Episódios de Foro de Teresina

O tarifaço, o amigo do Sicário e a confusão mineira

17 de julho de 20261h12min
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No Foro de Teresina desta semana, Fernando de Barros e Silva, Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros analisam o novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, as declarações do secretário de Estado Marco Rubio e a resposta do governo brasileiro. No segundo bloco, o trio discute a decisão de Alexandre de Moraes que proibiu o contato entre Jair e Flávio Bolsonaro, a vantagem de Lula nas pesquisas e as suspeitas envolvendo Valdemar Costa Neto pelo uso de emendas parlamentares. No terceiro bloco, os apresentadores olham para a disputa pelo governo de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, em meio às indefinições nos campos da direita e da esquerda. 

Acesse a transcrição e os links citados nesse episódio: https://piaui.uol.com.br/web/ft121

Leia "O petróleo é nosso", reportagem de Camille Lichotti sobre a exploração de petróleo e os interesses que cercam a riqueza do pré-sal. 

https://piaui.uol.com.br/revista/238/o-petroleo-e-nosso/ 

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Participantes neste episódio3
A

Ana Clara Costa

HostJornalista
C

Celso Rocha de Barros

HostJornalista
F

Fernando de Barros e Silva

HostJornalista
Assuntos6
  • Legislação BrasileiraMarco Rubio · Transição de governo · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Lei da Reciprocidade · Comércio internacional
  • Situação do PT em Minas GeraisTDAH · TDAH · Cleitinho · Patrus Ananias · Zema
  • Decisão do Copom e SelicInvestigação de Jair Renan Bolsonaro · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Bolsonaro · Prisão domiciliar
  • Pesquisa eleitoralSAF · Flávio Bolsonaro e Vorcaro · Eleições presidenciais
  • Valdemar Costa NetoEmendas parlamentares · Polícia Federal
  • Flávio Bolsonaro e VorcaroDaniel Vorcaro · Luiz Felipe Mourão · Investigação criminal
Transcrição155 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro

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ACAna Clara Costa

Book direct at choicehotels.com. See you on the roof.

FDFernando de Barros e Silva

Olá, sejam muito bem-vindos ao Foro de Teresina, o podcast de política da Revista Piauí.

CRCelso Rocha de Barros

Os argumentos levantados na Seção 301 partem de uma base totalmente falsa.

FDFernando de Barros e Silva

Eu, Fernando de Barros e Silva, da minha casa em São Paulo, tenho alegria de conversar com os meus amigos Ana Clara Costa e Celso Rocha de Barros no Estúdio Rastro, no Rio de Janeiro. Olá, Ana, bem-vinda!

ACAna Clara Costa

Oi, Fernando! Oi, pessoal!

CRCelso Rocha de Barros

O que o Alexandre de Moraes quer é tirar o meu pai da domiciliar a qualquer custo, deixar ele ainda mais incomunicável.

FDFernando de Barros e Silva

Diga lá, Celso Casca de Bala!

CRCelso Rocha de Barros

Fala aí, Fernando! Estamos aí, mais uma sexta-feira.

FDFernando de Barros e Silva

É isso que a gente deveria tratar aqui dentro do Senado, dentro do Congresso Nacional, a gente fazer uma nova Constituição, porque deixasse para os estados poder fazer a lei penal. Porque se eu fosse governador de Minas Gerais, a primeira coisa que eu ia fazer é pena de morte. Mais uma sexta-feira, mas antes dos assuntos da semana eu quero lembrar que tem foro e tem Piauí na Flip, a festa literária de Paraty, na próxima semana.

Na sexta-feira, dia 24 de julho, às 9 da noite, 21 horas, estaremos no palco do Telão, na praça, de graça e aberto ao público. Ana Clara, Celso e eu. E no sábado, dia 25, às 8:30 da noite, 20:30, a repórter Camille Lixote da Piauí vai conversar com a Ana Clara sobre a reportagem O Petróleo é Nosso, que saiu nessa edição de julho da Piauí. É um relato sobre as aspirações de Oiapoque, no extremo do Amapá, que pretende usar a exploração do petróleo na Foz do Amazonas para se transformar numa nova Dubai.

É isso mesmo, Celso, Dubai. A conversa vai ser na casa da Estante Virtual, na Philips. Não percam! Além disso, além disso, tem mais novidade no pedaço. Dia 27 de julho estreia o Berro do Boi, o novo podcast da Piauí com a Trovão Mídia. Vai ser apresentado pela repórter Consuelo Diegues e trata da trajetória dos irmãos Batista, Joesley e Wesley. JBS, os irmãos de Goiás são hoje os donos da maior processadora de proteína animal do mundo.

E a Consuelo vai contar tudo sobre os bastidores dessa ascensão. Anotem na agenda, o berro do boi vem aí. Agora sim, sem mais delongas, aos assuntos da semana. A gente abre o programa pelo novo tarifação imposto pelos Estados Unidos ao Brasil e seus desdobramentos políticos, desdobramentos e motivações que nunca estiveram tão claras. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse em nota nas redes sociais que Lula não negociou de boa-fé, que colocou o seu ego à frente do acordo, que as políticas econômicas do governo petista são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros.

Uma sucessão de disparates, uma agressão ao país, à sua soberania e à inteligência dos brasileiros. Marco Rubio tem uma agenda específica para a América do Sul de dobrá-la ao trumpismo e se cacifar para ser ele próprio, e não J.D. Vance, o sucessor de Donald Trump. O Brasil reagiu. Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, disse que as declarações de Rubio são inaceitáveis e qualificou de grosseira e arrogante a forma com que atacou Lula.

O governo busca colar em Flávio Bolsonaro a responsabilidade por mais essa punição ao país, chamando a medida de tariflável. O governo americano escala em sua cruzada imperialista, cada vez mais agressiva, com o aval e respaldo da extrema-direita brasileira, que conta com o apoio de mais de um terço da população. No segundo bloco, a gente vai seguir falando de Flávio Bolsonaro. Alexandre de Moraes proibiu o contato direto entre ele e Jair Bolsonaro por 90 dias.

A decisão do ministro decorre da divulgação por Flávio de um texto intitulado Carta aos Brasileiros, no qual Jair chama o filho de seu porta-voz e diz que ele é a melhor opção para o país. A defesa alegou que Bolsonaro pai não sabia da divulgação da carta. A medida é mais um capítulo no embate do filho candidato com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro. Depois de deixar a presidência do PL Mulher, ela reorganiza sua atuação política com candidatas e igrejas evangélicas, agora em torno do grupo Imparáveis.

Pesquisa Quest divulgada nessa quarta-feira mostra que Lula abriu 8 pontos de vantagem sobre Flávio num eventual segundo turno. Boas notícias para o petista, mas o horizonte da eleição segue sendo o de uma disputa extremamente apertada. Isso apesar dos indícios claríssimos de que Valdemar Costa Neto meteu a mão em mais de R$100 milhões das emendas parlamentares, conforme mostrou a investigação da PF. E apesar também da foto recente de Flávio sem camisa ao lado do capanga de seu irmãozão Daniel Vorcaro, capanga que atendia pelo nome de Luiz Felipe Mourão, mas era conhecido como Sicário.

Ele que já não está entre nós para dar a sua versão sobre a imagem. Até prova em contrário, consta que Sicário se suicidou em março deste ano, quando estava preso nas dependências da Polícia Federal. Por fim, no terceiro bloco, as Minas Gerais. O segundo maior colégio eleitoral do país é estratégico. Desde 1989, vale a regra de que quem ganha a disputa presidencial no estado leva a eleição no Brasil. Lula teve 50,2% dos votos em Minas em 2022 e 50,9% no país.

Este ano, o quadro eleitoral mineiro está bastante indefinido. O PT, depois de muitos reveses e discussões internas, confirmou ontem o nome de Patrícia Ananias para disputar o governo. A direita também está bem enrolada. O líder nas pesquisas é o senador Cleitinho, do Republicanos, que ainda não se decidiu formalmente pela candidatura e diz esperar um um sinal espiritual. A tendência é que este sinal espiritual venha do PL, que hoje está inclinado a apoiar o senador.

Há muitas variáveis em jogo. A gente vai olhar isso tudo mais de perto. É isso, vem com a gente. Muito bem, Ana Clara, vamos começar com você. Vamos começar pelo Tarifaço, tem o irmãozão do Flávio, que é o Vorkaro, e tem o brotherzaço, que é o Marco Rubio. Brotherzaço que fez essa nota, é quase uma declaração, uma carta ao povo brasileiro do Marco Rubio a favor da campanha do delinquente Flávio Bolsonaro. Vamos lá.

ACAna Clara Costa

Bom, esse anúncio dessa semana, né, que já era esperado porque o relatório do órgão de comércio dos Estados Unidos seria entregue no dia 15, né? Então, na madrugada de 15 para 16, eles já anunciaram tarifação. Na verdade, todo esse processo mostra como tudo foi protocolar, né? Eles só precisavam de um instrumento jurídico para justificar essas tarifas, né? Antes de falar dos aspectos práticos dessas tarifas, eu acho que a gente tem que mencionar a postagem do Marco Rubio sobre elas, né?

