Real Madrid: O Time da Ditadura?
O Real Madrid foi, de fato, o braço esportivo da ditadura de Francisco Franco?
Neste episódio do Resenha Épica, investigamos a complexa relação entre poder, política e futebol durante a ditadura de Francisco Franco. O Real Madrid foi realmente favorecido pelo regime ou essa é uma narrativa que simplifica uma história muito mais complexa?
Analisamos documentos, contexto histórico e os principais acontecimentos da época para entender como o futebol se tornou uma poderosa ferramenta política na Espanha do século XX.
📚 O que você vai entender neste episódio
• Como Francisco Franco utilizou o futebol para fortalecer a imagem internacional da Espanha.
• O papel de Santiago Bernabéu na reconstrução do Real Madrid após a Guerra Civil.
• O controverso Caso Di Stéfano e a disputa entre Real Madrid e Barcelona.
• A relação entre futebol, identidade regional e política na Espanha.
• O que é fato e o que é mito sobre a suposta parceria entre Franco e o Real Madrid.
Uma análise baseada em contexto histórico para compreender uma das maiores polêmicas da história do futebol.
⏱️ Capítulos do episódio
00:00 - Introdução: Futebol e Política andam juntos?
01:08 - A Polêmica: O Real Madrid foi favorecido pelo Franquismo?
02:04 - Bastidores da Copa de 2026 e Tensões Geopolíticas
04:16 - A Guerra Civil Espanhola e a Ascensão de Francisco Franco
05:10 - Catalunha vs. Madri: As raízes do separatismo no futebol
06:49 - O Barcelona como reduto de resistência e identidade
10:25 - Por que "Real" Madrid? A ligação com a monarquia
12:14 - Soft Power: O futebol como propaganda da Ditadura
15:27 - Perseguição ao Barça e mudanças nos símbolos do clube
16:50 - O Caso Di Stéfano: A transferência que mudou tudo
17:38 - Santiago Bernabéu: De soldado a presidente lendário
19:15 - Paralelo com o Brasil: Pelé no Exército e a Copa de 1970
23:58 - Atlético de Madrid: O verdadeiro "time dos militares"?
27:35 - Conclusão: Torcer para o Barça é ser antifascista?
30:23 - Considerações finais e encerramento
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Francisco Franco realmente transformou o Real Madrid no time da ditadura?
A polêmica em torno da Copa do Mundo de 2026 prova que futebol e política andam lado a lado. Mas essas relações entre futebol e acontecimentos políticos já acontecem há muito tempo.
Eu sou Felipe Sampaio.
Eu sou Raul Trindade.
Bem-vindos ao Resenha Épica!
Quando eu pensei nesse tema, eu quis algo que trouxesse aí esses temas que estão bem na atualidade, né? A Espanha vencedora da Copa do Mundo, o futebol e também as questões políticas que não se separam do futebol. Futebol é política, cara. Por mais que haja um esforço de certas pessoas que gostariam, até da própria FIFA, né, de separar essas questões, quando a gente olha para a história, para a história do futebol, para a história da Espanha, A gente percebe que as coisas estão muito interligadas.
Não dá para separar a expressão política, a expressão de vida das pessoas do futebol.
Exatamente. Quando a gente fala de Francisco Franco, a gente está falando de um governo ditatorial.
Sim.
Mas como foi esse governo dele? O que tem a ver com o Real Madrid? O que tem a ver com o futebol?
Cara, é porque existe um discurso, um entendimento que o Real Madrid, ele foi favorecido pelo regime franquista de maneira completamente desonesta, arbitrária, e que o Real Madrid não seria o time que é hoje se não fosse justamente esse favorecimento do regime. É algo que é questionado, né, por historiadores, mas também por repórteres do futebol, né, pessoas ligadas a esse meio esportivo. E a ideia é discutir um pouco disso hoje e também esse contexto histórico do franquismo, que vai ali do final da década de 30 até o meio da década de 70, e pensar nessas questões relacionadas ao futebol.
