#146 Falar sobre o futuro também é falar sobre envelhecer
Neste episódio do Podcast Longidade, nossa cofundadora, a médica nutróloga Andrea Pereira, conversa com Mariana Mello — jornalista especializada em longevidade e criadora da newsletter Maturidades — sobre por que falar do futuro também é falar sobre envelhecer.
A conversa amplia o tema para além da saúde física e da aparência: envelhecimento como cultura, vínculos, propósito, finitude e o Brasil que envelhece rápido, com desigualdades que moldam como cada pessoa chega aos 60, 70, 80+.
Pontos principais do episódio:
Envelhecer bem começa antes dos 60: projeto de vida e uso do tempo
“Capital afetivo”: vínculos, amizade e rede de apoio como preparo real
Narrativas que limitam a velhice: corpo “perfeito” e valor apenas por produtividade
Etarismo e o medo social de parecer mais velho
Envelhecimento no Brasil: transição demográfica acelerada e desafios coletivos
Maturidades: por que falar de envelhecimento é para todas as idades
Propósito sem grandiosidade: sentido no cotidiano
Convidada:
Newsletter: Maturidades | Substack
Instagram: @maturidades_br
Siga as nossas redes:
LONGIDADE (@longidade) • Instagram profile
https://www.longidade.com.br/
https://www.linkedin.com/company/longidade
Longidade
- Envelhecimento e LongevidadeTransição demográfica acelerada · Desigualdades sociais e financeiras · Envelhecimento feminino · Despreparo social e de infraestrutura
- Capitalização do BRBImportância das relações · Rede de apoio · Amizade e perdão
- Proposito e Planejamento de VidaPlanejamento para o futuro · Uso do tempo de vida · Consciência da finitude
- Proposito e SignificadoPropósito grandioso vs. cotidiano · Sentido na vida · Consciência da finitude
- Saúde e bem-estar dos idososAceitação de perdas e ganhos · Redefinição de papel social · Visões bionormativa e neoliberal do envelhecimento
- Consequências da Falta de RespeitoConvivência com diferentes idades · Aprendizado mútuo · Respeito às diferenças geracionais
- Reflexões sobre etarismoValorização da juventude · Medo de parecer velho · Procedimentos estéticos
Esse é o Longeidade, um canal dedicado especialmente às pessoas longivas. Aqui você encontra informações para viver plenamente.
Olá a todos, eu sou Andréa Pereira, sou médica nutróloga, tenho doutorado pela Unifesp, pós-doutorado pelo Instituto Israelita Albert Scherzen de Ensino e Pesquisa e sou uma das cofundadoras do canal Longeidade.
E aí eu queria falar hoje, né? Estou super bem acompanhada aqui por Mariana Mello, que é jornalista especializada em longevidade, com formação em gerontologia social pela PUC-SP e gerontologia pelo Hospital Israelita Albert Scheissen. Ela criou a newsletter Maturidades, que a gente vai falar a respeito.
projeto independente e gratuito voltado à cultura do envelhecimento para todas as idades. Hoje ela tem mais de 7.500 seguidores no Instagram e ela atua também como palestrante, speaker e mediadora de debates sobre longevidade. E a gente vai ter um papo aqui muito interessante hoje.
Bom, eu queria começar com uma pergunta que vale milhões. O que significa na prática viver bem após os 60 anos hoje? Bem, Andréia, obrigada pelo convite. Estou muito contente de estar aqui. Sempre que eu posso falar sobre esse assunto, eu me animo muito.
Bem, acho que é uma pergunta de milhões, como você falou, né? E eu trago um pouco a perspectiva da gerontos social, que é uma área multidisciplinar de conhecimentos, pra gente entender o processo de envelhecimento, entender todas as dimensões que estão envolvidas nisso, e além um pouco do aspecto da saúde, né? Que é um aspecto que é o primeiro aspecto que a gente fala quando a gente vai falar em envelhecer bem. Tirando, né?
essas diretrizes de saúde, enfim, que obviamente a gente tem que estar com elas em dia, eu acho que a primeira coisa é a gente ter um projeto de vida. Então eu acho que envelhece bem quem tem um projeto de vida. Apesar de envelhecer bem, envelhecer mal, é uma discussão super complexa, mas de uma maneira geral, eu acho que a gente fala em projeto de vida.
