Episódios de Foro de Teresina

A delação rejeitada, a pesquisa suspensa e a votação contra o aborto legal

18 de junho de 20261h3min
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No Foro de Teresina desta semana, Ana Clara Costa, Celso Rocha de Barros e João Batista Júnior comentam a segunda tentativa de delação de Daniel Vorcaro e as dúvidas sobre o patrimônio que o ex-banqueiro promete usar para ressarcir os prejuízos causados pela fraude. No segundo bloco, o trio discute a decisão de Kássio Nunes Marques de suspender a divulgação de uma pesquisa eleitoral da AtlasIntel, a queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e os impactos políticos da associação dele ao caso Master e a nova ofensiva tarifária de Donald Trump. No terceiro bloco, os apresentadores tratam da aprovação, pelo Senado, do projeto que derruba uma resolução do Conanda sobre o atendimento a vítimas de violência sexual em mais um capítulo da ofensiva conservadora para restringir, na prática, o acesso ao aborto legal.

Acesse a transcrição e os links citados nesse episódio: https://piaui.uol.com.br/web/ft116/  

Leia "A tigresa dos algoritmos", reportagem de João Batista Jr. e Alessandra Medina sobre a ascensão de Virginia Fonseca, a influenciadora que transformou sua vida em um império digital e hoje enfrenta questionamentos que vão das apostas on-line às investigações da Polícia Federal:  https://piaui.uol.com.br/revista/237/a-tigresa-dos-algoritmos-virginia-fonseca/ 

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Participantes neste episódio3
A

Ana Clara Costa

HostJornalista
C

Celso Rocha de Barros

Co-hostJornalista
J

João Batista Júnior

ConvidadoCorrespondente
Assuntos8
  • Suspensão de pesquisa eleitoral e queda de Flávio BolsonaroDecisão de Kássio Nunes Marques · Pesquisa AtlasIntel suspensa · Queda de Flávio Bolsonaro nas pesquisas · Impactos políticos do caso Master · Ofensiva tarifária de Donald Trump · Flávio Bolsonaro · Kássio Nunes Marques · AtlasIntel
  • Ciro Nogueira e o caso MasterSegunda tentativa de delação · Dúvidas sobre o patrimônio para ressarcimento · Ativos do banco bloqueados · Liquidação do Master nas Bahamas · BRB e perdas bilionárias · Daniel Vorcaro · Banco Master · FGC
  • Pesquisa eleitoralComparativo com pesquisa Atlas · Desgaste de Flávio Bolsonaro · Impacto do caso Master · Vantagem de Lula no primeiro e segundo turnos · Intervenção de Donald Trump e tarifário · Eduardo Bolsonaro e o Zelle vs Pix · Lula · Quest
  • Ofensiva conservadora contra o aborto legalAprovação no Senado de projeto que derruba resolução do Conanda · Restrição do acesso ao aborto legal na prática · Atendimento a vítimas de violência sexual · Cris Tonietto · Damares Alves · Davi Alcolumbre · Conanda
  • Debate sobre a autoridade do Conanda e o aborto legalFlexibilização da exigência de participação dos responsáveis · Dificuldade de acesso ao aborto legal para vítimas de estupro · Papel da CNBB e de bispos conservadores · Impacto das discussões na busca por ajuda médica · Conanda · CNBB
  • Ações de Kássio Nunes Marques no TSESuspensão da pesquisa Atlas Intel · Tirar relatoria da ministra Estela Aranha · Pedido do PL e da equipe jurídica de Flávio Bolsonaro · Relação com a equipe jurídica de Flávio Bolsonaro · Kássio Nunes Marques · TSE · PL
  • O caso Master e a negociação de precatóriosTransformação de investimentos arriscados em lastro para CDBs · Uso de dinheiro do FGC para especulação com precatórios · Suspeita de Master comprando precatório de empresa do Master · Valor de face de precatórios vs. valor de mercado · Precatórios · CDBs · Banco Master · FGC
  • Encontro do Grupo Voto com Flávio BolsonaroEncontro 'Brasil de Ideias Mulher Especial Eleição' · Baixo quórum e falta de convidadas de destaque · Agenda de reeleição das participantes · Flávio Bolsonaro · Grupo Voto
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Voz A:When you finally find your thing, you want the whole world to know about that thing. So you use a thing called Canva to make it an even bigger and better thing. Whether you want to create flyers for that thing, make presentations for that thing, or design merch for that thing, you can do anything. So people can see your thing, feel your thing, love your thing. The next thing you know, it's a thing. Canva, the thing that makes anything a thing.

Ana Clara Costa:Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Terezina, o podcast de política da Revista Piauí.

Celso Rocha de Barros:Por que é que o Banco Central colaborou tanto com a criação, com o crescimento do Master, até a liquidação?

Ana Clara Costa:Eu, Ana Clara Costa, substituo temporariamente o microfone de Fernando Barros e Silva para conversar com os meus amigos Celso Rocha de Barros, aqui no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Oi, Celso!

Celso Rocha de Barros:Oi, Ana! Oi, João! Oi, todo mundo! Eu deixaria as pesquisas livres e o povo, com a sua soberania, decide quais são os institutos que são sérios e os que não são sérios.

Ana Clara Costa:E com João Batista Júnior, que segue em Lisboa. João Batista, que impactou os nossos ouvintes na semana passada com a sua apuração sobre o Gilmar Paluza. Oi, João, bem-vindo de novo.

João Batista Júnior:Oi, Ana, oi, Celso, oi, ouvintes.

Ana Clara Costa:Descobri que a sua filha de 14 anos está lá no hospital sozinha fazendo um aborto, grávida de 5 meses. Nós tínhamos que consertar para garantir o poder familiar. Vamos aos assuntos da semana. Daniel Porcaro, um homem que segue determinado a provar que ainda tenta comandar a própria ruína. E por isso vamos abrir o programa falando dele, do Banco Master. O ex-banqueiro e agora inquilino da Polícia Federal fala em ressarcir os lesados pelos seus crimes em algo na casa de R$60 bilhões. Mas ninguém sabe se esse valor existe ou se é mais uma das fábulas que ele criou. Parte viria de ativos do banco, como participações em fundos e precatórios. Que estão longe de ser dinheiro líquido. O problema é que esse patrimônio já tá bloqueado pra ressarcir o estrago que o banco fez no FGC e em fundos de pensão de estados e municípios. Ou seja, Forcaro quer negociar sua delação usando recursos que já não lhe pertencem mais. Enquanto isso, as investigações caminham sem depender dele. A Justiça das Bahamas Reconheceu a liquidação do master. O BRB busca uma saída para as perdas bilionárias. E no fim, a dúvida é simples: Forcaro ainda tem algo concreto a oferecer ou apenas versões suavizadas dos fatos, em razão de sua intensa amizade com chefes do Centrão? A segunda proposta de delação do ex-banqueiro está por um fio, porque ele segue uma cartilha reincidente entre delatores: fala mais do que confessa e entrega menos do que promete. No segundo bloco, a eleição já está em curso, ao menos dentro do TSE. Pra quem pensava que o ministro Cássio Nunes Marques chegaria de mansinho e levaria algum tempo até se sentir confortável o suficiente pra tomar partido dentro da corte, a realidade se impôs rápido. Nunes Marques fez um malabarismo normativo pra tomar pra si um caso que não lhe dizia respeito. E qual é o caso? A divulgação de uma pesquisa eleitoral que mostraria Flávio Bolsonaro em declínio. Nunes Marques decidiu que o questionário feito pela empresa Atlas Intel, em parceria com a Bloomberg, estaria viciado. A decisão de Nunes Marques, que nós explicaremos no decorrer do bloco, estremece logo de cara a relação do tribunal com o STF. O ministro, contudo, não vetou a pesquisa Quest, que também foi a campo apurar o impacto do filme Dark Horse na candidatura bolsonarista além dos efeitos das novas tarifas de Donald Trump sobre o Brasil. Os números não deixam dúvidas: Flávio aparece em queda tanto no primeiro quanto no segundo turnos. A proximidade de Flávio com o "war caro" e a nova artilharia de Trump contra o Brasil pesaram na percepção do eleitor, em especial daqueles que têm a intenção de voto mais volátil. E a gente fecha esse episódio do Foro com mais um capítulo da ofensiva conservadora contra o aborto legal. Na semana passada, o Senado aprovou em poucos minutos um projeto que derruba uma resolução do CONANDA, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, sobre atendimento a vítimas de violência sexual. A deputada federal Cris Tonietto e a senadora Damares Alves, com aval de Davi Alcolumbre, removeu um protocolo que ajudava a garantir o acesso ao que é um direito de mulheres e meninas vítimas de estupro. O método das parlamentares não foi revogar a lei que garante o aborto legal, mas dificultar a sua aplicação na prática. Isso já vem acontecendo de forma progressiva nos hospitais de referência desde o governo Bolsonaro e continua neste governo, em especial graças ao apoio de governadores e prefeitos ligados ao bolsonarismo e à pauta conservadora, como é o caso de São Paulo, em que o Estado e a prefeitura desativaram o serviço oferecido a mulheres e meninas nos principais hospitais. Esse desfecho no Senado mostra que, apesar de haver amparo legal, mulheres e meninas têm sofrido não apenas a violação sexual, mas também a violação dos seus direitos dentro do Congresso Nacional. Tudo isso com patrocínio da bancada da Bíblia, que une não só as agremiações evangélicas, mas também a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, um lobby poderoso da Igreja Católica, que tem sido usado cada vez mais para referendar a atuação de grupos ultraconservadores no Legislativo e no STF. É isso, vem com a gente. A segunda proposta de delação de Daniel Vorkar está por um fio. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República avaliam que o ex-banqueiro fala muito, mas ainda entrega muito pouco. Faltam fatos novos, provas, confissão e caminho do dinheiro. Enquanto isso, o caso Master segue avançando por outras frentes. Os ativos no exterior estão sendo avaliados, os prejuízos bilionários ainda estão sendo contabilizados, o BRB tenta se erguer, a Rio Previdência está agonizando, E os outros fundos de previdência de estados e municípios ainda esperam a promessa de ressarcimento dos bilhões que Daniel Vorcaro diz possuir. João, você está em Lisboa, mas sei que está falando com todo mundo aí de Lisboa e do Brasil sobre esse assunto. E também sei que você tem um pouco o caminho que a defesa do Vorcaro está traçando para tentar reunir esses bilhões que ele quer negociar na delação. Queria que você começasse contando para a gente como que está isso.