Antes de entrar propriamente no tema, essa Copa teve essas questões políticas muito afloradas, aparecendo desde antes do início dos jogos. Teve aquele árbitro, o Omar Artan, que teve o visto negado, não pôde ir lá apitar a Copa do Mundo. Aquela questão do uniforme do Haiti que fazia referência à independência do Haiti, né, que eles foram proibidos de utilizar. Gente do Irã sendo proibido de entrar nos Estados Unidos. Aspectos relacionados à questão palestina apareceram durante os jogos.
A gente teve várias manifestações da torcida, né, durante os jogos. Então Cara, não tem como a gente separar essa paixão pelo futebol, essa expressão esportiva, também das paixões nacionalistas, do que é pertencer a um país, do que é se considerar parte ali de uma nação.
E, cara, eu vou, peço desculpa aqui, vou ter que te interromper, porque a gente falando de Copa, de futebol, de paixões nacionais, Me traz uma certa preocupação a gente aqui logo depois do fim da Copa, que graças a Deus, né, os espanhóis ganharam da Argentina. Você aparecer de mullet me preocupa. Você não tava torcendo para Argentina não, né, cara? Pelo amor de Deus, né?
Agora você me pegou. Foi a primeira coisa que me disseram. Mas a minha inspiração foi Chitãozinho Chororó e Serginho da Pereira Nunes também.
Aí sim, completamente nacionalista.
Eu ouvi isso várias vezes, porra, tá parecendo argentino agora. Eu acho que foi ofensivo.
Não, a gente tem que fazer uma campanha aqui então. Mullet não é propriedade dos argentinos, meu. A gente pode usar sim Chitãozinho Chororó aí para mostrar que o brasileiro usa mullet já há muito tempo.
Há muito tempo. O que que aconteceu, né? Voltando para aquele assunto, para aquele gancho que você puxou agora há pouco, saindo da palhaçada, saindo da palhaçadinha, encurtando aí bastante a história, ali no meio dos anos 30 a Espanha vai passar por uma guerra civil. Republicanos, socialistas, a esquerda participarão, estarão numa guerra contra os monarquistas conservadores militares, principalmente. Essa guerra, ela vai ser apoiada, né, a direita vai ser apoiada pelos nazistas e pelos fascistas italianos.
Tá bem ali no período de ascensão, né, dos fascismos na Europa e também de ascensão do nazismo na Alemanha. Várias táticas de guerra da Alemanha vão ser, até armas, né, vão ser testadas na Guerra Civil Espanhola. E o que que isso tem a ver assim, né, com a questão do futebol? Já havia um sentimento muito forte separatista desde o século 18 lá na região da Catalunha. Cara, qual é o principal rival do Real Madrid? Até eu que não acompanho futebol, eu sei.
Não faço ideia.
É o Barcelona, porra.
Barcelona, isso. É o único outro time que eu conheço, mano.
A região da Catalunha viveu lá entre os séculos 17 e 18 uma certa autonomia. E aí uma guerra de sucessão que aconteceu lá no século 18 entre as famílias dos Bourbon e dos Habsburgo acabou com essa autonomia que a Catalunha tinha. Mas esse sentimento, né, de separatista, ele acabou sendo direcionado para o futebol. E depois da Guerra Civil, principalmente, porque após o fim da Guerra Civil, em que a esquerda, os republicanos, são derrotados, o regime do Francisco Franco, um ditador fascista que vai tomar o poder lá da Espanha, esse regime ele vai proibir os símbolos nacionalistas da região da Catalunya, o dialeto, qualquer expressão desse povo, qualquer expressão nacionalista, separatista, vai ser proibida.
E os jogos do Barcelona era onde esse pessoal dessa região aproveitava para se expressar, para se manifestar e até para protestar contra o regime do Francisco Franco.
Eu acho que para algumas pessoas pode ser meio complexo entender isso, porque o Brasil, apesar de ser gigantesco, né, é um país de proporções literalmente continentais. Eu acho que a gente fala muito isso sem parar para pensar no que significa, né. O Brasil, ele é gigantesco, ele é literalmente maior do que alguns continentes, né. Tem regiões que são muito diferentes, né, entre si. Mas o Brasil, apesar de alguns movimentos separatistas, né, ele sempre teve essa identidade de de unificação, né?
