Eles Comiam os Inimigos: A Antropofagia Indígena no Brasil
O que realmente acontecia nos rituais antropofágicos do Brasil Colônia? Neste vídeo, mergulhamos na história profunda e muitas vezes incompreendida dos rituais indígenas. Vamos desmistificar o "canibalismo" e entender a visão espiritual e social por trás da prática de comer carne humana. Como os exploradores europeus reagiram? Qual era o verdadeiro significado para os povos nativos?Prepare-se para uma aula de história sem filtros sobre um dos temas mais polêmicos do nosso passado.🚀 NÃO CLIQUE AQUI!
00:00 - Introdução: O imaginário sobre a antropofagia 01:45 - O que os livros de história não te contaram 03:15 - Antropofagia vs. Canibalismo: Entendendo os termos 05:30 - A organização social das tribos no Brasil07:40 - Relatos europeus: Medo e fascínio no "Novo Mundo" 10:10 - O papel do guerreiro na cultura indígena 12:20 - O início do ritual: A captura do inimigo 15:05 - Como o prisioneiro era tratado antes do ritual 18:55 - O caso Hans Staden: Sobrevivendo ao banquete 22:15 - A execução: O golpe final e o significado da vingança 25:10 - O preparo e a partilha da carne entre a tribo 28:30 - A reação jesuíta e a proibição das práticas 31:45 - Legado cultural e a Antropofagia no Modernismo 32:50 - Conclusão e seu comentário: Por que estudar isso hoje?📢 NOS AJUDE A CRESCER: ✅ Inscreva-se no canal para mais conteúdos épicos de história. 👍 Deixe seu Like se você gosta de curiosidades históricas. 💬 Comente abaixo: Você já conhecia a história de Hans Staden?🔗 ASSISTA TAMBÉM: Primeira Favela do Brasil: A História do Morro da Providência#ResenhaEpica #HistoriaDoBrasil #Antropofagia #CulturaIndigena #CuriosidadesHistoricas #BrasilColonia
Felipe Sampaio
Raul Trindade
- Antropofagia Funerária IndígenaGuayaqui·Yanomami·Wari
- Antropofagia Guerreira IndígenaTupinambás·Tupiniquins·Hans Staden
- O Caso do Bispo SardinhaBispo Sardinha·Caetés·Bispo Leitão
- Antropofagia vs CanibalismoAntropofagia·Canibalismo
- O Relato de Hans StadenHans Staden·A História Verdadeira
- Os Goitacás e a AntropofagiaGoitacás·Campos dos Goitacazes
- Antropofagia na Semana de Arte ModernaSemana de Arte Moderna·Movimento Antropofágico
Quem eram os guerreiros indígenas comedores de gente que os portugueses encontraram por aqui em 1500?
Quais eram os segredos e mistérios dos rituais canibalistas antropofágicos praticados pelos nossos indígenas muito antes do Cabral chegar por aqui?
Eu sou Felipe Sampaio.
Eu sou Raul Trindade.
Bem-vindos ao Resenha Épica!
Já quero começar mostrando minha camisetinha aqui que tá fora aqui do Mostre do The Smiths, do Smiths Murder, né? Camisetinha oficial de ir para o churrasco.
O Morro não gosta muito de churrasco, né, cara?
Pô, ele é um ativista aí pelos direitos dos animais.
Eu descobri recentemente, tem nada a ver com a parada, mas já que você trouxe a camisa aí, eu descobri recentemente que tipo a maior parte das músicas do The Smiths que eu curtia na verdade era do Morrissey. Tipo, Des Mis acabou em, sei lá, em 87, sei lá, durou o quê, 2, 3 anos só.
O cara era difícil, né? Não deu muito, não durou muito tempo.
Mas o que que isso tem a ver com canibais indígenas, canibais no Brasil?
