Episódios de Regina Zappa & Mario Vitor

Mario Vitor & Regina Zappa - “O Dragão”, a tirania e o mundo de hoje 12.5.26

13 de maio de 20261h
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A arte ajuda a compreender e a transformar o mundo. Para falar sobre o papel político e social do teatro, Mario Vitor e Regina Zappa convidam a atriz e produtora Tuca Moraes, da Companhia Ensaio Aberto, que está em cartaz com a peça "O Dragão", escrita em 1943 pelo russo Eugène Schwartz. Com uma temática atual, a peça critica a tirania e o conformismo e fala das batalhas contra os dragões que se espalham por todas as partes do mundo. Com um texto profundamente político, o espetáculo é oportuno, “quando assistimos passivamente ao assassinato de milhares de civis em Gaza, no Líbano e em outras partes do mundo”, segundo o diretor Luiz Fernando Lobo.

Participantes neste episódio2
R

Regina Zappa

HostJornalista
T

Tuca Moraes

ConvidadoAtriz e produtora
Assuntos8
  • A peça "O Dragão"Crítica à tirania e ao conformismo · Eugène Schwartz · Companhia Ensaio Aberto · Luiz Fernando Lobo · Gaza · Líbano
  • História da Companhia Ensaio AbertoArmazém da Utopia · Teatro épico · Bertolt Brecht · Luiz Fernando Lobo · Olga Benário
  • O Papel da Arte e da CriaçãoTeatro como ferramenta de luta e transformação · Democratização do acesso à cultura · Marielle Franco
  • Formação de artistas e cidadãosOperários das artes · Desalienação do artista · Teatro dos Trabalhadores
  • A peça "Olga"Teatro documentário · Olga Benário
  • A peça "Palavras"Solo a partir da obra de Clarice Lispector · Clarice Lispector
  • Obras de Clarice LispectorCadernos Vermelhos
  • Obras de Bertolt BrechtA Exceção e a Regra · Santa Joana dos Matadouros
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Bom dia, bom dia a todos e todas. A gente está aqui no Mário Vitor e Regina Zappa. Mário Vitor teve que fazer uma viagem, não vai estar com a gente hoje, mas a gente está aqui em ótima companhia com a atriz e produtora Tuca Moraes, que faz parte da primeira companhia Ensaio Aberto, veio conversar com a gente. Eu acho que não só sobre a peça dela, que está em cartaz,

que é O Dragão, que foi escrito em 1943 pelo russo Eugênio Schwartz, mas também para a gente falar sobre arte, cultura e como a arte ajuda a compreender e a transformar o mundo. Bom dia, Tuca! Bem-vinda! Bom dia, Regina, bom dia a todos! Muito prazer estar aqui com você!

É sempre bom te encontrar. É, eu também adoro, adoro. E a gente passa, às vezes, tempo demais, sem se ver. Mas é muito bom quando você vem aqui, sempre com muita coisa para trazer para a gente, muita informação e de tudo que você faz também, e da companhia também, a gente vai falar sobre ela. Mas como você está em cartaz agora com o Dragão...

E nosso título aqui nessa descrição desse programa é O Dragão, a Tirania e o Mundo de Hoje. Então, eu queria que você contasse um pouco dessa peça, por que vocês montaram e que relação que ela tem. Ela foi escrita em 1943. Que relação ela tem com o mundo de hoje?

Então, Regina, a primeira vez que a companhia montou essa peça foi em 2021, logo após o período do lockdown da pandemia. E a gente... Assim, foi muito esquisito, porque a gente ficou um período enorme dentro de casa na hora que começou a liberar...

A gente entrou em sala de ensaio em condições, fazendo teste todo dia, a gente ensaiava de máscara, tanto que se a gente olha as fotos e o vídeo de 21, todos os espectadores estão com máscara dentro da sala de ensaio. Então foi uma relação, embora o espetáculo tenha sido ótimo, a temporada ótima, mas uma relação ainda muito conturbada para a gente. Porque você imagina olhar uma plateia inteira que só vê os olhinhos, você não consegue ver a reação das pessoas.

E aí, na época, já fazia muito sentido, porque a gente já estava vivendo aqui no Brasil, a gente já vivido a pandemia e o pandemônio, então já fazia muito sentido falar dos regimes autoritários, mas acho que o desenho global não estava tão claro como está hoje.

com tudo o que anda acontecendo. E quando o Luiz propõe remontar, a companhia está fazendo 35 anos, e para uma companhia é muito importante retomar espetáculos de repertório, porque isso amadurece os espetáculos. A gente tem essa experiência no Morte e Vida Severina, no Olga, todos os espetáculos, o Saco e Vanzetti, que a gente conseguiu.

remontar depois de um tempo, a gente vê que a gente avança não só nas discussões, como no próprio espetáculo mesmo. Amadurece, essa é a verdade. Quando você estreia, são muitas experiências. Você sai daquele lugar da sala de ensaio para o encontro com o quarto espectador.

E nem sempre a gente consegue fazer temporadas longas com esse tipo de espetáculo, que é um espetáculo gigantesco. São 24 atores em cena, é uma equipe técnica muito grande, porque eu tenho cuspidores de fogo, eu tenho aéreo, acrobacia aérea, eu tenho tirolesa, eu tenho muitos técnicos envolvidos. Então, é uma equipe muito grande, o que faz com que...

a gente não consiga ficar um tempo maior em cartaz, mesmo com uma casa lotada, porque a gente faz um trabalho de democratização de acesso. Então, o nosso ingresso é muito barato, e mesmo sendo barato, a gente faz um grande percentual de ingressos, é gratuito, a gente levando pessoas ao teatro pela primeira vez, porque a gente acha que isso é a nossa função também.

Então, quando a gente remonta o dragão e se depara nos ensaios, com esse momento absurdo, à beira de uma terceira guerra mundial, o Trump fazendo tudo o que ele está fazendo, o Israel, o genocídio que a gente está vendo em Gaza, o que está acontecendo no Líbano, enfim.

