Primeira Favela do Brasil: A História do Morro da Providência
Você sabe como surgiu a primeira favela do Brasil? No episódio de hoje do Resenha Épica, mergulhamos na fascinante e complexa história do Morro da Providência. Descubra como um conflito no sertão da Bahia — a Guerra de Canudos — deu origem ao termo "favela" e como o descaso do governo e as reformas urbanas no Rio de Janeiro moldaram a realidade das comunidades que conhecemos hoje.Neste vídeo, exploramos:A conexão direta entre os soldados de Canudos e a ocupação do Morro da Providência.A diferença entre os antigos cortiços e o surgimento das favelas.A origem da palavra "favela" (que vem de uma planta da caatinga!).O impacto das reformas de higienização de prefeitos como Pereira Passos.A resistência e a cultura que fazem da favela um símbolo de identidade brasileira.Se você gosta de história, curiosidades e quer entender melhor as raízes da nossa sociedade, este vídeo é para você!🚀 Gostou do conteúdo?Inscreva-se no canal para não perder as próximas resenhas!Deixe seu LIKE para ajudar o canal a crescer.Comente: Você já conhecia essa ligação entre Canudos e o Rio de Janeiro?📌 Siga o Resenha Épica nas redes sociais: Instagram: @resenhaepica Spotify: Avalie com 5 estrelas! ⭐⭐⭐⭐⭐Capítulos00:00 Introdução: A origem da favela e a Guerra de Canudos 01:43 O contexto da República e o fim da escravidão 03:03 Cortiços vs. Favelas: Qual a diferença? 05:11 A Guerra de Canudos e o Antônio Conselheiro 07:15 O papel do exército e os canhões Krupp 09:32 Promessas de moradia: A volta dos soldados ao Rio 11:15 A ocupação do Morro da Providência 12:40 As reformas urbanas e o "Bota Abaixo" 15:30 De onde vem a palavra "favela"? (A planta favelheira) 17:30 O dia oficial da Favela: 4 de novembro de 1900 18:50 A conotação do termo e o estigma social 21:28 Higienismo, Osvaldo Cruz e a saúde pública 23:13 A realidade das comunidades hoje e a falta de infraestrutura 26:30 Resistência e o exemplo da Rocinha 29:15 Conclusão: A favela como símbolo de cultura e históriaMorro da Providência, primeira favela do Brasil, história das favelas, Guerra de Canudos, Antônio Conselheiro, história do Rio de Janeiro, curiosidades históricas Brasil, surgimento das comunidades, reforma Pereira Passos, Resenha Épica, história do Brasil.
Resenha Épica
- Guerra de Canudos· SociedadeAntônio Conselheiro·Messianismo Brasileiro·Canhões Krupp·Exército Brasileiro
- Origem da Favela· SociedadeGuerra de Canudos·Morro da Providência·Soldados do Exército·Promessa de moradia
- Origem da Palavra Favela· CulturaPlanta Faveleira·Morro da Favela (Canudos)·Associação com Morro da Providência·Dia da Favela (4 de Novembro)
- Contexto Histórico do Rio· SociedadeRepública Recente·Fim da Escravidão·Migração Italiana e Japonesa·Cortiços
- Reformas Urbanas Rio de Janeiro· SociedadePereira Passos·Bota Abaixo·Avenida Rio Branco·Higienismo
- Conotação Social e Resistência· SociedadeEstigma Social·Orgulho Comunitário·Turismo em Favelas·Rocinha
Quando você ouve a palavra favela, provavelmente você pensa no Rio de Janeiro, morro, tráfico e desigualdade social.
Mas e se eu te disser que essa história começou por causa de uma guerra lá do sertão da Bahia? Eu sou Felipe Sampaio, eu sou o Raul Trindade.
Bem-vindos ao Resenha Épica! Meu amigo Raul, nessa onda que a gente tá aqui de falar de Brasil, especificamente de Rio de Janeiro, né? Para quem não ouviu o último episódio aí do Verão da Lata, né, vamos voltar para o Rio mais uma vez, né, e falar de favela, a primeira favela da história do Brasil, né? Como é que ela surgiu e da onde veio a palavra favela? Mas é válido lembrar que essa história não começa no Rio de Janeiro. Tá, e essa história tem ligação com o episódio que a gente tem aqui no Resenha Épica, que o nosso querido amigo Raul aqui gravou sobre a Guerra de Canudos lá no sertão da Bahia, né, Raul?
