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#151- Fugir não é liberdade

22 de julho de 202619min
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Neste episódio, eu falo sobre uma confusão muito comum: acreditar que fugir é sinônimo de liberdade.

Durante muito tempo, eu também pensei assim. Evitava conversas, sentimentos, decisões e até pessoas, acreditando que estava protegendo a minha paz. Mas, com o tempo, percebi que isso não era liberdade era apenas uma forma de não olhar para o que precisava ser enfrentado.

Compartilho um pouco da minha própria jornada e do momento em que entendi que a verdadeira liberdade começa quando deixamos de correr de nós mesmos.

Se você sente que vive recomeçando, mudando de direção ou tentando escapar da dor sem realmente curá-la, este episódio é um convite à reflexão.

Porque a paz não nasce da fuga. Ela nasce da coragem de permanecer, sentir e transformar.

Participantes neste episódio1
E

Emanuelle Santana

HostPsicologa
Assuntos4
  • Liberdade e EscolhasConfusão entre fugir e ser livre · Evitar conversas e sentimentos · A paz não nasce da fuga
  • AutoconhecimentoFugir de si mesmo · Conforto na própria pele · Aceitar quem se é · Emanuelle Santana
  • Liberdade pessoal e convivênciaRelacionamentos para fugir da solidão · Usar o outro como fuga · Prisões emocionais
  • Mudanças de VidaFugir da realidade atual · Ambição de liberdade · Dedicação extra ao trabalho
Transcrição1 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
ESEmanuelle Santana

Oi, eu sou a Manu, tenho 34 anos, 5 irmãos homens e um monte de amigo babaca. Como é que você tá? Você tá bem? Como é que estão as coisas por aí? Bom, eu tô há duas, quase três semanas, duas semanas e um pouquinho aqui em Minas, reacostumando, recriando a rota, cuidando do que tem que ser cuidado. Só que teve uma frase essa semana que me atravessou de um jeito diferente e eu sinto que eu deveria compartilhar com vocês. Ela é do filme Velozes e Furiosos.

E na época que eu ouvi pela primeira vez, ela não me parecia tão forte como agora. Só que parece que tem algumas coisas que atravessam a gente antes mesmo que a gente esteja preparado. E aí, com o passar do tempo, essas coisas voltam quando a gente está maduro o suficiente para entender. Eu Já é a segunda vez que eu me mudo, terceira vez, né? Eu mudei de Vitória para Vila Velha, de Vila Velha para Juiz de Fora, para um pouco mais longe de tudo.

E quando eu paro para pensar de como eu saí dos lugares, eles têm sensações diferentes. A minha saída da Bahia para Vitória, desculpa, Para Vitória, ela tem um som diferente. E depois de um tempo eu vim entender que tudo que eu tava fazendo não era uma ambição de liberdade. Eu não tinha ambição de liberdade, eu nem sequer tinha ambição na vida que eu tenho agora. Eu não tinha. Eu acho que eu nunca compartilhei isso com vocês. Eu não tinha o desejo genuíno de viver exatamente a vida que eu tenho agora.

Mas eu sabia que eu queria fugir muito da minha realidade atual. Eu sabia que eu queria muito correr do ambiente que eu tava. E o fato de querer sair dali me fez me dedicar de forma extra ao trabalho. E nada foi dado, tudo é construído. Então, se eu queria estudar, aí eu tinha que me empenhar. Para poder pagar um cursinho. E aí eu tinha que economizar dinheiro, então acabou saídas, acabou bebida, acabou tudo. E foi assim, fazendo mudanças.

Nunca mais fui em show nem nada do tipo até que eu conseguisse levantar grana para começar a mover a minha vida de um lugar a outro. Mas não era na intenção de viver uma coisa muito grande fora dali. Mas eu sabia que eu não queria estar ali. E se eu não queria estar ali, obviamente eu tinha que fazer algumas mudanças de rota. Mudar os meios talvez foi uma estratégia de tentar lidar melhor com a minha própria nova narrativa que eu queria possuir na vida.

