Os rolos de Flávio, as articulações de Lula e a jogada de Ciro
No Foro de Teresina desta semana, Fernando de Barros e Silva, Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros analisam o isolamento político de Flávio Bolsonaro às vésperas da convenção do PL, as novas revelações sobre sua relação com o caso Master e os ataques do senador ao sistema eleitoral. No segundo bloco, o trio discute o cenário da campanha de Lula, que chega às convenções com palanques encaminhados na maior parte do país, e os desafios das alianças estaduais. No terceiro bloco, os apresentadores tratam do novo capítulo do racha entre Ciro e Cid Gomes na disputa pelo governo do Ceará e dos reflexos desse embate na estratégia eleitoral de Lula.
Acesse a transcrição e os links citados nesse episódio: https://piaui.uol.com.br/web/ft122
Leia "Crime em alto-mar", reportagem de Danilo Marques sobre arqueólogos brasileiros que investigam navios negreiros e buscam, no fundo do mar, vestígios de um dos maiores crimes da história do país.
https://piaui.uol.com.br/revista/238/crime-em-alto-mar/
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- Confronto com FlavianoAtaques ao sistema eleitoral · Relação com o caso Master · Isolamento político do PL · Proposta de vice · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Donald Trump e a NASA
- Governo do Ceará· PoliticaRacha da família Gomes · Ciro Gomes · Cid Gomes · PL no Ceará · Violência no Ceará
- Estratégia de aliados de LulaAlianças estaduais · Convenções partidárias · Lula · O Senhor dos Anéis · RPG de Várzea
- Aliancas e Coligacoes PoliticasApoio a candidatos do PSD · Retorno do PDT à aliança com o PT · Abandono de candidaturas próprias pelo PT · Disputa de candidaturas internas do PSD · PDT
- Resposta de Flávio Bolsonaro à acusaçãoAcusações de fraude eleitoral · Relação com o discurso de Donald Trump · Impressão negativa em embaixadores · Flávio Bolsonaro e Vorcaro
- Violência UrbanaCidades mais violentas do Brasil · Crime organizado e facções · Discografia de Sabrina Carpenter · Maracanaú · Caucaia
- Caso Banco MasterPagamento de propina · Lavagem de dinheiro · Banco Master · Daniel Vorcaro
Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista Piauí. Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana. Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá, Ana, bem-vinda!
Oi, Fernando! Oi, pessoal!
Muita gente pensa que o PT é uma coisa, na verdade não é.
PT é uma delícia de atuar.
Diga lá, Celso Casca de Bala!
Fala aí, Fernando, estamos aí mais uma sexta-feira.
Acabo de receber a notícia, muito feliz e profundamente honrado de que a convenção estadual do PL acaba de homologar o apoio do partido à nossa candidatura ao governo do estado do Ceará. Mais uma sexta-feira, mas antes dos assuntos da semana, eu quero falar uma coisa importante em nome de todos da nossa equipe. Nas últimas semanas, alguns de vocês entraram em contato com o foro para reclamar da veiculação de anúncios de casas de apostas no programa.
Esses anúncios não são inseridos por nós e estão sendo veiculados à nossa revelia. Nós, o foro e a Piauí não veiculamos propaganda de bets. A gente configura os filtros das plataformas de áudio para que esses anúncios sejam bloqueados. No entanto, a despeito disso, as próprias plataformas controlam parte do sistema de publicidade dos episódios e deixam passar alguns desses anúncios. A equipe da Piauí está em contato com as plataformas cobrando para que isso deixe de acontecer.
Eu quero insistir nesse ponto: a Piauí e o foro não têm qualquer associação com esse tipo de publicidade. A gente considera inaceitável que elas continuem sendo exibidas apesar das restrições que a gente estabeleceu. Essa é a nossa posição institucional. Não aceitamos ter o nome do podcast associado à propaganda de bets. A gente devia essa satisfação a vocês, nossos ouvintes. Dito isso, mais um par de recados, agora mais felizes.
A gente está na Semana da Flip, a festa literária internacional de Paraty, e quem estiver por lá vai poder comprar em pré-venda a antologia dos 20 anos da Piauí em 6 livros feitos em parceria com a Companhia das Letras. É para ler e guardar. A gente também vai estar lá, tem Foro de Teresina ao vivo no palco da praça, Hoje, sexta-feira, dia 24, às 9 da noite, 21 horas. É de graça e a gente espera vocês. E no sábado, dia 25, às 8:15 da noite, 20:15, também na Flip, tem Clube de Leitura da Piauí.
Vai ser na casa da Estante Virtual, lá em Paraty. A repórter Camille Lixote conversa com a Ana Clara sobre a reportagem O Petróleo é Nosso, que está na edição deste mês da Piauí. O Clube de Leitura da Piauí é exclusivo para assinantes e também tem edições online. É só acompanhar nas redes. Por último, a Ana tem mais um convite para vocês, porque agora os assinantes da Piauí vão poder ouvir também as matérias que foram escritas pelos seus autores. E a Ana está inaugurando esse novo formato. É isso, Ana, conta da sua matéria.
É isso, Fernando. Eu gravei a locução essa semana da reportagem Estilhaços na Sala. Que reconstituiu o escândalo de assédio e importunação sexual no Ministério dos Direitos Humanos, no início do governo Lula. E que envolve o ex-ministro Silvio Almeida e a então ministra da Igualdade Racial, Aniele Franco. Adoraria que vocês ouvissem, porque eu levei mais de 3 horas falando sem parar pra gravar essa locução. Então o mínimo que as pessoas me devem é ouvir isso daí.
Tá certo, cobrança correta.
Bom, para quem leu pode ouvir, para quem não leu pode ouvir também. É muito legal essa nova iniciativa. Eu mesmo em algum momento vou gravar alguma, alguma coisa aí. Bom, agora sim, sem mais delongas, aos assuntos da semana. E a gente abre o programa com os problemas que cercam a candidatura de Flávio Bolsonaro. À véspera da convenção do PL, que deve oficializar neste sábado seu nome à disputa pela presidência da República, Flávio está isolado.
O senador Ciro Nogueira, amigão de seu irmãozão Daniel Vorcaro, disse que o PP, seu partido, deve optar pela neutralidade no primeiro turno. O PP forma com a União Brasil uma federação e o fato de roerem a corda é um sintoma flagrante de que olharam o jeitão do tabuleiro e resolveram apostar as fichas na reeleição de Lula. Até o momento em que gravamos o programa, Flávio segue sem vice definido na chapa. Soubemos nessa quarta-feira, em notícia divulgada pelo portal Metrópoles, que o senador recebeu no ano passado R$500 mil suspeitíssimos de uma empresa que tem ligação estreita com o Banco Master, de Vorcaro, mecenas do Dark Horse.
Flávio disse que a bufunfa tem origem em serviços de, abre aspas, assessoria jurídica, fecha aspas, e não especificou quais sejam. Sim, o filho do Jair é advogado. Você contrataria Flávio Bolsonaro como seu advogado, Casca de Bala?
Pô, claro, cara. O cara é de reputação ilibada.
Mas as coisas não param por aí. Em reunião com embaixadores e representantes de 42 países nessa semana, Flávio Bolsonaro imitou seu pai e colocou em dúvida a integridade do sistema de votação brasileiro. Como Jair, também mentiu. Citou um suposto relatório da CIA sobre a Venezuela pra dizer que as urnas eletrônicas usadas no Brasil seriam manipuladas. Diante da repercussão negativa, sua campanha se apressou a dizer que Flávio não estava questionando o sistema eleitoral e blá blá blá.
A vocação golpista da declaração é evidente e quanto menor a chance de vencer no voto, maior a chance de tentar melar o jogo. A gente conhece esse roteiro e de tudo isso falaremos no primeiro bloco. No segundo bloco, a gente trata da campanha de Lula. O presidente petista chega às convenções com os palanques regionais encaminhados em 25 estados e no Distrito Federal. Restando apenas acertar as coisas em Goiás. A gente vai passar alguns estados em revista para mostrar aqueles em que Lula, com mais de um candidato lhe apoiando, deve evitar no primeiro turno.
A despeito dos ruídos e das insatisfações aqui e ali, Lula larga na frente em relação ao seu principal rival. Por fim, no terceiro bloco, a gente trata do Ceará, onde o PSDB confirmou Ciro Gomes como candidato ao governo do estado. Ciro lidera a pesquisa mais recente da Quest com 41% dos votos contra 32% do governador petista Eumano de Freitas. Lula, enquanto isso, convenceu Cid Gomes, seu irmão, irmão de Ciro, a buscar a reeleição ao Senado na chapa petista.