João Batista Júnior:Olha, antes de falar dos bilhões do Vaccaro que estão à mesa para tentar homologar, a gente tem que voltar algumas casas. Eu vou fazer aqui uma timeline dos últimos tempos dele na prisão. A homologação tem um problema de natureza principiológica. Todos os advogados do Vaccaro são unânimes em falar que ele não reconhece ter cometido crime.

Ana Clara Costa:Pausa para o riso do Celso.

João Batista Júnior:Tem um momento humor involuntário, é inegável. Muito bem. Para o Daniel Vaccaro, a situação em que ele se encontra é resultado de uma perseguição dos grandes bancos e também por suas ligações políticas. Ele não se vê como um criminoso e ponto final. Para ele, o maior culpado de sua derrocada é o banqueiro André Esteves, que segundo ele nos últimos meses conseguiu convencer o mercado e a imprensa de que ele queria prejudicar o sistema de proteção conhecido por FGC. Aí ele ignora completamente o prejuízo que ele causou naqueles que investiram mais de R$250 mil e da maneira como ele fez para conquistar fundos de governos de estado, de municípios, dentre outras coisas. Mas vamos lá, dentro desse problema principiológico, a homologação é como se fosse um casamento. As duas partes, no caso o ministro André Mendonça e o Daniel Borcaro, têm de estar no mesmo tom. Eles querem fazer algo, mas nenhum confia no outro. Então assim, se ele diz não ter feito nada de errado, não ter cometido nenhum crime, de repente ele se sente injustiçado. E por isso a primeira homologação não rolou. Ele não entregou o nome de pessoas que fizeram atuação que a Polícia Federal considera criminosa com ele.

Ana Clara Costa:Ele considerava tudo aquilo amizade, então é isso. Exatamente. Ele pagar apartamento para o Ciro Nogueira, pagar tudo para tanta gente, é um amigo assim que realmente, rapaz, ainda não arrumei um desse não.

João Batista Júnior:Não, é um amigo do peito que o Breno Pires revelou na matéria dele, que gastou R$1,8 milhão apenas em uma viagem para Courchevel. Então assim, é uma amizade realmente extraordinária. E daí, por outro lado, a gente tem o ministro André Mendonça, que tem uma visão completamente diferente, advogado, que sim, ele cometeu crime, crimes de forma inequívoca. E aí tem uma outra questão que um advogado me falou: não só ele cometeu crimes, como ele usou de artifícios pouco comuns, digamos assim, na feitura desse crime, em questão aos costumes. A visão religiosa e conservadora do ministro Mendonça pode pesar nessa homologação. Enfim, a delação é um acordo, e não existe esse acordo. O Daniel não vê crime e o André Mendonça vê crime. Então existe a pressão por parte do Daniel Volcávia. Ele tem que reconhecer os crimes, pagar pelo ressarcimento, e correr contra o tempo aí em razão da Polícia Federal, que tem feito um trabalho para além do necessário ou que estaria dentro dessa homologação. A pressão também existe no colo do André Mendonça. A sociedade querendo uma resposta, a sociedade inclinada para que essa resposta seja dura e à altura dos crimes cometidos. Não pode parecer que o ministro escolheu A e poupou B. E isso vale eventualmente para os seus pares de STF. Ou seja, a credibilidade do ministro também está em jogo. Quem homologa não pode ficar vulnerável. Então, lá em maio, que parece um mundo distante, mas foi no mês passado, a primeira homologação foi negada. O Forcado trocou de advogados. Então, o que que tá em jogo nesse momento? Ele precisa reconhecer crime, precisa ressarcir o déficit que ele causou no mercado. E aí a gente fala de FGC, BRB, fundos de pensão públicos e outros fundos que também foram prejudicados. Esses ativos precisam fazer frente ao potencial débito estimado em R$60 bilhões.

Ana Clara Costa:R$50 só do FGC, né?

Celso Rocha de Barros:Mais de R$50, exato.

João Batista Júnior:Esses números nenhum advogado fala com precisão. Não existe um inventário de tudo que o Daniel Vaccaro pode dispor para poder ressarcir. Tem a estimativa do FGC e tem a estimativa de outras questões. Qual que é o medo do Vaccaro e dos advogados dele? Eles veem esse momento de vulnerabilidade dele, ou seja, um cara que está preso e tentando conquistar essa homologação com receio de que os fundos e as participações que ele tem em empresas possam valer pouco. Então, o que que os advogados tentam convencer na hora de uma homologação? Olha, esses ativos são muito valiosos, e valiosos a ponto de chegar em 60 bilhões, mas não existe um inventário ainda de imóveis, de obras de arte, de participação em fundos, e quanto que valeriam esses fundos. E mais, onde está todo o patrimônio dele? Você comentou na abertura a respeito de Bahamas, mas devem ter outras coisas fora do Brasil. A Bela Megali, no Globo, contou que o Vaccaro tá com alguns anexos nessa segunda tentativa de homologação. Ou seja, ele reconhece crime e quem são os seus parceiros em algum desses crimes. Ibanez Rocha, sobretudo em relação à venda do Master ao BRB. Cláudio Castro, os repasses de fundos de aposentados do Rio de Janeiro. E Antônio Rueda. O Rueda que é presidente do União Brasil, em que pese não ter nenhum cargo público, ele era ultra ligado ao Vôrcaro e ao seu parceiro também, o Ciro Nogueira. O Vôrcaro, o Master, tinham contratos com o escritório de advocacia do Rueda. Aparentemente é um escritório risório, mas ao mesmo tempo era um escritório que tinha contratos muito vultuosos com o Master. Então existe a expectativa de entender que talvez esses contratos tivessem alguma outra finalidade. Falando com outro advogado do Volcaro, ele volta nessa questão dos 60 bilhões. Ele fala que esse é o tema mais controverso. Vou pegar uma aspa dele: "Penso que esse valor de 60 bilhões é irreal. Se fosse metade disso, seria mais plausível." E ainda ele diz: "Se ele tivesse 60 milhões, talvez ele não estivesse na cadeia hoje." Então esse valor, gente, é o que está sendo negociado de forma que ele possa propor para tentar homologar. São duas coisas concomitantes: ele assumir os crimes que cometeu e entregar as pessoas com as quais ele cometeu esses crimes, e ele dizer que ele pode dispor de um valor enorme, no caso essa estimativa de 60 bilhões, para poder ressarcir todos aqueles que foram lesados. É uma soma bastante complexa. Ele não reconhece o crime, ele tá entregando essas pessoas em razão de não ter outra saída. Um advogado falou uma coisa do Ciro Nogueira que eu gostei: O Ciro Nogueira tem um anexo nessa segunda tentativa de homologação. Antes ele falava do Ciro como se fosse um santo. Daí agora ele deu uma apimentada nessa segunda etapa.

Celso Rocha de Barros:Sensacional.

João Batista Júnior:Um outro advogado que tem tido contato com o Daniel Vaccaro contou o seguinte: ali na tentativa de primeira homologação, eu agi dentro das regras, ainda que de forma atrevida e arrojada. Não cometi crime.