A postagem do Marco Rubio em que ele culpa o Lula pelas tarifas Diz que a política econômica do Lula é ruim, inclusive para os brasileiros, fala do ego do Lula e fala que o que o Lula fez em relação às tarifas priorizou o ego dele em vez de beneficiar a população brasileira. Então assim, é uma politização e é um ataque direto do Departamento de Estado ao governo brasileiro.

FDFernando de Barros e Silva

É um disparate, né, esse negócio? É um disparate, mas em linha com o que esse governo Trump vem fazendo.

CRCelso Rocha de Barros

É um crime, né?

FDFernando de Barros e Silva

Sim.

ACAna Clara Costa

Bom, ele colocou em palavras o que a gente já esperava. Inclusive, a gente falou no episódio passado, né, sobre a intenção do governo americano com isso, e que passou a ser a intenção dos Estados Unidos nesses últimos meses, que é a mudança de regime, né? Que o Lula perca a reeleição e que o Flávio Bolsonaro ganhe.

FDFernando de Barros e Silva

Sim, como você falou na semana passada, com todas as letras.

ACAna Clara Costa

E a gente falou no episódio passado quais foram as variáveis que que acabaram fazendo com que essa mudança de postura do governo americano acontecesse. Então, a postagem do Marco Rubio na quinta-feira é a assinatura dessa carta de intenções dos Estados Unidos em relação à eleição brasileira. Tá tudo ali, né? Você não precisa, na verdade, de mais nada. Tá tudo muito explicado ali. Tanto que o Flávio Bolsonaro usou a carta do Marco Rubio. Parece que ela foi, inclusive, escrita pela equipe do Flávio, né?

CRCelso Rocha de Barros

Não, claramente foi feita pro Flávio divulgá-la.

ACAna Clara Costa

Exato. E o Flávio, no posicionamento dele, ele divulga a carta do Marco Rubio falando que a culpa é do Lula, né? E por que isso? Isso na verdade é uma vacina que é difícil a gente ficar fazendo previsões aqui, né? Mas possivelmente ela não funcionará porque ela já não funcionou no ano passado. Mas é uma vacina para tentar tirar do Flávio a culpa pelo Tarifácio e colocar no colo do Lula, pelo menos a culpa perante a opinião pública, né?

Você vê como o movimento do Rubio já é parte da estratégia de tentar isentar o Flávio pelo que aconteceu e permitir que o Flávio use essa narrativa em seu próprio benefício. Diante desse tarifaço político, a resposta do governo também foi política, mas foi política de uma maneira diferente. Foi uma resposta dada pela Presidência da República e não pelo Itamaraty, que seria o órgão competente para responder o Departamento de Estado.

E a Presidência da República respondeu dizendo que vai usar a Lei da Reciprocidade e outros mecanismos da OMC, né, de resolução de controvérsias na OMC, para retaliar os Estados Unidos e que vai anunciar ajuda aos setores afetados. O fato disso ter sido respondido pela presidência já mostra que claramente o governo vai tentar usar isso a seu favor, né? E eu acho que a própria tramitação dessa burocracia da reciprocidade, isso vai ajudar com que o governo tente instrumentalizar essas tarifas.

Porque o que que acontece? Você tem a lei da reciprocidade, que inclusive Vale dizer, foi aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional. Então, o governo tem a prerrogativa de usá-la. Mas ela não é uma coisa que você decide usar hoje pra valer a partir de amanhã. Você precisa de audiência pública, você precisa da CAMEX aprovar o uso da lei. A CAMEX, que é um órgão vinculado ao MIDIC, né, que é o Ministério do Desenvolvimento, que era o Ministério do Alckmin e hoje é tocado pelo Márcio Elias.

E a CAMEX vai decidir ali a parte técnica da lei. Eu tava me questionando quando o governo anunciou que ia usar a lei da reciprocidade, eu fiquei pensando se o Congresso poderia vetar isso de alguma forma, né? Você tem um Congresso aí amplamente bolsonarista, né? Eles poderiam querer impedir que a lei fosse usada. Mas conversando com especialistas nesse tema, o que eu ouvi foi que não, que o Congresso não tem gerência sobre isso, que a partir de agora a discussão é técnica.

Que a discussão política foi na aprovação da lei e a lei vale para qualquer caso. Enfim, o Congresso não tem como arbitrar se a lei pode ser aplicada no caso dos Estados Unidos e não pode no caso da França ou no caso da China, entendeu? Em tese, há uma isonomia nesse ponto.

FDFernando de Barros e Silva

De qualquer forma, Ana, o que importa mais neste momento é a sinalização política, como você ressaltou no início da sua fala, do que o efeito prático em 1 ou 2 meses. Pra esse momento, a gente tá a 3 meses da eleição, o que importa é a sinalização política do governo.

ACAna Clara Costa

Sem dúvida. É que você cozinhar esse assunto em banho-maria, né, nos próximos meses, então o assunto vai pra CAMEX, volta da CAMEX, audiência pública e não sei o quê, você acaba também cozinhando o noticiário sobre isso, né? Você acaba mantendo isso aceso dentro da discussão pública, que é uma coisa que pode ser benéfica pro governo, porque o tempo todo vai estar sendo tocado no assunto de que a gente a gente precisa reagir a esse ataque dos Estados Unidos, né?

Inclusive, o governo americano deu uma entrevista em off para jornalistas na noite de quarta-feira, pouco antes do anúncio das tarifas, mas já antecipando o anúncio das tarifas, em que claramente ameaçou o Brasil, porque foi questionada se, caso a lei da reciprocidade fosse aplicada, né, o que que o governo americano faria. E a fonte, isso tá na imprensa, em todos os lugares vocês podem ler, A fonte do governo americano diz: olha, se o Brasil aplicar a lei, a gente estuda formas de revidar e de aplicar sanções ainda mais severas caso isso aconteça.

É uma ameaça clara, né, à soberania do Brasil, ao fato de o Brasil poder usar uma lei aprovada pelo Congresso Nacional para se defender de um ataque comercial. Ou seja, a gente ataca vocês comercialmente e vocês não podem se defender, porque se vocês se defenderem, a gente vai atacar ainda mais pesado.

FDFernando de Barros e Silva

Eu vou fazer uma imagem surreal aqui, mas que ela é quase realista nesse horizonte do realismo no ambiente atual. Só falta estacionar um porta-aviões desse Gerald Ford na Baía da Guanabara mirando no Morro do Alemão. Os Estados Unidos estão nessa toada, né? Tô fazendo um exagero, uma imagem exagerada de propósito, mas para falar que não tem limite. Aquele sujeito que governa os Estados Unidos não tem limite.

ACAna Clara Costa

A palavra que você usou, ela é perfeita. Você falou de violência. É um processo violento, porque é um ataque que o governo americano credita publicamente ao Lula, sem nenhum tipo de explicação pra isso, explicação plausível. E em off, porque é uma covardia, né, e covardia você geralmente faz em off, você fala que se vocês revidarem, a gente vai atacar ainda mais pesado. Assim, é tudo muito violento, né? Enfim, antes do tarifácio ser anunciado na semana passada, quando eu tava conversando com outras fontes sobre esse assunto, o que eu ouvi foi que com tarifas ou sem tarifas, a grande probabilidade era que o governo atual colhesse os benefícios do que acontecesse.

Porque com tarifas você volta àquele contexto de ataque à economia brasileira, à soberania brasileira, patrocinado pela família Bolsonaro. E se não houvesse as tarifas, você tem um contexto de paz ali, minimamente, sem grandes problemas, que também seria benéfico pro governo, em tese, né? Vamos ver, assim, como que vai ser a repercussão dentro do setor empresarial, na população, se vai se repetir a repercussão que teve quando o tarifácio foi anunciado no final do ano passado.

Mas assim, não teria por que ser muito diferente, né? Você foi atacado pelos Estados Unidos naquele momento, e a popularidade do governo aumentou, por que agora seria diferente? Não sei, pode ser que seja, mas tudo indica que não. Então, a expectativa diante da burocracia da Lei da Reciprocidade é que ela não seja aplicada ainda esse ano, ou seja, não seja aplicada ainda neste governo, né, só no próximo. A gente viu as exceções, né, que foram anunciadas: carne, café, suco de laranja e componentes para a indústria aeroespacial.

Além disso, né, além do que foi enquadrado na lista de exceção, o que sobrou é manufaturados, indústria moveleira, é indústria de calçados, a indústria de moda. Isso vai ser muito afetado. Outros setores industriais que já foram afetados no tarifácio do ano passado acabaram readequando a produção para— falando assim de grandes indústrias brasileiras que tinham plantas nos Estados Unidos, porque há alguns casos, né, sobretudo na parte de aço, de máquinas e tal, Essas empresas já tinham plantas lá, então elas passaram a se organizar pra pegar insumos de outros países e não do Brasil, pra conseguir fazer frente ao tarifazo.

Então assim, essa parte de máquinas, equipamentos, não é mais tão afetada como foi no tarifazo passado. O governo disse que vai anunciar ajuda aos setores que sobraram, né? Isso ainda não foi anunciado. Mas eu achei curioso que nesse comentário dessa fonte do governo americano que falou com jornalistas na noite de quarta-feira, eles falam, né, que a carne realmente não deu pra tarifar. Tarifar, porque o rebanho dos Estados Unidos é o menor dos últimos 75 anos.

