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287 O MÉDICO É UM FINGIDOR? #MEDCAST

03 de maio de 202613min
0:00 / 13:30

Um poema simples pode carregar uma das verdades mais profundas sobre a natureza humana.

O poeta finge, mas, no fundo, revela. E talvez você esteja fazendo o mesmo sem perceber.

Neste episódio, a reflexão começa na literatura, atravessa a filosofia e chega na prática da vida médica. A busca por transcendência está em todos, mas ela pode se manifestar tanto na construção quanto na fuga.

Virtudes ou vícios. Disciplina ou alívio imediato.

No fim, a pergunta é inevitável: o que você está fazendo com essa inquietação que não passa?

Ouça o episódio completo e entenda se você está construindo algo que permanece, ou apenas anestesiando o que incomoda.

MOTIVOS PARA ACESSAR ESTE EPISÓDIO

- Entender o conceito de transcendência aplicado à vida prática

- Diferenciar prazer imediato de felicidade construída

- Identificar vícios disfarçados de recompensa

- Compreender o papel das virtudes na construção de uma vida sólida

- Refletir sobre o vazio mesmo em rotinas produtivas

- Aplicar conceitos filosóficos na carreira médica

- Reorganizar suas escolhas com mais consciência

Se sua rotina está cheia, mas sua vida continua vazia, talvez você esteja buscando no lugar errado aquilo que realmente importa.

⭐⭐⭐⭐⭐

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Participantes neste episódio1
D

Daniel Coriolano

HostMédico
Assuntos3
  • Poeta como fingidorA dor sentida versus a dor expressa · A universalidade dos sentimentos humanos · O leitor interpretando a dor do autor
  • Transcendência e a busca humanaA busca por algo além do tempo · A arte como manifestação de transcendência · Eudaimonia como estado de plenitude · Virtudes humanas e a busca pela felicidade · Vícios como busca equivocada por transcendência
  • A carreira médica e a escritaVivências médicas como matéria-prima para escrita · Médicos que também são escritores
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Você deve lembrar desse poema de Fernando Pessoa. Eu vou colocar aqui, musicado, e aí você vai me dizer se lembra, mas vou depois comentar sobre ele. Escute aí. O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que devera sente. E os que leem o que escrevem, na dor lhe da sentem bem.

Não as duas que ele teve, mas só aqueles não tem E assim nas calhas de rodas gira entre ter a razão Esse comboio de corda que se chama coração

Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que devera sente E os que leem o que escrevem Na dor lhe assentem bem Não as duas que ele teve Mas só aqueles não tem E assim nas calhas de rodas Gira entre ter a razão Esse comboio de corda

Olha que interessante, né? Eu tô voltando da escola, fui deixar meus filhos e a gente conversou sobre isso. Mas antes, bem-vindo a mais um episódio. Aqui é o Daniel Coriolano. Se você tá chegando por aqui agora, esse é o Madcast. Temos aqui mais de 200, acho. Já estamos na reta dos 300 episódios, desde 2013, 2014. E nessa temporada eu tô gravando aqui do carro.

Acho que tá bem legal. Acompanhe os outros episódios e manifeste-se na área de comentários, no like, na inscrição no canal, acompanhando pelo Spotify também dá pra comentar, beleza? E é isso. Tava comentando com o meu filho aqui sobre esse poema, né? Ele tava com o livro, né? E aí eu disse, Dante, imagina o poeta que escreve então uma história através do poema. Ele tem uma dor, mas ele finge que é dor.

a dor que ele sente para ser um autor e ainda que aquela forma de escrita repercuta de uma forma diferente em quem lê. Ele coloca o poeta é um fingidor que finge tão completamente que ele chega a fingir que é dor, a dor que de Vera sente. E quem lê o que ele escreve na dolida

no leitor, na dolida, eles sentem bem. Não a que o autor colocou, mas a dor que o leitor tem. É interessante porque isso também é um conceito universal. Os melhores autores escrevem...

a coisas universais, ou seja, sentimentos, angústias, percepções até universais, que todos os humanos têm em qualquer parte do mundo, só que a forma, o operacional desses sentimentos, eles são diversos, são peculiares, são individuais. Por exemplo, todos os humanos sentem alegria, então uma alegria no poema vai repercutir de uma forma diferente no leitor, como foi para o escritor fazer.

