A fé como oferta (de mercado)
O que acontece quando a religião deixa de ser apenas uma herança coletiva e passa a disputar a atenção de quem procura um caminho? Acontece Uma Conversa daquelas de feira de rua: "Olha o alface! Olha o tomate! Olha o cristianismo! Olha o zoroastrismo!" Em um determinado momento da história as divindades passaram a ser passíveis de serem escolhidas. Diferentes tradições, ideias e experiências transcendentais tornaram-se uma possibilidade entre tantas outras.
Seria então o mistério a alma do negócio? Ou será que o melhor, para a humanidade, é a instituição de uma religião cívica que independe de adesão pessoal? Ou ainda, no atual estágio civilizatório será que o negócio etiquetou nossas almas com código de barras e instituiu que pessoalmente o único poder que importa é o poder de compra?
Vem com a gente discutir sobre tudo isso e muito mais!
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Pedro Luiz
Alexandre Ferreira
- A fé como oferta de mercado e a influência da filosofia no cristianismoestratégia de marketing·fenomenologia religiosa·filosofia helênica·apologética cristã
- O mistério como alma do negócio e a estratégia de atração das religiõesmistério da fé·religião cívica·iniciação cristã·misticismo
- A concorrência religiosa no Império Romano e o surgimento do neoplatonismoImpério Romano·neoplatonismo·Porfírio·Plotino·Pitágoras
- O zoroastrismo como religião de mercado e sua influência no monoteísmoZoroastrismo·Ciro, rei da Pérsia·escatologia·livre-arbítrio
- A individualização da fé e a crise do catolicismo contemporâneoconsumo pessoal da fé·comunidade de fé·CNBB·Papa
- O maniqueísmo como filosofia popular e a absorção de ideias pelo cristianismoManiqueísmo·Agostinho de Hipona·Plotino·ontologia do mal
Olá, sejam bem-vindas e bem-vindos. Hoje a gente vai ter uma conversa sobre a fé como oferta de mercado.
Ticlin!
E eu sou Pedro Luiz.
Eu sou Alexandre Ferreira.
Falaremos sobre Ah, meu Deus do céu, Alexandre, já esqueci. Nossa, falaremos sobre as indulgências, Alexandre. Nossa, não, nossa, falaremos sobre outras coisas. E por isso você deve ficar aí para ouvir o que a gente tem a dizer. Mas não sem antes lembrar você de dar um pulo atrás no seu feed, ouvir o começo de conversa onde tem lá um texto da vida de Pitágoras, né, Ferreira?
Muito, muito legal. Eu Particularmente, Pedro, sou fascinado com essa parte da teologia e da filosofia mais ainda esquecida, que é a filosofia médioplatônica, geralmente chamada de neoplatônica. É, eu, o termo neoplatônico é, eu acho meio complicado, É, sobretudo como retratam. Eu gosto do termo médioplatônica, né, ou médioplatonismo, que o Porfírio se situa. E aí são um dos motivos da gente ter gravado esse começo de conversa.
Muito que bem, é isso. Bom, vamos lá então. Eu, quando o Alexandre mandou a fé como oferta de mercado, eu vou E Alexandre, talvez você caminhe por um lado, eu caminhe por outro, não é? Mas eu lembro que quando eu fiz marketing lá atrás, no começo, fim dos anos 90, começo dos anos 2000, eu queria fazer um TCC dizendo que o discurso sobre a ressurreição— eu sempre gostei da escatologia, né? Mas o discurso da ressurreição era uma estratégia de marketing Nossa, para que o ser humano— poderia ser considerado uma estratégia de marketing para que o ser humano vivesse, aderisse a uma religião, e mais do que isso, não vivesse com medo da morte, né?
E aí depois eu descobri que é impossível fazer um tipo de pensamento como esse. Afinal de contas, isso tem a ver com antropologia, tem a ver com fenomenologia religiosa, mas eu não sabia nada disso. Era um jovem mancebo que estava ali hoje. Não era teólogo, não sabia nada, eu era um marqueteiro que ia na igreja, né? Então a gente sempre tem essas alçadas de grandes voos. Mas pode ser que hoje, de alguma maneira, eu pense isso.
Afinal, nesse semestre agora eu tô lecionando uma disciplina sobre comunicação e mercado. Olha aí, descobriram que eu tenho essa verve, né? E aí então pode ser que eu entre por aí. É, mas a fé como oferta de mercado, Alexandre, tem a ver com o fato de que aquela vida de Pitágoras lá, e Pitágoras tem um quê de santo cristão, até um quê de Messias, não é? Tal qual o Pastor de Hermas, tal qual outras figuras também ali da antiguidade, tem a ver com isso?
Não, cara, tem tudo a ver, Pedro, porque Quando o cristianismo surge naquele ambiente ali, né, do Império Romano, que era vastíssimo, né, ia até as regiões ali da Pérsia e se estendia até a Espanha e Portugal, e tinha uma adesão muito grande dos pobres, dos escravos. E a galera tava se convertendo. Aí também entra pelo, pelo, pelos exércitos, né? E a elite do Império Romano politeísta tava incomodadíssima porque tinha a galera pensando, propondo uma apologética pesada, né?
É como os apologetas de primeira hora da Patrística, né? Quem que a gente tem? Tem Policarpo, tem Justino, né?
Sim.
Aí tem toda essa galera, é aquilo, né?
É aquela galera ali que é aquilo, é a galera do começo, conhecido como padres apologetas, né? Justo, justamente nessa, tá ali um pouco Tá no meio dos apostólicos também, né? Se a gente pensar na patrística, né?
