#153 - Um Ep pra te lembrar de cuidar do que já é seu.
Sabe quando a gente fica tão de olho no que deseja conquistar que esquece de dar carinho para o que já construiu? No episódio de hoje, o Levanta e Flui é uma conversa intimista sobre valorizar e cuidar das suas coisinhas.
Oi, eu sou a Manu, tenho 34 anos, 5 irmãos homens e um monte de amigo babaca. Como é que você tá? Eu confesso que eu tô com uma voz um pouco pegando aqui. Eu tô com medo de ficar sem voz de novo, mas eu vou seguir gravando porque os episódios das quartas-feiras são uma casa com uma mesa pronta, com uma luz entrando ali pela janela iluminando a casa inteira, com várias amigas se sentando para tomar café. E eu tenho certeza que essa casa um dia vai ser um lugar físico, porque eu, eu amo as minhas coisas, eu amo as minhas ideias, e eu sei que em algum momento tudo vai fazer algo maior, tudo vai fazer maior, tudo vai se tornar maior.
Eu acho que o episódio hoje é sobre minhas coisas. Uma moça mandou uma pergunta no direct dias atrás me perguntando assim: Manu, você fala muito sobre coisas e coisinhas, como você fez para amar suas coisinhas? Porque eu não gosto de nada que é meu. Eu abri a página dela e ela trabalhava com lash design, se eu não me engano. E aí eu falei: como não amar, né, as próprias coisas? Eu sinceramente aprendi com os outros não gostar do que era meu.
Aprendi em casa a amar coisa dos outros. As filhas dos outros estudaram fora, as crianças das outras famílias. O melhor prato era o dia que a visita ia lá em casa, o melhor copo, o jogo de jantar era para os outros. E aí, quando eu fui morar sozinha, eu segui essa tradição de só ter coisas boas em casa quando tivesse pessoas para usufruir daquilo ali. Só que o tanto que eu trabalhava dentro da pandemia, eu percebi ainda mais que a pessoa que menos visitava minha casa era eu.
Eu era visita na minha casa porque eu tava o dia inteiro fora. Então, como não amar as minhas coisinhas se eu era a visita que estava ali? Eu me lembro da primeira vez que eu comprei uma caneca E eu decidi, foi uma decisão, ser colecionadora de canecas. Eu estava buscando alguma coisa para eu gostar, e aí eu vi uma caneca, inclusive tô olhando para ela aqui, aqui de casa, e eu falei, eu vou ser uma pessoa que ama canecas, e esse vai ser um traço meu, uma característica minha.
Uma coisa que as pessoas vão saber que é tipo um gosto peculiar: colecionadora de canecas, seja de momentos, seja de viagens, enfim, canecas. Foi a primeira coisinha que eu decidi amar das minhas coisas, e eu tomei café com ela por muito tempo. Depois eu mandei fazer uma com a minha própria logo, e antes de ter uma logo minha do Levanta e Flui divulgada na internet eu fiz uma caneca com a minha própria logo e eu ficava olhando para ela todo santo dia para lembrar que aquilo ali era coisinha minha.
Eu tenho um apego muito forte sobre as minhas coisinhas, mas eu acho que eu queria hoje te dar um norte de como também amar suas coisinhas, seja um pacote de biscoito que você compra, seja uma blusinha legal, seja um perfume, seja um laço de cabelo, qualquer coisa que seja sua. Amar as nossas coisinhas é um mantra, é um— parece que a gente só tem as coisas melhores depois que a gente ama as que já tem. Eu lembro que eu não conseguia um apartamento de jeito nenhum para mim mudar, e aí eu comecei a cuidar do meu quarto.
Para aprender a cuidar do meu apartamento quando eu tivesse. Eu lembro que eu tava muito desgostosa do meu emprego, e aí eu mandei refazer meus uniformes e comecei a amar o meu emprego antes de ter o meu novo emprego. Funcionou, as portas se abriram, meu apartamento apareceu. E aí, quando eu vi em algum momento eu me desleixar com apartamento que eu tinha conseguido, Rapidamente eu me atentei que o amor pelas minhas coisinhas é o que estava fazendo a minha vida inteira se mover.
Então eu voltei a amar as minhas coisinhas. E aí eu troquei as coisas, comprei novos talheres, organizei a cozinha, coloquei papel de parede, e pouco tempo depois Eu estava me mudando de estado novamente já, e aí eu ia aprender a gostar das minhas coisinhas em outro lugar. Por diversas vezes eu tinha um monte de coisa em casa, me desfazia de um monte de coisa, um monte de cabo de carregador, de coisas que eu não usava mais. Não eram, não eram as minhas coisinhas.
