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THE EXODUS ROAD - ESTRATÉGIAS E DESAFIOS NO COMBATE AO TRÁFICO HUMANO

08 de maio de 202633min
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Ao longo desta conversa com CÍNTIA MEIRELLES buscaremos compreender como funcionam as redes internacionais de tráfico de pessoas, quais são os desafios de investigação e enfrentamento, e qual é o papel de organizações como a The Exodus Road na luta global contra esse crime que atenta direta e profundamente contra a dignidade humana.

Saiba mais!


Participantes neste episódio2
W

Washington Clark dos Santos

Host
C

Cíntia Meirelles Azevedo

ConvidadoEspecialista em assuntos humanitários e diretora da The Exodus Road
Assuntos6
  • Atuação da The Exodus RoadCampanhas de prevenção (Vozes pela Liberdade com TikTok) · Cursos de capacitação para forças de segurança · Doação de equipamentos de tecnologia (drones, câmeras) · Apoio a sobreviventes (aftercare, acolhimento emocional) · Cooperação com a Interpol
  • Responsabilidade Coletiva na Prevenção de ViolênciaEducação como solução · Informação sobre canais de denúncia (Disque 100, 180, Comunica PF) · Ser agente de transformação · Observar e denunciar sinais de tráfico
  • Tráfico e desaparecimento infantilProximidade do crime no cotidiano · Exploração em plataformas ilegais de jogos online · Exploração em plataformas de cripto · Trabalho análogo à escravidão em casas · Busca por sonhos em empregos precários
  • Desafios de desenvolvimento de IA no BrasilFalta de campanhas de prevenção e canais de denúncia claros · Necessidade de implementação de políticas públicas · Tráfico para exploração laboral (trabalho análogo à escravidão) · Falta de cuidado pós-resgate e acolhimento especializado · Penalização do crime de exploração laboral
  • Combate ao Crime TransnacionalOperação online e cibernética · Uso de falsos sites e propostas · Migração de conversas para plataformas criptografadas · Lavagem de dinheiro com criptomoedas · Golpes cibernéticos (estelionato do amor, pig butchering)
  • Proteção de Vítimas VulneráveisTratamento psicológico pós-traumático · Necessidade de apoio financeiro e de recolocação no mercado de trabalho · Lacunas na atuação do Estado no acolhimento especializado · Papel da sociedade civil em suprir lacunas estatais
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Honoráveis ouvintes, sejam muito bem-vindos a mais um episódio do Extramuros. Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião. O tema sobre o qual retornamos a abordar neste conteúdo revela uma das faces mais cruéis e silenciosas da criminalidade contemporânea, o tráfico de pessoas.

Considerado um dos mercados ilícitos mais lucrativos do mundo, o tráfico humano movimenta bilhões de dólares anualmente, alimentando redes criminosas transnacionais que exploram homens, mulheres e crianças em contextos de abuso sexual,

trabalho escravo servidão doméstica casamento forçado remoção ilegal de órgãos e outras formas degradantes de violação da dignidade humana

Segundo organismos internacionais, trata-se de um crime complexo, altamente organizado e frequentemente invisível, que opera nas sombras de estruturas sociais vulneráveis, explorando desigualdades econômicas, conflitos, migrações forçadas e fragilidades institucionais.

Nesse quadro, organizações da sociedade civil têm desempenhado um papel essencial na identificação de casos, apoio às vítimas e colaboração com autoridades de diversos países.

Entre essas organizações, destaca-se a The Exodus Road, uma organização não governamental internacional dedicada ao combate ao tráfico de pessoas que atua em diferentes continentes por meio de investigações de campo, apoio às forças de segurança, resgate de vítimas e fortalecimento institucional no enfrentamento a esse tipo de crime.

Para nos ajudar a compreender melhor a dimensão desse fenômeno, seus desafios operacionais e as estratégias globais de enfrentamento, recebemos Cintia Meirelles Azevedo, especialista em assuntos humanitários e diretora da The Exodus Road, organização que desenvolve um trabalho consistente no apoio às autoridades e na proteção de vítimas do tráfico humano em diversos países.