Ana Clara Costa:Olha só, é uma coisa muito curiosa, porque quem faz o preço é o mercado, não é o Daniel Vaccaro, não é ele dizer que ele tem 60 bi ou que aquele precatório vale. Não vai ele que vai dizer. E sobretudo quando você está preso, já existe um deságio que a própria situação impõe aos seus ativos, né? Tanto que mesmo antes dele ser preso, quando o Master tava quebrando, eles tentaram se desfazer de alguns ativos para aumentar a liquidez do banco. E já esses ativos foram vendidos a um valor supostamente abaixo do mercado, porque é óbvio, se você tá na pior, O mercado vai precificar isso no valor dos seus ativos. Então ele falar em 60 bilhões chega a ser ingênuo da parte dele, chega de certa forma a demonstrar que ele não sabe como o mercado funciona. Concorda?

João Batista Júnior:Ana, tem uma coisa interessante que o advogado falou, que é o seguinte: o Daniel Volkara é centralizador. Ele tem um secto de advogados cuidando de coisas diferentes, criminal, empresarial, etc., mas ele é quem capitania a tua defesa, ele que dá as coordenadas. As pessoas falam que ele é muito inteligente, que ele tem ideias boas em caminho de defesa. Mas ao mesmo tempo, como você tá falando dessa questão dos 60 bilhões e também da ingenuidade dele de pensar que alguém acreditaria que não se trata de crime, né? Eu perguntei especificamente para um advogado: "Ele é burro?" Porque não dá pra entender um cara que criou um esquema de pirâmide financeira tão grande acreditar nessas coisas. Aí o advogado falou assim: "Sim, porque eu já me perguntei isso também." Porque tem uma suposta genialidade de ter criado uma pirâmide e que fez muita gente cair. E tem uma outra, digamos assim, burrice em achar que agora as pessoas iam cair no conto do Vicaro. É intrigante isso.

Ana Clara Costa:Celso, agora em Tremembé tem um monte de gente que acha que não cometeu crime nenhum, né? Suzane von Richthofen, Roger Abdelmassih.

Celso Rocha de Barros:Esse pessoal só tem inocente lá. Vocês jovens ainda assistem aquela série Seinfeld, que é uma das minhas favoritas na vida? Tinha o personagem George Costanza que dizia: "Não é mentira se você acredita." Então assim, se você tiver que mentir, primeiro você se convence.

Ana Clara Costa:Fake it until you make it.

Celso Rocha de Barros:Exatamente, você se convence que aquela cascata era verdade e aí você vai mentir com muito mais chance de dar certo, né? O Volcar é um estelionatário profissional, né? Enfim. Mas realmente é fascinante que ele parece ter se convencido bem demais, né? Da cascata dele. O que tá claro até agora é que o Volcar não tá entregando nada nas propostas de delação. Essas propostas de delação dele são picaretagens, são coisas pra ele ganhar uma cela melhor. Ou já são uma tentativa de entregar uma delação que não vale nada, que os aliados políticos dele consigam emplacar, consigam convencer as autoridades a aceitar, o que mataria o caso Master, né? Se isso foi aprovado, o Volcaro sai da cadeia, aqueles aliados políticos todos dele estão livres e pronto. Porque tudo que ele entregou até agora, ou pelo menos que vazou para imprensa até agora, que ele tem entregue, é coisa que se vocês ouvirem Foro Teresina devia estar no primeiro episódio que a gente falou do assunto aqui. Só agora ele tá falando que Ciro Nogueira, Antônio Rueda, Ibanez Rocha e Cláudio Castro recebiam suborno. Pô, entendeu? Assim, joga na inteligência artificial: o que foi o caso Master? Esse deve ser o primeiro parágrafo, entendeu?

João Batista Júnior:O Ciro talvez esteja ali no item 0.01.

Celso Rocha de Barros:Exato. Então assim, ele só parece ter começado a entregar os caras contra os quais as evidências são avassaladoras e inclusive contra os quais ninguém precisa da delação dele. Quem tá entregando coisa para caramba é o celular dele. Exato. Desde o começo aqui a gente falou que era muito melhor como caminho de investigação do que a delação dele, que já era o caso, por exemplo, da delação do Mauro Cid na investigação do golpe. O celular do Mauro Cid foi uma preciosidade de conjunto de provas que tinha ali, mas a delação do Mauro Cid não rendeu muita coisa, né? Então tudo indica que o Vaccaro tá entregando esse nada que ele tá entregando de delação porque ele tá esperando que alguém salve ele, tá esperando um acordão, alguma coisa desse tipo. Agora, essa história de devolver o dinheiro, tem uma suspeita que existe entre o pessoal que tá acompanhando o caso, que é o seguinte: que ele tá querendo, na verdade, devolver dinheiro de mentira, que é basicamente o produto que ele vendia. Porque tem gente que acha que o que ele vai querer fazer é pegar os precatórios que estavam na mão do Master e tentar convencer a justiça que aquilo vale o valor de face daquilo, vale o valor que o Master dizia que valia, e tentar quitar a dívida com isso. Mas isso é dinheiro de mentirinha, isso é dinheiro de banco imobiliário, sabe? É você ganhar um papelzinho escrito assim: "Isso aqui é dinheiro, assinado Daniel Vorkar". Por quê? Precatórios são grana que a justiça decidiu que o governo tá te devendo. Por exemplo, o governo pode ter cobrado imposto demais de você, você entrou na justiça e ganhou. Aí o governo tá: "Tudo bem, vou ter que te pagar". Aí você entra numa fila lá, você agora é dono de um precatório, que é um direito de cobrar do governo. Agora, quando isso vai ser pago é complicadíssimo, é sujeito a altos níveis de incerteza, tem uma fila, tem um monte de problema judicial que pode acontecer no meio. Então é óbvio que quando um sujeito compra um precatório de uma outra pessoa, ele paga menos que o valor de face. Assim, se você, por exemplo, tem um precatório, diz assim: um dia o governo vai me pagar R$100, eu não vou te pagar R$100 agora por isso. R$100 agora certamente vale mais do que R$100 sabe Deus quando. Então se eu for comprar o seu precatório agora, eu vou te pagar R$35, vou te pagar R$40, dependendo da probabilidade daquilo andar. É porque você tá assumindo do risco futuro daquele troço.

Ana Clara Costa:Então esse valor de face não existe.

Celso Rocha de Barros:Não existe. E para você que tá vendendo, pode ser jogo. Você pode dizer assim: cara, eu tô precisando de dinheiro, eu prefiro ganhar R$35 agora do que os R$100 daqui alguns anos. Então é um mercado legítimo. Esse tipo de negociação não é picaretagem, são pessoas com horizontes temporais diferentes adequando ali o que cada um tem para oferecer. Agora, um negócio tão arriscado assim é óbvio que não é coberto pelo FGC, Fundo Garantidor de Crédito, que tá ali para proteger a poupança da sua tia, sua aposentadoria, entendeu? O dinheiro que você deixa no banco guardado lá para um dia difícil. Então ninguém guarda o dinheiro da sua aposentadoria especulando com precatório. Qual foi a mutreta do Borcaro? Foi conseguir transformar esses investimentos muito arriscados em lastro para emitir CDBs, Certificados de Depósito Bancário, que são cobertos pelo FGC. Essa foi uma das principais picaretagens que o Borcaro fez nessa história toda. Então ele oferecia aqueles CDBs pagando 140% do CDI e aquelas remunerações altíssimas, e o lastro para aquele negócio eram essas dívidas que ele tinha para cobrar do governo, que ele comprava das pessoas no mercado especializado na circulação de precatórios. E aí o que você tá fazendo basicamente é usar o dinheiro do FGC para especular nesse mercado de precatórios. Você tá usando o dinheiro dos outros para ganhar dinheiro num negócio altamente especulativo e inclusive muitas vezes pouco transparente. Já tem toda uma investigação sobre como é que o Master comprava esses precatórios. Por exemplo, tem suspeita de que tenha Master comprando precatório de empresa do Master. Cara, não tem nada que ligue todos os alertas nas autoridades sobre fraude financeira mais do que o cara fazendo negócio com ele mesmo. Se o cara tá comprando e o cara tá vendendo, é mutreta.

João Batista Júnior:Não cheira bem, né?

Celso Rocha de Barros:É, nunca ocorreu na sua vida você chegar na sua cozinha e falar: vou vender essa panela para mim mesmo. Não faz o menor sentido, certo? Então, se tem operação desse tipo, você já sabe que é mutreta. O quanto é mutreta é algo que tá sendo investigado. Agora, além disso, depois ele usava isso como lastro para fazer o CDB, e aí jogava o dinheiro de outras pessoas para cobrir esse negócio. Uma hora o mercado viu que isso ia dar merda. Inclusive teve reportagem dizendo que o Márcio tava chamando pré-precatórios de precatório. Pré-precatório não existe, gente, que seria você comprar um direito que a justiça ainda não deu. "Então assim, eu tô processando o governo, ainda não tem decisão favorável a mim, mas eu já vou te vender seja lá o que for que eu ganhe nesse negócio, se eu ganhar." Isso é 10 vezes mais arriscado ainda do que um precatório. Então tinha denúncias, que obviamente eu não tive acesso ao balanço do Master, não posso comprovar, mas saiu na imprensa que haveria pré-precatórios nessa conta, haveria coisa que sequer a justiça já deu decisão favorável. Então basicamente os precatórios não valiam nada, gente, valiam pouquíssimo, valiam muito menos do que o Master dizia que valia. E a suspeita é que o Boccardi agora tá querendo pagar esses 60 bilhões com 60 bilhões de mentirinha que ele inventa com esse negócio aí, entendeu?