Sim, exato, né? Século 2, século 3, né, ali o mais tardio. E aí, Pedro, essa elite incomodada, ela de certa forma— isso é um pouco uma interpretação minha, né, mas tem toda uma base aí— de certa forma precisa ser atendida na sua necessidade de, poxa vida, esses caras estão usando filosofia, estão apresentando uma divindade que vem lá da Judeia, e como é que fica aí pensadores dos nossos? E aí surge essa galera, o Celso, né? Acho que depois é o Agostinho que vai ter um livro chamado Contra Celso, mas o Celso tinha um livro chamado Contra os Cristãos.
Aí tem o Porfírio e o meu queridinho, o Plotino, né? E essa galera, Pedro, eles vão olhar para a cultura helênica sobretudo. E dentro da cultura helênica tem os deuses gregos e tem a filosofia grega. E vai falar: a gente não precisa desse cristianismo aí, desse judaísmo disfarçado. A gente tem aqui, ó, se você quer histórias, alegorias, temos as histórias e alegorias gregas. Se você quer filosofia, abstração, conceito, nós temos Platão, né?
Então, como é que Pitágoras entra nessa lá do nosso começo de conversa? O Porfírio pinta o Pitágoras, né, através das lendas, daquilo que se falava de Pitágoras, como um santo, né, ou como um patriarca do Antigo Testamento, né. Então ele biloca, tá em dois lugares ao mesmo tempo, ele caminha sobre as águas, tem discípulos, né, tem discípulos. Ele cura as pessoas através de cantos, de poemas. Ele também tem uma dieta especial, né, se abstém de sacrifícios, né.
Então a gente vê aí, e tem um caso mais antigo que a gente pode pensar depois, mas a gente vê nesse caso, né, do médium platonismo, ou do, da filosofia tardo-antiga, essa concorrência, Pedro, isso é fascinante. Então o cristianismo tá surgindo aqui e surge uma corrente para concorrer, e isso é algo na história das religiões muito marcante, porque tem fé para escolher, Pedro.
Então agora, antes de entrar no fé para escolher, eu acho fabuloso Eu não quero ser redundante, pode ser que eu já esteja sendo, mas eu acho interessante lembrar, não é, para o ouvinte, mas também para mim mesmo pensando aqui, que essa galera aí, não é, que o Alexandre tá falando, os neoplatônicos, ou colocar aí os outros nomes que o Alexandre deu, medioplatônicos, né, que essa galera tá entrando em conflito com o cristianismo, que estava usando filosofia helênica torta e à direita, justo, né?
Num período em que o cristianismo tava quase se tornando um discurso filosófico. A gente já trabalhou isso, justo, né? Como o cristianismo se tornou filosofia. Eu nem sei se a gente terminou a série ou não, né? Mas a gente já trabalhou essa questão, não é? Então faz muito sentido, não é? Não era só uma mera religião, judaísmo, uma mera nova religião religião, mais uma no Império, mas era uma religião que tava tomando volume, tomando forma, não é, ficando grande.
E tava tomando forma, tomando volume, porque usava a filosofia como base de construção do seu discurso, né? Isso é muito sério, né? E aí, lógico, penso eu, como disse o Alexandre, e aí eu tomo, retomo para você a bola, né? Porque se foi exigido do mercado que o cristianismo fosse mais filosófico, vamos pensar em termos de mercado, de demanda e de oferta, né? O cristianismo, ele entra na filosofia, entra em cheio no cristianismo, porque qual era a demanda?
Olha, se vocês não melhorarem o produto, a gente não vai comprar, a gente não vai nem ouvir a conversa se vocês ficarem com essas histórias aí de Deus, de Jesus ressuscitado, batismo, essas coisas. Precisa melhorar a substância dessa religião de vocês. E o cristianismo assim o faz. Lógico, a gente sabe que por necessidade missionária, por questões teológicas, mas se a gente tá pensando a fé como oferta de mercado, o cristianismo reposicionou ou melhorou ou diferenciou o produto para que pudesse atender a demanda.
E a demanda é filosofia, né? E aí essa galera acaba falando, opa, entrou um novo concorrente aí, né? Não tem só Coca-Cola, tem Pepsi. Pronto, vamos falar agora que o Pedro comparou o cristianismo com Coca-Cola ou Pepsi, né? Eu que já nem bebo mais nenhuma das duas, mas é um pouco para entender, para ilustrar, não é?
E essa retroalimentação, ela é fascinante. Então o cristianismo começa a oferecer o seu produto, a galera fala, ó, mas tá mal embalado. E aí a filosofia entra de cheio no discurso cristão, né, não para deturpar, mas exatamente para dar aquela embalagem, para tornar as coisas ainda mais vistosas. E aí o politeísmo vai ter que se rebolar também. E aí o politeísmo também fala assim, ah, mas espera aí, então vamos entrar nesse jogo.
E é muito louco, né, Pedro, porque a gente ainda nem pode falar do mercado exatamente, né? Então essa disputa, entre aspas, de mercado existe antes na religião do que propriamente no que a gente vive hoje, nessa tal de oferta e demanda.
Ah, sim, sem dúvidas. Até porque se a gente pensar, né, Alexandre, só te interrompendo, quando uma nação vencia outra e conquistava a outra era na verdade o deus de uma nação que vencia o outro deus e conquistava os súditos do outro deus, né?
Sim.
Então isso sempre teve por aí, né?