Eu acho que todo mundo já ouviu falar dessas histórias, né, dos indígenas que eram devoradores de homem. É bom falar que nem todas as tribos praticavam esse hábito aí de comer outros seres humanos, mas muitas delas praticavam aqui no Brasil. E é sobre isso que eu quero falar hoje, porque, cara, esse é um assunto que me fascina muito, esse lance da antropofagia, do canibalismo. Aliás, você sabe a diferença, Felipe?
Cara, antropofagia, eu achava que eram sinônimos, mas já que você perguntou, não são. Certo, então eu chutaria que os dois são comer gente de maneira literal, de maneira literal. Eu chutaria que é o motivo, sim, sim, para os dois, sim.
De fato, antropofagia não presume assim você matar a fome ou praticar o canibalismo com a intenção de saciar a fome. Antropofagia tem a ver com ritual místico, religioso, com todo um procedimento ali que tem um intuito muito mais energético assim do que exatamente matar a fome.
Basicamente, que os indígenas brasileiros eles não matavam para se alimentar, até porque a oferta de comida era muito grande, né? Mas é, a gente, eu sempre, sempre tive essa imagem de indígenas que comiam pessoas, principalmente porque lá no fundamental a gente já tem, quando a gente começa a ter descobrimento do Brasil, 1500, a gente vê aquela foto, aquela foto não, aquele quadro, né, aquela imagem ali, tu acha que Todos os livros de história de ensino fundamental têm aquele, aquela gravura ali de indígenas fazendo um churrasco de português, né?
A criança com o braço assim dando uma mordida, uma grelha assim sobre o fogo e vários pedaços retalhados ali de pessoas ali assando.
Esse tipo de imagem, se ela não é contextualizada, a gente imaginava que os cara tinha açougue, né, de gente lá. Ia lá e, ah, me dá 1 kg de braço aí.
Mas porra, não, e serve muito também para esse discurso, né, de que o europeu chegou aqui para salvar essa terra selvagem, né, cara. Esses dias eu postei lá no Instagram. Quem não está seguindo a gente lá no Instagram, siga, tá? A gente posta várias paradas maneiras ali, posta vários memes ali. Pessoal lá gosta mais de meme, né? Quando a gente posta os episódios novos não tem tanto sucesso como quando a gente bota um meme histórico ali, mas Inclusive eu tinha feito um meme, cara, fazendo uma brincadeira ali com a chegada dos europeus em Ceuta, né, todos felizes ali porque Ceuta era muito próximo e era um caminho, né, para o resto da África, né, que tava ali próximo.
E agora eles estão extremamente tristes com a proximidade dos marroquinos em Ceuta, né. E a enxurrada de brasileiro defendendo europeu foi gigantesca. E uma das coisas que me chamou atenção ali, uma, um dos comentários que a gente recebeu ali foi um brasileiro dizendo, pô, você tinha que agradecer aos espanhóis e portugueses por não ser canibal hoje. Olha só, cara.
Também.
Muito obrigado, portugueses, por eu não estar comendo um braço de um ser humano agora, cara.
Mas essas práticas canibais, assim, comer outro ser humano sempre vai ser canibalismo, nem sempre antropofagia, né? Mas essas práticas, às vezes elas existiram.
É só às vezes quando você come outro ser humano é só porque o seu avião caiu nos Andes. Pesado, né? Pesado.
Mas eu acho que o pessoal vai pegar essa referência aí. Mas, ô, também tem lá os peregrinos que fundaram os Estados Unidos, né? Existem indícios que eles tenham tido práticas canibais por causa da escassez que eles viveram. Mas, cara, basicamente várias sociedades, cara, tô interrompendo toda hora agora, desculpa.
Mas, mano, tem uma série que eu vi recentemente no Apple TV Widows Bay, a Baía da Viúva.
É tipo MasterChef com gente de cozinhar?
Não, não, não, é assim, é uma história de terror e comédia, cara, é muito bom. É uma parada meio, tem uma ambientação meio Stephen King assim, só que tem uma comédia muito maneira. E assim, é uma ilha que é amaldiçoada lá nos Estados Unidos justamente porque na época dos peregrinos Os peregrinos não tinham comida, ficaram presos nessa ilha, não tinham comida e chegaram a esse ponto até do canibalismo tal, e fizeram um pacto com o diabo.