Ana Clara Costa:E não são só precatórios. Como eles inflavam tudo, então terrenos que eles colocavam em fundos como garantia. A própria Piauí tem uma reportagem do Arthur Guimarães do Alain de Abreu que fala de um terreno que eles usaram como garantia, o pessoal, enfim, do Master, e valorizou 11 mil por cento em 36 dias.

Celso Rocha de Barros:Pois é.

Ana Clara Costa:Ou seja, Que é uma mentira, entendeu? É uma valorização de escritório, né?

Celso Rocha de Barros:Exatamente. Então assim, a suspeita que o pessoal que tá acompanhando o caso tem é que esses 60 bilhões que o Volkow quer dar é mentira, é dinheiro falso, é essas coisas. Não, se você me devolver aquele terreno que valorizou não sei quantos mil por cento em um dia, eu dou ele pelo valor que eu minto que ele vale e pronto, abati minha dívida. Isso seria inclusive legitimar a fraude financeira que o Marshall fez esse tempo todo. Então assim, se o Valcarte chegar agora e falar: "Confesso meus crimes, eu tenho 60 bilhões escondidos nas Bahamas, vou trazer para cá e vou devolver para os aposentados." Isso é uma coisa, isso a justiça deveria aceitar. Agora, se ele disser: "Não, não, eu vou dar, é só vocês me devolverem o dinheiro que está bloqueado, que eu vou pegar aquilo ali, mentir que aquilo vale dinheiro e entregar na mão de vocês." Isso obviamente seria um segundo escândalo master, seria ele aplicar o mesmo golpe duas vezes, né, cara? Que seria realmente uma vergonha se alguém aceitasse isso.

Ana Clara Costa:No final a gente fica se questionando se é só um caso de código penal ou se é um caso de psiquiatria também, né?

Celso Rocha de Barros:Eu pensei nisso também. Será que ele acredita, primeiro, que alguém vai cair nisso?

Ana Clara Costa:Pode ser um caso de—

Celso Rocha de Barros:Pode ser.

Ana Clara Costa:Não que isso anule o crime, exato. Não que isso anule o crime.

Celso Rocha de Barros:Não torna ele inimputável, mas assim, por exemplo—

Ana Clara Costa:Tem dúvida, mas tem uma variável nova que começa a aparecer diante dessas declarações que ele tem dado aos advogados.

Celso Rocha de Barros:Exatamente.

João Batista Júnior:É o workar entre a PF e o CAPS, né?

Celso Rocha de Barros:Exatamente.

Ana Clara Costa:Então a gente encerra por aqui o primeiro bloco do programa e no próximo bloco a gente vai falar sobre a decisão do Cássio Nunes Marques de suspender a pesquisa da Atlas Intel e do estado das coisas na campanha do Flávio Bolsonaro. A gente já volta.

João Batista Júnior:Num dia, um pouco mais de 10 anos atrás, uma adolescente que tinha se mudado com os pais para Portugal tava se sentindo sozinha. Ela decidiu criar um canal no YouTube para mostrar o dia a dia dela no país novo. E logo o terceiro vídeo que ela postou já bateu mais de 100 mil visualizações. Foi assim que nasceu a carreira da maior influenciadora do país. No perfil @aTigresaDosAlgoritmos, eu, João Batista Júnior e Alessandra Medina Contamos como a Virginia Pimenta da Fonseca Serrão virou simplesmente a Virginia. Ao longo da última década, ela conseguiu fazer da própria vida um reality show interessante para milhões de pessoas. E hoje em dia, dentre essas pessoas estão os membros da Polícia Federal. O assinante da Piauí lê essa e outras reportagens no papel, no celular ou no computador. Saiba mais em revistapiaui.com.br.

Voz E:Oi, eu sou a Bia Guimarães. E não sei se você sabe, mas agora o assinante do Clube da Novelo tem um clube de escuta para chamar de seu. Nessa live especial, a gente conta os bastidores das histórias do Rádio Novelo Apresenta mais votadas pelos membros. E nesse mês, a live vai ser sobre o episódio "Corta", que a gente publicou no Apresenta um ano atrás. Nessa história, eu acompanho a saga do Vinícius Calderoni. Em dezembro de 2023, ele tava angustiado porque sabia que ia precisar de um transplante de rim, mas não sabia de onde ia vir esse rim. Até que na viagem de Ano Novo, ele acabou compartilhando essa angústia com dois amigos, que meio que do nada toparam ser doadores dele. Aí começou uma saga desses três amigos tentando entender a vida, a morte, os rins e, acima de tudo, como transformar essa história numa peça de teatro. Eu e o Vinícius vamos falar dos bastidores desse episódio só pros assinantes do clube na próxima quarta, dia 17 de junho, e vai ser às 20 horas, pelo Zoom. Pra participar, é só assinar o clube em clube.radionovelo.com.br. A gente te espera lá!

Ana Clara Costa:Cássio Nunes Marques mandou suspender a pesquisa Atlas Intel, que mostrava o Flávio Bolsonaro em queda após o caso Vorcaro. A decisão abre uma discussão sobre censura, pesquisas e o papel da Justiça Eleitoral em 2026, que tudo indica vai ser um pouco diferente do que foi na eleição de 2022. Apesar dessa decisão do Cássio, a Quest não teve a sua pesquisa suspensa e os números foram divulgados nessa quarta-feira, mostrando que o problema de Flávio Não cabe numa liminar no TSE. Ele caiu no primeiro turno e perde pro Lula no segundo turno. E essa pesquisa da Quest já leva em conta todo o desgaste da relação dele com Daniel Vaccaro e das estripulias que ele andou fazendo em Washington. Celso, você que analisou bem esses números da Quest e enfim, à luz do que a gente vem discutindo aqui ao longo das semanas, quando as pesquisas saem, né? Como é que você vê essa queda do Flávio?

Celso Rocha de Barros:Bom, antes eu queria pedir uma salva de palmas, queria que inclusive os ouvintes batessem palma em casa, pra todo aquele pessoal que passou a campanha de 2022 dizendo que o Xandão tava violando a liberdade de expressão quando derrubava a conta do Twitter que pedia golpe e aquelas coisas todas. E agora tem que encarar o Cássio Nunes Marques de fato censurando conteúdo indiscutivelmente legítimo, como a pesquisa da Atlas Intel. Se você for otário de cair naquele papo lá do Glenn Greenwald, aquelas coisas todas assim, um beijão pra você. Bom, acabou de vez a expectativa de que esse ano a Justiça Eleitoral seria mais discreta do que em 2022, né, que sempre foi um papo furado, miserável, vagabundo, porque em 2022 o problema não foi a Justiça Eleitoral ser indiscreta, em 2022 o problema foi os bolsonaristas tentarem um golpe de Estado. Mas esse ano, mesmo sem golpe de Estado, pelo menos até agora, a Justiça Eleitoral já decidiu ser bastante indiscreta e o Cássio Nunes Marques saiu em defesa do candidato dele tentando impedir a divulgação da pesquisa em que o Flávio vivia muito mal. O argumento do Cássio Nunes Marques é muito ruim, porque, como bem notou a Atlas Intel, as pessoas eram expostas ao áudio do Flávio na aplicação de pesquisa depois de terem dito em que candidato elas iam votar. Então, as pessoas ouvirem o áudio não influenciava a decisão delas sobre voto. As pessoas ouviam o áudio depois para dar opinião sobre o áudio, o que obviamente é legítimo. E, de fato, Se vocês pegarem o que mais teve ao longo da nossa história eleitoral, é, por exemplo, teve pesquisa logo depois do Mensalão, na Lava Jato teve um monte de pesquisa querendo saber se as descobertas da Lava Jato iam influenciar o voto das pessoas, enfim, isso é tudo parte de pesquisa de opinião, que às vezes pode ser mais bem feita ou menos bem feita, mas isso aqui que o Cássio Nunes está argumentando quanto à Atlas Intel é mentira. E a prova de que isso é como eu tô dizendo é que saiu a nova pesquisa da Quest E o resultado é basicamente o mesmo da pesquisa Atlas, com metodologia diferente, em dias diferentes, sem o negócio do áudio, e o Flávio cai do mesmo jeito. A operação toda para barrar a pesquisa da Atlas é só uma sacanagem da campanha do Flávio para poder mentir para os seus apoiadores dentro da bolha informacional bolsonarista de que aquela pesquisa era falsa. É um esforço meio desesperado do Flávio Bolsonaro tentar não ser substituído como candidato da direita. Aquilo ali ele fez para dizer para os caras dele: olha, eu não caí não, é porque essa pesquisa era fraudada e tal. Ele tentou ganhar tempo com isso, mas agora chegou a pesquisa da Quest e o resultado é o mesmo da Atlas. Qual o resultado da Quest? Bom, no geral, se for para resumir alguma coisa, é: o Lula se deu bem, o Flávio se deu mal. Em algumas faixas em que o Lula tava apanhando, ficou muito mais equilibrado. Por exemplo, entre os 35 e 59 anos, agora na pergunta: aprova ou desaprova o governo? Empatou. Que é bem melhor do que o governo tinha tirando. Entre os jovens, entre 16 e 34, que era um setor que o Lula vinha apanhando muito, ele continua com um déficit de aprovação, tem mais gente que desaprova do que aprova, mas esse déficit era de 14, caiu para 7, caiu pela metade. A aprovação do Lula entre o pessoal que só tem ensino fundamental, lá na Lulândia, como eu digo, né, aquele território eleitoral em que o Lula normalmente se elege, ele tinha 12% de superávit, né, de aprovação, e agora tem 20. Então, enfim, em todos os lugares que você olha, a pesquisa foi boa pro Lula e foi ruim pro Flávio. Na intenção de voto, o Lula abriu 10 pontos de vantagem sobre o Flávio no primeiro turno e 6 pontos no segundo turno. Sempre bom dizer: 6 pontos no segundo turno não quer dizer absolutamente que essa eleição tá ganha, não é vantagem confortável.