A situação mundial é tão absurda, e isso em tempo real, porque hoje a gente tem o acesso em tempo real, então a sensação que tenho é que estar assistindo em tempo real, ao invés de estar deixando a gente mais indignado, está deixando a gente mais atônito.

porque é como se a gente não acreditasse em tudo que a gente está vendo. E às vezes até meio entorpecido, é tanta informação na mesma hora que aquilo já passou, não, não passou. É muito estranho esse tempo que a gente está vivendo mesmo.

E isso faz com que a gente realmente está meio que numa situação de um indignado, mas um indignado paralisado. E o dragão, o que tem nele de muito interessante é que o Eugene Schwartz fala que os contos de fadas servem para revelar e não para esconder.

E ele faz parte dessa corrente dos marxistas que usam a fantasia para a reflexão do marxismo. Então, o espetáculo é um conto de fadas para adulto.

Então, ele é belíssimo esteticamente. O cenário são grandes praticáveis que relembram as cores de Chagall, uma superiluminação, um figurino primoroso da Bete e do Renaldo, da Bete Filipec e do Renaldo. As músicas do Felipe Radissetti, é uma criação muito, muito, muito feliz, sabe? Muito...

muito harmônica e muito feliz. E isso o público percebe, porque a beleza da fantasia, do conto de fadas está todo ali. Você tem um gato que é quem articula os operários para ajudarem o Lancelot a matar.

o dragão que tem três cabeças, cada hora ele muda de cabeça, e assim a gente está vendo, assim mesmo que acontece, cada hora ele muda de cabeça. E o grande barato do espetáculo é esse, que os operários trazem armas, assim, eles...

Os tecelões, tem toda a memória da luta operária, desde os tecelões da Alemanha, que trazem um tapete voador para o Lancelot, ao chapeleiro, que faz uma boina para tornar ele invisível, ao ferreiro, que forja uma espada. Então, os operários se unem e entregam as armas para o Lancelot matar o dragão.

E aí eu não vou contar o final, porque o final não é com a morte do dragão, só esse spoiler que eu posso dar, mas eu não vou contar para não adiantar o final da história. A gente torce aqui para o dragão morrer, porque a gente está cheio de dragão no mundo. Aí ele morre, mas a história não acaba, porque não adianta só matar o dragão.

Na verdade, a peça vai até o momento em que os operários têm que se organizar, e ele faz uma citação muito rápida aos sovjets, porque não adianta, fica um vácuo de poder, mas você substitui seis por meia dúzia. Então, acho que o espetáculo é muito feliz.

E o que é muito bacana é a gente ver o público jovem dentro do espetáculo. A companhia tem esse trabalho. É muito legal.

a companhia tem esse trabalho de democratização de acesso, então, ontem, por exemplo, era uma plateia que eu poderia dizer 80% de jovens, de jovens estudantes de escola pública, de jovens estudantes de teatro, tinha uma turma da Taquara, e o que eles falam no final é incrível, porque...

O espetáculo tem muitos códigos que quem conhece a história a fundo consegue ler esses códigos. Quem não conhece, lê a história através da fábula. Então, ele realmente atinge um público altamente especializado, mas ele atinge, é um público super popular.

E aí eu vou falar duas coisas aqui, que são duas... Uma é uma curiosidade, quando a gente montou em 2021, a gente não sabia que...

A gente já, no nosso estudo, conseguiu decodificar muita coisa, muita coisa que o Eugênio colocou, o Lancelot é o Lênin, e tem muitas frases muito marcantes para quem estuda a Revolução Russa e a história das revoluções.

Mas a novidade desse ano é o personagem que eu faço, o gato. E o personagem que eu faço se chama Mimi. E aí, esse ano, a Boitempo lançou o livro Marx para Gatos. E, ao ler o livro, descobri que Mimi era o nome da gata da Rosa Luxemburgo, que era a missíssima do Nenis. Olha, você não sabia.

A gata e o Lênin se adoravam, a gata da Rosa. E aí eu falei, gente, realmente, a sensação que eu tenho é que quanto mais a gente descobre coisas da história, mais a gente descobre a genialidade dessa dramaturgia e como ele é feliz na...

e não perder o conto de fadas, mas a história está toda ali. Então, o espetáculo tem humor, o espetáculo tem muitas linguagens, você tem o Burgomestre, que é um bufão, você tem, como falei, muitos efeitos especiais, mas ele é muito denso. E a gente, em um determinado momento, faz um pulo para...

o mundo contemporâneo de hoje, muito mais em imagens, e isso é totalmente perceptível pelos espectadores. Esse final de semana foi muito emocionante, porque a gente levou um grupo...

de mães que perderam seus filhos, vítimas de violência do Estado. E era Dia das Mães, então, esse é um grupo que se reúne, e a gente levou esse grupo. E a gente recebeu um depoimento muito emocionante, de uma mãe...

de periferia, falando da dificuldade que é viver o Dia das Mães com essa perda, mas que ela estava tão feliz de ter tido essa oportunidade, porque eles não têm essa oportunidade. E ela usou essa frase assim, eu precisei perder o meu filho para eu ir ao teatro pela primeira vez. Olha, que coisa! Então, é...

O teatro ainda tem um lugar que realmente... Ela fez questão de mandar o áudio falando assim, eu passei o dia inteiro hoje falando para a minha filha do espetáculo, nunca vai sair da minha cabeça. Então, o teatro tem esse poder transformador.

é muito formiguinha, porque ele é limitado, ele é ali, é o encontro do agora, mas a gente sabe que aquela semente que ele planta ali é muito fértil, sabe? É uma terra muito fértil. Mas o Tuca diz aqui, que a gente não falou ainda, aonde...

quando e o horário do espetáculo? O espetáculo é no Armazém da Utopia, que fica ali no Cais do Porto. É fácil de chegar, porque é perto do Terminal Gentileza, tem uma estação de VLT em frente, que se chama Parada Utopia, linha 1 do VLT. Dá para ir de bike. Então, é um lugar bastante fácil de chegar, perto da Praça da Harmonia.