E aí esses dias, conversando com uma amiga, ela virou para mim e falou assim, ah, como diz no filme Velozes e Furiosos, fugir não é liberdade. E eu lembro o porquê que eu não sentia liberdade depois que eu saí da Bahia para outro estado. Eu não me sentia ainda assim livre, porque o sentimento era fuga, era tá saindo de um ambiente muitas das vezes que eu achava de verdade que tinha companhia, mas não tinha. E aí eu vim aprender a expandir, porque também fica cansativo falar das mesmas coisas repetidas vezes.

Eu não quero falar tanto sobre as coisas que eu vivi porque eu gosto da vida que eu tenho agora. Eu acho a coisa mais interessante para falar ultimamente são as vivências. Eu não sei a que pé que você tá na sua vida agora. Nem sei como está vivendo sua vida, mas o fato é que fugir das coisas não te dá liberdade. Liberdade é você ir para as coisas sem estar com problemas para resolver ou não querer lidar com alguma coisa. Acho que o fato da gente não querer lidar com algumas coisas faz com que a gente acredite que seja libertador sair dali.

Eu ainda visualizo muita gente falando sobre solitude levando para esse lugar, e eu não acho que seja libertador fugir das coisas e fugir de si mesmo. Eu não acho libertador sair do que você sente. Não é libertador fingir que não sente, porque eu fingir que não sente vai está te levando a fugir de alguma coisa. Entender que liberdade não é fugir pesou minha cabeça por muitos dias. Voltar a pensar nisso me deixou muito reflexiva.

Do que que eu tô fugindo? Eu tô fugindo dessa vez de alguma coisa, ou eu realmente estou experimentando a liberdade? E é por isso que as crises de ansiedade se foram. É por isso que o excesso de fome também dá trabalho demais chegar ao dia que a gente fique confortável na nossa própria pele. Antes disso, a gente foge de muita coisa, a gente copia a personalidade das pessoas e acha que é admiração, a gente planeja uma vida que não é nossa.

A gente engata relacionamentos que com a mente sã jamais entraríamos, tudo para fugir. As pessoas às vezes entram em relacionamentos para fugir da solidão e depois terminam esses relacionamentos para fugir de outro problema. E quando as pessoas se conectam, elas precisam entender que elas podem ser livres naquilo. E não usar o outro como uma parte do que foge de algum lugar. Tem gente se relacionando muitas das vezes fugindo da solidão e não pela liberdade de escolher com quem quer estar.

Por mais que hoje a gente viva num mundo totalmente livre, as prisões que a gente tem hoje, elas claramente não estão conectadas a coisas materiais, mas sim a coisas emocionais. Esses dias eu compartilhei com uma moça que as algemas delas, as algemas que ela possui, são imaginárias. Às vezes estão nas pernas e outras vezes está na mente. E ela deu risada dizendo que seria cômico se não fosse trágico. Mas a verdade é que a gente passa muito tempo, muito tempo mesmo, tentando se libertar de uma coisa que a gente não faz menor ideia do que tá aprendendo.

A gente quer fugir da gente, e depois que a gente consegue, a gente quer fugir de novo. Estar com quem a gente é deveria ser libertador e não uma fuga de algum lugar. Eu me lembro o nível de semelhança que essas duas coisas tiveram na minha vida, ao ponto de eu confundi-las. Porque eu já confundi liberdade, já confundi fugir com liberdade. Fugir de lidar com conflitos não é liberdade, você só tá tentando não lidar com mais alguma coisa.

Fora que a narrativa hoje tá seca sobre os relacionamentos, então basicamente as pessoas fogem de se relacionar para não lidar com elas mesmas. Mas na cabeça delas é liberdade. Na cabeça delas, elas estão livres para fazer o que querem, ou simplesmente estão fugindo de ter que lidar com seus próprios conflitos internos. E aí se ocupam de muita coisa. Eu atendo isso o tempo inteiro, então acaba não sendo um assunto isolado. Realmente, às vezes é fugir.

Mas eu me dei conta disso com os anos, só não sabia o significado exato e a diferença de fato. Estar confortável na própria pele é pesado, faz com que a gente imagine uma vida além do que a vida que a gente tem, e aí acaba que a gente vive no eterno e se a gente, além de não viver a vida de agora, a gente também imagina, idealiza uma vida que a gente não tá vivendo. Acaba que por fim não vive nada. Como eu já gravei anteriormente, às vezes encontra as pessoas em dois níveis de estágios: ou elas já foram felizes, ou elas vão ser felizes, mas elas nunca estão.