Que é você pensar em como é que você quer usar o tempo de vida que você tem. Como é que você se prepara pra esse momento? Qual é o conhecimento que a gente tem sobre o fato de que o nosso tempo aqui tem uma data pra terminar? A nossa saúde?
vai passando por mudanças e como é que a gente quer passar esse tempo aqui. E uma coisa que eu trago muito como jornalista, como comunicadora, é tentar trazer essa consciência para o quanto antes a gente vê muito. Imagino que vocês, como médicos, vejam muito a chegada do assunto do envelhecimento quando a gente já lida com problemas. E, para mim...
o que faz sentido é a gente pensar em qual é o meu projeto? Como é que eu quero? Hoje eu tenho 46 anos. Como é que eu quero estar com 56? Como é que eu quero chegar aos meus 70? Como é que eu quero chegar aos meus 80? Não só do ponto de vista da minha saúde biológica, mas o que eu estou fazendo com o meu tempo aqui. Então, eu acho que projeto de vida...
Como que eu vou fazer pra colocar ele de pé? E o que que ainda vale construir? O que que vale a pena construir na minha vida? Na minha existência, né? Então eu acho que isso é o oposto de você pensar numa velhice passiva ou numa velhice em que eu vou fazer o que tiver pra fazer e não o que eu quis. Então isso é a primeira coisa.
A segunda coisa, para envelhecer bem, eu acho, e, de novo, puxar essa discussão para o quanto antes, é qual é o teu capital afetivo? A gente está muito acostumado na conversa sobre preparos para o envelhecimento, e eu olho muito para a imprensa, para a mídia, que é a minha área.
A gente vai ver muito sobre envelhecer bem é igual a não ficar doente, envelhecer bem é igual a ter dinheiro, envelhecer bem é igual a mudar para um apartamento menor. Então, a gente fala desses preparos, mas a gente não fala do preparo afetivo para o envelhecimento. A gente não fala para o preparo da qualidade da sua rede, do quanto você...
tá cuidando dos seus afetos, do quanto você tá construindo vínculos que, de fato, é o que vai fazer a diferença lá na frente. A gente já sabe disso. Só que isso não vende, isso não gera insatisfação. Quando a gente vai falar de relações saudáveis, de perdão, de amizade, de tolerância, de espiritualidade, não de religião, mas de espiritualidade,
Então, esse preparo, né, essa colcha que a gente vai tecendo, pra mim, ela vai fazer muita diferença, não só depois dos 60, mas eu com 46, já faz diferença pra mim. Então, eu acho que a gente tá falando de uma tomada de consciência. Então, pra mim, tentando responder muito brevemente a sua pergunta, eu acho que é isso.
Eu acho que a gente tem essa questão do propósito. Eu vejo isso muito no consultório. Médico-neutrólogo tem muito essa coisa preventiva. Então, eu atendo pessoas, eu atendo adultos. A partir dos 12 anos, eu atendo.
E aí eu penso muito nessa questão do como você vai envelhecer. Porque a pessoa, muitas vezes, o jovem, ele não tem essa consciência, ele tá muito longe. Mas como eu vejo as pessoas que chegam já com mais de 60 anos, eu falo assim, os meus pacientes idosos, eu sei exatamente quem se cuidou e quem não se cuidou. A gente tem uma diferença enorme. E a saúde é um conceito global, não é só o físico, o mental.
A gente vê, assim, uma das pilares de longevidade é você ter muitas pessoas boas ao seu redor. Então, isso é algo que se constrói. A espiritualidade. A pessoa, ela é muito ampla, né? Então, tudo acaba se interligando, né? Se eu não tenho uma parte afetiva boa, muitas vezes a minha saúde é prejudicada. E eu queria te perguntar o que é o seu projeto Maturidades, né? E qual é o impacto que ele tem gerado?
Bem, é muito difícil contar o que é maturidade sem contar brevemente como é que eu cheguei nesse assunto. Eu sou jornalista, trabalhei na grande imprensa. Num dado momento eu comecei a perceber o envelhecimento acontecendo ao meu redor, tanto na minha família quanto nas notícias, nos dados, nos números, na transição demográfica do mundo. O mundo inteiro está envelhecendo.