FDFernando de Barros e Silva

Consuelo vai explicar no podcast dela porque que não deu para tarifar também, vai ajudar a explicar o berro do boi.

ACAna Clara Costa

Exato. E aí essa fonte também deixou claro que foi uma decisão do Trump a questão da carne, porque fala que o presidente deixou claro que quer garantir que os americanos tenham acesso à carne bovina a preços razoáveis. Então já denota uma preocupação específica do Trump com isso. E até a gente pode estender isso para o próprio relacionamento do Joesley Batista, dos irmãos Batista na verdade, com o governo americano, né?

FDFernando de Barros e Silva

Perfeito. Celso, deixa eu te ouvir sobre mais esse lance delinquente, né, como eu falei, dos Estados Unidos.

CRCelso Rocha de Barros

Então, Fernando, eu acho que a gente pode analisar o novo tarifácio sobre 3 aspectos. Primeiro, como a maior agressão imperialista ao Brasil desde que os nazistas afundaram navios aqui na nossa costa e provocaram nossa entrada na Segunda Guerra Mundial. Você não tem uma intervenção direta de superpotência nos assuntos brasileiros tão descarada assim desde aquela época. Assim, é um negócio absolutamente vergonhoso. A gente falou no programa passado, os argumentos econômicos dos Estados Unidos são ridículos, né? 90% das questões que eles estão levantando, você pode ter disputas comerciais legítimas aqui, por exemplo, etanol, Mas isso é questão para ser discutida com diplomacia, para chegar a um acordo, né? Não é absolutamente nada que justifica esse tipo de coisa.

FDFernando de Barros e Silva

Nessa coisa histórica que você fez, você não colocaria também o golpe de 64?

CRCelso Rocha de Barros

O golpe de 64 foi apoiado pelos Estados Unidos. Esse apoio foi muito importante para desencorajar a resistência, mas foi tramado localmente, né? O golpe foi feito pelas elites brasileiras, certo? E o que a gente tá vendo agora só é possível porque primeira vez na nossa história, a gente tem uma quinta coluna dentro do Brasil que é uma porcentagem grande do eleitorado. Então o Trump não imporia essas tarifas ao Brasil se ele não soubesse que pouco menos de 50% da população vai ouvir o que o Flávio Bolsonaro disser.

Então pode dar mais ou menos crédito, mas isso certamente vai amenizar o tamanho do golpe que ele tá dando no Brasil diante da opinião pública brasileira. E numa dessa inclusive abre a possibilidade dele ganhar dinheiro em cima do Brasil e ainda eleger um aliado. Então esse fato de haver uma quinta coluna bolsonarista no Brasil incentiva enormemente agressão americana. Os caras sabem que podem fazer o que eles quiserem, que vai ter gente aqui que vai dizer que a culpa é do Lula, que vai dizer que, ó, o Trump pode ter exagerado em alguma coisa, mas que no fundo a culpa é do Brasil.

Eu falei aqui, o Flávio foi lá nos Estados Unidos dizer que as tensões comerciais entre o Brasil e Estados Unidos só começaram porque o Lula é anti-americano. Qualquer sujeito bem informado sabe que todos esses problemas já existem há décadas, né? Então assim, é mentira tudo isso. Os argumentos econômicos são todos falsos, são todos estelionatários. Tudo que os Estados Unidos está dizendo sobre suas relações comerciais com o Brasil é mentira.

E a gente não pode normalizar o fato de que tem um cara que tem 40% das pesquisas, sei lá, dependendo do instituto, que apoia isso, gente, que trabalha por isso. Quer dizer, quanto mais o Flávio cai nas pesquisas, mais ele pede ajuda lá para o sugar daddy dele lá nos Estados Unidos de vir aqui interferir na política brasileira, entendeu? Isso é um escândalo que não tem como a gente tratar como, enfim, parte do noticiário normal.

ACAna Clara Costa

Agora, gente, só fazendo uma interferência aqui, Celso, na sua fala, a Quest divulgou agora há pouco uma pesquisa em que ela questionou com quem o entrevistado mais concordava em relação ao caso do tarifaço. 51% citaram o Lula e 30% o Flávio Bolsonaro.

CRCelso Rocha de Barros

Agora, por outro lado, 30% é razoavelmente menos do que o Flávio tem. Então tem uma parte do eleitorado do Flávio, 7, 8 pontos a menos, que no contexto político brasileiro é uma multidão, né? Se 7 pontos percentuais se mexerem numa direção ou outra, decide a eleição, né? Que eu não acho que vai decidir, mas assim, esse pessoal, no mínimo, eles acham que o Flávio tá errado nessa questão.

ACAna Clara Costa

Agora, eu coloquei na minha matéria, quando eu fiz uma matéria sobre o tarifaço no ano passado pra Piauí, eu lembro que eu concluí a minha matéria com um diálogo que aconteceu no Palácio entre dois assessores ali do governo, quando o Trump anunciou o tarifaço e depois anunciou um monte de coisa em cima, né? Foi uma sequência de anúncios. E aí um chegou pro outro e falou, Trump, guerreiro do povo brasileiro.

CRCelso Rocha de Barros

Pois é.

ACAna Clara Costa

De tanto que aquilo tinha ajudado a popularidade do governo naquele momento.

CRCelso Rocha de Barros

E pode acontecer de novo.

FDFernando de Barros e Silva

Só para amarrar aqui a questão da pesquisa, eu tô vendo a Quest fez essa mesma pergunta: com quem você concorda mais? Lula acusa Flávio de ter pedido tarifação e o Flávio afirma ter pedido a Trump para não taxar o país. Essa é a pergunta, né? Com quem você concorda mais? 47 concordavam com Lula, agora são 51. Em junho, 35 concordavam com Flávio, agora 30. Então importa essa, não é oscilação, né? Essa mudança de quadro mesmo. O Flávio perde aí nessa de junho para cá perdeu 5 pontos percentuais nesse debate. Como diz o Celso, na atual conjuntura isso é muito.

CRCelso Rocha de Barros

Agora, você tem toda razão de dizer, 30% continuarem apoiando isso é uma enormidade e é uma fraqueza diplomática brasileira. É um defeito do Brasil atual ter 30% da população que apoia uma intervenção de política estrangeira na economia brasileira, porque fidelidade partidária.

FDFernando de Barros e Silva

A gente vai falar um pouco mais da pesquisa no próximo bloco, mas os outros candidatos da direita não se beneficiam com a queda, que não é tão grande, do Flávio, né? Existe uma queda, ele cai entre a direita não bolsonarista, mas os outros não se beneficiam, o que mostra que existe realmente uma reserva de mercado nesse campo da direita sem peias, bolsonarista, o que seja, que não se transfere para outro lugar.

CRCelso Rocha de Barros

É, ainda não, né? A gente não sabe como é que vai.

FDFernando de Barros e Silva

Ainda não, mas enfim, a gente tá vendo. Isso é uma configuração social mesmo, uma coisa para se pensar.

CRCelso Rocha de Barros

Pois é, e é um problema sério, é um peso morto que o Brasil arrasta na sua negociação internacional.

FDFernando de Barros e Silva

E talvez as pessoas tenham subestimado isso, né? Falava bolsonarismo sem Bolsonaro, bolsonarismo acabou. Isso parece bem mais do que precipitado, parece equivocado.

CRCelso Rocha de Barros

É, enfim. A outra dimensão que eu acho relevante aqui é o seguinte: o Pix continua na mira. E se você for ver até depoimentos de empresas de cartão de crédito, que os Estados Unidos tá dizendo que são vítimas nesse caso, as empresas de cartão de crédito não parecem estar muito incomodadas com isso. Eles dizem aquilo que é, pelo contrário, exato, é o que a Ana Clara falou no outro programa. O cara, para ter acesso ao Pix, ele faz uma conta no banco e já ganha um cartão de uma bandeira dessa americana.

Eles estão felizes da vida. Quem tem motivo para reclamar do Pix são as big techs, que querem oferecer o seu serviço de pagamento cobrando. O Eduardo Bolsonaro já propôs aí o Brasil trocar o Pix pelo Zelle, né? O que ele disse foi colocar isso numa negociação. Mas qual é a negociação? Então, por exemplo, essa mesma fonte que a Ana citou, que tá falando para imprensa brasileira aí que não, é, a gente não é contra o Pix, a gente quer igualdade de condições para as empresas americanas.

Filhão, o Pix é de graça. Então as únicas opções pra você são forçar a gente a cobrar do Pix, Pix a cobrar a taxa das pessoas, ou a gente pagar a infraestrutura das empresas americanas com nossos impostos como a gente paga a infraestrutura do Pix. Então é óbvio que quando você tá tentando interferir no Pix, você tá roubando o dinheiro do brasileiro. E aqui tem toda a cara de lobby de Big Techs. E finalmente, o tom do Marco Rubio nesse episódio sugere um pouco que esse tarifácio também é campanha eleitoral do Rubio.

O Rubio quer ser candidato a presidente no lugar do Trump. A gente não sabe se o Trump vai ser candidato à reeleição. Em tese, ele não pode. A Constituição americana explicitamente proíbe que você seja presidente mais de duas vezes. Mas ele quer dar um jeito lá pra dizer: não, não, tava implícito que era duas vezes seguidas. Então, enfim, se ele não puder, os dois principais candidatos disputando o Partido Republicano são o J.D.

