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Leitura Orante: Fílon de Alexandria

05 de julho de 202637min
0:00 / 37:10

Bora ter Uma Conversa através da tradição sapiencial!? Para esta Lectio Divina escolhemos um trecho de Fílon de Alexandria, em sua obra "Sobre a Criação do Mundo" (§16-20), onde o filósofo judeu compara a obra da criação ao trabalho de um arquiteto que traz primeiro a cidade na alma antes de concretizá-la. O mundo das formas encontra seu lugar no Logos Divino, princípio de ordem, sentido e beleza.

Então, antes de dar play, pegue aqui o arquivo do texto - https://drive.google.com/file/d/17CR9hwwFV6b7zl63YnZOEGk7KP-nsJ1A/

Vamos lá!

Música: Salmo 8

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Participantes neste episódio4
A

Alexandre Ferreira

HostProfessor
P

Pedro Luiz

HostProfessor
S

Speaker C

Convidado
S

Speaker D

Convidado
Assuntos9
  • Cristo e o LogosLogos · Criação do Mundo · Arquiteto Divino · Mundo Inteligível · Mundo Visível
  • Leitura de Mateus 6Fílon de Alexandria · Sobre a Criação do Mundo · Logos Divino · Tradição Sapiencial · Lectio Divina
  • Oração e meditação cristãPredestinação e Plano Divino · Criatividade Divina · Criação da Inteligência · Teilhard de Chardin
  • Crença e CiênciaCosmologia · Incompatibilidade entre Fé e Ciência · Universo como Obra de Deus · Logos como Mente de Deus
  • A providência divina na vida de JoséSer Humano como Detalhe Divino · Amor de Deus · Grandeza do Universo
  • Projeto Esquina· CulturaCidade Inteligível · Arquiteto · Cidade de Pedra e Madeira
  • Gratidão e Bem-EstarVida de Fílon de Alexandria · São João Evangelista · Cirilo de Alexandria · Hildegarda de Bingen · Bernardo de Claraval
  • Inteligência ArtificialManus IA · Claude IA · Tradução de Textos Antigos
  • Trabalhar em silêncioSalmo 8 · Palavra de Deus · Momento de Oração
Transcrição39 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

Olá, sejam bem-vindas, sejam bem-vindos. Hoje a gente vai ter uma leitura orante de Filon de Alexandria, e eu sou Pedro Luiz, eu sou Alexandre Ferreira. Hoje a leitura orante vai ser filosófica, não, Alexandre?

?Voz B

É, olha, vai ser uma leitura orante ousada Mas para dizer também que leitura orante logicamente é muito bem feita e apropriadamente feita com a Bíblia, mas não só.

?Voz A

Sim, sim, há textos sagrados de santos. Não é o caso de Filon, mas eu acho que o Alexandre fez uma boa escolha, já que a gente falou no último programa sobre Jesus, o Logos. O Alexandre fez uma excelente escolha de a gente tentar rezar em um texto que foi escrito antes de Cristo, não é? E lembrar que Filon é aquele que ajudou a estabelecer o termo Logos dentro daquilo que é a filosofia judaica, o pensamento judaico, e depois ele é aproveitado por São João.

Também queria lembrar que sempre quando a gente tem léxio, o que significa? Que nós vamos entrar em um período de recesso. E é o que vai acontecer. Nós voltamos no começo de agosto, depois desse programa, e aí retomamos com o ritmo normal. É isso, não é, Alexandre?

?Voz B

É isso. Só mais um, digamos, uma curiosidade, Pedro, também que ajuda a gente a entender a importância de Philon. Isso eu descobri exatamente quando tava procurando um contexto apropriado, Santo Ambrósio, o grande catequista que ajudou na conversão de Santo Agostinho, é num dos seus comentários, né, sobre grandes clássicos da literatura, ele é de modo inapropriado chama Filon de bispo. Olha aí, ele faz um anacronismo ali, mas ele tem Filon tão em alta conta que ele sagra, né, ou ordena Filon, ainda que póstumamente bispo, né, coisa que não poderia ser porque ele é anterior a Cristo, inclusive consequentemente anterior aos apóstolos e ao cristianismo.

Mas no tempo de Santo Ambrósio, ou seja, século 4, século 5, Filon gozava de tão alta reputação entre os cristãos que até confundido com bispo, e quem sabe até mesmo com santo, ele foi.