Ele sempre foi um Brasil, né? Mas a gente tem que ter em mente que muitos países, principalmente na Europa, eles não tinham essa mentalidade, né, de uma unificação, né? Muitos países eram várias e várias regiões super fragmentadas, com estilos de vida totalmente diferente, com uma linguagem muito diferente, né, que eram meio que assim forçadas, né, por um governo, governante maior, a estarem juntas, né, vamos dizer assim, eram administradas em conjunto, né.
Então você tá falando aí de uma época muito anterior, né, onde realmente essa região ela tinha uma certa liberdade, né, tinha uma diferenciação muito grande. A gente, quando a gente pensa na Espanha, por exemplo, um grande exemplo disso é a Alemanha, por exemplo, né. A gente fala em Alemanha Como se a Alemanha sempre tivesse sido uma unidade, né, total e completa. E não é verdade. A Alemanha como uma unidade nacional é muito recente. A Espanha também era assim.
Se você for pensar assim, o que que faz um povo ser uma nação, né? O que que constitui de fato um país? A sua cultura, sua língua e a sua legitimação de poder. E em pensar que nesse período entre o século 17 e 18, a Catalunha teve as suas próprias regras comerciais, tem a sua língua própria, tinha a sua organização política também, que detinha ali certa autonomia. E aí nessa guerra de sucessão do trono ficou esse sentimento, esse sentimento de separatismo, de independência.
De autodeterminação enquanto povo, enquanto cultura e nação. E cara, isso hoje tá no futebol e tá no Barcelona, e principalmente por causa dos acontecimentos da Guerra Civil. A região de Barcelona, região da Catalunya, era um reduto dessa esquerda republicana. Barcelona em 39, cara, agora não vou lembrar bem a data, mas Barcelona foi tomada pelas tropas nacionalistas, pelas tropas da direita, Francisco Franco. E tudo isso deixou uma marca ali nessa nação.
E aí, cara, com os desdobramentos pós-guerra civil, com a ditadura do Francisco Franco, alguns eventos históricos são interpretados por até por alguns historiadores como favorecimento ao Real Madrid. Mas pouco disso é talvez uma birra ou uma questão de narrativa, né, de controle de narrativa, mas é algo que tá um pouco presente assim no imaginário, no senso comum. E talvez seja assim que o pessoal do Barcelona veja, né, a história dos seus principais rivais aí do esporte.
Cara, de onde é que vem esse nome a princípio, né? Real Madrid, o que que te lembra isso daí?
Ah, me lembra realeza. Lembrando que a Espanha inclusive tem rei, né? Tem realeza, tem rei e tem presidente, se eu não me engano, não é assim? Tem um rei, presidente e primeiro-ministro, é uma parada meio diferente assim, né, cara?
Ali na década de 1920, o rei da Espanha, o Afonso XIII, concedeu ao Real Madrid esse título de Real Madrid. Antes era só Madrid, era só Madrid, era Madrid Futebol Clube, o clube de futebol. Agora Fugiu aqui.
Então o Real do Real Madrid é literalmente um título, não é só um nome, mano.
E é como se fosse um título de nobreza mesmo, é como se fosse assim um reconhecimento pela família real daquele time como representante ali da longa tradição monárquica da Espanha. Não foi só o Real Madrid que ganhou esse título, então uma meia dúzia de times lá que ganharam esse título de Real. Inclusive, durante um bom período ali da ditadura do Francisco Franco, eles não utilizaram o Real, foram utilizar posteriormente, perderam ali esse título.
Mas o lance é que esse time já existia muito antes da ditadura do Francisco Franco, porque começou ali ao final da Guerra Civil, em 1939, e já era vitorioso, já tinha uma história no futebol desde antes. Então é um pouco assim reduzir muito a história do Real Madrid, colocar o sucesso deles ou o time que eles são hoje como consequência ou como uma causa relacionada ao governo do Francisco Franco ou uma possível, um possível favorecimento.
