Episódios de Destacável (Podcast)

Virgílio Castelo, Ana Pinto Coelho, João Gobern

08 de maio de 20261h6min
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O Clube dos Poetas Mortos, Festival Mental, especial Beach Boys "Pet Sounds"

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Assuntos1
  • Clube dos Poetas MortosAdaptação do filme para o teatro · Interpretação de Robin Williams · Diogo Infante como professor · Debate sobre métodos de ensino
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Já vamos aqui ouvir o primeiro tema do destacável deste fim de semana, Donovan com Mello e Yellow, até porque ele faz amanhã 80 anos, mas ainda está aí para as curvas, e já começaram a ouvir o hum hum, é do Virgílio Castelo. Exatamente, as curvas, as minhas curvas sonoras. Exatamente, bem-vindo ao destacável. Obrigado, é que agradeço muito. Tu lembras-te bem deste tema do Donovan? Ah, completamente, eu era miúdo e lembro-me perfeitamente de ouvir o Donovan, o Mello e o Yellow e outras coisas do Donovan e daqueles cantores de...

Dos anos 60 Os anos 60 foram para quem vivia em Portugal E era miúdo nessa altura Tu andavas à volta dos 10, 15 anos Conforme a parte dos 60 O meu primeiro contacto com a música Com o pop e com o rock É com os Beatles E com uma música chamada Rock and Roll Music

Aqui é uma coisa pouco conhecida Dos Beatles Já não me lembrava disso Exatamente É uma coisa do meu tempo Foi o meu primeiro contacto com esse tipo de música Aqui chamava-se Yee é muito Isso é um bocadinho posterior É quando se começa a tentar catalogar E eu percebi que era uma coisa típica portuguesa Mais do lado nenhum do mundo havia música de Yee é Não, porque isso tinha a ver com o Chile Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

E ficou música Exatamente Olha, tu estás aqui por dois grandes motivos E por ti próprio, obviamente Mas por causa do Clube dos Poetas Mortos Que se estreou no Trindade Aqui em Lisboa na semana passada Ah, está a correr muito bem Muito bem, vai correr porque é uma loucura Venderam-se 30 mil bilhetes antes do espetáculo começar Imagina-te Se não é o recorde, para lá caminho Só pode ser

E a vossa temporada vai para além de agosto É, neste momento Há uma primeira temporada até dia 2 de agosto Depois há uma paragem De férias E depois recomeça-se a 9 de setembro E vai até 20 de dezembro E depois vamos para o Porto E para digressões ao fim de semana Até ao final de abril Ou seja, tens a tua vida toda programada

Para o próximo ano, basicamente. Tens também um livro, esse já tem para aí dois meses, mas é recente. É o teu quarto livro. O teu quarto livro chamado Consumo Obrigatório e já lá vamos. Voltemos ao Clube dos Poetas Mortos. Tu viste o filme em 89? Vi, vi, vi. Bateu-te para usar essa palavra? Fiquei sobretudo com a imagem...

Do protagonista, ou seja... Do Robin Williams? Do Robin Williams. Achei que ele tinha uma interpretação mais do que propriamente a questão política ou social.

Da maneira de ensinar Ou seja, o professor iconoclasta Que procura Fazer a transmissão da sabedoria De uma maneira diferente Isso interessou-me naturalmente Mas não me marcou tanto Como o olhar dele

O olhar do Robin Williams no filme é uma coisa de uma inocência extraordinária para mim. Eu diria inocência e ternura. É, é, porque na inocência está automaticamente a ternura. Ou seja, para mim a inocência funciona muito bem.

É como se ele se colocasse como professor Num lugar de pureza Ok O que há para ensinar é isto Mas eu vou ensinar-vos isto Da maneira mais limpa Que eu possa fazer E aberto ao outro Exatamente Eu acho que havia muita empatia nele E sobretudo uma dádiva

Uma dádiva de que alguns de nós tivemos com alguns professores, não tivemos com todos, obviamente, mas todos nós nos lembramos de um ou outro professor que teve qualquer coisa determinante para nós. Para mim, por exemplo, foi um professor que eu tive no antigo 5º ano, que é agora o 9º ano, que eu fiz à noite, que eu comecei a estudar à noite muito tempo. Já trabalhavas? Já trabalhava. Sim. Tinha 14 anos, passei para a noite, e com 15 tive um professor de português.

que foi importantíssimo para mim porque foi a primeira vez que eu olhei para os Lusíadas com um ar sem ser terror quer dizer, toda a gente olha para os Lusíadas com ar de terror era a divisão da população e este professor fez-me olhar para os Lusíadas de uma maneira que até hoje me emociona e eu gosto imenso de tocar Já escrevi as poemas? Não, não, não, comecei a escrever para aí dois anos depois Mas mas

O Camões é muito mais acessível do que o que se pensa. E eu tive a sorte de ter esse professor que me levou rapidamente a querer interessar-me pelo Camões. Falavas do papel no filme do Robin Williams, eu confesso, aqui é na nossa produção do Trindade, na vossa produção no Trindade.

É o Diogo Infante que faz o professor. Eu confesso que não gostaria de ter a sorte de Diogo Infante. Como assim? Porque o Robin Williams está tão inculcado, pelo menos na malta da minha geração que viu o filme, que acho que é ingrato teres que fazer aquele papel com ele. Eu percebo o raciocínio, mas eu acho que o Diogo ultrapassou isso muito bem. Ótimo. Era isso que eu queria investigar. Acho que o Diogo ultrapassou porque...

Nós tivemos algumas conversas em que, de todas as vezes que nós trabalhámos juntos, eu e o Diogo, procurámos sempre transmitir ao outro aquilo que pensamos sobre aquilo que o outro está a fazer. E nas conversas que tivemos em relação a este papel, uma das coisas que o Diogo me disse é Virgílio, qualquer coisa que me digas, não me leves para o Robin Williams. Ou seja, o Diogo estava muito certo de que não queria fazer nada que pudesse evocar.

o Robin Williams e é muito difícil, mas acho que ele conseguiu acho que o Diogo conseguiu é reapropriar-se de uma coisa que parece definitiva não é? completamente, e é muito difícil ultrapassar aquilo que o Robin Williams fez mas o Diogo o que faz

É de uma... Não é simplicidade É de uma lisura É de uma lisura o que ele faz Em relação à personagem Que a torna tão interessante Como aquilo que o Robin Williams fez Não fazer nada parecido com ele

Tu, o Diogo Infante e mais outro ator, eu peço desculpas, esqueci-me o nome agora. Sim. Em Algoros aqui nos meus papéis. O Diogo Mosquita. O Diogo Mosquita, exatamente. Vocês são os três mais velhos de um elenco muito jovem. Na casa dos 16, 17, 18 anos. Pelo menos os personagens. Os personagens. Os personagens. Os atores não têm necessidade. Exatamente. Mas são muito jovens. Sim, são. São todos. É o quê? Trabalhar com uma malta tão jovem?

É sobretudo, para mim, só posso falar para mim, é sobretudo uma tentativa... Tu fazes, para quem não sabe, o papel do diretor. Eu faço o antagonista do Diogo. Faço o diretor da escola, que é o mau tipo conservador. Sim, exatamente.

que no fundo representa, se quisermos situar isso politicamente, tanto na época do filme como na atualidade, uma grande discussão sobre o que é ensinar. Até que ponto é eficaz ensinar a partir da liberdade ou ensinar a partir da convenção.

Não é evidente que os resultados, um pouco por todo o mundo, de ensinar através da liberdade, sejam, digamos, 100% positivos. Olha, o simples facto de tu te permitir sequer dizer isso, eu já acho muito bom. Porque hoje há conversas que quase não se podem ter. Exatamente. Porque se parte de princípios de verdades absolutas. Pois mesmo, mas isso... Eu tenho uma teoria um bocadinho iconoclasta sobre isso, que é os anos 60...