?Voz A

Você sabe que tem autores da patrística que dizem que, por exemplo, Sócrates foi um cristão antes de Cristo. A gente vai falar disso na volta, no próximo semestre. Alexandre, Léxio Divina, nós temos alguns passos a seguir, poderia rememorar a gente?

?Voz B

Não, vamos lá. Os passos clássicos da Léxio Divina é a Léxio, a Meditatio, a Contemplatio e a Oratio, né, antes da Contemplatio. Mas geralmente a gente começa com um movimento de entrar em sintonia com esse momento de oração. Então a gente faz uma invocação do Espírito Santo.

?Voz A

Perfeito, vai contigo?

?Voz B

Pode ser, vamos lá. Então nesse momento nós queremos invocar o Deus Espírito Santo, que ele possa guiar a nossa mente guiar o nosso espírito humano. E nessa comunhão com o próprio Deus que se move em nós, que nós possamos fazer proveito desse texto tão antigo, mas tão cheio de reverência ao ato da criação. E que assim nós possamos aproveitar esse momento que estamos aqui, nós dois, cada um na sua casa, fazendo esse exercício, possamos aproveitar para estar em comunhão com esse Espírito, mas também com o Filho, que nós chamamos Logos, e com o Pai, que é o Todo-Poderoso, que é onde toda a criação e tudo começa. Amém.

?Voz A

Amém. Bom, Alexandre, nós temos aqui a seleção de um texto que chega até nós no original grego, Não é um texto escrito por Filon de Alexandria, se a gente pode dizer, de Officio Mundi, da criação do mundo. E estando em grego, a gente lançou mão das inteligências artificiais para fazer as nossas traduções. Você vai ler uma tradução de qual Iá, Alexandre?

?Voz B

Olha, Pedro, Para fazer essa tradução eu usei a Manus, que é uma IA chinesa e que eu fiquei sabendo há pouco tempo que a Meta comprou. Mas para mim, eu acho que ela tem um quê de fazer a coisa de maneira minuciosa, né? Então para esses trabalhos minuciosos eu peço ajuda da Manus.

?Voz A

Perfeito. A minha tradução vai ser feita pelo Claude, a IA cujo dono, o criador melhor dizendo, esteve junto com o Papa Leão XIV quando do lançamento da Magnificat Humanitas, que é uma IA que sobretudo preza muito por umas questões éticas, não é? E tem a ética aí como, como um dos seus maiores distintivos. Então eu vou de Claude e o Alexandre a tradução de Philon pela, pelo Manus. Começo eu, Alexandre?

?Voz B

Oi, pode começar você. E eu acho que é interessante, depois você me manda essa tradução e a gente disponibiliza então o link na descrição do episódio para quem for fazer também Alexio ter o texto, né, para poder também fazer esse mesmo mesmo movimento que a gente. Então, se você está ouvindo e nessa disposição de fazer a Léxio Divina também, você pode ir agora na descrição e baixar o arquivo para que você possa acompanhar com a gente também a Léxio Divina.

?Voz A

É isso. Nós então vamos lá ler Filon de Alexandria numa leitura orante. Eu começo uma tradução a partir do verso 16 e vamos até o verso 20. Deus, enquanto Deus, sabia que uma bela imitação jamais poderia existir sem um belo paradigma, nem qualquer coisa sensível estar isenta de falha se não fosse formada à semelhança de um arquétipo e de uma ideia inteligível. Assim, querendo criar esse mundo visível, pré-modelou o mundo inteligível, a fim de que, usando um paradigma incorpóreo e semelhantíssimo a Deus, produzisse o mundo corpóreo imagem mais jovem de um modelo mais antigo, contendo em si tanto gêneros sensíveis quanto inteligíveis existiam naquele.

Não é lícito dizer ou supor que o mundo construído a partir das ideias esteja em algum lugar, mas de que modo ele se constitui saberemos seguindo uma certa imagem tomada das coisas que estão entre nós. Sempre que uma cidade é fundada por grande ambição de um rei ou de algum chefe que reivindica poder absoluto e cujo espírito, além disso, engrandece essa boa fortuna com esplendor, acontece às vezes que um homem versado em arquitetura se apresenta e, tendo observado o clima e a oportunidade do lugar, esboça primeiro em si mesmo quase todas as partes da cidade que há de ser realizada.