Mas que de fato o futebol foi usado como um soft power, como costuma se dizer atualmente, para lavar a imagem da ditadura do Francisco Franco, isso foi. E o Real Madrid teve sim importância nessa utilização política do futebol pelo regime para passar essa imagem de modernidade, de que era um governo que apoiava o esporte e para colocar a Espanha como algo positivo, deixar um pouco de lado essa questão da ditadura, da perseguição aos inimigos.
Dos mortos da Guerra Civil e todas as contradições sociais e políticas que o país vivia nesse período durante a guerra e também pós-guerra.
Essa questão de soft power é muito, muito complexa, né, cara? É usado de várias formas em vários países diferentes, né? E mas assim, essa questão do apoio popular é sempre muito importante, né? Sempre muito forte.
Pois é. E aí, pensando assim que no clima que o país viveu assim no pós-guerra, né, no pós-guerra civil, em que quem era da esquerda, quem lutou do lado dos republicanos, passou a viver um momento muito complicado, né? E pensar no Barcelona como um reduto dessa esquerda, como representante do sentimento separatista da Catalunya, e também que os jogos eram talvez um dos poucos momentos de liberdade para essas pessoas se manifestarem.
Isso daí virou uma tradição, cara. Até hoje, em jogos do Barcelona, é comum que você vê lá alguém com uma bandeira, com cartaz, com alguma frase, com algum sentido separatista. Há relatos aí de jogadores como Piqué que fizeram gestos ou tiveram ações consideradas ofensivas quando tocava o hino da Espanha, né? Inclusive, o Yamal é da região da Catalunya, né? É um jogador que vem dessa tradição ali do Barcelona. Então, cara, é muito mais do que simplesmente você ser um torcedor do Barcelona, é você se orgulhar de pertencer à região de onde você vem e você não se sentir necessariamente espanhol.
Talvez a ligação do torcedor do Barcelona seja muito mais com o time do Barcelona do que com a seleção espanhola. É isso, talvez eu esteja extrapolando um pouco, seja minha sensação ao estudar esse assunto, ao entrar um pouco aí a respeito dessa, dessas questões. Mas isso é interessante também de pensar, né?
Mas faz todo sentido, porque se o cara de uma região que pertence à Espanha porque é obrigado a isso Pois é, a relação dele com o time dele, que é da região dele, que ele não é obrigado, vai ser muito maior, pô. Eu sou espanhol porque a lei diz que eu sou, né? Eu sou obrigado, né? Eu faço parte, estou sob o domínio espanhol. Mas o time, o Barcelona, não. Barcelona é da minha região e eu escolhi.
Pois é. E aí fala-se um pouco assim da perseguição que o Barcelona teria sofrido pelo regime do Francisco Franco. De fato houveram alguns incidentes, como membros da— cara, o próprio presidente do Barcelona, ele morreu um pouco antes do início da Guerra Civil num protesto político, não relacionado diretamente ao futebol, mas relacionado à questão republicana na esquerda. Ele foi morto durante um protesto, uma manifestação. Depois da Guerra Civil, quando o Franco chega ao poder, os dirigentes do Barcelona começam a ser escolhidos não mais de maneira democrática, não mais escolhidos pelos membros dos torcedores, né, membros do clube do torcedor lá do Barcelona.
Eles eram indicados ali pelo governo. E a bandeira do Barcelona foi mudada porque ela fazia uma referência à bandeira da Catalunya. E aí ela foi mudada para ter apenas 4 listras. Se não me engano, 4 era 2, agora número complica minha vida, né, cara? Para ficar semelhante à bandeira da Espanha, embora o vermelho e o amarelo representassem ali o time, né? E aí também tem as questões relacionadas ao próprio Real Madrid. Uma questão muito polêmica é a contratação de um jogador chamado Di Stéfano.