O racha da família Gomes ganha um novo capítulo para esta série em intermináveis temporadas. A gente vai falar sobre tudo isso mais de perto. É isso, vem com a gente. Muito bem, Celso, vamos começar com você. Eu mencionei a cesta de problemas, um pupurri de problemas que o Flávio Bolsonaro, que ele próprio é um problema em si, né, um problema essencial, mas que a sua campanha carrega aí na véspera da oficialização da candidatura. Por onde a gente vai começar? Pela reunião com os embaixadores?
Pois é, Fernando, Flávio retomou o discurso contra as urnas eletrônicas que o pai dele promoveu durante a tentativa de golpe de 2022. Antes de começar a falar nisso, é sempre bom lembrar: os bolsonaristas não diziam que as urnas eram fraudadas, eles mentiam que as urnas eram fraudadas. E eu digo isso não só porque elas não eram fraudadas, mas também porque a gente sabe com absoluta certeza que os bolsonaristas sabiam que elas não eram fraudadas.
A gente tem na investigação sobre o golpe mensagem do Mauro Cid dizendo para outro oficial golpista que, ó, não adianta, não achamos nada de errado com as urnas. E aí o cara falar, então vamos assim mesmo para o golpe. E na investigação também ficou provado que o Valdemar da Costa Neto mentiu sobre o resultado da auditoria que o PL pediu das urnas eletrônicas no final. A auditoria também não achou absolutamente nada. Então aquele tempo todo que eles estavam falando de urna eletrônica, eles estavam maliciosamente dizendo uma coisa que eles sabiam que era errada.
Era só a urna do segundo turno, né?
Curiosamente, a urna para presidencial do primeiro turno, o resto das urnas tava tudo beleza.
Exatamente. As urnas que deram a maior bancada pro PL estavam super corretas.
Exatamente. Bom, o Flávio falou isso num evento organizado pelo Brazilian Report, aquele podcast, site de notícias que é especializado em análise sobre política brasileira pro público americano, e pela Novo Selo Comunicação. Então eles organizaram esse evento que tem como objetivo apresentar as ideias dos candidatos a presidente ali pros embaixadores. O Zema já foi lá falar, o Renan já foi lá falar, O Lula tá convidado também, se ele quiser participar do negócio, e o Caiado também ainda não foi.
Antes disso, curiosamente, o Cássio Nunes Marques foi lá pra explicar que as urnas são totalmente seguras, e aí o Flávio foi lá e fez essa beleza. Bom, a ideia do evento é um pouco deixar o cara meio solto pra ele falar o que ele quiser. Então ele começa de onde ele quiser e todo mundo entende, o Zema fez isso, o Renan fez isso e tal, que os embaixadores estão a fim de ouvir sobre política internacional, certo? Ou sobre economia internacional.
Então você vai falar ou sobre posicionamentos diplomáticos ou sobre coisas que podem interessar os países de onde vieram esses embaixadores. E o Flávio não fez praticamente nada disso. Segundo uma pessoa que tava lá no dia, muita gente ficou com a impressão de que o Flávio já começou atravessando a rua para escorregar numa casca de banana, porque ele, sem provocação nenhuma, sem ninguém perguntar sobre isso, sem nada, ele saiu falando mal das urnas eletrônicas.
Que ele disse foi que as urnas brasileiras têm a mesma origem das urnas feitas pela Smartmatic, uma empresa que num relatório da CIA teria sido acusada de participação em fraudes na Venezuela. Bom, para começar, é mentira do Flávio. As urnas brasileiras não são feitas pela Smartmatic. Depois da palestra dele lá, o próprio Cássio Nunes Marques fez questão de vir a público dizer: não, não é a Smartmatic que faz as urnas brasileiras.
Então, Flávio já começou mentindo por aí. Mas além disso, mesmo lá fora, a história é meio mal contada. Na minha interpretação, o que o Flávio tava fazendo ali é um aceno para o Trump, que agora entrou no modo full golpista e fez um discurso no dia 16 de julho dizendo que tinha provas de que as eleições americanas eram tudo roubadas, que a China tinha roubado dados eleitorais para falsificar registros, para inventar eleitores, para fazer, enfim, para fraudar a eleição americana, que a Venezuela tinha descoberto como fraudar as urnas eletrônicas da Smartmatic. Que aliás foram usadas só em um condado americano.
É, ele já tá preparando o discurso para derrota, o Flávio.
Pois é, exatamente, exatamente.
Isso numa interpretação benevolente, né? É isso sim, mas é, ele tá já acionando o modo golpista em associação com o Trump. E para ver onde vai dar.
Aí o Trump também obviamente já tomou um discurso que a gente já falou disso algumas vezes aqui com uma certa profundidade, é o discurso dele que os imigrantes ilegais votam e influenciam decisivamente as eleições. A gente já apresentou em episódios passados aqui os vários estudos que existem sobre isso dizendo que esse fenômeno é absolutamente marginal, não tem interferência nenhuma no negócio, é residual, né? É baixíssimo, é ridiculamente baixo.
Bom, e a verdade é o seguinte: a AFP, a Agência France-Presse, ela fez o fact-checking do discurso do Trump e é basicamente tudo cascata. Então, por exemplo, a história da China comprar as listas de votação— as listas de votação dos Estados Unidos são públicas e podem ser compradas mesmo. Você pode comprar a lista de votação pra você fazer planejamento pro seu partido, pra você usar como negócio demográfico pra vender produto, pra pesquisa de mercado, você pode usar pra um monte de coisa.
E mesmo se a China tiver tido acesso a isso, a China não hackeou nada e, principalmente, não dá pra fazer fraude com isso, entendeu? Senão teria milhares de pessoas nos Estados Unidos já de posse desse material que... Enfim. O Trump obviamente não explicou como é que isso seria usado, não deu nenhuma evidência que isso seria usado pra fraudar eleição, mas isso aí da história da China basicamente não é nada. E tem relatório da inteligência americana de março de 2021 dizendo que não tem indicação de que a China tentou de nenhuma maneira fazer uma manipulação técnica da eleição americana.
E quanto aos votos ilegais, como a gente disse, a análise da Brookings Institution, um think tank americano bastante tradicional, é que a porcentagem de votos fraudados por correspondência, que é um outro argumento do Trump, que os votos por correspondência eram fraudados— e é interessante, ele votou por correspondência na última eleição. A porcentagem comprovada é mais ou menos de 0, vamos lá, 0,00043, ou 4 casos a cada 10 milhões de votos por correspondência.
Então assim, o que que o Flávio tá fazendo aqui? Primeiro, ele tá sinalizando concordância com o discurso do Trump, dizendo: olha só, essas eleições aí dos Estados Unidos deve ter sido fraudada mesmo, Biden deve ter roubado a eleição. Sempre bom lembrar, o Bolsonaro disse que a eleição que o Trump perdeu foi roubada. E por outro lado, o Flávio já tá tentando uma sintonia com o Trump para o caso dele adotar esse discurso, caso ele perca.
Então, se ele perder a eleição e tentar um golpe, ele já vai dizer: olha só, Trump, aqui, aqui a eleição é tão roubada quanto aí, o que o Biden fez com você fizeram comigo aqui. Então, o negócio bastante grave, o Flávio Bolsonaro fez nesse negócio, porque ela vai desagradar os moderados que gostariam de ver no Flávio um moderado. Mas, cara, tem que desagradar mesmo. Quem é um sujeito que essa altura do campeonato ainda tá comprando isso, meu amigo?
Entendeu? Se vira aí. Então assim, me pareceu muito mais uma estratégia mesmo de alinhamento com um discurso cada vez mais autoritário do Trump do que propriamente um erro grotesco, que foi a impressão dos embaixadores. Os embaixadores saíram com uma péssima impressão do Flávio, segundo pessoas que estavam lá. Inclusive os embaixadores que estavam lá meio propensos a gostar, sabe, que representam países que têm governos de direita, enfim, que gostariam de uma coisa mais neoliberal aqui no Brasil, saíram muito mal impressionados.
Flávio claramente não gastou 10 minutos para estudar os assuntos que interessariam àquela plateia, como segundo eles o Zema e o Renan tinham feito, e ficou lá fazendo essa propaganda aí de extrema-direita. Nas palavras de uma pessoa que tava lá, nenhum embaixador dali saiu pensando: nossa, que vontade de lidar com esse cara por 4 anos.