Ao longo desta conversa, buscaremos compreender como funcionam as redes internacionais de tráfico de pessoas, quais são os desafios de investigação e enfrentamento e qual é o papel de organizações como a de Exodus Road na luta global contra esse crime que atenta direta e profundamente contra a dignidade humana. Cíntia.

Na satisfação por recebê-la, assaúdo com as boas-vindas, agradecendo sua gentileza em aceitar o convite para iluminar este canal. Uma honra tê-la conosco. Para iniciarmos nossa conversa, peço que nos ajude a compreender a real dimensão desse problema. Quando falamos em tráfico de pessoas, muitas vezes o imaginário coletivo ainda associa esse crime apenas à exploração sexual.

Entretanto, sabemos que ele envolve diversas outras formas de abusos. A partir da sua experiência na The Exodus Road, como podemos entender, hoje, a dimensão global do tráfico humano, suas principais modalidades e as regiões do mundo mais impactadas por esse fenômeno?

Falar sobre o crime de tráfico de pessoas talvez seja a gente lembrar um pouco da novela Salve Jorge, ou talvez a gente lembrar dos casos e pensar que esse é um crime que não acontece mais. Porém, esse é um dos maiores crimes do mundo. Segundo a ONU e a OIM, ele estaria ranqueado como o terceiro maior crime do mundo, perdendo apenas para o crime de tráfico de drogas e o crime de contrabando de armas.

Mas eu quero fazer uma leitura de um crime que eu tenho notado, que até então a gente dizia que ele era um crime transversal. Porém, hoje a gente nota que as agências policiais no Brasil, elas já estão mencionando que as organizações criminosas têm mobilidades criminais dentro delas. Então, o crime passaria a ser um crime convergente.

Na última conferência da Interpol, que a gente participa do Human Trafficking Expert Groups, com mais de 169 polícias do mundo, a gente aprendeu uma palavra nova chamada policrime, que seria nada mais, nada menos do que as organizações criminosas terem mobilidades criminais dentro delas. Então a gente nota, por exemplo, que o PCC tem o...

tráfico de drogas, ele tem o tráfico de armas, ele tem a lavagem de dinheiro e eu poderia afirmar que ele tem o tráfico de pessoas. Então, a organização criminosa passa a ter essa convergência do crime. O crime de tráfico de pessoas é tipificado no Código Penal brasileiro, ele é uma lei nova de 2016, a Lei 13.344, que diz que...

O tráfico acontece de forma interna e internacional, ou seja, é a transferência de pessoas, é o alojamento de pessoas através de violência, coação, engano, com a finalidade de explorar para trabalho escravo.

para adoção ilegal, para tráfico de órgãos. Eu poderia também mencionar aqui o casamento forçado, a mendicância. Enfim, é o crime que a gente escuta e a gente percebe muito mais na forma da exploração sexual, onde globalmente as mulheres são as maiores vítimas e um terço delas são crianças.

Há uma estimativa de que no mundo hoje tenham mais de 50 milhões de pessoas sofrendo esse crime. Imagine, então, pensar que dessas 50 milhões, um terço são crianças que sofrem esse crime para exploração sexual.

Ou seja, quando a gente nota o Brasil e os dados do Brasil, a gente vê que o Brasil não tem um número que possa ser significativo ao que a ONU e os países estão dizendo que esse crime está acontecendo. Então, esse é um crime pouco visto.

Talvez por muito da nossa ignorância de não notá-lo. Talvez, por exemplo, seria a questão da exploração sexual. Muitas vezes nós notamos que existem pessoas que estão, como a gente diz, profissionais do sexo, mas nós não notamos se essas pessoas de fato são livres.

Muitas delas estão em situações de total exploração. Foram tiradas das suas cidades, foram levadas para outros lugares, são colocadas em lugares onde há uma servidão por dívida. Eu diria que nós não notamos, porque a gente parte do pressuposto de que as pessoas estão ali porque querem, porque são livres.