Templos, ginásios, sede de magistrados, praças, portos, estaleiros, ruas, construções de muralhas, fundações de casa e de outros edifícios públicos. Em seguida, tendo recebido em sua própria alma, como em cera, os modelos de cada uma dessas partes, ele carrega em si a imagem de uma cidade inteligível e, despertando as suas figuras pela memória inata e gravando ainda mais profundamente os seus traços, tal como um bom artífice, voltando o olhar para o paradigma, começa a construir a cidade de pedra e madeira, tornando as substâncias corpóreas semelhantes a cada uma das ideias incorpóreas.

Ora, coisas semelhantes devem ser pensadas também a respeito de Deus. Assim como aquele arquiteto, tendo-se posto a fundar a grande cidade, concebeu primeiro os seus modelos, dos quais, constituindo um mundo inteligível, realizou também um mundo sensível, servindo-se daquele como paradigma. Assim, pois, como a cidade previamente delineada pelo arquiteto não possuía um lugar fora dele, mas estava na alma do artífice, do mesmo modo também o mundo constituído a partir das ideias não poderia ter outro lugar senão a razão divina, que ordenou todas essas coisas, pois qual outro lugar poderia haver para suas potências capaz de receber e conter, não digo todas, mas uma única sem mistura, qualquer que seja?

?Voz B

Alexandre, vamos lá, leio eu agora então a minha tradução desses mesmos parágrafos de 16 a 20 do texto sobre a criação do mundo. Efetivamente, Deus sendo Deus, sabia de antemão que nenhuma cópia bela jamais poderia ser produzida senão a partir de um modelo belo, e que nenhuma das coisas sensíveis poderia ser irrepreensível se não fosse feita como cópia de um arquétipo e forma exemplar. Apreensível pela inteligência. E assim, quando Deus se propõe criar esse mundo visível, modelou previamente o mundo apreensível pela inteligência, a fim de usá-lo como modelo incorpóreo e imagem acabada da divindade na produção do mundo corpóreo, criação posterior, cópia de uma anterior, que haveria de encerrar tantas classes de objetos sensíveis quanto de objetos mentais se encontravam na forma inteligível.

Não é legítimo supor ou dizer que o mundo constituído pelas formas exemplares se encontra em um determinado lugar, mas saberemos como ele está constituído se considerarmos atentamente certa imagem tomada de nossa própria experiência. Quando se vai fundar uma cidade, Para satisfazer os ambiciosos projetos de algum rei ou governante que, apropriando-se de um poder sem limites e ao mesmo tempo concebendo brilhantes ideias, busca adicionar novo brilho à sua prosperidade.

Algum arquiteto experiente, após acudir uma e outra vez ao lugar e observar suas vantagens de clima e posição, concebe primeiro em sua mente o plano de quase todas as partes da cidade que está presente a afundar, que está prestes a afundar: templos, praças, portos, depósitos, ruas, alicerces das muralhas, localização de casas e demais edifícios públicos. Em seguida, havendo recebido em sua alma como em uma cera As imagens de cada uma delas leva consigo a representação de uma cidade concebida pela inteligência.

E depois de haver retido essas imagens mediante sua inata capacidade de recordar e impresso seus traços com mais intensidade ainda em sua inteligência, começa como artífice experiente, com a vista posta no modelo, a construí-la com pedras e madeiras, cuidando para que os objetos corpóreos sejam totalmente iguais a cada uma das incorpóreas formas exemplares. Pois bem, do jeito que Deus faz, podemos pensar que procedeu de maneira análoga, que determinado a fundar a grande cidade, concedeu primeiro as características da mesma, e havendo conformado mediante elas o mundo apreensível pela inteligência, foi produzindo de forma efetiva o mundo perceptível pelos sentidos, empregando para isso aquele como modelo.

Assim, pois, como a cidade concebida previamente no espírito do arquiteto não ocupa lugar algum fora dele, mas se acha impressa na alma do artífice, da mesma maneira o mundo das formas exemplares não pode existir em outro lugar algum que não seja o Logos Divino, que as forjou com um plano ordenado. Porque que outro lugar haveria apto para receber e conter em sua pureza ou integridade, não digo todas, mas nem sequer uma só, qualquer delas, à parte de suas potências?

?Voz A

Pois bem, nós lemos então duas versões do mesmo texto, fazendo um diálogo inclusive com as inteligências artificiais e as possibilidades de traduções e compreensões. E agora a gente vai para um passo importante, que é um pouco a meditação desse texto, né, Alexandre?