Cara, vale muito a pena assistir, muito maneiro. É só isso, boto fé. Parei, prometo que agora eu parei.
O que eu ia colocar é que, cara, isso não é coisa de só dos nossos indígenas brasileiros não, velho. Várias culturas aí mundo afora tiveram em algum momento da sua história práticas antropofágicas. E vale lembrar, por exemplo, da mitologia grega, que tem lá o Saturno que devorava os seus filhos, né?
Que, cara, tem uma pintura disso também muito chocante, né, cara? Que é foda para caramba, é sinistra, sinistra.
Não deixa de ser uma referência aí ao canibalismo, né, na cultura clássica grega. Mas voltando aqui para as terras brasileiras, Existiam dois contextos, cara, dessa, desses rituais antropofágicos. Um contexto seria antropofagia funerária e o outro seria antropofagia guerreira. E aí, um exemplo desses povos indígenas que praticavam a antropofagia funerária são os Guayaqui, os Yanomami e os Wari. E aí, quando eu falo assim antropofagia funerária, o que que vem à sua cabeça, Felipe Sampaio?
Funerária, então me remete a ritos funerários, né? Então as celebrações que acontecem quando alguém falece. Então eu imagino que isso aí era quando a vovó morria, falecia ali, a família devorava ela. Era isso, cara?
Não era exatamente devorar, porque normalmente eram pequenos pedaços ali de carne que eram consumidos, mas sim fazia parte desses povos essa coisa de se alimentar ali da carne, né, de pessoas que morriam ali daquele povo, daquela determinada etnia. E cada povo vai ter ali sua característica, né. Os Wari também praticavam antropofagia guerreira, que é você devorar um inimigo com o intuito de adquirir ali as qualidades, a força, a coragem que aquela pessoa tinha.
Mas os Guayaqui, por exemplo, tinham o seu ritual muito específico em que essa carne ela era proibida para os parentes próximos, por exemplo.
Então quando a vovó morria, todo mundo comia menos a família. Não pode comer a vovó.
Era exatamente, eles cozinhavam o corpo ali no muquem, né, que seria ali uma estrutura de madeira, e aí comiam ali pedaço da carne, mas os ossos eram descartados. Já os Yanomami, eles faziam quase que o contrário. Havia um processo ali funerário em que o corpo era decomposto pelos animais da floresta, formigas, na verdade pelos vermes e pelas formigas, né? E aí com os ossos era feito, que eram triturados ali, era feito uma pasta com uma coisa que eu vou chamar de creme de milho assado, porque se eu chamar de pamonha, acho que eu vou ter uma certa resistência.
Pamonha com osso da vovó, pamonha recheada de vovó. É essa, essa é a imagem que você traz para os nossos ouvintes agora, cara.
Na verdade, era os Wari que fazia esse negócio com creme de milho. Os Yanomami eram com banana e outros tipos de vegetais, carne mesmo.
Não, mas eles consumiam os ossos de carne.
É, os ossos com esse purê de bananas. Quem consumia lá a pasta de milho era na verdade os Wari. Eu fiz uma pequena confusão aqui, foi mal. Mas, cara, o massa da história desses indígenas é que eles praticavam esses rituais funerários, né, no caso dos Wari, até a década de 1960, cara. Até um dia desse, eram esses que as mulheres preparavam ali essa pasta de milho cozido, e aí pequenas, pequenas, pequenos pedaços de carne desfiada do cadáver eram consumidos.
E aí eles tinham, acredito, acredito que isso era um ritual feito escondido, né, cara? Porque não é possível. Porque assim, a gente sabe que questões religiosas assim, né, em questões religiosas se abrem muitas exceções, né? Mas eu acho difícil alguém abrir uma exceção no caso de, pô, canibalismo, né, para alguma religião. Não é possível.