O número de vítimas crescente no mundo traz um alerta, principalmente hoje que nós notamos muitos brasileiros sendo aliciados de forma online para o Sudeste Asiático. E eu vou além, não apenas para o Sudeste Asiático, mas para Dubai, Oman, Armênia, Rússia, Ucrânia, Serra Leoa e Nigéria.

O tráfico de pessoas é frequentemente descrito por especialistas como um crime altamente adaptável, que se aproveita de fragilidades sociais, econômicas e institucionais. Na prática, como operam essas redes criminosas transnacionais? Quais são os principais métodos utilizados para recrutar, transportar e explorar vítimas?

E de que forma essas organizações conseguem manter essas atividades ocultas por longos períodos?

Esse é um crime que, obviamente, movimenta bilhões por ano. Então, é um crime que, infelizmente, vai ser muito difícil da gente ver o seu fim. Porque as organizações criminosas que operam de forma transnacionais, elas estão muito à frente e elas já entenderam que elas...

operam de uma forma muito difícil de fazer com que as polícias atuem com uma velocidade a ponto de frear esse crime. Vou explicar. E eu quero explicar dizendo com o meu próprio exemplo. Eu sou uma pessoa que adoro dirigir. Eu gosto muito de dirigir rápido e eu acho que se eu pudesse voltar no tempo eu seria...

piloto de Fórmula 1, de kart. Eu não sei quantos aqui assistiram aquele filme do grande roubo que foi feito pelo grande astro do filme, que era o Mini Cooper.

Eu, após ver aquele filme, eu já gostava do Mini Cooper, já gostava de como ele é pequeno, de como você senta no volante, você sente o poder do carro, e é um carro rápido. Então, obviamente, eu queria ter um Mini Cooper. Eu cheguei pro meu marido e falei assim, olha, amor, eu quero trocar meu carro. E eu quero muito comprar um Mini Cooper.

E aí, meu marido, muito sensato, nessas horas a gente tem que dar o braço à torcida. Ele me disse o seguinte, amor, não vamos comprar um Mini Cooper, não, porque é um carro com uma manutenção alta e é um carro que tem uma desvalorização também alta. Então, acho melhor a gente não comprar o carro. Aí eu pergunto, vocês acham que eu ouvi o meu marido? Aliás, é a mulher que manda, né? Obviamente, eu não ouvi o meu marido. Eu comprei o meu Mini Cooper.

E por que eu estou usando o meu próprio exemplo para dizer e o que tem a ver com o tráfico de pessoas? Tem a ver que o tráfico de pessoas, a maior isca desse crime é o sonho. É o sonho do menino que quer ser jogador de futebol e que aceita uma proposta para ir jogar na Espanha. É o sonho da menina que quer ser modelo de passarela e aceita ir desfilar em Paris.

É o sonho do jovem que, recém-formado, aceita uma proposta para ir trabalhar do outro lado do mundo, como atendente de telemarketing.

É o sonho que deixa a gente vulnerável. Porque a gente ignora todos os alertas. Nós ignoramos todas as instruções. Nós ignoramos todos os sinais possíveis. Porque o sonho nos cega. E é muito difícil a gente desacreditar do sonho. E como as organizações criminosas se destacam? Primeiro, elas estão muito organizadas. Elas já entenderam que o aliciamento é online.

Ele é cibernético. Que elas podem, assim como vocês estão escutando esse podcast, acionar você pela palma da sua mão, por uma proposta que vai bater na sua mídia social ou no seu LinkedIn quando você está procurando emprego. E é ali que mora a pegadinha. Porque as organizações criminosas têm falsos sites, falsas operadoras de trabalho com propostas incríveis, com salários que ninguém ganha recém-formado.

Essas propostas, elas vêm pelas mídias sociais, a conversa migra para plataformas que têm um sistema de criptografia muito bom, como o Signal, por exemplo, o Telegram, até mesmo o WhatsApp. E ali começa uma transação de contratação. A contratação sempre vem com uma proposta de salário, incluindo viagem paga, hospedagem paga, alimentação paga.

