida argentina tem, por exemplo, em relação à ditadura argentina, o posicionamento crítico que eles mantêm. Então eu diria que esta final, né, entre França e Argentina, além do futebol magnético, eletrizante, foi uma final maravilhosa, maravilhosa, de você não conseguir piscar o olho, você não conseguir levantar da poltrona e ficar vidrado ali, né.

Além disso, eu acho que tem um repertório de uma cultura do futebol que é, que tem que ser observado, tem que ser explorado, né. E nesse ano, nesta Copa atual, 2026. É interessante notar que isso aparece, né, tanto individualmente nesses dois atletas que disputam não só artilharia, né, artilharia do campeonato masculino na Copa Mundial de Seleções masculina, mas disputam mais do que isso. Eles inscrevem esta reflexão, esse futebol mais reflexivo, é que se distancie um pouco desse futebol ostentação que me incomoda tanto.

ITIsabela Topfer

Bom, agora é a hora do quadro Leme Indica, no qual recomendamos livros, filmes e séries. No Passes e Impasses, nossos convidados participam e você fica por dentro dos conteúdos relacionados ao tema de cada episódio. Então, Flávio, qual é sua indicação para os nossos ouvintes sobre o tema de hoje?

FDFlávio de Campos

Então eu não teria uma indicação, eu vou ser aqui bem, vou fugir um pouco a regra, não tem uma indicação sobre o tema de hoje, né? Não sei se apareceu isso já em outros podcasts, mas eu fiquei impressionado com aquela série da Netflix sobre a Copa de 70, né? O Brasil 70, a Saga do Tri. Sobretudo pela reprodução das jogadas, né? Jogadas. Eu falei para vocês aqui, o meu letramento se deu naquela Copa de 70, né? E o meu letramento se deu, e eu sei disso, eu tinha 7 anos, eu sei disso porque eu consegui reproduzir para o meu pai, que não pôde assistir.

Meu pai tava trabalhando, meu pai era operário, tava trabalhando, e ele ouviu a primeira partida contra a Tchecoslováquia pelo rádio, não assistiu. E eu lembro meu pai chegando em casa e eu consegui reproduzir para ele os gols, tanto o gol da Tchecoslováquia quanto os gols do Brasil, e sobretudo aquele gol do Pelé, que é maravilhoso. Pelé recebe o lançamento, mata no peito, a bola cai no chão e ele troca de pé. E bate para o gol.

Eu tô falando isso porque me impressionou a eficiência nessa, nesse documentário em reproduzir jogadas da Copa de 70, os gols do Brasil e as jogadas da Copa de 70. Óbvio que algumas são mais difíceis de fazer, por exemplo, aquela defesa do Banks. Na partida contra a Inglaterra, que foi a partida mais difícil da Copa de 70, aquela cabeçada do Pelé, é quase ali na pequena área, cabeceia para baixo no cruzamento do Jairzinho, cruzamento forte, uma paulada, Jairzinho dá uma paulada ali na linha de fundo para trás, o Pelé sobe, cabeceia, e o Banks vai buscar lá embaixo e evita o gol do Brasil.

Essa jogada não sai, ela é reproduzida nessa série, ela não sai exatamente, é muito difícil, mas ela sai muito próxima do que foi a jogada. Então não gostei dos diálogos, da maneira como aparecem os atletas, um pouco de caricatura ali do Pelé, do Gerson, do Tostão. Eu vi alguma coisa um pouco fora, umas discussões políticas que evidentemente não ocorreram, não aconteceram ali no ambiente da seleção, mas uma caracterização do Saldanha pelo Rodrigo Santoro maravilhosa, né?

O Adnet maravilhoso como locutor esportivo. Então o Bruno Mazeu como Zagallo, maravilhoso, né? Então essa série é uma série encantadora. Livro, eu vou fazer um merchan aqui do livro que não vai, ela não fala da Copa de 22, mas fala de futebol, que é um livro que eu e o professor Luiz Henrique de Toledo acabamos de publicar. Chama-se Futebol na Ponta da Língua: Antropologia e História. Nós conversamos sobre diversos temas relacionados ao futebol e convidamos algumas pessoas para— eu tô até com ele aberto aqui, daqui a pouco eu mostro a capa— convidamos alguns pesquisadores, alguns colegas para dialogar conosco.

Né? Então eu quero lembrar da Leda, da Leda Maria da Costa, que veio discutir conosco relações de gênero, né, num capítulo que nós discutimos a questão das mulheres no futebol. O Wagner Xavier de Camargo discutindo a questão da homofobia e da transfobia no futebol. O José Vinci de Moraes, meu colega aqui no Departamento de História, trabalhando sonoridades e música no futebol. O Danilo Pássaro e a Cíntia Lima Araújo dos Santos, dois negros militantes dos movimentos negros, discutindo a questão do racismo no futebol conosco.

E um outro carioca, torcedor do Fluminense, o Dinaldo Alshorn, meu querido amigo, que veio discutir política conosco, né. Então esse é um livro que Nós fizemos com carinho. Aproveito para agradecer a Leda e aos colegas que participaram. E a capa dele tá aqui, né, bonitinho aqui com essa meio moniane aqui, uma capa bonita toda colorida. Então fica meu merchan para— e fala para Leda que o livro dela tá chegando, vai. A gente vai ou mandar em mãos ou vai levar em mãos para ela. Ou vai mandar para o correio. O livro dela acabou de sair, Flávio.

JBJúlya Braga

Então parabéns pela sua produção. A gente já conseguiu acompanhar pelas redes sociais. Mas para a gente encerrar com chave de ouro, chegou a pergunta que já virou uma tradição aqui nas séries das Copas do Mundo que a gente acabou criando, para entender a expectativa do entrevistado para atual Copa do Mundo, que inclusive hoje acontece mais um jogo da seleção brasileira, Escócia. E olhando para essa Copa de 26 que a gente tá acompanhando no momento.