E a gente faz os espetáculos sextas, sábados, domingos e segundas, às 8 da noite, até o dia 8 de junho. Os ingressos podem ser retirados no Simpla. E quem tem grupos...

que tenham necessidade de ingressos sociais, pode entrar em contato com a gente. Vou olhar aqui para não falar o número errado. No telefone 9797... Espera aí, eu vou botar aqui no chat para as pessoas. É 21, não é? É, 21-97-976-0046.

Esse é um projeto de democratização de acesso, então é entrar em contato com a nossa equipe, que aí vocês vão ter todo o encaminhamento.

Tá bom. O Tuca, aqui já teve alguém, deixa eu ver aqui, perguntando se vocês não vão levar a peça para São Paulo. Então tem que explicar que tem todo um... Olha, a gente gostaria muito... Vou falar um pouquinho da companhia também. É, a gente gostaria muito, porque no ano, no início do ano, em dezembro e janeiro desse ano, na virada do ano, a gente fez uma temporada do Morte e Vida Severina em São Paulo e a gente não viajava, Regina, há 14 anos.

porque se a companhia saísse do Rio, a gente perdia o armazém da Utopia. Então, a gente não podia sair do Rio de Janeiro. E agora que a situação do armazém ficou resolvida...

legalmente, a gente então fez uma temporada em São Paulo, uma temporada ousada, porque foram cinco semanas do Morte e Vida Severina, e a temporada foi lotada, abarrotada no Sesc Pinheiros, que é um teatro grande, um teatro de 700 lugares, e isso nos deu muito gás. Mas o Dragão...

É bem difícil de viajar. Impossível não é, mas é bem difícil, porque ele não cabe no teatro. Ele tem que ser feito num galpão. Então, tem uma montagem no entorno. Inclusive, no Armazém da Utopia, a gente não faz no novo teatro, que é o Teatro Vianinha. A gente faz no Armazém, porque a cenografia é muito grandiosa. E é o que falei, tem um dragão de seis metros que voa.

que passa por cima do público. Então, ele precisa de um espaço muito especial. Mas a gente estará em São Paulo no último final de semana de julho, no Teatro Paulo Eiró.

julho até 2 de agosto. São seis sessões do espetáculo Olga, que vai voltar ao Rio, mas antes de voltar ao Rio, a gente faz uma temporada em São Paulo com quatro sessões gratuitas e depois... Na realidade, são oito sessões. Eu falei seis, não, são oito. São quatro sessões gratuitas e quatro sessões com ingresso popular. Então...

Fica aí o convite para assistir Olga, que é um teatro documentário muito interessante também sobre a Olga Benário. O Tuca, é recomendado para criança esse espetáculo do Dagão? É. Pode levar a criança? Ele tem, ele é livre, 12 anos.

As crianças amam, e para a gente é ótimo. Nesse final de semana a gente teve criança nos dois dias, no sábado e no domingo, e para a gente é muito bom quando tem criança, porque é engraçado que o público adulto...

a gente vê uma cara de criança, eles embarcam no conto de fadas, mas quando tem criança na plateia, acho que elas ligam essa chave antes, porque elas embarcam no conto de fadas desde o primeiro momento. Nada para elas é estranho, um gato que fala, nada é estranho. Então, elas se manifestam...

de uma forma muito efusiva, e isso contagia o público, sabe? Então, é recomendado, a criança pode ir.

O espetáculo é muito visual, é muito colorido, então eles acompanham totalmente a história. É claro, eles não têm nenhuma referência de Stalin, nenhuma referência de Hitler, mas isso não é o que importa, porque eles ficam totalmente ligados à história, a encenação é muito dinâmica, então pode levar crianças. O Tuca...

Você falou aí na dificuldade que era de viajar para não perder o armazém. Vamos falar um pouquinho da história da companhia em Saioberto e depois como vocês conseguiram consolidar aquele espaço tão importante ali no caso do Porto, aqui no Rio de Janeiro. Como é que nasceu a companhia? Vocês já trouxeram tantas coisas importantes nos trabalhos teatrais que vocês fizeram, vocês começaram lá, se não me engano, foi em 93?

A companhia começa em 92, mas o primeiro espetáculo é em 93, que a gente estreia em janeiro. Que é o cemitério dos vivos. Isso. A gente começa a ensaiar e a ter os encontros e a estabelecer os princípios da companhia.

Em 1992. Então, a gente tem a nossa comemoração de aniversário é longa, inclusive a gente vai fazer 35 anos de trajetória. Mas lá no começo não tinha o armazém, não é? Não tinha o armazém. A companhia nasce principalmente para trazer uma nova relação palco-plateia.

O Luiz Fernando fazia, o Luiz Fernando, que é o diretor artístico, fazia uma pergunta... O Luiz Fernando Louvo. O Luiz Fernando Louvo. Ele fazia uma pergunta que era o seguinte, meus melhores amigos não vão ao teatro e a culpa não é dos meus melhores amigos. O teatro teve uma ruptura brusca com a ditadura. O teatro brasileiro tinha um repertório muito interessante e grupos muito importantes que tiveram uma ruptura enorme na ditadura.

E, quando o teatro retoma, ele volta apenas como um teatro de entretenimento, um teatro absolutamente comercial, e os grupos, durante muito tempo, era falado, os grupos acabaram. Quando a companhia nasce, ao mesmo tempo, na mesma época, estão nascendo companhias no Brasil inteiro, mas a gente não sabia.

Então, o que se dizia é que não tem mais companhia, as companhias já passaram, as companhias estão fora de moda, e depois a gente vai descobrindo, à medida que as companhias vão resistindo e vão passando dos seus primeiro ano, segundo ano, terceiro ano, porque aí você começa realmente a poder dizer que é uma companhia, a gente vê que tinham companhias, que foi um movimento orgânico que surgiu no Brasil inteiro.