O Di Stéfano, que é um dos grandes ídolos do Real Madrid. Esse cara, ele veio da Argentina e quem negociou, quem chamou ele, foi o Barcelona, mas ele acabou indo jogar no Real Madrid, foi extremamente vitorioso. E aí coloca-se, né, essa questão desse jogador, do Di Stéfano, como uma interferência direta do regime. Só que, cara, isso é meio nebuloso, porque haviam questões burocráticas, haviam também situações ali dentro do próprio Barcelona que impediam ali a contratação desse jogador.
Houve ali até um combinado assim de que ele jogaria 6 meses no Real Madrid, 6 meses no Barcelona, só que, porra, o Barcelona achou que isso não ia dar certo e desistiu disso logo. Você já ouviu falar também do estádio do Real Madrid, cara?
Aquele não sei o quê Bernabéu, é isso aí?
Isso, Santiago Bernabéu.
Isso aí, eu já ouvi esse nome.
Ele existiu de verdade, o Santiago Bernabéu. Ele foi um jogador do Real Madrid Quando vem a Guerra Civil Espanhola, ele se torna um soldado do lado do Francisco Franco, do lado dos nacionalistas. Após a guerra, ele é alçado ao cargo de dirigente, de, como é que chama, de presidente do Real Madrid. E ele é considerado responsável por uma ótima gestão do time, por fazer uma gestão financeira do Real Madrid. Contratações e também por tornar o Real Madrid uma potência futebolística que extrapolou ali o território espanhol.
Não à toa, o estádio que foi construído para o Real Madrid leva o nome dele. Tem um detalhe: o estádio original do Real Madrid, ele foi completamente, completamente não, mas ele foi bem avariado durante a guerra porque ele foi usado como estoque de mantimentos, munições, E aí foi necessário construir um novo estádio que acabou levando o nome do Santiago Bernabéu. E aí, olha aí como é que as coisas estão misturadas, né? É um jogador que foi soldado e que depois foi presidente do clube.
E, cara, essa proximidade do Francisco Franco com o presidente do clube, ela levanta muitas suspeitas, né? Não dá para acreditar que não houve ali um favorecimento.
Sim, isso aí que você falou me faz pensar também num exemplo do futebol sendo utilizado como uma ferramenta política que aconteceu aqui no Brasil, tá? Então assim, no Brasil ali ainda no final dos anos 50, numa época que teoricamente a gente não tava passando assim por uma efervescência política, né, como eles estavam passando lá numa guerra civil, né, não tava nesse ponto, não tinha nem acontecido a a ditadura militar nem nada.
Aqui no Brasil, um jovem jogador, depois de ganhar uma Copa do Mundo, serviu o Exército sem nenhum motivo além de uma própria propaganda do mesmo, né? O Pelé serviu ao Exército porque, não sei se você vai lembrar, mas o Pelé começou a jogar pela seleção menor de idade ainda, ele tinha 17 anos. Acredito que ele foi o mais jovem a ganhar uma Copa, ou talvez a disputar uma Copa, talvez. E ele, quando ele fez 18, ele se alistou, eles, ele serviu, botaram ele para servir.
E assim, para quem não sabe, sendo bem honesto, eu não sei exatamente como era nessa época, mas acredito que nessa época também. Mas hoje em dia tem muito mais jovens aptos a servir do que vagas para servir o exército. É uma obrigação de todo brasileiro se alistar, né, no ano que faz 18 anos, né. Mas nem todos vão servir, a maioria deve saber disso já. Então muito dificilmente não daria para dispensar o cara que era literalmente o maior atleta do país na época, talvez o maior do mundo na época.
Entendeu? Era muito difícil você me convencer que, pô, ah não, cara, tava faltando um recruta, era impossível dispensar ele.
O recruta Alex.
É, então precisava dele, precisava botar esse cara, ó, tá vendo esse garoto aí, ó, que é incrível, que é o maior do mundo, que é maravilhoso? Ele serviu o exército. Então assim, isso tem um poder, sabe? Isso tem um poder. E o que que isso vai fazer? Vai fazer com que os jovens queiram servir também, porque, pô, até o Pelé serviu, vou servir também, entendeu? Existe um poder político aí nessa parada.