Ana Clara Costa:Não, e a gente tá muito longe ainda.

Celso Rocha de Barros:Tamo muito longe da eleição. E inclusive aquele pessoal que antes tava dizendo que o Flávio já tava eleito tava sendo idiota também. Não é para fazer diagnóstico definitivo sobre pesquisa tão longe da eleição. Aliás, não sei nem se é para fazer diagnóstico definitivo perto da eleição. Agora, o fato é que aquela vantagem que o Flávio vinha ganhando quando estourou o escândalo do Márcio e a coisa parecia pegar, sobretudo o STF, morreu. O Lula tá fora da margem de erro ganhando. Já fazia tempo que ninguém ganhava do outro fora da margem de erro nessa pesquisa. Mas as notícias ruins para o Flávio não estão só no resultado da pesquisa presidencial em si. A pesquisa Quest teve bastante perguntas sobre o caso Master e todos os resultados são ruins pro Flávio. Aqui é bom notar um negócio: não é que essas pessoas pararam de achar que o STF tá enrolado, não. Eles só tão dizendo que o Flávio tá mais enrolado. Agora, uma coisa que eu achei uma divergência interessante com relação à Atlas: o número de pessoas aqui que diz que não conhece as conversas do Flávio com o Vaccaro é consideravelmente maior do que na Atlas. E isso é uma boa notícia para o Lula, no fundo, porque ainda tem bastante gente a ser apresentada ao fato que o Flávio Bolsonaro chamava o autor da maior fraude financeira da história brasileira de irmão, e que o Flávio Bolsonaro pediu 130 milhões para o cara, ganhou 60, teria ganho 130 se o cara não tivesse sido preso. 65% das pessoas agora na Quest dizem que o Flávio errou de pedir dinheiro para o Borcar. 60% dizem que as conversas levantam suspeitas. Esse 60% é mais ou menos o número contrário ao Flávio em todas as perguntas do Master. Isso para ele é desastroso. A gente vai ter uma eleição apertada e para ter 60% das pessoas aqui achando que ele tá errado é porque tem gente aqui que não tava declarando voto no Lula até agora e que sabe que o Flávio cometeu um crime, basicamente. Então claramente esse setor aqui é onde a eleição vai ser decidida. 12% das pessoas dizem que a conversa com o Boccardi diminuiu a vontade de votar em Flávio Bolsonaro. E sendo que 50% dizem: "Não mudou porque eu já não ia votar nele mesmo." Uma coisa que a gente discutiu muito aqui, que poderia ter ajudado Flávio a se recuperar, e talvez tenha ajudado, né, porque a pesquisa aconteceu de um mês pra outro, então não de uma semana pra outra, é a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Mas aqui tem um dado interessante. Quando você pergunta: "O Espaço em Branco deve classificar organizações criminosas como terroristas?" O resultado varia bastante. Se você preencher essa lacuna com governo brasileiro, o governo brasileiro deve classificar organizações criminosas como terroristas, 60% diz que sim. Então 60% das pessoas acham que as organizações criminosas deveriam ser tratadas como terroristas. Mas quando você preenche a lacuna com governo americano, só 45% diz que sim. São 15 pontos de diferença, bastante gente. Então assim, você vai vendo que tem muita gente que obviamente é contra o crime organizado, né, filho? Espero que ninguém seja a favor. Que gostaria inclusive de que fosse chamado terrorista e tal, que a repressão fosse mais violenta, mas que não gostou dessa história do governo americano vir aqui resolver isso. Assim, a carta nacionalista teve um peso aqui. Eu tenho uma certa curiosidade de saber se essa pesquisa tivesse sido feita semanalmente, se ela tivesse acontecido antes do novo tarifácio do Trump, se a única notícia fosse o Trump classificou como terrorista, será que o pessoal teria ficado também mal impressionado com a intervenção americana? Talvez tivesse colado mais pro lado do Flávio. Mano, foi isso que aconteceu. Na semana seguinte veio o tarifácio, ficou claro que era uma intervenção do governo americano. E o que eu acho que é muito ruim pro Flávio mesmo na pesquisa é a pergunta: com quem você concorda mais? Opção 1: Lula, que afirma que as novas tarifas são uma retaliação ao PIX, tem 46%. E só 36% concorda com Flávio, que afirma que as novas tarifas são uma retaliação às declarações do Lula contra os Estados Unidos. Então aqui você teve não só os Estados Unidos mencionando explicitamente o Pix no seu tarifácio, mas você teve o depoimento inacreditável do Eduardo Bolsonaro dizendo que nos Estados Unidos eles têm um sistema de pagamento eletrônico, o Zelle, que o Brasil podia negociar com os americanos com base nisso. O Eduardo tentou dizer: não, eu nunca disse para substituir o Pix pelo Zelle. Cara, mas se não foi isso, não tem nenhuma negociação na mesa, porque que negociação é essa? É os Estados Unidos continuar fazendo o que ele fazia e a gente continuar fazendo o que a gente faz? Isso não é uma negociação. Pra ser uma negociação, o que o Eduardo precisa estar oferecendo pros americanos é que o Zelle vai ganhar alguma vantagem aqui no Brasil pra competir com o Pix. E vocês podem procurar todas as reportagens, o Zelle é um sistema pior do que o Pix. No tempo que leva pra transação funcionar, então se você pretende pagar o táxi no Zelle, não vai ser bom, entendeu? Demora pra funcionar. Você tem que ter a conta em um dos bancos que participa voluntariamente do sistema. E aí você vai dizer: o serviço é gratuito. Gratuito se você já paga as tarifas daquele banco, né? Cara, e todos os economistas que estudam isso dizem que o Pix é realmente um sistema revolucionário para padrão internacional, que os outros países deveriam adotá-lo. E a declaração do Eduardo, é difícil imaginar, se o Lula quisesse pagar alguém para falar alguma coisa a favor dele naquela semana, eu acho difícil que ele encontrasse alguém melhor do que o Eduardo Bolsonaro defendendo o Zé L contra o Pix. De modo que se você for pegar todos os outros resultados da pesquisa, A carta patriótica tá inteiramente no colo do Lula no momento, graças à intervenção do Trump, com a ajuda da família Bolsonaro. E aqui tem uma pergunta que o Fernando reclamou na última pesquisa, que é a história do Flávio é mais moderado que a família Bolsonaro, que o Fernando lembrou. Bom, ele é da família Bolsonaro, né? Então a pergunta meio esquisita. Mas o que eu achei interessante é que dessa vez o não disparou. Então você tinha 47 não, 39 sim, ou seja, a diferença era de 8. E agora a diferença passou a 17, assim, o sim caiu de 39 para 33 e o não foi de 47 a 50. É quase certo que essas pessoas estão equiparando moderado com bom, que estão respondendo aqui o Flávio é melhor do que a família Bolsonaro, e elas agora estão dizendo maciçamente que não. Então a pesquisa é muito ruim para o Flávio, e eu acho que inclusive mesmo se o Cássio Nunes censurar essa daqui também, não tem muito que eles fazerem nessa área não.

