Episódios de Dois Dedos de Cultura

MACAM - Museu de Arte Contemporanea Armando Martins

03 de maio de 202616min
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Participantes neste episódio1
C

Cristina Leal

HostApresentadora
Assuntos6
  • Museu de Arte Contemporânea Armando MartinsHistória do edifício e sua transformação · Armando Martins e sua paixão pela arte · Coleção de arte moderna e contemporânea · O hotel integrado ao museu
  • Palácio dos Condes da Ribeira GrandeConstrução e proprietários originais · Sobrevivência ao terremoto de 1755 · Uso como instituições de ensino
  • História da Arte em ContagemArte portuguesa do final do século XIX · Vanguardas e modernismo português · Artistas internacionais na coleção · Representação de mais de 280 artistas
  • Experiência imersiva no museuArte integrada em todos os espaços · Dormir rodeado de arte · Lisboa como cidade que se reinventa
  • Inspirações ArtísticasObras de Pedro Croft nos terraços · Escadaria monumental e tetos de abóbada · Pinturas originais na antiga capela · Diversidade de linguagens artísticas na coleção
  • Preço e valor da visitaCusto de entrada de 15 euros · Vale a pena o investimento
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Dois Dedos de Cultura. Um tempo para descobrir oportunidades culturais que não vai querer perder. Dois Dedos de Cultura. Com Cristina Leal.

Olá querido ouvinte, seja muito bem-vindo a mais um programa de Dois Dedos de Cultura, aqui na sua rádio, na Rádio Clube de Sintra. Hoje trago um tema, até si, que tem a ver com a minha última visita realizada. E nesta visita eu posso dizer que saí deste local com a sensação de que Lisboa não para de me surpreender.

Então eu vou levar-vos até um lugar onde o passado e o futuro dormem no mesmo quarto. Estou a falar naturalmente de algo metafórico, portanto o passado e o futuro no mesmo espaço. É um espaço onde já viveram nobres, a aristocracia, a alta aristocracia, e onde hoje se dorme rodeado de arte, arte moderna, arte contemporânea. Estou a falar do Macan.

Museu de Arte Contemporânea Armando Martins. Quer acompanhar-me nesta visita? Vamos lá! Primeiro, antes de... já sabe que eu gosto muito de história, naturalmente que para...

Entrar no local e conhecer a fundo o local, eu tenho que conhecer sempre todo o seu contexto histórico. Então, este edifício, este bonito edifício que foi recentemente...

inaugurado, reconstruído, restaurado, foi no passado um dos grandes palácios que a nobreza construiu na zona da Junqueira. Era o Palácio dos Condos da Ribeira Grande. O palácio remonta ao século XVIII e foi residência de uma das famílias nobres portuguesas. Ele foi mandado construir no início mesmo do século XVIII, em 1701, na altura pelo Marquês de Niza, Francisco Baltazar da Câmara,

E em 1752 ele foi adquirido por José da Câmara Teles, o Conde da Ribeira Grande, cujo nome adotou, naturalmente. E vamos lá recuar até ao século XVIII e relembrar, aliás, relembrar que a zona de Alcântara, nomeadamente Junqueira,

Onde hoje encontramos este novo espaço foi durante séculos marcada por quintas, por propriedades aristocráticas, grandes palácios de alta nobreza, que nasceram aqui neste local, perto do Rio Tejo. Na altura, os nobres deslocaram-se do centro da Baixa.

para o exterior, para a periferia, porque abundavam doenças, porque a Real Barraca tinha sido ali instalada no Alta Ajuda, então estava-se mais perto, digamos assim, do poder da corte. E foi o caso dos donos deste palácio. Portanto, é um palácio que reflete em si o estatuto e a grandiosidade e o poder desta grande família.

O palácio sobreviveu ao terrível terremoto de 1755 e hoje em dia ainda podemos ver no frontão os vestígios dos antigos proprietários, com a divisa pela fé, pelo príncipe, pela pátria. Está bem patente ali neste local, mesmo à frente do edifício. No final do século XIX, os proprietários do palácio começaram a ter uma ideia. Já não precisavam do espaço na sua totalidade, então passaram a arrendar o corte do edifício.

a instituições de ensino particulares. Primeiro foi o Colégio Arriaga e em 1936 ali funcionou o Colégio Novo de Portugal.

Mais tarde, a família passa a viver num espaço mais pequeno, já não necessitava de tanto espaço. Isto a partir de 1939 e passam a arrendar a área do edifício principal ao Estado para instituições de ensino público.