É uma tragédia. Ana Clara, vamos falar desses 500 mil que o advogado recebeu?
Bom, há uma pilha de fatores que atrapalham a candidatura do Flávio nesses últimos dias, né? E aí eu não tô nem falando da Michele Bolsonaro, né? Para pegar esse que foi o último fato, a revelação pelo site Metrópoles de que o Flávio teria recebido R$500 mil de uma consultoria que presta serviços para o Master. Ele teria, em tese, prestado serviços advocatícios pra essa consultoria.
Grande jurista.
E uma consultoria que tinha acabado de ser criada. Ela tinha sido criada poucos meses antes, com capital social de R$40 mil.
Pequenas empresas, grandes negócios.
Poucos meses depois, tava contratando o advogado Flávio Bolsonaro por R$500 mil.
Eu acho, inclusive, que tem que ser feita uma auditoria nos cursos de direito do país, porque se o Flávio Bolsonaro se formou É que existe um problema, existe um problema nos cursos de direito.
Cara, o Eduardo que fez o FRJ, é inacreditável. Bom, sobre isso vem a explicação do digníssimo senador, né, de que ele prestou serviços legítimos de advocacia para essa consultoria. E sobre isso eu tenho duas coisas para dizer. A primeira coisa é o modus operandi do Banco Master, que a investigação tem nos mostrado ao longo dos últimos meses. Qual que era o diferencial do Master para os outros esquemas de pagamento de propina do passado?
Onde que eles inovaram? Não é no pagamento de propina em si, eles inovaram numa coisa que é o seguinte, que a gente já falou aqui: eles chegam com esquema pronto para você. Então, quando eles te procuram para oferecer o suborno, eles já têm o esquema para você receber o dinheiro do suborno lavado. Então não é você que tem que se virar para encontrar uma forma de lavar. Eles já têm o formato, inclusive usavam fundos para isso. Então eles já tinham fundos específicos para isso, como é o caso desse fundo Arlene do Fabiano Zetel, né, que fez várias compras, né, de coisas interessantes.
Enfim, é um modus operandi muito fechado. Se é o caso do Flávio, não sabemos, né, as investigações vão dizer. Mas assim, a moldura É basicamente essa. O segundo ponto é a resposta do Flávio. Ele disse que prestou serviços legítimos de advocacia para essa empresa contábil. Eu fico me perguntando como, porque ele não pode advogar enquanto senador. Ah, pode ter sido algum advogado do escritório dele. Segundo o Cadastro Nacional de Sociedade de Advogados da OAB, o escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia não tem nenhum sócio, nem associado, nem advogado vinculado, a não ser que ele tenha algum freelancer, não sei.
Mas segundo a OAB, o escritório dele é a empresa dele mesmo, entendeu? Ele é um microempresário, ele microadvogado, porque em tese, quando você tem um escritório de advocacia, todos os advogados associados e sócios entram até para responsabilização, enfim, né? Tem toda uma prestação de conta para OAB, e na OAB ele é o único. Ele até tem uma sócia que não é advogada, que é a Letícia Caetano. Ela faz a parte da administração do escritório, ou seja, ela administra as contas do escritório.
E ela é irmã do Alexandre Caetano, que é um dos caras, um dos operadores do esquema do INSS, junto com o Careca do INSS. Então, a única sócia que o Flávio tem não é advogada e é a irmã de um dos principais operadoras de Brasília. Bom, segundo o Estatuto da OAB, senadores podem advogar desde que não seja contra ou a favor da União, contra ou a favor de estados, municípios e autarquias, contra ou a favor de empresas públicas. Ou seja, há muitas restrições, né?
O Flávio teria que dizer para que que foi essa advocacia, né? Se ele advogou estritamente dentro do direito privado ou se há uma questão tributária. E se for uma questão tributária, talvez tenha a União como polo, né? Se ele não tem um sócio que tenha assumido essa causa, porque ele não tem sócios advogados, talvez ele tenha que explicar que ação foi essa, quem ganhou, quem perdeu, onde é que tá o processo, qual é o número.
Essa brecha já me parece totalmente descabida, né? Essa brecha pra advogar me parece muito— se não é ilegal, é imoral, né?
Tinha que ser ilegal, né, cara? Pelo amor de Deus, tinha que ser ilegal.
Exato, é isso. Eu não quero fazer aqui acusações precipitadas, mas se estivéssemos diante de um, sei lá, roteiro do Dark Horse 2, Essa semana revelou um personagem, revelou não, confirmou, atualizou um personagem que é golpista, ladrão e ruim de serviço. Basicamente são os atributos que se evidenciaram nessa semana desse personagem fictício, evidentemente, do Dark Horse 2.
Tem sido dias ruins para o Flávio, para toda a direita, né, de certa forma, porque ele não consegue uma candidatura pra sua vice, e ele quer uma vice mulher pra dar o carimbo de que ele não é um machista misógino. Um carimbo que não se sabe se as mulheres vão engolir. Você compra em qualquer lugar, basicamente. Exato. Ele quer uma vice mulher, mas ele tem um problema que é: a Tereza Cristina, que é do PP, não aceitou ser vice dele.
O PP, conforme o Fernando disse na escalada, não quer se associar ao PL na eleição presidencial, a Federação PP União Brasil. Uma outra alternativa de vice pra ele é a Daniela Marques, que foi uma assessora do Paulo Guedes e que tem andado com o Flávio ali o tempo todo tentando dialogar com o mercado em nome dele. Mas a Daniela não é um nome que o Valdemar quer porque ele diz que ela não tem voto, né? Como ela não é política, né, não tem mandato, não tem nenhuma conexão com eleitor.
Ela não traz voto pro Flávio, então que ele deveria procurar uma composição partidária, né? E no caso da Daniela também, além da questão de ela não ter voto, tem um problema partidário, porque ela se filiou ao Republicanos e pra ela ser vice, o Republicanos teria que aderir à chapa. Se o PP e União Brasil, que sempre foram muito mais próximos do bolsonarismo do que o Republicanos, não querem, imagina o Republicanos. E a Daniela, ela tem saído por aí na Faria Lima fazendo encontros, né?
Foi no BTG, foi no Itaú BBA. E ela tem apresentado pro mercado mais ou menos as mesmas propostas do Paulo Guedes. Então assim, lembra aquela história do vender terrenos da União?
Tudo aquela... Vamos lá, vamos lá.
Um trilhão.
É um trilhão, gente. Tudo aquilo. Todo dia um trilhão.
Ela não fala em trilhão, mas a gente sabe qual que é a continuação. Aí ela fica dizendo pra todo mundo que é muito católica. Tem reforçado essa característica religiosa nas conversas com a Faria Lima. E uma curiosidade: a Daniela Marques trabalhava com Paulo Guedes desde muito antes de ele entrar na campanha do Bolsonaro em 2018. Ela trabalhava na gestora dele, né? Durante todos esses anos eu achava que ela tinha ido pro governo justamente por ela ser a assessora mais próxima dele, né, no mercado.
E aí recentemente eu descobri que não, que ele colocou ela ali porque ela era assim a mais bolsonarista em 2018 que havia. Assim, ela pediu para ir junto para campanha porque ela ideologicamente se identificava muito. Então assim, o que a levou para o governo foi o excesso de bolsonarismo, não excesso de competência, né? Tanto que agora ela tá aí junto com Flávio apresentando seus dotes econômicos e de compreensão estrutural da economia brasileira.
E por último, mas não menos importante, teve essa confusão do Zema com a Michele, sugerindo a Michele como vice dele, né? Que foi uma coisa uma coisa maluca, né? O Zema tem uns negócios, né? É. E aí ela teve que fazer uma nota pública para dizer que não dá, né? E aí o Zema tá cogitando, sabe, Celso, levar o Girão para ser vice dele.
Opa, meu velho amigo!
Exato. E aí seria uma chapa puro-sangue do Novo.
Faz tudo para me agradar, né?
Impressionante.
Ele acorda de manhã, eu falo: o que eu vou fazer para deixar o Celso feliz?
E ainda nesse campo da direita acessória do Jair Bolsonaro, o Caiado finalmente agora, quando o Flávio se mostra cada vez mais encrencado e as pesquisas acabam refletindo isso, agora o Caiado resolveu criticar o Flávio publicamente, fazer. Então assim, você vê o nível desses candidatos por isso, né? Assim, o oportunismo, na verdade, né? Só quando começa a entrar água, ele começa a ficar meio inviável, que você realmente resolve conceber que as características dele talvez mereçam alguma crítica, né?