E eu comecei a me interessar por esse assunto e fui em busca de formação. Quando eu fui em busca de formação, eu percebi que a gente só tinha cursos e pós e conteúdos pra quem era da saúde. E isso me chamou muito a atenção, né? Muita coisa pra enfermeiro, muita coisa pra nutricionista, muita coisa pra psicólogo, mas pra jornalista, pra quem não é da área médica, não tinha isso.
e descobri um curso de gerontologia social, que na época era na PUC São Paulo, com a professora Beatrina Corti, e depois hoje ele pertence ao Portal do Envelhecimento, como um caminho independente. E quando eu cheguei nesse curso, eu era a única profissional de comunicação da turma, era uma turma de 50 pessoas.
E, de novo, aquilo ficou para mim. E qual não é a minha surpresa? Quando eu descubro, no final do curso, que a única maneira de a gente promover uma mudança de consciência sobre o envelhecimento, ou uma das mais importantes, é a forma como a gente fala sobre o assunto. Desde os termos, dos exemplos, dos modelos, das imagens que a gente usa e escolhe, até quais são as narrativas de envelhecimento que a gente ouve no momento.
Está melhorando, acho que uma iniciativa como Longidade, de 10 anos para cá, que é o tempo que eu comecei a estudar, eu já vejo muita mudança. Mas as histórias que a gente ouve formam a nossa cultura e moldam a forma como a gente pensa. Portanto, respondendo a sua pergunta, o que é o Maturidades? Maturidades é um veículo de comunicação que nasce como uma newsletter.
cujo objetivo é antecipar o assunto do envelhecimento. Eu quero falar de envelhecimento para criança, eu quero falar de envelhecimento para pessoas de todas as idades. A gente ainda vê uma destinação dos conteúdos sobre envelhecimento como uma faixa etária. A gente vê muitas coisas com o nome 50+, 60+, no título, e a gente não pode confundir marcador etário...
com a vida das pessoas, né? 60 a mais, né? O marcador etário, ele serve pra organizar a sociedade, pra organizar a política pública, pra definir o que é uma pessoa idosa, do ponto, né? Quem para na vaga, quem toma vacina antes, não é? Então, o envelhecimento é um assunto, assim como o letramento racial, assim como educação financeira, assim como educação nutricional, que é uma coisa que...
que deveria, né, já está crescendo, né, é um assunto pra sociedade, né, e eu comecei a pegar o que eu sei fazer, que é contar histórias, entrevistar pessoas e escrever.
Pra gente falar disso quanto antes e de uma maneira principalmente trazendo narrativas que mostrem outras perspectivas de envelhecimento, que são... A gente consegue envelhecer bem, na minha opinião, e é muito bacana a gente conversar, não significa não ficar doente. A gente sabe que o nosso corpo tem um tempo, que ele vai passar por todos os estresses oxidativos e que a gente vai envelhecer. Sim, sim.
A nossa reserva vai cair, mas a gente continua vivendo. Sim, exatamente. Acolher as nossas fragilidades humanas que fazem parte e continuar vivendo com elas. Então, isso está ligado à primeira pergunta, como é que eu estou usando o meu tempo? Como é que eu não me tiro do jogo? E esse assunto me fascina, porque o impacto do Maturidade, que hoje essa newsletter tem 1.500 pessoas inscritas, que são pessoas que...
colocaram lá os seus e-mails para receber, o impacto que tem tido é pessoas que me procuram e falam nossa, Mari, depois que eu li, ouvi você falando, eu comecei a olhar para os meus pais de uma outra forma e eu comecei a olhar para o meu próprio envelhecimento de uma outra forma. Então...
Para mim, estou numa longa trajetória, então eu sou um veículo mesmo em que eu trago pessoas para conversar, conto histórias e estou nessa caminhada considerando um esforço da sociedade inteira que a gente tem que ter para a gente olhar para esse assunto de uma forma mais amorosa e de uma forma que, de fato, traga evolução para as pessoas, que é o que a gente precisa.
É, eu acho que assim, né, você tocou num ponto fundamental, né, não adianta a gente falar do envelhecimento depois que ele chegou, né, o ideal é que você explique pras pessoas que elas têm esse período mesmo, né, da infância, da juventude, da meia-idade, por aí vai, né, a gente também teve uma preocupação muito grande quando a gente escolheu o nome, né.