É isso aí, o episódio que eu falo lá do Cangaceiro Loiro de Canudos. Mas pois é, impressionante como existe essa relação na história entre causa e consequência, e que como muitas vezes um evento, né, importante, grandioso como uma guerra desencadeia aí marcas tão profundas, né, na história, na sociedade, que continua durando até hoje, né. Estamos falando aí da Guerra de Canudos, lá do final do século 19, que influenciou aí o surgimento da primeira favela, cara, no Brasil.
E daí em diante foi se desenvolvendo essa realidade que nos é bastante familiar hoje em dia.
A gente tava aqui num período de uma república muito recente em que a população tava explodindo, principalmente no Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil na época. Época boa, para quem não sabe. E é o que tinha acabado de acontecer, né? Acabado não, mas há pouco tempo tinha sido, tinha acabado a escravidão, né? Ou pelo menos a legalizada, né, vamos dizer assim. Então muitas pessoas, muitas pessoas que antigamente eram escravizadas, elas foram libertas sem receber terras, sem receber nenhum tipo de auxílio do governo, né.
E elas começaram a se amontoar na capital, nas grandes cidades ali. Isso fora as migrações, né, principalmente de vários italianos, japoneses, chineses, né, que chegavam aqui na costa brasileira. Isso, isso tudo ia criando uma massa, né, de pessoas pobres ali que não tinham condições de ter uma casa, de ter terra para trabalhar. Isso gerar— isso gerou vários cortiços no centro do Rio, né? Mas vale lembrar que os cortiços, eles não são favelas.
Ah, é verdade. Exatamente, não é a mesma coisa. Nesse momento aqui já existiam cortiços, mas não existiam favelas. Que que eram os cortiços? Para quem não leu aquele livro lá, que muitos foram obrigados a ler na escola, é o Basquiat. Pô, que isso, cara, é muito bom! O Cortiço, cara, eu nunca li. De Aloysio de Azevedo. É realmente bom, cara, juro para você, é realmente muito bom. Assim, vale muito a pena.
Tinha uma preguiça de ler essas paradas de literatura que a professora dizia que a gente tinha que ler.
É porque era obrigado. É, pois é, é porque era obrigado. E assim, eu acho que muita coisa a gente era obrigado a ler fora da época que aquilo iria despertar o interesse, né?
Ah, mano, eu já era maluco desde aquela época da escola. Eu lembro que eu lia Maquiavel, Apologia de Sócrates.
Que isso, cara. Não, mas olha, o Curtiço é muito legal porque representa assim de uma maneira muito, muito real, muito crua, né, como funcionava. E a realidade era parecida com uma comunidade, com uma favela, né. O pessoal mais carente que se amontoava ali em vários barracos ali feitos com casarões antigos ou até de madeira mesmo assim, improvisados, que pagavam um aluguel, né, pro dono das edificações ali, né, das terras ali.
Pois é, as mudanças ali estruturais da cidade do Rio de Janeiro criaram esses cortiços de pessoas que buscavam trabalhar o mais perto possível do trabalho. Muitas delas trabalhavam no porto do Rio de Janeiro como estivadores, serviços assim não tão bem remunerados. E aí muitos dos antigos casarões de pessoas endinheiradas viraram cortiços em que cada família vivia num quarto, né, muitas vezes dividido ali um banheiro com o restante das pessoas que viviam ali, um ambiente bem insalubre, no ambiente é muito propício para disseminação de doenças e etc.
Mas isso vai mudar um pouco devido a alguns acontecimentos. Um deles é justamente a Guerra de Canudos, que você já citou aí, né. Que foi um conflito do governo federal com um grupo de pessoas carentes ali no Nordeste brasileiro, né, mais precisamente ali na Bahia, no sertão da Bahia, que fizeram uma comunidade, né, e começaram a incomodar o governo justamente porque, principalmente porque eles não pagavam impostos.
É um exemplo clássico aí do messianismo brasileiro, né. O Antônio Conselheiro vai formar ao redor de si a comunidade de canudos que se tornou ali um arraial com milhares de pessoas. E o Antônio Conselheiro, ele era monarquista, ele não reconhecia a legitimidade do poder republicano. Então o pessoal lá não pagava imposto, o pessoal ali não obedecia às leis, às regras da república. E ele também começou a ser uma mistura de líder religioso, jagunço, líder de jagunços.