E é assim que ali passaram a existir e fazem parte da história o Liceu Dom João de Castro, o Liceu Rainha Dona Leonor, o Liceu Rainha Dona Amélia e, eventualmente, cara ouvinte, se me está a ouvir, eventualmente se calhar até foi um dos alunos que estudou aqui neste espaço e eventualmente já conhece os grandes salões, as pinturas que se encontram nas paredes, as pinturas não, os frescos que se encontram nas paredes.

Ao longo dos anos, especialmente com as reformas escolares, o edifício sofreu muitas alterações e foi preservando muito pouco do original inicial.

Contudo, nós podemos destacar a bonita fachada azul, que está alediada por dois grandes terraços que dão para a Rua da Junqueira. E esta é a primeira chamada de atenção que eu faço. Se por acaso passar na Rua da Junqueira, olhe bem para estes terraços, porque à sua vista encontram-se ali sem necessidade de pagar qualquer bilhete.

duas grandes obras de Pedro Croft. Portanto, é obrigatório olhar. Não pare, mas olhe. Também chama a atenção para a fachada, a fachada norte-posterior, a escadaria monumental nobre, tudo visível do lado de trás. Portanto, este já tem que entrar no espaço, visitar o museu e conhecer a escadaria monumental. Os tetos de abóbda de Areste, lindíssimos.

e a antiga capela. Este espaço foi adquirido pelo atual proprietário no ano de 2006 e as obras de reabilitação e expansão do edifício começaram no final de 2018. O intenso trabalho de restauro possibilitou recuperar pinturas originais na zona da antiga capela e ao ser removida a sujidade acumulada e recuperar as pinturas da escaderia central que estavam ocultas debaixo de pinturas mais recentes.

Foram restauradas também elementos de cantaria exterior e interior, varandins, a estrutura original de madeira da cobertura da biblioteca e portadas das salas. Digamos que, como muitos dos palácios lisboetas, este espaço não era apenas utilizado como casa, era utilizado sim como símbolo de estatuto e de poder. E agora, todo esse estatuto e todo esse símbolo que foi criado no século XVIII...

Está bem visível, ainda mais visível após estas obras de restauro. Os salões amplos, os detalhes arquitetónicos cuidados e uma localização privilegiada que hoje podemos contemplar. De facto, ali nós podemos observar, nestes terraços, por exemplo, a quietude do Rio Tejo, assim, de uma forma tranquila. É verdade, é isso. Hoje renasce aqui com uma nova identidade. Aquilo que antes...

Era um espaço de elite. Eu imagino o passado desta casa, os encontros sociais onde se encomendavam casamentos, onde se tratavam de negócios entre a alta nobreza. Hoje em dia torna-se um espaço de cultura acessível, ainda que com um toque de exclusividade. Mas isso já lá vamos.

Antes de falar sobre este toque de exclusividade, eu gostava de falar um bocadinho sobre Armando Martins. Aliás, já deve estar a perguntar quem é esse senhor Armando Martins que comprou esse palácio e o restaurou.

E aí fez um grande museu e aí colocou as suas obras de arte. Mas afinal, quem é que é este senhor Armando Martins? Muito bem, este Armando Martins, este grande empresário português, é um grande apaixonado por arte. Isso é óbvio, naturalmente. Ele é engenheiro mecânico de formação, foi promotor imobiliário da profissão, da sua atividade nasceria ao Grupo Fibeira, aí talvez já esteja em sintonia.

A grande obra, a obra mais conhecida do grupo Fibara é o Atrio Saldanha, que inclusive recebeu um prémio Valmor. O Atrio Saldanha, para quem está fora de Lisboa, fica a saber que é um centro comercial situado no centro de Lisboa.

e terá sido eventualmente a obra mais emblemática da sua atividade no setor imobiliário que foi levada a cabo pelo Grupo Fibera. Ele, Armando Martins, é um colecionador de arte e ele próprio se identifica e se confessa um viciado em arte. Tomou-lhe o gosto e compara a atração que tem pela arte como o vício de droga. Ele admite que uma boa droga, uma droga boa.

A atividade de Armando Martins como colecionador de arte iniciou-se quando ele tinha 18 anos de idade, ainda muito novo, à altura em que ele adquiriu umas serigrafias a um amigo, diz ele. Quando estava prestes a completar 25 anos, ou seja, bem na véspera do 25 de abril de 1974, ele comprou aquela que seria a sua primeira obra original. Uma pintura de Rogério Ribeiro que se manteria...

até hoje na sua coleção particular. E a partir daí foi um non-stop. Décadas, durante décadas, Armando Martins reuniu uma coleção impressionante de arte moderna e contemporânea. Não se trata, diz ele, de investimento.