Ana Clara Costa:O Celso, aproveitando que você pegou o gancho do Cássio, eu queria só falar um pouco sobre essa decisão dele. Eu acho que a gente precisa ficar atento a esses movimentos, porque o que aconteceu no TSE foi grave. Essa liminar, ela tinha relatoria da ministra Estela Aranha. O ministro Cássio, que hoje preside o TSE, simplesmente criou uma regra imediata para tirar da relatoria da Estela Aranha e ele colocar na pauta para votar. Ou seja, tirou a atribuição de uma ministra, não havia previsão legal para ele fazer isso e ele fez. Aí ele jogou para o plenário, né, e quando ele decide isso na segunda-feira, né, a suspensão dessa pesquisa, a temperatura no TSE era de 6 a 1, de que ele teria o apoio de outros 5 ministros. Como a repercussão foi muito ruim, com razão, né, a atitude que ele tomou foi totalmente no atropelo, atropelo das regras, atropelo de tudo, Alguns ministros recuaram, então a temperatura meio que mudou no decorrer da semana. Lembrando que quando ele votou na segunda-feira, a Estela Aranha pediu vista, então os outros não votaram, mas a temperatura era que eles iam referendar. Depois, como foi evoluindo a coisa ao longo da semana, isso mudou um pouco. Hoje, assim, falando assim um pouco nos bastidores do TSE, tá 4 a 3 ainda favorável a essa liminar. Então assim, achei grave o que ele fez ao tirar a relatoria de uma ministra e meio que atropelar todo o processo legal ali logo de cara. Segundo ponto que eu acho importante: essa liminar foi um pedido do PL logo que a pesquisa Atlas saiu, e foi um pedido da equipe jurídica do Flávio, que é pilotada pela ex-ministra do TSE, Maria Cláudia Buchianeri. Nem todo mundo ouviu isso porque eu falei desse assunto no foro ao vivo na Feira do Livro, mas a equipe jurídica do Flávio, que foi montada para campanha e que é pilotada pela Maria Cláudia, é uma equipe muito mais estruturada do que a equipe do PT hoje, né? E a Maria Cláudia é considerada uma advogada de direito eleitoral extremamente competente, além de ter sido ministra do TSE. Ela já defendeu Lula, ela já defendeu Arthur Lira, ela já defendeu Bolsonaro. E inclusive no período em que ela estava no TSE, ela deu várias decisões favoráveis ao Bolsonaro. Então foi a primeira demonstração dela do que ela pretende fazer durante esse período eleitoral. E foi uma demonstração do Cássio do que ele pretende fazer também. Então eu acho que as coisas estão começando a ficar bem claras no TSE, assim, como que vai ser essa frente de batalha lá. Coisa que você, Celso, já tinha falado aqui pra gente em outros momentos, né? E eu queria lembrar também que várias pessoas da equipe jurídica do Flávio são próximas do ministro Cássio. E existe também um advogado que não tá oficialmente na equipe jurídica do Flávio, mas ele tá nos bastidores, que é o Gustavo Severo, que é um advogado muito próximo do Cássio. Inclusive, o Cássio voou em várias viagens noticiadas pela imprensa no jatinho do Gustavo Severo, foi para lá e para cá em vários eventos nesse jatinho. E esse Gustavo Severo tá ajudando nos bastidores a equipe do Flávio. Então existe uma dobradinha se formando aí que não pode passar batido, assim, não foi banal isso que aconteceu essa semana. Gente, eu ultrapassei minhas atribuições aqui dando meus pitacos, mas vou deixar vocês com João Batista, que esse sim tem o que dizer, entendeu?

João Batista Júnior:Na verdade, é sair um pouco das planilhas das pesquisas e da censura de Brasília para ir para campanha chão de fábrica, mais ou menos chão de fábrica, para um hotel de luxo. O Flávio Bolsonaro nessa semana, ele foi uma estrela de um encontro promovido pelo Grupo Voto. Esse encontro foi chamado Brasil de Ideias Mulher Especial Eleição. Era um encontro promovido pela dona do Grupo Voto, uma mulher chamada Karen Miscullin. A Karen, ela tinha uma agência de comunicação corporativa que no governo do pai do Flávio, o Jair Bolsonaro, teve um contrato com a Apex. Esse grupo voto tem uma intenção de discutir política com mulheres, com o mundo empresarial. A bem da verdade que esse encontro com 180 convidadas ali no Tangará não teve um quórum muito estrelado, né? Eram pessoas que não eram estrelas do PIB, não eram mulheres pensantes da sociedade. Quem tava ali, por exemplo: Rosana Vare, deputada federal pelo PL de São Paulo. Valéria Bolsonaro, deputada estadual pelo PL de São Paulo. Ou seja, duas mulheres que têm uma agenda, elas querem ser reeleitas, né? Eu pedi à organização do evento a lista dessas 180 convidadas. Não teve. E em geral, a métrica é a seguinte: quando você não divulga que você vai no lugar, é porque você pode estar com uma certa vergoinha. E quando o lugar também não divulga que você foi, é porque você não acrescenta tanto. Então talvez fosse um encontro de pessoas nem tanto aplaudidas, digamos assim. Também pedi para fazer entrevista com a Karen, a organizadora, e a Karen não quis dar entrevista. O que a comunicação dela falou é que ela, uma mulher pensante da sociedade, quer também reunir dentre as suas convidadas célebres outros pré-candidatos, a exemplo do Lula. Mas é isso, o Flávio conseguiu censurar algo em Brasília e no dia a dia, no corpo a corpo, ele foi num evento de hotel de luxo com pessoas que não são tão importantes.

Ana Clara Costa:É, o evento ele é um problema do prestígio dele nesse momento, né? Mas eu acho que também a gente não pode se enganar, porque eu acho que tem um monte de gente de suposto prestígio que votaria nele, mas não quer dizer publicamente que vota e não quer aparecer em público ao lado dele. Mas quando chegar lá no dia, vai apertar, né? A gente sabe. Bom, a gente encerra agora do segundo bloco. E no próximo bloco a gente vai falar sobre a decisão do Senado que sustou uma resolução do Conanda sobre o aborto legal de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A gente já volta. Em meio a inteligências artificiais e a briga por narrativas, é muito importante a gente entender o que é real o que é criado, fabricado. E é por isso que eu te convido a ouvir o Pauta Pública, podcast da agência de notícias mais premiada do Brasil. Você pode ouvir o Pauta Pública toda sexta-feira no seu tocador de podcasts preferido, no YouTube ou no site da Agência Pública. Te espero lá!

João Batista Júnior:Você.

Ana Clara Costa:A música toca de um jeito diferente em cada pessoa. OZESP, aqui a música toca. Ingressos em ozesp.art.br. A Câmara aprovou em menos de 2 minutos e sem votação nominal um projeto que susta a resolução do CONANDA sobre atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. A medida não muda o Código Penal, mas dificulta o acesso a um direito já existente: o aborto legal em caso de estupro. A votação, relatada pela senadora Damares Alves e celebrada por agremiações evangélicas e católicas, É mais um capítulo da ofensiva contra o aborto legal no Brasil. A direita tem derrubado protocolos e criado insegurança nos serviços, além de empurrar meninas violentadas para um labirinto institucional onde falta atendimento, falta apoio e sobra incerteza. Desde 2024, quando os casos de hospitais de referência que pararam de fazer o aborto legal por pressão do Conselho Federal de Medicina começaram a acontecer, a gente vem tocando nessa tecla aqui no foro E recentemente a gente também falou desse assunto porque o caso do CFM, que é o Conselho Federal de Medicina, e que não quer mais que a classe médica realize a cistolia fetal para interrupção da gestação com 22 semanas. Esse debate está acontecendo dentro do Supremo, né, hoje. E há algumas semanas a gente voltou a falar desse assunto porque coincidentemente a PGR deu um parecer favorável ao CFM, ou seja, chancelando a visão do CFM sobre isso. O que que tem acontecido no Brasil nos últimos anos? Os hospitais de referência que deveriam realizar o aborto legal nas crianças vítimas de estupro ficam jogando uma criança de hospital para hospital. O tempo vai passando, as gestações ultrapassam as 20 semanas, aí o CFM disse que não realiza mais porque já passou tempo demais. Então assim, é isso que tá acontecendo com as meninas no Brasil hoje, meninas em grande parte em situação vulnerável, né, porque quando a renda é alta eles resolvem seja como for o problema. E o Senado na última semana deu esse presente que foi sustar essa norma do CONANDA, que tentava de certa forma oferecer um pouco de respaldo regulatório para essas crianças que estão sofrendo esse tipo de situação nos hospitais de referência. E aí o Senado vai lá e susta numa votação tal como essa, em que a gente nem sabe como votou cada senador.