No mundo inteiro, quer dizer, funcionaram como uma ruptura Obviamente, não é? E uma das rupturas que causaram Da música, como começámos O Maio de 68 Há uma ruptura nos anos 60 Em termos sociológicos, em termos psicológicos Em termos políticos Em termos sociais E uma das rupturas que aconteceram Foi Uma espécie de Recorrer

cooperação de princípios freudianos de que a culpa dos problemas está sempre nos mais velhos. Ou seja, seja o pai, seja a mãe, seja o professor, o padre, o político, o chefe, é sempre o culpado daquilo que nós não conseguimos resolver bem. É externalizar a causa das coisas. Os anos 60 tornaram isso muito claro.

E isso fez com que houvesse, um pouco por todo o mundo, uma espécie de rejeição de tudo o que era clássico, conservador, antigo, velho. Vamos rejeitar isto tudo porque isto não tem interesse nenhum. Ora, isto é um disparate.

Estás a dizer que é como deitar fora o bebê com água de banho? Não sei se é deitar o bebê. É deitar fora a sabedoria de milhares de anos. Ok. Porque a verdade é que, pegamos na filosofia, hoje em dia estudas filosofia com os mesmos livros que foram usados há 100, 200, 300, 500, mil anos. Ou seja, podes usar também o Weidegger, por exemplo, ou Nietzsche. Mas a verdade é que aí estás a estudar os gregos, não é? Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Portanto, há uma sabedoria ancestral da humanidade que nos anos 60 foi muito posta em questão. Tem que ser. Deveria ter sido e foi posta em questão. Mas já passaram muitos anos. Para peneirar o teu perceber. Exatamente. É preciso ver que há muita coisa que se diz num estado de...

de rejeição quando temos 20 anos, temos que rejeitar tudo senão não estamos vivos mas depois, se aos 30 anos rejeitemos tudo, estamos já um bocado mais mortos Eu ia-te perguntar porque é que trouxeste o Jorge Palma com a canção do Lisboa

E já voltamos a conversar Sim, sim, é porque o Jorge Palma para mim É dos cantores Dos cantautores Que surgiram após o 25 de Abril É o que Está mais próximo da minha sensibilidade

Eu acho que aquilo que se chamaram os baladeiros E os cantores de intervenção O Jorge não é bem isso O Jorge é um trovador O Jorge é um trovador É alguém que Do meu ponto de vista interpreta O tempo

Em que vive De uma maneira que acaba por ser transversal Como os trovadores o faziam Exatamente Olha, e é de um álbum chamado Só Que eu não sei porque, acho que é um título que te assenta que nem uma luva O pouco tinha-se que te Eu diria que sim Então vamos ouvir e já voltamos a conversar com o Virgílio Castelo Aqui no Destacável

Jorge Palma com a canção de Lisboa, do álbum só, a escolha de Virgílio Castelo, a primeira de duas, a segunda vai poder ouvi-la na segunda hora do destacável. Virgílio, para além do Clube dos Poetas Mortos, que começou a sua temporada há uma semana e vai, como já percebi, estar na tua vida até abril do ano que vem, porque depois vai sair de Lisboa no fim do ano, vai para o Porto e por aí fora, e ainda bem.

Tu também tens um livro, é o teu quarto livro Não diria que isto... Até começar por aí pode ser interessante Chama-se já agora só Consumo Obrigatório, o escândalo e a ternura da autobiografia de toda uma geração Há outros subtítulos possíveis, mas este... Sim Primeiro

Eu já te ouvi dizer que isto não é a tua autobiografia Mas tem aqui tanto de autobiográfico Isto é uma pergunta Porque eu fiquei com essa sensação Deixa-me só dar um Porque não vamos poder falar de todos Estes 39, 40 bares Discotecas, boates Que começam em 66 E vão até 2000 e pouco

Nós ficamos a saber aqui Quando é que tu perdes e com quem? A virgindade A tua única experiência com a heroína Portanto, há aqui Algo de muito biográfico também Sim, mas repara Isso é muito engraçado e é muito interessante A questão que estás a pôr Porque há uma discussão sempre sobre O que é que é Autobiográfico naquilo das pessoas que escrevem

Há quem diga que tudo é autobiográfico Exatamente, era aí que eu queria chegar Desculpa É sério Eu não me considero um escritor Eu considero-me um autor Mas os escritores dizem todos que tudo o que escrevem é autobiográfico

Para aí um bocadinho, qual é a tua diferença para ti Entre autor e escritor Eu acho que só é escritor quem a posteridade determina Ah ok, não é quem diz que é Não é quem diz que é Nem são os professores universitários E no caso português é escritor quem os professores universitários Dizem que é Eu acho que isso não é bem assim A história está farta Carregada de exemplos De gente que escreveu Hoje em dia Ah

Felizmente, imensa gente a escrever no Portugal Mas só o tempo é que vai determinar quem é que é escritor Eu sou um autor de histórias Que é uma coisa um bocadinho diferente Esclarecido isso, voltemos à biografia À biografia, portanto, aqui O que me parece é que

A maneira como... Agora perdi-me na... Eu estava a dizer que tu disseste Numa entrevista que eu li Ah, autobiografia Que isto não é uma autobiografia Eu vou-te explicar o que aconteceu O que eu queria escrever era sobre a noite Sobre o sexo, sobre a aventura Porque acho que é uma coisa que Não percebo porque é que não se fala Há pouca coisa escrita É um não dito que toda a gente sabe Toda a gente sabe, toda a gente passou Em todas as gerações, já nos meus pais Passaram...

Eu brinquei no outro dia com um amigo e disse Olha, já sei quando é que o Virgílio Castelo perdeu a virgindade E provavelmente com quem O quê? Ele disse isso num livro? Ele escreveu isso? Sim, qual é o problema? Isso é um bocado estranho Estranho porquê? Eu não acho nada estranho Esta foi a conversa Exatamente, mas o que eu queria falar Isso que estás a falar, essa questão da virgindade Da minha É apenas uma consequência De querer falar Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Da aventura da noite Eu acho que para todas as gerações Inclusive para as gerações de agora Que vivem a noite de uma maneira completamente diferente Até se diz que está a morrer a noite Não sei, os mais velhos dizem sempre isso Os mais velhos Estou a falar de homens do negócio Eu acho que a noite está a transformar-se É outra coisa

Há uma coisa que já era nos anos 70, quando eu tinha 20 anos, é agora nos anos 20, quando eu tenho 70 anos, e já era no século passado, e se calhar já era há 200 anos, que é, a noite é sempre uma aventura. E é essa ideia de aventura que eu queria capturar. Porque, o que é que ela ia dizer? O que é que vais fazer? Embora ir sair. O embora ir sair é ir à aventura. Não se sabe o que é que vai acontecer. E isso é a piada da coisa.

E desejavelmente, na minha geração, e julgo que em todas as gerações, o desejavelmente era que acontecesse sexo, divertimento, aventura, copos, tudo o que proporcionasse... Uma história para contar aos amigos no dia seguinte. Exato, o saído da normalidade. Essa foi a motivação para a escrita. Porquê que a coisa acaba por ser autobiográfica? É por uma questão meramente narrativa, no sentido em que... Eu penso assim, peraí-me...

Como é que eu vou escrever agora isto? Para quem leu o livro agora, em 2026, como é que a pessoa vai perceber o que é que aconteceu em 1966, 67, 68, por aí fora? É que começas em 66 com 13 anos. Foi a tua primeira saída à noite?

Apesar do conto se passar à tarde Sim, uma matiné Mas a verdade é que Aí eu percebi A maneira que eu tenho de falar De situar o leitor No tempo

é pegar na minha própria carreira, porque eu tenho 52 anos de trabalho. Comecei hoje 21. Portanto, é mais fácil se eu situar isto que uma peça que eu fiz em 74, 75, um filme de 78. E não é só isso. Tu tens aqui o ar do tempo daquela época. Eu julgo que sim. E, portanto, a coisa acaba por ser autobiográfica, na medida... Em cenas, no fundo... Isto, no fundo, são 39 ou 40. Eu não os contei muito bem. São 36 pontos.