Isso começou a incomodar tanto o poder local quanto o poder federal. E aí houve uma guerra sangrenta contra Canudos, com a morte de centenas de soldados da República e milhares de conselheiristas. E aí, após o banho de sangue, Canudos foi completamente dizimada.
Foi dizimada usando as forças do exército, né, da República Brasileira na época. E esse exército, que naquela época era muito frágil ainda, era pequeno, né, ele ter, eles tiveram que fazer um alistamento muito grande de pessoas para levar para Canudos aqui no Rio de Janeiro.
E aconteceu que foram várias tentativas, né, de vencer Canudos, se não me engano 4 ou 5, e só a última que eles conseguiram de fato derrotar a cidade, porque os jagunços lá do Antônio Conselheiro, né, assim, eu não falo jagunço num termo pejorativo, né, Mas os soldados, digamos assim, do Antônio Conselheiro conseguiu derrotar o exército brasileiro. E aí eles precisavam dar um jeito de convencer esses caras a se meter lá no sertão da Bahia, né?
É, eles conseguiram nessa quarta vez justamente aumentando as tropas e levando canhões. Os caras levaram os canhões Krupp, né, que são uma empresa alemã que existe até hoje inclusive, né? Até tem uns exemplos de canhões Krupp aí em alguns quartéis ainda do Brasil. Um Um lugar que vocês podem ver é, se vocês estiverem no Rio ou tiverem visitando aqui, lá no Forte Copacabana tem alguns desses canhões, tá, que estão desativados logicamente, né, mas dá para, dá para ver lá.
Já me falaram muito bem lá do Forte Copacabana, viu, cara?
Coisa linda, tá? É a vista extraordinária, mas tem que chegar cedo que a fila é enorme. Mas se você tivesse um conhecido que trabalha lá, talvez Rapaz, mas então eles usaram fogos de artilharia, né, contra esse pessoal ali de canudos, né, e juntamente com esse reforço que eles conseguiram, vamos dizer assim, de última hora, né. Muitos foram até, dizem até que foram obrigados a ser alistados contra a vontade para eles levarem esses canhões assim.
Eu imagino que vai ver que tinha uma fortaleza lá, né, assim, muito bem estruturada.
Então eles levaram de navio, pô. Os cara foram de navio.
Eu falei assim, eles precisavam derrubar uma muralha lá.
Não, eles derrubaram foi uma igreja e um monte de baraco, de barro. Cara, tem foto da igreja deles bombardeada, cara. Foi o principal alvo porque as pessoas se escondiam lá, né? Pessoal saiu correndo da igreja.
Construção proeminente, né? O restante é uma casa de todo mundo.
A gente tá falando, porque a gente tá falando de canudos? Porque o que que o governo, que que o exército fez para convencer esses homens a se alistarem e irem até a Bahia lutar contra brasileiros?
Mas aí, sair da praia para ir lá para o sertão da Bahia.
O que que eles prometeram? Eles prometeram, entre outras coisas, né, eles prometeram moradia. Eles prometeram que depois de voltar de canudos, esses soldados teriam casas ali no centro do Rio de Janeiro. Então, desde sempre, né, cara, desde sempre. Então o que aconteceu foi isso, o pessoal foi lá, fez o que fez, quando voltou O que que eles receberam?
Acharam que os cara nem ia voltar vivo, né? Ah, vamos ver, quando voltar vivo a gente vê o que faz.
Receberam um aperto de mão, tapinha nas costas, meu irmão. E esse pessoal que ficou desesperado ali, né, que não recebeu suas casas— não tô dizendo que todos eles iriam receber e não estou dizendo que ninguém recebeu, tá? Deixar isso claro, a história não é tão simples assim. Mas esse foi um dos grandes motivos, né, da ocupação de um morro chamado Morro da Providência, que fica justamente muito próximo do Palácio Duque de Caxias, que é o comando aqui do exército aqui no Comando Militar do Leste, né, que abrange aqui o Rio de Janeiro, Minas e Espírito Santo.
E Eles começaram a ficar rondando ali justamente para saber: e aí, já vai sair minha casa? E aí, como é que vai? Pô, vão me pagar? Porque até o pagamento dele estava atrasado. Então o pessoal ficava lá nas portas do palácio, entendeu, cobrando. E como muitos não tinham nem para onde ir, que que eles fizeram? Eles começaram a ocupar esse morro que fica muito próximo. Do palácio, que é o Morro da Providência, lá no centro. Para quem não sabe, ali é esse palácio, é bem do lado da Central do Brasil, tá?