Então, quantos meses depois que o Caiado agora resolveu que o Flávio merece alguma crítica?
Justiça já feita. Acho que pelo menos vale registrar que a crítica do Caiado nessa reunião de embaixador foi razoável, né? Ele falou, cara, o cara podia estar lá pedindo abertura de mercado para os produtos brasileiros, né? Podia estar lá.
Mas não, não, não, ela é totalmente— se o Flávio tivesse bem nas pesquisas, ele não ia falar nada.
Você tem toda razão.
Se a gente for fazer um resumo da fotografia desse momento, a gente tem a candidatura do Flávio desidratando, mas não a ponto de tirá-lo de um eventual segundo turno, que cresce a chance aparentemente do Lula ganhar a eleição no primeiro turno. Cresce, não tô dizendo que é o mais provável, mas a candidatura do Lula se fortalece. A candidatura do Flávio tá vivendo um péssimo momento, mas não a ponto de viabilizar esses outros nanicos, que essa altura, Caiado, Zema e o Renan Santos em 3 meses poderiam ocupar esse lugar que o Flávio hoje ocupa de ser o principal rival do governo Lula?
Não acredito. Enfim, tudo pode acontecer na política, mas 40 anos de cobertura de política, não vi uma reviravolta dessa numa eleição presidencial num prazo tão curto. Acho improvável que isso aconteça nesse momento. Muito bem, então a gente encerra o primeiro bloco do programa por aqui, fazemos um rápido intervalo. Na volta nós vamos falar da candidatura Lula e dos palanques do governo federal nos estados. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta.
Ana Clara, vou começar com você nesse passeio pelos estados que a gente vai fazer para falar de algumas alianças e palanques estaduais compostos pelo Lula. Talvez a gente possa começar pelo Rio. O Lula esteve essa semana tirando foto ao lado do deputado federal e candidato ao Senado Pedro Paulo, do PSD, do Kassab, não é isso? E ali tá fechada a aliança com a candidatura de Eduardo Paes ao governo estadual.
Uma conversa minha com um petista hoje, eu ouvi dele que essa eleição vai ser cheia de constrangimentos. Eu acho que um deles foi essa foto, né?
Se você olha a cara do Lula, o Lula tá felizão na foto. O Lula não tem esse tipo de problema, é impressionante. Eu lembro de uma foto muito remota do Lula na casa do Maluf, tirando foto com o Maluf. Aquilo escandalizou. Causou um mal-estar nos petistas e muita gente. E o Lula lá com o Haddad, né? É, o Lula feliz, ele desempenha.
Bom, a gente tá chegando no final de julho e a despeito de toda novela que a gente vem narrando aqui ao longo desse último ano, né, tantos altos e baixos, o PT conseguiu definir os seus palanques em 25 estados antes do PL. O PL tá com vários estados ainda pendentes, né, sendo Minas Gerais talvez o principal deles, né? Eles ainda não decidiram se apoiam Cleitinho, se o Cleitinho se lança, se vai ter um outro nome. Então o PT já tá com a coisa mais azeitada.
Então chega nas convenções, no caso da convenção do PT vai ser no dia 2 de agosto, com os palanques definidos, as alianças definidas, a coisa mais consolidada. Comparando com 2022, não mudou muita coisa entre os palanques que vão ser do PT, né, candidatos do PT na cabeça de chapa em relação a 2022. Praticamente a mesma coisa, mas as chapas estão mais bem amarradas nessa eleição. Ou seja, quem tá com o Lula nessa eleição tá mais convicto do que tava em 2022.
Talvez, só talvez, seja pela melhora nas perspectivas dele pra 2026 e a piora do adversário, né?
Sabe o que eu vou falar sobre tudo isso? Na Clara, a política é uma coisa maravilhosa. Extraordinária, não é maravilhosa, é extraordinária, não é isso?
É bem isso. Então eu pensei aqui algumas historinhas dos estados para a gente discutir aqui. A primeira é o Rio de Janeiro falando do constrangimento, né? E o Rio de Janeiro, eu acho que talvez seja a história mais sintomática dos nossos tempos assim, né? Até alguns meses atrás, meio do ano passado mais ou menos, cogitava-se dentro do PSD do Kassab, PSD do Eduardo Paes e tal, que o Eduardo Paes faria a candidatura dele ao governo do estado sem apoiar ninguém pra presidente.
Por quê? Porque ele tava fechando um acordo interno com o PL do Cláudio Castro pra conseguir que o PL lançasse um candidato só pra forma no Rio, entendeu? Pra direita votar no Eduardo Paes. Naquela época, como Flávio não era o candidato do pai, O Cláudio Castro se candidataria ao Senado em uma das vagas e o Flávio se candidataria à reeleição na outra vaga. E o Eduardo Paes seria o candidato ao governo, não lançaria ninguém ao Senado.
E esse era o acordo que tinha sido fechado. E aí o Eduardo Paes não poderia, depois disso, uma das garantias ali era não apoiar o Lula abertamente, como ele sempre fez. E isso estava certo. Quando o Flávio se lança candidato, pré-candidato no caso, meio que embaralhou esse jogo, né? Porque daí o Flávio precisa de um palanque no Rio, ele não vai mais ser candidato ao Senado, ele precisa de um palanque forte no Rio, ele precisa de candidatos ao Senado no Rio e tal.
E meio que isso deu uma embaralhada, mas o acordo era aquele. Bom, as coisas mudaram de lá pra cá, inclusive as perspectivas do Lula melhoraram de lá pra cá, né, do que a gente tava vivendo naquele momento. Então apoiar abertamente o Lula se tornou mais interessante também para o Eduardo Paes, porque ele como governador vai precisar muito do auxílio do governo federal depois de um governo Cláudio Castro, depois de um governo—
próximo governador do Rio pega o governo totalmente quebrado.
Exato, terra arrasada. Enfim, para o Eduardo Paes não é interessante se indispor com o Lula também, mas chegou-se a se discutir neutralidade. Então assim, o Lula aceitar Hoje, compor essa chapa com Eduardo Paes aqui e lançar o Pedro Paulo, que foi um deputado que assumiu o mandato só pra ir votar pelo impeachment da Dilma, porque ele era secretário. Sem contar as acusações de violência doméstica, sem contar o fato de que o Pedro Paulo não é vice do Eduardo Paes, segundo reportagens publicadas na imprensa.
Porque teme-se um vídeo dele de conteúdo sexual que estaria circulando por aí. Aí. Então assim, há vários constrangimentos ali envolvendo o Pedro Paulo, né?
Que beleza!
Mas o Rio de Janeiro é o Rio de Janeiro, e o Lula sabe que ele precisa. Ele sabe que o PT não tem a menor condição de ter um candidato aqui. O Eduardo Paes, bem ou mal, apesar de ter vacilado ali nesses últimos meses, foi um cara que apoiou muito o Lula em 2022, e ele não esquece disso. Além de tudo isso, ele tem uma simpatia pessoal pelo Eduardo Paes. E por tudo isso foi cometida aquela foto, né? Lula, Pedro Paulo e Benedita.
Ó, na cara, eu vou repetir: política é uma coisa extraordinária. Esse conteúdo sexual aí do Pedro Paulo, o que que é? A festa dos escafandristas. Tem a do astronauta, né? E agora o garotinho daqui a pouco vai falar da festa do escafandrista.
Isso aí virou bagunça, né, cara? Já nem é má notícia, né? Agora os políticos estão tudo por aí pelado.
Todo mundo tem sex tape, né?
Ai, ai.
Bom, então o Rio tá definido, né? O que vai ter no Rio de Janeiro pro PT é o lançamento da candidatura da Benedita ao Senado, que vai ser a candidatura do campo progressista. Na verdade, a Mônica Benício, ex-companheira da Marielle Franco, deve sair pelo PSOL também, ainda no campo progressista. E a direita indicou o Carlos Portinho até agora. E a segunda vaga pro Senado não se sabe, porque tá todo mundo preso. Uma, porque tá todo mundo preso, e outra porque Será que o Flávio vai ser candidato? Será que ele vai?
Isso que eu já ouvi várias vezes, o pessoal acha assim, ele devia indicar logo alguém para o Senado do Rio só para matar a especulação de que no fundo ele é que quer ser o candidato, né?