A gente queria falar não só da idade, mas a gente queria falar do que você pode fazer para estar bem, da longevidade. Por isso que a gente juntou isso. Eu acho que isso é muito importante. E ter essa questão, realmente, de que todo mundo vai chegar lá, mas os caminhos podem ser diferentes, os resultados podem ser diferentes. E eu acho que quando você pensa sobre isso, você tem um olhar diferente, realmente, sobre o idoso.
Você começa a entender certas coisas que às vezes você não entende. Entender que eles não são as suas crianças, né? Muitas vezes eu escuto isso, né? Ah, não, agora os meus pais são como se fossem meus filhos. Mas não são, né? Eles têm toda uma história de vida. E assim, você começou a falar da parte emocional e eu ia falar exatamente isso. Quais são, na sua opinião, os maiores desafios emocionais dessa fase da vida?
Com esses seus 10 anos de experiência. E é engraçado, porque eu do alto dos meus 46 anos, é engraçado que às vezes as pessoas olham e falam, nossa, o que essa menina vem falar aqui? É muito ampla. A gente poderia passar muito tempo aqui. Mas eu fiquei tentando puxar um pouco do que eu aprendi na Geronto.
A gente hoje tem duas perspectivas sobre o envelhecimento. Uma é uma perspectiva bionormativa, que é o bom envelhecimento como sinônimo de um corpo saudável. E a gente tem uma perspectiva neoliberal, que é uma perspectiva do sujeito idoso. Interessante enquanto ele produz e consome.
Quando você tá fora disso, é como se você... Fosse invisível. É. Então, a gente precisa avançar nessas visões que a gente tem sobre a pessoa idosa. E por que eu tô falando isso nessa pergunta, né? Se eu tô com esse olhar de que eu não posso ficar doente, de que eu só tenho um bom envelhecimento, se eu não tiver nenhum declínio, nenhuma perda, eu não vou ficar bem.
E a mesma coisa dessa outra perspectiva. A gente tem que saber que algumas mudanças virão. Então, eu acho que...
o desafio emocional é eu entender o meu papel, né? O que é eu ter 60 anos hoje ou mais? O que é... Como é que eu desenho o meu curso de vida de uma forma que faça sentido para mim? Eu acho que... Por isso, de novo, que a comunicação é tão importante. Eu estava agora no Congresso de Geriatria e Gerontologia.
A gente teve um painel maravilhoso sobre comunicação e na plateia estava a Marília Berzins, que é uma assistente social e gerontóloga, uma referência, e ela estava falando da importância de ter profissionais de comunicação que falem de gerontologia, que ajudem a fazer essa tradução que a gente precisa para esse tema. Então, eu acho que...
é a gente trazer novas referências, novos modelos, novas possibilidades, entender...
a velhice possível que eu tenho e se acolher sabendo que a gente vai ter perdas e ganhos em todas as fases da vida, que eu acho que é uma coisa que a gente tava falando, né, existe ali na Gerontum um desenho que é quando eu nasço e me torno uma criança de sete anos, eu vou ter perdas e vou ter ganhos, da adolescência pra vida adulta também.
Dá maturidade pra velhice também. Então, a gente... O problema é que a gente só fala das perdas. Sim. Então, quais são os ganhos? E temos muitos ganhos. Eu acho que é isso. É, e no fundo, a gente ainda tem uma sociedade preconceituosa, né? O etarismo está aí, né? A gente tem falado muito disso na Longeidade. Você tem uma valorização muito grande da juventude.
Até por isso a gente tem um crescimento, às vezes, não saudável da procura por procedimentos estéticos. Porque a pessoa tem medo de parecer que ela tem 60 anos, 70 anos, ela quer parecer muito menos. Eu vejo mulheres que vêm, às vezes, no consultório, preocupadas de perder o emprego.
E fora isso, é a faixa etária que, tirando os adolescentes que mais se suicida... É mesmo. Então, a gente precisa realmente ter esse olhar que alguma coisa aí está acontecendo. Você tem as perdas dos amigos, da família, muitas vezes de emprego, de casa. Por outro lado, você tem toda uma vivência dos anos. Você sabe muitas vezes o que você quer, o que você não quer para a sua vida.