São 36 contos, acho eu. Sim, eu até jogava que era um pouco mais. Mas não interessa. São muitos contos que tu encenaste escrevendo, basicamente. Sim, basicamente. Eu pego numa memória eventualmente pessoal outra contada. Sim, sim, sim. Por exemplo... Outras parecem pessoais e são implantadas. São completamente inventadas. Quer dizer, algumas que são verdadeiras. Mas, portanto, dou-te um exemplo. Há um sítio onde eu fui apenas uma vez na vida.

que é o Perón do Anau. O Perón do Anau era a boate onde... Eu não gosto de chamar discoteca, porque para mim discotecas eram os sítios onde se compram os discos, em lojas dos discos. Nós arriscamos aqui a gente jovem a ouvir-nos e não sabemos... Boate? O que é uma boate? Mais parecida é uma bar discoteca. Exatamente, sabemos disso sim. Mas o Perón do Anau era um sítio onde iam...

Os atores de geração anterior à minha Portanto o Nicolau, o Francisco Nicholson O Henrique Viana Toda essa gente ia para aí E eles contaram dezenas de histórias Dezenas de histórias Eu fui muito adotado por eles E fui muito apaparicado por eles Felizmente tive essa sorte E portanto há histórias que eu conto A história que eu conto do Perondonal Não se pensou comigo, eu nem sequer estava lá Mas ouviste? Ouvia, que é a história do 25 de novembro Sim

Que é no dia 25, no dia do golpe militar Ou o que é que aquilo foi Quer dizer, de repente Um dos heróis O que aconteceu no ano em que tu voltaste para Portugal? Não, não, não Tu não estavas em França Não, eu voltei, isso é mais tarde Isso é tudo mais tarde Eu comecei no teatro ad hoc em 74 E o 25 de novembro é em 75 Isso eu sei, eu julgava que era no ano em que tinhas vindo de Paris Não, eu vim de Paris em 81 Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Depois de ter estado em Estrasburgo. Mas tinha estado antes. Em 70. Em 70, ok. Fiz confusão. E, portanto, há uma história que eles me contavam, que é, no dia 25 de novembro, a expectativa no Perón de Anáu era um dos heróis, daqueles que andavam de Chaimiti, ia acabar a noite no Perón de Anáu como a cabeleireira qualquer da Margem Sul.

E foi. Eles contaram esta história. Eu achei isto delicioso. Eu vou inventar toda uma história a partir disto. Há um golpe de Estado, ou revolução, ou o que for. O valor que lhe querem atribuir. E as pessoas aqui estão enlaçadas nos corpos umas das outras. Exatamente. E é aquele tipo que vai dar tiros não sei para onde e que às três da manhã vai beber um copo ou para onde não.

É um lado que eu acho muito curioso. Tu ao escreveres estes 30 e tal contos, que tem muito de ti também, deste por ti a lembrar-te coisas que já não te lembravas? Não necessariamente. Há um conto que me foi muito difícil escrever, que é um conto que se passa julgo que em 83, que é o conto do Inde Level do Marquês. O Inde Level do Marquês era uma boata.

Teca, se chamamos de o que quiser. Que boate é que se chama Indelével. Exatamente, se chamava Indelével do Marquês. E havia o João Sebastião Barco também, que está aqui. Mas o João Sebastião Barco é um belo trocadilho. É um belo trocadilho, está com um belo abartoc. Sim, um belo abartoc, sim. Agora, o Indelével do Marquês era uma boate que havia na rua Camilo Castelo Branco, em frente àquela igreja nova que foi feita pelos nunos, o Nuno Portas e o Nuno Titânio Prato. Isto é em Lisboa, para quem nos conhece. Exatamente.

E há uma história que se passou A única vez que eu fui a essa boate Foi no dia em que terminaram as gravações da telenovela Origens Ok, a tua segunda talvez? Foi a segunda E foi a novela em que eu tive um papel que me tornou mais conhecido do grande público

E o que aconteceu foi que eu apanhei um pifo de tal maneira nessa noite Que não me lembro de nada do que se passou E então eu escrevi um conto a tentar lembrar-me do que é que podia ter acontecido Do ponto de vista de um bêbado Exatamente, se quiseres Mas é a partir do trocadilho da palavra indelével Supostamente indelével é uma coisa que não desaparece, que não sai E tu afinal de contas era muito de leve Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Há imensas histórias deste tipo assim É delicioso ler isto, eu aconselho vivamente Especialmente quem viveu a época Mas também quem não e quer Penetrar de algum modo Em mundos que se perderam já Voltamos a conversar contigo depois das notícias Daqui a pouco vamos falar do Festival Mental Tem a ver com saúde mental

Mas agora, até para lembrar que a Milhanas vai tocar logo ao vivo em Lisboa, no Palácio Galveias, na biblioteca. É grátis a entrada, é às nove da noite. Vamos lembrá-la aqui com o tema do ano passado, algo mais.

Estávamos aqui a ouvir a Milhanas com algo mais. Ela que vai tocar ao vivo neste sábado à noite no Palácio Galveias, na biblioteca, a partir das nove da noite e, volto a dizer, é gratuita a entrada. Bom, e agora vamos juntar à nossa conversa. Daqui a pouco voltamos a conversar com Virgílio Castelo, mas agora, como eu dizia, juntamos à conversa a Ana Pinto Coelho. É diretora e curadora do Festival Mental. Bem-vinda já agora, Ana. Olá, muito obrigada pelo convite.

Bom, parabéns, 10 anos, comemoram-se este ano, do Festival Mental. Diga-me, há balanços a fazer já ou não é dado a balanços?

Eu sou dada à continuidade mais do que a balanços. Muito bem. Mas é certo que este ano o festival em si, porque o que vamos conversar é mesmo sobre balanços. Não eu, mas os nossos convidados nas M Talks este ano. O que lhes é proposto é exatamente fazerem isso. Um balanço. Todos eles são convidados que já estiveram nos palcos do Festival Mental ao longo destes 10 anos. Cada um deles é inspirado com temas diferentes, porque o festival normalmente tem temas nas suas conversas. Este ano não há nenhum tema. Há todos os temas. Muito bem.

E o balanço será feito por quem sabe. Então vamos ao início. Para quem anda muito distraído e andou nestes 10 anos e nunca ouviu falar do Festival Mental, como é que resumiria a coisa?

O Festival Mental é um festival que celebra agora 10 anos, começou em 2017, que tem um único objetivo, é a promoção, a prevenção e o combate ao estigma e à iliteracia em saúde mental, absolutamente sempre através da cultura, sem outra outra plataforma, mais nenhuma mesmo.

E a cultura declina-se em várias linguagens, se quiser, não é? Exatamente. Em todas as linguagens que nós conseguirmos encaixar aqui. Sabes que não é muito fácil fazer isso. Mas já há 10 anos atrás era mais complicado. Também ganharam músculo e ganharam hábitos, ganharam rotinas também, não é?

Sim, nós, mas sobretudo as pessoas. E isso é que é o mais importante. É não haver esta coisa de separação. Porque isto também é importante. É que isto é um festival de promoção da saúde mental e não da doença mental. Há doença, há outras. Essa é uma bela distinção. E é muitíssimo importante.

Daí que nós queremos falar, e este sempre para toda a gente, todas nós temos uma saúde mental para defender, todas nós temos uma. E um dia, um dia, em que o festival pudesse chamar-se ao Festival da Saúde, aí eu acho que o trabalho... Sem a palavra mental, significa que está feito e quebrado o estigma de uma vez por todas. E aí provavelmente também deixa de existir a razão para fazer o festival.