Ah, sim. Um dos motivos desses povos terem parado com as práticas antropofágicas é a questão religiosa, a questão da aculturação religiosa. E também outro motivo é porque principalmente antropofagia guerreira se devorava os inimigos, né? E assim, a cultura do homem branco conseguiu dizimar as populações indígenas de maneira que não existem mais esses inimigos, né? Os inimigos somos nós. Se pudessem, eles nos devorariam, tenho certeza.
Mas, cara, para a gente finalizar lá sobre o Zuari, tem um aspecto que eu acho muito interessante, é que eles esperavam os parentes próximos que talvez estivessem distantes chegar para que o ritual fosse feito. E muitas vezes aquele corpo já começava a apodrecer, e isso era até de propósito para que as pessoas não se banquetassem ali daquele momento, né? Até era mal visto você fazer aquilo com a intenção de encher a barriga, era de fato uma uma casquinha ali, um pedacinho ali que era consumido.
Não é para se infantilizar com a vovó, pelo amor de Deus.
Tu tá na fixação com a vovó, cara. Porra, os parentes próximos não podiam participar, mano, do bagulho.
Mas era vovó de alguém.
Cara, os Wari também praticavam a antropofagia guerreira, que era trazer os inimigos derrotados, né, parte dos inimigos derrotados para que fosse consumido. E aí já era com o intuito mais de absorver a energia, né. Só que a gente tem alguns relatos, cara, sobre antropofagia guerreira que são muito mais complexos e mais bem detalhados por causa dos caras que viveram ali junto aos povos indígenas. E quando a gente pensa assim nessa antropofagia guerreira, normalmente vem os rituais dos tupinambás e dos tupiniquins, muito por causa de um cara que chamava Hans Staden. Você já ouviu falar dele?
Eu acho que eu já vi um livro sobre o relato desse cara aí, mas eu não tô lembrado não qual é.
Pô, ele foi um alemão que ali pelo meio do século 16, lá em 1550 alguma coisa, Ele conseguiu naufragar duas vezes no litoral brasileiro. E aí ele ficou trabalhando ali para o reino português em Bertioga, em São Paulo. E aí um dia ele foi capturado pelos Tupinambás enquanto ele tava caçando algum animal ali para se alimentar. E aí tinha aquela, né, os Tupinambás se aliaram aos franceses e os Tupiniquins se aliaram aos portugueses.
Os Tupinambás que eram ancestralmente inimigos, né. E aí acabou que os europeus aproveitaram essas rivalidades. Aí, como Hans Staden tava ali a serviço de Portugal, ele foi capturado como prisioneiro dos Tupinambás. E ele não foi devorado por ser covarde.
Aí eu prefiro ser covarde também, cara. Melhor viver como covarde do que ser devorado como corajoso, cara.
Pois é, cara. O Hans Staden talvez seja o cronista mais famoso assim, mas também teve o Jean de Léry, dentre outros caras, como o Pero Gândavo. Que estiveram aqui pelo Brasil no século 16 e que testemunharam os rituais antropofágicos. Só que esses caras, eles costumam exagerar bastante quando eles escrevem a respeito, e eles também têm aquela ideia preconceituosa, né, aquela visão europeia, né, sobre cristãs, sobre esses povos.
Mas o interessante do livro do Hans Staden é que ele chama A História Verdadeira Parece que nem contestar.
É, cara, o prefácio também, eu juro que é verdade, é verdade isso aqui, pessoal.
Você tem que acreditar, a história é verdadeira, hein?
Não, com esse título aí ninguém nunca vai duvidar.
É, então no prefácio também tem o cara que escreve o prefácio, fica falando: não, ele é muito confiável, eu tenho certeza que ele viveu isso aí tudo que ele tá falando.
Isso aí, isso aí me parece Aqui me parece aquele cara mentiroso da rodinha que sempre puxa alguém. É verdade, pô, pergunta para o fulano. Ô fulano, não foi não? Mas cara, eu vou te falar, é essa questão de devorar o inimigo. Eu me lembrava que a gente tinha estudado isso até na escola mesmo. Eu lembro de um livro Acho que é do Gonçalves Dias, que é o Ijuca Pirama.