E, obviamente, comissão e um salário que ninguém diria não. E aí, quando essa vítima aceita essa proposta e ela chega no seu destino, que hoje a Interpol diz que o berço do crime cibernético no Sudeste Asiático movimenta 3 trilhões de dólares por ano. Nesses países como Laos, Cambódia, Mianmar, Vietnã. Aí eu vou além um pouquinho, saindo um pouco do Sudeste Asiático, incluindo a Armênia.

Oman, Dubai, Serra Leoa, Nigéria. Lá são complexos para práticas cibernéticas de golpe. Destelionato do amor, investimento em cripto, pig burtering. É simplesmente o crime da Polícia Federal que a gente viu aí recentemente sendo noticiado. E esses golpes nada mais é do que brasileiros do outro lado do mundo.

sendo obrigados a fazer ligações constantemente para que as vítimas do outro lado do mundo, os próprios brasileiros, caiam e façam essa remessa financeira.

Quando essa remessa chega na conta do outro lado do mundo, automaticamente é transformado em cripto. O cripto é passado para outras carteiras e essas carteiras são pulverizadas. E aí uma forma de lavagem de dinheiro que as organizações criminosas encontraram facilmente de driblarem e de dificultar as polícias para o combate desse crime. É assim que tem funcionado e hoje...

Um crime que é transnacional exige uma resposta local imediata com uma ação global e eficiente para que a gente consiga paralisar esse crime. O combate ao tráfico de pessoas exige uma atuação integrada entre governos, organismos internacionais e sociedade civil.

Nesse aspecto, qual é exatamente o papel de uma organização como a The Exodus Hold e como ela atua no apoio às investigações, na cooperação com as autoridades policiais e no processo de identificação e resgate de vítimas? A Exodus hoje no Brasil tem alguns objetivos e nós complementamos.

o que nós notamos que há necessidade. Explico. Nós hoje temos feito várias campanhas de prevenção. Então, ano passado, fizemos uma campanha chamada Vozes pela Liberdade, em parceria com o TikTok, e com mais de 80 artistas que utilizaram suas plataformas para falar sobre o que é o tráfico de pessoas para exploração sexual de crianças e adolescentes.

E essa campanha atingiu 120 milhões de views, ou seja, eu poderia dizer que a gente atingiu quase que 40% da população brasileira. Então, a gente faz campanhas, e uma das questões que a gente mais foca e que mais nós temos feito é um curso de capacitação para as forças de segurança. Nós não somos os expertos do assunto, então nós...

convidamos os especialistas do assunto. Então, nós criamos uma plataforma de ensino em formato de masterclass, onde trouxemos a Polícia Federal, o Ministério Público do Trabalho, a Celebrite e tantos outros especialistas para falar sobre o que é o crime de tráfico de pessoas e como ele acontece.

para dizer como se investigarem. Então, a gente juntou especialistas para definirem o que é o crime, como ele acontece no Brasil, com a técnica de investigação, para que a polícia, entendendo isso, ela possa tipificar corretamente o crime.

também uma das outras questões que nós temos como organização e atuamos no Brasil é oferecer equipamentos de tecnologia para as polícias, para as divisões de inteligência lá na ponta. Nós temos uma parceria com a Celebrite, nós temos uma parceria com a Clearview, com a TechBiz e nós entregamos essa tecnologia lá na ponta para a polícia.

outras tecnologias que nós entregamos e doamos também, tanto para a Polícia Federal, tanto para a Polícia no Estado de São Paulo, drones, câmeras, para ajudar esses times de investigação. No que tange ao resgate, ao aftercare, a Exodus Road, ela já tem mais de 400 sobreviventes do Brasil.

e não diretamente da ESDOS, mas porque muitos desses casos foram através da capacitação das agências policiais que entendendo, se aperfeiçoando, conseguiram identificar que muitos dos crimes onde já haviam investigações, ali também tinha o crime de tráfico de pessoas. Eu vou dar um exemplo de sucesso que nós consideramos.

que é a polícia de fronteira do Paraná, o BPFROM. O BPFROM sempre teve um olhar por estar na fronteira focado no tráfico de drogas e no descaminho. Quando a gente oferece a capacitação...