E isso me faz lembrar de uma outra religião que faz um caminho parecido e que depois vai desembocar em outras coisas que é muito interessante também.
Né?
E de certa forma tá ali próximo também do médio-platonismo do Porfírio e do Plotino. Mas antes dessa religião que desemboca, que tá ali também como uma terceira via desse politeísmo, a gente tem que olhar, Pedro, para o zoroastrismo, que às vezes a galera gosta de citar o Nietzsche, Assim falou Zaratustra, né? E nem sabe quem é Zaratustra, que o outro nome é Zoroastro, que foi um sacerdote ali da região do Irã, é, Paquistão, né?
Ali já caindo para Índia naquele tempo, é a cultura indiana. Né, ou iraniana, indo-europeia, por ali. Uma religião, Pedro, que era politeísta também, que tinha toda uma base muito parecida com hinduísmo, ainda que fosse até anterior ao hinduísmo, né. E o Zoroastro, ele propõe que precisava dar uma limpada, Pedro, no panteão. E ele propõe uma reforma dessa religião tribal. E ele fala assim, ó, muito complicado, muito deus, é uma sanguinolência terrível aí, né?
Sacrifício para tudo quanto é lado, é dispendioso demais, não tá levando muito a nada. E ele propõe que ao invés de ter uma miríade de divindades, ele fala assim, ó, vamos reduzir o panteão aqui a duas figuras, né? O Ahura Mazda, que é o deus da luz e da verdade, e o Angra Mainyu, que é o deus da mentira e das trevas. E aí essas duas forças estão em constante, em constante luta, né? O caos contra a ordem. E assim surge o zoroastrismo, que é adotada como religião de mercado.
Então ela é anterior e ela ainda não é bem uma questão de escolha, porque a religião de mercado ela opta por essa escolha que vai acontecer lá no século 3, do século 2 e 3 do do Império Romano. Aqui a gente tá falando algo do primeiro século ou do primeiro milênio antes de Cristo, né? E aí, Pedro, olha só, você humano, você tem o livre-arbítrio agora. Você vai escolher entre o bem e o mal. E a gente aqui opta pelo Deus da Luz, né?
Para que a gente possa viver bem, tem que optar pelo Deus da Luz. E sabe qual é um dos grandes promotores dessa religião, Pedro? Como é que ela chega muito perto ali do mundo judaico e consequentemente do mundo grego? Chuta aí uma figura histórica que pode estar aí nessa, que pode fazer essa ligação do judaico com grego. Não, que tá promovendo o zoroastrismo nesse mundo é, digamos, do Oriente Médio, um cara que aparece na Bíblia, que é chamado de ungido de Deus.
João Batista?
Não, Ciro, Pedro. Ciro, lembra do Ciro, rei da Pérsia?
Ciro, rei da Pérsia.
Exato, Pedro.
Faz sentido, né? Ah, é veterotestamentário, tá. Tava pensando lá para frente já.
Não, eu tenho um passo para trás para poder falar do Ciro, tem que falar.
E aí, é curioso que Ciro tem uma baita imagem positiva na Bíblia, né?
Sim, eu tô deixando a deixa aí para você falar um pouco do Ciro aí. Fale dessa imagem positiva do Ciro aí para a gente poder, para eu poder concluir essa introdução dos zoroastrismos aí.
Você quer que eu cite o Isiro?
Cite o Isiro, por favor.
É porque assim, existe, existe, se a gente tá falando de rei do mundo antigo ali, veterotestamentário, a gente tem Nabucodonosor da Babilônia, que é o vilão porque conquista as terras do sul, não é? Na verdade, conquista geral, né? Nabucodonosor era o bambambã da época. Faz a deportação pra Babilônia e tudo mais. E aí, esse é o grande vilão. E depois de um tempo, há um outro conquistador que também era tão expansionista quanto Nabucodonosor, não é?
Já não são os babilônios, são os persas. Só que o modelo de colonização do Ciro era diferente. Acho que eu já falei isso aqui alguma vez, né? E qual era o modelo de colonização dos persas? Eles falavam assim, não, não vamos ficar trocando as pessoas de lugar, porque os babilônios faziam isso, né? Pegaram a galera produtiva de Israel e levaram para a Babilônia e ficavam trocando assim, justamente para descaracterizar as pessoas, né?
E tirar elas do seu seio, da cultura e tudo mais. Já Ciro pensava o quê? Não, a gente tem que deixar cada um na sua terra.
Justo.
E aí o que a gente faz é aumentar imposto. Não é? Então todo mundo volta para sua terra. Agora que eu dominei tudo, cada um volta para sua casa, volta para sua terra, fique lá, cultuem seus deuses, vivam as suas culturas. E vivendo as suas culturas, vocês só me paguem aqui o imposto para manter o reino e não me encham o saco, só me mandem dinheiro. Por isso Ciro é visto como ungido de Deus, não é? Porque permite que a força israelita que estava na Babilônia retorne para Israel, para Jerusalém, período de reconstrução do templo.
E mais ainda, permite que eles retornem sem nenhuma censura ao seu culto religioso, mesmo sendo uma nação sob domínio. Aliás, um parêntese muito rápido: o tanto de tempo que Israel ficou independente é muito menor do que o tempo que Israel ficou sob domínios estrangeiros. Israel era uma, do ponto de vista histórico, era um país eco, né?
Pronto.