Ah, ideia!
Ijuca Pirama quer dizer aquele que deveria morrer. Ijuca Pirama é um guerreiro, se eu não me engano tupi, não sei, que ele é capturado numa guerra ali por outra tribo, e quando ele vai ser morto Ele chora, ele começa a chorar porque ele fala assim, lembra dos parentes, né? É, o meu pai é cego. Acho que era o pai dele que era cego. Eu tenho que tomar conta do meu pai, não sei o quê. Aí os cara soltam ele, pô. O cara fala assim, sai daqui, não quero te comer não, não vou te comer não, porra.
Caraca, vá para, some, vá para casa. Aí ele, aí ele chega em casa, aí vai lá, abraça o pai e tal. Ah, pai, voltei. Aí o pai dele fica sabendo e ele fica furioso.
Era motivo de vergonha, cara.
Você desonrou na sua família, você deveria— aí ele chama ele de Juca Pirama— você deveria morrer. Aí o Juca Pirama, não sei qual é o nome original dele, então vou chamar ele assim, o Juca Pirama, ele fica tão envergonhado que ele volta Ele volta lá para o inimigo e pede para ser morto e devorado.
Pois é, cara, se não fosse morto em combate, o que era honroso para o indígena tupi era você ser devorado num ritual antropofágico, cara. Isso era motivo de orgulho para os caras. É muito doido porque os tupiniquins e os tupinambás eram primos, né, se entendiam, falavam ali uma língua próxima, tinha uma religiosidade próxima, mas eram inimigos mortais, né, uns dos outros. E praticavam inclusive rituais parecidos.
E um guerreiro, se você for parar para pensar, né, a gente, eu já ouvi muito isso, cara, tanto de indígena quanto dos povos africanos. Mas eles mesmos se matavam. Ah, mas eles não eram unidos, meu irmão. Olha o tamanho do Brasil, imagina quantas tribos diferentes tinham ali. Olha o tamanho da África, gigantesco tamanho da África, olha quantas tribos diferentes tem ali. A Europa é isso aqui e os cara vivem brigando, pô, desde sempre.
Pois é, a humanidade sempre teve guerra, independente qualquer cultura, qualquer lugar. É, agora, porra, os indígenas passaram aqui, os tupinambás e tupiniquins, séculos, pô, em guerra. Os caras não se dizimaram, né?
Normal, como qualquer ser humano, pô.
É, a guerra de extermínio é outra coisa, né, que foi o que foi praticado aqui pelos europeus. Mas, porra, para um guerreiro tupinambá ou tupiniquim, o que ele queria era capturar o inimigo vivo em combate. Era subjugar ali aquele inimigo com os ferimentos que ele pudesse sobreviver, botar a mão no ombro e falar: te capturei, agora você é meu prisioneiro, vou te devorar. Matar o inimigo em combate não era um sinônimo assim de ser um bom guerreiro, né? Era justamente o lance de subjugar.
Imagina no meio do combate, cara, um Maluco mata o outro, vem o amigo dele: porra, cara, caraca, estragando a carne, mano! Leva vivo para ficar mais fresco, pô. Agora vai ter que comer isso aí hoje, vai ter que comer isso hoje. Amanhã já tá ruim já, pô.
Mas sabe que tipo, eles devoravam ali alguns inimigos abatidos em combate para antes de voltar mesmo.
Mas a ideia, se tivesse geladeira Aí não teria esse problema.
Mas não, cara, na verdade tinha que voltar com prisioneiro vivo porque tinha todo ali uma tradição, né, cara? O guerreiro que chegava com prisioneiro, ele ganhava um status, né, de ser forte, de ser respeitado.