Bem, bem no centro mesmo do Rio. E o que acontece é esse morro, na verdade, já existia ocupação nele, tá? Já existiam algumas, uns poucos casebres ali desde 1820, se eu não me engano.
Mas esses casebres eram justamente das pessoas que foram expulsas dos cortiços curtiços que você falou no início, né? Acho que até foi por isso mesmo que você falou, porque os prefeitos do Rio de Janeiro, desde o Barata e do Pereira Passos, que foram os dois primeiros prefeitos ali do início da República, eles tiveram a ideia de destruir os curtiços e para fazer reformas ali urbanas, né? Muito, muito inspirados pelo que aconteceu em Paris.
E expulsaram essas pessoas dos curtiços, cara, imaginando que elas iam sumir, né? Sei lá, desaparecer, só pode. E essas pessoas foram viver justamente nos lugares onde ninguém queria, né? Um deles, o Morro da Providência, que era próximo ao cortiço do Cabeça de Porco, né?
Que tem um nome ótimo, que é o cortiço representado no livro. Olha aí, o cortiço da Luísa de Azevedo, né? Que é excelente o livro, inclusive. E como você bem disse, teve duas coisas que eles chamaram de bota abaixo. Né, em dois momentos diferentes ali, em 1800 e pouco ali, no início, não lembro o ano exatamente, mas 1800 e pouco, depois em 1900, se eu não me engano, 1890 e pouco, né? Isso, esse bota abaixo era o quê? Era justamente desabrigar esse pessoal, acabar, demolir essas casas e esses barracos.
Para quê? Para fazer obras de infraestrutura, né, fazer, alargar as ruas, Entendeu? Fazer calçadões e tal. E vale lembrar que nessa época o que ditava moda realmente era Paris. Todo mundo que tinha um dinheirinho aqui queria andar como se tivesse em Paris. Os caras, no sol de 40 graus aqui no Rio de Janeiro, os caras estavam de camisa, colete e paletó, chapéu, entendeu?
Tem a ver com a história da construção da Avenida Rio Branco, né? Que exatamente desapropriaram um monte de gente, abriram uma avenida no meio da cidade. Aí quando ela ficou pronta tinha um código de etiqueta, né? Pobre não andava nessa rua porque tinha que andar com roupa cara, bem vestido, não sei o quê.
Exatamente, cara. A Avenida Rio Branco foi feita derrubando esses cortiços, cara. Tem até um Barata Ribeiro, né, que deu, fez o bota baixo ali no cabeça de porco que você falou, né? Foi até representado numa charge que é ótima, muito boa, cara, que é um prato assim com a cabeça de um porco né, e uma barata em cima. Pô, o cara fez isso de uma criatividade, meu irmão.
Cara, barata comendo porco é incrível, né, também a coincidência assim, a ironia que isso representa.
Isso tudo culminou nessa ocupação de morros aqui no centro do Rio, principalmente o Morro da Providência, que foi ocupado não só por soldados, mas principalmente por esses soldados que esperavam ou pagamento atrasado e essas moradias que foram prometidas. E dizem inclusive que muitos desses barracos que foram feitos ali no Morro da Providência foram feitos com os caixotes que levavam as munições de artilharia para Canudos, né, que chamam de cunhetes, né, uns caixotes grandões assim de madeira.
Dizem que a gente não tem prova disso, mas é relatado em algumas fontes que que os caras levaram várias caixas de lá, desmontaram e começaram a fazer os primeiros barracos com essa mesma madeira, tá?
Inclusive era permitido a população usar os restos das demolições dos cortiços, cara. E aí eles usavam para construir os barracos, os tapumes, telhas, para construir suas moradias, mesmo que rudimentares, ali nesses lugares.
Mas aí lembra que eu falei que existia cortiço, né, mas não existia favela ainda?
Pô, muito doido, né, pensar numa realidade em que a palavra favela não nos remetia às comunidades que nos remetem hoje, e pensar assim, o Rio de Janeiro sem a favela, né?