Um país periférico, sempre foi. E Pedro, olha, você pintou o cenário que eu queria, porque qual é a religião de Ciro? Qual é o deus que Ciro cultua? É o deus que é luz, que é verdade do zoroastrismo, né? Então, para o zoroastrismo, poxa, se você cultua aí o seu deus e o seu deus é um deus do bem, Então tá tudo bem. E a gente sabe que existe um deus mau, né, mas a gente aqui vai cultuar o deus do bem. E se você chamar esse deus do bem de um outro nome, para a gente aqui tá tudo bem, né.
Então ele faz, e isso não tem nada de bondade e nem de diálogo interreligioso, tem a ver, como o Pedro falou, com pagar imposto e deixar as pessoas felizes por pagar imposto. E ofereceu um acordo aí, né, que fique bom para ambas as partes, sobretudo para parte dele, né. E aí, Pedro, então esse zoroastrismo ele tá na cabeça. Inclusive, Pedro, essa ideia de escatologia ela é criada pelo zoroastrismo, antes mesmo da escatologia do Antigo Testamento, porque as religiões antigas pensavam o tempo como cíclico.
E essa ideia de que, olha, vai ter um, tem um, teve um começo que foi quando o Angra Mainyu, ele instalou o caos, e o mundo começa com caos instalado pela divindade má. E a divindade boa tá tentando colocar as coisas no eixo. Quando a divindade colocar todas as coisas no eixo, aí a gente tem o juízo final e a gente começa uma nova era onde a luz vai imperar totalmente. Isso é a religião dos arapucas.
Pois é, a cara de quê, né?
Então Sejam bons, façam o que precisam fazer e vai tudo dar tudo certo no final. Estratégia de mercado.
É, então aí entra naquela conversa que eu falei, não é? Pô, gente, ninguém tá diminuindo o cristianismo. Quem ouve a gente sabe o quanto a gente é cristão católico de vida. Olha eu me justificando sem precisar justificar. Não é? Mas a gente precisa, uma conversa é isso, dar alguns passos, fazer algumas análises. Do ponto de vista de fenômeno religioso, é mais uma religião com mais um sistema de crença parecida com outros tantos, não é verdade, Alexandre?
E que vai de alguma maneira pegando uma coisa boa de um, de outro, de outro, e vai montando aí uma nova crença, um novo sistema de crença, não O cristianismo, por mais que seja, tenha sido fundado pela pessoa de Jesus, não é? Ou como dizem alguns estudiosos, na verdade o cristianismo foi fundado por Paulo do ponto de vista intelectual e de organização doutrinária. O cristianismo deve muito do que tem a outros contextos religiosos, claro, a outros contextos religiosos.
A gente já falou aqui da imagem de Jesus, né, Alexandre? E do quanto a própria imagem pictórica histórica de Jesus, ela na verdade é devedora de uma série de outras imagens, de uma série de outras imagens. E digo mais, viu, Alexandre, a gente deveria fazer um 2.0, porque eu falo, eu, é uma pesquisa muito básica também, né? Mas é muito curioso que quando Jesus vira Deus em 325, Jesus ganha barba e cabelo comprido, tal qual os deuses da filosofia, os deuses do Olimpo, né?
Justo.
É muito curioso essa adição pictórica, de modificação pictórica, de essa adição de modificação corporal, né? Jesus ganha traços, é um rebranding. Jesus, que até então não tinha barba e nem bigode, ganha barba e bigode a partir do momento em que Jesus é definido como Deus dentro de categorias filosóficas. Ou seja, é um fenômeno religioso, ou a gente pode falar é uma oferta de mercado. Sim, não é? Funcionou isso aqui do zoroastrismo, funciona, bora pegar.
Aquilo ali da filosofia funcionou, bora pegar. Isso aqui do judaísmo funcionou, bora pegar, não é? E é assim a vida, não é? Por mais que a gente tenha o cristianismo como verdade, é a nossa verdade, Essas evidências históricas e tudo mais precisam no mínimo serem vistas, não é, Alexandre?
Tem que, não dá para escamotear, né, Pedro?
Não dá para escamotear, é uma realidade que está aí. E se você sente que sua fé ela é de alguma forma, vocês perde essa fé, eu lembro do cônego José Arnaldo dizer: ninguém perde aquilo que não tem. E quando se fala de fé, ninguém perde aquilo que não tem, né? Se a fé tá baseada em se perder por causa desses questionamentos, é porque talvez ela nunca teve a firmeza que deveria, né?
Exato. E aí, né, a gente podia falar, por exemplo, do Mitra, que era uma divindade indiana, que no zoroastrismo o Mitra vira como se fosse um arcanjo. Responsável pelo julgamento, né, era o deus da justiça, e que os romanos transformam em outra coisa. Mas eu não quero falar de Mitra não, Pedro, eu quero falar do Mani, né. O Mani era um cara que vivia numa comunidade gnóstica, que era um gnosticismo meio judaico e meio cristão, e ele pega a ideia básica do zoroastrismo, que era a ideia da divindade boa e da divindade má, e ele dá um verniz filosófico nisso e fala, ó, não vamos falar de divindade não, aqui a gente tá falando de filosofia.
E existe uma força que é o bem e uma força que é o mal. E daí surge uma religião de mercado, ó, o zoroastrismo palatável, que vai disputar por um tempo ali com o cristianismo, que é o maniqueísmo, Pedro. De certa forma uma filosofia, mas não uma filosofia com estofo, com uma produção, mas um pensamento que, que tá ali, que alguns retomam que tem uma pegada meio de religião, tem uma pegada meio de filosofia muito popular, que inclusive, Pedro, quem é que bebe do maniqueísmo antes de se converter?