Uma tristeza, ela pode acontecer de alguém que morreu, ou então de uma saudade, mas tristeza é tristeza, é um sentimento ali que leva você mais pra baixo, que traz lágrimas. Só que é algo universal.

sente isso independente do local onde mora. E o autor bom, normalmente esse tipo de sentimento é colocado nos clássicos, por isso que eles atravessam gerações, demarcam a qualidade do autor, porque digamos que o cliente do autor é o leitor, e como contemplar essa demanda do leitor?

sem ser algo puramente biográfico e egocêntrico. Pode ser até biográfico, só não pode ser egocêntrico. Ou seja, eu posso ler a história de alguém, mas o que aquela história impacta na sociedade, em mim, enquanto leitor? Está aí o segredo dos ótimos escritores. Esse foi o principal aprendizado que eu tive no meu processo de...

desenvolvimento enquanto autor e de forma especial na oficina que eu fiz com o Rodrigo Gugel de escrita.

que foi o curso mais intensivo de escrita que eu já fiz, e isso me ficou marcante mesmo, e é possível visualizar nos meus livros o quanto de Universal eu tento imprimir ali nas histórias. E na carreira médica, a gente tem muitas vivências. Essas vivências dão pra gente um arcabouço, ou então uma matéria-prima, enorme pra escrita. Tanto é que existem vários médicos e escritores.

E por que isso acontece? A arte, de várias formas, leitura, escrita, texto, que é o texto, é uma pintura, uma música, que é um texto também musicado.

ela é uma expressão que vai além dessa linguagem humana verbal. E é uma característica da nossa humanidade, da nossa alma, essa busca pela representação. O simbólico é algo muito próprio da natureza humana. Isso é observado por séculos, né? Por exemplo, desde as pinturas rupestres, que isso pode ser...

conseguido aferir que o humano tem isso. Os outros animais não têm essa marcação simbólica deixada ao longo do tempo ou nada parecido. Apenas é da alma humana isso, que diz respeito, filosoficamente, a uma capacidade de buscar a transcendência. A transcendência é a capacidade de ficar além dos tempos. Então...

Nós estamos em um tempo e nós apontamos para a transcendência também através da arte. Por isso que uma manifestação elevada que aponta para a estética e para a beleza, ela toca muito mais a alma humana. Não é apenas o físico humano, ela toca a alma humana, que é algo que os animais têm alma natural, mas não têm alma eterna igual nós humanos. E essa capacidade de...

de deixar a escrita por metáfora, esse fingidor enquanto escritor, poeta, que finge ser completamente, uma coisa completamente diferente, o que está sentindo de verdade e consegue extrapolar, é incrível, né? Essa capacidade, conversando com o meu filho acerca disso, num nível de profundidade bem menor do que esse que a gente está aqui tratando, mas é uma forma de você, ouvinte aqui do Madcast, identificar...

Qual a manifestação de transcendência que você está fazendo aí na sua vida hoje? Eu particularmente gosto de escrever, né? E aí, essa escrita é uma forma de participar da eternidade, né? Independente de eu estar aqui na Terra em algum momento, o texto vai estar escrito. Está tudo apontando para esse algo mais metafísico. Só que todo mundo faz isso. Todo mundo...

ele aponta para a plenitude e para a transcendência. É o que o Aristóteles falava, ele citava que esse estado maior de plenitude era eudaimonia, que ele citava esse nome, que era o estado de plenitude máxima. Ele viveu, então, ali 300 anos antes de Cristo, com um entendimento não filosófico mais de Aristóteles, mas teológico.

por exemplo, de São Tomás, que tem um pensamento influenciado por Aristóteles, na teologia a gente diz isso com uma plenitude de estar ligado ao Pai, a Deus, que é o estado máximo que a gente vai atingir, indo para o céu. E esse experimento muito incipiente acontece aqui na Terra. Qual a transcendência que você está tentando manifestar hoje? Por exemplo...