Ah, não. Abranche-se. Abranche-se que é exatamente isto que nós queremos ao longo destes anos todos, é que as pessoas entendam que não há saúde sem saúde mental. Eu sei que é clichê dizer isto, mas é verdade. No fundo está a falar de prevenção mais do que de tratamento, não é? Ah, sim, tratamento. Promover a saúde é promover a prevenção do...

Exatamente. No descalabro, digamos assim. E acredito, agora um bocadinho fazendo um aponto com a doença, acho que se previne, tenho com a certeza, muito da doença mental se houver a prevenção e a literacia. Sim. A ciência também entra nesta equação no vosso festival?

A ciência entra através de um dos segmentos no M-Click, onde há mais pessoas que nós convidamos no M-Click, geralmente são ideias que nós recebemos muitas e ouvimos muitas, e quantas mais melhor, para depois fazer uma seleção do que é que pensamos que pode ser uma aposta pioneira, de alguma maneira, de pensar estas coisas todas.

seja a neuroplasticidade, seja os neurocientistas, seja o que nos vier e que seja muito bom e validado cientificamente, têm sempre palco no nosso festival. A pseudociência não é bem-vinda, imagino. A pseudociência não, até porque prolifera por aí. Eu sei. Eu diria que é um dos cancros, para usar esta palavra tão horrível, do nosso mundo atual, que é aquilo que é vendido como panaceias e quase como, às vezes, até com linguagem muito científica.

Usam o jargão científico para enganar as pessoas. Muito bem visto, é verdade. Usam e abusam. Sim. Como diria que, ou melhor ainda, para terem ideia, ou a Ana ter tido a ideia de criar este festival há 10 anos,

É porque sentia que aquilo que muita gente diz, que a doença mental, nas suas várias formas, eu diria especialmente depressão e distúrbios da ansiedade, andam por aí. Então, nos jovens, é uma coisa que é quase... Eu não queria usar esta palavra contra-natura. Eu sou de um tempo em que raramente ouvia falar de um jovem doente em termos de doença mental. Hoje é muito frequente.

Tem a ver com diagnosticar-se melhor e mais ou tem a ver com realmente o mundo está a dar cabo de nós? As duas coisas, eu acho. Acho que é um bocadinho as duas coisas, mas eu não sou ninguém, eu não sou um psiquiatra, não sou médica. Sim, mas está atenta à realidade, não é? Muito, isso estou. Acho que é um bocadinho as duas coisas. Antes não se falava de nada, agora talvez não isso é verdade, atribui-se agora a um nome a um diagnóstico, a alguma coisa. Há coisas que sempre existiram.

E em relação a esses temas em particular Nomeadamente a ansiedade, por exemplo, nos jovens Já se fala de ansiedade nem de depressão Quanto muito menos se falava de eco-ansiedade, por exemplo Que é um termo que neste momento está a afetar milhões de jovens E os mais velhos têm dificuldade em entender essa eco-ansiedade Ou seja, ansiedade ligada ao futuro problemático do clima E de tudo o que tem a ver com a nossa ecologia Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Que já não é presente, é já passado. E é uma questão porque nós não fomos educados. Eu não fui educada assim. Eu não fui olhar para o mundo a perceber o que é que há por trás de cada uma das coisas. Eu nunca fui... Quando disseram, quando nós tínhamos uma roda dos alimentos, só para dar um exemplo.

ensinarmos que a roda é assim e é assim que se come. Essa roda agora já foi modificada e ainda vai ser mais modificada porque continua errada. Mas nunca ninguém nos explicava, deves comer, vamos imaginar, carne ou peixe e tudo isso, mas de onde é que vem a carne que tu comes e o peixe? E como é que isso te chega ao prato?

E tantos outros assuntos Porquê é que tu estás triste? Porquê é que de repente não estás a se sentir tão bem Isto aconteceu-nos por exemplo Com miúdos pequenos no M.Jr De dizerem Num workshop, professores inclusivamente Que os acompanhavam Os miúdos estão a chegar Depois do workshop Disseram simplesmente Agora já percebi porque é que estava triste É que o meu avô morreu a semana passada E eu não sabia que podia estar triste Que podia chorar Não entendiam nada E eu não sabia que podia estar triste

Porque os próprios educadores e professores não estão abertos a isso. E parece que as emoções, já desde pequeninos, parece que é uma coisa que se deve esconder. Depois pode haver é o outro lado. Aí já falo os mais jovens e jovens adultos, sobretudo. Onde, e sobretudo, depois do pós-pandemia, em determinados setores, aqui é preciso alguma cautela. Porque isto não é igual no país inteiro. Não é igual se estamos a falar na cidade, se estamos a falar no interior. E isto é muito importante.

Mas que em alguns sítios Ou bolhas Quase que virou moda Ter um psicólogo E a terapia Qual é o teu psicólogo, qual é o meu Quase que se trocavam cromos Exatamente

E hoje é uma coisa muito interessante É que as pessoas muitas confundem estar triste com estar deprimido Que são coisas absolutamente diferentes Estar triste é o mais natural Tal como estar feliz ou contente em dado momento A depressão é uma coisa clínica Uma coisa sem emoções, outra coisa são doenças Ana Pinto Coelho, vamos agora fazer um exercício Eu vou dizer um dos títulos dos vários departamentos Se quiser, do festival E vai-me dizer duas ou três palavras M-Talks M-Talks

Uma conversa com pessoas com validação científica, que sabem também de arte e cultura e que sabem comunicar para o grande público, no palco de um festival que se chama Mental. M-Click. O palco dentro do festival Mental, onde podemos promover ideias que sejam completamente disruptivas em relação à saúde mental.

Muito bem. My Story, My Song. Uma partilha muitíssimo corajosa de cantores ou compositores conhecidos da nossa praça e que não tenham vergonha de se expor perante um público e estar abertos a perguntas e respostas enquanto explicam como a música é terapia. M Sénior.

M-SENIOR workshops, onde as pessoas mais velhas podem simplesmente estar bem num lugar seguro e onde se podem confrontar com as suas emoções enquanto fazem atividade física. Até porque idade não é prazo de validade, não é? Não é prazo de validade, projeto de Mafalda Sacchetti. Exatamente. M-Pledge, a jovem.

O M Play Jovem, peça de teatro, no caso deste ano, com os jovens da Unidade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Unidade da Blue Mais, onde fazem tudo do princípio ao fim, desde a criação da peça, aquilo que os inspira, até à cenografia, coreografia e apresentação. Muito bem. M Cinema Jovem.

M Cinema Jovem, programador Francisco Costa, depois do nosso grupo de selecionadores ter escolhido uma mostra internacional de curtas-metragens para este target e que é dedicada às escolas e está escutado desde janeiro com muita felicidade nossa. Esqueci-me de algum, o M Natura, talvez? Foi como esqueci, não foi? O M Natura ainda não se falou. Pois, é o M Natura.

A MNatura é o segmento para fora de portas, para fora de salas e de espaços interiores, porque é muito importante associar a natureza e a saúde mental, sobretudo nas grandes cidades onde este divórcio é cada vez maior. É o espaço ao ar livre do Festival Mental.

Ana Pinto Coelho, muito obrigado por ter vindo até ao destacável. É diretora e curadora do Festival Mental. Está a realizar-se na próxima semana a décima edição. Vai começar, na verdade, na terça-feira anterior. Ou seja, o festival é de 5ª, 14, até 17 de maio, domingo. Mas na terça-feira anterior, a 12, já vai haver um warm-up.

no espaço Atmosfera M e também Circo na Rua. Portanto, vão descobrir tudo ao site Festival Mental, que também vai acontecer no Cinema São Jorge e na Quinta das Conchas. Ana Pinto Coelho, quase me apetecia terminar, perguntando como se está a sentir.