O outro que lançou base para o cristianismo, Agostinho de Hipona.
Pois, e o Agostinho de Hipona, ele por muito tempo acredita nisso, né? Tá bebendo a filosofia sobre o olhar, tá lendo tudo que é filosofia sobre o olhar do maniqueísmo. E aí quando ele se converte, ele fala: não, na verdade o mal não tem uma ontologia, o mal é simplesmente ausência do bem. Essa é a grande sacada. E olha, Pedro, é isso é que é interessante nessa religião de mercado, porque nada se cria. Tudo é uma adequação e uma, é um aproveitamento, né?
Então, retomando lá a ideia do neoplatonismo, você tinha o cristianismo numa linha, você tinha o maniqueísmo, né, disputando ali as populações, é numa ideia de filosofia popular. E você tem o neoplatonismo tentando ser uma coisa mais refinada. E o que que o cristianismo faz, Pedro? Mais uma vez rebate o maniqueísmo, mostrando que dá para você falar do bem sem ontologizar o mal. E depois vai pegar o neoplatonismo sobretudo de Plotino e sobretudo o bendito do Agostinho Africano de Hipona, e vai falar: olha, tá vendo esse Uno aqui, ó, que os neoplatônicos falavam?
Esse Uno aqui, essa ideia de retorno ao Uno, a gente pode casar muito bem aqui com o Deus Uno e Trino e não tem problema nenhum, porque eu já fiz esse caminho, porque eu tava atrás da verdade. Então se você olha a verdade, enxerga a verdade, você depura a verdade. E rapaz, é, isso é muito legal quando a gente para para estudar a religião e essas trajetórias, né?
Sim, porque é, de novo, não há mal nenhum em reconhecer que um discurso religioso bebe de outro. Eu nunca me esqueço, uma vez que fui, e aqui a gente entra para musiquinha, eu nunca me esqueço de uma vez em que fui numa celebração interreligiosa dentro de uma sinagoga. E aí, o meu Deus do céu, o rabino daquela sinagoga falou muito claramente de que as festas judaicas eram na verdade festas agrícolas.
Sim.
E eu falei, porra, olha a naturalidade com que ele fala isso, não é? E às vezes a gente fica cheio de dedos em falar isso porque a gente é ultra Não é ultra sacraliza, né? Mas a gente, com medo de escandalizar os pequenos, a gente não trata as coisas como elas deveriam ser tratadas e sem perder aquilo que é a essência e o mistério. Aliás, sobre mistério, a gente poderia falar no próximo bloco. Alexandre, vamos ouvir a musiquinha. Nem vou pedir para você explicar, vamos ouvir aí, depois a gente volta.
É, depois eu vou falar, vamos ouvir, eu vou falar um pouco da musiquinha.
Ah, então tá bom, você fala na volta.
Isso.
Amor, Deus é amor. Ei, afasta o medo. Nos é amor, arriscamos viver por amor. Deus é amor, ele afasta o medo. Alice queremos viver, Alice queremos viver por amor, Alice queremos viver por amor, Alice queremos viver por amor, Alice queremos viver por amor.
E nesse episódio nós estamos falando da fé, que de certa forma, ah, Pedro, é sim uma oferta de mercado, como não? E nesses dias, né, da volta do nosso, do nosso iato de férias, eu tô trazendo músicas, Pedro, que são as primeiras músicas que eu fiz na inteligência artificial. E é um álbum, tá, Pedro? Tem um conceito que é a ideia de juntar os mantras que a gente canta, né, nas vigílias de TZ, né, da PJ, com o lo-fi hip-hop.
Muito massa.
E então a minha ideia no começo, quando eu tava super empolgado com a inteligência artificial, era lançar isso. Aí depois eu vi que tem uma série de problemas, né, jurídicos e autorais, e por isso que essas músicas não saem. Elas são apenas essa subversão aí do meio do nosso programa. Mas é isso, né, para a gente falar de mercado, de ofertas e de demandas, vale a pena essa contextualização das musiquinhas. É, agora voltando ao nosso, ao nosso tema, um outro ponto importante além dessa coisa da escolha é o mistério, né, Pedro?
Opa, opa, que é na verdade o que mais vende, né, Alexandre? E aqui o mistério não no sentido Não no sentido cristão, mas o mistério como aquilo que ainda precisa ser desvelado, ou algo que eu ainda, que eu nunca venho a conhecer, ou que só venho a conhecer em algum momento muito específico, talvez até só na morte. E boa parte das religiões de alguma forma trabalham com essa questão mistérica, não é, Alexandre? A Maçonaria tem a questão do mistério, essas outras religiões orientais, boa parte delas, não é?
Mesmo essas religiões que vêm da Pérsia ali, do mundo antigo, que a gente diz, tem essa questão do mistério. Ou seja, se há algo que vende é alguém estar de posse ou se cultuar algo que não se conhece completamente. É, eu acho que, e mais ainda, porque isso acaba gerando, até do ponto de vista mercadológico, né, a necessidade daqueles que são os intermediadores entre o mistério e aqueles que são os, entre aspas, consumidores da fé.
Então você precisa de um sacerdote para entrar no Santo dos Santos lá no Templo de Jerusalém para aquele sacerdote contemplar o mistério, que na verdade era uma sala vazia, e em nome das pessoas, não é, oferecer um sacrifício. Mas ele contempla o mistério, né? Até que quando Zacarias vai lá, ele depara com o mistério mesmo, que o anjo chega lá e dá um susto nele, né? Mas Essa questão do mistério, ela é extremamente importante, ela é extremamente importante.