Trata-se de uma visão e que bela visão ele teve de facto. E mais, ele diz que não é uma visão para ser usada em benefício próprio, é uma visão de que a arte não deve estar escondida, mas deve estar partilhada. E foi por isso e foi isso que deu origem a este museu.

Segundo a imprensa, o MACAM obrigou o investimento de mais de 55 milhões de euros de capital próprio na compra e na reabilitação do antigo palácio, que compreende também uma unidade hoteleira de 5 estrelas instalada no mesmo espaço. O acervo em exposição compreende mais de 215 obras da coleção de cerca de 600 do empresário. Uma coleção privada.

que antes de estar exposta estava guardada e bem guardada num armazém e que agora ganha vida pública. Segundo declarações de Hermano Martins, existe ainda a pretensão de investir 500 mil euros por ano em novas aquisições. Portanto, vai ser um museu que nos vai surpreender constantemente por novas obras e nos aliciar a uma visita constante.

Este grande homem, Armando Martins, no ano passado, a 10 de junho de 2025, foi agraciado com o grau de grande oficial da Ordem do Infante D. Henrique. E agora sim, vamos falar sobre a coleção.

Esta coleção de arte abrange desde o final do século XIX até à atualidade. É composta por mais de 600 obras de arte e por uma grande diversidade de linguagens. Linguagens artísticas, naturalmente. A escultura, pintura, desenho, fotografia, vídeo. A coleção contempla, na sua fase inicial da Constituição, um primeiro núcleo de arte portuguesa. Este núcleo começa em finais do século XIX.

com obras de naturalismo, vai prosseguir pelas vanguardas do início do século XX com as várias gerações do modernismo.

e estende-se até o final da década de 80 e reúne várias obras-primas e os principais artistas destes períodos são nomes muito conhecidos, José Malhoa, Eduardo Viana, Guilherme Santa Rita, Paulo Rego, Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis, entre tantos e tantos outros.

A coleção foi extensamente ampliada por um segundo núcleo que compreende obras a partir dos anos 80 até à atualidade, passando a contemplar inclusive artistas internacionais. A par de trabalhos de consagrados artistas portugueses, integra obras exemplares dos mais renomados artistas internacionais.

São exemplos disso Marina Abramovic, Ernesto Neto, Lian Gillick. São vários nomes que não vou referir todos, naturalmente, porque são imensos e que, naturalmente, você vai conhecer quando visitar este local. Ao todo estão representados na coleção mais de 280 artistas, vários conjuntos autoriais e diversos.

Núcleos temáticos. E a coleção, como eu já referi, encontra-se em permanente atualização.

E o mais interessante, agora preste atenção, é que a arte não está apenas nas paredes. Ela envolve o visitante, ela envolve-nos. E talvez o mais curioso seja isso a sua grande pretensão. Eu fiquei muito surpreendida quando, na passagem da garagem para o espaço de museu, verifiquei que a própria garagem tem obras de arte, o que não é de todo normal.

E como eu estava a dizer, este local envolve o visitante, porque neste espaço pode-se dormir. O museu integra um hotel de cinco estrelas, uma ideia absolutamente inovadora, onde o visitante deixa de ser apenas um observador e passa a fazer parte desta experiência, de dormir num museu, acordar, rodeado de arte, viver dentro de uma coleção.

De facto, a ideia com que eu fiquei depois de sair deste espaço e de passear ali na zona de Junqueira é que Lisboa continua a reinventar-se. E neste lugar percebemos que a história não ficou presa no passado.

Ela transformou-se, ela adaptou-se e ganhou agora novo significado. De um palácio aristocrático, de um liceu, passou um espaço cultural contemporâneo. O Macan? Não, não é apenas um museu. É um encontro entre épocas. E talvez seja por isso que Lisboa é tão especial. A capacidade de guardar memórias enquanto cria o futuro.

Hoje visitámos este local, eu gostei imenso de o visitar, posso dizer que o preço não é barato, a entrada para visitar o museu na sua totalidade tem um custo de 15 euros, acredito que para uma família com 3 ou 4 elementos nos tempos que correm não é barato.

Mas acredito em mim, vale a pena a sua visita, vale a pena conhecer este local. Este foi mais um programa Dois Dedos de Cultura. Sou Cristina Leal, já sabe, estarei consigo de novo na próxima semana com mais um apontamento cultural. Até lá, desejo uma boa semana e as maiores bênçãos de Deus na sua vida. Dois Dedos de Cultura. Um tempo para descobrir oportunidades culturais que não vai querer perder.

Dois Dedos de Cultura, com Cristina Leão.

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