E a gente nasce com a clareza de retomar a tradição do Teatro dos Trabalhadores, a tradição do teatro épico, a tradição do teatro alemão, dos anos 20 e 30, que fazia um teatro muito crítico, muito voltado para a sua realidade, e um teatro...

onde o ator argumenta, ele é um ator que narra, um teatro que a gente diz um teatro narrativo. E é, obviamente, que tem aí no Brecht, no Bertolt Brecht, um ponto focal, porque, como dizia o Abu Jan, o teatro é um antes do Brecht e outro depois do Brecht. Então, a nossa tradição é totalmente ligada à Brecht e a todos os contemporâneos que o cercam. E...

Quando a gente nasce, a gente nasce fora do teatro, com o Cemitério dos Vivos. Era um espetáculo itinerante feito no Fórum do UFRJ, a partir do Diário do Lima Barreto. E, no mesmo ano, a gente faz um outro espetáculo fora do teatro, ali no Paço Imperial, que é um espetáculo chamado A Missão, do Rainer Miller.

e dessa forma a gente meio que passa a ter uma marca desse trabalho.

que é contra o palco italiano da quarta parede, onde há uma separação ator e quarto criador, que é o espectador. A partir daí, a gente começa a buscar um espaço para trabalhar, vai para a Aliança Francesa, que era uma sala pequenininha, depois vai para um teatro público, que é o Teatro Glauci Rocha, até que a gente começa a ficar muito insatisfeito de como o mercado está organizado.

e os próprios teatros públicos, onde você não pode ter uma cenografia, onde um teatro recebe quatro, cinco espetáculos ao mesmo tempo, então sua cenografia tem que ser um tapete e uma cadeira, que você tem que montar e desmontar. E os nossos espetáculos, eles tecnicamente são espetáculos bem complicados.

Então, a gente começa a procurar um espaço e vai para um lugar que é o lugar que ninguém queria, que era o Cais do Porto, porque a gente tinha espetáculos muito grandes, já nessa época, feitos para massas mesmo.

E a gente queria ter a autonomia de um espaço onde a gente pudesse fazer os nossos grandes formatos, os nossos pequenos formatos, onde a gente não tivesse um único modo operante de montagem.

Quem conhece o repertório da companhia sabe que os espetáculos são muito diferentes entre si, embora eles tenham uma linguagem do teatro épico, mas eles são muito diferentes. Vocês já tinham feito a Missa dos Quilombos? Não. Não. Aí a gente vai... Não, quando a gente decide para um armazém do Cais do Porto, foi porque a gente fez a Missa dos Quilombos no Armazém 5.

Quando a gente vai para aquele armazém, a gente vê que ali era um lugar perto das barcas, perto da central, perto da rodoviária, portanto, de muito mais fácil acesso ao nosso público preferencial, que é o público de periferia, que é o público excluído.

E era um lugar que ali tinha perimetral, era um lugar que ninguém queria, e a gente, então, vai para ali. Logo depois que a gente vai, vem o Porto Maravilha. Então, a gente passou a ter uma luta muito grande, porque aquilo ali, que era um lugar que ninguém queria, passou a ser o metro quadrado mais cobiçado do Rio de Janeiro.

Aí todo mundo queria. E aí foi uma luta pesada de 14 anos, mas na qual a gente teve muito apoio do governo Lula, teve muito apoio do governo Dilma, passou pelo governo do pandemônio.

que eu não gosto nem de falar o nome, que foi realmente um desgoverno, mas nós resistimos, foi uma resistência pesada, a gente enfrentou guarda-armada, não foi fácil. E quando o Lula retoma e o Ministério da Cultura se...

se reconstitui, a gente teve aí no próprio Ministério da Cultura, na PGR, no próprio secretário, na época o secretário Messias, ele estava na PGR, que ajudou muito todo um processo jurídico que estava em torno do armazém. A gente foi realmente muito perseguido, sabe? Mas também...

nesse meio tempo, por conta dessa perseguição gigante, a gente acabou sendo tombado imaterialmente pelo Estado e pelo município. A gente não parou de trabalhar o que a gente queria fazer do espaço, então a gente conseguiu captar recursos com o BNDES, com a Shell, com o Instituto Vale, para fazer uma grande obra, que é uma obra fenomenal, vale a pena.

marcar, que é uma coisa que a gente faz, que são as visitas guiadas, para conhecer o complexo como um todo. Hoje lá tem seis laboratórios artísticos e técnicos funcionando todos os dias. São 55 trabalhadores da cultura que vivem do armazém.

entre artistas, técnicos, produtores, administração, toda a cadeia produtiva da captação, da elaboração de projetos até a prestação de contas se dá ali dentro.

muitas dessas pessoas formadas ali dentro. Todo o nosso processo de criação hoje é aberto com oficinas abertas gratuitas. Então, a gente tem oficinas todo ano de cenografia, oficinas de figurino, todos os anos tem oficina de ator, porque a gente tem um plano...

anual de estudo, de pesquisa, chamado Teatro dos Trabalhadores, onde a gente estuda não só teatro, mas estuda história, estuda sociologia, estuda geopolítica, estuda tudo o que diz respeito ao nosso mundo e ao que não é possível ser um ator de teatro épico se você não tem a argumentação na cena. É como se dissesse que o teatro épico tem...

ele tem três caixinhas, ele tem a caixinha da fábula, ele tem a caixinha do próprio personagem, mas ele tem que ter a caixinha do mundo. Então, se você não tem uma formação, infelizmente...

é difícil achar atores que tenham formação e que gostem de estudar, você não se torna um ator do teatro épico. Então, essa formação acontece lá dentro e todos os anos a gente oportuniza para novos atores. Também uma coisa que o Armazém da Utopia está fazendo.