Sempre precisa ter um algo que eu não entendo, que não há explicação, mas que acontece. Eis o mistério da fé, dizem os sacerdotes assim que terminam as palavras da consagração. Ou seja, eis o mistério de como o vinho se transforma em sangue. O pão, a hóstia se transforma em carne, é um mistério, nós não atingimos, nós o explicamos, mas é um mistério e é o que atrai, não é? E é o ponto alto ali, depois do silêncio da consagração, a exclamação de que eis aqui o mistério da alma do negócio, se eu me faço entender, né?
E aí quando a gente pensa De novo, nesse cristianismo nascente, a religião romana predominante, politeísta, ela tem uma parte que é mistérica, mas no geral ela tem uma parte que é cívica, dos festejos, da imposição, das coisas que precisam acontecer de certa maneira e que todo mundo tem que reverenciar. E essas religiões que vão surgindo como alternativas, inclusive esse politeísmo mais refinado dos neoplatônicos, inclusive o maniqueísmo como uma derivação do zoroastrismo, tem que ter um quê de: olha, nem todo mundo tá ligado, mas vem aqui que eu vou te mostrar Porque só eu sei como é que ativa o bagulho.
E o cristianismo também utilizava dessa estratégia. E os politeístas, para o cristianismo primitivo, ficavam assim ensandecidos, porque falavam: o que que acontece naquela religião ali, naquela reunião dos dos cristãos, porque era uma coisa muito fechada, né? Muito para você poder participar de certa parte dos mistérios, você precisava ser iniciado e você precisava, e aí você teria acesso. E no fim, talvez a grande inovação do cristianismo é porque essa conhecer o que tava um pouco mais a fundo dentro da casa, do lugar de culto, era na verdade o amor, era a partilha e tudo. E mas tinha esse quê de mistério, desse quê de curioso, né, Alexandre?
E é curioso hoje que tenta se recobrar a iniciação à vida cristã dizendo, olha, naquela época as pessoas mergulhavam no mistério Só que hoje a configuração é bem diferente, né? Não tô falando mal da iniciação, mas a configuração social é diferente na qual a igreja tá inserida, né? Não tem mais mistério. Uma missa todo mundo vê, né?
É. E ao mesmo tempo, se a missa de certa forma tem esse quê de religião cívica e pública, você tem grupos hoje no cristianismo que fala, olha, mas vem aqui na nossa, na nossa reunião, porque aqui o negócio é diferente. Então você tem que se reunir no sábado à noite, que você vai beber de um cálice gigante aqui, a gente vai cantar umas músicas. E ó, não é para todo mundo não essa missa, tá?
Uma ciranda, uma ciranda, né?
Essa música, essa missa aqui é diferente das outras.
Né, olha, mas eu vou falar que eu vou falar que as musiquinhas são legais, viu? Os flamenco de Jesus são legais, hein?
Então, mas não só, né, Pedro? Pode ser uma tertúlia também, né?
Pode.
O que que acontece nessa casa aí que essas pessoas entram sempre da mesma roupa, né? Sempre fumando muitos cigarros. É, tem uma coisa, um balacobaco diferente nesse povo. O mistério é a alma do negócio, Pedro.
É verdade, é verdade. E prospera hoje em dia quem consegue trabalhar isso bem, né? O Alexandre falou de dois movimentos aí presentes na igreja que prosperam para caramba, né, cara?
Embora não era coincidência, tá, Pedro? Se você identificou alguns aí, eu não sei do que eu tô falando.
Eu acho divertido a galera que fuma porque o fundador fumava, cara. É tão insalubre, né? Ou seja, você copia em tudo o fundador, inclusive as suas falhas, os seus pecados, né, as suas misérias, né. E o outro, como eu falei, são flamencos muito legais, cara. Eu acho que, mas eu acho que tem isso mesmo. E olha, eu vejo observando hoje um pouco os meus alunos, boa parte deles hoje está envolvida num movimento que eu vivi lá na minha juventude Lá no fim dos anos 90, no começo dos anos 2000, que são os encontros carismáticos, né?
Opa, encontro de jovens com Cristo e tudo mais. É, e hoje é um movimento que tá maior do que do meu tempo, né? Hoje eu vejo muito jovem, pelo menos se eu perguntar numa sala de aula qual dos jovens lá é de EJC, os jovens católicos, pelo menos um ou dois levanta a mão. Eu tenho jovem que trabalha comigo, né, trabalha na faculdade no administrativo e que trabalha no encontro de jovens, né? E o encontro de jovens tem esse quê de mistério, né?
Olha, eu não posso te dizer lá o que acontece, mas vai acontecer um negócio que arrepia, que te deixa maluco, não é? E aí o mistério é a alma do negócio, né? Talvez pensando em mercado, o catolicismo tá sabendo diversificar e a gente que não tá percebendo, né?
Sim.
E aí eu fico pensando ao mesmo tempo, quando é que o mercado sacou essa parada da religião, sabe? Porque quando você pensa na cristandade e na Baixa Idade Média, tudo que chegava a mistério era execrado, né? A Inquisição ia pra cima. Eu tô com raiva da Inquisição esses tempos, né, Pedro? Cara, eu acho que a Bíblia...
