O tarifaço no Brasil e o judiciário em Lisboa
No Foro de Teresina desta semana, Ana Clara Costa, Celso Rocha de Barros e João Batista Júnior analisam a ameaça de um novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, os interesses econômicos e geopolíticos por trás da medida e seus possíveis impactos para o país. No segundo bloco, o trio discute o papel de Flávio Bolsonaro na escalada da crise entre Brasília e Washington e a resposta do governo Lula às investidas da Casa Branca. No terceiro bloco, os apresentadores tratam dos bastidores do Fórum de Lisboa, o chamado Gilmarpalooza, marcado neste ano por um visível esvaziamento e pelos efeitos da crise de credibilidade que atingiu parte do Judiciário após o caso Master.
Acesse a transcrição e os links citados nesse episódio:https://piaui.uol.com.br/web/ft115/
Leia "Um grito preso na garganta", reportagem de Cristina Fibe sobre o silêncio que encobriu por décadas denúncias de abuso e violência nos bastidores das Meninas Cantoras de Petrópolis: https://piaui.uol.com.br/revista/237/um-grito-preso-na-garganta/
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Ana Clara Costa:The right window treatments change everything.
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Voz B:Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da revista Piauí.
Ana Clara Costa:É que esses filhos do Bolsonaro são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras.
Voz B:Eu, Ana Clara Costa, temporariamente vou ocupar o microfone do meu amigo Fernando Barros e Silva, que aproveita suas merecidas férias. É sempre um prazer conversar com meu amigo Celso Rocha de Barros aqui no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Oi, Celso!
Celso Rocha de Barros:Oi, Ana Clara! Bem-vinda à sua nova função. As 3 reuniões que nós tivemos com o presidente Trump, vice-presidente Pence e o secretário de Estado, Marco Rubio, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras.
Voz B:E agora com o João Batista Júnior, que vai estar com a gente nos próximos programas. E o João fala com a gente diretamente de Lisboa, nosso correspondente no Gilmar Paluza. Oi, João, bem-vindo.
Ana Clara Costa:Oi, Ana, tudo bom? Oi, Celso, um beijo daqui de Lisboa para vocês, para os nossos ouvintes.
Celso Rocha de Barros:O Judiciário em particular é instado a agir como fiador da instabilidade institucional, mas ao fazê-lo é criticado por exorbitar suas competências.
Voz B:Bom, vamos aos assuntos da semana. A gente abre o programa com a ameaça de novo tarifaço de Donald Trump contra o Brasil. O governo americano anunciou que pretende aplicar uma sobretaxa de 25% sobre parte das exportações brasileiras com base na Seção 301, que é o instrumento usado nos Estados Unidos para punir práticas consideradas desleais. Há ainda um prazo até 15 de julho para que a medida seja confirmada. Caso isso aconteça, o governo brasileiro calcula que cerca de 21% das exportações para os Estados Unidos podem ser afetadas. Mas Trump parece ter aprendido que tarifa também dói em casa, especialmente quando encarece o café e o hambúrguer do eleitor. Então ficariam de fora produtos sensíveis para o próprio mercado americano, como o café, a carne, o suco de laranja, além do petróleo e gás, medicamentos e itens da indústria aeronáutica. Entre as justificativas para as novas tarifas, há um personagem improvável: o PIX. Para Washington, o problema do PIX é funcionar bem demais. Assim, o governo Trump acusa o Banco Central de favorecer um campeão nacional. O Brasil respondeu que o PIX é uma infraestrutura pública, gratuita para pessoas físicas que é aberta e neutra. Mas o incômodo é que o PIX virou símbolo de uma tecnologia eficiente, barata e potencialmente exportável, que reduz a dependência de intermediários privados. Entre o temor de um PIX internacional, as discussões nos BRICS sobre alternativas ao dólar e a resistência histórica dos Estados Unidos a sistemas financeiros fora de sua órbita, vale lembrar que entre 2011 e 2025, Os americanos acumularam mais de $424 bilhões de superávit comercial com o Brasil. Não é exatamente o retrato de uma relação desigual contra eles. No segundo bloco, a gente sai da tarifa e entra na política por trás da tarifa. Depois de viajar a Washington e posar ao lado de Trump, Flávio Bolsonaro passou a dizer que foi aos Estados Unidos defender empresas brasileiras. Como parte de um plano para escapar da responsabilidade, Flávio tornou pública uma carta enviada a Marco Rubio. Nela, ele afirmou que pediu a Trump para não taxar o Brasil e culpou Lula pela crise. O teatro durou pouco. Ao mesmo tempo em que o senador e pré-candidato divulgava a carta, Trump publicou uma foto com Flávio no Salão Oval, chamando-o de "jovem inteligente" (entre aspas) que ama o país. O timing não deixa dúvidas. O tarefaço, as agressões ao PIX e a denominação sobre PCC e Comando Vermelho na semana anterior têm um patrono: Flávio Bolsonaro. E uma vítima: o Brasil. Já Lula acusou a família Bolsonaro de sabotar negociações, chamou Flávio de imbecil e disse que vai cobrar explicações diretamente de Trump. Nos bastidores, o governo tenta conter danos e manter a resposta no campo técnico: diálogo com empresários, canais diplomáticos abertos, atuação do Itamaraty e o uso da lei de reciprocidade caso a ameaça escale. No terceiro bloco, a gente vai para mais uma edição do Fórum de Lisboa, o chamado Gilmar Palooza. O João Batista Júnior acompanhou de perto quem apareceu, quem sumiu e o que se falou longe dos microfones. Oficialmente, O evento se apresenta como um grande encontro acadêmico internacional, que, segundo o ministro, reuniria 432 palestrantes e 2.400 participantes credenciados. Mas nessa edição, sabe-se que a presença de empresários, ministros do Supremo e do STJ diminuiu. E houve um grande esforço para levar autoridades. Antes, figuras ligadas ao caso Master andavam livremente pelos eventos. Os irmãos Batista marcavam presença e Tarcísio de Freitas, no ano passado, circulava com ares de presidenciável. Em 2026, o clima é outro. Seja porque o master contaminou o Judiciário com doses de whisky Macallan, seja porque o STF, que frequenta eventos internacionais, tem se mostrado refratário a discutir regras que disciplinem essas viagens. O ministro Gilmar Mendes chama as críticas ao evento de ingênuas, mas o próprio esvaziamento sugere outra coisa. O evento continua relevante, caro e influente, mas em algumas rodas ele se tornou um passivo a ser evitado. Vamos saber melhor essa história. É isso, vem com a gente. Bom, a gente começa falando do tarifaço, do novo tarifaço, né? Os Estados Unidos propuseram essa tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros e colocaram até o Pix no pacote de acusações contra o Brasil. A medida não é definitiva, mas ela é bastante plausível e bastante possível e cria muita incerteza para quem exporta, enfim, para todo o setor industrial, para todos os empresários, e também de certa forma reacende essa disputa sobre o comércio, né, sobre os Estados Unidos usarem essa tarifa para prejudicar concorrentes brasileiros. Num contexto em que as exportações brasileiras para os Estados Unidos estão no seu mínimo histórico. Hoje, 9,4% das exportações brasileiras vão para os Estados Unidos. Nunca foi tão baixo. Celso, vamos começar com você.
Celso Rocha de Barros:Sim, senhora. Então, gente, o negócio é o seguinte: o tarifácio anterior era totalmente ilegal, era crime, era mutreta. Por quê? Porque o Trump usou um mecanismo jurídico para implementar aquele tarifácio que era totalmente furado, era uma coisa que Cabe usar em situações de segurança nacional, que obviamente não era o caso das tarifas que ele tava implementando. Que aconteceu? A Suprema Corte derrubou as tarifas do Trump. Aí o pessoal lá protecionista do Trump e o pessoal que quer usar as tarifas como mecanismo de pressão para conseguir outras coisas de diversos países, inclusive o Brasil, eles foram lá de volta lá para biblioteca para pesquisar uma nova maneira de fazer essas tarifas que enfim, resistir aos tribunais, né? E o que eles fizeram agora é essa utilização da Seção 301, tá dentro da lei, eles podem fazer isso. Por isso que tem muita gente dizendo que esse tarifácio é, num certo sentido, mais perigoso. Mesmo que as tarifas iniciais da outra vez fossem maiores, esse tem mais chance de colar, entendeu? Tem mais chance de durar.
Voz B:Até porque, de certa forma, eles estavam mantendo a Seção 301 aberta, essa investigação aberta, mesmo depois de ter negociado o fim das tarifas, justamente para garantir garantir que a negociação de um acordo comercial com o Brasil fosse vantajosa para eles, porque caso contrário eles tinham a ferramenta da 301 e usaram, né?