?Voz B

Isso. Bom, a gente vai, a gente vai agora ver as impressões que esse texto causam, né, marcam na nossa alma.

?Voz A

Para mim, Alexandre, essa leitura me lembrou, antes de tudo, a primeira coisa que me veio na primeira leitura que faço é a questão da predestinação, do plano divino, e me lembrou daquele começo do hino cristológico de Efésios, não é? De que Deus nos escolheu desde antes da criação do mundo, né? E pensar então que o arquiteto, né? E aqui a gente precisa tomar alguns cuidados de ordem doutrinal, mas a gente também tem que entender que Filon não fala de Jesus, não conheceu Jesus, e nem a questão da doutrina, né, do Deus arquiteto versus o Deus que cria do nada, mas é muito interessante pensar justamente de que nós, cada um de nós em nossa individualidade, nós somos um projeto desenhado, pensado por Deus.

E eu gosto muito desse, dessa imagem e pensar que toda essa diversidade que existe no mundo é uma demonstração dessa criatividade única de Deus. Que consegue formar seres humanos tão diversos. Diversos naquilo que diz respeito à sua compleição física, incluindo tamanho, jeito do cabelo, cor da pele, tom de voz, ou seja, tantas características diferentes, mas tantos pensares diferentes, tantas culturas diferentes. Tantas maneiras diferentes de se enxergar, organizar a realidade e se pensar no mundo.

É uma demonstração justamente de uma criatividade que vai além de qualquer ato criativo que qualquer ser humano, mais criativo que seja, tenha. Mas não no sentido de determinismo, mas no sentido de deixar também E nesse processo de criação, deixar que as coisas aconteçam. E aqui minha última impressão, não é, dentre tantas outras, e a gente estuda um pouco Filon, não é, para falar um pouco sobre isso, é que Filon descreve aqui, é um comentário sobre o primeiro dia da criação, e de que o primeiro dia da criação na verdade é a criação da inteligência.

A criação do intelecto. E isso vai muito de encontro, por exemplo, com Teilhard de Chardin, que fala, não é, que o sistema nervoso do ser humano é a prova evolutiva, ou seja, era aquilo para a qual a evolução caminhou, não é? Houve um momento que a evolução esperou essa tomada de consciência de si próprio. Ou seja, quando o ser humano que toma consciência de si se liga diretamente ao pensamento de Filon, em que Deus cria a inteligência, não é?

Ou põe a inteligência para funcionar. São quase que teólogos distantes e que não querem fazer teologia, nem Filon nem Teilhard, mas que de alguma maneira dialogam em tentar demonstrar essa beleza dessa criatividade divina.

?Voz B

Pedro, eu acho muito interessante você invocar o Telhar de Chardin, porque eu acho que ele se aproxima muito do Philon nessa ideia cosmológica. E eu sou fascinado, encantado pela obra do Telhar de Chardin, porque ele ajuda a gente a tapar uma lacuna, porque quando a gente é cristão e quando a gente começa a estudar a Bíblia, a gente tem um risco de pensar que aquilo que a Bíblia fala e aquilo que a ciência fala são incompatíveis.

E Teilhard de Chardin, sem querer dogmatizar ou fazer uma apologia ele vai mostrando como essas coisas, elas caminham juntas e podem caminhar juntas, porque diz respeito sobre esse encantamento do nosso olhar sobre o universo e como Deus se revela através também dessas leis cósmicas. E me parece que o Filon de Alexandria, ele faz esse mesmo movimento quando olha para a filosofia grega e olha para a palavra de Deus e diz para si mesmo: não há incompatibilidade, muito pelo contrário.

Então o texto do Filon é essa confissão de fé daquilo que ele tá enxergando, o cosmos como todo feito por Deus. E independente de por onde você começa a olhar, você vai enxergar Deus. Então, essa insistência do Philon de que esse mundo que existe concretamente, ele existiu antes num não-lugar, e chama isso de mente de Deus, e chama essa mente de Deus de Logos. Isso é fantástico. E por que não existe um espaço antes desse onde esse modelo habita, não existe também um tempo.