Você deu um jeito de falar mal. Ferreira, eu tô pistolaço. Eu ia falar outra palavra. Acabei de ler Memorial do Convento do José Saramago. Eita, eu tô numa fase. E cara, é um dos finais de livros mais tristes que eu já, que eu já vi, não é? Ao estilo Saramago também, né? E cara, que raiva da Inquisição, velho. Que raiva da Inquisição. Tem até Padre Bartolomeu de Gusmão no livro, hein? Meu Meu Deus, cara. Não, mas é para ter raiva da Inquisição mesmo, não tem defesa não. O Alexandre de vez em quando dá uma contemporizada, mas não tem defesa não.
Então aí eu fico pensando isso, sabe, Pedro? Porque a religião ela tinha essa coisa do mistério muito forte, aí teve um tempo que ela ficou tão estatal, né, tão poderosa, que isso É tirado tudo que cheirava a mistério. Olha, a gente faz aqui e as pessoas não sabem muito bem. Opa, pera aí, vamos lá, vamos investigar. E de repente, mais ou menos no mesmo tempo, o mercado começa então a se apropriar desse mecanismo, né?
E mas, ó, eu acho que mesmo na época em que se buscou explicar tudo, você tá se referindo aí a Escolástica, mais ou menos, é isso? Sim, exato.
Exato.
Então, mas penso eu, Alexandre, que mesmo nessa época ainda, por mais que se explicasse muito sobre Deus e sobre os universais e tudo mais, havia um medo de que tudo fosse explicado. Vou dar um exemplo claro: Giordano Bruno. Sim, Giordano Bruno foi um cara que teve uma intuição Foi um propagador do universo, não é? Não tanto do heliocentrismo, Copérnico já havia feito isso, mas foi um propagador de que o universo era muito mais, de que Deus havia criado um universo.
E o que que fizeram com Giordano Bruno, aquele que ousou tentar pensar ou explicar demais? Tacaram na fogueira, não é? E 10 anos depois, Galileu Galilei com telescópio e falou, ó, o cara tinha razão, né? E aí, vamos pedir desculpa? Vamos fazer o quê, né? Acho muito engraçado que eu já ouvi muito bispo falando assim, ai, vocês falam que a igreja é retrógrada, mas como morreu Galileu Galilei? Aí as pessoas, na fogueira. Você lembra?
Você já ouviu isso? Não, não. Ah, morreu velhinho, tal. Tá, morreu velhinho, mas 10 anos antes mataram Jordão Bruno. Não é? É um exemplo inclusive falacioso isso, né?
E teve que se retratar, né? O Epur se move lá.
É, pois é. Então, e teve que se retratar, ainda assim, mas se move, não é? Ou seja, então assim, eu penso que a igreja, ela, e a igreja não católica, né, mas o cristianismo como um todo, ela sempre vai de alguma maneira não gostar de tudo explicado. Como eu já vi cristão dizer assim, olha, não acho bom ter vida em outros planetas, porque aí vamos ter que explicar isso. E o cristianismo precisa estar envolto na penumbra de vez em quando, né, cara?
Não que o mistério não seja bom. Sim, né? Deixa eu agora desengatei. Pera aí só um minutinho, né? Não que o mistério seja bom, porque o cara que reposicionou o cristianismo o Karl Rahner, ele falava: o cristão do futuro, ele vai ser um místico ou ele não vai ser nada, não é? E o misticismo tem a ver também com uma vida interior, uma contemplação do mistério e tudo mais, daquilo que é o inexplicável, não é? A Igreja, ou mesmo a teologia mais moderna, não deixa isso de lado, mas não, não como as pessoas enxergam, né, Ferreira?
Cara, é isso.
Só para terminar, esses dias eu ouvi meia hora do Olavo de Carvalho refutando o Carl-Henner Ferreira. Em meia hora ele refutou o Carl-Henner.
Para mim, você, você descortinou e ao mesmo tempo cortinou de novo, né? Cobriu e recobriu, Pedro, essa ideia, essa intuição aqui que tava me martelando, né? Se antes o mistério é uma coisa que se fazia assim, olha, vem aqui que eu vou te explicar. Nesse auge da cristandade, o mistério era, não toque, né? Porque sim, a ignorância é uma beça. Exato. E cara, isso é muito louco, né? Para você conjugar a religião cívica com o mistério, você tem que relegar o mistério ou as coisas da fé para ignorância, né?
Então aí a ciência surge para bater de frente, né, como uma alternativa à religião, porque tem que falar assim: não, a verdade precisa ser explicada, as coisas que são boas precisam vir à luz, né? Então tem toda essa coisa do surgimento da ciência depois do Iluminismo. E aí a religião vai perdendo a sua relevância nesse mundo moderno.
Sim.
E aí eu acho bacana isso, né? Porque o Hunter fala, opa, não que ele pense mercadologicamente, não é isso, né? Mas opa, sem mistério não dá muito certo, né? Então vamos misterificar a igreja, vamos pensar na prática mística, ou seja, Esses novos teólogos que vêm depois do— desculpe, esses teólogos que vêm depois de Darwin, né, depois das grandes descobertas científicas, eles entendem que a única maneira de haver uma explicação e de uma racionalização da fé depois de todo o período da Escolástica é o quê?
É entender assim, olha, a gente tem que explicar isso por via do mistério. Da intimidade do ser humano com Deus. É a partir daí que a gente vai explicar tudo, não é? E aí é o chamado giro antropológico, mas que não deixa de lado a questão mistérica, né, Alexandre?
Sim. Então, mas é diferente você falar que a inteligência humana ela tem uma limitação, e aí a gente reverencia o mistério como algo que é maior do que a mente humana. Isso é diferente de falar assim, ó, não saiba, não queira saber, não estude teologia porque você vai perder a fé, não leia a Bíblia demais porque você vai ficar doido, assista o podcast ou a live do padre fulano e fulano que basta.