Estou-me a sentir muito bem, muito obrigada. E a resposta é para todos. Pense, fale, saiba, reaja. Com isto, a nossa saúde mental é mantida todos os dias. Muito obrigado e bom fim de semana. Daqui a pouco, depois das notícias, voltamos a conversar com o Virgílio Castelo. Agora em direção às notícias. Christopher Cross, vamos lembrar de 1980, já há muitos anos. Foi o primeiro single dele e do primeiro álbum, Ride Like the Wind.

Estivemos aqui a ouvir os Pomplemousse. Parece uma banda francesa, mas não é. São americanos, mas fizeram este álbum completamente na onda, como eles chamam, French bossa indie pop. Não interessa. Angélique. O que é mais interessante é que raramente os anglo-saxónicos conseguem falar francês sem aquele sotake. E eles aqui conseguiram enganar, mas do que era uma banda francesa, não é. Vale a pena irem descobrir os Pomplemousse.

Estamos aqui a conversar com Virgílio Castelo hoje, não só porque ele está nas tábuas do Trindade a fazer de Severo, professor, diretor da escola do Clube dos Poetas Mortos, e também tem um livro, pouca gente sabe que tu escreves, sabes?

Descobri isto ao falar disto com amigos Aí Virgílio também escreve Sim, é já o quarto livro E até era poeta Consumo Obrigatório é o novo livro São 30 e muitos contos Baseados Baseados em factos verídicos Se quiser Da noite de Lisboa Um pouco mais sobre ainda isto Nestes anos todos que começam em 66 E vão até ao início do século XXI 2002 no Lux É o último conto Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Tu viste a noite evoluir muito Sim, sim Qual foi a melhor década? Eu acho que a melhor década Para o meu gosto É a década E é a noite de Lisboa É a década que começa a meio dos anos 80 Eu não sou muito fã Fala-se em duas movidas Da noite de Lisboa Há uma primeira movida Que é a do bairro Alto Que é a de 82 mais ou menos Fágil Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Eu não sou nada fã dessa movida Ah espera lá, porque és uma voz dissonante Completamente Acho que era uma soloíse Acho que as pessoas que hoje em dia Se lembram da noite Do bairro alto dessa época Têm uma noção da noite Que eu não tenho Uma noção da noite muito chata Muito aborrecida Muito intelectual Entra a gente

Para eu que estava à distância, eu sou do Porto E via essas noites incensadas Nas páginas de algumas revistas e jornais E já na altura me soava Não era a Saloí Isto é que se passa em Londres De vertido para a Martins portuguesa Mas não tem muito origem

Eu acho que não E sobretudo no meu caso Que sou um sensual A movida do bairro alto Tinha muito pouco sexo Ou seja, o frágil era uma coisa Muito intelectual, muito chata É que as pessoas dançam muito sérias Porque sorrisas um patego Exatamente

Coisas desse tipo Depois chegavas e estavas a ouvir As conversas eram sobre a última pintura A última exposição de pintura no Soho Em Nova Iorque Ou então sobre o último artigo de uma revista qualquer Alemã Para mim era uma amassada tremenda Eu acho que a grande movida de Lisboa É a partir da metade dos anos 80 Quando o Pedro Luz começa a fazer as boates da 24 de julho Ou seja, a grande movida Da noite de Lisboa Estás a falar de Kreml O Platô começa em 86 Sim

O Platô era atrás do Kremlin. Era, era. O Kremlin é posterior e é dos Irmãos Rocha. O Pedro Luz faz, com mais um sócio que eu não lembro agora o nome, faz o Platô em 86. Não tenho bem a certeza. Por aí. E o Platô é o Alcantara Mar, é a capital.

Ou seja, inventa a 24 de julho Exatamente Aliás, que é um dos teus contos E eu, para o meu gosto da noite A 24 de julho É de facto a grande movida Que tem uma coisa nova Que tem uma coisa nova Que há uns amigos que leram o livro e gostaram muito E que falam de qualquer coisa de sociológico Nos contos E esse lado sociológico É a entrada na noite Das jovens mulheres da margem sul Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Ou seja, que não havia A noite de Lisboa O Rio tornava-se muito distante Sim, mas de facto Como tu vês pela música O Lupin proletariado Portanto Vem da Margem Sul Portanto, o HF Mais tarde a UESA Tudo isso é Margem Sul

E é essa dinâmica da música mais quente, digamos assim, que arrasta as mulheres, as jovens mulheres da margem sul, para a noite de Lisboa que não via.

E muda tudo Porque o comportamento sexual Dessas mulheres Não tem nada a ver com o fastio Que era Uma certa noite Tu aqui tens uma muito boa Que é os nomes das mulheres que te fastiavam As chechas As cucas, as pipas, as titas

Exatamente, exatamente Isso é o Adlib, isso é o Stones Isso é antes do 25 de Abril Porque depois do 25 de Abril A coisa muda E passam a ser Vanessas Passam a ter outros nomes desses E mais tarde Jéssicas Exatamente

Mas há de facto, para mim Para aquilo que a noite tem De complemento sexual E lúdica Essa segunda metade dos anos 80 É quando a noite de Lisboa Para mim se transforma no meu caso É realmente muito agradável E depois disso? Depois disso eu também comecei a crescer e envelhecer Era isso que eu ia dizer O que é que o teu envelhecimento Por exemplo, hoje sais à noite O que é que o teu envelhecer

Não, não, não, não saio desde a altura do luxo Deixei de sair dessa hora Ou seja, há mais de 20 anos Sim, sim, sim Porque estabilizaste na tua vida afetiva Também Porque a noite se tornou uma chatice Não, não, não se tornou uma chatice Mas não faz sentido Não faz sentido porque, como disse há bocado Para mim a noite é a aventura E se tu já estás bem servido Não faz grande sentido para mim Ou seja, e depois pronto Há uma coisa física Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Quer dizer, eu fiz diretas até aos 45 anos Portanto, que é uma loucura Eu era... Ias trabalhar direto Ias trabalhar com diretas feitas É que não é só direta, direta e álcool Exatamente, e conseguia fazer e aguentei até aos 45 Mas a partir de certa altura o físico não aguenta E até muito tarde aguentei eu, no fundo Sim Mas depois disso Tornou-se irrelevante ser à noite Também por outra razão Obrigado

É porque na minha geração Aliás, isso está no livro Os anos 60, os anos 70 E os anos 80 até Tem música de que eu gosto E que me fazia vibrar A partir dos anos 90 A música torna-se uma massada Terrível Com os rapes Com os reggae Ou seja, todas as músicas Em que a melodia deixa de existir Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

E fica tudo reduzido ao ritmo E ficas nisto E eu não vibro nada Não conseguia dançar E eu gostava desse lado físico De dançar E eu ainda hoje, quando ouço essas músicas Vibro imenso E também, quando essa música Se tornou muito mais monocórdica A noite também deixou de me interessar O facto de seres uma figura comissiva Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic Nic

Tu fazes teatro e televisão há muitos anos Especialmente a televisão é o que torna as pessoas massivamente conhecidas Como é que isso traduzia na noite? Traduzia-se de maneiras... Chateava-te, não saberes porque as pessoas se aproximavam de ti? Não, há duas fases Há duas fases Há uma fase até 94

Porque em 94 eu fiz uma novela chamada Roseira Brava. Sim, a famosa. Foi uma coisa que teve um êxito muito grande. Nós já vamos falar de novelas. Até 94 eu era um homem que...

saía muito à noite, e como os papéis que eu fazia na televisão, no teatro, no cinema, eram sempre papéis de homem de mulheres, digamos assim. Também por causa da tua cara. Foi o que me calhou em sorte. Tiveste sorte, exatamente. Portanto, o que é que acontecia? Havia uma imagem que os homens da noite olhavam para mim e desgalha. Claro, competição desleal.