E, mano, quando esse prisioneiro chegava na frente, falando sério agora, né, isso foi um dos motivos de ter sido mais fácil tanto os espanhóis quanto os portugueses dizimarem né, principalmente os espanhóis, dizimarem a população indígena, né? Porque em muitos confrontos os indígenas não tentavam matar os invasores, né? Eles tentavam levar prisioneiros. Isso era uma certa vantagem, né, para os caras, além das armas de fogo, que são óbvias, né?
As doenças também. Sim, mas, cara, a gente tem que lembrar, né, que os portugueses passaram anos sendo socorridos pelos indígenas quando chegavam aqui, pelo menos 100 anos, né, do período de colonização. Eles chegavam famintos e doentes, não sabia o que que dava para comer, que água que era boa para beber. Esses indígenas, eles foram até muito simpáticos com os portugueses, os franceses, os holandeses, qualquer europeu que apareceu por aqui, teve ali algum contato com os indígenas.
Muitos sobreviveram porque esses caras mostraram lá o que que dava para comer, né? Então, enfim. Mas porra, o lance dos Tupinambás é que quando eles chegavam ali com prisioneiro, mano, era uma festa, saca? As crianças, as mulheres jogavam frutas, ficavam zoando o cara, mordendo o braço assim, falando: eu vou te devorar!
Imagina o terror, cara.
Não, mas o prisioneiro não tinha medo disso, cara. Eles estavam zoando a cara dele ali, mas ele vivia com dignidade até ele ser ele passava alguns dias vivendo ali, algumas semanas vivendo com os seus algozes, digamos assim. Mas ele recebia uma mulher ali enquanto ele tava, ele era tratado como um convidado de honra. Inclusive, a palavra cunhada e a palavra inimigo é a mesma lá para os Penambás, porque normalmente era a irmã do guerreiro que conseguiu capturar o outro que servia ali como se fosse uma mulher temporária ali para ele.
E aí ele ainda passeava pelas outras tribos mostrando assim, olha o maluco que eu capturei, a gente vai devorar ele, hein. Aí o cara engordando ali, pá. Caraca, mano, e se ele fosse chorão?
É muito bizarro, né, você pensar assim. Mas é cultura, cultura é uma parada muito única, né, sempre, né. Porque se você for parar para racionalizar também, então tanta coisa que essa cultura que é mais próxima da nossa, né, cultura ocidental europeia, tem tanta bizarrice também, né, cara. Tanta gente morria e matava por tão pouco também, né. Cada um tem sua loucura, né, cara.
E esse prisioneiro que era devorado, ele tinha dignidade, mano. Por mais que ele fosse devorado, quando chegava o momento se fazia uma grande festa que esse cara era o centro da festa, pô. E aí ele recebia ali algumas pedras, umas frutas para ele se defender ali, porque começava de novo aquele processo de ridicularização dele e tal. Aí ele era amarrado com uma corda pela cintura, e aí começava um diálogo muito bom, parceiro, que eu fico imaginando na minha cabeça.
O guerreiro que eu havia capturado pegava ibirapema, que era uma espécie de tacape ritual que servia para bater esse inimigo. Só que antes ele falava, olha, eu vou te matar e vou te devorar porque você devorou muitos dos meus irmãos e eu tô me vingando. Nisso que o prisioneiro batia na barriga e falava, eu tô gordo de comer a carne da sua gente, você vai fazer comigo o que eu já fiz demais com seus parentes.
Pois é, já comeu um monte, pô, pode me comer aí, ó, já comi para caramba, tá bom já.
Olha o tanto que eu tô gordo aqui, ó, de devorar teus parentes. E inclusive meus irmãos vão vir aqui e vão te devorar, viu? Vão te capturar e meus parentes vão te devorar. E cara, isso demonstra aquela ideia de ciclo energético, né? Ao devorar esse inimigo, eles estavam retomando aquela força, aquela vitalidade, aquela energia dos parentes mortos anteriormente, devorados lá pelos inimigos. Então tem toda essa questão mística, né?