É, e a convenção acontece esse fim de semana, né? Temos esse suspense. O segundo caso que eu queria falar é o caso do Rio Grande do Sul, em que o PT pela primeira vez em décadas não vai ter um candidato. Do partido, cabeça de chapa. Eles vão apoiar a Juliana Brizola do PDT porque, só para ser bem mais precisa, é inédito desde a redemocratização. Assim, o PT sempre teve um candidato ao governo do Rio Grande do Sul. O que acontece é que eles precisavam entregar alguma coisa para o PDT pelo apoio nacional, e a Juliana Brizola tem boas chances, ou chances similares ao Edgar Preto, que foi candidato em 2022 e perdeu para o Eduardo Leite.
Então o PT aceitou abrir mão pela primeira vez dessa candidatura em nome de uma candidatura do PDT, e o Edgar ficaria como vice. E o terceiro estado que eu queria falar é o Mato Grosso do Sul, que também pela primeira vez em muitos anos vai ter um candidato do PT, que é o Fábio Trad, que se filiou ao PT no ano passado. Pois é, eu também não sei, eu fiquei sabendo dessa filiação agora quando eu tava pesquisando para esse bloco.
O Fábio Trad é de uma família de políticos do Mato Grosso do Sul muito proeminente, digamos. O pai dele, Nelson Trad, foi perseguido pela ditadura, foi cassado, era dos trabalhistas, né? O pai dele era um político do campo progressista, dá para dizer, né? E ele tem 3 filhos, mas 2 têm cargos mais proeminentes, né? O Fábio Trad foi deputado federal por 2 mandatos, e o Nelsinho Trad é senador. E o que que aconteceu? A família rachou.
Eles eram do MDB, inclusive em vários momentos, sobretudo pré-impeachment, eles endossaram pautas bem conservadoras. O Nelsinho Trad foi até cogitado para ministro do Bolsonaro. Depois eles acabaram saindo do MDB, indo para o PSD do Kassab, mas continuaram no campo da direita. O Nelsinho Trad sempre muito alinhado com a aliança do PL ali no estado. E o Fábio Trad rompeu com isso e se filiou ao PT no ano passado, provocando um racha ali na família.
E vocês imaginam, assim, pra uma família tradicional da política do Mato Grosso do Sul, você ser do PT é uma coisa totalmente inédita. O Zeca do PT, que foi governador por duas vezes daquele estado, o Zeca do PT, por exemplo, não era de nenhuma família política do Mato Grosso do Sul, ele era do Sindicato dos Bancários, ou seja, ele era da base do PT. O próprio Delcídio, né, que foi senador e tal, ele era o político da família, né?
Então é inédito isso, que uma família tradicional da política sul-mato-grossense tenha se filiado ao PT.
E é o tipo de coisa que o PT não fazia, assim, que a gente já falou aqui, né? Antigamente o PT fazia alianças e tal, mas você fica nesse outro partido aí, eu te apoio. Mas assim, o que a gente vê agora, como no caso da Cátia Abreu também, exato, sim, que até bem mais estranho do que esse, são os constrangimentos, né, que o petista me falou.
Os caras de perfil mais, exato, Célcio, deixa eu te ouvir sobre os arranjos estaduais do Lula e o momento da candidatura.
Então, se a gente olhar para os partidos, o que cada partido vai fazer, a maré tá favorável ao Lula nesse exato momento. Mas já vou fazer uma ressalva aqui: a maioria desses partidos aqui é uma zona. Então, o fato deles apoiar ou não apoiar o Lula, ou apoiar ou não apoiar o Flávio, não quer dizer que em um determinado estado O cara que vai ganhar o governo daquele estado não vai apoiar outra pessoa, enfim. Mas também não se pode dizer que isso não tem efeito nenhum.
Vai ter efeito para tempo de televisão, vai ter efeito para dinheiro, para campanha. Então assim, a movimentação dos partidos é muito importante. O Lula vai conseguir uma grande vitória caso se confirme o que parece que vai se confirmar, que a federação entre União Brasil e o PP vai ficar neutra na eleição presidencial. Essa federação é o maior agrupamento partidário do Brasil no momento, se você pensar em termos de bancada na Câmara.
É um pedaço gigante da direita brasileira. E o fato deles não embarcarem com Flávio pode nem ajudar muito o Lula, porque os pedaços de União Brasil e PP que vão apoiar candidatos petistas talvez já apoiasse de qualquer jeito, entendeu? Mesmo se o partido apoiasse com Flávio. Agora, isso é bom para o Lula pelo tanto que é ruim para o Flávio, entendeu? Para o Flávio é bem ruim não conseguir juntar a direita inteira na sua candidatura, na hora que ele for se apresentar, por exemplo, diante do mercado, na hora que ele vai se apresentar nesses eventos de embaixador, e na hora que ele for, enfim, contar seu tempo de televisão, seu dinheiro de campanha, etc. Para ele é uma porrada grande, ele não conseguiu o apoio desses caras.
Não é a direita inteira, né? É o cara mais próximo dele. O Ciro Nogueira era cogitado como vice-presidente, candidato a vice.
É, tirando os caras que são a mesma coisa que o PL, que é o Partido Novo, Os mais próximos são, ou seriam, o PP e União Brasil, né? Então assim, para o Flávio é uma notícia muito ruim e, por conseguinte, é uma boa notícia para o Lula. E aí começa a briga para conseguir alianças com esses caras nos estados, né? Então enfim, agora tá um pega-paca-pá em vários estados aí de gente do Lula e gente do Flávio tentando atrair gente do União Brasil e do PP para suas respectivas chapas.
E essa tendência à neutralidade tá com um cara que vai emplacar em outros partidos, inclusive, por exemplo, no partido do Tarcísio, o Republicanos. Que em Pernambuco, por exemplo, já declarou apoio ao Lula. Então tá com uma certa cara que a direita mais tradicional não vai bancar o Flávio oficialmente. Claro, se o Flávio sobe na pesquisa e fica com cara de ganhar, dia seguinte tá todo mundo lá.
É por puro oportunismo, não é por convicção.
Exatamente. Mas por enquanto eles estão olhando para a cara do Flávio e dizendo: olha, não sei não.
Não, há várias falas do Ciro Nogueira declarando apoio ao Bolsonaro nessa eleição. Ele falou em em vários momentos: estaremos com Bolsonaro, nós estamos com Bolsonaro. Sempre disse isso, né? Ele nunca aventou a possibilidade nem de neutralidade, nem de ter um candidato.
Exato. Assim, andando um pouquinho mais para o centro, o Lula teve um sucesso razoável, talvez não tão grande como ele queria, mas razoável, em fechar vários acordos com o PSD do Kassab. Sim, ele conseguiu alianças em Tocantins, no Rio de Janeiro, que a gente falou aqui, a Ana falou aqui do Eduardo Paes, em Sergipe, Mato Grosso e no Amazonas. À exceção do próprio PT, o PSD é o partido que mais terá a cabeça de chapa apoiado pelos petistas nessa eleição.
Isso também foge muito da norma do PT nas últimas décadas, porque o PT lançava candidato próprio nem que seja para lançar o nome do cara para eleição seguinte. Era uma visão de longo prazo mesmo de construção partidária. Então se consolida como a força de oposição, mesmo que você perca 5 eleições seguidas, você vai se consolidando. Essa eleição, a estratégia do PT é bastante diferente. Não é só pela questão de eleger o Lula, é uma questão de, por exemplo, evitar o Senado totalmente golpista, como no caso de São Paulo, né, com a Tebet e a Marina.
Exatamente. Então assim, o PT de fato abdicou de cabeça de chapa nessa eleição como nunca tinha abdicado. E andando um pouco mais já para esquerda, quem voltou para aliança com o PT foi o PDT. A história do PT com o PDT é muito complexa. Nos anos 80, o PDT era maior que o PT, era mais importante que o PT. O PDT governava o Rio de Janeiro, o PDT depois governou o Rio Grande do Sul. O PT só começa a ganhar eleição em 88. O brisolismo era um movimento mais importante que o petismo nos anos 80, e a relação deles foi muito conflituosa, mas eventualmente também teve as suas alianças.
E depois, quando o Lula ganha a eleição, o Brizola morre na oposição. Ele racha com o PT no começo do governo, que ele acha que a política econômica do Palocci vai fazer a popularidade do Lula desmoronar. Então ele racha. Mesma coisa que o PPS fez, do Roberto Freire, foi exatamente por isso. Não foi por nada de centrismo, não. PPS rompe com o PT por causa do Palocci.
É, mas essa relação é muito interessante porque o Brizola foi vice do Lula em 98, antes do Lula ganhar.