Vance, o vice, e o Marco Rubio. E o Marco Rubio tá querendo mostrar serviço botando no seu currículo que ele dobrou a América Latina inteira. À vontade dos Estados Unidos. Então ele vai botando seu currículo que ele conseguiu lá que a Venezuela entregasse o Maduro. E aliás, depois que entregou o Maduro, ele deixou os chavistas no poder, não tem o menor interesse em promover a democracia na Venezuela. Então, por exemplo, tudo que você acha de ruim do Lula por esquerdismo, etc., pode ter certeza que não é isso que incomoda o Marco Rubio.

Se o Lula fizesse tudo isso, mas entregasse o que os americanos querem, eles deixavam o Lula em paz. Então assim, ele tá querendo se cacifar politicamente com esse tipo de coisa. A última resposta do Trump sobre o Lula, por exemplo, foi um negócio, ah, sei lá, o Lula é meio volátil, fala uma coisa, outro dia fala outra, fez um discurso meio ruim, mas eu não me importo com ele.

ACAna Clara Costa

Quem falou isso?

CRCelso Rocha de Barros

O Trump, um tempo atrás. O Rubens é sistematicamente anti-Lula, né? Porque me parece que ele tá querendo se cacifar dentro da política americana com isso, né?

ACAna Clara Costa

Tem um histórico para isso. Parte desse histórico é porque nos primeiros governos Lula, o Lula deliberadamente incentivou empresas brasileiras a irem para Cuba, como Odebrecht, como a Petrobras, o Porto de Mariel ali, aquelas construtoras investirem em Cuba. E foi algo que beneficiou o regime do Fidel, deu emprego para a população. E o Rúbio, ele era o cara que queria sufocar o regime para fazer com que a população se insurgisse, enfim, conseguisse derrubar o regime por meio da asfixia econômica.

Exato. E aí você tinha o Lula ajudando por essa via e o Chávez ajudando com petróleo. Então assim, independente do que aconteça, ele tem um ranço do Lula por essa questão que é anterior a tudo isso.

FDFernando de Barros e Silva

Eu tô pensando, politicamente, você tem um mapa inteiramente dominado pela extrema-direita, uma direita alinhada ao trumpismo na América inteira. E agora com a eleição do Kast no Chile, desse Abelardo Espriella na Colômbia, com o Milei na Argentina e com o que eles fizeram na Venezuela, mantiveram o chavismo mais tutelado, né, do jeito que eles querem. Então falta o Brasil, né? O Brasil é a joia da coroa, digamos assim.

CRCelso Rocha de Barros

É, é, isso é verdade.

ACAna Clara Costa

Bolívia, Paraguai, Peru, Chile, Colômbia, todo mundo tá tudo dominado, como se diz, né?

FDFernando de Barros e Silva

Você tem um mapa da guerra totalmente trumpista na América, é uma senhora bandeira de campanha para esse, para o Rubio, né? Sem dúvida, fascista. É bom, a gente encerra o primeiro bloco do programa. Na volta nós vamos falar de Flávio Bolsonaro, de pesquisa eleitoral e dele, Valdemar, o homem das emendas. Já voltamos. He's got it! Oh, and he's gone for a can of Pepsi too. What a finish! There's no doubt about it; it just tastes better.

Match days deserve Pepsi. Muito bem, estamos de volta. Celso, vou passar a bola para você. Nós temos um pupurri de assuntos aí. A carta. Do Jair endossando que o Flávio Bolsonaro é o seu porta-voz, a decisão do Alexandre de Moraes durante 3 meses tirando o contato entre os dois, a foto, maravilhosa foto do Flávio Bolsonaro com o sicário do Forcaro, né, o Luiz Felipe Mourão, que morreu, supostamente se suicidou na cadeia. E o que me chama atenção nessa foto é que você olhando o Flávio sem camisa, ele fala, tiro foto com todo mundo, tá, mas sem camisa, de óculos escuros, Parece que ele é o sicário e o outro é o candidato à presidência da República.

CRCelso Rocha de Barros

Vamos lá, pois é, prossegue o furdunço na direita brasileira, né? O Bolsonaro, Jair, mandou uma carta informando que o Flávio é seu representante oficial, que ele é candidato. Enfim, isso me lembrou um pouco, não sei quantos ouvintes assistiram a série Game of Thrones, que um personagem uma vez diz para um sujeito assim: se você precisa dizer para os outros que você é o rei, Você não é o rei, entendeu? O rei todo mundo sabe quem é.

Então assim, se o Flávio a essa altura do campeonato ainda tá precisando se reafirmar como o escolhido do Bolsonaro, como o candidato, como é ele que tá no controle, é porque ele sabe que tem muita gente que acha que não é ele que tá no controle. Então assim, a carta é antes de mais nada uma admissão do tamanho da crise que se abateu sobre a campanha do Flávio Bolsonaro pela sequência irmão Vô Caro, madrasta Michele, né? A divulgação da carta levou a uma decisão do Alexandre de Moraes que proibiu o Flávio de encontrar o Bolsonaro nos próximos 3 meses.

Essa decisão tecnicamente tá até correta, porque parte das restrições à liberdade do Jair pra ele poder ir pra prisão domiciliar envolvia que ele não usasse redes sociais nem por meio de outra pessoa, entendeu? Então também não valia assim, mesmo se o Bolsonaro não usasse o seu perfil no Twitter, ele não podia mandar recado pelo perfil de outra pessoa. Como a mensagem foi divulgada diretamente na rede do Flávio, ele violou uma das condições da sua prisão domiciliar.

Mas sendo honesto com você, eu não acho isso gravíssimo e eu talvez deixasse passar. Eu acho bastante diferente daquela situação em que o Bolsonaro mandou uma mensagem que o Flávio mostrou numa manifestação bolsonarista. Por quê? Porque naquele caso era uma manifestação a favor do tarifaço e da intervenção americana a favor do Bolsonaro aqui, manifestação golpista na qual o Bolsonaro tava participando para apoiar a manifestação golpista.

O Bolsonaro é preso justamente por isso, por ter tentado um golpe, por ter tentado usar os Estados Unidos para interferir no andamento da justiça brasileira. Então aquela divulgação de mensagem do Bolsonaro servia a continuidade do crime pelo qual ele foi condenado. Então aquilo ali claramente era uma violação grave das condições da prisão dele. Essa aqui, para ser honesto, eu não acho tão grave. Ele não tá aqui apoiando um golpe nem apoiando tarifação.

Até um dia diferente na vida do Jair, né, que ele não se manifesta a favor do golpe. Mas eu não acho que seria um caso de uma sanção dura nesse caso, não.

FDFernando de Barros e Silva

O que vai acontecer, Celso, é óbvio, isso reforça o discurso dos bolsonaristas de que a eleição é manipulada, né?

CRCelso Rocha de Barros

Assim, mas isso eles já vão fazer mesmo, né, gente?

FDFernando de Barros e Silva

É, vão fazer. Mas isso dá um esse impedimento de 3 meses, justamente, tal, vai falar: eleição não é democrática, eleição parará.

CRCelso Rocha de Barros

É, e vai reforçar também um certo conspiracionismo na turma do Flávio Eduardo de que haveria um conchavo entre a Michelle e o Alexandre de Moraes, né? Também isso, que é uma teoria da conspiração deles, porque a Michelle de fato já conversou com Alexandre de Moraes, né, falou sobre prisão domiciliar, coisas assim. Mas o fato é que o Jair, sem poder se encontrar com Flávio, A ascendência da Michele sobre ele provavelmente cresce no cálculo desse pessoal aí do Flávio, do Eduardo, etc.

E aliás, enquanto a gente tá discutindo isso tudo, surgiu um movimento de mulheres depois da crise no PL Mulher, que é o movimento das Imparáveis. Não é oficialmente liderada pela Michele, pelo que eu sei, mas que claramente é um movimento dessa base liderada por ela, que não por coincidência resolveu entrar em atividade agora, justamente quando ela perde a presidência do PL Mulher. Nesse mesmo contexto de notícias ruins para o Flávio, o ICL descobriu uma foto dele com um sicário, aquele marginal lá que fazia trabalho sujo para o Daniel Boccaro do Banco Master, sendo cogitado agredir o Lauro Jardim.

E é o que eu sempre digo, cara, se ele ganhava o que dizem que ele ganhava, ele claramente já fez coisa e a gente ainda não descobriu o que ele fez, porque esse cara não tava ganhando aquilo ali para ficar na reserva para xingar o Lauro Jardim no WhatsApp.

FDFernando de Barros e Silva

É, ele é personagem de Sopranos.

CRCelso Rocha de Barros

Exato. Aí o Fla falou, não, eu tiro foto com qualquer um, não sei quem é esse cara, o cara deve ter chegado para mim e me pedido para tirar uma foto. Isso aí é mentira.

ACAna Clara Costa

E depois ele questionou a veracidade da foto, né?

FDFernando de Barros e Silva

Também.

CRCelso Rocha de Barros

Bom, se um dia provarem que a foto é falsa, enfim, a foto é falsa. Mas por enquanto não tem ninguém que tenha levantado denúncia.