Aquela quantidade de cabos, de tampas, de panela sem tampa, de coisas quebradas Elas faziam parte de um trauma de alguém que tinha medo de perder tudo a qualquer momento. E aí eu entendi que o apego às minhas coisinhas não era sobre acumular. O acumular vinha da ansiedade, mas o amor às minhas coisinhas vinham delas em perfeito estado, a ponto de amar o suficiente para entender que já não servia mais e comprar outra coisa para amar.
Assim que a outra quebrou. Porque apego não é sobre cuidado com as coisas. Apego a gente cria para coisas que a gente tem medo de nunca mais recuperar. Amor às coisas é conservar as coisas que você tem, que estão funcionando. Eu aprendi a amar todas as minhas coisas, as minhas canecas, depois as minhas roupas. Depois o meu trabalho, depois o meu computador. Comecei a ter um cuidado nas coisas simples da minha casa. Amar as minhas coisas foi o mantra que mais funcionou.
E aí eu aprendi a amar as minhas amigas. Eu já falei no episódio sobre sentir saudade das coisas enquanto elas acontecem. Eu sou essa pessoa, eu vivo as pessoas, e talvez Por isso eu não sinto saudade, muita saudade, quando alguém sai da minha vida, porque eu vivo ela enquanto ela está ali. Não há nada que eu não tenha vivido, não há nada que eu não tenha feito, não há nada que eu não tenha entregado naquele momento para aquela relação.
A pessoa, as pessoas que entrarem na minha vida, elas jamais vão sair da minha vida com dúvidas do quanto eu amava elas e as coisinhas delas. Eu comento do olho, eu gosto da voz, eu sou clara nas minhas coisinhas. E por ser clara nessas coisas, eu acredito que nenhuma pessoa saia da minha vida sem saber o significado dela. Ela pode até ir embora e em algum momento ela não exista mais para mim, mas enquanto ela existiu ali, existiu todas as coisinhas que me fizeram durar naquele lugar.
Nas amizades, nos amores, nas vivências. Eu amo tanto as minhas coisinhas que eu sou a maior fã da minha filha. Eu a amo perdidamente. Ela é a minha coisinha preferida, desde o fiozinho de cabelo até o dedo do pé, porque ela é minha coisinha, a coisinha que saiu de mim, a coisinha que eu tô criando, a coisinha que eu que eu me espelho numa versão muito bonita do que eu tenho construído como mãe. Eu acho ela uma, uma, um reflexo muito bonito do que deu certo.
E só deu certo porque eu coloquei amor. Eu não coloquei os meus medos nela, mas eu coloquei muito amor nela. Eu tenho amor por todas as minhas coisas. Eu tenho um amor tão grande sobre as minhas coisas que dias atrás eu esperei ajuda de alguém para poder montar uma mesa de escritório E aí essa pessoa não ia poder vir mais. E eu mesma ali cansada, eu ajoelhei e montei a minha mesinha de escritório. E eu lembro que enquanto eu montava ela, eu dizia: eu amo as minhas coisinhas, eu vou sentar aqui e eu vou me concentrar em ver um manual que eu não entendo, mas eu vou fazer acontecer as minhas coisinhas.
E eu montei meu mini escritório Para eu atender meus pacientes, porque as minhas coisinhas, elas às vezes não vão fazer sentido para as pessoas, mas elas vão fazer sentido para mim. Então eu preciso que vocês entendam que amar as coisas de vocês faz com que, além de cuidar do que você já tem com mais amor, faça com que mais coisas surjam. No meio do caminho. Ano passado eu decidi que eu ia cuidar do apartamento que eu morava de aluguel como se fosse meu.
Eu comprei coberta, cobre-leito, edredom, lençóis de cama. E antigamente eu só comprava essas coisas quando ia receber visitas em casa. Toalhas de banho, eu só comprava essas coisas quando ia chegar gente nova. Dessa vez não. Dessa vez eu comprei as minhas coisinhas para eu dormir bem. Uma amiga acabou me mandando aquele cheirinho de jogar no lençol. Se ela não tivesse me dado, eu também teria comprado, mas como ela me deu, se tornou parte das minhas coisinhas de casa.
E todas as vezes eu troco os lençóis e jogo o cheirinho, que é para lembrar que eu amo as minhas coisinhas, até que eu consegui comprar minha casa própria. E é engraçado que eu disse no dia que eu comecei a arrumar as minhas coisinhas, porque eu disse que eu ia cuidar daquele apartamento como ele fosse meu, porque aí Deus ia ver o quanto eu sei cuidar das coisas e ia permitir que eu tivesse a minha casa. Eu ia cuidar tanto do meu coração como minhas coisinhas que Deus ia ver como eu sei cuidar bem de mim, a ponto de mandar alguém também bom para mim.