O Brasil viveu uma ditadura também entre 64 e 85, e durante a Copa de 70, que nós ganhamos inclusive, o futebol brasileiro também foi usado como essa vitrine política, essa vitrine do regime, né? A ditadura usou abertamente o futebol. Inclusive interferiu nas convocações, né, na questão da preparação física dos jogadores. E o futebol tinha essa característica de ser uma propaganda do regime, e o Real Madrid foi isso, né, de fato, para o regime do Francisco Franco.
E aí, cara, é que entra a questão que extrapola ali o campo, né, mano. Imagina o que que significava ali nas décadas de 40, 50, 60, 70, uma disputa entre Real Madrid e Barcelona. Imagina esse jogo ali numa final, numa semifinal, o que não era a rivalidade, cara, dentro de campo, porque não era só o futebol. Pois é, as vitórias do Barcelona, elas eram sentidas pela torcida e pelo povo catalão não apenas como uma vitória no esporte, cara, mas era também como se fosse uma vitória política, uma vitória da nação a qual ele se identificava. Não dá para separar uma coisa da outra, né, ainda mais num momento desses.
Mas assim, hoje em dia você consegue ainda ver algum resquício desse apoio à extrema-direita ali no Real Madrid? Você acha que ainda existe talvez essa disputa ali, né, entre esses dois times com esse cunho político? Ou você acha que hoje em dia isso não existe mais?
A questão política ainda é muito, é muito forte. Eu acho que essa questão em relação à extrema-direita nem tanto. A gente tem aí outras expressões no futebol, ali no futebol italiano, né, de torcidas que são bem extremistas, bem à direita, né. Mas no caso da Espanha O que fica hoje mesmo no futebol é o Barcelona se sentir como uma representação dessa tradição política e social da região da Catalunya. Mas pensando ali no regime do Francisco Franco, existia um time que era muito mais próximo ao governo que o próprio Real Madrid, que é o atual Atlético de Madrid.
Que era o Atlético Aviação, Aviação, que era um time que nasceu de um time da Marinha, não da Marinha não, da Força Aérea. Aviação é Força Aérea, foi mal. Então assim, cara, o time literalmente nasceu dentro dos militares. O Francisco Franco era um general do Exército que deu o golpe, que assumiu lá através da Guerra Civil. Então Esse time era muito mais próximo ao regime do que exatamente o Real Madrid. Mas, cara, as histórias de interferências na arbitragem dos jogos, nas questões administrativas, elas tendem a mostrar uma visão de que o regime era muito mais próximo aos seus amigos, aos clubes que também eram favoráveis ao próprio regime, e que o Barcelona em si, por representar essa oposição, ao regime do Franco, por ter essa questão separatista, sofreu mais durante esse período da ditadura.
E hoje essas marcas ainda são muito presentes nessa questão separatista da região da Catalunya, que nunca morreu. É uma questão que está longe de ser resolvida e que quando a gente vê lá a seleção espanhola jogando, vencendo a Copa, Talvez isso não apareça, né? Mas tá dentro ali daquela seleção. Talvez nem todos os jogadores se reconheçam de fato como espanhóis e talvez quisessem estar disputando aí a Copa do Mundo representando lá uma seleção da Catalunya.
Imagino, cara. Para quem possa estar estranhando aí essa sua citação de um time da Força Aérea, para quem não sabe, é comum as forças armadas de um país investirem e até investirem bastante em esporte, tá? O Brasil faz isso. Né? A gente tem muitos militares que eles se tornam militares por serem atletas, né? A gente vê aí que tem muitas competições, principalmente Olimpíadas, né? A gente vê assim, ah, pô, sargento do Exército ganhou, sei lá, medalha de judô.
Aí a pessoa pode imaginar que é um cara que é do Exército e por acaso ele foi lá, se inscreveu. Não, esse cara é militar porque ele já era atleta antes. O Exército, a Marinha, Aeronáutica, eles fazem contrato contratos com esses atletas onde eles recebem essa graduação ou patente de militar. E eles, existe um investimento ali para eles treinarem dentro dos centros de educação física, né, das Forças Armadas. Mas são pessoas que são atletas 24 horas por dia, entendeu?