é se tornar um espaço referência para coletivos de trabalho continuado com um projeto chamado Em Boa Companhia. No ano passado, a gente recebeu o coletivo Alfenim da Paraíba, recebemos a Companhia do Latão de São Paulo, recebemos a Maria Eugênia Tita de São Paulo.

com residências e como artistas coletivos visitantes, onde a gente está tentando trabalhar e conseguir os recursos, esses grupos estão vindo com recursos que a gente está captando e conseguindo para que a gente realmente possa formar uma rede.

de coletivos e também pensar em políticas públicas. E aí a gente tem feito encontros, chamado Encontro em Boa Companhia, Encontro Internacional, esse ano tem um no Rio, e quando a gente estiver em São Paulo com o Olga, vai ter um estadual em São Paulo, de forma a fortalecer esse segmento que, infelizmente, mesmo nos nossos governos de esquerda, não conseguem ter uma política pública estruturante para os coletivos. Os coletivos ainda vivem de projetos através do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado do Estado

e não de forma ininterrupta. É verdade. Tuca, vocês já fizeram muitos espetáfios, muitos espetáfios importantes. Lembro que a Missa dos Quilômetros ficou mais de 10 anos em cartaz, não foi isso? 12 anos. 12 anos. Isso é uma coisa fantástica para o Brasil. É. Nossa, é incrível. E todo mundo aqui dizendo que trabalha maravilhoso.

A Vânia dizendo parabéns, Tuca, desconhecia esse trabalho maravilhoso. Que bom você vir aqui, porque tem sempre um público que não conhece ainda. Sabe por quê, Regina? Tem um véu de invisibilidade muito grande. Isso não é por acaso.

A Iná Camargo Costa, que é uma teórica, fala da invisibilidade que tem de um projeto que é um projeto contracorrente, que é um projeto que não se rendeu ao teatro burguês, que é o teatro que domina.

Acho que o que a companhia tem de mérito é que a gente tinha muita clareza desse véu de invisibilidade, então a gente entendia que a gente tinha que construir, a gente tinha que ter os nossos meios de produção. E ter o espaço foi a forma de ter os nossos meios de produção. E hoje esse espaço é um espaço referência, não só para o Rio, mas espaço referência hoje internacional.

e que, mesmo assim, a gente ainda encontra dificuldades de tornar ele conhecido com a magnitude que ele tem. Eu falo isso sem nenhuma modéstia, eu falo isso com muito orgulho, porque isso não é um projeto meu ou do Luiz Fernando, isso é um projeto de muita gente. Passou muita gente por esse projeto. E, infelizmente, muita gente não resistiu, porque foi muito difícil.

Então, a gente vê as pessoas ficando pelo caminho, porque, num determinado momento, como faz para sobreviver, como faz para se reinventar. E agora é uma fase que é um desafio enorme, porque a gente agora tem um complexo que tem um teatro, tem uma sala multiuso, tem um armazém, o complexo inteiro tem 7 mil e poucos metros quadrados de construção.

E aí a gente se vê com 55 trabalhadores, com 16 contratos de manutenção e tudo... A gente não tem nenhum recurso público garantido. A gente tem sim hoje um apoio...

da Lei Rouanet, projetos aprovados na Lei Rouanet. E a gente tem, então, a Shell como uma parceira, uma patrocinadora master, mas que não consegue assumir todo o armazém. E a gente tem a Petrobras, que apoia toda a produção e toda a companhia em saio aberto. Mas a gente não tem nenhum recurso garantido, é todo ano uma renovação.

E o que a gente consegue mostrar é que, com organização, é possível fazer, sabe? Porque é um trabalho relevante, é um trabalho ano passado, nos espetáculos do ano passado, que foram Morto Vida Severina, Palavras e Olga.

e os espetáculos que a gente recebeu de fora, que a gente convidou, a gente levou mais de 20 mil pessoas ao teatro de forma gratuita. Aqui não estou falando dos espectadores espontâneos, do público pagante, estou falando de espectadores agendados, como essa é a história que contei, muitos deles indo ao teatro pela primeira vez, tendo essa possibilidade pela primeira vez. Então, isso é um trabalho...

bastante importante, tendo em vista a dificuldade que tem de democratização de acesso a bens culturais no nosso país. Rutuca, é impressionante, você falou, muita gente foi ficando pelo caminho, é muito impressionante a persistência e a resistência de vocês. Eu fico muito admirada desde sempre.

porque não é fácil, a gente sabe que as pessoas, às vezes, não têm o tempo, não têm a disponibilidade nem financeira para embarcar no projeto e insistir nele. Vocês insistiram, deu muito certo, e ainda bem que vocês conseguiram se fixar lá, porque eu acompanhei a luta, foi uma luta...

Muito difícil. Teve um momento até que a gente achou que não ia conseguir. Exatamente. Mas me diz uma coisa, desse trabalho todo que vocês fazem, você tem as oficinas, muitas são gratuitas. Todas são gratuitas, Regina, porque hoje a gente tem assim...

Como é a nossa sobrevivência hoje, isso é importante falar, isso também é uma coisa que a gente socializa muito, porque para a gente era muito importante que muitos coletivos conseguissem se organizar dessa forma. Para além dos parceiros que citei aqui, a gente tem emendas parlamentares, não essas emendas vergonhosas, PIX, são emendas absolutamente acompanhadas e...

com um plano de trabalho bem fechadinho, que é um recurso muito difícil de operar, mas é um recurso que garante ao armazém todo um trabalho social.

que a gente não teria condição de fazer se não fossem essas emendas. Então, a gente hoje faz um hall de oficinas de alto padrão, porque são oficinas dadas pelo Serrone, com o Luiz Fernando, oficinas dadas pela Beth Filipec, são oficinas com profissionais de primeira linha.

e onde as pessoas têm a possibilidade de ver o nosso projeto e a nossa metodologia e de meter a mão na massa. Então, a gente vai fazer a montagem do dragão, por exemplo. Então, tem lá toda uma pintura de arte. Então, os alunos que vão...

eles realmente não só vêm, como eles têm a oportunidade de meter a mão na massa com os nossos profissionais monitorando, com os nossos profissionais ensinando, e eles têm, então, uma experiência prática que hoje é muito difícil ter na própria universidade.