Eu ia cuidar tanto, tão bem do meu cabelo, que aí iria me apresentar coisinhas que eu pudesse vê-lo crescer com saúde e que eu pudesse me proporcionar coisas melhores também. Eu acho que a base da construção do amar as suas coisinhas é a clareza que a vida vai melhorar, porque ela melhora a partir do momento que você foca no que é seu. O meu pai sonhava que eu andasse de Amarok, ele queria perdidamente que eu comprasse um carro mesmo sem ter uma casa, mas eu amava minha bis.
E era a minha coisinha preferida, o meu meio de transporte. Deus me honrou com ela por muitos anos. Hoje eu não tenho necessidade de ter um carro, mas provavelmente quando eu vou, eu, quando eu tiver, eu vou mantê-lo limpo, mantê-lo organizado, assim como eu fazia com a minha moto. E eu pretendo comprar minha moto nova logo logo. Não é o momento ainda, calma, mas Sempre que eu puder cuidar das minhas coisinhas, obviamente eu vou estar cuidando.
Eu queria que vocês conseguissem atravessar a sensação desse episódio de hoje. Eu precisei amar o meu primeiro computador sem os teclados, sem as teclas do teclado, para que eu pudesse ter o computador que eu tenho agora. Eu precisei amar o meu corpo do jeito que ele tava, e eu me olhava no espelho com muito carinho. Parei de debochar de mim, comecei a olhar a mancha de pele e comprar minhas coisinhas, sabe, para cuidar de mim.
E foi aí que Deus me deu condições de fazer tudo que eu queria fazer. Cuidar das coisinhas da gente faz com que outras coisas melhores aconteçam na vida da gente. E eu não falo só sobre coisas materiais, eu falo sobre sentimentos também, e também sobre vida profissional, para quem conseguir agregar esse conteúdo. Eu não sei como você ama as suas coisas, mas eu precisava te falar sobre isso. Eu amo muito as minhas coisas. Eu acho que a gente peca quando passa um pouco da vida da gente Amando coisas que os outros dizem que a gente deveria amar.
Amar uma mansão de sei lá quantos milhões, amar carros de outras pessoas. Esse tempo atrás mesmo tava na moda dar aqueles buquês de flores gigantes para as pessoas. É engraçado porque quando eu olhava aquele buquê de flores chegando no caminhão na internet, eu falava: gente, onde é que essa pessoa vai meter esse coloquei de flor. Na minha casa nem cabe, mas eu gosto das minhas coisinhas. Então eu fui no mercado, comprei um cacto, coloquei no banheiro.
Era, era as minhas coisas, não era as coisas dos outros. Às vezes as coisas dos outros vão ser grandiosas, mas eu gosto das minhas coisas. Porque as minhas coisas, elas são minhas. Assim como as amizades. Quando me perguntam, você fala sobre cuidar dos amigos, quais amigos? Eu falo os meus. Eu não dou nomes. Manu, você ama seus amigos? Amo. Quem? Os meus. Os meus amigos sabem que eles são meus amigos. Eu não preciso ficar postando com eles na internet todo dia uma declaração de amor.
É loucura, porque nem foto direito eu tenho com os meus amigos. Não tenho fotos com meus amigos, é muito raro tirar foto com eles, é muito raro encontrá-los pessoalmente. Mas são coisas minhas que eu faço questão de cultivar todos os anos. E distância não significa que você não ame as coisas. Às vezes as coisas estão perto de você, mas você não percebe que precisa amar e valorizar. O amar as coisas tá levando você a, sei lá, sei lá, de verdade.
A gente arranja desculpas para não amar as coisas que são nossas. Eu acho que quando a gente para para poder pensar E como a gente precisa amar o que é nosso, a gente respeita o que é do outro. Foi amando as minhas roupas que eu aprendi a ter cuidado com as coisas das pessoas. Foi cuidando das minhas plantas que eu aprendi a respeitar a planta dos outros. Foi cuidando da minha louça, da minha geladeira, do que era meu. Foi cuidando do que é nosso que a gente aprende a cuidar dos outros.
Não tem outro modo de aprendizado. Bizarro, mas é assim. Porque quando a gente sabe quanto custa, a gente cuida do da outra pessoa, a gente costuma ter mais afeto. O que quebra a ideia de que amor próprio tá relacionado a egoísmo. Amor próprio tá relacionado a tanto cuidado com suas coisinhas que você Respeita as coisinhas das pessoas. Voltando para a ideia do sonho, lembrando da questão da Maroc, eu me recordei agora de que os sonhos do meu pai, sonhos da minha mãe, os sonhos das pessoas para minha vida não eram as minhas coisinhas.
Pelo meu pai tinha feito direito, isso é fato. Pela minha mãe, eu não tinha feito faculdade. Pelas pessoas da minha vida, eu não teria saído da minha cidade. É uma sensação diferente. Os sonhos dos outros às vezes é que eu construa uma família, que eu me case, que eu tenha filhos, novos filhos. Eu não sei, talvez um dia aconteça, mas Que coisinha imaginária é essa que eu vou cuidar agora? E volta e meia eu preciso lembrar se esses sonhos são os meus, são meus ou dos outros.