Celso Rocha de Barros:Exatamente. Bom, quais foram as desculpas para as tarifas dessa vez? Não tinha mais essa história toda de xandão, né? Então eles tiveram que apelar para outra coisa. Primeiro argumento: o PIX. Então o governo americano tá dizendo que o PIX faz concorrência desleal com as empresas americanas que oferecem serviço de pagamento, tanto as empresas de cartão de crédito quanto essas big techs que têm seu próprio sistema de pagamento que são pagos. O Pix sendo de graça, naturalmente, tem uma vantagem competitiva. Aí, para vocês analisarem isso, recomendo vivamente a coluna do economista Bernardo Guimarães na Folha, em 2 de junho de 2026. O Bernardo é um economista liberal muito consequente e o título de estudo é "O Pix é eficiente e os cartões são parasitas". E o argumento dele é que, bom, o Pix é um sistema que você paga R$100, o cara para quem você tá pagando recebe R$100, acabou. Não tem como ser mais eficiente do que isso. É instantânea, muito rápido. Para o Banco Central, cada transação custa mais ou menos 1 centavo, processamento da transação. Então, basicamente, o Banco Central tá gastando algum dinheiro, se você pegar o volume completo das transações, mas para garantir um aumento gigantesco de eficiência da economia brasileira. A questão é que esses outros sistemas de pagamento estão cobrando das pessoas para um negócio que poderia perfeitamente ser de graça, como Pix mostra perfeitamente. Então, por exemplo, qual foi a grande jogada do Brasil? Não foi só inventar o sistema, foi obrigar todos os bancos a aderirem. Nos Estados Unidos, o Banco Central americano também inventou um sistema, mas era opcional, os bancos não aderiram. Então, enfim, se o banco da pessoa que você quer pagar não aderiu, enfim, não serve para nada, certo? Então o Pix realmente foi um negócio muito bem pensado, que foi feito aqui no Brasil. E que é sempre bom lembrar, não foi feito por governo nenhum, foi feito pelo corpo funcional do Banco Central. Aí você vai dizer: mas você não é funcionário do Banco Central? Sim, mas os outros caras são bem melhores que eu.
Voz B:Ô Celso, mas será que eu posso só trazer um argumento pra coluna do Bernardo? Que é o Pix, como ele trouxe uma bancarização enorme.
Ana Clara Costa:Sim.
Voz B:Você vai na praia, tudo que você compra na praia é com Pix, né? Antes, em geral, você não usava cartão pra comprar coisa na praia, mas hoje o Pix. Então, ao trazer essa bancarização enorme, o Pix fez com que muita gente que não usava cartão passasse a usar também. Então, a indústria de cartões, ela duplicou o seu fluxo financeiro depois do Pix, foi de 2 trilhões para 4 trilhões. O grande pleito da indústria de cartões hoje é que eles querem usar o Pix também, eles querem permitir o Pix via cartões. Não sei como que eles vão fazer isso e continuar ganhando dinheiro, porque eu não sei como que eles vão cobrar a taxa sobre isso.
Celso Rocha de Barros:É, o que eu acho que o Bernardo tá se referindo é sobretudo ao serviço de pagamento, porque o cartão de crédito tem outros serviços embutidos, né? Você paga depois, pode ter um monte de coisa. As empresas de cartão oferecem outros serviços além de simplesmente ser serviço de pagamento. Então esses outros serviços do cartão não perdem para o Pix. E aliás, como você disse, podem até ganhar com o Pix, visto que um número incomparavelmente maior de pessoas fez uma conta qualquer numa fintech dessas para poder usar o Pix e daí em diante ganhou um cartão Visa, um cartão Mastercard, ou coisa que eu falei. O que o Pix eu acho mais problemático também são para essas big techs que querem fazer o seu próprio serviço de pagamento, entendeu? Como o da WhatsApp e aquelas coisas, enfim. Mas o principal argumento aqui é o seguinte: os Estados Unidos está querendo dizer que o 'Ah, o Brasil apoia o Pix como apoiaria uma empresa nacional, como se fosse um campeão nacional, então como se apoiaria a JBS, por exemplo.' Mas o Pix não é uma empresa, o Pix não é feito para dar dinheiro para o seu administrador, que é o Banco Central. O Pix é uma infraestrutura de negócios, é uma coisa como uma estrada, como, enfim, a banda larga que as pessoas usam para internet, que o Banco Central oferece de graça, porque isso aumenta imensamente a eficiência do sistema. Então a comparação que se o Brasil tivesse dando juros subsidiados para JBS ou para alguma coisa não tem o menor sentido. Argumento americano é absolutamente O outro argumento dos americanos é o desmatamento. E aí eu vou recomendar vocês um outro texto, que esse é realmente devastador, da genial Patrícia Campos Mello, que saiu no dia 2 de junho de 2023 agora, que tem o título Novo Tarifaço de Trump Pune o Brasil por Práticas que os Estados Unidos Também Adotam. É devastador. Então, por exemplo, tem produtores de gado, tem uma vantagem desleal porque eles desmatam ilegalmente e usam essa terra para produzir. Bom, primeiro, eu gostaria muito de ouvir a opinião dos bolsonaristas sobre isso, se eles acham que realmente está tendo desmatamento demais na Amazônia, Amazônia, o que que eles acham que poderia ser feito para acabar com desmatamento imediatamente, né? Mas como mostrou a Patrícia Campos Mello, essa posição distoa completamente da política ambiental do Trump, que é totalmente voltada para desregulamentação completa. Então o Trump destruiu a legislação ambiental americana. Nos Estados Unidos, atualmente, você pode fazer o que você quiser com o meio ambiente e tá beleza. E o mais bizarro é que o dado de desmatamento que os Estados Unidos está apresentando aqui é de 2021, é do governo Bolsonaro, que número 1 é o cara que Trump tá querendo colocar no poder de volta, E número 2, é um número que declinou dramaticamente desde que o Bolsonaro saiu do poder. Uma das coisas que você discutiria no caso de um processo por Seção 301 era assim: bom, tá bom, tem esse problema, mas o país tá fazendo alguma coisa para lidar com isso? E no caso do desmatamento, a queda de desmatamento quando Marina Silva se torna Ministro do Meio Ambiente é brutal. Então é mais um argumento 100% picareta. O outro argumento do Trump é a falha na aplicação de leis anticorrupção. Isso até é engraçado, né? Mas enfim, Bom, a Patrícia Campos de Mello chama atenção aqui: uma das primeiras ordens executivas do Trump foi a suspensão da Lei de Práticas Estrangeiras de Corrupção em 10 de fevereiro de 2025, que em tese seria uma lei que estaria travando empresas americanas no exterior com excesso de burocracia para provar que eles não estavam praticando corrupção. Então tava dando desvantagem para essas empresas com relação a outras empresas de países que não teriam esse tipo de rigor, né? E é bom lembrar, né, enfim, a gente já falou várias vezes aqui, a corrupção do governo Trump é um negócio seríssimo, né?
Voz B:O volume é uma coisa assim muito difícil de achar paralelo. Você acessar a Casa Branca por interesses particulares não é um problema lá hoje.
Celso Rocha de Barros:Exato. Como aliás falaremos mais adiante. E aí ele cita como exemplo de falha no combate à corrupção as decisões do Toffoli com aqueles acordos de leniência lá com as empreiteiras, que cá entre nós são um absurdo mesmo. Agora, quem acabou com a força-tarefa da Lava Jato foi o governo Bolsonaro, que disse que acabou com a Lava Jato porque no governo dele não tinha mais corrupção. Essa citação é verdadeira, jovens, vocês podem pesquisar na internet. Finalmente, Estados Unidos argumenta que o Brasil merece ser sobretaxado por causa das políticas restritivas com relação às big techs, a liberdade de opinião, aquelas lenga-lenga tudo. E aqui o contra-exemplo é óbvio, são as ações do governo Trump contra o TikTok, que era uma empresa chinesa que foi obrigada a vender participação lá da filial americana, né, para turma do Trump, para uns oligarcas lá próximos ao Trump. E eles passaram justamente a cuidar da moderação de conteúdo. Então essa ideia de que a direita trumpista tá brigando pela liberdade de opinião enquanto os reguladores querem fazer censura, isso é bizarro. E aliás, enfim, se você ainda tá lá no site do Elon Musk, primeiro lugar, meus pêsames. Segundo lugar, assim, você já deve ter notado que o algoritmo é completamente enviesado, né? Então ele basicamente tá promovendo o conteúdo que ele defende por oposição a coisas que refutam a visão de mundo dele, de modo que os argumentos são totalmente picaretas. E agora, o efeito real disso sobre a economia brasileira pode ser totalmente real, né? Segundo uma matéria do UOL de 3 de junho, a XP Macro Research projeta um prejuízo de mais ou menos 2,3 bilhões de dólares para o Brasil. Tem outras estimativas que são maiores, que chegariam a 4 bilhões. E aí, enfim, depende muito também do que você leva ou não leva em conta nessa estimativa. Mas o fato é o seguinte: isso não vai quebrar o Brasil. O PIB brasileiro é incomparavelmente maior que isso. Assim, não vai mexer na porcentagem de crescimento do PIB. Agora, para os setores afetados, isso é muito grave. Se você pega, por exemplo, a indústria de máquinas industriais, por exemplo, é um setor que o pessoal está achando que vai sofrer muito. Um monte de gente aqui vai perder emprego, empresas podem quebrar, entendeu? Assim, a concorrência internacional nesse setor é muito intensa. Então, pô, se de repente o Trump decide que o seu preço é 30% maior ou 20%, a gente ainda tá tentando entender como é que vai ser a soma de várias tarifas que ele anunciou. Então não dá para ainda calcular exatamente quanto cada setor vai ser tarifado. Mas enfim, é uma notícia muito ruim para o Brasil, que vai sobreviver, enfim, e eventualmente vai achar outros compradores para os seus produtos. Quer dizer, a China tá ali do lado recebendo gente que os Estados Unidos não quer. "Mas isso vai ter um curso de transição, né, vai demorar um tempo para a gente estabelecer a logística para fazer isso." E era um prejuízo totalmente desnecessário que, enfim, a gente vai ter que administrar de agora em diante.