Essa ideia de fim de ciclo, né? E aí esse, esse cara que tinha capturado o prisioneiro dava uma pancada só na cabeça, de maneira que o prisioneiro era morto. E aí ele ia ser preparado pelas mulheres, né, que preparavam ali o corpo para ser cozido e para ser comido ali pelos, pelos indígenas. E o negócio era tão ferrenho que até os recém-nascidos tinham direito de se vingar, meu amigo. As mulheres que estavam amamentando passavam sangue do cara no bico dos seios para que o bebê também pudesse se vingar.
Então era um troço bem forte assim da cultura. E, cara, dentre os povos que praticavam essa antropofagia guerreira tem os Kaeté e também os Goitakases. Você já ouviu falar da história do Bispo Sardinha?
Bispo Sardinha foi comido também.
A sardinha com esse nome, os indígenas falaram, pô, mano, não dá para perdoar.
Infelizmente, peixe nesse caso é peixe literalmente, né? Literalmente, infelizmente, peixe. Você vai para lata, mano.
O primeiro bispo de Salvador tinha lá como sobrenome Sardinha. Eu acabei não anotando aqui o primeiro nome dele e ele não se deu bem. É necessário, é necessário. O importante era o sobrenome. Ele não se deu bem aqui no Rio de Janeiro. Ele foi o primeiro bispo do Brasil, bispo de Salvador, e ele se meteu em assuntos políticos, acabou tendo que voltar para Portugal. Quando ele está tentando retornar para Portugal com uma comitiva bem numerosa, o navio que ele estava acabou ficando preso ali num banco de areia, num recife, eu não lembro bem.
E aí eles foram atacados pelos caetés, cara. O Bispo Sardinha foi devorado pelos caetés, meu amigo.
Caramba, pois é, comeram sardinha, comeram sardinha.
O mais legal dessa história é que Portugal teve que mandar em cima dele, empanou, né, deu uma empanada, cara. E aí o mais legal é que Portugal mandou outro bispo para o lugar dele. O Bispo Leitão.
Aí os cara tava de meme, pô.
O nome do cara era Leitão.
O cara que escolheu o Leitão para substituir ele, ele escolheu rindo, que não é possível, mano. Comeram leitão também?
Porra, não, leitão acho que não deram conta não, mas eles devem ter pensado, não, isso aí mandaram para a gente devorar só. Mas cara, apesar da gente estar brincando com essa história, isso foi dentro do Picanha que tava na fila. Mandaram, mandaram um com nome de verdura, né, porque os caras eram carnívoros. Mas enfim, mas mano, acabou assim que para os caetés isso não foi nada bom, porque isso justificou Portugal praticar uma guerra justa, né, contra esses indígenas.
E a população dos caetés foi praticamente dizimada após eles terem devorado aí o Bispo Sardinha. Mas, cara, é muito irônico, né? Sardinha depois do leitão. Pois é.
E você falou desse Bispo Sardinha aí, que foi o primeiro, foi o primeiro bispo do Brasil. Foi Salvador. Eu, isso me lembrou de uma história aqui, cara, que eu conheci. Eu moro aqui na esquina de uma estação, uma estação de metrô e uma pracinha que se chama Cardeal Arco Verde. Aí eu fui pesquisar e eu vi que foi o primeiro cardeal brasileiro. Ah, que maneiro esse cara! Primeiro cardeal nascido no Brasil. E ele tinha uma outra ligação com o episódio de hoje.
Ele tinha esse sobrenome de Arcoverde porque ele era descendente de indígenas, e o nome que deram para ele traduzindo para português é Arco Verde.
Ai, que maneiro, né? Maneiro, né?
Eu tive, inclusive eu tive a oportunidade de conhecer a sobrinha neta desse cara, que ela mora aqui até hoje, que tipo botaram, é, botaram o nome da praça aqui, o nome dele, justamente que ele morava aqui, aqui na esquina, entendeu? Ele tinha terras aqui, pô, a família dele. Maneiro, né? Ela, a família tem o sobrenome Arco Verde até hoje. Essa senhora, não vou falar o nome dela, né, mas já é uma senhora bem idosa já e o sobrenome dela é Arco Verde. Maneiro.