E depois, de 94, passou-se uma coisa estranhíssima. Eu fiz essa novela, A Roseira Brava, e eu era um chulo, eu era um marginal, eu era um bandido, era um tipo que tratava mal as mulheres, tratava mal a Patrícia Tavares, tratava mal a Simone de Oliveira, portanto era um tipo horrível. E os homens que até aí, na noite, me punham de parte, passaram a achar-me fantástico.

Eu fiquei... Meu Deus, é isto o país real. E é isto o que as novelas fazem. É isto o país real, ou seja, este lado machista, este lado de domínio do homem... Passaste a ser um deles. Passei a ser um gajo porreiro porque era...

Para tratar não mal as mulheres E isso A noite sempre teve E depois teve outro lado O facto de ser conhecido Punha-me um problema Que era, eu sempre gostei de dançar sozinho Eu chegava aos sítios Gostava da música dançava Não precisava ter ninguém Mas estava sempre rodeado

Não, não, não era isso. Às vezes acontecia. Não, mas não era isso. A ideia de um homem neste país, numa boata à noite, dançar sozinho, era uma aberração. Ah, já estou a perceber. Por que é que este gajo está aqui a dançar sozinho? Está armado em bom? Não, não era nada possível dançar dançada.

Se não tinha namorado ou amigo Ou companheira que estivesse ali na altura E era mesmo a dançar E isso às vezes apareciam artigos Nas revistas Aquelas desbisbolhadas Ah, fulano tal estava a dançar sozinho O que é que se passa com ele? Não sei o que, será que não sei o que? Aquelas coisas

Olha, Amália Rodrigues, sabes lá, é a tua segunda escolha Eu acho que nem precisa explicar Porque pedir-te para explicar Deixa-me falar Muito rapidamente Eu acho que o que se diz neste poema Acho que é do Silva Tavares este poema É uma maravilha do que se diz Sobre aquilo que nós não somos e não sabemos A música acho que é do Frederico Valério É o Frederico Valério É os fatos do Valério Mas a letra maravilhosa que é A condição com que se nasce, ninguém sabe ao que nasce Exatamente

Vamos ouvi-la, escolha de Virgílio Castelo, já voltamos a conversar. Antes ainda vamos lembrar já daqui a pouco os 60 anos do Pet Sounds dos Beach Boys. Estávamos a ouvir a Amália, sabe-se lá, uma escolha do nosso convidado, deste de Chacável, o Virgílio Castelo. Mas agora vamos falar de outros músicos dos Beach Boys e vamos falar com o João Goberna, que está nos estúdios do Porto. João, bem-vindo ao De Chacável.

Ora viva, Aurélio. É um prazer. É sim, senhor. Olha, estás aqui porque a partir da próxima segunda-feira vais falar todos os dias dos 60 anos, do álbum, do 11º álbum dos Beach Boys, o Pet Sounds, que faz de hoje a 8 60 anos. Dito assim logo à cabeça, um dos melhores álbuns de sempre para ti?

Para mim e julgo para toda a gente, porque mesmo com subidas e descidas nas listas dos melhores, o Pet Sounds está lá sempre. Ou seja, às vezes há mais divergências em relação a, por exemplo, qual é o grande disco dos Beatles. Há quem me diga que é o Sgt. Peppers, há quem diga que é o Revolver, há quem diga que é o Rubber Soul. Em relação aos Beach Boys não há grandes dúvidas.

Porque antes do Pet Sounds, portanto, entre 61 e 65, eles fizeram nada mais, nada menos do que 10 alunos. Mas aquilo era um bocadinho mais do mesmo. Era a cançãozinha do surf, da praia, do namoro levezinho, do imenso sol e tal e o sonho californiano.

E depois no Pet Sound dá a ideia que, muito por mérito do Brian Wilson, eles acordaram para a vida. Porque já, embora haja canções sobre amor, mesmo a esse nível, já há as dúvidas e os percalços das relações. Ou seja, dá a ideia que ficaram um bocadinho mais adultos. Era isso que eu ia dizer. É crescimento, não é, pessoal?

Tal e qual, temático, pessoal, sonoro, convirá lembrar que numa altura em que isso não era muito habitual, eles levaram cinco meses a fazer ensaios e registros prévios, e registros prévios que não devem ter sido nada doces porque os músicos...

nomeadamente aqueles que foram contratados, os músicos de sessão, queixavam-se da obsessão do Brian Wilson, que os punha a tocar a mesma nota durante horas. E andava o Brian Wilson com o microfone de captação pelo estúdio para ver onde é que ficava melhor. Acho que mais tarde os Stylident também gozavam dessa fama, de serem quase torturadores dos músicos de estúdio.

Pois, e esses eram dois, porque tanto o Donald Fagan como o Walter Becker eram obsessivos. No caso do Brian Wilson, o homem tomou conta de tudo, ele compõe 12 das 13 melodias e só não compõe o Sloop John B, que é um tradicional adaptado. Sim, sim. Foi ele que explicou ao letrista Tony Escher como é que ele devia fazer as letras e o que é que devia dizer.

E produziu, não é? Produziu, foi técnico de som, fez os arranjos todos, desenhou as harmonias vocais, distribuiu as vozes principais pelas diferentes canções. E não se pense que foi generosidade, não. Foi porque ele achava que a voz de alguém, do Dennis Wilson, o Dennis Wilson nem é bom exemplo, mas do Carl Wilson, do Al Jardim, do Mike Love, ficavam melhor aqui ou ali, porque senão teria cantado ele, obviamente, se convencesse que era melhor.

Tocou o piano, tocou o órgão, tocou baixo, bateu palmas, chamou a sua cônjuge da época para fazer coros e ainda coordenou a participação de dois cães, o Banana e o Louis. Explica lá isso.

Não, não, há de facto latidos entre os efeitos sonoros do Pet Sound. Que não são efeitos sonoros, são mesmo cães, não é? Não, não, são mesmo cães trabalhados pelo Brian Wilson. Coitados dos cães nunca mais foram gente. O que tu estás a dizer... Os cães podem ser gente. Sim, mas o que tu estás a dizer basicamente é que este é um álbum do Brian Wilson, para todos os efeitos, não é?

Com uma curiosidade, Aurélia, que é o primeiro single efetivo do Pet Sounds foi o Caroline No, que por acaso é o tema que fecha o álbum, e foi lançado em nome do Brian Wilson a solo. O que deu logo a 327 especulações de que ele ia sair do grupo, coisa que para bem dos outros nunca aconteceu. E depois, pronto, alguém lhe deve ter chamado a atenção, que era melhor...

aproveitar o balanço detrás dos Beach Boys, que até essa altura tinham feito sobretudo aquelas cantiguinhas Trollero, e ele acedeu, e portanto o Pet Sounds aparece como um trabalho coletivo, sendo que eu diria que o gênio está todo concentrado no Brian Wilson. Vale a pena também tentar perceber o ecossistema, se quiseres, musical, que rodeava os Beach Boys. Por um lado a geografia, como tu falaste.

Por outro, o que é que se ouvia muito na altura? Beatles e o Wall of Sound do Phil Spector. Dirias que tudo isto motivou o Brian Wilson e o resto dos Beach Boys para se excederem no melhor sentido, é isso? Neste Pet Sound? Motivou de uma forma confessada. O próprio Brian Wilson referiu o Wall of Sound do Phil Spector, que é um sistema de produção...

que ficou para a história, se calhar mais do que o protagonista que o inventou, que conseguiu borrar a pintura em várias ocasiões. Sim, e da pior maneira mesmo. É ver a história dele.

Não há muito tempo, eu tive que pegar na história dos Ramones e descobri, por exemplo, que eles só tinham aceito fazer a versão do Baby I Love You, que era um original do Spectre e das Ronettes, só fizeram isso sob a ameaça de uma pistola. Sim, acho que o senhor era amante de armas. É, é. Para não dizer mais. Pois assim. No estúdio.