Além deles olharem para esses crimes, eles começam a olhar também para pessoas como objeto do crime. Ou seja, a polícia começa a ter um olhar muito mais amplo. Nem todas as pessoas, os sujeitos, são vítimas.

Mas certamente há muita vítima de tráfico de pessoas dentro dos outros crimes. Esse tem sido o nosso trabalho e, obviamente, um dos trabalhos mais incríveis é o oferecimento de cuidado pós-resgate. A acolhimento oferecemos acompanhamento emocional para essas vítimas e o objetivo é reestruturar essa vítima para que ela não volte para a situação de onde ela estava e ela possa continuar em liberdade e seguir e trilhar um novo estilo de vida.

Uma característica importante da atuação da The Exodus Road é justamente o trabalho investigativo que apoia operações conduzidas por autoridades locais. Como se dá essa cooperação entre a organização não governamental e as forças de segurança?

em diferentes países e de que forma são estabelecidos os protocolos para garantir que as investigações e os resgates ocorram dentro de parâmetros legais e de proteção às vítimas. No Brasil, o nosso maior objetivo é oferecer capacitação para as polícias. A gente entende que esse é um trabalho de polícia e a gente oferece para as polícias essa capacitação.

a tecnologia para que as polícias possam observar o crime. Em outros lugares do mundo onde é permitido, a Exodos tem times de pessoas que são ex-policiais, muitas vezes, e eles fazem investigações locais, coletam essas informações e entregam para as polícias locais.

para que assim siga-se o trâmite segundo o sistema de justiça de cada país. No Brasil, a gente tem focado na capacitação e na suplementação com tecnologia para as agências policiais. E a gente tem visto que isso tem sido de muito sucesso. Obviamente, como nós também temos uma cadeira na Interpol, a gente acaba recebendo muitas informações das vítimas. A vantagem de ser uma sociedade civil, uma ONG, é que as pessoas confiam na gente.

Elas nos veem como pessoas que querem ajudar. E a gente tem tentado fazer com que essas informações cheguem às agências policiais para que elas possam, a partir desse material, seguir e fazer uma investigação completa. Uma das outras coisas que eu tenho notado, como sociedade civil e como ONG, é fortalecer a imagem das polícias.

para que a comunidade, para que a sociedade confie nas forças de segurança, para que elas possam fazer essa denúncia, para que elas possam se sentir seguras também. Eu acredito que a união da sociedade civil com as forças de segurança soma, ela só traz benefícios, porque eu acredito que nós podemos cumprimentar e podemos nos auxiliar.

para que no final todos se sintam mais protegidos e sintam que os crimes tenham, de fato, essa redução. E eu não falo somente aqui como êxodos focada no tráfico de pessoas. Eu acho que a sociedade civil complementa muitas situações. Qual polícia de qual cidade que não vai precisar de uma ONG que esteja perto para acolher uma mulher vítima de violência doméstica, por exemplo? Qual polícia que, numa situação de acolher uma criança...

ou um adolescente, não vai ter uma sociedade civil, uma ONG próxima que possa ter um programa para esse adolescente, para essa criança. Eu acredito que a gente precisa fortalecer esses vínculos e ter protocolos que beneficiem a todos. Hoje a ESDOS faz esse papel através da capacitação e através de doações de tecnologia para a polícia.

E, obviamente, com a Interpol a gente passa os relatórios quando nós recebemos das vítimas para que a Interpol aí faça e distribua para as polícias dos respectivos países. Embora muitas vezes o tema seja tratado como um problema distante, o Brasil também é impactado por redes de tráfico humano, tanto como país de origem quanto de destino de vítimas.

Na sua avaliação, quais são hoje os principais desafios do enfrentamento ao tráfico de pessoas no Brasil e quais as características específicas do cenário brasileiro que merecem atenção especial? Bom, acho que o Brasil é um país de tamanho continental. Então, você que está escutando, eu vou te fazer uma pergunta. Como é que você faria uma denúncia do crime de tráfico de pessoas?