Celso Rocha de Barros:Pois é, são notícias ruins que não param de acontecer, né, e a gente tem que tratar delas. E são assuntos que não dá nem pra gente fazer piada como a gente faz com assuntos sobre políticas partidárias ou coisas que valem. Porque basicamente a discussão é: que maldade você vai fazer com uma criança que foi estuprada? O Senado decidiu que qualquer uma que você queira. Inclusive obrigar ela a ter o filho do estuprador. Eu suspeito que se você perguntasse na cadeia pros estupradores se eles acham que é correto que as suas vítimas sejam obrigadas a ter os filhos deles, eu acho que pelo menos alguns teriam algum momento de consciência de dizer que não. Não é o caso da senadora Damares Alves, não é o caso do senador Davi Alcolumbre, que botou isso pra votar, não é o caso da deputada Cris Tonietto, que patrocinou esse negócio. Essas pessoas obviamente querem ganhar voto, querem sinalizar virtude com o problema dos outros. Em vez de elas sinalizarem virtude denunciando a corrupção do candidato delas a presidente, em vez de elas sinalizarem virtude defendendo as pessoas que ficaram sem vacina durante a pandemia, elas estão sinalizando virtude obrigando crianças que foram estupradas a ter o filho dos seus estupradores, porque eles acham que isso é uma reafirmação de comportamento moral quando na verdade é exatamente o contrário que se trata. Bom, a resolução do Conanda, que a resolução que foi derrubada pelo Senado, era uma resolução que tentava facilitar o acesso de crianças estupradas ao aborto legal. Então, só para deixar claro, o Conanda nem propôs, nem poderia propor, porque não tem autoridade para isso, a expansão do número de casos em que o aborto é legal. Ela está dizendo: para essas pessoas, para quem a lei garante o direito de interrupção de gravidez, nós vamos estabelecer procedimentos que facilitem o acesso a esse direito que a legislação brasileira garante, bom lembrar, desde 1940. E aí, entre as propostas do Conanda, tá, por exemplo, você dispensar ou flexibilizar a exigência de que os responsáveis pelas crianças participem do processo de interrupção de gravidez, o que é importante porque muitas vezes são os pais dessas crianças, os padrastos dessas crianças, os responsáveis legais dessas crianças que cometeram estupro. Estupro de criança é uma coisa que acontece sobretudo em casa. Então o que o Senado aprovou de agora é que antes da menina que foi estuprada poder interromper sua gravidez, ela vai ter que pedir autorização do estuprador. Damaris Alves, Cristo Nieto, Davi Alcolumbre, todo o pessoal que aprovou isso aprovou que a criança que foi estuprada pelo pai tenha que pedir autorização do pai para interromper sua gravidez. Foi isso que eles fizeram em votação. Inclusive, como disse a Ana, ninguém foi identificado. Teve um debate que eu consegui pegar aqui, que é o seguinte: mesmo se você concordar com tudo que o Conanda fez, o Conanda tem autoridade legal para fazer isso. E eu queria primeiro sinalizar a hipocrisia dos caras que dizem que não, porque o que a Damares e esse pessoal todo, inclusive do Conselho Federal de Medicina, que são basicamente monstros, né, que são pessoas sem qualquer senso de moral, tão fazendo em todos esses casos de limitar o acesso ao aborto legal é basicamente tentar legislar por vias tortas. O que eles estão querendo fazer é revogar o direito ao aborto legal simplesmente tornando fisicamente, praticamente impossível realizar, impedindo que exista a possibilidade do exercício desse direito. Isso equivale a você revogar a lei para todos os propósitos práticos. Então o que o Adamares e o pessoal tá acusando a resolução do Conanda é o que eles vêm tentando fazer sistematicamente faz vários anos. Agora, se existir alguma razão jurídica nisso, se de fato você acha que o Conanda se excedeu na sua autoridade, o que você tem que fazer não é você só revogar a resolução. Você teria que imediatamente discutir o que que tem de positivo nessa resolução do Conanda e transformar isso em lei e passar isso pelo Congresso. Se o Congresso acha que o problema é que não passou por ele, trabalha, Congresso. Eu sei que vai ser uma experiência nova para vocês, mas assim, a gente precisa às vezes se abrir a outras possibilidades que a vida nos oferece. Se vocês acham que o problema aqui é que o Conanda legislou sem ter o direito de legislar, vocês têm o direito de legislar e são um bando de vagabundo que não fazem nada. Não era o caso de fazer essa palhaçada de revogar completamente a resolução. Sem botar nada no lugar. O que vocês estão fazendo é só novamente aumentar o sofrimento de crianças, pessoas que a sociedade deveria proteger, que foram vítimas de um crime horroroso. Vocês estão pegando crianças que passaram por uma das piores experiências que uma pessoa pode passar, vocês estão fazendo a vida delas ser pior. Você fazer isso, você achar que você está sendo cristão, você achar que está agindo segundo a moral, só prova que você é um degenerado, cara, que você é um pervertido, que você é um tarado. Mas é isso que aconteceu no Senado e as pessoas que fizeram isso vão fazer campanha esse ano como se fossem cidadãos excelentes, assim, como se fossem pessoas que respeitaram o que diz a Bíblia sobre aborto. Spoiler: a Bíblia não diz nada sobre aborto, vocês podem conferir, quem quiser. E se dissesse, nem todo mundo é obrigado a seguir a Bíblia, certo? Isso seria uma orientação para você enquanto cristão não realizar aborto, mas não para você obrigar outras pessoas a não realizar aborto. E isso vai dar voto, gente, isso vai funcionar. Triste é o seguinte: essa manobra vai funcionar para os caras que fizeram isso. As pessoas que fizeram isso com essas crianças vão conseguir voto em cima do sofrimento adicional que elas vão obrigar essas crianças a sofrer.

Ana Clara Costa:Não só voto, como o voto no Senado para o Supremo, que é o mesmo, no caso, Jorge Messias, que o Lula possivelmente vai voltar a indicar. Um dos principais argumentos dele para convencer os senadores conservadores a votar nele é a concordância a notícia da AGU e dele pessoalmente com a pauta do CFM sobre a cistolia fetal.

Celso Rocha de Barros:Vocês vão vendo a guerra feroz que o Brasil faz contra as suas crianças que são vítimas de violência sexual.

Ana Clara Costa:João, você ouviu bastante gente sobre esse assunto também e a gente queria te ouvir.

João Batista Júnior:Toda essa discussão que vocês aqui do foro têm feito uma cobertura tão boa, na prática já tem surtido um efeito bastante ruim em cima dessas crianças e mulheres vulneráveis, ou seja, pessoas que têm autorização legal para interromperem a gestação por questões mais variadas e tristes possíveis. Então eu conversei com um médico de uma linha de frente, de um hospital de Campinas, que ele falou que todas as discussões, quando elas entram na pauta do dia, ou seja, saem em jornal nacional, em portais, em redes sociais, as mulheres que têm o direito, ou seja, que contemplam o que é entendido no aborto legal no Brasil, Ficam com medo de irem buscar ajuda nos hospitais e fazer valer a lei. Elas pensam que elas podem ser presas. Então o médico falou que durante umas 4 semanas em que ficou sendo discutida essa questão na imprensa, nenhuma mulher apareceu no Hospital de Campinas para tentar fazer o aborto legal, para requerer o direito dela. E são 2 casos por semana, todas as semanas. Então, 4 semanas sem nenhuma aparecer é algo bastante sintomático. Na prática, essas discussões entre Brasília e CNBB já têm surtido efeito. E quem são as pessoas que buscam quando é retomado? Mais mulheres brancas, mais mulheres com alguma escolaridade. E daí esse mesmo médico contou o seguinte: no estado de São Paulo, e aqui São Paulo merece um pequeno preâmbulo, né, tanto estado Quanto ao município, o Ricardo Nunes é o prefeito que entregou o prontuário das mulheres que fizeram aborto legal ao CREMESP. Aí teve uma discussão no STF em que o ministro Alexandre de Moraes falou que isso é ilegal, né? Viola a privacidade, viola a civilidade, né?

Ana Clara Costa:É crime violar prontuário, né?

Celso Rocha de Barros:Claro.

João Batista Júnior:Exatamente. Aí no estado de São Paulo tem grandes hospitais que fazem o aborto legal: Campinas, Ribeirão Preto e São Paulo. O que acontece? Esses hospitais têm visto chegarem mulheres de cidades muito distantes, até mesmo de outros estados, porque elas não estão se sentindo assistidas dentro da cidade delas. Porque se você vai até uma defensoria, se uma menina é violentada e ela chega numa defensoria, a defensoria orienta ela a seguir o protocolo legal, a procurar o hospital mais próximo que possa realizar a questão. Como existe esse medo consolidado, dentre as pessoas e a classe médica, elas estão indo para esses grandes centros: Ribeirão Preto, Campinas e São Paulo.

Ana Clara Costa:E os próprios grandes centros, João, não estão atendendo a contento, né? Os próprios hospitais de referência de São Paulo não estão atendendo no patamar que eles deveriam atender, a gente sabe.