Foi vice do Lula em 98. Então assim, eles tiveram que se engolir mutuamente em alguns momentos, mas era tenso, a relação sempre foi tensa. Mas aí, quando depois que o Brizola morre e tal, acaba que o PDT mais ou menos gravita de volta para perto do PT. Quando o Ciro entra no PDT, o Ciro faz um movimento de distanciamento mesmo. Não, a gente tem que construir outro partido fora do PT, então a gente não apoia mais o PT, a gente vai lançar nossos próprios candidatos.
Ele desfigura, né?
É, ele muda completamente a estrutura de alianças do PDT. E se você pensasse nisso como um processo de longo prazo, o Ciro vai ficar lá 30 anos fazendo o que os petistas fizeram. Lula ganhou a eleição, o PT tinha 22 anos, então ele vai ficar 20 anos lá perdendo eleição, construindo diretório. Se você achar que é isso que ele vai fazer, fazia um certo sentido, mas o Ciro não é absolutamente capaz de fazer isso.
Mas qual é a base social? Trabalhismo é uma base social, mangabeira.
Exato, entendeu? Então assim, não, não, não faz mais sentido. A base social do Ciro, e o Ciro acabou prejudicando bastante o PDT, porque durante um certo tempo ele conseguiu recrutar, por exemplo, jovens para o PDT. É bom lembrar, Thaba Tamarau foi do PDT. Quem lembra disso?
Verdade.
O cirismo tinha uma militância em rede social bastante ativa.
O Ciro tem uma coisa, uma retórica inflamada que particularmente soa bem para os jovens.
Exato. Mas aí, enfim, acabou que ele foi virando um político mais antipetista do que qualquer outra coisa, e isso foi atrapalhando o PDT em vários estados. A gente vai falar de um inclusive no terceiro bloco. Então assim, o PDT agora tá voltando para as alianças junto com o resto da esquerda, o que pode ser promissor inclusive se eventualmente ressurgir a proposta de uma federação de esquerda. Porque se entra o PDT, que já é um pouquinho maiorzinho, já fica mais fácil dos outros entrarem se eles se dissolverem no PT, entendeu?
Se entra PDT e PSB juntos, o PT já não é mais tão majoritário assim, entendeu? O PT já teria que negociar, porque o medo de cada um desses partidos de entrar sozinho ficar refém do PT é sumir, porque aí o poder obviamente vai ser dividido por tamanho lá dentro, e o PT é muito maior do que cada um individualmente. Mas se você botar todos os outros ao mesmo tempo, essa perspectiva ressuscita.
Muito bem, então a gente vai encerrar o segundo bloco do programa. No terceiro, a gente vai falar da eleição no Ceará. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta. Ana Clara, eu vou começar com você. A gente já falou um pouco do Ciro Gomes no outro bloco. O Ciro Gomes, que começou a sua carreira política, veja só, no PDS, que era o sucessor da Arena da ditadura. Isso lá nos idos de 82, 83. Depois ele foi PMDB, PSDB, onde ele foi eleito governador, PPS, passou pelo PPS, pelo PSB, pelo PROS, 2013, 2015, pelo PDT, Celso falou, e agora voltou ao PSDB depois de muitos anos.
Ou seja, o Ciro fez o circuito das águas completo. É um anfíbio da política brasileira, das águas, das terras, enfim.
Querendo recomendação de partido, tem um cara aí que conhece todos.
Exatamente, fidelidade partidária não é muito com ele.
Ele é fiel ao partido Ciro.
Vamos falar um pouco dessa candidatura. E ele é o favorito ao governo do Ceará neste momento.
Bom, como o Celso disse no bloco anterior que o Ciro tinha acabado se tornando antipetista, né? O mote do PDT virou ser anti-PT, né? Talvez pelo desempenho dele na eleição de 2022, em que ele foi acessório do Bolsonaro nos debates, acabou sendo colado um pouco a essa ideia, né? E aí quero começar a partir de maio do ano passado. O que que acontece? O governo do Ceará, ele é comandado pelo PT há 12 anos, né? Foram 2 governos do Camilo Santana e agora é um governo do Elmano.
E no ano passado, a oposição começou a fazer um tal de café da oposição, que é tipo uma reunião da oposição que acontecia na Assembleia Legislativa do Ceará para, enfim, debater ali formas de confrontar o governo vigente, né? E o Ciro passou a ser convidado para esse café. E aí, convidado para esse café, ele ouviu do grupo de deputados estaduais ali da Assembleia, que eles queriam que o nome dele fosse lançado para o governo de novo, para o governo do estado, para eles conseguirem ter uma chance de tirar o PT do governo depois desses 12 anos.
E foi aí que começou a conversa com o PSDB, já com esse encaminhamento para o Ciro ser o candidato ao governo do estado. E aí ele volta para o PSDB, né, já com esse carimbo, né. E aí, o que que acontece? O André Fernandes, que é o principal nome do PL no Ceará, que é um jovem deputado, ele foi candidato a prefeito de Fortaleza na última eleição e ele quase ganhou. Perdeu, mas quase ganhou. E o fato de quase ganhar fez com que ele caísse pra cima, ou seja, ele teve uma votação tão expressiva que ele passou a comandar o PL no Ceará.
E aí, o Jair Bolsonaro, antes de ser preso, numa das viagens que ele fez pro Ceará, ele deu plenos poderes para o André Fernandes fazer o que ele quisesse com o partido lá e com o bolsonarismo lá. Então ele ficou com uma carta branca para montar a zona de influência do bolsonarismo lá. E aí, o que que o André Fernandes descobriu? Que seria difícil pelas características do Ceará, pela força da esquerda no Ceará, que além do PT quem tinha governado era o Cid Gomes anteriormente por 8 anos, Então assim, o André Fernandes tem demonstrado ser hábil, né?
Viu que o PL sozinho não ia conseguir levantar um candidato e ele não poderia ser candidato porque ele não tem idade para isso ainda. E aí ele começou a compor com o PSDB essa chapa, né, que veio a ser essa chapa que a gente tá vendo agora. Onde que a Michele entra nisso, né, nessa história? Ela tinha duas preferências no estado: o senador Girão, grande amigo do Celso, E a Priscila Costa, vereadora, tinha sido deputada federal e era vereadora, muito amiga dela.
A Michele quis tratorar o partido. Tanto ela quanto a própria amiga dela, Priscila Costa, elas não quiseram negociar, conversar com André Fernandes e tal. Elas tentaram ir por cima assim, olha, a Michele tá mandando, vai ser a Priscila Costa. E como o próprio Bolsonaro já tinha dado esse aval, e aí a gente vê como que a família não tá alinhada nos mesmos propósitos. Como era o Bolsonaro que tinha dado esse aval pra ele, o Valdemar manteve a palavra do Bolsonaro.
E a Priscila e a Michele se indisposeram muito com o partido, sobretudo no Ceará, ao tentar uma solução truculenta, né, de vai ser ela porque eu mandei, entendeu? Então, por um lado, você tinha um cara que tava construindo politicamente uma solução pra tentar tirar o PT do governo. E por outro, você tinha a mulher do ex-presidente mandando uma candidata que não tinha construído aquilo politicamente. Então foi mais ou menos por isso que o negócio deu errado, né?
Eu assim, até falando isso para vocês, eu não tinha entendido essas nuances, né? Quando a gente tava falando sobre esse assunto nos outros programas, eu ficava me questionando por que que não deram essa vaga de Senado para Michelle. Já a mulher tem voto, ela ia conseguir fazer essa senadora. Mas aí agora entendendo um pouco melhor os detalhes da disputa, faz sentido politicamente ela ter criado uma grande indisposição ali porque ela não quis compor ela não quis conversar, ela não quis fazer política.
E por incrível que pareça, tudo indica que o PL no Ceará faz política. E aí vem para o presente, né? Uma vez que aliança tá consolidada, tem uma questão interessante: o Ciro Gomes não vai dar palanque para o Flávio Bolsonaro nessa aliança tão improvável. O que ficou acertado no acordo entre eles é que quem vai dar palanque para o Bolsonaro, quem vai fazer campanha para o Flávio Bolsonaro, vai ser o pai do André Fernandes, que vai ser um dos candidatos ao Senado dessa chapa, que é o Alcides Fernandes.
Ele vai ser porta-voz do bolsonarismo. O Ciro avisou que não vai dividir palanque com Flávio, que não vai fazer, enfim, nenhum tipo de campanha para o Flávio, que não vai defender o Flávio. Nos bastidores, o Ciro tem falado que vai apoiar o Caiado, até porque o PSD tá nessa aliança também.