Você sabe qual é o canal de denúncia? Você sabe o que fazer? Se você não souber essas respostas, e eu não quero aqui constranger, mas sim a gente levantar esse pensamento, é justamente porque o Brasil não tem muitas campanhas de prevenção e campanhas que mostrem os canais de denúncia. O Brasil tem um marco legal muito robusto.

mas a gente precisa ver as implementações dessas políticas públicas. Hoje, no Brasil, a gente vê que é um país de rota, é um país de destino e é um país que pouco tem também o cuidado pós-resgate. Uma outra colocação é a questão quando nós observamos o tráfico de pessoas para a exploração laboral, para o trabalho análogo à escravidão.

Por que nós temos visto tamanho número de ações e de apreensões e de operações de pessoas sendo vítimas da exploração laboral? Será que nós não deveríamos ter essa tipificação na questão penal e não apenas na esfera trabalhista?

para que esse crime de fato seja penoso, seja um crime caro, seja um crime que incomode quem o pratique. A gente também observa que a maioria das vítimas da exploração laboral, do trabalho análogo à escravidão, são homens. A maioria das vítimas para exploração sexual, para destino, são mulheres para fora do Brasil. Então a gente vê uma rota muito grande para a Itália.

Espanha, Portugal. E a gente tem também uma rota, infelizmente, muito triste. Inclusive, um estudo feito pela Freedom Fund no hotspot de Recife mostrou que mais de 20 mil crianças na região metropolitana de Recife sofrem exploração sexual. A gente tem, sim, que...

estruturar o nosso país de forma que a gente tenha mais campanhas de alerta sobre o que é o crime, mais denúncias e penas que realmente sejam pesadas para quem comete esse crime. Uma das dimensões mais sensíveis desse trabalho é justamente o cuidado com as pessoas resgatadas das redes criminosas.

Após uma operação de resgate, quais são os principais desafios relacionados à proteção, acolhimento e reintegração das vítimas? Que tipo de apoio psicológico, social e institucional é necessário para que essas pessoas possam reconstruir suas vidas?

Um dos trabalhos mais difíceis é resgatar uma vítima ou acolher uma vítima que sofreu esse crime. Acho que um dos casos que mais foram falados no Brasil recentemente foram dos dois jovens que a gente teve a oportunidade de ajudar a trazer de volta de Mianmar, que foi o Lucas e o Felipe. Então, quando você recebe uma pessoa que sofreu tortura e que...

foi objetificada por meses. A gente precisa oferecer para ela tratamento psicológico, a gente precisa oferecer para ela esse cuidado intenso pós-traumático que exige profissional bem treinado e bem formado. A gente precisaria ter uma sociedade, um estado mais presente no sentido de suprir.

a questão financeira de trabalho, de recolocação de mercado. Hoje, no Brasil, eu acho que essa parte ainda não existe. Se hoje a polícia do estado de São Paulo, por exemplo, tiver um caso de tráfico de pessoas e ela precisar resgatar essa vítima e colocar num local, qual seria esse local que essa polícia levaria essa vítima?

Para uma casa de abrigo? Uma casa de abrigo especializada para vítimas de tráfico de pessoas? Ou é uma casa de abrigo para moradores de rua? O Brasil é muito campeão em ter todos os protocolos, todas as formatações em papel.

Mas, na prática, se você tiver um caso, e eu ouvi isso de várias agências policiais, nas sextas-feiras, às 20 horas, você não tem para quem ligar. A gente precisa ter um Estado que seja presente.

que tenha na prática aquilo que diz que está no papel. Nós, como sociedade civil, nós temos tentado novamente suprir essas lacunas deixadas pelo Estado, que é o cuidado emocional, que é o cuidado de recolocação de mercado de trabalho, que é a formação, muitas vezes a escolar.

mas esse não é um trabalho de sociedade civil, esse deveria ser um trabalho de Estado. Diretora Cíntia, sabemos que o combate ao tráfico de pessoas não depende apenas de repressão criminal, mas também de conscientização e prevenção. Na sua visão, qual é o papel da sociedade nesse processo?