O termo favela veio de Canudos junto com os soldados, porque justamente lá em Canudos tinham vários morros em volta dessa aglomeração lá de pessoas, né? Serraiol, exatamente. De canudos ali, e um deles se chamava Morro da Favela, porque lá em cima tinha uma árvore muito grande que se chama favela ou faveleira, né? Ela tem esse nome porque ela dá uns favos assim. Ela é uma planta do Agreste, né? Aquela planta até que com uns espinhos e tal, dá umas favas com os espinhos.
E quando os soldados Chegaram no Morro da Providência, eles fizeram uma associação desse morro com o morro da favela. E esse morro, que já era chamado de Morro da Providência, ele passou a ser chamado de Morro da Favela, fazendo uma associação a esse morro lá de Canudos. Então favela não queria dizer uma comunidade, ela era o nome da primeira comunidade.
Acabou pegando, né?
Mas o interessante, cara, é que esse lugar ele já teve várias denominações diferentes, né? Isso, aquilo ali é um maciço muito grande que é como se fossem vários morros assim juntos, né, com vários nomes diferentes. Então ali tem Providência, Livramento, Morro do Mirante, Morro da Formiga, né? Isso tudo nessa época ali que os soldados começaram a habitar ali, né, a ocupar. Eles começaram a chamar aquilo tudo de morro da favela.
Mas o local começou a ser chamado de favela mesmo, a primeira vez que a gente chama oficialmente de favela uma comunidade é em 1900, no dia 4 de novembro de 1900. Tem um documento que é associado ao delegado da 10ª circunscrição e chefe de polícia, que é o Enéas Galvão. Aí ali eles chamavam esse conjunto habitacional, vamos dizer assim, essa ocupação ali no Morro da Providência de favela. Por isso o dia 4 de novembro acabou se tornando o Dia da Favela.
Legal, tá?
Se considera esse dia o Dia da Favela, né? E depois disso aí que começaram-se as primeiras matérias jornalísticas que usavam esse termo, né? Já em 1901, eles, o jornal A Notícia, começou a chamar a região ali de Arraial da Favela. Em dezembro ainda de 1901, o jornal Brasil também chama o Morro da Providência de Morro da Favela, tá? E mas o que eu acho mais, mais interessante, cara, é que justamente eles começaram a chamar de favela outros locais que tinham uma ocupação parecida. Então aí deixou de ser aquele local e passou a ser esse tipo de comunidade, né?
Se tornou uma denominação, né? Interessante.
E por muito tempo, cara, a favela foi— o termo favela foi visto com uma conotação muito negativa, né? Até o termo favelado sempre foi um xingamento, né? Vamos dizer assim. Mas uns tempos para cá, algumas pessoas começaram a abraçar essa palavra, né? Algum, em algumas, algumas comunidades aqui no Rio, por exemplo, você vai ver pessoas que dizem que moram na favela, e em outras a pessoa vai ficar ofendidíssima, vai falar: não, que favela que é isso aqui?
É comunidade. Então assim, tem essa nuance assim, justamente por esse histórico, né, de ser associado a uma coisa muito ruim e tal.
Claro que hoje extrapola o Rio de Janeiro, né? Porque no Distrito Federal, que é planíssimo, tem nem morro, né? Planalto aqui central, as comunidades de periferia são chamadas de favela também, tá associado ao crescimento desordenado.
É isso que eu ia falar, quando a gente tem um crescimento desordenado, né, com pouca infraestrutura, pouca ou nenhuma infraestrutura, né, nenhum apoio do governo ali, sem saneamento básico, as pessoas todas aglomeradas ali, é muito difícil esse lugar ser bem estruturado, ser um sinônimo de uma coisa positiva, né? Então sempre vai ter uma criminalidade alta, né? Nessa época aqui, o Morro da Favela era conhecido como o lugar mais perigoso do Brasil, entendeu?
Porque era uma aglomeração de pessoas ali, lugar que não era iluminado, entendeu? Não tinha saneamento básico. Então as pessoas mal-intencionadas ou as pessoas que precisavam sobreviver, que não tinham muita alternativa, Eles partiam pro crime, entendeu? E ali era um esconderijo perfeito pra esse tipo de pessoa.