Em relação ao resto, é muito engraçado, porque era uma espécie de ping-pong entre Beatles e Beach Boys, porque o Brian Wilson refere aquilo que os Beatles fizeram no Rubber Soul, e mais tarde o Paul McCartney disse que os Beatles nunca teriam feito o Sgt. Peppers.

sem terem ouvido, digerido e aprendido com o pet sounds. Portanto, a invasão britânica dos Estados Unidos da América, porque não eram só os Beatles, eram os Stones, os Kings, os Who e por aí fora, teve essa coisa boa, é que o Brian Wilson era um rapaz atento.

Será que eles ficaram desiludidos? Ou seja, este álbum, Pet Sounds, não foi propriamente um flop. Bem, pelo contrário, foi disco de platina, salvo erro. Chegou a número 2 na Grã-Bretanha e a número 10 no top de álbuns americano, da Billboard. Mas também não foi aquele gestor que provavelmente a gente imagina que eles queriam. Ou estou enganado? Sobretudo inicialmente, porque inclusivamente... Enfim, é uma história que se vai repetindo ao longo dos anos e dos artistas e dos projetos.

Os executivos da Capital não queriam lançar o disco, pura e simplesmente, porque queriam que os Beach Boys continuassem naquela cena. Isso. Ora bem, o disco teve uma recepção inicial bastante frouxa.

E, prova de que os tempos mudaram muito, quem de alguma maneira resgata o disco até do ponto de vista comercial é a crítica especializada que começa a dizer que aquilo é a nova maravilha e de repente o disco chegou aos 2 milhões de vendas, muito embora não tenha chegado àquilo que o Brian Wilson queria.

E isso acaba por ter uma consequência É que o disco que ele queria fazer a seguir Que era ainda mais sofisticado Ainda mais trabalhado Ainda mais elegante, se quiseres O Smile O homem teve mais um colapso nervoso E nunca acabou o disco Ou seja, há partes do Smile Que foram aproveitadas para outras coisas

Mas aquele que seria o desenvolvimento natural do Petsounds nunca viu a luz do dia. Aliás, a saúde mental sempre perseguiu de uma maneira insidiosa o Brian Wilson.

Pois, se tivermos em conta que contra toda... Bem, hoje não sei como é que ele se governava, mas ele não fazia nessa altura, na altura do Pet Sounds, não fazia espetáculos dos Beatles Boys, porque tinha tido um, digamos, um ataque de nervos, para ser simpático, num aeroporto, e tinha deixado de fazer parte da banda ao vivo, ou seja, ficava só, quer dizer, só, este só é muito relativo. Com a composição, com o trabalho de estúdio, com os arranjos, com a produção,

Ficava naquilo que hoje chamaria Back office, mas um back office Muito criativo Exatamente, exatamente isso Olha, vale a pena lembrar que por exemplo Muitos anos mais tarde, cerca de 20 e poucos Anos mais tarde, quando foi lançado O infame para muitos Para outros, o delicioso Cão Camão, ele nem sequer esteve Nas gravações, o Brian Wilson

Pois, o Coco Mou é um episódio, enfim. E temos que terminar, mas douta palavra para dizer o que pensas do Coco Mou.

Não sou particularmente fã, mas confesso-te que aquilo que mais me custa é ver em 2026 agarrar na agenda dos concertos dos Estados Unidos da América e ainda ver lá uma entidade qualquer chamada Beach Boys. Quem anda a ganhar dinheiro com isso são o Mike Love, que por acaso é primo dos irmãos Wilson, que já morreram todos, e o Al Jardine, que era amigo.

Mas aquilo já não tem nada a ver com o original. Já não é Beach Boys. Não, não, não. É outra coisa. É o falhanço total. João Goberno, muito obrigado por teres vindo até ao Destacável desde os nossos estúdios do Monte da Virgem. A partir de segunda-feira e até sexta, de manhã e à tarde na Antena 1, pequenos especiais sobre o Pet Sounds dos Beach Boys, que faz 60 anos no próximo sábado. E nesse fim de semana vai haver um compacto também com o João Goberno, obviamente.

que reúne todos os pequenos especiais diários, mas acrescenta mais alguma coisa. João, muito obrigado. Um grande abraço e bom dia. Um grande abraço. E vamos ouvir os Beach Boys, obviamente, com Wouldn't It Be Nice. É um tema que, obviamente, também foi single, mas é um dos temas mais conhecidos do Pet Sounds.

Mais um tema de 1966. Porquê que eu carrego no 66? Foi assim que abrimos o programa também, com um tema do Donovan de 66. Este é dos Beach Boys, o Adantidine Ice, do famosíssimo, faz agora 60 anos, na próxima semana, Pet Sounds, porque o primeiro conto do novo livro de Virgílio Castelo, o Consumo Obrigatório, também se passa em 1900.

E 66. Mas agora vamos deixar quer o Clube dos Poetas Mortos onde estás, vamos deixar este consumo obrigatório de lado, porque só temos mais 10 minutos. Eu queria falar de um papel que tu também tiveste numa certa revolução no audiovisual em Portugal. Tu, por além de teres apresentado programas, fizeste tudo, só para os nossos ouvintes mais estreitos, mais de 70 peças de teatro, mais de 30 filmes.

Não sei quantas novelas, programas de humor ou não, apresentador Enfim, you name it, como se diz em inglês Mas há um momento em que tu estás presente com mais pessoas Que marcam a diferença entre as novelas portuguesas Pouca gente via, viam alguns E de repente são mais vistas que as brasileiras Esse momento é quando? Esse momento é em 1999

Isso deve-se ao José Eduardo Menís, maioritariamente, porque as novelas portuguesas já existiam, o Nicolau tinha as sonhado, o Nicolau Brainer tinha sonhado de novelas, o António Parente tinha as produzido, e eram as novelas da RTP, mas as novelas da RTP... Estamos a falar da Vila Faia, do Origens. Não, Vila Faia e Origens, ainda entre isso, é da Edipi.

A falar dos cinzas. No tempo da NPP. Exatamente. Mas essas novelas não eram muito vistas. Porquê? Porque eram ainda muito construídas, muito em função do sistema, digamos, de produção tanto de teatro como de cinema em Portugal. Eram um bocadinho didáticas, no sentido em que mora lá fazer novelas para ensinar o povo. Entre aspas, não é?

Falar de temas fraturantes Exatamente, fraturantes ainda não era Vamos educar as pessoas falando de coisas De coisas politicamente relevantes Ora bem, isso não funcionou Do ponto de vista da popularidade E o que acontece é que com a inauguração da TVI Quando o José Eduardo Nis vai para a TVI Decide fazer novelas portuguesas E faz com a mesma produtora Que é a produtora do Nicola Branner e do António Parente Mais tarde a origem é a plural Exatamente, isso é antes de todos

Portanto ele resolve fazer com essa estrutura de produção Fazer novelas para a TVI Mas já com uma Formatadas de outra maneira Estás a dizer é que o José Eduardo Moniz É o formatador dos conteúdos É o formatador do êxito Eu acho que é E aí é que eu colaborei Porque entretanto o Nicolau Breiner Tinha deixado de ser diretor-geral da NBP E convidaram-me a mim Ele e o António Parente Entregou-te o Bebé O Bebé que já não era Bebé

E portanto, digamos, essas primeiras novelas Que correspondem a essa Rutura com o que se passava Com a RTP, são as novelas que eu dirigi E qual é o desafio hoje? Porque hoje a televisão Generalista está sob ataques Sim, mas hoje, deixa-me só fazer um

bocadinho de história para chegar ao hoje. As novelas da TVI com esta filosofia do José Eduardo Menis e com a produção do António Parente e neste caso comigo a dirigir conseguem esta coisa maravilhosa, não por mérito meu mas fantástica, que é ultrapassar as brasileiras.