Você tem um aprendizado. Eu ouço muito assim, se eu voltasse no tempo com a cabeça que eu tenho hoje... Então tem as suas vantagens, mas é um período que você precisa de muito equilíbrio. Às vezes a família não aceita muito bem. Eu acho que é fundamental a gente discutir sobre isso. E você acha que tem um novo perfil de envelhecimento no Brasil? Porque o Brasil sempre foi considerado um país de jovens.
um país jovem com um país de jovens. E hoje a gente sabe, tem uma perspectiva de que a população acima dos 60 vai passar da população jovem. Isso não aconteceu, mas já está em vias de. Você acha que tem um novo perfil ou as pessoas ainda não têm essa consciência?
Bom, a gente está vivendo uma transformação gigantesca de transição demográfica. Então, o Brasil está envelhecendo e vai ter que se adaptar num tempo que a França, por exemplo, teve 100 anos para se adaptar. Então, assim, estamos envelhecendo muito rápido. Isso é uma conquista. Eu sempre repito, usando aqui as palavras do doutor Alexandre Kalachi, que é um grande amigo.
O envelhecimento não é um problema, o envelhecimento não é uma questão, o envelhecimento não é uma doença, não é uma doença, é uma conquista. O envelhecimento é sinal de que estamos fazendo tudo certo. É sinal de que as políticas públicas funcionaram, de que a vida sim melhorou, de que a qualidade de vida das pessoas melhorou, de que doenças foram controladas e de que estamos evoluindo como humanidade.
A longevidade, o aumento da expectativa de vida, ele é uma grande conquista nossa como espécie. Então, acho que é importante a gente ter isso como ponto de partida. A gente vê muito as narrativas. Se você for ler sobre a narrativa econômica...
Meu Deus, você pode procurar agora no Google e vai estar lá. A questão do envelhecimento, a preocupação com Previdência. E a pessoa idosa se olha e fala, nossa, eu sou um problema. Eu sou um peso para a sociedade. E não é. Então, assim, estamos envelhecendo muito depressa. Uma mudança sem precedentes. Quando a gente muda a pirâmide, a pirâmide etária brasileira, ela vai virar uma coxinha. O aumento de pessoas 80, 100.
está cada vez maior. E a gente não está preparado para isso absolutamente. Ele é um fenômeno que do ponto de vista OMS, o envelhecimento global da população é tão relevante quanto mudança climática. É algo que transforma a sociedade entre um antes e depois.
E no Brasil, não estamos preparados. A gente já trouxe aqui alguns números. Entre 2010 e 2022, a gente teve um aumento de 57% na população acima dos 65 anos. Até 2070, 37% da população brasileira vai ter mais de 60 anos. 2070 é logo ali. Demograficamente, olhando o planejamento de política pública, é logo ali. Vocês, enfim...
como médicos e sabem disso muito melhor do que eu. Então, eu acho que a gente tem, na verdade, o que vai acontecer, né? Considerando o envelhecimento como um fenômeno, sobretudo social, a gente vai ter um reflexo das desigualdades.
do Brasil no envelhecimento. Então, eu sempre procuro dizer isso, né, do envelhecimento ele é social. Por isso que quando a gente fala, ai, fulano envelheceu bem, não sei quem envelheceu mal, hoje, envelhecer bem ou envelhecer mal, ele tá sobretudo ligado à sua condição social e financeira.
Então, o envelhecimento não pode ser atribuído à responsabilidade do indivíduo. Isso é sabido que o lugar onde eu vivo, o acesso à educação, o acesso à infraestrutura, o acesso à alimentação, ele vai sim determinar se eu vou envelhecer melhor ou não. Eu fico louca quando eu vejo esse...
Esse debate do... Você é completamente responsável pelo seu envelhecimento e você é que determina. Não é. Não é. Não é. Então, assim, se eu posso pagar uma consulta particular, eu posso ir a uma nutróloga, eu posso fazer exames num hospital...
numa rede decente, eu tenho condição de me alimentar bem, eu tenho condição de incluir atividade física na minha rotina. Então, assim, a gente tem acesso à saúde mental. Você não tem equidade nesse sentido. Exato. Então, o envelhecimento no Brasil, ele vai refletir...
essas muitas camadas de desigualdade que a gente tem. O que é um desafio para todas as áreas. Então eu acho que temos... E um ponto que eu acho do envelhecimento no Brasil que é importante é do envelhecimento feminino.
um envelhecimento de maioria feminina, isso já é hoje, mas de mulheres vivendo mais, mas vivendo adoecidas. Então, é um super tema, aliás, que a gente poderia aqui um dia debater. Então, acho que é um fenômeno que a gente absolutamente não está preparado, desde o tempo do sinal para atravessar a rua.
até você não... Outro dia eu estava vendo um debate sobre se falar em reposição hormonal para mulheres na menopausa no SUS. Quer dizer, a gente tem que tanto que avançar... Sim, tem muita coisa a ser feita. Então é um trabalho para todas as áreas. Se você é médico, se você é arquiteto, se você trabalha com políticas públicas, qualquer área vai ter trabalho no envelhecimento.