ACAna Clara Costa

Todo mundo que passou a foto por mecanismos de checagem, aplicativos de checagem de veracidade, todo mundo confirmou que tem mais de 80% de chances de ser verdadeiro.

CRCelso Rocha de Barros

E essa história do tiro foto com qualquer um não vale aqui por dois motivos. Primeiro, se você olhar a foto, você vai ver que não é o Flávio passando na rua, é o Flávio sem camisa com outro cara sem camisa. Isso tem muito mais cara de foto de churrasco do que de foto de fã que te parou na rua ou depois de um evento, que isso de fato existe, né? Tem o político tira foto com quem quer tirar foto com ele e não sabe quem são essas pessoas.

Mas essa foto não tem cara de ser isso não. Mas o argumento mais importante contra essa tese é que o Flávio e o sicário tinham um conhecido em comum muito próximo dos dois, que era o Daniel Vorcaro.

FDFernando de Barros e Silva

Se bobear, o Vorcaro que bateu a foto. Tô brincando agora, não sabemos disso.

CRCelso Rocha de Barros

Perfeitamente possível. Então assim, é altamente provável que o Flávio conhecesse esse cara mesmo, porque o universo cultural e social do bolsonarismo é isso: é policial corrupto, é policial miliciano. Tem um imaginário popular que acha que o policial violento é honesto, entendeu? Então é o cara incorruptível, e aí ele mata os bandidos porque ele é um herói. Gente, a maioria desses caras que aparecem aí viram político como policial matador, depois você pega o cara, roubava, o cara tinha esquema com bicheiro, tinha esquema com miliciano.

Então esse é o universo cultural dos bolsonaristas mesmo, é o mesmo ambiente em que fez o Flávio se aproximar do Adriano da Nóbrega.

FDFernando de Barros e Silva

Sim.

CRCelso Rocha de Barros

Então assim, não haveria novidade nenhuma o Flávio ser amigo de um cara com um background desse cara. Enfim, se você for juntando tudo isso, você tem o caso Márcia, você tem a Michele, você tem a foto com sicário, você tem essas, esse acúmulo de notícias ruins. Não é, chega a ser surpreendente que na última pesquisa Quest o Lula tenha oscilado positivamente dentro da margem de erro em vários quesitos. O Flávio oscilou para baixo em vários quesitos, de modo que se você olhar a linha de tendência, a situação melhorou para o Lula e piorou para o Flávio.

Isso vem acontecendo de pesquisa em pesquisa, não é um fato isolado. Por exemplo, seria ridículo o Lula agora dizer que já ganhou, né? Seria uma imbecilidade atroz. Ainda falta montar os palanques estaduais, que podem ser importantíssimos. Ainda tem muitos meses que pode acontecer. O governo americano entrou na briga. Mas assim, até agora, pelo menos, o quadro vem piorando para o Flávio mesmo. Por exemplo, aprovação do Lula passou numericamente a reprovação pela primeira vez em muito tempo, dentro da margem de erro, mas não era numericamente maior desde que eu me lembre, para ser honesto.

Não me lembro qual foi a última vez que que foi o maior. Eu acho que é antes do Pix, né, do vírus do Nicolas, daquelas coisas. Se você pegar também a aprovação entre as pessoas entre 16 e 34 anos, o saldo negativo, se você pegar aprovação menos desaprovação, o saldo negativo do Lula era 7 e agora é 2 positivo. Entre quem ganha mais de 5 salários mínimos, a diferença caiu de -25 para -13. Então assim, a diferença entre os evangélicos caiu na margem nessa pesquisa, mas é bom lembrar que ela já foi de mais ou menos 40 e agora é mais ou menos 20.

É uma diminuição de metade da margem. Então os números vêm vindo bons para o Lula, embora num ritmo lento, né? Assim, quem achava que ia ser uma avalanche, que o Flávio ia desmoronar e tal, se decepcionou. Mas nunca houve bons motivos para ter essa expectativa, não. Bolsonarismo é um movimento muito radical, é muito disciplinado nas suas bases, entendeu? Que tem seus próprios canais de comunicação, consegue divulgar suas próprias versões.

Então assim, um golpe duro no bolsonarismo é isso aqui. Entendeu? É a pesquisa, a eleição sair de empate técnico para ser uma vitória mais ou menos desenhada, que obviamente, como eu disse, só era desenhado se a eleição fosse amanhã, e não é, né?

FDFernando de Barros e Silva

O que continua no horizonte é uma eleição disputada, mesmo que haja possibilidade do Lula ganhar no primeiro turno.

CRCelso Rocha de Barros

Não é, e isso não é contraditório, essas duas coisas, porque não é contraditório.

FDFernando de Barros e Silva

Exatamente, boa.

CRCelso Rocha de Barros

Já teve estado no Brasil que teve candidato que ganhou no primeiro turno É mais ou menos assim, 51 a 48, sabe? O segundo colocado teve 48. Então assim, é quando só tem 2 candidatos para valer mesmo, a eleição acaba no primeiro turno. O Fernando Henrique Cardoso ganhava no primeiro turno por causa disso, porque ele conseguia desarticular todas as candidaturas de direita. A direita ganhava e ele era maioria.

FDFernando de Barros e Silva

Fernando Henrique foi para presidente o único que ganhou no primeiro turno, 94, 98, foi igual duas vezes. Muito bem, Ana Clara, quero te ouvir sobre isso. Vamos continuar falando um pouco de pesquisa de Flávio e de Michele.

ACAna Clara Costa

Fernando, o Flávio Bolsonaro é curioso, né? Quando essa nova pesquisa da Quest foi divulgada, ele não gostou, né, obviamente, e ele usou uma determinação recente do presidente do TSE, ministro Cássio Nunes Marques, que decidiu atribuir um selo, um selo de acerto pra institutos de pesquisa que vêm fazendo pesquisas eleitorais, né, ao longo dos meses, né, e dos anos. Não sei qual que é o cálculo que eles vão fazer pra indicar se um instituto tá perto ou não do resultado, né, o quão perto precisa estar pra receber o selo, mas o fato é que o Flávio Bolsonaro, quando saiu a pesquisa, sugeriu que a Quest não teria o selo de acerto por não se tratar de um instituto confiável.

Sendo que num outro momento em que outra pesquisa Quest foi divulgada, dia 15 de abril desse ano, em que o Flávio Bolsonaro subiu para 42% no segundo turno, segundo a Quest, ele celebrou a Quest e disse que, enfim, né, celebrou o resultado, colocou ali nas redes dele, etc. E agora, é claro, colocou em xeque a credibilidade do—

CRCelso Rocha de Barros

assim até eu—

ACAna Clara Costa

das empresas, né? Agora, é inegável que ele teve uma certa ajuda essa semana, porque você tem uma sequência de acontecimentos muito ruins para a campanha do Flávio, né? Começando pela questão da Michele, depois a pesquisa. A pesquisa sai junto com a foto do sicário. Antes de tudo, você teve o Dark Horse. Inclusive, toda essa questão do Tarifaço, a saída dele para os Estados Unidos na semana passada, Tudo isso também tem uma intenção de mudar a pauta, né, de tirar a pauta que o prejudica e tentar colocar uma pauta sobre o governo Lula, contra o governo Lula, que fale do governo Lula.

Essa estratégia deles, eles precisam tirar a pauta da pauta defensiva e fazer uma pauta de ataque ao governo, porque na crença dessa campanha, e eles não estão errados nesse ponto, essa eleição vai ser sobre o governo Lula, sobre a população querer ou não manter o governo Lula. E é verdade, Quando há, na verdade, uma reeleição em jogo, a eleição acaba sendo sobre manter aquele governo. Então eles querem virar a história para isso, né?

E nisso o Trump ajudou muito com esse tarifação essa semana e com essa mensagem do Marco Rubio. Isso coloca de fato o governo Lula no centro da discussão. Mas é muito difícil você, e mesmo que o governo Lula seja tragado pro centro da discussão nesse momento, o outro lado está tão desarticulado, tá com tantos problemas que ele não pode ser colocado numa posição confortável de apenas atacar o governo. Porque o que ele apresenta pra sociedade, né, Sicário, Banco Master, Dark Horse, enfim, toda a briga com a Michelle, tudo que compõe a candidatura do Flávio é muito complicado pra ele.

Então assim, ele não consegue aproveitar também esse benefício que há em ser oposição quando há um governo querendo se reeleger.

FDFernando de Barros e Silva

Um buquê de delinquências.

ACAna Clara Costa

E sem contar esse acontecimento recente, que foi o bloqueio de contas do Valdemar Costa Neto, depois que se descobriu que ele, apesar de não ser deputado nem senador, indicava emendas parlamentares. Então ele, além de controlar o maior fundo eleitoral, o maior fundo partidário do país. Ele também tinha acesso a emendas parlamentares.

FDFernando de Barros e Silva

Isso eu vou falar, vou imitar o Celso aqui, fala: olha que surpresa, o Valdemar fazendo coisa errada, gente!

CRCelso Rocha de Barros

É, o Valdemar roubando, gente, quem diria? Quem poderia prever? Ele e o Eduardo Cunha, né, cara? Outra pessoa que ninguém suspeitaria.