Ana Clara Costa:Eu gostaria de colaborar um pouco com essa discussão, Celso e Ana, pelo seguinte: nessa época do ano, quando parte do PIB e do poder do Brasil se desloca aqui para Lisboa, a gente pôde acompanhar essa hecatombe, né, que o anúncio causou na terça-feira com as pessoas que comandam o mercado. Então houve na manhã dessa quarta-feira, menos de 24 horas depois do anúncio do Trump, uma mesa chamada Rumos da Economia Brasileira: Reflexões Internacionais. E a pessoa principal que estaria presente era o Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. Ele participou via Zoom porque ele tava a caminho de Xangai. Ele falou, falou e não falou nada. Ele não citou a palavra PIX. Foi um pouco frustrante. Mas outros palestrantes vieram com mais contundência. O Galípolo teve que ter as suas restrições óbvias para poder falar do assunto. Mas o Nelson Barbosa, por exemplo, ex-ministro da Fazenda, e a Cláudia, diretora de Planejamento e Relações Institucionais, regionais do BNDES, falou que a transição tecnológica é irreversível, que ele não quer saber de tarifácio. O Isaac Sidney, que é o presidente da FEBRABAN, ele foi muito mais além. Ele falou que o Trump nesse segundo mandato tem tentado agir como xerife mundial, multiplicado incertezas e deixando o mundo mais incerto, o que causa riscos. Ou seja, era uma plateia formada por empresários e por advogados, ele tava dizendo que o tarifácio ele causa uma instabilidade jurídica. Você não sabe como vai ser o amanhã e isso é para qualquer tipo de previsão econômica. Eu fui falar com o Isaac Sidney depois da palestra e aí ele falou coisas que eu achei bem relevantes. Ele falou assim: o argumento de PCC e de lavagem de dinheiro em geral não cola, porque lavagem de dinheiro existe desde que o mundo é mundo, não começou depois que o Pix nasceu.
Voz B:É, e ele representa os bancos, né? Então, se tem um setor que é afetado por essa medida é o setor bancário, né?
Ana Clara Costa:E ele falou, Ana, o que vocês falaram anteriormente, que o Pix foi excelente para o mercado bancário como um todo, ele aumentou a competitividade. As pessoas começaram a entrar, a serem bancarizadas justamente pelo Pix. A partir do Pix vem o cartão, vem o empréstimo, vem consignado. O Pix foi assim formidável de todas as formas. Ele falou que não tem problema e que eles vão rechaçar isso de todos os modos. Daí depois veio o Eduardo Lopes, que ele tem um cargo meio chiquetoso, diretor de políticas públicas do Nubank. E aí ele reforçou a importância do Pix, que se tornou uma referência global, que o Banco Central do Brasil é muito consultado por demandas externas de pessoas que querem copiar o modelo, né, fazer algo parecido. E aí ele veio com dados. Ele falou o seguinte: 300 milhões de operações de Pix foi recorde de um dia no Brasil. Então, se a gente pensa em Faria Lima e mercado como um todo, que muitas vezes tendem a apoiar um candidato mais conservador, vamos pensar assim, quando pega no bolso, eu não sei se eles vão pensar da mesma forma, porque se um candidato tem trabalhado ativamente para, quem sabe, taxar esse Pix, isso pode mudar a configuração. Eu fui para uma outra mesa em que tava o Dr. Luizinho, líder do PP carioca e deputado federal, linha de frente do bolsonarismo. Eu Eu perguntei para ele o que ele achava dessa medida do Flávio Bolsonaro e, por consequência, a nova tarifa do Donald Trump. Ele falou o seguinte: não pode acabar com a soberania nacional de forma alguma, que se de fato houver uma retaliação da taxa de PIX, isso vai prejudicar o Flávio e ajudar numa reeleição do Lula. Ou seja, o aliado reconhece. Por fim, eu fui falar com Alexandre de Moraes, que ao fim dessa mesa sobre economia estava parecendo Mickey Mouse na Disney de tanto fotografado e paparicado. Enfim, era fila de gente querendo fazer selfie com o Xandão. E ele falou o seguinte: desta vez não é comigo. Ou seja, o Trump não tirou essa tarifa do nada a respeito dele. O que que ele acha? Que em razão de haver o Pix parcelado, os Estados Unidos quiseram criar uma retaliação pensando que seria um concorrente direto ao cartão de crédito. É isso.
Voz B:O João, e durante as suas conversas lá, essas conversas de bastidor que você ama e que a gente ama ouvir, qual que era a reação do empresariado, considerando que o "prefere empresariado em massa, preferiria, mesmo que a contragosto, Flávio ao atual governo". Você achou que tem um clima mais, digamos, azedo em relação ao Flávio depois dessas várias medidas das últimas semanas?
Ana Clara Costa:Ana, tem uma coisa que é curiosa. Em razão do fuso horário, quando a medida foi anunciada, o dia 2 do Lollapalooza estava em curso. Então as pessoas foram pegas de surpresa pelas manchetes do Brasil. E eu acredito que ficaram surpresas de fato. Ninguém imaginava que o Pix ia ser arrolado numa nova tarifa. E depois a foto do Trump creditando ao Flávio, esse bom homem, esse grande estadista. As pessoas ficaram surpresas. E assim, acho que mais do que ideologia, o empresariado, os grandes advogados, eles gostam de dinheiro, né? Ninguém gosta de perder dinheiro. Se há no horizonte a possibilidade de uma taxa de algo que o cliente dele gosta de pagar, bom, o Gilmar Paluza mesmo custou R$1.200. Como que as pessoas pagaram? PIX, claro, era um meio de pagamento para ele. Eu falei com advogado e ele falou assim: não é só os bugs que a gente tem que pensar. Nós gostamos do PIX, eu gosto de usar PIX, eu gosto de não pagar juros, eu fico feliz em saber que a pessoa que tá recebendo o valor tá recebendo de forma integral. Nós brasileiros gostamos do PIX, tem uma coisa de ser uma espécie de orgulho nacional, tanto para quem ganha, né, tanto para gente que faz pagamento. Enfim, eu achei que ninguém gostou.
Voz B:Bom, então com esses bastidores do Gilmar Paluza, a gente encerra o primeiro bloco do programa.
Ana Clara Costa:O programa.
Voz B:E no próximo bloco a gente continua falando de Tarifaço, mas agora das consequências políticas. A gente já volta.
Ana Clara Costa:O Domingão destaca o coral das Meninas Cantoras de Petrópolis.
Voz B:Por quase 40 anos, esse coral fez sucesso em apresentações pelo Brasil Brasil e pelo mundo. As meninas gravaram com artistas como Simone, Roberto Carlos, Gilberto Gil, Sandy Júnior e Xuxa. Elas apareceram em programas de TV vistos por milhões de brasileiros. No palco, as Meninas Cantoras de Petrópolis, o único coral feminino do Brasil. O fundador do grupo, o maestro Marco Aurélio Xavier, dizia que fazer um coral só com para as meninas era uma forma de reparação histórica. Mas longe dos holofotes, a história era outra. Ex-integrantes relatam humilhações, abusos psicológicos e abusos sexuais. Na Piauí de Junho, eu, Cristina Fibe, conto a história de 17 ex-integrantes do coral que, depois de décadas de silêncio, decidiram falar pela primeira vez. Elas contam como o prestígio do grupo ajudou a encobrir um ambiente de medo, controle e violência contra crianças e adolescentes. O assinante da Piauí lê esse e outros artigos no papel, no celular ou no computador. Saiba mais em revistapiaui.com.br. Aproveite o último final de semana da Feira do Livro 2026, no Festival Literário a Céu Aberto. Fernando Moraes, Jefferson Tenório, Natercia Pontes, Silviano Santiago, Vera Iaconelli, Zélia Duncan e muito mais vão ocupar a Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, até o 7 de junho. O evento é gratuito. Venha ocupar a praça com a gente. Siga a Feira do Livro no Instagram para conferir a programação completa. Realização: Ministério da Cultura, Associação 451 e Maré Produções.
Ana Clara Costa:Boas ações!
Voz B:Estamos de volta e a gente agora vai falar sobre essa disputa política decorrente desses últimos acontecimentos, né? Primeiro, a denominação do PCC e do Comando Vermelho, que foi uma vitória, digamos, em certa medida, do Flávio, né? Conforme a gente a gente falou no episódio anterior, e essa nova possibilidade de tarifa e de confusão em torno de uma instituição nacional, como é o caso do Pix hoje, né? Como o histórico da família Bolsonaro com o tarifaço não é muito alviçareiro, né, digamos, porque houve uma responsabilização muito grande da família Bolsonaro depois do tarifaço no ano passado, até porque os filhos do Bolsonaro e todo bolsonarismo, Tarcísio social, todo mundo se orgulhou do tarifácio, né, naquela época. E viu no que deu. E agora o Flávio já tentou fazer uma medida, de certa forma, como vacina, né? Essa divulgação da carta ao Marco Rubio é uma forma de dizer que isso ele não queria e que isso é culpa do governo Lula. O governo Lula, por sua vez, vê no ataque ao PIX uma forma de contra-atacar ajudar o Flávio no campo eleitoral, né? Porque tudo que ataca o PIX já se sabe que o brasileiro é contra, né? Assim, aquele primeiro episódio do imposto sobre o PIX, vídeo que o Nicolas fez, né, deturpando uma regra da Receita Federal que não tinha nada a ver com PIX e que ele acabou transformando em algo sobre o PIX. E o governo viveu assim um momento de caos, né, de popularidade Então o governo aprendeu na prática o que é ser responsabilizado por algo relacionado ao Pix, e é isso que eles querem fazer com Flávio Bolsonaro nesse caso. Então é ruim o tarefaço para o país, com certeza, mas há uma intenção do governo também de tentar faturar politicamente em cima disso contra o Flávio. Celso, que que você acha de tudo isso que aconteceu?