Conexão entre Merval Pereira e Ciro Gomes. O ponto de encontro entre Merval Pereira e Ciro Gomes é que Ronaldo Caiado Pois é, como ele vai operacionalizar isso eu não sei, né?
Eu aceito seu partido, mas com você eu não converso, você eu não defendo. Enfim, como isso vai ser possível eu não sei. E eu acho que também é uma forma dele achar que isso vai convencer alguém de que ele não compactua com o bolsonarismo, né? Mas assim, é muito difícil, né, você convencer alguém quando a sua aliança, o principal partido que te sustenta ali é o PL, né? O PSDB é minúsculo hoje em dia, né? O PSDB do Ceará não tem nem deputado federal.
Foi forte porque tem o Tasso Gereissati, que já foi senador por inúmeros mandatos, foi governador. Então é isso, assim, o Ciro, ele quer esse apoio, mas ele acha que vai conseguir não sujar as mãos. E aí tem um último detalhe dessa história, que é a participação do União Brasil, da Federação União Brasil, PP, nessa coligação. O ministro Gilmar Mendes chegou a se articular ali para fazer com que União Brasil, sobretudo União Brasil, Antônio Rueda, apoiasse a chapa do PT no Ceará.
O Gilmar Mendes do STF.
Gilmar Mendes do STF. O Gilmar Mendes tem boas conexões no Ceará.
Sei lá.
Ele tem boas conexões no Ceará. O ex-cunhado dele, Chiquinho Feitosa, irmão da Guilmar Feitosa, que é ex-mulher do Gilmar, é do Ceará. O Chiquinho Feitosa é do Republicanos, né? E enfim, eles queriam que Republicanos, que União Brasil, todos entrassem na chapa de sustentação do Elmano. E o Gilmar era um dos entusiastas dessa coligação, mas que acabou não dando certo porque no final das contas, para surpresa de zero pessoas, o Rueda vai apoiar a chapa do Ciro com PL no Ceará.
Gilmar Mendes, eu também.
Agora que o Conrado e Ruy, né, tem um troço ouvindo esse programa, tem o dom da ubiquidade, né, está em toda parte ao mesmo tempo, tá na CBF, tá no Ceará. Celso, deixa eu te ouvir sobre, sobre o Ceará.
Bom, Fernando, é a primeira eleição estadual em que a família Ferreira Gomes vai entrar dividida, né. A família Ferreira Gomes já tá, já é parte da política do Ceará há bem mais que 100 anos. Eles já tiveram diversas autoridades lá que era da família. Agora, isso é sempre bom lembrar, daí a você, por exemplo, chamar de coronelismo vai uma grande distância, entendeu? Isso é errado. Assim, eles são uma família tradicional da política cearense, como tem famílias de político do Rio de Janeiro, de São Paulo, etc.
Mas assim, eles, essa geração pelo menos do Ciro e do Cid, foi formada na democracia. Eles não faziam voto de cabrista, violavam o segredo do voto, que nem os coronéis faziam. Então assim, é um negócio meio até— e o pessoal do Nordeste reclama que quando você pega um político tradicional do Nordeste, você chama de coronel, e aí um cara igualmente ruim aqui do Sudeste a gente trata como um político normal. Exato, tradicional, tradicional da política, uma família respeitável do Sudeste, como a família Bolsonaro.
É isso, exatamente. Numa matéria do G1 que saiu dia 14 de julho, eu conheci o cientista político José Cleiton Vasconcelos Montes. Tem uma citação muito boa dele que diz o seguinte: que o racha da família Ferreira Gomes aconteceu sobretudo na eleição de 2022, quando o Cid queria apoiar a Isolda Sela para o governo, que era uma candidata muito forte, é uma das principais responsáveis por aqueles excelentes resultados da educação em Sobral, sabe?
Assim, uma figura, ela era secretária do Camilo, né? Exato, uma figura respeitadíssima.
Queridíssima, inclusive por gente mais liberal, etc. E teria sido uma excelente candidata, mas o Ciro era candidato a presidente e ele não confiava muito na Isolda, porque a Isolda lá na origem era do PT, entendeu? Ela entrou no PDT ali junto com o Ciro. Então o Ciro insistiu no nome do Roberto Cláudio para governador na última eleição. Eles tentaram lá uma negociação, foi uma briga bem feia. O Ciro ganhou a disputa, o Roberto Cláudio foi candidato, mas E depois disso, as relações entre o Ciro e o Cid ficaram bastante abaladas.
É interessante notar, inclusive nessa mesma matéria do G1, que quando a Isolda foi preterida, né, a Gleisi Hoffmann, no lançamento da chapa Lula-Alckmin, reclamou publicamente. Não, mas por que que não lançou a Isolda? A gente já ia apoiar ela de qualquer maneira. Então assim, basicamente por essa circunstância do Ciro querer ser candidato a presidente, queria um cara do PDT mais alinhado com ele no Ceará, Eles perderam a chance de eleger a Isolda pelo PDT com o apoio do PT.
E o Roberto Cláudio se filiou à União para apoiar o Ciro nessa aliança.
Joinha! Exato, exato. Então assim, a briga vem dali. E a propósito, depois que eu vi essa análise interessante do José Cleiton Vasconcelos Monte, eu pesquisei e descobri que ele fez uma tese de doutorado sobre as políticas de aliança do governo Cid Gomes, 2007-2014, que eu comecei a ler, tô achando interessante. Depois conto mais para vocês. Tá disponível na internet para quem quiser.
Muito bom.
Enfim, no fundo, o que aconteceu no Grupo Ferragomes é que o Ciro Gomes resolveu colocar a sua intenção de ser candidato a presidente acima de qualquer interesse do grupo local, que é de fato muito sólido, tem resultados eleitorais muito impressionantes, entendeu, nos últimos 20 anos. E deve-se dizer, entregou resultado, né, cara? Esses resultados de Sobral em índice de educação são realmente excepcionais, assim, são um negócio.
Há críticas a esse modelo, você só quero ser a voz das críticas, não que eu concorde com elas porque eu não tenho conhecimento nenhum nesse assunto, mas há críticas de que esse modelo favorece muito o IDEB, né, no sentido, o aluno que você estuda para o IDEB não necessariamente é para aprender, né, você estuda para cumprir o IDEB, para o estado se dar bem no IDEB, e aí por isso performar bem no cálculo nacional, mas que no âmbito da educação os educadores têm algumas questões em relação a isso.
Mas assim, só tô levantando aqui o ponto em que há crítica. Eu não tenho como avaliar, totalmente válida. Mas eu acho que assim, aí é uma questão de você fazer um IDEB que meça bem, porque é, por exemplo, o que o Ratinho Júnior fez no Paraná.
Ele tava focando umas coisas meio estranha, né, de pegar aluno fraco e jogar para turma que não é.
Aí era meio, mas era tudo focado no IDEB também, e eles de fato conseguiram no Paraná resultados impressionantes no ID. É um negócio meio, meio, não, sim, mas assim, e os educadores do Paraná criticaram muito essa política do Ratinho.
Mas o fato é que assim, a família Ferreira Gomes tinha um grupo deles, né, político, tinha passado por vários partidos, mas tinha uma certa identidade assim. Porque é bom lembrar, o Ciro começa no PDS, aí ele vai para o PMDB. No PMDB ele é recrutado pelo Tasso Gereissati. Esse é o grande momento da vida dele, ele passa fazer parte desse grupo, que de fato você pode ter várias opiniões sobre o Tasso, mas ele enfrentou aquele, aí sim, o coronelismo mesmo tradicional.
Eles tiraram o estado do coronelismo.
Exatamente. O Ciro vira um adulto politicamente dentro desse processo do Tasso enfrentando o coronelismo lá dentro.
E agora o Tasso de novo foi o responsável pela articulação dessa volta dele para o PSDB, o que aí já não sei se foi uma boa ideia.
E o Ciro Gomes foi o único governador eleito pelo PSDB em 1990. 90, a primeira eleição para governo e Câmara dos Deputados da história do PSDB, que foi um resultado muito ruim. Quando acabou aquela eleição, eu era aluno de intelectuais tucanos que achavam que o partido ia acabar.
A partir de acabar de começar, né, começou em 88, PSDB. O partido surgiu como uma dissidência do MDB, exatamente, em 88.