O que cidadãos, instituições e governos podem fazer para identificar sinais de tráfico humano e contribuir para a prevenção desse crime?

Essa é uma pergunta que eu sempre penso, porque é o que motiva o nosso trabalho. Quando eu fui chamada para trabalhar, eu não queria ser mais uma organização que ficasse enxugando gelo. E talvez seja a minha utopia que eu insisto em perseguir. Dizem que, e eu sinto isso, quanto mais perto eu estou da utopia, mais ela corre de mim. Mas a solução é a educação.

Eu acho que sociedade civil, Estado, forças de segurança, iniciativas privadas, a gente tem uma obrigação que é a educação. O Estado tem a obrigação de prover a educação e o Estado falha.

A instituição privada que está fazendo essa educação, ela tem que ter nas escolas os alertas, o que é o tráfico de pessoas, o que é o tráfico de drogas, o que é o crime cibernético que hoje assola as crianças e adolescentes.

é educação. E nós temos focado em campanhas de prevenção. Porque se eu educar as pessoas, se eu educar a sociedade a saber o que é o crime e a informar a sociedade os canais de denúncia, eu volto aqui para dizer, quem não sabe quais são os canais de denúncia,

O Brasil hoje dispõe de alguns canais, o Disque 100, o Disque 180 e tem o site online da Polícia Federal, Comunica PF, escolha tráfico de pessoas. Então, com a educação, com a informação, a sociedade vai fazer denúncia. A sociedade denunciando esse crime vai ser autora...

e provocadora do Estado para que as políticas públicas sejam eficientes. E aqui fica um desafio nosso, como cidadão e cidadã desse país tão lindo, que é educar, é informar, é ser agente de transformação na vida das pessoas. Como sociedade, o meu papel tem sido educar.

Como cidadã, o meu papel tem sido olhar. Eu vi alguma coisa, eu desconfiei de alguma coisa, eu preciso denunciar. É assim que eu enxergo. Talvez a utopia continue correndo, mas eu não vou desistir de correr atrás dessa utopia.

Caríssima, estamos chegando à parte final desta conversa, que certamente trouxe aos nossos ouvintes uma compreensão mais profunda sobre a gravidade do tráfico de pessoas e sobre o trabalho fundamental desenvolvido por organizações como a The Exodus Road no enfrentamento dessa forma extrema de violação dos direitos humanos.

Reprisando os meus agradecimentos e parabenizando-a pelo incansável trabalho, deixo este espaço para suas considerações finais. Fraterno abraço. Eu quero te agradecer por essa oportunidade de falar sobre esse crime que mexe tanto comigo.

E eu quero trazer um pedido de alerta, porque esse crime está muito mais próximo do que a gente pensa. Esse é um crime que atinge a toda a sociedade. A gente tem visto hoje o Brasil sendo assolado por plataformas ilegais de jogos online. São nessas plataformas online ilegais que estão muitos brasileiros sendo obrigados à prática de golpes, a ofertar os jogos do tigrinho.

são em plataformas de cripto que oferecem rentabilidades absurdas aonde tem muitas vezes pessoas lá atrás sendo obrigadas a ofertar essas plataformas.

São nas funcionárias invisíveis de muitas casas que trabalham 14 horas e que a gente acha que é tão normal, porque estão ali, afinal de contas, são parte da nossa família. São nas escolas onde os jovens pouco têm acesso às universidades e que vão buscar o sonho para esses empregos, para essas propostas. O meu alerta e o meu pedido é que...

Olhem para as pessoas e entendam que esse é um crime que mexe com o sonho. É um crime difícil de olhar, é um crime difícil de notar, mas quando a gente começa a enxergar esse crime, a gente não consegue mais desver. Eu quero agradecer a vocês que me escutaram até aqui.

a convidá-los a se debruçar sobre esse crime que assola o mundo inteiro. Muito obrigada. Honoráveis ouvintes, este foi mais um episódio do Extramuros. Sou Washington Clark dos Santos, seu anfitrião.

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