Então essa pré-existência mental faz a gente olhar para esse lugar onde nós estamos, nesse planeta, nessa galáxia, como relativo. Então a gente pode assumir a nossa pequenez enquanto ser existente exatamente porque Não tem problema eu ser ínfimo diante da grandeza do universo, porque Deus, quando começou a conceber o mundo, concebeu nas suas minúcias, nos mínimos detalhes. E eu posso ser um mínimo detalhe no tempo e no espaço, porque eu não deixo de ser querido por Deus por ser um mínimo detalhe.

Sou um mínimo detalhe numa humanidade de mais de 8 bilhões de habitantes hoje no planeta Terra. Se a gente pensar em todos os humanos que já existiram, quando pensamos nos seres vivemos também, nos seres viventes também, do qual fazemos parte, somos também o mínimo detalhe. Mas Pedro, é bonito a gente perceber que eu sou o mínimo detalhe que já existi na mente de Deus. Esse magnífico arquiteto que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo, quando arquitetava a criação, antes do tempo, antes do espaço, pensou no mínimo detalhe: eu.

No mínimo detalhe: você, Pedro. E todos, todos os outros mínimos detalhes que existem no universo. E isso é poder fazer parte dessa obra gigantesca, universal, deveria nos deixar extasiados.

?Voz A

Sim, eu faço um paralelo já para a gente ir para as preces com um dos filmes que gosto muito, As Sete Faces do Doutor Law, em que ele diz isso, não é? De que o mundo é um circo e que a cada vez que a gente pega um punhado de areia e vê algo diferente, o que a gente olha para o céu, o que a gente diz: estou vivo. E estar vivo é uma grande coisa. A gente já faz parte, diz ele, do circo do Dr. Law, que é uma imagem de dizer: você é parte desse grande espetáculo que é a criação, não é?

Você pode parecer uma parte ínfima, mas você é parte desse grande espetáculo, você é parte de toda essa obra imaginada por Deus, não é? De toda essa possibilidade criativa na qual Deus também nos insere por meio de sua criação. É, já que a gente tá fugindo tanto do texto bíblico, eu não poderia deixar de dizer isso, não é? Nós somos parte de uma longa história e de um espetáculo que se descortina à nossa frente. E a gente precisa se sentir parte, mas também a gente tem que se admirar enquanto espectadores. É isso, né, Alexandre?

?Voz B

É isso. Podemos ir em frente.

?Voz A

A gente agora segue para o próximo passo da Alexio, que são as preces, não é, Alexandre?

?Voz B

Isso.

?Voz A

Você quer começar?

?Voz B

Posso começar, Pedro. Eu, nessa noite em que gravamos, eu quero dar graças a Deus pela vida do Filon de Alexandria e nele todos os homens e mulheres que se dignaram pensar nessas coisas antes da gente e dar graças a Deus porque esse texto chegou pra gente e Nisso eu também agradeço pela vida, pela existência, pela obra de São João Evangelista, que ousou chamar Jesus Cristo de Logos. E nesse texto de Alexandria eu entendo um pouco mais quem é esse Logos, o arquiteto, aquele que junto com o Pai quis o mundo e me faz se sentir querido nesse mundo.

E como prece, eu não posso deixar aqui de pedir pela vida do meu pai, da minha família, da minha esposa, da minha filha, mas da minha mãe, do meu irmão. Pedir pela sua vida também, Pedro, pela da Letícia, do Francisco, e agradecer a Deus por cada uma das vidas que passa pela nossa vida. Porque a convivência com as pessoas que a gente ama é uma dádiva. Então que Deus continue protegendo, cuidando e possa continuar se revelando na vida de cada um daquele que a gente ama.

?Voz C

Amém. Amém.

?Voz A

Eu também faço a minha prece primeiramente louvando a Deus por Filon, por João, por Cirilo de Alexandria, por Hildegarda de Bingen, por Bernardo de Claraval, por Boaventura, também por Tomás de Aquino, Teilhard de Chardin, Chaney, por tantos outros teólogos e teólogas que sem medo, com muito amor, com muito carinho, Pensaram Deus e colocaram Deus como uma matéria do pensar. É de admirar o labor desses homens e mulheres ao longo da história que de alguma maneira enriquecem a compreensão do que é incompreensível.

Tentam trazer um pouco de inteligência num discurso daquele que é inteligível. Tentam colocar em palavras aquilo que é indizível. E fazem isso com beleza, com maestria, porque têm tamanho contato com essa divindade. Como dizia um dos nossos professores, Vitório Cipriani, sondavam a realidade divina de tal maneira que conseguiam depois, e conseguiram depois, explicitar, contar, ensinar aquilo que é impossível de se ensinar, que é a grandeza de Deus.