E fora que hoje, com o complexo, com os laboratórios, a gente hoje tem pessoas fixas. Então, eu tenho uma pessoa que é uma estudante de indumentária que está no laboratório de figurino. Eu tenho uma estudante de arquitetura que está no laboratório de cenografia. Então, eu tenho várias pessoas que vão para essas oficinas e que acabam sendo...

puxadas pelo armazém e contratadas mesmo para fazer um trabalho de forma permanente e também desenvolver o seu próprio ofício ali dentro. E, como isso, a gente tem em todas as áreas. Hoje a nossa...

Nossa gerente da área financeira é uma menina que entrou no armazém com 16 anos, quando a gente entra no armazém. Hoje ela não é mais uma menina, já é mãe, mas ela foi absolutamente criada ali dentro e todo o desenvolvimento dela é ali dentro. E, como isso, a gente tem várias histórias, sabe? Porque é um lugar que a pessoa...

Se ela enxergar, o Abujonra dizia, ocupem seu lugar. Eu cito muito o Abujonra porque ele foi uma pessoa muito importante para mim como homem de teatro. E, de fato, a gente vê que tem pessoas que vão lá e falam que vão ficar aqui. E se ela diz que vão ficar aqui, ela fica e cresce ali dentro. E isso é muito bacana, um mercado que é muito selvagem, muito cruel.

e um trabalho onde a gente tem uma gestão.

que não é totalmente horizontal, porque pela história mesmo que se criou, era nosso desejo, mas ela tem, em muitas instâncias, uma grande participação de todos os trabalhadores tomando decisões. Então, são camadas, sabe? E isso é difícil, isso dá trabalho, mas é muito interessante também.

O Tuca, olha só, a Zélia dizendo assim, Zélia Goulart, é uma verdadeira escola de teatro, formam o artista, tecnicamente, especialmente o cidadão consciente. Isso que é importante também, é isso que eu queria que você falasse um pouco, do que você observa, por exemplo, em todas essas peças que vocês já montaram.

O que você observa do público? Se isso é transformador, se você vê essa transformação no público, se o público volta para assistir mais? E também nas oficinas, o que é esse tipo de linguagem, esse tipo de trabalho que vocês fazem? Como ele é transformador? O que vocês captam? O que vocês veem de concreto nessa transformação das pessoas?

Então, Regina, primeiro, antes da transformação do público, eu diria que a gente trabalha a transformação dos próprios artistas. Porque...

Infelizmente, é uma classe que muitas vezes se coloca num lugar especial, e não como um cidadão, e não como um operário das artes, e não como um trabalhador. Então, a primeira conscientização é realmente dos artistas, dos técnicos, com esse projeto que falei que é um plano de estudo.

Porque não se trata de transformar só o espectador, se trata de cada encontro transformar todos nós. Sobre os espectadores, eu gosto de dizer uma frase que eu falo assim, a gente faz muito relatório de prestação de conta, quando lida com dinheiro público, eu falo que os relatórios não dão conta desse intangível.

o que eu posso dizer é que a gente é muito surpreendido, não só com os espectadores voltando, e voltando não é só na mesma temporada. Por exemplo, no Morte e Vida Severina, que a gente fez agora, foi uma mulher com uma criança de oito anos e ela contou que tinha ido adolescente ver o primeiro Morte e Vida Severina.

Porque ela fazia questão de levar a filha dela para viver o que ela viveu quando ela viu pela primeira vez. Como também, nesse final de semana, um espectador postou no Instagram uma foto do dragão e escreveu assim, simples para alguns, eterna memória para outros.

Então, a gente sabe que é um lugar ali que pega, que isso vai para sempre com a pessoa. E a gente tem isso na cultura, quantos livros a gente leu que a gente leva para o resto da vida a memória daquele livro. Ou mesmo espetáculos, que a gente assiste e que a gente nunca mais esquece.

E acho que isso é o que a gente se propõe, a fazer um espetáculo de excelência a cada encontro, porque a gente sabe que aquele dia pode transformar uma pessoa. E aí a gente tem um ícone dessa história, que foi um depoimento da Marielle Franco, que ia aos nossos espetáculos no grupo do SEASM, da Maré.

levado por um professor nesse projeto nosso de democratização, e ela disse que decidiu entrar para a vida pública assistindo à Missa dos Quilombos. É mesmo. Então, quando você ouve isso, isso é uma coisa que a gente não sabia. Quando ela deu esse depoimento, inclusive a gente tem esse depoimento no YouTube,

você fala assim, a vida presta, vale a pena. Valeu, valeu, super valeu. Vale a pena todo o nosso sufoco, vale a pena todas as dificuldades que são, que é matar um leão por dia, sabe? Quando as pessoas vão lá no armazém, vem um armazém lindo, acho que é tudo muito fácil, não é nada fácil, mas é muito recompensador, porque a gente viu?

a gente tem uma profissão que é um privilégio, que pode ser o nosso ganha-pão, e acho que isso é o que a gente batalhou muito para conquistar que seja o nosso ganha-pão, porque é muito difícil sobreviver de teatro. E...

e, ao mesmo tempo, saber que a gente consegue fazer disso uma ferramenta de luta, uma ferramenta de transformação e não se alienar, sobretudo. A gente fala sempre que a arte é transformadora.

que traz a reflexão e traz o espanto também. E é para tirar a pessoa daquele conforto. E a gente também fala do papel político-social do teatro, de determinado tipo de teatro.