Celso Rocha de Barros:Eu acho exatamente isso que você disse. Eu acho o seguinte: o Trump deu um vídeo do Nicolas para o Lula. Então o Lula apanhou para caramba por causa daquele vídeo do Nicolas. O Trump falou: bom, tá aqui, toma aqui, agora você defende o PIX. Então o governo achou isso maravilhoso, porque para o governo foi maravilhoso mesmo. Era um ponto fraco do Lula, porque o Bolsonaro tinha conseguido colar na opinião pública a ideia de que o governo era contra o PIX, que o governo talvez taxasse o PIX. Inclusive eu lembro do vídeo do Nicolas, sob esse ponto de vista era muito bem feito, que ele não dizia não dizia que o Lula ia taxar o Pix. Ele dizia talvez taxe, talvez não taxe, vai ficar sob o olhar da Receita, então talvez você seja taxado, entra numa líquida, enfim. Ele operava pelo medo, exatamente, pelo incerto, exatamente. Cai entre nós, aquilo foi uma jogada de mestre dele, politicamente falando, né, não, enfim, do ponto de vista do interesse brasileiro. Mas da mesma forma que o Trump entregou para o Lula agora, é tudo que ele podia querer em termos de contra-ataque aqui há 3 anos de vídeo do Nicolas falando de PIX. Se isso vai ter efeito eleitoral, a gente não sabe, porque agora começa a batalha das narrativas, né? Cada um vai tentar colar uma versão diferente sobre esse negócio. O que permanece verdade sobre qualquer ângulo que você olhe é que, graças ao apoio da Casa Branca, o bolsonarismo continua sendo o único movimento político que conseguiu aumentar imposto dos brasileiros estando na oposição. Isso realmente é uma façanha, isso ninguém tinha conseguido até hoje. E eles realmente merecem nossos parabéns por causa disso. Os bolsonaristas continuam usando uma superpotência para chantagear a economia brasileira, para chantagear a democracia brasileira, e eles topam entregar qualquer coisa em troca desse apoio. Se o Trump dá para eles um photo op daqueles, entra aqui 5 minutos, tira uma foto comigo, os caras já defendem qualquer coisa que o Trump faça. A gente ainda tá apurando para saber se o bolsonarismo pediu essa sanção ou não. O Flávio diz Não, mas até aí o Flávio dizia que não tinha dinheiro do Volkaren Dark Horse, né? Então assim, não é uma pessoa mais confiável. Agora, que não tem a menor dúvida é que a existência do bolsonarismo no Brasil é um instrumento na mão do Trump. Quando ele faz uma coisa dessa contra o Brasil, o normal seria o país inteiro se unir contra a iniciativa americana, mas ele sabe que isso não vai acontecer, que tem um movimento político que nas pesquisas eleitorais tem mais de 40% da que vai dizer que não é atentado à soberania, que vai dizer que isso é culpa do Lula, que vai dizer que o Trump tem lá sua razão. Então, enfim, quanto Trump puder contar com esse tipo de coisa, ele vai usar, ele vai usar para tentar conseguir do Brasil as coisas que os Estados Unidos quer. Da mesma forma, ameaça da Casa Branca dizendo: olha, eu posso entrar aqui com tudo apoiando o Flávio Bolsonaro na eleição, né? Eu posso fazer um monte de maldade contra o Brasil para facilitar a vida de Flávio Bolsonaro. Isso serve também como mecanismo de pressão contra o governo brasileiro, né? Quer dizer, façam o que eu quero, senão eu tenho um outro puxa-saco aí que faz o que eu quero. Então assim, a existência do bolsonarismo como um movimento fortemente articulado com essa extrema-direita internacional, que no momento ocupa o cargo mais poderoso do mundo, é um problema sério para economia brasileira, para democracia brasileira, para diplomacia brasileira, que fragiliza o Brasil em todos esses Campos, os Estados Unidos, quando negociam com a gente, sabe que a gente tá andando com uma perna só, entendeu? A outra perna tá jogando a favor deles. E eu não tô dizendo aqui que todos os eleitores do Bolsonaro são traidores da pátria, que obviamente não é o caso, quer dizer, enfim, tenho certeza que deve ter gente ali imensamente patriótica, mas que enfim, a liderança de vocês tá levando vocês para esse caminho, quer dizer assim, nesse exato momento vocês estão defendendo os interesses americanos contra os interesses brasileiros. E aí o que eu achei notável realmente foi o Trump postar a foto com Flávio no dia que anunciou o novo tarifácio, porque ele não postou a foto com Flávio quando O Trump fez a reunião com Flávio. No dia que o Trump fez lá a reunião com Flávio, que os bolsonaristas dão a impressão de que eles ficaram horas discutindo geopolítica internacional, os relatos são de que foi um negócio muito rápido e com muito pouca profundidade, né? A Ana mostrou aqui no programa passado inclusive que a história do PCC e do Comando Vermelho já ia acontecer mesmo. Os bolsonaristas que cronometraram a viagem para passar por lá pouco antes da decisão sair. Agora, naquele dia, por exemplo, o Trump evidentemente não deu importância nenhuma para aquilo, tanto que ele nem postou isso nas redes sociais dele. E o Trump posta tudo, gente. O Trump passa o dia inteiro naquela trufa, aquela rede social dele. E ele postou agora quando ele fez o Tarifaço, que justamente— exatamente. Mas eu tenho certeza que teve bolsonarista pensando isso: Trump, como é que você faz isso com a gente, né? Mas é porque ele não tá interessado nos bolsonaristas, ele tá interessado em usar os bolsonaristas para conseguir as coisas que ele quer. Enquanto ele tiver uns caras quinta coluna aqui que vão defender Tarifaço dizendo que é culpa do Lula, ele vai usar.
Ana Clara Costa:Para isso.
Celso Rocha de Barros:E o problema é o Brasil continuar achando isso normal, né? E é sempre bom lembrar uma última questão aqui: o Flávio foi para os Estados Unidos para tentar abafar a roubalheira do Banco Mastra. A coisa tá ficando cada vez mais feia, tá ficando cada vez mais claro que o Dark Horse era um ralo de dinheiro. Então você tem emenda parlamentar que foi parar no Dark Horse, que ninguém sabe se foi para filme mesmo. Você tem dinheiro da prefeitura de São Paulo.
Voz B:Não, nem que fosse para o filme, né?
Celso Rocha de Barros:Mas eu acho perfeitamente legítimo nos perguntarmos se esse dinheiro ia mesmo para fazer algum filme, ou se o filme era uma conta bancária para onde ia todo o dinheiro desviado por bolsonaristas dos mais variados lugares, ou seja, do pessoal do Master, seja o pessoal da Prefeitura de São Paulo, seja os caras desviando por meio de emenda parlamentar. E aí, será que foi esse dinheiro que comprou o acesso dos irmãos Bolsonaro à Casa Branca? Porque isso aí, aliás, não é só com Trump. Sempre foi possível você contratar lobista nos Estados Unidos. Em Washington tem a rua K Street, que é uma rua de lobistas, basicamente. Você vai lá e você contrata os caras Os caras te dão acesso às esferas de poder.
Ana Clara Costa:Que quando eu tive com Eduardo Bolsonaro do ano passado para fazer aquela reportagem para revista Piauí, que aliás é excelente, obrigado, ele falou que havia contratado um escritório nos Estados Unidos. Então não é só o charme dele, do Paulo Figueiredo, tem gente trabalhando por trás.
Celso Rocha de Barros:Exatamente. E esse pessoal é bastante caro. Então a dúvida que todo mundo tá é o seguinte: tem dinheiro aí que em tese ia para filme e que na verdade foi para o Eduardo Bolsonaro operar esses lobistas nos Estados Unidos? E aí a pergunta que A dica é: os bolsonaristas pegaram dinheiro roubado de aposentado do Rio de Janeiro, pegaram dinheiro da Prefeitura de São Paulo, pegaram dinheiro de emenda parlamentar para comprar acesso ao Trump, para conseguir tarifas contra o Brasil. Porque cá entre nós já tá parecendo um vilão de desenho animado, né, se você começa a contar a história toda desse jeito.