Isso também é fugir de alguma coisa, porque sustentar que você tá feliz também dá trabalho. Sustentar que a felicidade faz parte da tua vida vez ou outra também dá trabalho, até porque às vezes As pessoas sentem culpa por estarem bem. Dias atrás eu vi uma moça falando que ela precisou fingir que não estava tudo ok na vida dela porque estavam todas, todas as amigas mal. Todas as amigas estavam confusas, lidando com términos, e ela não conseguia dizer o quanto ela tava feliz no relacionamento dela.

E aí ela decidiu simplesmente comunicar que talvez o problema do relacionamento dela seja ela. Não que ela ache isso de verdade, eu não acho que ela ache isso, mas ela precisava se sentir pertencente até mesmo na dor, até mesmo na crítica. Mas enfim, eu ando crescendo nas redes sociais nos últimos meses espantosamente, e aparece todo tipo de gente que talvez esteja fugindo de si mesmas Assim como eu fiz isso em outra época e preciso ter um pouco mais de paciência com elas dentro desse percurso.

Ou incrementar um personagem para justificar o porquê não está vivendo o que queria de fato estar vivendo também é uma maneira de fugir. A questão é para onde, de quem e de quê. Se onde você vai você se leva, Talvez você carregue essas fugas por tempo demais, mais que necessário, confundindo com liberdade, até que chegue uma hora que você entenda que você fugiu. Eu fico grata por ter descoberto que eu estava fugindo um pouco mais cedo do que a maioria.

Me deu trabalho perceber. Às vezes a gente prega uma postura, um condicionamento que claramente escancara uma coisa que a gente não é. E eu já fui assim, já vi isso de perto também. Então, mais uma vez, eu preciso ter um pouco de paciência. E nem tudo eu falo rimando, inclusive, mas eu percebi que eu rimo as palavras às vezes. Sei lá, só quis mencionar isso porque Ficou parecendo uma sequência de um cordel. A gente vai precisar volta e meia repetir isso: fugir não é liberdade, fugir nem mesmo é libertador.

Se a gente não sabe para onde tá indo, a gente pode entrar em qualquer outra porta. Se a gente não sabe do que tá correndo, qualquer porta que abrir e dizer vem A gente tá entrando. Me veio uma imagem aqui de alguém correndo para algum lugar, e as portas que estão abertas a gente não sabe exatamente onde elas vão dar. Mas quando você sabe para onde você tá indo, nem é uma corrida, nem é uma fuga. Liberdade mesmo é você não se mover se não quiser.

Liberdade mesmo está em lidar com tudo do lado de dentro, a ponto do lado de fora não te controlar, a ponto do lado de fora não ditar as suas regras. Porque não adianta nada você ter uma ideia de autoestima maravilhosa, mas a primeira coisa que alguém falar com você, você virar outra pessoa. Aí você foge, porque às vezes tua postura de forte, firme, só esconde uma criança fugindo de uma coisa que tá doendo, que ela não sabe lidar e nunca soube resolver.

Liberdade é você ser exatamente quem você é, e dá um trabalho terrível. Essa semana me perguntaram isso até: você é satisfeita com quem você é? E eu disse não. Muitas das vezes não, mas ainda assim sou eu, porque eu lido com algumas coisas, eu falo, caramba, Emanuele, é sério. Um tempo atrás me perguntaram assim, Manu, o que que você faria no meu lugar? Eu falo, provavelmente nem eu faria o que eu faria. Então eu não posso dizer por você, eu não sei.

É só uma tentativa de não fugir do que se é. E eu não tô fugindo mais, eu não tô fugindo de quem eu sou. Quando me pintam de brava, eu só aceito, não me defendo mais. Quando falam que eu tenho um rosto muito sério, que talvez não goste muito de brincadeira, eu não me defendo mais. Eu não tenho que fugir de alguma carcaça para convencer outras pessoas. Eu deixo as pessoas livres para serem quem são, deixo elas confortáveis na própria pele delas e torço para que em algum momento elas consigam ser tão generosas assim comigo.

