#360 - Entenda o que está no seu inconsciente
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Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista, professor, escritor e palestrante. Tem os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-RJ e Mestre em Saúde Coletiva pela UFRJ.
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- O InconscienteDefinição de inconsciente · Funcionamento autônomo do inconsciente · Inconsciente como determinante de pensamentos e ações · Inconsciente como defesa contra o insuportável · Acessando o inconsciente através da fala
- Sofrimento humanoPremissa psicanalítica sobre o sofrimento · Limitações do conhecimento consciente sobre si · Exploração do desconhecido para compreensão · Construção de hipóteses sobre o sofrimento
- Psicologia da SexualidadeSexualidade como construção · Influência do ambiente e cultura na organização sexual · Orientação sexual peculiar e única · Moralidade e a repressão de inclinações sexuais
- Relação com o CorpoFeridas físicas como parte da identidade · A relação psicológica com a condição física · Resistência à mudança por apego à identidade
Olá, meu nome é Lucas Napoli, eu sou psicólogo, psicanalista e doutor em psicologia clínica. Seja muito bem-vindo ao canal Psicanálise em Humanês. Pessoal, recentemente eu participei do Lutz Podcast e dentre os vários assuntos sobre os quais nós conversamos nesse episódio do Lutz Podcast,
Nós falamos sobre conceitos fundamentais da psicanálise. O Lutz me perguntou, me fala um pouco quais são os conceitos fundamentais da psicanálise? E, na resposta, eu expliquei pra ele, de forma simples, didática, bastante compreensível, pra qualquer pessoa, o que é o inconsciente. E eu quero, neste vídeo de hoje, apresentar pra você o corte da entrevista em que eu faço essa explicação. Então...
Se você quiser estudar psicanálise de maneira mais profunda, se você quiser ser meu aluno, você precisa participar da Confraria Analítica, que é a minha escola de formação teórica em psicanálise. Nós já temos mais de 5 anos de existência, mais de 600 horas de aulas disponíveis no nosso acervo, mais de 400 aulas, e toda semana tem duas aulas novas entrando na nossa plataforma.
sendo uma delas uma aula ao vivo toda segunda-feira às 8 horas da noite. Então se você quiser se aprofundar, quiser se tornar meu aluno, é só acessar o QR Code que está aparecendo aqui na sua tela, aponte a câmera do seu celular para esse QR Code, ou se você preferir é só clicar no primeiro link da descrição ou no link que está no comentário fixado.
Fique aí então com o corte da entrevista no Lutz Podcast. Agradeço ao Lutz pela oportunidade. Foi muito prazerosa essa experiência de conversar com ele. E eu vou deixar também o link aqui embaixo na descrição pra você assistir a entrevista completa. O inconsciente entendido como existe uma parcela da nossa vida psíquica que a gente não controla, que é... E aí
nesse sentido inconsciente, não está acessível, que tem um funcionamento mais ou menos autônomo e que determina a nossa vida. Condiciona os nossos pensamentos conscientes, as nossas ações, boa parte das nossas emoções, condiciona o nosso modo de ser.
Em relação a isso, eu acredito que nenhum psicanalista discordaria. E aí, nesse sentido...
quando um paciente chega até nós e apresenta ali a sua condição de sofrimento, a gente parte dessa premissa, a gente parte desse pressuposto de que pra explicar aquela situação ali, eu não posso contar só com aquilo que o paciente conscientemente sabe sobre si e me diz a respeito de si. Então, sei lá...
A pessoa chega e diz que ela está se sentindo abatida, triste, desanimada, e ela acredita que isso tem a ver com o fato de que ela não consegue encontrar um bom relacionamento.
eu me sinto sozinho eu não consigo encontrar uma pessoa legal com quem me relacionar e por isso eu estou desse jeito por isso eu estou experimentando essas sensações desde o início a gente vai partir do pressuposto de que aquilo não é irrelevante mas é só parte da história
Tem uma série de coisas que essa pessoa não sabe sobre si, que ela desconhece, e é justamente investigando e explorando essa série de coisas que ela ainda não sabe sobre si que a gente vai conseguir entender o que está acontecendo com ela. Ou pelo menos, para ser bastante pé no chão,
pelo menos conseguir oferecer para essa pessoa, construir com essa pessoa, uma visão, uma hipótese sobre a sua condição de sofrimento que permita a ela sair daquilo, se movimentar de alguma forma. E aí vem a pergunta, né? Mas por que essa pessoa não sabe dessa dimensão inconsciente?