Ana Clara Costa:Ô Celso, eu quero aproveitar o teu gancho para falar um pouco do dark horse e do escoamento de dinheiro. Nesta semana, o Intercept deu um furo bem relevante a respeito da Karina Gama, que é a produtora do filme, e É a mulher que fechou um contrato com a prefeitura de São Paulo por mais de R$100 milhões para levar 5 mil pontos de Wi-Fi. No fim, ela não levou 5 mil pontos de Wi-Fi, houve aditivo no contrato e isso tudo tá muito nebuloso, de forma que agora tá sendo investigado se parte desse contrato do Wi-Fi também não seria usado no dark horse. Eu falei com uma pessoa para poder entender quem é essa mulher, né? Ela é nascida na Brasilândia, periferia de São Paulo, ela nunca foi produtora cultural de filme e ela nunca teve um roteador que ela instalou em nenhum lugar. Ela não era do ramo de Wi-Fi. Aí essa pessoa me contou um passadinho dela. Essa pessoa trabalhou com a Karina por um tempo na feitura de um musical do Conrado, marido da Andréia Sorvetão, A Paquita Fascista.
Voz B:Meu Deus, aqui vocês vão ouvir bastidores de Dark Horse, cara. Essa última frase vocês não vão ouvir em lugar nenhum. Se preparem.
Ana Clara Costa:O Conrado e a Andréia Sorvetão queriam fazer um musical a respeito da vida dele, a vida e obra de Conrado. Seriam São 2 dias de musical em São Paulo, no Teatro da Sabesp, que é um teatro que fica dentro do Shopping Flecaneca, um teatro fechado. Então pessoas foram contratadas, a Karina foi a mulher responsável para executar esse musical. E ela falava para os contratados: não se preocupem com dinheiro, dinheiro depois eu resolvo. Depois ela falava: olha, você tem cadastro na SP Tours? Porque vai ser pela SP Tours que o dinheiro vai vir. SP Tours é uma autarquia da cidade de São Paulo que cuida do turismo.
Voz B:Ou seja, é uma empresa pública.
Ana Clara Costa:É uma empresa pública, Ana, que em financeiro na esteira da má administração do Carnaval de São Paulo. O Gustavo Pires, que era o dirigente da SP Tours, foi mandado embora. Ele está sendo investigado por contratos suspeitos de mais de R$200 milhões. Então há um escândalo de corrupção no governo Nunes através da SP Tours.
Voz B:Só pra gente entender, a empresa pública que faria os pagamentos pras pessoas contratadas pra essa peça que a produtora de Dark Horse faria em São Paulo com a estrela Conrado, é isso?
Ana Clara Costa:Exatamente. E daí, quando as pessoas cobravam dinheiro dela, ela falava: eu sou foda, cara, boto o show de pé em uma semana. Aí vamos pegar o passado dela. A Karina, que mais uma vez nunca tinha colocado um ponto de Wi-Fi na vida, nunca tinha produzido um filme na vida, ela chegou ali na Prefeitura de São Paulo para executar esse contrato de Wi-Fi através do Milton Vieira, deputado federal pelos republicanos e pastor da Igreja Universal do Reino de Deus. Ele naquele momento era secretário de Inovação e Tecnologia. Secretaria tem um nome bonito. Ele saiu em março esse ano para retomar a Câmara dos Deputados em Brasília. A Karina também é ligada à Igreja Universal, isso ela falava para todo mundo. E a Karina também é ligada a essa turma um pouco mais estridente, tipo Adrílis, que é um vereador de São Paulo, Jovem Pan. E a gente tá falando do Conrado e Andréia, que também são ligados a partidos cristãos, né?
Voz B:Eles são o núcleo artístico do bolsonarismo: Mário Frias, Andréia Sorvetão, Conrado.
Celso Rocha de Barros:Aí ferrou, você imagina!
Ana Clara Costa:Eles deveriam fazer configuração em Dark Horse, gente, só assim vai salvar esse filme. Exato. Então é isso, é uma mulher que ela não teve nenhum tipo de passado nem ligado a tecnologia e nem ligado ao audiovisual e ela tava ali operando esses milhões de reais. Agora, o que que é curioso? O Intercept mostrou que não foram 5 mil pontos de Wi-Fi, mas tinham muitos pontos e esses pontos potencialmente eles estavam captando dados dos usuários, ou seja, as pessoas que estavam ali cadastrando pra usar o Wi-Fi público, elas tavam cedendo evidentemente e-mail, endereço, número de CPF, aquela essa coisa toda para o Big Data operado supostamente pela Karina, para depois terem os seus dados usados em disparos em massa de WhatsApp para potenciais candidatos ligados à Karina. Agora, o que fica no ar é o seguinte: a Karina, ela tá ali à mando de quem? É muito dinheiro para operar, né? O contrato com a Prefeitura de São Paulo é mais de 100 milhões, o contrato com Dark Horse é multimilionário também. É isso que as investigações têm que mostrar.
Voz B:E a Prefeitura de São Paulo, embora o Ricardo Nunes seja do MDB, ele é mais bolsonarista que de alguns deputados do PL, certo aspecto, né?
Ana Clara Costa:Sem dúvida. O Nunes, na verdade, ele é uma figura bastante, eu vou usar o adjetivo, curiosa. Porque ele é um bolsonarismo de ocasião. Bolsonarista mesmo é o vice dele, o Coronel Mello Araújo, que foi entubado pelo Bolsonaro. Bolsonaro, em troca do apoio, exigiu que o Mello Araújo fosse o vice. O Nunes, ele é pragmático, ele poder. Ele é Milton Leite, ele é um homem que chegou ali por outras vias, ele não chegou ali por causa do bolsonarismo, mas ele aderiu. E esse contrato do wi-fi foi feito pela Karina, que por sua vez era apadrinhada por um pastor da Universal e ligado a Republicanos. E tem uma outra coisa curiosa: quando Gustavo Pires da SPTUR foi demitido na esteira da investigação por contratos suspeitos, portanto opção, o Nunes não defendeu. Ele cortou a cabeça, falou que tinha que ser investigado. Já a Karina, ele falou assim dela: acho uma pessoa decente, uma mulher trabalhadora, uma mulher que, como outra, está batalhando e que conhece o Bolsonaro, né? Então tá passando por isso. Ou seja, ele disse que é perseguição política, uma perseguição política e um contrato de mais de R$100 milhões.
Voz B:É mais um capítulo do Dark Horse.
Celso Rocha de Barros:Nossa, qual será o nome da peça do Conrado? Deve ser Dark alguma coisa, perfeito também.
Ana Clara Costa:Ai, o nome é perfeito! Que bom que você tocou nesse assunto. Amor Ainda É Tudo é o nome da peça.
Celso Rocha de Barros:Cara, eu não acharia estranho se o roteiro de Dark Horse não fosse uma adaptação de Amor Ainda É Tudo em inglês.
Ana Clara Costa:Ai, meu Deus.
Voz B:Bom, depois desses bastidores que o ouvinte não encontrará em lugar nenhum sobre Dark Horse e seus desmembramentos comentários, a gente encerra o segundo bloco do programa. E no próximo bloco vamos de João Batista Júnior com todos os bastidores do Gilmar Paluza. A gente já volta. Olá, ouvintes do Foro de Terezina! Aqui quem fala é a Erika Palomino e aqui é o Olá, queremos convidar você para o nosso novo videocast, o Babado Forte.
Ana Clara Costa:A gente veio aqui porque sabe que vocês adoram as histórias por trás da história, e nesse nosso videocast a gente vai fazer isso, só que usando a moda e a cultura como a nossa antena.
Voz B:A ideia é entender de que maneiras a moda atravessa a cultura, as artes e o nosso dia a dia de um jeito vivo, como ela transita do mundinho dos desfiles, da internet, das influências para um mundão muito maior e sobre como isso impacta a vida real.
Ana Clara Costa:A gente vai falar de filmes, de séries e vai entrevistar quem trabalha com moda e com cultura para entender quais são os movimentos que estão acontecendo por aí.
Celso Rocha de Barros:E o primeiro episódio do Babado Forte vai ser bem especial.
Voz B:Ele vai ser ao vivo, com plateia e tudo, no Web Summit Rio. Vamos conversar com Claudia Kopke, que assina o figurino do filme Ainda Estou Aqui. Esperamos você no Rio Centro, dia 11 de junho, às às 5 horas da tarde.
Ana Clara Costa:E se você quiser que sua marca faça parte desse babado fortíssimo, manda um e-mail para comercial@radionovelo.com.br.
Voz B:Cidades aceleradas precisam de pausas que conectam. Alinhar o bem-estar com áreas verdes se torna um refúgio para o corpo e a mente. O Festival Florestar realça a conexão entre a natureza e o urbano. Do quintal à floresta. De 2 a 7 de junho, nas unidades do Sesc. Saiba mais em sescsp.org.br/florestar.
Ana Clara Costa:Realização: Sesc.
Voz B:Estamos de volta. Foi a primeira vez que o Fórum de Terezina tem um correspondente no Fórum de Lisboa, diretamente das articulações do Judiciário Brasileiro. João, conta tudo para gente o que você tem visto aí e, sobretudo, o que só você tem visto aí, porque a gente sabe que é muita coisa.
Ana Clara Costa:Ana, o seu correspondente trabalhou, eu posso te afirmar.
Voz B:Eu não tenho a menor dúvida.
Ana Clara Costa:Foi intenso. Eu tomei tanto café nos últimos dias que eu preciso de um detox de café. Mas vamos lá, o evento começou antes de começar, na real, né? Duas semanas antes, em razão do código de ética do ministro Fachin e de todo esse rolo que o Banco Master dragou o judiciário do Brasil, estava assim esvaziado. Tanto estava que o ministro Gilmar Mendes teve duas estratégias que foram bem-sucedidas. Primeiro, ele convocou os professores da faculdade dele, que é o IDP, a virem para cá.