Eu acho interessante esse tema, porque às vezes eu escuto muito assim, ah, os 60 agora são os novos 30. Mas assim, por quê? Porque a pessoa tá aparecendo melhor, aí ela não pode ter 60 anos, então ela tem que ter 30. E na verdade o que seria legal é você falar, não, olha como ela está bem pra 60 anos. É, os 60 são os novos 60. É, exatamente. Então eu, quando eu era criança...
Na minha cabeça, uma mulher de quase 50 anos, que é a minha idade, era uma...
A imagem que eu tenho é completamente diferente da minha imagem hoje. Até pra esse público... E mudou, realmente. Exato. Pra esse público perimenopausa, que é o público em que eu me encontro, a gente tá inventando o que é ser uma mulher menopausada. A gente tá inventando o que pode fazer, o que não pode, que roupa que eu uso. Então, a gente tá em plena transformação.
E, na verdade, eu acho importante a gente trazer, quando a gente fala 60 a mais, considerando que a possibilidade de sermos centenários é cada vez maior, a gente está falando, no mínimo, de 40 anos de vida. Sim, exatamente. É como você comparar um bebezinho a um adulto de 40 anos.
Olha quanta vida tem. Olha quantas fases a gente tem dentro do envelhecimento. E a gente ainda fala em 50 mais, 60 mais. É muito grande. É muito tempo. Então, a primeira coisa é fatiar. Fatiar o problema. Fatiar essa história e começar a olhar quão rica é cada fase. Quantas necessidades de cada fase.
E realmente por uma lupa ali em cada corte. E assim, você falou de propósito. Qual é a tua percepção de você simplesmente envelhecer, deixar a vida te levar, ou você ter um propósito e você conduzir a sua vida? Eu acho que hoje...
Hoje, esse assunto do propósito, eu fiquei refletindo aqui sobre isso.
a gente tem uma tendência a, de novo, trazendo essa perspectiva do indivíduo para as coisas, de que só depende de você, de que você pode tudo. O propósito se tornou... Quando a gente fala de maneira geral sobre propósito, é como se fosse... Propósito é igual a eu saber a direção certa da minha vida.
Eu ter uma missão grandiosa, eu deixar um legado, né? E aí a gente fica muito tempo pensando nisso e preocupado com isso. Num mundo muito estetizado, né? Em que eu... Todo mundo é bem sucedido, todo mundo é bacana, todo mundo tá em evento, todo mundo tá... Só viaja pra lugares legais. Todo mundo deu certo, né? Meu propósito. Por exemplo, maturidade é o meu propósito, sem dúvida. Mas, é...
Tem um peso nisso, né? Que, na verdade, se a gente desmontar um pouco essa ideia, eu acho que, pra mim, assim, o meu propósito é a gente sair daqui melhor do que a gente chegou. E a gente usar a nossa máquina, o nosso corpo, que tem tempo, da melhor maneira possível. Cuidar dele, usar a tua inteligência, a tua capacidade pra produzir algo que faça sentido, ainda que esse produzir algo seja, eu vou cuidar da minha família.
Eu vou ser uma boa mãe? Ou não, eu vou empreender? Eu vou ser... Então, eu acho que o propósito, às vezes, ele não tem que ser grandioso. Ele não tem que... Você não tem que ficar famosa. Você não tem que ter gente seguindo no Instagram. Eu acho que o propósito, quando a gente pensa, o meu propósito é...