Louvado seja Deus pela vida desses homens e mulheres, não só os que eu citei nominalmente. Ainda falta Basílio, ainda falta Agostinho, mas louvado seja o nome e a vida desses homens e mulheres por tudo que fizeram para traduzir em palavras a intraduzível grandeza de Deus. E de prece também agradeço. Agradeço porque no final desse semestre eu olho e vejo que ganhei um compadre, uma comadre, de que meu filho Francisco— não vai acontecer, mas tem como pequenos pais e que vão ajudar ele a crescer na fé pessoas que têm um carinho e um amor enorme, que ele tem quase que como uma pequena irmã, uma pequena prima, Alice, e que essas outras vidas, não é, minha família, família do Alexandre, se interligam para dizer exatamente aquilo que a gente diz na missa: o amor de Cristo nos uniu.

O amor do Logos de João, o amor do Logos de Filon. Esse amor nos uniu e é esse amor que nos empurra à frente. Amém.

?Voz B

Amém.

?Voz A

Alexandre, feito a leitura, feitas as meditações e as preces, nós vamos agora para a contemplação. E a contemplação é um convite para que o ouvinte também continue essa Léxio, que leva em frente essa possibilidade de oração de um texto que não é bíblico, mas também iluminado pela palavra de Deus. Não é isso, Alexandre?

?Voz B

Isso mesmo. A gente vai se despedindo por aqui. Antes de você fazer e da gente fazer também a contemplação, a gente vai ouvir uma versão do Salmo 8, porque os Salmos, eles, sobretudo na liturgia católica, se presta é sempre a nos ajudar a dar uma resposta à palavra de Deus. Então você pode continuar agora com, depois de ouvir o salmo, a fazer o seu momento de silêncio. E aí você leva o tempo que você precisar, que é na contemplação um momento onde você deixa a palavra de Deus serenar, decantar no seu coração.

Hoje não é a palavra de Deus, mas Deus falou com você de alguma maneira, assim como falou com a gente. Então a gente continua nessa sintonia com Deus a partir desse momento de oração. Que você possa ter dias serenos, dias onde a presença de Deus continua contigo a cada instante. E a gente se vê daqui algum tempo. Obrigado por vir com a gente até aqui. A gente se vê em breve, ou se ouve em breve, né, Pedro?

?Voz A

É isso. A gente descansa, vocês descansam da gente, e a gente nunca se cansa de amar, porque o amor Não cansa e nem se cansa, já disse São João da Cruz. Até!

?Voz D

Sobre o intelecto humano projetado no cosmo sensível. Ó Deus nosso soberano, como é glorioso o teu Logos em toda a extensão do Você projetou com sua luz o próprio cosmos inteligível.

?Voz C

O perfeito louvor é dado pelos mais pequeninos lábios, pelos Cheios da sabedoria, ávidos por serem sábios.

?Voz D

Fundou a fortaleza do raciocínio para as paixões inimigas subjugar e o ímpeto da desordem silenciar.

?Voz C

Quando contemplo o cosmos, obra dos seus dedos de artista, a ordem dos astros e das estrelas pelo teu Logos estabelecida, eu me pergunto: que é o mal Deste-me propósitos para que dele vocês se treinem.

?Voz D

Você a ele tudo providencia, o visita com o dom da filosofia. Louvem o Logos, arquiteto, a verdadeira Primeira luz inteligível que irradia sua essência sobre o intelecto humano projetado no cosmo sensível. Humano você fez, apenas um pouco menor Que o teu Logos portador épico da sua inteligência, que é a sua imagem, seu selo arquetípico.

?Voz C

Você deu a ele a regência Sobre as suas obras, seus primórdios, todas as naturezas inferiores foram colocadas sob a soberana e racional mente humana.

?Voz D

Os rebanhos do campo e as feras do mato, que simbolizam os sentidos e os impulsos inatos.

?Voz C

As aves que cruzam o ar e os peixes submersos na água, o elemento simbólico Que tudo está conectado.

?Voz D

Ó Deus, nosso soberano, como admirável é o teu logos, vínculo de amizade e união, envolve toda a criação. Louvem o Lã-Luz Arquetípico, a verdadeira luz inteligível que irradia sua essência. Sobre o intelecto humano, projetado num cosmos sensível.

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