Voz B:Só um aposto, ele diz que não é dele, ele apenas é do conselho, né? É do filho dele. Essa é a explicação dele para a faculdade.
Ana Clara Costa:Aí ele convocou professores da faculdade da qual ele é conselheiro, porém não dono oficialmente, para vir. Isso, isso. E as pessoas vieram porque passou a ser uma questão de trabalho. Ele foi o brother dos caras, digamos assim. Ele não cobrou o ingresso, o ticket, que é de R$1.200. Então só tinham de pagar a hospedagem e o ticket aéreo, mas a entrada ficou de graça. Eu conversei com um professor que ele me falou o seguinte, o chefe dele falou: "Ó, seria bom se você pudesse E ele entendeu o recado e ele veio. Tanto que no primeiro dia ele já quis postar uma foto no evento para mostrar que, olha, fiz check, tô aqui. Eu falei, mas teu chefe te segue? Ele falou, claro, por isso que eu vou postar. Você acha que eu não iria postar se não fosse isso?
Voz B:Ou seja, houve um trabalho de pressão.
Ana Clara Costa:Exato. Não, sim, convite do Gilmar, as pessoas brincam que não é convite, é convocação, né?
Voz B:E você sabe que se você é convidado para ser palestrante e você não vai, no ano seguinte ele estimula boicotam. É uma desfeita que ele não perdoa.
Ana Clara Costa:Ele fica putaço.
Voz B:E às vezes te boicota até no próprio relacionamento com ele.
Ana Clara Costa:Rapaz, outra estratégia do ministro Gilmar Mendes para deixar lotado essa edição do fórum foi convidar muitas pessoas para participarem das palestras. Ao todo foram 432 pessoas entre homens e mulheres, muito mais homens. Então em alguns painéis tinham 6 pessoas. Quando você é convidado para palestrar, fica ainda mais delicado de você negar, ainda mais vindo ministro que é vaidoso, que gosta de se sentir condecorado. O dia de abertura, que é segunda-feira, acontece na Reitoria da Universidade aqui de Lisboa. É um lugar belíssimo, enorme. Tava, digamos assim, 85% cheio. O Gilmar, ele ficava lá do palco olhando para cima para ver as pessoas chegarem. Sabe anfitrião quando tá esperando o pessoal da festa chegar? Igual. Então ele não fez feio ali. No entanto, depois da abertura, e que de fato daí tem outras mesas que acontecem simultaneamente, então as pessoas se revezam, aí ficou vazio. Ainda no primeiro dia, uma mesa com Hélder Barbalho, com Michel Temer, com Cátia Abreu, com Kassab, ou seja, gente relevante, né, do ponto de vista político, tava bem vazia, assim umas 40% de ocupação. Então vamos lá, de ministro do STF que está no cargo, além dele, o dono do evento, o Alexandre de Moraes. Ex-ministros estavam o Lewandowski e o Barroso. Governador Governadores, Élder Barbário. Prefeitos, João Campos. Também tinha um prefeito de uma cidade chamada Piraí, Rio de Janeiro, o Governador Pesão.
Celso Rocha de Barros:Opa, tá solto, cara!
Voz B:Prefeitura tá pagando bem, Piraí, né, para você poder ir.
Ana Clara Costa:Aí tem uma outra questão: quem que paga para as pessoas virem? É uma salada mista, né? Por exemplo, Hugo Mota, ele desse ano ele não veio no avião da FAB como ele fez no ano passado, ele veio de particular. Mas tem celebridades que vieram para cá, Luísa Brunet, tem pessoas que são muito ricas e daí não precisam que pague nada, como André Esteves e a dona do Magazine Luiza, e tem outros políticos e advogados que vêm porque eles precisam fazer lobby. E é disso que se trata. O Gilmar Mendes organiza um evento que fala de assuntos que são muito relevantes para o dia a dia, sabe? Por exemplo, o uso de IA nas eleições com panelistas da Google, da OpenAI. São coisas que é de interesse público, as pessoas querem escutar. Claro, quem não quer escutar o Ministro Alexandre de Moraes falando de regulamentação de Fintechs. Isso é muito relevante, mas ele faz um evento aqui em Lisboa. A gente sabe que a imprensa, por razões variadas, não tá a mais rica do mundo, então não tem condições de mandar um monte de jornalista para fiscalizar essas pessoas.
Voz B:Mas eles fazem aí justamente para não ter a fiscalização jornalística, né? Senão não seria aí, né? A razão de ser aí é porque fica longe dos holofotes, né? Isso tá mais do que claro.
Ana Clara Costa:Como diriam os portugueses, ora pois, exatamente. Agora, a prova de que tá esvaziado: no ano passado, o Grupo Esfera, que é um grupo de eventos e de relacionamento do João Camargo, ele fez a festa de abertura na cobertura do Flávio Rocha, do Grupo Riachuelo, para 300 pessoas. Tava todo o pibe lá, muitos políticos. Neste ano, o João Camargo não deixou de fazer festa, mas ele fez para 60 pessoas num restaurante chamado Genessequa, dentro produtivo ali, muito, muito mais restrito. Então os eventos aconteceram, mas eles aconteceram mais envergonhados. Duas ausências foram sentidas. Primeiro do Vorkaro, que organizava muitas festas, algumas 18+ aqui em Lisboa. E o Wesley e o Wesley, eles vinham para cá em comitivas com 50, 30 advogados. Então neste ano eles não vieram. Uma figura que chamou atenção foi Ricardo Faria, que é conhecido como Rei do Ovo. Ele ganhou noticiário por ter falado que em razão do Bolsa Família tinha dificuldade gente de contratar gente. E ele também saiu recentemente no noticiário porque ele comprou uma cobertura do Daniel Porcaro por R$50 milhões. Opa! Uma das mesas que eu, por cobrir bets e por achar esse assunto jornalisticamente fascinante—
Voz B:é, nosso ouvinte sabe que o João Batista é o autor das reportagens sobre o jogo do Tigrinho na Piauí.
Celso Rocha de Barros:É outra também que é imperdível.
Voz B:É, e ele é alguém que entende do assunto.
Ana Clara Costa:Então tinha uma mesa sobre Bets. E eu fui lá. Quem que estavam palestrando? Michele Ramalho, vice-presidente da CBF e presidente da Federação de Futebol da Paraíba. Guilherme Figueiredo, da Betano. Alexandre Fonseca, da Superbet. Pietro Lorenzoni, filho do Onyx Lorenzoni, advogado de bets. Enfim, o Pietro tava no modo pistola, putaço, falando que basicamente as bets são incompreendidas, elas são criticadas pela imprensa e pela sociedade de forma injusta.
Voz B:Coitadas!
Ana Clara Costa:Porque na verdade as problemáticas são aquelas que não arrecada impostos e elas operam à margem da lei. Ele tem a sua verdade nisso. No entanto, o Pietro é advogado de bets bem antes da regulamentação. Hoje, o que que ele diz? As bets regulamentadas, elas representam apenas 50% do mercado. A outra metade são por bets ilegais, que não são auditadas, que mentem, que não repassam dinheiro para o cliente. Enfim, ele tava dando os pontos dele ali e dizendo que a imprensa e a sociedade de modo geral pega muito com o pé das bets. A Michele se referiu aos CEOs de bets da seguinte forma: os nossos clientes. Ela falou: não existe mais futebol sem bets, melhor, o futebol não sobrevive sem o patrocínio de bets. Essa aspas da vice-presidente da CBF. Aí tem uma coisa que é interessante, era uma mesa para discutir bets, mas ainda que o Gilmar Mendes fala que seja um fórum acadêmico, na prática eu não consegui Isso porque eu vi pessoas falando cada uma 10 minutos, cada uma com uma visão de mercado, e não tinha uma troca, não tinha um debate do Pietro com a Michelle, da Michelle com o Superbet, como a gente vê no ambiente acadêmico, o diálogo, embate. Não era assim, era uma explanação e ponto final. O público que tava na plateia não tinha direito de perguntar. Eles falaram ali que parte do que o governo pretende fazer, que aumentar o imposto, eles são radicalmente contra, mas também de impor novas regras para como os influenciadores podem divulgar bets. Mas ele não explicou com detalhes. O jornalista que tá eventualmente ali, que era meu caso, não tem como levantar a mão e perguntar. Não é um ambiente de debate, não é. É um ambiente onde você vai, senta na cadeira, escuta e vai embora. Quando o painel já havia começado, chegou um homem meio baixinho, meio fortinho, acompanhado de 3 mulheres.
Voz B:Era o Dr.
Ana Clara Costa:Luizinho, deputado federal pelo PP do do Rio de Janeiro e integrante da bancada das bets. Ele é do mesmo partido do Ciro Nogueira, que por sua vez enterrou a CPI das bets no Senado, vamos lembrar. Aí o Doutor Luizinho tava sentado ali, mas sabe como professor que foi e precisou postar foto para provar que tava ali? O Luizinho foi para fazer um check também, porque ele não saía do WhatsApp dele, ia, voltava, saía da sala, voltava, ficava no WhatsApp. As pessoas cumprimentaram ele quando viram, parecia que ele tava prestando contas para alguém, sabe?
Voz B:Ele tinha que estar ali prestando conta para as bets, no caso, né? Se ele é bancado das bets, bem possível, da sociedade Não era.