FDFernando de Barros e Silva

Exato, que surpresa!

ACAna Clara Costa

Exato. E agora, só fazendo uma pequena Fazendo uma pequena comparação com o passado, se a gente pegar a eleição de 2022, nesse mesmo momento, ali no meio do ano, julho, junho e julho, o que se discutia era o governo Bolsonaro. É claro que você tinha uma certa parcela da opinião pública que tava discutindo uma coisa muito específica, que era plano econômico do Lula. Não sei se vocês se lembram. Toda a Faria Lima tava lá. Qual é o plano econômico do Lula?

Qual que é o programa econômico do Lula? Se ele vai tirar o teto de gasto, qual vai ser a âncora fiscal então? Você tinha uma discussão em que o candidato Lula tava sendo questionado muito especificamente e sobretudo num ponto em que o Bolsonaro não era questionado. Ele tava lá, enfim, aprovando o PEC dos precatórios, arrebentando o teto de gasto e ele não era questionado sobre isso. Quem era questionado era o Lula. Mas tirando isso, todo o debate público acontecia em torno do governo Bolsonaro e do desastre que foi o governo Bolsonaro, enfim, desastre da pandemia e tal.

Agora, o que a gente vê é que depois da crise do INSS e, de certa forma, com algum respingo do Master, e que não são questões de governo, do governo Lula, né, são investigações que acontecem, não se trata de política de governo, né, não se trata de uma decisão de governo, são investigações que vieram em paralelo e que acabaram tocando o governo. Mas exceto por isso, essa eleição não tá sendo sobre o governo Lula, tá sendo muito sobre o que o que o Flávio fez e o que o Flávio vai fazer.

Quando eu falo o que o Flávio vai fazer, eu não tô falando de governo, eu tô falando de o que ele vai fazer para escapar da polícia, quantidade de rolo que ele tá metido.

FDFernando de Barros e Silva

Exato, que ele vai fazer para fugir da federal.

CRCelso Rocha de Barros

Exato, no que eu lhe ouvi ali, a patamo chegando, ele já vai A gente encerra então o segundo bloco do programa por aqui.

FDFernando de Barros e Silva

No terceiro bloco, a gente vai falar de Minas Gerais, o nó de Minas, como é que anda a sucessão presidencial e as eleições para o estado por lá. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta. Ana Clara, vou começar com você. Minas Gerais, a eleição está um bololô.

ACAna Clara Costa

Está.

FDFernando de Barros e Silva

A gente tá gravando nessa quinta. Patrulha Ananias, quadro histórico do PT, deve ter sido confirmado hoje, para você que tá nos ouvindo na sexta, como candidato do PT na undécima hora. E aparentemente a contragosto, mas por indicação do Lula. O líder nas pesquisas é o senador Cleitinho do Republicanos, que tinha grande resistência de ser o candidato do PL ele, mas parece que estão se dobrando as evidências de que o Cleitinho é o candidato competitivo, mas isso não está fechado.

O governador do estado é o Mateus Simões, que é ruim de voto, PSD do Kassab, mas é ruim de voto, que era vice do Zema.

ACAna Clara Costa

A chapa mais sexy da política, né? Zema e Mateus Simões.

FDFernando de Barros e Silva

Minas Gerais, que é um estado estratégico, existe a tradição de que quem vence eleição em Minas ganha a eleição presidencial. A gente tá com um quadro bastante indefinido mesmo ainda, né? Não é nem estável, é indefinido. Que que tá faltando nesse quadro que eu esbocei para você?

ACAna Clara Costa

Não, é esse bololô que você falou mesmo. Na verdade, Minas é o termômetro do Brasil, né? Todas as idiossincrasias que acontecem na política brasileira, tudo isso se concentra nos mais de 800 municípios de Minas Gerais, né? O Brasil tá muito comprimido ali, né? Norte, sul, leste, oeste, enfim. É um lugar muito interessante de se analisar. Eu particularmente adoro Minas, mineiros em geral, com exceção de alguns assim. Enfim, eu acho Minas um estado maravilhoso.

CRCelso Rocha de Barros

Isso aí.

FDFernando de Barros e Silva

Minas nos deu no século 20 Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa.

CRCelso Rocha de Barros

Já tá bom.

FDFernando de Barros e Silva

Só por isso já, já estão, já estão, já estão ganhando.

ACAna Clara Costa

Exato. Bom, a situação de Minas é uma situação que não é, ela não é rara nos estados hoje, em que os dois partidos hegemônicos, o PL e o PT, tem tudo para perder, ou porque não vão lançar candidato, ou porque vão lançar um candidato para perder. Parece ser o caso do PT com Patrícia Ananias, Patrus Ananias, que hoje é deputado federal. O PT tem uma rejeição muito grande em Minas Gerais, sobretudo em razão do governo Pimentel, que foi um governo que não pagou salários ao funcionalismo, aos aposentados.

E você não pagar salário, você atrasar salário, é um negócio que você não recupera depois disso. É muito grave e é muito definitivo, né? E o PT é um partido que em Minas ele é muito setorizado, ele é muito concentrado nas mãos de algumas figuras da política. Havia essa intenção inicial de lançar Amarília Campos, prefeita de Contagem, ao governo do estado, porque ela é uma política que foi amplamente testada em Contagem, né, muito popular em Contagem.

Ela tem uma relação muito boa com os outros partidos, com os prefeitos das grandes cidades mineiras. É uma política experiente, mas ela é uma política que não se dá bem com o PT local. O PT local não gosta da Marília Campos porque eles acham que ela, enfim, não segue a cartilha que eles gostariam que ela seguisse. Eles acham ela independente demais, eles acham ela petista demais, e ela tem uma atuação um pouco autônoma. E por isso o PT local não apoia ela.

Como se ela fosse uma outsider do PT, ela não fizesse parte do grupo. Embora hoje, em Minas Gerais, ela seja o nome do PT com mais possibilidade de futuro. Diante da impopularidade do partido no estado, mesmo a Marília sendo uma candidata forte e popular, era muito difícil ela ganhar. Ainda é muito recente a memória do Pimentel. E o Pimentel, ainda que vale a gente dizer, foi governador e depois foi para reeleição tendo atrasado o salário dos funcionários públicos.

CRCelso Rocha de Barros

Essa é fácil de adivinhar como terminou, né?

FDFernando de Barros e Silva

Exato. Ele foi para reeleição e perdeu.

ACAna Clara Costa

Sim, mas o próprio fato de o PT ter lançado esse cara para reeleição já diz muito, né?

FDFernando de Barros e Silva

É, mas olha, ele foi para reeleição em 2018, que foi a reeleição pós-impeachment tal, que é o Haddad, era o candidato à presidência. O Zema no primeiro turno teve quase 43% dos votos. Anastasia 29%, e Pimentel ficou em terceiro lugar sendo governador.

ACAna Clara Costa

Exato. Você vê que o partido ali, o diagnóstico do partido para Minas é sempre meio complicado, né?

FDFernando de Barros e Silva

Sim. E foi a única vez que o PT teve governador, né, também o Pimentel, porque você tem desde a era tucana Eduardo Azeredo, depois Itamar Franco, que tinha sido presidente da República, Aécio Neves, que ficou 8 anos, 2 mandatos. Depois Anastasia, 1 mandato. Daí o Pimentel. Depois a era Zema. Agora migrou do PSDB para o Zema. E teve o Itamar lá atrás, né? O PT só teve um governo em Minas, né? O PT, que tem dificuldade com os estados, justamente nunca governou São Paulo, governou o Rio de Janeiro quando?

Com a Benedita Celso, por ter eleito a vice, mas por alguns meses. Pimentel foi um fiasco em 2018, mas era 2018, enfim, a gente sabe as circunstâncias, o Lula tava preso e a gente sabe que foi eleição do Bolsonaro.

ACAna Clara Costa

Bom, voltando para hoje, essa é a situação do PT. Então a Marília não quis ser candidata ao governo do estado e o PT também não fazia muita questão. O Patrus Ananias é um político experiente, enfim, né, muitos mandatos. Foi ministro, enfim, tem uma boa relação com Lula. Todo mundo que tá sendo escolhido neste momento, a gente tem que concordar que é meio de última hora, né? É meio a solução que sobrou, né?

FDFernando de Barros e Silva

Mais improvisado que isso, só o Neymar na seleção entrando contra a Noruega.

ACAna Clara Costa

Que não foi improviso, foi decisão da família Mendes, né? Segundo Lauro Jardim. Bom, pegando um breve histórico, o Lula, por uma simpatia pessoal gostaria que fosse o Rodrigo Pacheco esse candidato. Ou seja, abriria mão de o PT ter uma cabeça de chapa em prol da candidatura do Rodrigo Pacheco, que foi presidente do Senado e que tem uma ótima relação com Lula. O Rodrigo Pacheco não quis porque ele é um político que tem uma relação muito boa com prefeitos, vereadores, deputados, sobretudo deputados, porque parte dessas emendas do orçamento secreto Quem direcionava pras bases era o Rodrigo Pacheco, ele beneficiou muita gente com isso.