Usar bem o meu aparelho aqui. E sair dessa vida melhor do que eu cheguei. Já é um grande propósito. Já não é. Só que isso não aparece, né? Não é bonito, não tem foto, não tem... Então eu acho que a gente ter consciência da nossa finitude... E é muito difícil, né? A Beatrina fala isso, né? Envelhecimento é um assunto que...
ele atravessa a sua biografia. Quando você tem contato com esse assunto, a sua vida nunca mais é a mesma. Sim. Ele atravessa. Até porque você vai ter contato com o envelhecimento próprio dos outros. Exato. E quanto antes, melhor. Sim.
Eu imagino que você, como médica, é o que você falou, você sabe exatamente quem se cuidou e quem não se cuidou. É nítido, né? Mas é um assunto que a gente fala pouco. Eu acho que você acaba falando disso depois que embelece, as pessoas se surpreendem com algumas coisas, né?
E não falar sobre o problema não significa que ele deixe de existir. Exatamente. Podemos não falar nunca aqui. Mas ele existe. É como o preparo financeiro. Não se fala. Aí como é que eu vou chegar a uma certa idade e falar, bom, e agora? Agora eu não sei.
então pra mim, o falar de envelhecimento é muito existencial é muito é algo que tá muito além do cuidar do corpo, do não ficar doente do fazer exercício, enfim por aí Bom, a gente tá quase nos nossos minutos finais eu queria que você passasse sua última mensagem e passasse os contatos do Maturidade pras pessoas conversarem mais com você Desculpa Desculpa
Maturidades é uma newsletter que se chama maturidades.substack.com.br no Instagram é maturidades__br eu... considerações finais, né? eu acho que tinha anotado aqui de conselhos ou...
do que eu acredito. Eu acho que busque outras narrativas sobre envelhecimento. Busque outras histórias. Ampliar o horizonte sobre que tipo de história a gente está ouvindo. Que tipo de imagem a gente consome. Empresas, marcas. Eu tenho um trabalho grande com marcas, com posicionamento em relação a esse assunto.
aproveitem a oportunidade, a capilaridade de vocês pra trazerem bons exemplos sobre outras perspectivas sobre envelhecimento, mais inclusivas, mais reais, falar desse assunto sem romantizar, sem, quando a gente romantiza uma coisa, a gente cria um problema porque a gente se afasta da realidade, a gente vê muita romantização do assunto, do envelhecimento.
Que é uma intenção muito boa, mas que ela acaba tendo um efeito contrário. Sim. Quando a gente romantiza, se eu romantizo uma ideia, a hora que eu tenho contato com ela, eu vou me afastar. Sim, você vai se assustar. Ué, cadê? Ué, mas não era isso que falaram. Exatamente. Então... O que mais? Acho que assim...
Forme vínculos, veja seus amigos e cuide disso. Acho que a gente tem que cuidar disso. E não é só WhatsApp, nem curtir a foto no Instagram. Eu acho que a gente tem que cuidar da nossa rede, que é a nossa rede que vai segurar lá na frente.
e conviva com pessoas de todas as idades. Eu acho isso... A gente fala de intergeracionalidade muito no trabalho, a gente fala muito disso na Maturi, que é uma parceira ligada a trabalho. Não seja aquela pessoa que fala que no seu tempo era melhor ou que hoje em dia esses jovens...
Acho que conviver com pessoas de todas as idades e perceber que todos podemos aprender e ensinar, eu acho que, para mim, é um indicativo de saúde e de uma construção de uma fase de vida, ampla fase de vida, com mais sentido e com mais felicidade.
É, e assim, isso é uma questão de respeito também, né? Você respeitar as diferenças, você respeitar que a outra geração vem em um outro momento e nem por isso ela é pior, né? Então, assim, eu acho que são conquistas e você aprende muito com isso. Eu acho que isso é extremamente positivo. Com certeza. E eu, enfim...
Presto consultoria pra marcas. Eu escrevo, eu medio painéis. Eu tô me especializando nisso já há 10 anos. E é uma alegria pra mim estar aqui e fazer parte desse movimento, dessa iniciativa tão linda de vocês no Longidade. E eu espero que tenhamos vida longa nas nossas iniciativas. E muito obrigada pelo...
convite e estou à disposição sempre que a gente puder conversar. Bom, só tenho a agradecer a tua presença aqui, a gente vai ter outros papos, né? E pra você que está nos ouvindo, se tiver alguma dúvida, entre em contato com a Mariana, acho que vai ser super positivo com a gente do Longe D'Ardre também. Obrigada. Muito obrigada.