Celso Rocha de Barros:Pra gente aqui, deixa eu checar o celular de novo.
Voz B:Vê se o Doutor Luizinho descreveu, Celso.
Ana Clara Costa:Bom, o Doutor Luizinho, eu acabei lembrando sentado ali, que ele fez parte da comitiva de amigos do Fernandinho Aigê, o Tigrinho, magnata das bets, que foi a São Martim. E na volta tava Fernandinho, Hugo Mota, Ciro Nogueira, Luizinho, Ciro Nogueira, e também tava nessa comitiva o Isnaldo Bolhões de Alagoas. Enfim, o que as câmeras de segurança mostraram daquele aeroporto de jato executivo é que parte das malas elas não atravessaram o que acontece com todo mundo, raio-X. Era um deputado federal acompanhando um painel de bets, sendo reverenciado por painelistas de bet, ficando o tempo todo no WhatsApp, e que recentemente pegou uma carona com dono de bet vindo de um paraíso fiscal para o aeroporto de jato executivo no interior de São Paulo. É um game over, né? É o que diz o ditado, o sistema ali ao vivo.
Voz B:É isso. Celso, depois dessa descrição detalhada do que é o Gilmar Paluza Profundo, você tá com vontade de ir para lá?
Celso Rocha de Barros:Poxa, medo e delírio Lisboa, hein, cara. João, que eu fiquei curioso, realmente você falou aí desse problema que eles tiveram de atrair gente esse ano, né? Eu fiquei curioso de saber o seguinte: o que que as pessoas aí estão falando sobre o Master? Tem especulação sobre delação, tem especulação sobre o que que vai acontecer, sobre quem Porque o público potencial do Gilmar Palusa é um pessoal próximo daqueles políticos, né, que enfim atuaram a favor do Márcio no Congresso.
Voz B:E alguns deles receberam do Márcio, né? Exatamente. O Lewandowski. Exatamente. O Alexandre de Moraes, segundo o João Batista, estava acompanhado da dona Viviane, que também foi muito bem paga.
Celso Rocha de Barros:E aí a minha dúvida, porque as pessoas chegam a falar disso ou é simplesmente tabu porque tá todo mundo no meio desse negócio?
Ana Clara Costa:Não, não é tabu, as pessoas falam. Eu conversei com advogado que teve diretamente ligado na questão do Vorkaro. E aí a gente estava falando de honorários, né? E ele falou o seguinte, que ele foi feito de caçoada por um amigo advogado porque ele tava cobrando pouco quando saiu a lista dos honorários do Vorkaro. Que beleza! Então não, não tem advogado.
Voz B:Advogado gosta de fofoca, eles adoram fofoca, eles são ótimas fontes. Por isso que eles são ótimas fontes.
Ana Clara Costa:Mas assim, o assunto master, ele permeou todo o Fórum de Lisboa por diversas razões. Primeiro, homologação não tinha sido aceita. Daí as pessoas queriam saber bastidores de por que a homologação não foi aceita, que a Ana já explicou em uma edição anterior aqui do foro. Houve um desgaste da relação do Juca, um dos advogados do Volcaro, que tava tentando homologar junto ao ministro André Mendonça. Então as pessoas estavam contando muita fofoca a respeito disso, o que que os outros advogados do Volcaro podem fazer. Aí houve uma restrição recente por parte da PF do entry-side de advogados na cela do Daniel Volcaro. Então isso foi uma outra fofoca. E como o Daniel não está aqui por estar em cana, e como ele jogou muito dinheiro nos eventos paralelos do Gilmar Palusa, esse era um assunto muito recorrente, onde ele se hospedava, como que ele vinha, quem que era convidado para as festas. Política é muito maravilhosa porque tem umas figuras que elas estão ali completamente adormecidas, esquecidas assim, fora do protagonismo, e de repente elas ressurgem e ganham uma força tremenda. Tem um deputado por São Paulo chamado Arnaldo Jardim, do Cidadania. Ele foi o relator da PL das Terras Raras. Quando o presidente da Câmara, Hugo Motta, subiu ao palco, ele pediu nominalmente palmas para o Arnaldo Jardim, falando do PL das Terras Raras. Eu fui conversar com o Arnaldo porque ele foi ter uma reunião em Londres, organizada pela diplomacia da Inglaterra, com potenciais investidores e mineradores, para explicar sobre terras raras. Terras raras é um tema muito quente para essa eleição, é um tema que tá muito ideologizado.
Voz B:Bolsonaristas estão querendo fazer um novo piques, digamos assim, desse assunto, sobretudo porque é o foco de interesse dos Estados Unidos em relação ao Brasil, né, os minerais críticos, as terras raras.
Ana Clara Costa:E tem gente muito séria trabalhando nesse tema, Ana. Esse tema ele apareceu inúmeras vezes aqui no Gilmar Palumbo.
Voz B:Não sabemos se o Arnaldo Jardim é um dos sérios, né, ainda.
Ana Clara Costa:O Arnaldo, para além de ter sido elogiado pelo Hugo Motta, participou de duas mesas e ele foi mencionado como exemplo de parlamentar em outras mesas que ele não tava presente porque ele tava em Londres. Vou dar um exemplo: teve uma mesa sobre aviação na quarta-feira, terceiro e último dia do Gilmar Paluza. O advogado Marcelo Guaranis parabenizou o Arnaldo Jardim pela questão das terras raras. Sabe quando você vê um político chegar e todos os outros indo como carrapato tentar colar neles? Tá assim com Arnaldo Jardim. Ele não queria disputar mais uma reeleição. Eu não sei ele vai fazer agora, porque ele virou o candidato favorito do PIB.
Celso Rocha de Barros:É, me parece claro que abriu uma vaga aí para quem quiser fazer o seu próprio Paluza nos próximos anos, né? Porque a graça do Gilmar Paluza era o baixíssimo escrutínio ao qual ele sempre foi submetido, né? Com o escândalo do Banco Master, qualquer coisa que ministro do Supremo faça vira notícia de primeira página. O evento, estando marcado por tanto escrutínio, dificulta o tipo de reunião bilateral, o tipo de negociação de corredores, que eu acho que era grande parte do interesse do Jamar Palusa. Mas se isso for feito com 50 jornalistas olhando o que que os ministros estão fazendo, etc., eu suspeito que a coisa vai perder um pouco do seu propósito. Que uma suspeita que eu sempre tive é que nem todo mundo que vai no Jamar Palusa se interessa por temas jurídicos, entendeu? Uma coisa que já me ocorreu aqui, não posso jurar que seja verdade, mas talvez possa ser.
Voz B:Hipótese, né?
Celso Rocha de Barros:Então eu tenho uma certa curiosidade se o Gilmar Palusa ainda tem futuro. Eu sempre tive a impressão de que pra ele funcionar bem não podia estar todo mundo olhando pra ele.
Ana Clara Costa:Olha, Celso, ele encerrou essa edição, a 14ª, da forma mais otimista do mundo. Ele criticou quem falou que estaria esvaziado, ele falou que até acata algumas críticas, mas que não tá esvaziado. Naquele momento a sala em questão tava cheia, era uma sala menor do que a da Reitoria, Mas ele falou que não só vai continuar como vai aumentar. Hoje o evento se chama Fórum de Lisboa, a partir do ano que vem vai se chamar Fórum Mundial de Lisboa, porque ele quer mais panelistas de fora. Ele dobra a aposta, Celso.
Celso Rocha de Barros:Caramba! Bom, quem sou eu, né?
Voz B:Gilmar Mendes inaugurando a nova era do Descobrimento.
Celso Rocha de Barros:Vai estar o pessoal da Suprema Corte Americana lá.
Ana Clara Costa:Bom, mais sucesso que o Dark Horse com certeza vai fazer.
Celso Rocha de Barros:Ah, isso é bem possível. E do que o musical do Conrad?
Ana Clara Costa:Só uma dúvida assim, tem uma coisa que é curiosa que eu acho assim, quando você convive de perto com essas pessoas que são poder, um ministro do STF, um prefeito de uma capital, um governador, deputados que são da bancada que operam bets, donos de bets, enfim, donos de plano de saúde, você tá lidando com pessoas que são poder. Você consegue entender como que tá a dinâmica do sobe e desce da bolsa de valores dessas pessoas? O Lewandowski, por exemplo, na palestra de abertura Ele chegou, sabe quando ninguém olha para pessoa? Era melancólico, sabe? Ele foi ministro do STF, aí ele foi ministro da Justiça, aí foi descoberto que o filho dele tinha um contrato bastante bojudo com o Master. E ali ele tava, a pedido do ministro Gilmar Mendes, bastante ignorado. Na palestra de encerramento, as primeiras cadeiras, elas estavam reservadas. Deitava Alexandre de Moraes com a esposa dele, a Viviane, tava namorada nova do Gilmar, com quem ele circulou de sendo citados o tempo todo, e o Gilmar Mendes, enfim, as pessoas que estão mais em alta. Aí chegou o Pesão, o Pesão que foi governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pesão.
Voz B:Para os não cariocas que perderam as contas de quantos governadores cariocas foram presos, cariocas que até hoje eram deles, para os cariocas que já tinham conseguido esquecer o Pesão, infelizmente agora a gente vai fazer você lembrar que ele existiu.