O primeiro resultado deles, eles mesmos avaliaram como um desastre. E aí só com o Plano Real é que o Mas assim, eu me lembro de intelectuais tocando dizendo que o Ciro ia ser uma joalheria que eles iam fazer, entendeu? Que eles achavam que era um cara talentoso e que eles iam lapidar o Ciro para o Ciro ser um cara não sei o que lá. Ele briga com Fernando Henrique no meio do processo, conhece o Mangabeira Unger, o que eu acho que foi um desastre para os dois, porque são dois sujeitos messiânicos, um alimentando a maluquice do outro durante 20 anos.
E ele brigou com o Tasso também, né?
Brigou com o Tasso, exato. Mas assim, o trajeto do Ciro, assim, eu acho até, sei lá, é difícil não ter a sensação de que ele podia ter rendido bem mais se ele fosse capaz de entrar no partido, ficar no partido e pisar barro para organizar um partido e fazer uma coisa mais, menos de oratória e tal. Mas enfim, ela acaba dessa maneira que eu acho meio melancólica, né? Assim, quer dizer, agora ele tá num PSDB incomparavelmente mais fraco do que o que ele saiu, né? E meio para gerir uma certa massa falida ali, né?
Mas sabe o que me incomoda hoje? Esse PSDB não pode ser um veículo uma espécie de antessala para direita tomar conta, não digo definitivamente, mas tomar conta de maneira mais prolongada do Estado. Porque um dos assuntos do Ceará hoje em dia é a violência. Sim, sim, tem muito interesse saber o que que o Ciro vai dizer para segurança pública. Saiu essa semana inclusive o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre muitos dados que eles levantam, tá lá o ranking das 10 cidades mais violentas do Brasil em 2025.
Com mais mortes violentas. A cidade mais violenta do Brasil no ano passado foi Maranguape, que é na Grande Fortaleza, que tem nada menos que o estarrecedor índice de 100,3 mortos por 100 mil. 100, cara, é uma coisa assim assustadora. Desbancou a Bahia. A cidade de Eunápolis, na Bahia, é o segundo colocado. Terceiro colocado é Maracanau, também no Ceará, 80 mortos a cada 100 mil habitantes. Para vocês terem uma ideia do que isso representa, em São Paulo tá abaixo de 8, se eu não me engano, a cada 100 mil habitantes.
E tem uma terceira cidade cearense também nesse ranking de 10, né, Fernando?
Nesses 10 tem a terceira cidade cearense, que é Calcaia. Tem 5 cidades baianas. Essas cidades mais violentas se concentram todas no Nordeste. Essa Mira Bueno, com quem eu conversei, fala inclusive que é briga de facção, tráfico de droga, e são cidades que têm é alguma coisa estratégica para o escoamento ou para distribuição da droga, ou é perto de uma BR, ou é cidade portuária. Olha só, Porto Seguro, por exemplo, na Bahia, é a 4ª cidade mais violenta do Brasil no ano passado, né?
Mais violenta é muito abrangente, mas com maior número de mortes violentas, de assassinatos no Brasil. Agora, é estarrecedor esse negócio do Ceará. A gente sabe que é coisa do crime organizado lá, se expandiu muito. Eu tenho muita curiosidade para ver como o Ciro Gomes vai lidar com essa questão, estando ele aliado ao pessoal do PL.
Eu posso te antecipar que a estratégia dele para essa campanha vai ser a segurança pública, e obviamente culpando o PT por esses indicadores, sobretudo esses mais recentes do Anuário de Segurança Pública. Como ele não quer nacionalizar a campanha para não se se ver obrigado a defender ou Flávio ou Lula, sendo que ele quer defender Caiado, ele vai falar só do Estado.
É, questão da segurança pública vai ser um discurso muito importante, não só para os candidatos ao Executivo, mas para o Senado. Acho que isso vai ser, vai ter muito candidato associado a essa bandeira pela direita, né? E essa é uma questão que a gente vai tratar aí nos próximos, nas próximas semanas. Então a gente encerra o terceiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Na volta, Kinder Oevo. Já voltamos.
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Muito bem, estamos de volta. Mari Faria, nossa diretora. Kinder Ovo, Mari Faria. Vamos lá. Não é por acaso a derrocata nossa na Copa. Nada acontece por acaso. A bola não entra ou entra por acaso. E a gente tá vendo aí o Brasil em frangalhos.
Não é o Girão não, é? É o Girão?
É?
Pô, não é possível! Casca de bala, tá terrível.
Não, mas esse eu tinha que saber. O cara já me arrumou investigação da Polícia Federal contra mim, eu sei.
Cara, mas o sotaque dele é totalmente—
não é?
Então vai mesmo.
Não, parece interior de São Paulo assim.
Senador pelo Novo do Ceará reclamando da publicidade das bets durante a Copa do Mundo na TV do Senado. E o relógio gira, né? Em algum momento a gente vai vai concordar com alguma coisa que o Girão falou na vida, não é isso?
Girão é relógio digital, não acontece isso.
Bom, Casca de Barra levou mais essa. Essa foi sacanagem, hein, Mari?
Não, sacanagem foi que a Maria Júlia botou uma vez o Girão falando de teatro experimental.
É verdade, essa foi foda.
Vamos para o Correio Elegante, o momento das cartinhas, o melhor momento do programa. Vamos lá, momento de vocês, vamos lá. E eu vou começar aqui, ler o recado da Juliana Alvarai. Espero ter lido o seu sobrenome de forma correta. Diz o seguinte: na próxima encarnação quero ser interessante que nem a Ana Clara. Todos queremos que apura tudo que há de mais importante nesse país. Daqui de Portugal me mantenho informada e lúcida semanalmente ao ouvir o foro. Obrigada por existirem, um salve para o meu conterrâneo Casca de Bala.
Aí, Juliana, obrigada!
Valeu, Juliana!
Temos também uma mensagem da Larissa Locozelli. Espero também ter lido o nome certo. Fernando, Minas Gerais nos deu também Lélia González e Conceição Evaristo, só para nomear duas das extraordinárias intelectuais negras mineiras. Muito boa sua menção, muito boa, porque eu falei no programa passado do Drummond e do Guimarães Rosa Muito bem, obrigado Larissa.
Adélia Prado também. E se a gente for listar, aí os outros estados vão ficar com ciúme também. A Cláudia Dias já tá pronta para prestigiar a próxima estreia da Piauí. Amo vocês, mas hoje o meu comentário é para queridíssima Consuelo Diegues, visionária que enxergou o escândalo master quando tudo era mato. Que luxo esse podcast, beijos! Consoelho é tudo isso, mais um pouco. Cláudia, Consoelho é a rainha.
Mensagem é isso mesmo, certíssimo. Quando tudo era mato, Consuelo tava lá.
Exatamente. A @fgmunhoz escreveu: gente, estou animada, dei um match no aplicativo de relacionamento e o crush mencionou que curte podcast. Então iniciei o papo perguntando o que ele gosta de ouvir, e qual não foi minha alegria quando ele respondeu que curte o o selo Foro de Qualidade garante um bom papo e resguarda do risco de um encontro desagradável com bolsonarista. Sem mais delongas, vou tranquila para o date. Depois você conta aí para a gente como é que foi.
A gente quer saber se ele é boy lixo ou não, se é esquerdomágico.
Tem uns cara meio esquisito nesses aplicativos, cuidado.
Bom, o que é bom dura pouco, que não é tão bom também acaba, não é isso? Mari Faria. Assim a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir e dar 5 stars para gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music favorita, na Deezer, e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da Piauí. O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para Revista Piauí.
A coordenação geral é da Bárbara Rubira, a direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira. A checagem é da Ethel Rudnitzky, a edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão, identidade visual é da Amanda Lopes, a finalização e mixagem são do João Jabássi e do Luiz Rodrigues da Pipoca Sound. Jabássi e Rodrigues que também são os intérpretes da nossa melodia tema. A coordenação digital é da Bia Ribeiro, da Emily Almeida e do Fábio Brizola.
O programa de hoje foi gravado aqui na minha Chopana em São Paulo, no Estúdio Rastro, do Dani D no Rio de Rio de Janeiro, em Paraty também, onde está a Mari Faria. Eu me despeço então dos meus amigos. Até hoje, né, Ana? Tchau, Ana!
Até mais, até logo mais, e até mais para quem vai estar com a gente em Paraty.
Tchau, Celso!
Até mais, Fernando! Abração para todo mundo, até semana que vem, ou até logo para quem estiver lá na Flip.
É isso, gente, para quem estiver na Flip A gente se vê hoje, sexta-feira. Para você que tá nos ouvindo, uma ótima semana a todos e até semana que vem.
Revista Piauí
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