Então aqui na Urca a gente tem uma escola de educação física do Exército, lá tem uma da Marinha lá no na Brasil, né, que é o CEFAM. Então isso é mais comum do que parece, entendeu? Esse investimento da Força Armada nesses atletas. Então isso é uma outra forma, né, também de mostrar assim as Forças Armadas politicamente, né, de uma forma, vamos dizer assim, uma forma benéfica, né, para população e tal. Não são coincidências, entendeu?
Não são coincidências, cara. E assim, para finalizar esse episódio, eu não sou assim uma pessoa muito ligada ao futebol. Eu acho que eu nem tenho um time pelo qual eu torço. Mas, cara, em saber que o Barcelona durante o regime fascista do Francisco Franco representava resistência ao fascismo, eu já fico tentado aí a gostar mais do Barcelona do que do Real Madrid. Mas Cara, assim, torcer para o Barcelona é quase que automaticamente ser antifascista, mas não necessariamente você gostar do Real Madrid significa que você apoia o regime ou é favorável à ditadura do Francisco Franco.
Acho que isso também significa, se a gente fosse transportar aqui para o Brasil, seria talvez como um time do PC do B durante a ditadura militar aqui no Brasil, cara.
A gente Tem umas semelhanças assim que eu não vou nem tentar explorar muito, mas também tem, cara, umas ligações assim do futebol à esquerda, os times de operários, né, os times de estivadores do porto. Tem essas situações aqui no Brasil também. É, fica um tema legal para um próximo episódio, hein?
Pode ser. Se o pessoal curtir aí, comentar falando, ah não, quero mais histórias sobre futebol aqui. Nenhum, a gente não sabe nada de futebol, Mas de história, se tem história no meio, a gente vai querer saber também. A gente pode deixar que a gente vai pesquisar.
Eu me sinto assim bem desconfortável falando de futebol, cara.
Cara, meu pai costuma assistir os episódios, né? Ele pode ficar meio decepcionado com isso, porque o meu pai é um cara que adora história e adora futebol também. Flamenguista assim, ele não é daquele— eu não vou dizer que é flamenguista doente, porque meu pai é aquele torcedor contido. Entendeu? Não faz estardalhaço, entendeu? Não fica, não fica gritando, não faz nada, mas ele ama futebol.
Seu Caetano, abraço para o seu Caetano.
Se eu falar aqui que eu não me considero um flamenguista, pode chatear ele, entendeu? Mas assim, quando me perguntam, quando ficam perturbando muito, para eu cortar o assunto, para não ficar rendendo, eu falo que eu sou flamenguista. Então é filho Sou. Sorte sua, cara, entendeu? Aí na pergunta, quando pergunta assim, ah, sou flamenguista, para acabar logo a conversa, né? Aí o cara fala ali, ah, mas o jogo tal, não sei o quê. É, pô, é, foi bom.
Não, não foi bom. Não, não, então não foi. É, foi ruim. E é isso, porque eu não sei lá, mano, eu não consigo mais assistir futebol não, cara, não tenho mais paciência não.
É isso aí. Em ano de Copa do Mundo é difícil ficar alheio ao futebol.
Ah, mas aí é outra coisa, pô.
Aí é outra coisa.
Copa é outra coisa. Copa não é futebol.
Copa não é futebol.
Faz sentido.
Cara, é isso. Acho que a ideia aqui foi mostrar que futebol e política estão muito relacionados, sim.
Sim.
Na Espanha, no Brasil, na Copa do Mundo. E deixa aí pra gente aquele like, deixa um comentário falando o que você achou, alguma história que a gente não contou aqui. Uma curiosidade. Segue a gente no Instagram, se inscreve no canal do YouTube, segue a gente também no Spotify, dá 5 estrelas que ajuda a gente bastante. Um abraço e até a próxima.
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