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A Confissão como Identidade

03 de maio de 20267min
0:00 / 7:50

O começo de conversa é um programa que antecede o "Uma Conversa" da semana, sempre com algum artigo que vai ajudar a compreender o tema a ser abordado. Nessa semana lemos um trecho da dissertação de mestrado de Bruno Ribeiro da Silva entitulada "Manual de confessores e penitentes, de Martín Azpilcueta Navarro: A confissão como caminho de correção, conhecimento e cuidado de si"

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Participantes neste episódio1
B

Bruno Ribeiro da Silva

ConvidadoProfessor
Assuntos4
  • Confissão e ModernidadeConfissão como declaração pública de fé (Confessio Fidei) · Confissão auricular e o sacramento da penitência · Reformas religiosas e a afirmação de identidade religiosa · A Igreja de Roma e a confissão como sinal de pertencimento · Recusa em confessar como ato de heresia
  • Influências da modernidade no mundo caipiraConceito de confissionalização na historiografia · Trabalho de Ernst Waltz Eden e Confessionis Buidin · Formação e consolidação das religiões na Europa · Contribuição para a construção da modernidade · Abordagem neutra e abrangente
  • Declarações de féSistematização de doutrinas no século XVI · Instrumentos para definir nova doutrina: confissões de fé · Finalidade interna e externa das confissões de fé · Conselho de Trento e a obrigatoriedade da confissão auricular
  • Reforma Protestante e resgate das EscriturasHistoriografia alemã e a divisão Reforma/Contrarreforma · Crítica à conotação reacionária do termo Contrarreforma · Proposta de Hubert Jedin: Reforma Protestante e Reforma Católica · Destaque ao papel ativo da Igreja Romana
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Olá, sejam bem-vindas e bem-vindos ao Começo de Conversa, o programa que antecipa os assuntos que serão tratados numa conversa que irá ao ar daqui a uma semana. Dessa vez, nós vamos ler um trecho da dissertação de mestrado de Bruno Ribeiro da Silva com o título Manual de Confessores e Penitentes de Martim Aspicuelta Navarro.

A confissão como o caminho de correção, conhecimento e cuidado de si. Ouçamos aí então o trecho da dissertação do professor Bruno Ribeiro da Silva e a gente volta daqui a pouco.

Escrever sobre a confissão é adentrar o tema da formação da modernidade. Mas a palavra confissão no contexto de formação da modernidade significava a declaração pública de uma fé, a Confessio Fidei.

Não se trata, portanto, da confissão auricular, aquela realizada perante um sacerdote, na qual o penitente expressa arrependimento por seus pecados, busca a absolvição e aceita a penitência, mas sim da confissão como ato de adesão a uma determinada fé.

Essa necessidade de declarar publicamente uma fé emergiu durante as reformas religiosas, quando as dissidências cristãs tiveram que definir seus dogmas e afirmar sua identidade religiosa.

Para a Igreja de Roma, a prática da confissão auricular tornou-se por si só uma forma de confesso fidei, um sinal de pertencimento ao catolicismo. Assim, realizar a confissão anual e acreditar no poder do sacramento da penitência eram demonstrações inequívocas da fé católica.

Em contrapartida, a recusa em confessar ou a descrença na eficácia desse sacramento eram associadas aos reformadores e interpretadas pela igreja como um ato de heresia. No contexto de incerteza do século XVI, era fundamental e necessário sistematizar as doutrinas da forma mais clara e refutável possível.

A Igreja Romana, a princípio, manteve-se na sua tradição medieval e tratou a crise reformista como mais uma confusão teológica e possível heresia. Não via nisso ainda uma ruptura. Os novos grupos, por outro lado, estavam em uma situação mais delicada de ataque à doutrina antiga e afirmação da nova.

Os principais instrumentos utilizados por esses grupos para definir a nova doutrina foram as confissões de fé, documentos oficiais e públicos nos quais se estabelecia a doutrina e condenava os equívocos das adversárias.

Estabelecer a doutrina por meio de uma confissão tinha tanto uma finalidade interna quanto externa. Internamente servia para definir os princípios da nova fé, assegurando a identificação da doutrina por seus fiéis. Externamente, a confissão da fé atuava como um marco de diferenciação, delimitando a crença de um povo em oposição às doutrinas adversárias.

Não foram apenas os novos grupos cristãos que precisaram definir a sua fé. A Igreja Romana também teve que reafirmar seus dogmas e reorganizar sua estrutura. Enquanto no campo reformado as dietas imperiais e cartas confessionais estabeleceram os paradigmas das novas religiões, no campo católico romano, o grande marco desse esforço de reafirmação doutrinária foi o Conselho de Trento.

Ambos os lados tinham como objetivo doutrinar seus fiéis, ou seja, estabelecer e transmitir seus princípios religiosos. Uma das decisões do concílio de Trento foi precisamente a obrigatoriedade da confissão auricular.

Nesse contexto de definição doutrinária, confessar tornou-se um ato de afirmação da fé católica, especialmente porque os grupos dissidentes haviam eliminado a necessidade de confessar os pecados perante um sacerdote.

O historiador Leopold von Hanke, historiador simpático ao protestantismo, criou duas categorias para analisar esse contexto. Reforma protestante e contrarreforma. Essa divisão foi amplamente utilizada pela historiografia alemã.

Porém, nessa formulação, o termo contra-reforma carrega uma conotação claramente reacionária, atribuindo à Igreja Romana um papel meramente passivo, limitado a reagir à reforma protestante.

Em resposta a essa visão, o jesuíta alemão Hubert Jedin propôs uma nova formulação, utilizando os termos reforma protestante e reforma católica. Com essa abordagem, Jedin buscou destacar o papel ativo da Igreja Romana, reconhecendo suas próprias iniciativas de reforma interna e não apenas suas reações aos movimentos protestantes.

No século XX, a historiografia sobre a formação da modernidade desenvolveu um conceito fundamental para a análise das disputas religiosas desse período, a confissionalização.

A origem do termo remonta ao trabalho de Ernst Waltz Eden, que cunhou a expressão Confessionis Buidin, para analisar o processo de formação e consolidação das diferentes religiões na Europa, como a luterana, a reformada e a católica romana.

Ziedem concluiu que essas novas denominações da fé contribuíram para a construção da modernidade por meio desse novo processo de confessionalização.

Ao adotar essa perspectiva, Zidem se distanciou da tradicional oposição entre reforma e contrarreforma, buscando uma abordagem mais neutra. Com isso, o conceito de confessionalização pode ser aplicada de forma abrangente, englobando todas as igrejas cristãs.

Você ouviu um trecho da dissertação de mestrado de Bruno Ribeiro da Silva intitulada Manual de Confessores e Penitentes de Martinhas Picoelta Navarro, a confissão como caminho de correção, conhecimento e cuidado de si. E esse foi o começo de conversa.

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