Quais são suas expectativas para a seleção brasileira nessa edição? Apesar de você já ter explicado um pouco, mas a gente queria ouvir mais sobre isso. E até aqui, se existe alguma outra seleção, jogador ou alguma história que já tenha te surpreendido.

FDFlávio de Campos

Olha, eu, eu, nessa atual Copa, evidentemente a minha expectativa é que a gente não seja humilhado. Eu o meu programa aqui é mínimo, né, é que a gente mantenha um pouco da dignidade, né, e que a gente consiga. Eu vou torcer para o Brasil, eu não consigo não torcer pelo Brasil, né, isso é impossível. Mas que a gente mantenha o mínimo de respeitabilidade futebolística, né, e que a gente vá até onde der para ir. Eu acho que mais importante do que a conquista é a reflexão sobre o percurso.

Então, o que me parece que a minha expectativa maior é que a gente reflita sobre a situação do futebol brasileiro, né, e que a gente aproveite o desempenho dessa seleção com as suas contradições, os problemas, para a gente pensar isso, e que a gente não caia numa prática de xenofobismo. É que a gente não ataque o Ancelotti. O meu companheiro aqui, o Luiz Henrique de Toledo, chama de Lancelote, que é ótimo, né? É bem a demanda do Santo Graal, é bem essa coisa assim do ciclo arturiano.

E que a gente não responsabilize o Ancelotti ou um jogador, mesmo que seja o Neymar, que a gente não crucifique o Neymar, né, em função de questões que são estruturais no futebol brasileiro.

ITIsabela Topfer

Brasileiro.

FDFlávio de Campos

Então minha expectativa, ela é essa, né, é que a gente jogue com dignidade e que a gente pense a nossa, o nosso desempenho nessa Copa. Evidentemente algumas seleções estão chamando atenção. Eu confesso a vocês que só me tirou da cadeira, a única seleção que me fez sair da cadeira e pular e torcer e xingar Foi Cabo Verde. Então Cabo Verde mexeu comigo, né, de uma maneira impressionante. A minha companheira olhava para mim e falou assim, mas nem jogo do Palmeiras você fica assim, né?

Então eu esperniei, xinguei, torci muito, tenho torcido muito, e acho que é muito bonito ver. E aí é uma Copa com um número absurdo de seleções, mas tem um detalhe interessante, que é a possibilidade mais inclusiva, né, de algumas seleções que não estariam com Copas, com seleções com número menor, não poderiam estar, não poderiam jogar, né. Então Cabo Verde me chama muito atenção, acho muito, muito gostoso ver. Tenho assistido a tudo que dá.

Para assistir. E evidentemente reforço, né, gosto muito do futebol da Argentina e gosto muito do futebol da França, né. E a França, se o Brasil não for muito longe, a minha torcida maior vai ser pela França, sobretudo porque é uma, é uma seleção que joga muito bonito, tem vários craques ali, e isso é muito gostoso de ver. E tem uma reflexão política e social que traz, e é uma seleção multicultural num país que também é ameaçado pela extrema-direita.

Então, o sucesso de uma seleção como a francesa tem significados para além do futebol, né? E falo isso hoje, e para fechar mesmo, juro que eu paro de falar, um dia após a panteonização do Marc Bloch pela França. Ontem o historiador Marc Bloch foi integrado ao Panteão dos Heróis Franceses numa cerimônia lindíssima. Eu tive a oportunidade de participar de um colóquio sobre o Marc Bloch agora em maio deste ano. Ocorreram alguns colóquios internacionais com a presença dos familiares do Marc Bloch, a neta do Marc Bloch, a Suzette Bloch, que é casada, particularmente ela é casada com um brasileiro.

E ontem ocorreu essa cerimônia lindíssima de panteonização não só de um dos maiores historiadores franceses e dos historiadores contemporâneos, um dos fundadores do movimento dos Annales, um dos grandes contribuidores para a metodologia da história contemporânea, mas sobretudo um cidadão que foi da resistência francesa e que foi, enfrentou os nazistas durante a ocupação alemã e que se colocou contra, né, o fascismo, contra a extrema-direita na França e foi fuzilado.

Foi morto pelos nazistas durante a ocupação alemã. Então, em homenagem ao Marc Bloch, em homenagem a essa seleção multicultural, até onde for o Brasil, vou com o Brasil. Depois eu vou com a França.

JBJúlya Braga

Então é fim de papo no Passes e Impasses. Obrigada, Flávio, por aceitar o convite e apresentar tantas informações importantes aqui hoje. Eu confesso que foi muito importante para a gente enxergar uma Copa do Mundo sobre o seu olhar. Então muito obrigada por estar aqui hoje.

FDFlávio de Campos

Eu que agradeço, fiquei muito, muito contente com o convite, honrado com o convite. Espero que tenha contribuído de alguma maneira.

ITIsabela Topfer

Muito obrigada, Flávio, por participar, por dar tanto conhecimento assim para gente. E bom, Passes em Pates é uma realização do Laboratório de Estudos em Mídia e Esportes, com coordenação geral de Ronaldo Elau e Fausto O episódio de hoje teve o roteiro e a produção de Júlia Braga e a edição de Gerson Pinto. Nosso programa é lançado na última quarta-feira de todo mês. Esperamos vocês no próximo episódio.

JBJúlya Braga

Valeu pela audiência! Gostou do episódio de hoje? Então aproveita e segue a gente lá no Instagram e no YouTube no @lemewerg e acompanhe os textos do nosso blog lemewerg.br. Passes e impasses, o esporte como você nunca ouviu.