Mas fugir não vai ser um plano. Se eu estiver séria, permanecerei séria. Se eu estiver sorrindo, permanecerei sorrindo. Se eu estiver confortável, permanecerei confortável. Fugir Definitivamente não é mais um caminho que eu quero percorrer, fugir do que eu sou, de como eu me sinto, seja em relacionamentos ou em amizades ou qualquer coisa que seja. E se eu não quiser fazer, eu não vou fazer, porque eu não quero fugir nem mesmo das críticas.

Então, se eu quiser sair, eu vou, e se eu achar que eu não devo, eu não vou. Porque me taxar de quieta, distante, gosta de ficar mais na dela ou não gosta de sair muito e ser expansiva, ainda assim vai ser eu, vai ser o conjunto de todas as coisas que eu sou. E eu confesso que o maior trabalho de todos não é me tornar a pessoa mais importante da minha vida, porque fui, foi um trabalho Arduo, mas entender que não tem uma obrigação de convencer as pessoas a sentir o mesmo doeu.

Agora eu só dou a liberdade para as pessoas não fugirem delas mesmas e dou a mim a liberdade de não fugir de mim sempre que alguém disser uma coisa ou outra a meu respeito. Eu acho que fugir da gente dá muito mais trabalho do que aceitar. Eu só não tô dizendo que é fácil, mas impossível também não é. Eu não sei das coisas que você foge agora, eu não sei as coisas que você mesmo vai ter que lidar. Eu ainda vou acreditar que você é uma pessoa boa, mesmo que você esteja fugindo de ser.

Eu ainda vou acreditar que você merece um cara legal ou uma mulher legal, mesmo que você fuja disso. Não sei por quê, eu se protegendo de algo e jurando que você tá liberto de amor e tudo mais. É, eu acho muito bonito para quem tem essa coragem. Eu não tenho, porque seria muita coragem da minha parte dizer que eu tô blindada de sentimento. Até porque eu me apaixono por todas as coisas que eu vejo. Me olhou nos olhos, eu acho bonito.

Girassóis, eu acho bonito. Neblina, eu acho bonito. Eu gosto das coisas. Eu não quero fugir das coisas que são para mim. E para não fugir das coisas que são para mim, eu não posso fugir de mim, porque eu não quero a falsa liberdade de fazer um monte de coisa só porque eu tô fugindo de alguma coisa. Eu não quero florear uma vida sozinha, amizades distantes, gostos que vão agradar apenas as pessoas das minhas redes sociais. Eu não quero fugir.

Eu acredito que eu convença as pessoas com a minha personalidade, que eu lutei muito para construir até que se tornasse liberdade, mas fugir dela agora não faz parte dos planos. Porque todos os dias eu luto para que as pessoas gostem delas na própria pele que tem antes de gostar dos outros. Fica mais fácil tratar coisas que a gente conhece e respeitar, porque grande parte das pessoas que fogem do amor não trabalham isso nelas mesmas e sinceramente estão se enganando com a liberdade.

A gente nem sequer sabe o significado das coisas que a gente tanto persegue viver. A gente nem mesmo quer o trabalho de construir as coisas que a gente tanto critica. Vocês entendem do que eu tô falando? Às vezes é mais fácil se distanciar do que chegar mais perto. Como diz o filme Truque de Mestre, quanto mais longe Quanto mais perto, menos você vê. Acho que é essa frase: quanto mais perto, quanto mais dentro, menos você enxerga.

Que as pessoas consigam sair das ilhas. Eu consegui sair da ilha para me olhar pelo lado de fora. Eu não gostei do que vi, parei de fugir, sentei na beirada da praia e comecei a anotar. O que eu tinha que resolver. Não sei onde você tá agora, você pode estar no ônibus indo para o trabalho, você pode estar tomando seu café de manhã, de manhãzinha, você pode estar fazendo qualquer coisa que seja. Fugir não é liberdade, o plano é péssimo.

Uma hora você vai ter que resolver. Tá na hora de começar os teus checks. Eu comecei os meus, não são tão simples. Te desejo sorte e até o nosso próximo encontro.

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