BERNARDO: 'FALTA PERSONALIDADE NOS JOGADORES DE HOJE EM DIA. ME IMPUS POR ONDE PASSEI'
'Um dos melhores volantes que treinei. Vigoroso, técnico, inteligente. Tanto que foi para o Bayern, da Alemanha.'
Telê Santana
'Ele era fo... Anulava o melhor adversário. Na bola e no peito. Não tinha conversa. Na final da Copa do Brasil, o Felipão não deixava os adversários aquecerem no gramado. Trancava a porta que dava acesso ao campo. E colocava dois seguranças. O Bernardo não quis nem saber. Quebrou a porta. Foi para cima dos seguranças, que fugiram. Aquecemos no gramado e fomos campeões contra o Grêmio no Olímpico. Bernardo jogava para ca... E ninguém botava banca com ele."
Marcelinho Carioca
Bernardo Fernandes da Silva exala carisma, liderança e personalidade forte, aos 61 anos, como mostrou durante toda a sua carreira. Segue o mesmo com a imprensa. Sério, sabe que teve uma carreira não só vitoriosa, como pioneira. Enfrentou com firmeza todo o racismo da Alemanha reunificada. Mesmo tendo sido comprado pelo clube mais rico, mais poderoso, o Bayern.
"Sou negro, com orgulho. Nunca admiti que racista nenhum me humilhasse. Na Alemanha, na Holanda. Por onde eu passei. Assim como no Brasil. Que ninguém se engane. O país segue sendo muito racista."
Dentro do campo, Bernardo teve uma carreira invejável. "O futebol mudou minha vida. Me fez crescer financeiramente e como pessoa. Eu era 'almoceiro', entregava almoços, de cavalo, para as pessoas que trabalhavam na roça, na fazenda, no Interior de São Paulo. Conheci o mundo graças ao futebol. E pude ter acesso à cultura, entender como o mundo funciona. Principalmente para os negros."
Bernardo era um volante que tinha excelente visão de jogo, técnico, ótimo no cabeceio. Mas ganhou fama como marcador. 'Não dava espaço mesmo. O futebol permitia, nas décadas de 80 e 90, maior contato físico. E eu chegava mesmo. Protegia a zaga. Não dava brecha.' Se destacou na Francana. De lá, surgiu o Marília. E o São Paulo ganhou a concorrência do Corinthians. 'Meu pai, que tinha uma personalidade mais forte que a minha, tinha fechado com o Corinthians. Mas o Vicente Matheus deu um 'chá de cadeira' de horas para atendê-lo. Ele esperou e fez questão de dizer ao presidente que eu não ficaria no Parque São Jorge. Por falta de respeito com ele, pelo Matheus não ter nos recebido no horário. Fui muito feliz no São Paulo, com o Cilinho. Montamos um time fantástico. Depois com o Telê Santana. Não fiquei para as Libertadores e para os Mundiais porque o Bayern me comprou."
Na Seleção Brasileira, teve uma passagem marcante. "Era o melhor volante do Brasil. O Carlos Alberto Silva me chamou para o Pré-Olímpico. Mas ele preferia um outro, o Douglas. O que era uma injustiça. Douglas acabou expulso. E o Carlos Alberto me falou que eu iria jogar. Veio me abraçar. Não aguento falsidade. E o empurrei. Joguei. E muito bem, um dos melhores da Seleção. Conseguimos a vaga. Mas nunca mais fui convocado."
Marcante também foi seu retorno ao futebol paulista, depois do Bayern, América do México, Vasco. "Estava com 30 anos e cheguei desacreditado. Falaram que eu estava acabado, pela idade. O que me deu mais vontade ainda de vencer. Fui titular e peça importante para a Copa do Brasil, o Paulista e o Ramón de Carranza."
Depois do final de carreira, Douglas se tornou um empresário importante. E agora trabalha com atletas do exterior, preferencialmente negros. "Eu sei as dificuldades que vivi e procuro orientar os jovens jogadores para se fortalecerem e enfrentar esse mundo do futebol que é muito cruel."