Não ouça esses cara de uma conversa, os não é heresia, Não consome esse tipo de coisa não, né? Porque essa galera aí pensa demais, né? É aí que tá o perigo, né? É aí que tá o perigo. Mas eu penso que hoje, se a gente fala de oferta de mercado, eu já caminho aqui para o final, essa questão da adesão pessoal traz um outro problema, né? Que é uma descaracterização do cristianismo enquanto religião comunitária. Sim, hoje o cristianismo vem sendo cada vez mais uma, uma religião personalista, não é?
Meu Deus pessoal, a minha comunhão. São 1 milhão de pessoas rezando o terço com o Frei Gilson às 3 da manhã, mas são 1 milhão de pessoas que não se conhecem, não se tocam. Lógico, essa é uma característica da virtualidade, não é? Mas mesmo a vida comunitária hoje é uma luta para os padres conseguirem pessoas que trabalhem nas pastorais, porque as pessoas querem meramente só consumir os conteúdos da fé. E aqui, quando digo conteúdo da fé, coloco inclusive, sem nenhum medo de heresia, a própria Eucaristia, não é?
E se esquece desse aspecto comunitário. Penso que hoje a gente vive um cristianismo muito mercadológico. De consumo pessoal daquilo que são as coisas da fé, o que é muito distante da origem. Mas a gente só vai conseguir entender isso depois que a gente morrer, né, Alexandre? São as gerações que vierem depois da gente que vão teorizar a respeito disso. Mas você não acha que o cristianismo hoje, atendendo ao mercado, está individualizante?
E aí você vê crises como Por exemplo, a CNBB não tem mais voz, não é? Os grandes colegiados da igreja não tem mais voz. Se pá, nem o Papa, se pá, nem o Papa. Oxe, basta o Papa contrariar um pensamento pessoal que ele é automático: esse não é o meu Papa, mas eu continuo católico. Uma contradição dogmática, inclusive, não é? Mas aí, ou seja, penso que a crise do catolicismo hoje é uma crise mercadológica também.
Mas aí a gente tem que distinguir individual de pessoal, porque sim, se a gente pensar nesses movimentos, né, de ondulatórios, né, de fluxos e refluxos, a religião romana politeísta ela era cívica, era a religião do status quo. Que servia não a uma individualidade, mas uma ordem. Quando você pensa na cristandade, é uma religião cívica também, que serve a um status onde você tem que participar desse status, né, estabelecido. A religião hoje cívica é a religião de mercado, porque está colocado.
Então, se tá todo mundo acordando 3 horas da manhã, eu tenho que também participar disso. A grande loucura dos dias de hoje é que isso é feito em nome da individualidade. Antes era em nome de um, de uma participação de um certo, de um certo, de uma certa cultura ali, né? E aí O contraponto disso é a decisão pessoal como compromisso pessoal, Pedro. E isso, desde o cristianismo, é muito marcante, porque não é pessoal no sentido de, ah, eu comigo mesmo, por mim mesmo, mas pessoal no sentido de que eu estou aberto à relação e a formar comunidade com o outro, né?
E isso levado ao extremo. Então o cristianismo primitivo, ele não era só uma alternativa ao maniqueísmo, ao zoroastrismo, ao politeísmo. Era uma tentativa de formar comunidade, né? Não era só um, ó, vem aqui que eu tenho um negócio bom que ninguém tem, um mistério. Era, vem aqui que eu vou cuidar de você, porque junto aqui a gente É, aqui a gente vive o amor e o amor é Deus. E ao mesmo tempo era esse, essa adesão pessoal de eu entendi, eu quero fazer parte e eu tô disposto inclusive a morrer por esse Deus amor e a morrer pelos meus irmãos igual ao meu Deus fez por mim.
Então hoje a mensagem e o apelo continua relevante, né? Então a adesão continua pessoal, mas não para satisfazer o meu ego individual, a minha caminhada de status quo, para dizer no status: olha, sou um cristão da hora, né? Sigo os mandamentos do padre YouTuber. Não, sou um cristão comprometido com a minha comunidade de fé, sou cristão comprometido com o meu irmão, até com o irmão que eu não conheço, até com o irmão que eu tô encontrando agora e que tá precisando de mim agora, né?
Esse meu irmão que tá chorando aqui, que trabalha comigo, que eu tô vendo que tá angustiado, o que que eu vou fazer para ajudar esse irmão concreto?
Né, não Deus estratosférico, ou seja, fora totalmente daquilo que é a própria realidade tangente de cada um, diferente daquilo que era o Deus encarnado em Jesus, ou mesmo o Platão lá que a gente leu da vida de Platão, né, Ferreira, totalmente encarnado e participante daquilo que é a vida tangente, a vida de quem tá no dia a dia. É isso, né, Alexandre?
É isso, eu acho que deu, né? Eu acho que deu.
Perdemos uns 3 ouvintes aí nesse programa já, mas a gente queria agradecer. Faz parte, ou depois chega mais um, não é? Mas valeu aí, galera. Se você quiser, deixe os comentários aí no Spotify. De vez em quando o Alexandre lê, eu consigo ler também. A gente volta então na próxima semana.
Um beijo, meu querido, um abraço e um aperto de mão.
Até semana que vem eu, e até 15 dias nós.
Tchau, tchau!
Deus é amor, ele afasta o medo.