Pô, e eu acho que traz aí um outro aspecto da questão do fim dos rituais antropofágicos, que é a catequização, né, dos indígenas, e uma, enfim, né, dessa, das religiões, dos hábitos místicos, rituais das religiões indígenas mesmo, tradicionais. Mas, hein, eu separei aqui um povo aí da terrinha, cara, um povo do Rio de Janeiro, os goitacazes. Já ouviu falar deles?
Campos dos Goitacazes é uma cidade no estado do Rio de Janeiro, longe, longe que meu Deus do céu, nunca fui lá não, cara.
Na prática, esses povos foram empurrados ali para essa região que hoje se chama os Campos dos Goitacazes, mas sim, é uma referência a eles. Eram os caçadores de tubarões.
Caçadores de tubarões?
É, só que que maneiro, só que não era tubarão, pô, era cação.
Mas para o cara, tubarão, pô, é um tubarão. Não é um tubarão que eu não sei nome de tubarão, tubarão branco, sei lá, tubarão-tigre, tubarão-marteiro, sei lá. É, não são desses grandões aí, não é do tubarão de filme. Mas é tubarão sim, pô, um tubarãozinho menor, pô. É igual aqueles que tem no Nordeste também que não morde, né, que supostamente não mordem, não sei.
É, os viajantes lá do século 16 não tinham lá conhecimento assim em biologia marinha, né, então para educação era um tubarão, tá suave. Mas os goitacás, eles usavam colares, né, de vértebras de tubarão, e eram conhecidos por ser guerreiros assim. Os portugueses tinham medo dos goitacás, né. Inclusive, eles foram dizimados pelas doenças e acabaram se espalhando, né, indo mais para o interior do país para conseguir sobreviver. Mas antes disso, eles eram também conhecidos por praticar essa questão da antropofagia guerreira.
E nós sabemos disso porque foram encontrados nessa região que eles habitaram aí no Rio de Janeiro vários sepultamentos, digamos aqui assim, desses inimigos que haviam sido devorados, com características ali de que aquela, de que aquele corpo tinha sido usado num ritual antropofágico, né?
Que aquela pessoa mastigaram o tutano, deixaram lá só isso aí. Esse é o verdadeiro enterro dos ossos, então. Olha aí, é isso, esse é o verdadeiro enterro.
E aí assim, para finalizar, acaba o churrasco, então aí faz o velório, joga ali num canto ali os ossinhos, joga terra Time, acabou. Mas aí, Felipe, para finalizar, assim, nós não somos inimigos, né? Mas eu queria dizer que, pô, seria um prazer assim devorar aí as suas carnes, adquirir as suas forças, sua inteligência, né, sua sabedoria.
Eu acho que no meio do episódio o cara falando que quer me comer, que isso, cara?
Devorar, devorar.
Isso aqui é de família, cara, é um programa de família.
Eu tô falando de maneira antropofágica, cara.
Não é no sentido bíblico. Ainda boa. Ainda bem que a gente tá bem longe então, cara. Ainda bem que a gente tá bem longe. Mas você não ia me devorar não, cara, que eu ia começar a chorar. É como eu disse, a me assasse, a me amarrar, eu já tava chorando. Ah não, por favor não! Escorrendo catarro e tudo.
Não, cara, que é isso. Mas, hein, eu vou deixar aqui um desafio para o pessoal que acompanhou a gente até agora.
Não é comer uma pessoa não, né? Não, não, não.
Lá na Semana de Arte Moderna tem o movimento antropofágico. Será que tem alguma coisa a ver com isso aqui que a gente falou hoje? Quem souber, deixa aí nos comentários. Vou pedir também para o pessoal deixar um like aí no vídeo, se inscrever no nosso canal do YouTube. Também seguir a gente no Instagram, deixa 5 estrelas lá no Spotify, que isso é muito legal para gente. E aquele abraço, pessoal, até a próxima, valeu!