Ana Clara Costa:Aí ele chegou, ele que não tava com aqueles assentos reservados, ele foi sentar na, sabe, na última cadeira e ninguém olhando para ele, sem estar quase saindo da porta, sem ninguém. E esse mesmo Pezão eu encontrei numa palestra sobre inteligência artificial. O cara da OpenAI tava discutindo sobre eleições, os mecanismos de proteção, etc. E daí o Pezão tava com relógio dourado muito grande, desses que a Virginia usa. E daí eu falei, bom, deixa eu testar o ChatGPT. Tirei foto com zoom potente, botei no ChatGPT, fiquei com uma raiva, não descobriu qual que era o relógio.
Voz B:Você não conseguiu saber se era Rolex, se era Patek Philippe?
Ana Clara Costa:Não consegui cravar. Até tenho suspeitas, mas como não era um ambiente que perguntia o diálogo, eu queria levantar a mão e falar para o cara do ChatGPT: escuta, esse seu negócio tá falho, porque eu tô a 3 metros do cara, tô dando zoom e não rolou.
Voz B:Ficaremos aqui na curiosidade. Quem sabe no ano que vem João Batista volte como correspondente do Foro de Terezina em Lisboa e nos conte.
Celso Rocha de Barros:Olha o globalismo, hein? Globalismo aí no foro do Gilmar.
Voz B:Eu vou encerrar por aqui o último bloco, mas antes de a gente se despedir, eu queria compartilhar com vocês uma notícia que o João Batista nos deu aqui, bastidor do bastidor do bastidor, e que eu acho que o ouvinte vai gostar de saber. Conta, João.
Ana Clara Costa:Eu acho que esse é o furo de reportagem relevante que a gente tem que falar nessa edição. O foro, você, o Celso, o Fernando são amados aqui em Portugal, tanto por brasileiros que moram aqui, tanto por portugueses que não têm parentes no Brasil, mas que gostam de acompanhar a política do Brasil.
Celso Rocha de Barros:É, nós conhecemos agora na Feira do Livro o historiador e deputado português Rui Tavares, um cara brilhante e é ouvinte mesmo, contou vários episódios.
Voz B:Exato, né, ele sabia frases, é do ouvinte que sabia frases.
Ana Clara Costa:Tem um casal de amigos, o João e a Laura Cravo, que são amigos do Rui Tavares, que também comentaram vários episódios Os episódios de core. E eu tô hospedado aqui na casa de dois amigos que eu amo muito, a Isa Melarenho e o Antônio Taíde, que estão me cedendo abrigo e Wi-Fi, que são completamente apaixonados por vocês.
Celso Rocha de Barros:Ô, manda um beijão para eles.
Ana Clara Costa:Enfim, só para dizer que vocês têm uma legião de fãs aqui na terrinha.
Voz B:Bom, já podemos fazer um foro ao vivo em Lisboa. Vambora! Não será o Fórum de Lisboa, será o Foro de Lisboa.
Celso Rocha de Barros:Podemos tentar uma sociedade ali com vocês.
Ana Clara Costa:Pode ser um evento paralelo.
Celso Rocha de Barros:Exatamente.
Voz B:Bom, Depois dessas notícias importantíssimas, a gente encerra o último bloco do programa Agora Sim e vamos para um rápido intervalo. E na volta tem o Kinder Ovo. Tem história que termina quando você acaba de ler e tem história que continua nos bastidores. A Piauí lança o Caderno do Repórter, uma newsletter mensal exclusiva para assinantes em que um jornalista relata em primeira pessoa os bastidores de uma reportagem ou de uma cobertura, a pauta que mudou no meio do caminho, a entrevista que quase não aconteceu e tudo aquilo que não coube no texto final. Para receber, é só se inscrever e ser assinante Piauí. Caderno no Inferno do Repórter, porque toda boa história tem outra por trás. As ilhas desertas ou não mexem muito com a nossa imaginação.
Celso Rocha de Barros:Tem uma lenda de que haveria um tesouro pirata na ilha.
Voz B:No Rádio Novela Apresenta dessa semana, a gente conta histórias de duas ilhas, duas histórias de sonhos e de pesadelos insulares. Tem um campo de concentração na Foz do Amazonas e um príncipe de um pequeno reino dominado por cabras e caranguejos.
Ana Clara Costa:Contavam muitas histórias de pessoas que tinham sido mortas, jogadas na travessia da Baía de Guajará com pedras atadas ao pescoço. Isso daí impressionaria qualquer pessoa, né?
Voz B:E também impressionou a gente. Depois de ouvir o foro, vem escutar as sagas de Cotijuba e Trindade no episódio Os Usos de uma Ilha, que já tá disponível em todos os aplicativos de áudio. Estamos de volta e vamos para o momento Kinder Ovo, aquele momento em que eu sempre me dou mal. Vamos ver se Hoje vai ser diferente.
Celso Rocha de Barros:A esquerda sabe fazer política. Eles entram num quarto, trancam o quarto e quebram o pau lá dentro, mas quando termina, todos saem com uma única fala: eles nunca abandonaram Lula. Bolsonaro, só porque falaram das joias, a própria direita condenou ele.
Ana Clara Costa:Eu amo o cinismo. Só porque falaram das joias.
Celso Rocha de Barros:Ai, cara, vou ficar com muita raiva porque eu sei quem é.
Ana Clara Costa:A Mari também tá pesquisando na deep web, né?
Voz B:Bom, vai ser derrota total. Vamos ver. Poxa vida, quem fala é o pastor e deputado federal do PL de São Paulo, Marco Feliciano, entrevista ao canal de extrema-direita Carlos Zeynar.
Ana Clara Costa:Sabia?
Voz B:Nossa, esse canal eu nunca tinha ouvido falar, cara.
Celso Rocha de Barros:Esse, ó, eu conheço uns negócio esquisito.
Voz B:E agora a gente vai para o correio elegante, esse momento maravilhoso em que a gente dá risada, às vezes chora com vocês, né? Às vezes. Eu começo com comentários sobre a indicação literária do Celso no último programa. O Leonardo Arruda escreveu: fui procurar na Vibe Cabeção o livro do Roberto Jefferson. Pô, cara, eu queria ter ido, sabia? Procurar, esqueci. E ele tá custando entre 360 e 1082 R$2. É justo, é um clássico, cara. Tá mais barato ler Habermas. Beijos a todos.
Ana Clara Costa:Vale mais que esse DB do Vercaro.
Celso Rocha de Barros:Exato.
Voz B:E o Danilo Rodrigues avisou: Ana, o livro do Roberto Jefferson tem no Kindle Unlimited.
Celso Rocha de Barros:Ok, pois é. E só para deixar claro, minha indicação não é irônica. Não tô dizendo que, ó, que livro porcaria, mas que vocês vão rir que nem roteiro de Dark Horse. Não, é muito interessante mesmo a visão de um cara que tá lá dentro da muita treta contando as mutretas.
Voz B:Então Celso referendando a sua dica.
Ana Clara Costa:João, o Tales Augusto postou: a única escala 6x1 que eu seria a favor é Foro de Teresina de segunda a sábado. Brincadeira, sei que para que o programa saia vocês às vezes trabalham até 7x7. No dia 29 de maio foi o meu aniversário e queria Quero pedir parabéns, pois sou um Terezinha de carteirinha. Forte abraço especialmente para o rubro-negro Celso Rocha de Barros. Aí, que fofo!
Celso Rocha de Barros:Valeu, Tales Augusto!
Voz B:Poxa, Tales, não deseja isso para gente não.
Celso Rocha de Barros:E ainda tem aqui a rubro-negra Mari Faria, que é nossa chefe. Feliz aniversário, Tales!
Ana Clara Costa:Feliz aniversário, Tales!
Celso Rocha de Barros:Ainda falando da 6x1 do bloco da semana passada, o Guilherme Browne escreveu: Curioso, Ana, meu primeiro emprego foi 6x1. Sabe de onde foi? Positivo Informática.
Ana Clara Costa:Poxa vida, cara!
Celso Rocha de Barros:Se vocês ouviram o episódio, vocês vão saber.
Voz B:Oriovisto Guimarães. Pois é. Bom, foi o primeiro emprego, então quer dizer que ele teve outros.
Celso Rocha de Barros:Que bom. Pois é, graças a Deus.
Voz B:E assim a gente encerra o programa por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir, dá 5 stars para gente no Spotify, segue no Apple Podcast, na Amazon Music, favorita na Deezer e se inscreve no YouTube. No site da Piauí você encontra a transcrição do episódio. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para Revista Piauí. A coordenação geral é da Bárbara Rubira, a direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitsky, a edição é da Bárbara Rubira e da Paula Júlia Scarpin. A identidade visual é da Amanda Lopes. A finalização e mixagem são do João Jabássi e do Luiz Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabássi e Rodrigues, que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brizola. O programa de hoje foi gravado no Estúdio Rastro do Dani G, no Rio de Janeiro, e em Lisboa, na Casa de quem, João?
Ana Clara Costa:Falei da Isa Melaranho e do Antônio Taíde.
Voz B:Eu me despeço do João Batista. Tchau, João!
Ana Clara Costa:Tchau, gente, um beijo!
Voz B:E do Celso, que tá aqui do meu lado.
Celso Rocha de Barros:Tchau, Ana! Tchau, todo mundo! Até semana que vem!
Voz B:É isso, gente, uma ótima semana a todos e até a semana que vem!
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