Isso é muito falado, a arte como transformadora, mas vocês fazem isso na prática, e isso é muito raro, porque você tem, às vezes, sem ser fora da companhia, você tem peças que fazem as pessoas refletirem, mas elas são pontuais, não é um trabalho como o de vocês, que é um trabalho contínuo e que vocês podem ver concretamente o resultado disso.

dessa questão. Regina, isso também se deve a esse trabalho, que eu falei de desalienação dos artistas, mas a gente tem como princípio todos os atores da companhia...

cumprem uma função não artística. Hoje não é nem não artística, porque você cuidar de um laboratório de figurino é artístico, mas uma função que não seja a cena. Então, tenho um ator que cuida...

do laboratório de figurino, eu tenho um ator que cuida do laboratório de cenografia, eu tenho um ator que cuida do laboratório de objetos de cena, um ator que cuida da memória, atores que estão nesse departamento de agendamento de público, atores que estão na produção, e isso é uma forma...

da gente formar o artista produtor, o artista entender que, assim, ser artista é necessário conhecer o seu métier. É isso, é operário das artes. Então, a gente...

isso é um trabalho de formiguinha, mas se não fosse isso, a gente não teria conseguido resistir o que a gente resistiu. É a nossa formação política, é a nossa desalienação que fez com que a gente, nos momentos mais duros, conseguisse resistir, porque a gente tinha...

total consciência do que estava acontecendo em termos políticos, em termos de luta de classe, em termos do que a cultura representa como ameaça.

E isso, hoje a gente fala assim, quando as pessoas falam, como é que faz para entrar na companhia? A gente nunca faz testes, a gente faz essas oficinas, e essas oficinas muito claramente definem quem vai ficando, porque a gente sabe assim, quem não gosta, por exemplo, de estudar, não fica na companhia.

Quem não gosta de ser exigido o nosso trabalho, a gente ensaia todos os dias de espetáculo. Todos os dias a gente chega aproximadamente quatro horas antes e a equipe chega cinco.

para fazer aula de corpo, para analisar o espetáculo anterior, para trabalhar algumas cenas. E, quando acaba o espetáculo, a gente fica com o nosso público, às vezes 40 minutos. Isso significa que a gente entra para trabalhar às 3h30 e sai 11h da noite.

Não é qualquer ator que se dispõe, entendeu? Mas isso é uma coisa que, assim, hoje a gente já conquistou isso. Quem quer estar ali vai se submeter a isso. E mesmo quem vem para um espetáculo só...

vive essa experiência, pode depois ir embora, mas nesse momento também participa de algum grupo de trabalho, ou seja, é um trabalho realmente de desalienar e de tirar o ator desse pedestal, sabe? Botar o ator mais pé no chão.

operário das artes mesmo. Mas, Tuca, eu queria que você... A gente nunca falou muito de você. Você, como atriz, como é que você começou? O que te atraiu no teatro? Se você era uma pessoa que ia muito a peças?

qual a sua ligação, como é que você começou? Como tudo começou, Tuca, na tua vida? Então, Regina, eu não sei te dizer exatamente como isso começou, desde criança eu gostava muito de representar em casa, enfim.

como talvez a maior parte das crianças. Eu não tinha nenhum estímulo de família, porque eu não tinha ninguém da minha família artista, nem em nada. As pessoas são... Minha família é uma família de dentistas, advogados. E...

mas desde muito nova eu gostava. E quando eu tinha 15 anos, eu comecei a fazer teatro ainda na escola. Aí eu acho que também tem uma coisa de sorte, a minha primeira turma de teatro, eu tinha pessoas fantásticas, o Paulinho Mosca fazia teatro nessa turma, a Adriana Lins, que é sobrinha do Ziraldo, fazia teatro nessa turma. Então,

acho que você tem também o momento que você vai. Dali comecei a fazer teatro com o Bom Tempo e com Rony Villela. Na época, eles tinham feito Capitãs de Areia, eles tinham feito Tom Sawyer, e aí eles estavam meio que formando novos grupos. E, igualmente, a gente...

Também dei muita sorte nessa turma. Tem pessoas que até hoje estão aí na profissão. O Augusto Madeira, que é ator, o Dudu, que é a Goldenstein, que é cineasta, a Cissa Castelo, que é produtora de elenco.

Então, o Luiz Igreja, que teve uma companhia de clown, e também é diretor, acaba que eram pessoas muito novas, mas que, de fato, gostavam muito daquilo. E, nessa época...

Eu fui muito a teatro. A gente ia a teatro sem esse grupo, sabe? E, bom, ia assistir peças como o histórico Capitães da Areia, do Damião. Era essa a minha geração, assistir não sei quantas vezes.

Mistério de Irmã Vap. E cada espetáculo que eu via, eu saía encantada. E eu tinha uma personagem que eu idolatrava, que era a Elke Maravilha. Eu idolatrava a Elke Maravilha. Maravilhosa mesmo, maravilhosa. E fazia ela o tempo inteiro, entendeu? Bom...

Daí eu não parei mais, Regina, a verdade é essa. Eu comecei com esse grupo do Bom Tempo. Até hoje a gente tem um... A gente se fala, a gente agora tem um grupo de Zap, porque a gente montou o Greasy nos tempos da Brilhantina, então a gente tem o nosso grupo do Greasy. Até hoje a gente é conectado.

E o Bom Tempo e o Rony são duas pessoas muito de teatro, eu fui bicho de teatro, realmente. Eu entrava de férias com 15 anos e não ia para a praia, eu ficava o dia inteiro ensaiando, a gente ia para a praia só no entardecer, depois do ensaio, todos os dias. Era a minha vida, era a minha adolescência, era onde eu gostava de estar. E aí depois eu parei por um pequeno período para me formar, eu casei.

e fui ser publicitária, sou publicitária formada. E já entrei na publicidade... Eliane, obrigada! Já entrei na publicidade muito bem colocada no mercado, mas fiquei muito frustrada de parar o teatro. Nisso, o Abujamra estava vindo para o Rio.

fundar os Fudidos Privilegiados só com mulheres. E aí nem me lembro como fui convidada, mas aí chutei o balde, larguei tudo e voltei para o teatro com a Bujanra.

que depois de um ano e meio ele começou a falar para a gente se dispersar, formar outros grupos, aquele grupo só de mulher não ia dar certo. E eu acabei, por conta dos Fudidos, conhecendo o Luiz Fernando, que estava na época, eu conversei com alguns diretores, porque ele estava...

formando a companhia. E a companhia não era, ela não nasce, como a maior parte das companhias, de pessoas novas. Ela nasce de pessoas que já estavam no mercado, mas pessoas que estavam insatisfeitas com como o mercado se organizava.