Então assim, ele era um cara forte na classe política do estado, mas ele não era um cara popular. E com as medições que eles fizeram e as avaliações ali, eles viram que o Rodrigo Pacheco teria um fracasso muito grande em Minas, estado dele, ele não queria passar por isso, então disse que não seria mais candidato. Uma ideia que também foi aventada seria o PT apoiar o MDB. Com hoje pré-candidato ao governo, que é o Gabriel Azevedo, mas o PT não quer.

Não tendo a solução Rodrigo Pacheco, que era uma solução pessoal do Lula e não uma solução do PT de Minas, o Lula delegou essa decisão para o PT e o PT de Minas não cogita apoiar o MDB em nada. Então essa não é uma opção. Inclusive, a Marília Campos era uma defensora dessa ideia de apoiar o MDB, considerando a impopularidade do PT. Dentro do estado. Deixando bem claro que eu tô falando aqui de PT e governo do estado, eu não tô falando de Lula e nem de presidência da República.

Então essa é a situação da esquerda. No caso da direita, o PL não tem candidato. Tudo indica, retrato de hoje, que vai apoiar o Cleitinho, senador Cleitinho do Republicanos. O Matheus Simões é um político com o mesmo carisma do Zema, né, ou seja, Zero ou menos. Então assim, embora ele tenha máquina, ele não é um político popular. Existe uma estafa do mineiro com o governo Zema. Então tudo indica que o PL apoie o Cleitinho e que o PT vá com Patrus sem muita perspectiva de vitória.

Meu grande questionamento quando eu tava apurando esse caso de Minas era: por que o PT vai se arriscar a ter um palanque em Minas tão esvaziado, sendo que Minas é tão fundamental pra eleição presidencial e sendo que as pesquisas mostram as intenções de voto tão calcificadas e tá tão apertado? Apesar de tudo que aconteceu com Flávio, a diferença entre o Lula e o Flávio hoje nas pesquisas é muito menor do que era em relação ao Bolsonaro nesse mesmo período da eleição de 2022.

Então, como se arriscar para um palanque fraco em Minas, sendo que Minas é tão fundamental. E aí, conversando com as minhas fontes sobre esse assunto, o que eu ouvi foi o seguinte: embora para o governo a situação esteja da forma que está, a perspectiva presidencial é outra. Há um favoritismo do Lula na eleição presidencial, mesmo que esse eleitor vote no Cleitinho para governador. O lulismo em Minas, e isso eu ouvi, enfim, de mais de duas fontes, é maior do que o PT, é muito maior do que o PT.

E que é possível, inclusive há números que indicam isso, que o Lula tenha uma votação um pouco mais folgada em Minas nessa eleição do que foi em 2022, mesmo não tendo esse palanque.

FDFernando de Barros e Silva

Ana, só fazendo um parêntese que tem tudo a ver com isso que você falou, em 2022 o Lula teve no segundo turno em Minas 50,2%. E no Brasil 50,9%.

ACAna Clara Costa

Foi apertadíssimo.

FDFernando de Barros e Silva

Pra você ter uma ideia, em 2002, quando ele teve 61,2% no Brasil, ele teve 66,4% em 2002, 20 anos antes. A vantagem do Lula em Minas foi caindo ao longo dos anos. Vantagem do Lula e do PT, né? Daí teve a Dilma, mas sempre o PT foi mais votado pra presidente em Minas do que a média do Brasil. Em 2018, que foi o Haddad, o Haddad teve 44,8%. No Brasil e 41,8% em Minas. De qualquer forma, o Lula tem muito voto em Minas. Ele ganhou em Minas com 50,2% na última eleição, mas ganhou no Brasil por 50,9%.

Ou seja, a diferença de Minas foi menor do que a do Brasil. Você tem um quadro, não sei se isso é uma tendência ou de um certo encolhimento do PT, do lulismo em Minas também, embora seja muito forte. Esses são dados de um estudo que eu obtive, que mostra esse, enfim, essa tendência.

ACAna Clara Costa

É assim na Bahia também, por exemplo. Se você pegar o Nordeste como um todo, há uma queda constante. Se a gente pegar os últimos 20 anos nos votos no PT, seja Lula ou Dilma, né?

FDFernando de Barros e Silva

Pra presidente, né?

ACAna Clara Costa

Pra presidente, exato. Embora ele continue vitorioso na região e pegando o exemplo específico da Bahia, há uma queda consistente. A questão nesta eleição é que a direita não tá com candidato concreto. Exato. O Flávio Bolsonaro não é o candidato que era o Bolsonaro. Então isso pode ter um impacto. Talvez não seja que a população esteja satisfeita com o governo Lula ou feliz com o governo Lula ali em Minas, mas que a alternativa não se mostra consistente. E inclusive não há um candidato deles.

FDFernando de Barros e Silva

Tem um dado importante que é as eleições de 2002, 2006, a vantagem do PT sobre o PSDB foi grande no segundo turno. E agora as eleições mais recentes, as vantagens são muito mais apertadas, né? Essas margens são menores não só nos estados, mas é uma eleição mais disputada.

ACAna Clara Costa

Agora assim, só para concluir, um ponto interessante assim, o Zema foi um governador que se reelegeu no primeiro turno, foi eleito em 2018 nessa— hoje eriza a classe política, né, ao Aécio, à Dilma, ao PT, ao PSDB, à Lava Jato e tudo mais. Ele se reelegeu muito com ajuda do Bolsonaro, porque o Bolsonaro liberou ele de um grande endividamento do estado, deu um perdão para ele ali, e fez um último governo que hoje a população mineira, segundo dados da Quest, não tá nem aí para o Zema candidato a presidente.

Ele tá ali na rabeira. Enquanto se você pegar em Goiás, por exemplo, o Caiado nas pesquisas em Goiás é o candidato do estado, né? É o candidato forte dentro do estado. O Zema não é. E ninguém, na verdade, né, não tem um favoritismo absoluto em Minas nessa questão hoje, pelo menos, né, na eleição presidencial. Você tem um favoritismo do governo, mas também não é um favoritismo absoluto em que você diga, enfim, não tem chance de outra pessoa ganhar.

Mas até o momento não há uma indicação de que o mineiro prefira o Flávio majoritariamente.

FDFernando de Barros e Silva

Tá certo.

CRCelso Rocha de Barros

Celso? Então, Fernando, a política mineira sempre foi bastante complexa, né? Inclusive essa é a minha explicação para o fato do Departamento de Ciência Política da Federal de Minas Gerais ser tão bom, entendeu? Porque os caras têm que lidar com umas coisas muito escabrosas assim, entendeu? Então eles precisam ser refinar os instrumentos. Boa! Eu conversei com o Lucas Paulino, que é colunista do portal mineiro Fator. Ele tava me explicando o seguinte, que do ponto de vista da direita, se o Cleitinho for candidato, é muito difícil que qualquer outro se crie.

O Mateus Simões, que é o atual governador, ele não empolga absolutamente ninguém, não empolga nem o Flávio Bolsonaro, que foi pego fazendo uma anotação dizendo que Mateus Simões me puxa para baixo, né? Concordo inteiramente com Flávio. Flávio está certíssimo nesse diagnóstico. Agora, se o Cleitinho desiste da eleição e o PL resolve apoiar o Mateus Simões, aí o Mateus Simões tem chance, porque aí, partindo desse patamar, ele parte de um piso mais alto, e aí a máquina poderia fazer diferença, né?

Enfim, não quer dizer que ele seja favorito, mas se o Cleitinho sai, né, sai da eleição, se o Cleitinho sair. Senão, se o Cleitinho for candidato da direita, os outros candidatos de direita, o PL pensa em lançar um outro cara lá, o Flávio Roscoe, que é um industrial que também é muito desconhecido e enfim tem chances bastante diminutas pelo que o pessoal anda analisando. Se o Cleitinho for o candidato, o resto da direita tem poucas chances.

Tem bastante gente que quer que ele não seja justamente para isso, para viabilizar outro candidato. Ele já disse inclusive para imprensa que ofereceram dinheiro para ele, para ele deixar de ser candidato, mas ele não diz quem ofereceu. Do lado da esquerda, o candidato deve ser o Patrícia Ananis. O Patrícia é um quadro histórico do PT de primeira grandeza. É um cara ligado à Teologia da Libertação, ligado àquele PT bem das origens, mesmo da base, e que foi um prefeito bastante popular em Belo Horizonte.

Num certo momento teve uma briga entre o grupo dele e o grupo do Pimentel pelo controle do partido no estado, e o Patrus perdeu. O Pimentel assumiu o controle do PT, fez um péssimo governo, e é por isso que a gente tá aqui discutindo se o PT vai ter candidato ou não, porque isso não era nem questão antes do Pimentel. O PT sempre tinha candidato. A Marília Campos é, de longe, o quadro mais importante do PT mineiro, é quem tem voto na base dela, entendeu?

Quem entrega resultados lá pra população que ela governa. Mas ela tava defendendo que o PT não lançasse candidato próprio, ela tava bastante pendente a apoiar o Gabriel Azevedo, do PMDB. E aí, o Gabriel seria candidato a governo, ela seria candidata ao Senado. E aí, talvez a vice fosse ou pro PDT, que vai lançar, até agora tá lançando o Kalil.

ACAna Clara Costa

O Jarbas, né?