João Batista Júnior:Ou seja, tem um método e esse método é dificultar a vida do médico que está fazendo o trabalho que lhe cabe e que a lei assegura, e dificultar a vida da mulher ou da criança cujas vidas estão sob risco, né? Eu conversei com uma pessoa também ligada à Igreja Católica que ela falou de uma pessoa que tem atuado bastante forte dentro dessas discussões para proibir ou para dificultar o aborto legal, que é o Bispo Ricardo Ropers. Ele tem dois cargos: ele é secretário-geral da CNBB e ele é bispo auxiliar da Arquidiocese de Brasília. Comparando com o mundo político, o secretário-geral da CNBB ele funciona como um ministro da Casa Civil. Ele é uma pessoa que tem articulação com todos. Ali em Brasília, ele realiza uma missa para os parlamentares, ou seja, os deputados que querem ir à missa, ele faz um evento especial para eles em que tem cafezinho, em que todos eles conversam. Essa mesma pessoa falou que esse bispo sempre se mostrou pró-vida. Até aí não é novidade que a Igreja Católica se coloca contrária ao aborto. Nem toda ela, mas é um dogma da Igreja. No entanto, o que ele quer é dificultar ou impedir métodos legais, e ele tem sido bastante eficaz. Essa mesma pessoa lembrou o seguinte: a Igreja Católica, ela deveria atender e acolher as pessoas mais desassistidas da sociedade, e a Igreja Católica muitas vezes já fez isso. Na Cracolândia em São Paulo, quando crianças engravidam vítimas de estupro e de violência sexual de toda sorte, muitas vezes a pastoral acolhe. Levando até hospital, até Defensoria Pública, pra tentar dar um mínimo de dignidade pra essas crianças. Voltando a algumas casinhas, o Hospital Emílio Ribas, que cuida de infectologia em São Paulo, tem um capelão de décadas chamado João Mildner. Esse homem realizou velórios atrás de velórios quando pessoas soropositivas morriam e nenhum parente ia no velório e no enterro. Então a Igreja Católica, quando ela quer, ela estende a mão. O que a gente tá vendo agora é uma barbárie. Que é a união entre alguns religiosos conservadores, porém muito poderosos, com políticos que estão pensando em voto e não pensando na saúde pública dos brasileiros.

Ana Clara Costa:Bom, com essa apuração do João, esse soco, a gente encerra esse terceiro bloco e a gente vai para um rápido intervalo e na volta a gente faz o Kinder Ovo. É isso aí.

Voz F:Tem história que termina quando você acaba de ler e tem história que continua nos bastidores. A Piauí lança o Caderno do Repórter, uma newsletter mensal exclusiva para assinantes em que um jornalista relata em primeira pessoa os bastidores de uma reportagem ou de uma cobertura. A pauta que quem mudou no meio do caminho, a entrevista que quase não aconteceu e tudo aquilo que não coube no texto final. Para receber, é só se inscrever e ser assinante Piauí. Caderno do Repórter, porque toda boa história tem outra por trás.

Voz G:Oi, aqui é a Mayra Valejo da Rádio Novelo. Sabe aquela vontade irresistível de fuçar as coisas dos outros? A tela do WhatsApp alheio, o diário aberto na mesa de cabeceira. No episódio dessa semana, a gente deixou os pensamentos intrusivos vencerem. No primeiro ato, eu conversei com uma pesquisadora que tentou desvendar centenas de bilhetes cifrados entre amantes.

Voz E:E é claro que quando aparece publicado e tem as iniciais, há uma especulação enorme na cidade pra saber quem é que tá falando isso pra quem.

Voz G:E no segundo ato, uma sobrinha lê o diário da tia pra tentar entender como e quando a história dela deu tão errado.

Voz E:Gostaria que ele lesse isso aqui. Se bem que ele já me disse que acha tudo isso uma mentira.

Voz G:O episódio "Bilhete de Amor" já tá disponível em todos os tocadores. Rádio Novela apresenta: toda semana, histórias que você não sabia que precisava ouvir.

Ana Clara Costa:A gente tá de volta e vamos pro momento Kinder Ovo. Momento que tem sido de derrota total pra mim esse ano de 2026.

Celso Rocha de Barros:Pô, tá difícil. A vitória é totalmente da Mário.

Ana Clara Costa:É.

Celso Rocha de Barros:E da Maria Júlia quando tá substituindo.

Ana Clara Costa:Eu espero que a sorte esteja em outro lugar, porque no Kinder Ovo não tá. Pode soltar.

Celso Rocha de Barros:Eu na minha vida fui, eu tive um patrão. Caiado? E no dia 23 de setembro de 93 ele morreu.

Ana Clara Costa:Nossa, parece o Álvaro Dias, mas não é porque...

Celso Rocha de Barros:Cara, muito forte.

João Batista Júnior:Voz de marrento, né?

Celso Rocha de Barros:De lá pra cá eu nunca mais tive um patrão na minha vida.

Ana Clara Costa:Quem fala é Alexandre Kalil, pré-candidato do PDT ao governo de Minas Gerais.

João Batista Júnior:Ah, gente, ex-prefeito de BH. Eu como mineiro vou tirar o meu crachá.

Ana Clara Costa:Realmente, João Batista, você não vai poder entrar em extrema nos próximos dias. Tudo menos isso. Agora a gente vai pro Correio Elegante. Foram muitíssimos comentários elogiando o João Batista Júnior e o sabor que ele traz pras informações que ele mesmo conta aqui pra gente, né. E pra representar esses elogios ao João, a Mari selecionou o post da @liliaceu. "João, volte sempre. Te amamos e precisamos que você nos edifique". E o @melkised escreveu: Não tem como não morrer de rir diante das tiradas e ironias do Celso e ver a seriedade do programa diante das intervenções, condução e comentários da Ana. Mas o tom de fofoca dos bastidores dos bastidores, na voz de João, falando mansinho e baixinho, pra quem gosta de fofoca como eu, não tem como não ficar preso. Que episódio fofocástico, parabéns a todos! É isso aí, é isso aí, João Batista.

João Batista Júnior:Muito obrigado, Ana. O Tadeu França mandou um recado para você e para Mari. Serei direto e reto: Ana Clara mandou tão bem no papel de host principal que merece o direito de conduzir o foro diretamente de sua showpana no Rio de Janeiro, tal qual o Fernando faz em São Paulo. Vamos subir a hashtag Mari libera o home office para Ana Clara. Finalizo pedindo para vocês mandarem um beijo para os meus filhos. Augusto, de 7 anos, e Hugo, de 5 anos, que fizeram aniversário dessa semana. Grande abraço! Um beijo, Augusto e Hugo, nomes lindos.

Celso Rocha de Barros:Tudo de bom para vocês.

Ana Clara Costa:Beijo, Augusto e Hugo, parabéns! Eu só quero dizer que se fosse na minha casa, não teria pão de queijo, então não tem a menor graça.

Celso Rocha de Barros:Ah, muito bem.

João Batista Júnior:Tá bom, você tem um ponto.

Celso Rocha de Barros:Só aproveitando para mandar meu beijo aqui para o Hugo e para o Augusto. Feliz aniversário para vocês, garotada! A Suzane, sem "Petição pelo Furo de Teresina, quadro permanente do Foro pro João Batista e Ana Clara contarem as fofocas do mundo político pra gente." Genial, Suzane, tem todo o meu apoio.

Ana Clara Costa:É o nosso Zap, né, João? O meu e seu.

João Batista Júnior:De conversa de bar, né? Se as pessoas gostam do tom de fofoca, se for num bar com uma cana clara, o bicho pega fogo.

Ana Clara Costa:E assim vamos encerrando o programa. Se você gostou, não deixe de seguir e dar 5 stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music, favorita na Deezer e se inscreve no YouTube. No site da Piauí você encontra a transcrição do episódio. O Foro de Terezinha é uma produção do Estúdio Novelo pra Revista Piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira, a direção é da da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Wurnitzki. A edição é da Bárbara Rubira e da Paula Scarpin. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e a mixagem são do João Jabássi e do Luiz Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabássi e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida Lei do Fábio Brizola. O programa de hoje foi gravado no Estúdio Rastro do Dani D, no Rio de Janeiro, e em Lisboa, na casa do João e da Laura. João que não é o João Batista, é um amigo dele. Eu me despeço do João Batista. Tchau, João!

João Batista Júnior:Tchau, Ana! Tchau, Celso! Até semana que vem aí, direto do estúdio no Rio de Janeiro.

Ana Clara Costa:E do Celso.

Celso Rocha de Barros:Tchau, Ana! Tchau, João! Tchau, pessoal! Até semana que vem!

Ana Clara Costa:É isso, pessoal! Uma ótima Bom fim de semana a todos e até semana que vem.

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Virginia Fonseca

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