Pô, e é muito doido a gente pensar que aquela ideia higienista do início do século 20, de nomes ali como Oswaldo Cruz, imaginava que essas pessoas iam morrer, né? Sei lá, que elas não iam conseguir sobreviver nesse contexto dos morros ali, dessas ocupações. E parece que o Estado simplesmente ignorou essas pessoas, deixou que elas se organizassem à própria sorte. Não tinha intenção também de promover qualquer tipo de organização ou de estrutura para essas pessoas, porque queria que elas sumissem de alguma forma.
E aí se tornou esse lugar autogerido, digamos assim, em que grupos criminosos, associações criminosas passaram a exercer um certo poder paralelo ao do Estado.
É, cara, você falou muito bem aí do Oswaldo Cruz, por exemplo, né, que é um nome importantíssimo, né, principalmente como higienista, né. A gente tem o Instituto Oswaldo Cruz aí, né, que era o palácio dele, né. Construíram um palácio para o cara, e assim, mas foi um cara muito importante, né. E essa instituição é muito importante até hoje, que leva o nome dele. E ele, de certa forma, ele apoiou esse bota abaixo ali do Pereira Passos, né, nesse período ali de 1902 a 1906, que ele era o prefeito ali do Rio, justamente com essa desculpa, né, que era uma pauta higienista, né, porque o pessoal era questão de, era uma questão de saúde, né, porque o pessoal aglomerado ali com muito rato, né, sem saneamento básico, aquilo trazia muita doença.
Mas assim, não era só chutar o pessoal dali, né? Tinha que ter alguma, tinha que ter onde botar esse pessoal, né, cara? Eu até entendo que, pô, não podia estar do jeito que tava, mas tava por causa do governo, né? A gente aqui acabou de provar, né, que os soldados eles foram para lá por causa do governo, por causa do Exército, por causa do governo federal.
E ainda bem que o Rio de Janeiro mudou completamente, não tem mais nada disso também.
Não, é, acabou, acabou favela. Infelizmente a gente passa por isso até hoje, né, cara? E assim, pessoas com, vivendo assim uma vida muito difícil. E assim, a pessoa que é mal informada, ela pode pensar assim, pô, mas por que que esse pessoal vai morar aí, cara? É só você parar para pensar, se a pessoa tá vivendo tão mal, né? E hoje em dia o pior nem é a falta de saneamento básico, é a periculosidade, né? Você morar num lugar que é comandado por um poder paralelo do tráfico, né, que literalmente tá sempre em guerra ou com facções ou com a polícia.
É um lugar extremamente hostil para pessoa tá ali porque ela precisa mesmo, cara. Porque é muito fácil a gente falar quando a gente tem uma casa, quando você trabalha perto do da sua casa, né? Você pega no máximo aí um ônibus ou dois. Mas você imagina, ainda mais nessa época, né, que não tinha transporte público como hoje, você imagina como é que a pessoa ia morar que nem muitos hoje mora lá em Belford Roxo, lá em Nova Iguaçu, lá em Austin, e vai trabalhar no centro do Rio.
Não tem como, que é onde tá a maior oferta de emprego, né? Então, para muitos, cara, a única salvação era morar ali nos morros de maneira improvisada, né? Tanto que aqui, cara, eu não sei se aí em Brasília também tem isso, porque é uma cidade muito mais recente, não sei se tem. Mas aqui no Rio é muito, muito comum, principalmente aqui na Zona Sul, todos os prédios antigos, todos os apartamentos antigos, o mais simples que for, pode ser um apartamento de um quarto apartamento pequenininho de um quarto, ele tem uma dependência de empregada.
Por quê? Porque primeiro que o salário, o, não tinha valorização nenhuma para esse tipo de emprego, né? Pessoal basicamente trabalhava para comer. Então qualquer pessoa podia ter uma empregada em casa, assim, entre aspas, né? Uma pessoa mesmo que não tivesse, porque hoje a gente pode pensar assim que, pô, pessoa que tem um trabalhador ali a disposição dentro da sua casa, a pessoa ganha bem, né? Nessa época nem tanto, né? Então, porque o trabalho era muito desvalorizado.
E além disso, a pessoa tinha que dormir no trabalho porque ela não tinha para onde ir, cara. Porque se ela morasse muito longe, não dava para chegar. E se ela morasse— e não tinha como ela morar perto, que ela não podia comprar a casa ali, entendeu? Então a pessoa morava no trabalho. Isso era muito comum, muito comum. Então é muito fácil a gente ficar criticando aqui porque que essas pessoas viviam nessa situação, né, sem nos colocarmos no lugar delas, né.