CRCelso Rocha de Barros

Ou o PSB, que tá lançando o Jarbas Soares. E o Patrus tem um, além de ter sido um prefeito popular, ele foi o ministro do Desenvolvimento Social durante a implementação do Bolsa Família. Então assim, ele é um cara com currículo dentro da história do PT muito, muito forte, né? Mas assim, a gestão dele foi há muito tempo, então tem muitos mineiros que não lembram disso, não tem nenhuma opinião formada sobre o Patrus, e tá difícil costurar essa frente mais ampla.

A Marília Campos, por exemplo, Defendia que o PT não lançasse candidato e apoiasse o Gabriel Azevedo. E aí a vice iria ou pro Kalil, que tá concorrendo com o PDT, ou pro Jarbas Soares, que tá concorrendo pelo PSB, ou esses partidos indicariam outra pessoa. Enfim, fazer uma candidatura mais frente ampla. O Patrus quer fazer também uma candidatura frente ampla, mas é bem mais complicado porque ele vai na cabeça de chapa. O Gabriel aparentemente não tem interesse em ser vice de ninguém.

Ele inclusive tá se lançando candidato em boa parte pra ser candidato a prefeito depois, né, trabalhar aí no reconhecimento público do nome dele. Como vice, ele não teria isso. E o Kalil insiste em ser candidato de qualquer jeito. O Kalil, todo mundo diz que ele tem o piso alto e o teto baixo, né? Quer dizer, ele tem gente que gostou da administração dele em Belo Horizonte, ele tem torcedores do Atlético Mineiro que gostaram dele, mas por outro lado tem gente que odiou a administração dele, tem gente que odeia o Atlético Mineiro porque torce pelo Cruzeiro.

Ele tem bastante voto, mas para majoritária no estado é difícil. Então assim, pelo que a gente tá vendo até agora, tá mais fácil a direita se unir aqui do que a esquerda com o centro, se o Cleitinho for candidato. Se o Cleitinho for candidato, eu acho que ele amarra melhor aí todas essas forças de direita. E na esquerda a gente tem um problema assim, o problema não é o nome do Patrus, que é um cara que tem uma história bastante admirável, mas é bem difícil ele amarrar essas forças todas que poderiam dar uma vitória.

O PSB iria por osmose, né, junto com Mas tem gente no PSB que não quer, com certeza, muita gente que não quer. Então assim, mesmo se o PSB formalizasse, podia ter traição na base, poderia ser complicado. E o PDT, o Calil parece que quer ser candidato de qualquer jeito. Então assim, não tá com uma cara boa articulação de uma frente ampla aqui não. A gente sabe que já teve vários anos em que Minas Gerais votou para governo na direita e na esquerda. Na última eleição, inclusive, o voto Lula-Zema foi muito comum, né?

ACAna Clara Costa

Teve Lula-Écio, teve Dilma-Anastasia.

CRCelso Rocha de Barros

Exatamente. Então assim, isso é comum, não quer dizer que o governo vai perder Minas Gerais por causa disso, mas não tenho a menor dúvida que ajudaria se o Lula tivesse uma, um palanque forte, né, em Minas Gerais.

FDFernando de Barros e Silva

Muito bem, a gente vai seguir acompanhando essas movimentações nas próximas semanas. Encerramos o terceiro bloco do programa, fazemos um rápido intervalo. Na volta, Kinder Ovo. Já voltamos. Muito bem, estamos de volta. Diretora Mari Faria, solta aí o Kinder Ovo, aumenta o volume, por favor.

CRCelso Rocha de Barros

Existe um preceito, chama a ética da responsabilidade. Quando você assume um cargo, você tem que se despir das suas veleidades, particularidades. Como diz o alemão, private Ranglegenheiten, as suas particularidades estão abaixo do império da sua responsabilidade.

ACAna Clara Costa

Nossa, caraca!

CRCelso Rocha de Barros

Não é o Gilmar não, é Espírito de Homem.

FDFernando de Barros e Silva

É, acertou, eu acho. É Espírito de Homem. O Celso acertou.

CRCelso Rocha de Barros

Quanto pior, maior chance de eu acertar. E ainda acertou um Weber ali em ética da responsabilidade.

FDFernando de Barros e Silva

Caraca, hein? Cada um tem o castoreado que merece, né?

CRCelso Rocha de Barros

Exato. Careca por careca.

FDFernando de Barros e Silva

Exatamente, careca por careca a gente tem os filhos de homem. Puta que pariu! Mas foi uma boa essa, acertou bem, mandou bem.

CRCelso Rocha de Barros

Mas é porque é bem no nicho.

FDFernando de Barros e Silva

Para os anais, senador Espírito de Homem do PP, Pato Pato de Santa Catarina, ao canal N Demais no YouTube. Bom, passado este momento de glória do Casca de Bala com senador Espírito de Homem citando Max Weber e tudo, tô recuperando, eu fiquei muito tempo sem ganhar. A gente vai para o melhor momento do programa, o momento das cartinhas, momento de vocês correr elegante. Algumas pessoas comentaram a sugestão do Celso na semana passada.

Bill Galeno postou o seguinte: achei de péssimo tom o Celso desejar o governo do RJ para Ana Clara, forma dissimulada de desejá-la presa.

CRCelso Rocha de Barros

Que horror, que horror! Está tentando salvar nosso estado.

FDFernando de Barros e Silva

Ana Carolina Jesus escreveu: Ana Clara, acho que o Celso não vai com a sua cara pegar essa bomba de ser governadora do Rio de Janeiro. Olha que sou carioca.

CRCelso Rocha de Barros

Foi só uma ideia.

ACAna Clara Costa

Ele quer viver em Bangu.

FDFernando de Barros e Silva

Que horror! Mas não é, o Celso tava pensando no bem do Rio de Janeiro.

CRCelso Rocha de Barros

Exato.

FDFernando de Barros e Silva

Ana Clara ia quebrar a tradição.

CRCelso Rocha de Barros

Já dizia Espírito Homem, pré-vangelhades brondungum.

ACAna Clara Costa

A Regina Araújo, de Mariana, em Minas, escreveu: Caminho ouvindo vocês no final de semana. Nada me traz mais lucidez e motivação para continuar minha luta na formação de professores que possam mudar esse país.

CRCelso Rocha de Barros

Pô, que legal, hein?

ACAna Clara Costa

A Regina é de Mariana, em Minas.

CRCelso Rocha de Barros

Parabéns, Regina! Boa sorte para você!

ACAna Clara Costa

Deve estar vivendo tudo que a gente fala aqui na prática.

FDFernando de Barros e Silva

Muito bom!

ACAna Clara Costa

Obrigada, Regina!

FDFernando de Barros e Silva

Obrigado, Regina!

CRCelso Rocha de Barros

Valeu, Regina! Também tivemos comentários sobre o bloco de Copa que não aconteceu. O Mateus Costa postou: poxa, fiquei com vontade de ouvir o bloco metendo o pau no Neymar. E uma pessoa que só se identifica como @bec no Spotify escreveu: eu adoraria um bloco inteiro com o Fernando falando mal do Neymar. Porém entendo a decisão da Ana Clara, pois já temos tragédias demais na política. Mas vou deixar uma pergunta: não seria o Rio de Janeiro o Neymar dos estados?

Apesar de seu talento natural, o modus operandi podre é o que melhor define sua existência. Um beijo para você.

FDFernando de Barros e Silva

Muito bom!

ACAna Clara Costa

Olha que metáfora, hein, rapaz!

CRCelso Rocha de Barros

Essa foi longe, hein?

ACAna Clara Costa

Profunda metáfora.

FDFernando de Barros e Silva

@bec tá contratado para o nosso programa esportivo. A gente faria bem melhor melhor do que o Felipe Melo. Bom, o que é bom dura pouco, o que não é tão bom também acaba. E assim a gente vai encerrando o programa de hoje por aqui. Se você gostou, não deixe de seguir, dar 5 stars pra gente no Spotify. Segue no Apple Podcast, na Amazon Music, favorita na Deezer, e se inscreva no YouTube. Você também encontra a transcrição do episódio no site da Piauí.

O Foro de Teresina é uma produção do Estúdio Novelo para Revista Piauí, A coordenação geral é da Bárbara Rubira, a direção é da Mari Faria, com produção e distribuição da Maria Júlia Vieira, a checagem é da Ethel Rudnitzky, a edição é da Bárbara Rubira e da Mariana Leão, a identidade visual é da Amanda Lopes, a finalização e mixagem são do João Jabássi e do Luiz Rodrigues, da Pipoca Sound. Jabássi e Rodrigues também são os intérpretes da nossa melodia tema.

A coordenação digital é da Bia Primeiro, da Emília Almeida e do Fábio Brizola. Programa de hoje foi gravado aqui na minha choupana fria em São Paulo e no Estúdio Rasto, sempre quente, do Danidinho no Rio de Janeiro. Eu me despeço então dos meus amigos. Tchau, Ana!

ACAna Clara Costa

Tchau, Fernando! Tchau, pessoal!

FDFernando de Barros e Silva

Tchau, Celso!

CRCelso Rocha de Barros

Tchau, Fernando! Até semana que vem!

FDFernando de Barros e Silva

É isso, gente, ótima semana a todos e até semana que vem!

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