Nós temos as virtudes humanas que apontam para a transcendência, né? A coragem, a fortaleza, ela aponta para um estado de felicidade. Tanto é que quando você faz algo bom, por exemplo, você passou a semana tendo um cuidado...

regrado na alimentação, fez exercícios físicos, cumpriu com suas tarefas do lar enquanto pai e mãe, ou mesmo cumpriu com esforço e dedicação as suas tarefas profissionais, no final da semana você tem uma grande sensação de felicidade. Então é o prêmio de quem exerceu o esforço em busca da transcendência. Esse é o prêmio.

O prêmio que a gente pode receber por enquanto, né? É um gostinho dessa transcendência. Você fez as coisas certas. As virtudes humanas. Aí quando você...

Como as virtudes podem ser corrompidas, elas se tornam vícios, em excessos. Então, quando você tem uma felicidade desencadeada não por esse esforço, por esse hábito voltado para o bem e para a verdade, você consegue alguma felicidade ali com bebidas alcoólicas, por exemplo, ou com drogas, ou com drogas lícitas, como o cigarro. Você tem algum estado de plenitude, de felicidade, e aí você exagera?

com aquilo, é um vício humano, então é a virtude corrompida.

Só que também é uma necessidade de transcendência que a gente está buscando contemplar, só que de uma forma errada, pela via dos vícios. E isso causa um dano para a gente. Tanto é que aparece como sintoma não uma felicidade. Como quando você é virtuoso, a felicidade é esse sintoma de que você está no caminho certo. Mas essa felicidade alcançada pelo caminho dos vícios, ela é uma felicidade temporária.

E ela tem como um efeito adverso uma tristeza. Por exemplo, quando você tem uma breve felicidade no momento de bebidas alcoólicas exageradas ali, aí você tem momentos de felicidade sozinho ou com um grupo, só que o efeito adverso dessa felicidade, porque é uma virtude corrompida, é um vício, é uma tristeza depois. Então, de forma especial aí nos vícios relacionados a bebidas alcoólicas, tem a ressaca, né?

Então, é um dano ao corpo e à alma. Não só ao corpo, à alma também. E eu comecei falando que o poeta é um fingidor, que finge tão completamente, que chega a fingir que é doador que de vera sente, porque eu fiz essa corre... Eu nem sei porque... Eu nem sei como eu cheguei nesses vícios e virtudes, mas, espera aí.

tem a ver no sentido de, ah, lembrei, de buscar a transcendência. Como é que o poeta finge tão completamente essa dor e escreve? Porque é uma busca pela transcendência. Ele não consegue expressar essa dor apenas no falar, no escrever. Ele busca mais do que isso. Então, o escrever poeticamente, com as metáforas, que só outra alma humana vai entender.

uma leitura robótica, artificial, ele não entende os meandros ali que a mente humana, que a alma humana tentou imprimir no papel. Por isso que alguns textos soam mais difíceis de serem interpretados. É isso. A minha questão central nesse episódio é o que você está fazendo hoje para buscar a transcendência? Você está indo pela via...

das artes, você escreve, você pinta, você toca algum instrumento, tenta fazer ali alguma música, ou esse extravasamento em busca da transcendência está levando você também a fazer escolhas ruins que apontam para os vícios humanos, que é uma busca pela transcendência, só que pela via errada. Reflita sobre isso, reflita sobre suas decisões e atitudes cotidianas e busque reajustar a rótula.

reajustar a rota com a bússola que aponta para as virtudes humanas, que aí você vai precisar de muito esforço, ok? Tem as virtudes humanas que você vai precisar do seu esforço humano. Aí você vai deixar a graça fazer o seu trabalho através das virtudes teologais, fé, esperança e caridade. Mas você precisa cooperar para que isso aconteça.

Beleza? Quais as ações de transcendência que você está fazendo hoje, coloca aí na área de comentário. Se você ainda não refletiu sobre isso, está aí uma oportunidade para que você faça durante essa semana. Daniel Coriolando aqui, acompanhe os próximos episódios. Manifeste-se no like, na inscrição, nas estrelinhas no Spotify, que você pode classificar. E até os próximos episódios.

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Daniel Carvalho

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