Era, não tinha escolha, irmão. Você citou a questão da abolição da escravidão e que tanto os ex-escravizados, seus descendentes, tiveram muita dificuldade até hoje, né. As marcas ainda estão aí na nossa sociedade. Para se inserir, cara, no mercado de trabalho, na sociedade civil organizada, tanto por causa do preconceito que existia, mas também porque, enfim, não se queria pagar muito bem essas pessoas também, e ficaram relegadas ao subemprego e essa existência mais fragilizada, né, economicamente, socialmente.
Mas, cara, é incrível também o poder de resistência, né, das pessoas, e como todas essas dificuldades foram sendo superadas de alguma forma. E, cara, as comunidades estão aí, né, com milhares, com milhões de pessoas, e sustentando de fato a cidade. Porque quem trabalha, né, é justamente a pessoa mais pobre. Quem faz o trabalho, que mantém o setor de serviços, que é o maior da economia, funcionando, é justamente essa pessoa trabalhadora mais pobre, né.
Tava até lembrando aqui que, por exemplo, a Rocinha hoje, que é o maior, maior favela, né, maior complexo de favelas aí que tem, eu acho que já foi do mundo, não tenho certeza, mas é a maior do Brasil com certeza, né, que é gigantesco, cara, tem até turismo lá dentro agora. Mas enfim, tem esse nome justamente porque Os trabalhadores, principalmente o pessoal que trabalhava na construção dos prédios ali de São Conrado, que é uma área de luxo aqui do Rio de Janeiro, eles não tinham como ir para casa, entendeu?
Aí eles começaram a ocupar um morro que hoje é a Rocinha, né? E eles começaram a plantar uma horta de subsistência ali. Entendeu? Para poder se alimentar mesmo, para facilitar, né, o dia a dia e ficar mais barato, né? Então quem passava ali por baixo olhava para cima e via aquela plantação ali, via uma rocinha, entendeu? Uma pequena roça. Então é por isso que virou Rocinha. Aí Rocinha hoje que literalmente é ponto turístico no Rio, né?
E pessoal entra lá para fazer turismo, tem guias de turismo na Rocinha, Tem um, não sei se você já viu, uma trend que tem no Instagram. Pessoal deve ter visto aí que você vai lá no topo, lá numa laje, né, e tem uma galera que opera um drone que te filma assim, né, filma você de perto e vai afastando assim e faz um 360 na favela tal. Isso aí ficou mundialmente famoso, pessoal vem do mundo todo para pagar R$200, R$250 para conseguir fazer esse vídeo aí. Então assim, a favela bomba, que é uma beleza, tenho certeza.
É, pô.
E assim, hoje a favela não necessariamente, né, tem essa conotação negativa. Justamente tem muita gente que tem orgulho de ser da favela, né, que não quer, que encara essa palavra, né, de uma forma positiva, né. Tanto que é um ponto turístico do Rio, né. Mas infelizmente foi, a favela foi criada assim, foi criada pelo descaso dos políticos, né, e por um sistema opressor ali do trabalhador que infelizmente forçou eles a irem para essas condições, né, que pelo menos ali no primeiro momento era subhumanas, né.
Infelizmente alguns poucos ainda estão nessa situação, mas hoje em dia a favela melhorou muito, né. Muitos dizem aí que a favela venceu, né. Não, eu acho que para vencer, cara, falta muita coisa. Tem muito favelado que venceu por mérito próprio, mas a favela infelizmente tem que ter um apoio muito maior do governo aí para poder realmente vencer, cara, porque ainda tem muita coisa para melhorar.
É isso aí, um lugar rico em história e cultura popular, né, símbolo do Brasil. E é interessante a gente conhecer a nossa história, né, saber de onde é que vieram as coisas que estão aí estabelecidas. E é isso, Felipe Sampaio. Eu agradeço a todos que estiveram com a gente nesse episódio. Deixa uma curtida para gente aí nesse vídeo, deixa um like, se inscreve no nosso canal do Instagram, dá 5 estrelas no Spotify, que ajuda legal aqui o nosso trabalho. Um abraço e até a próxima.
Valeu, pessoal! Tem que Tem que curtir e comentar bastante isso aqui, cara, compartilhar com os amigos, que, pô, gravar duas vezes o mesmo episódio, gravar duas vezes o mesmo episódio é foda, meu irmão. Tá difícil.