Então, eu caí nesse lugar aí. E aí eu vim só como atriz, eu tenho esse defeito, eu sempre fui produtora e atriz, já com um bom tempo. Quando fui para Obujam, aconteceu a mesma coisa. Quando fui para a companhia, fui só como atriz.

Faltando duas semanas para estrear, o produtor teve um problema pessoal, largou a produção, e aí todo mundo se reuniu e falou o que a gente vai fazer? Eu falei, a gente vai produzir. Aí virei produtora de novo. Então, a produção nunca largou do meu pé, mas eu adoro ser produtora também. Eu gosto tanto quanto o papel de ser atriz. Tuca, e daqui para frente, depois do Lagrão, você já tem alguma coisa?

Temos. Na cabeça, assim, para fazer, depois do dragão? Vou falar aqui de novo, olha, gente. Armazém da Utopia. Fala aí de novo. Armazém da Utopia. Sexta, sábados, domingos e segundas, às oito horas da noite, os ingressos no Simpla. E para grupos, o telefone, ele está aí no chat, né? É 9776...

Não, 9797-60046. Tanto de número, difícil de falar. Deixa eu achar aqui. Agora, tem quinta-feira, agora, depois de amanhã, eu estou estreando, reestreando o espetáculo Palavras, que é um solo meu, a partir da obra da Clarice Lispector.

Isso, achei aqui a... Então, você vai voltar. Quanto tempo fica o dragão? O dragão fica até o 8 de junho. A gente já fez duas semanas, tem mais três semaninhas aí. E aí eu reestreio palavras, que é um solo, que eu só vou fazer às quintas-feiras, porque vai ficar em concomitância o dragão.

às sete da noite, numa outra sala que tem no Armazém, que é a Sala Sérgio Brito. E o Palavras é um projeto bastante interessante, completamente diferente do Dragão. Primeiro que ele é um solo, segundo que ele não tem um roteiro fixo, ele é um trabalho onde a gente pega...

a obra da Clarice como um todo, e deixa um fluxo do inconsciente acontecer com os espectadores. São só 40 espectadores por sessão, então é quase que um espetáculo bem intimista.

mas que vale a pena ver. Eu estreiei ano passado, fiz o ano inteiro, fiz na França, representando o ano Brasil-França, fiz seis sessões na França. Voltei, fiquei em cartaz de novo no Rio. É um espetáculo que vai ficar no nosso repertório, que sempre que a gente tiver lacunas, a gente vai fazer. Esse ano, a companhia volta com Olga, em São Paulo e no Rio.

A gente começa a fazer um trabalho chamado Abuso, que vai viajar o Brasil, em oito estados no Brasil, que é um trabalho de combate à violência sexual de crianças e adolescentes. Então, é uma parceria com o Ministério da Justiça.

e depois a gente vai fazer um cabaré, abrindo a comemoração dos 35 anos da companhia, e no ano que vem a gente faz dois brests, porque ano que vem o brest faz 70 anos, e o brest é a companhia 35, o brest é realmente um...

companheiro nosso de trabalho, e nós vamos fazer, remontar a exceção e a regra, e o nosso novo projeto é Santa Joana dos Matadouros. Então, assim, é muita coisa. É muita coisa.

Muita coisa pela frente. Deixa eu só botar aqui... Regina, tem uma coisa que eu queria também falar para o pessoal que está aqui. A gente atualmente tem feito várias edições do livro chamado Cadernos Vermelhos, que é um livro... Que são cadernos...

que refletem, que têm ensaios sobre o nosso trabalho de estudo, sobre a nossa tradição. Então, a gente já está no quarto volume. Agora, a gente acabou de lançar o quinto e o sexto volume digital. Ele fica disponibilizado digital no nosso site, que é Armazém da Utopia.

ou Companhia em Saia Aberta. A Companhia em Saia Aberta também leva para o mesmo site. E lá vocês podem ter acesso a esses cadernos vermelhos, que tem ensaios que são escritos só para a gente, tem outros que são cedidos para a gente publicar. E também a gente acabou de lançar o livro, uma transcrição do primeiro encontro do Em Boa Companhia.

que reuniu 15 grupos do Brasil inteiro. E vale a pena ler a reflexão. Foram três dias de encontro e a gente fez uma carta aberta, chamada por um teatro edital, não é teatro público. E esse conteúdo está disponibilizado também, de forma gratuita, lá no nosso site. Então, quem quiser, é um bom material de estudo.

Legal, olha só, a Juliana dizendo parabéns pelo trabalho, a Zélia dizendo, olha, cada ser humano deveria ser um armazém da utopia, que nome lindo, e o Beto, nosso parceiro aqui de muito tempo, o Beto está sempre aqui dizendo, Regina, se der...

convide-a para voltar, se ela puder. Adorável, obrigado. Obrigada, Beto. Então é isso, Tuga, só tenho a te agradecer, foi linda essa conversa, você trouxe tanto esclarecimento para quem não conhecia ainda a companhia e o armazém, então não deixe de correr para ver até dia 8 de junho, ali na Companhia Teatro Aberto, no armazém da Utopia, aqui no Rio de Janeiro.

e que vocês vão ver um espetáculo sensacional. Tuca, superobrigada. Eu que te agradeço, é sempre bom conversar com você. A gente mata um pouquinho de saudade. É verdade. E a Fátima diz obrigada, viva o teatro que alimenta o espírito e a consciência. Viva!

Então é isso, gente. Obrigada a todos e todas que acompanharam. Obrigada, Tuca. Obrigada a você. Um beijão. Vamos ver se a gente se encontra e você volta mais aqui. Tá bom, combinado. Beijão e parabéns. Tchau, tchau. Beijo, obrigada.