É doído para mim ter que assumir a essa altura do campeonato que eu ainda sonho em casar. Eu sonho de verdade em abandonar todos os meus amigos porque eu vou estar muito bem casada. Mentira, tô brincando. Mas eu sonho em continuar amando as minhas coisinhas. Até quando eu tiver com alguém, vai ser mais uma coisa para eu amar e não uma coisa para eu me ausentar de mim e das pessoas que eu amo. Eu ainda planejo coisas, coisas que só serão minhas coisas quando eu organizar o que tiver para organizar.
E é isso que eu tô fazendo. Eu tô cuidando de mim, eu tô amando o que eu tenho, eu tô cuidando da minha casa para quando tiver me mudando para minha casa. Eu tô cuidando do meu coração para quando tiver espaço para caber outras pessoas para eu amar, ou até para eu saber amar as pessoas e respeitá-las, já que é um processo que eu aprendo comigo mesma. Eu não sei o quanto você tá disposto a amar as suas próprias coisas, mas se você tiver na sua casa me escutando agora, dá uma olhadinha para essa xícara que você tá tomando café.
Dá uma olhadinha aí, um 360 para o ambiente que você tá. Vai, daqui a uns 10 anos talvez você não se encontre no mesmo lugar, e essas coisas que você tem agora pertencem a essa idade que você tem agora. Aos meus 34 anos eu moro em um flat e essa é a minha coisinha de agora. Eu não sei qual vai ser a minha coisinha do que vem, mas eu vou cuidar com bastante carinho. Eu chorei esses dias vendo o anúncio de um apartamento que eu morei assim que eu cheguei no Espírito Santo.
Por um acaso, reconheci entre os anúncios aquele apartamento que eu morei, e eu falei, meu Deus, isso aqui foi minha coisinha! Eu me lembro quantas vezes eu lavei essas coisas e limpei essa geladeira. Foi minhas coisinhas e agora não são mais as minhas coisinhas, e eu tenho novas coisinhas, e lá na frente terei novas coisinhas. Porque a ideia do que a gente não tem contamina o coração da gente demais, a ponto da gente esquecer o que tem.
A ideia do que a gente não tem adoece a gente a ponto da gente não enxergar o que a gente já possui: saúde, amigos, paz, emprego, contas, seja lá o que for que você esteja lidando agora. Ainda assim tem muita coisa que é nossa, e ainda assim são nossas coisinhas. Espero ter deixado um pouquinho de aprendizado do que são coisinhas. E do quão é gostosinho ter as nossas coisinhas, as nossas blusinhas, os nossos, nossas canecas, os nossos batons, os nossos travesseiros, os nossos óculos, seja de vista, seja de sol, as nossas coisinhas que é da gente, tem o cheiro da gente, tem a escolha da gente do dia que a gente comprou, do dia que a gente escolheu.
Até quando eu não tinha nada que era meu no ambiente e a única coisa era uma caneca, eu escolhi começar dali, daquela caneca, a única coisa que me pertencia, amar as coisas que eram minhas. Espero que esse seja o pontapé inicial para que você aprenda a amar suas coisas. É só depois que a gente as ama que a gente vai poder merecer outras coisas. E eu não digo nem sobre o universo como uma regra, É porque se eu cuido agora do que eu tenho, eu vou cuidar com mais facilidade do que virá.
Não por estratégia, mas por hábito. Hábito de cuidar bem do que é meu agora. Quando vir algo novo, eu não vou sofrer para cuidar. Imagina comprar uma casa e não saber cuidar de uma casa, não saber passar um pano em uma casa. Não, eu vou cuidando dos pequenos, das coisas pequenas que eu tenho, para saber manejar as maiores, para saber amar coisas maiores que realmente serão nossas a longo prazo. Enfim, serão melhores. Bom, esse episódio e esse podcast inteiro, ele também é uma coisinha muito minha e sua.
O podcast Eu tenho uma paciente que diz que tem ciúme porque o podcast Levanta e Flui é uma coisinha muito dela. Eu espero que esse episódio também seja uma coisinha nossa. É isso, compartilhem bastante, não deixa de seguir, não deixa de curtir, não deixa de comentar. Agora o nosso podcast, ele é amplificado, tem muita gente escutando, está num monte de plataforma. Chegou no diesel. Então assim, é coisinha nossa, vamos cuidar bem para crescer, para chegar a mais pessoas.
Porque quando são nossas coisinhas, a gente precisa tratar com amor. Um beijo! Esse episódio um dia foi só uma coisinha minha, agora ele é da gente. Se cuida e até o nosso próximo encontro!