E quando as novelas portuguesas ultrapassam as brasileiras, muda o paradigma. E, portanto, começam-se a gostar das novelas portuguesas. Entretanto, eu saí da NBP, porque eu não gosto de ficar muito tempo nestes lugares, porque eu considero missões em África. Ou seja, é uma comissão de serviço de Pachai. E saí, andei a fazer outras coisas. E o que é que acontece? A SIC, uns anos depois...

Tinha só as novelas brasileiras Começa a perceber que as novelas brasileiras Já não funcionam tão bem E chamam-me para começar a orientar As novelas portuguesas E também lá estiveste uns anos Eu estive aí três anos Mais uma comissão de serviço A fazer as novelas portuguesas da SIC E depois saí da SIC E vim para a RTP

Para fazer uma outra retura Que é quando se começam a fazer as séries Fomos atacados por toda a gente Aquela direcção que fazia parte Estamos a falar do tempo do Nuno Artur Silva O Gonçalo Reis E que de facto foi uma revolução Fomos apedrejados publicamente Porque não queremos fazer novelas E querer fazer séries No fundo ficções alternativas Mas está aí Agora voltando à atualidade O que é que falta? Dinheiro

É muito simples Tens uma boa resposta Porquê que nos anos 90 havia tanto dinheiro e agora não há dinheiro para nada? Eu estou sempre a cruzar-me com pessoas da minha idade Nos anos 90 é que é O veículo da informação dividiu-se Hoje em dia tens desde o streaming Às várias plataformas onde tu podes mostrar produto Havia, nos anos 90, havia...

Uma televisão de duas televisões Era diferente A questão hoje em dia Há um outro problema Desde o início que nós temos Um problema na televisão em Portugal Sempre houve um canal a mais Nunca houve dinheiro na publicidade Para haver três canais

Por isso é que um deles tem que ser financiado também. Exatamente, mas mesmo que os estudos feitos, na altura, dava para ter um canal público e um privado. Nunca houve mercado para dois privados. É por isso que nós temos, desde 1992, exatamente, desde essa altura que isto não funciona.

Agora, o problema das novelas O problema da televisão, o problema do cinema É igual ao problema do calçado Ao problema do vinho, do meu ponto de vista Ao problema da cortiça Ou seja, é preciso pensar Worldwide Não há hipótese E eles já estão a pensar nisso As novelas começam a vender-se cada vez mais Para fora de Portugal Hoje em dia tens de pensar no produto E no preço, porque as turcas estão a invadir Tudo isso Obrigado

Porque são baratas, não é? Exatamente, mas tens que pensar. São baratas e são boas. Porque o investimento é muito grande. Ou seja, aqui a questão é que as novelas têm que ser pensadas e têm que haver meios financeiros. Para públicos globais. Para públicos globais. Pode ser China. Nós somos um país muito pequeno que tem que pensar, como se pensou no tempo dos descobrimentos, tem que ir para fora. O mercado interno não chega. E se fosses Ministro da Cultura?

Eu já percebi que tens ideias muito claras sobre as coisas Sobre algumas coisas O financiamento, por exemplo, do teatro Eu acho que está tudo errado Olá, então Está tudo errado Eu acho que há uma falta de coragem política Enorme há 50 anos em Portugal Porque quis-se fazer uma coisa Entendeu-se que democratizar a produção Era dar pouco dinheiro a toda a gente

Que é o que tu achas que acontece agora? Há muita gente à procura de um bolo pequeno. Há muita gente a ter pouco dinheiro. Preferias inverter, é? Completamente. Eu acho que tinha que haver um momento de ruptura. E achas que algum ministro da cultura sobreviveria a essa revolução? Claro que não, mas por isso é que eles não fazem.

Obviamente, o que eu acho que seria necessário, tanto no teatro como no cinema, a televisão é diferente porque não é arte, é uma indústria com características artísticas. Agora, o cinema e o teatro, do meu ponto de vista, deveria pegar-se no bolo que existe e reduzi-lo drasticamente em termos de intervenientes. Dar muito mais a pouca? Dar muito mais a pouca gente. Do que dar muito pouco a muita gente? Exatamente. No fundo, vou ainda ser mais polémico.

Tu tens neste momento, não sei quanto é, cada vez que vêm as notícias sobre os subsídios do teatro, todos os anos, aumenta o número de pessoas ou de companhias ou de estruturas a pedir subsídios. Acho que a última vez que eu ouvi falar havia 250 companhias. Não há 250 atores bons em Portugal.

quanto mais 250 companhias. Não há. Isto é uma falácia total. Portanto, o que deveria acontecer, do meu ponto de vista, era coragem política para dizer, meus senhores, esses 250 companhias juntem-se, uns com os outros, com conversa, vejam que projetos é que podem fazer em conjunto. Isto dá para 20, dá para 30. E achas que são projetos, esses tais 200 e tal, que estão minimamente interessados no que é que o público, o que lhes paga...

Não, não, porque essa que é a questão Porque a questão aqui é O público lhes paga através do imposto Mas eu ainda vou ser mais polémico Há uma coisa que se passou Nos três anos que eu estive na RTP E pude perceber como é que é a relação Dos produtores e dos realizadores de cinema e de ficção Com o Estado Eles não consideram a RTP Uma gestação de televisão Consideram um banco

É uma coisa completamente diferente. Para virem a equipar dinheiro para produzir. Ou seja, virem buscar o dinheiro e depois fazem o que querem. Isto não existe em lado nenhum. Não existe em lado nenhum. E a RTP não pode ter uma palavra a dizer? Não, não tinha. No meu tempo eu quis ter e se trucidaram-me. Quando eu dizia, esse elenco está errado, ou esta cena está mal feita. Mas porquê? Por oridos artísticos?

Não é por ir desistir. Em Portugal entende-se que pelo facto de uma televisão pública subsidiar um projeto, não pode interferir. Isso é um banco. Dá-lhe o dinheiro e acabou-se. Eu acho que... Se te convidassem para a Ministra da Cultura, aceitavas-te?

Desculpa, Leio, cortar-te as bases. É que estamos a terminar no nosso tempo. Aceitaria se fosse num universo hipotético em que é o que comprasse de validade. Ok? Durante seis meses. Mas o argumento de que, quando produzimos pensamento divergente, criação divergente, avant-garde para muita gente...

Isso é tudo necessário, mas a questão não é essa A questão é que tu tens, no caso do teatro Tens uma coisa extraordinária Há uma coisa que se chama o teatro da norma O teatro da norma é o teatro normal No sentido dos teatros nacionais Os conservatórios, os teatros clássicos O cânone E depois tens que ter, obviamente, o teatro de pesquisa O teatro de ensaio Para criticar isso tudo Já percebi, o teu problema é que...

As percentagens estão todas erradas. Ou seja, o teatro de pesquisa, se quiser. É maioritário. É o mainstream. Completamente. Ok. Está tudo errado. E depois tens uma coisa extraordinária, que é, no caso do cinema, que é a especificidade do cinema português. Eu lanço aqui o desafio, que é, digam-me lá, qual é o grande filme português dos últimos 50 anos.

Ok, fica aqui o desafio. Virgílio Castelo, foi um prazer ter-te aqui. Muito obrigado. Espero que não sejas apedrejado à porta. Virgílio Castelo, que está nas tábuas no palco do Trindade em Lisboa com o Clube dos Poetas Mortos, não só com ele, obviamente, mas também.

Tem um novo livro, Consumo Obrigatório, que eu aconselho vivamente. São muito bons contos. Muito obrigado. Sobre a noite, o escândalo e a tornura da autobiografia de toda uma geração, quase toda à noite, mas não só. E quanto a nós, porque tem a ver com esta sensação de liberdade que o Virgílio nos veio trazer aqui também, Michael McDonald, Sweet Freedom, é o tema que nos vai levar até muito próximo das notícias. Nós voltamos no próximo fim de semana para mais um Destacável.

Virgílio Castelo, Ana Pinto Coelho, João Gobern | Castnews Index — Castnews Index