Por que ela não chega? É uma falta de conhecimento, pura e simplesmente? Não. A pessoa não sabe porque ela se defende disso. Porque ela se protege. Porque se a gente chegasse pra ela, se fosse possível, né? Um aparelho, sei lá, que a gente conseguiria captar aquilo que tá no inconsciente e mostrar pra pessoa. Tá aqui, eu sou inconsciente aqui, ó. Vou mostrar pra você na tela aqui. A pessoa não suportaria ver.
porque é muito doloroso. É insuportável. E justamente por ser insuportável, é que aquilo está no inconsciente. Então, em certo sentido, o que a gente vai buscar na psicanálise é criar condições para que isso que é, num primeiro momento, insuportável, possa ser suportado. O sujeito possa enxergar isso... Ah...
sem precisar continuar se defendendo, sem precisar continuar mantendo isso no porão da sua alma, digamos assim. A metáfora do porão não é tão interessante porque o inconsciente não fica parado. Aquilo que está no nosso inconsciente se manifesta o tempo todo na nossa vida. E é justamente por isso que dá pra fazer análise.
Porque a nossa hipótese é assim, beleza, o paciente, essa mulher que está se queixando de que ela está meio deprimida e está atribuindo isso à falta de um namorado, ela não sabe o que de fato está causando a sua depressão. Eu também não sei, como analista.
mas eu vou pedir pra ela falar qualquer coisa que ela quiser sobre a vida dela. O que ela quiser falar. Se ela quiser falar de como ela tá se sentindo, ela fala. Se ela quiser falar sobre o que aconteceu durante o dia, ela fala. Se ela quiser falar sobre como é que foi a infância dela, ela fala. A nossa hipótese é a de que ao deixar a pessoa falar o que vier à cabeça dela, o que ela desejar, o inconsciente vai aparecer.
Então o inconsciente, a princípio, ele é uma coisa que não é acessível, mas tem maneiras da gente acessar isso. Exatamente. Ele não é acessível diretamente. Diretamente. E ele não é acessível diretamente por aquela razão que eu falei, porque ele é insuportável. O que está no nosso inconsciente...
antes de ser elaborado, é insuportável. É, por exemplo, sei lá, uma pessoa chegar à constatação, isso depois de um bom tempo de trabalho, de que ela, no final das contas, tinha um ódio muito grande pela mãe.
Só que ela não consegue tolerar essa ideia, essa imagem de si mesma odiando a própria mãe. Se você mostrasse pra ela assim, ó, tá aqui você, ó, xingando a sua mãe de tudo quanto é nome, ela não conseguiria assistir esse filme. Então ela precisa manter isso no inconsciente. Só que isso vai aparecer, isso vaza. Vai aparecer na fala dela.
E o psicanalista, nesse sentido, vai ser a pessoa que vai ajudar o paciente a perceber o inconsciente se manifestando ali no que ele fala. E aí vem toda a crítica do pessoal de fora, né? Ah, mas os psicanalistas ficam forçando a barra, ficam vendo coisas onde não existe. Isso é um risco, sim.
Mas isso não invalida o risco de que o psicanalista possa acabar forçando a barra, não invalida esse princípio fundamental, que é o inconsciente vai se manifestar enquanto você fala. Sem que você perceba, você vai dar as pistas para aquilo que está no seu inconsciente. É como se a gente fosse um criminoso e você vai dar as pistas
que cometeu um crime e sem perceber ele está confessando esse crime ali enquanto ele fala, só que ele está confessando de uma forma distorcida, alusiva. Você precisa ter olhos para ver, você precisa conseguir... Por isso que a escuta na psicanálise é muito importante. E não só a escuta do analista, mas a escuta do paciente.
Eu não sei se você está tendo essa experiência, mas de às vezes o seu terapeuta falar assim, você parou pra pensar naquilo que você falou lá no começo? Aí você parou, caramba, eu não tinha parado pra pensar nisso, é verdade. Olha o que eu falei. Pois é, eu vou aquilo. E aí você começa a...
observar o seu próprio discurso e observar até os seus comportamentos, o seu dia a dia de uma outra forma. Esse processo não é fácil. Porque se eu estou dizendo que o que está no inconsciente é o insuportável, não vai ser fácil olhar para isso. E o desafio do trabalho psicanalítico é esse. Esse é o desafio de conseguir...
ajudar a pessoa a olhar pro inconsciente, aguentar olhar pro inconsciente. Por que que essas coisas se tornam insuportáveis? Isso também faz parte da história, porque, por exemplo, o caso da mulher aí sobre odiar a mãe. E no fundo, vamos supor, é isso que ela esteja sentindo. Por que que isso é insuportável pra ela? Foi uma construção moral ali?
Sim, em muitos casos se trata disso. De moralidade. Sim, por exemplo, caso clássico. O sujeito que tem, todas as pessoas têm...
Só fazer esse disclaimer introdutório, né? Do ponto de vista psicanalítico, a nossa sexualidade, ela não nasce organizada, regulada. Esse é um processo que vai acontecendo. Então ninguém nasce heterossexual, ninguém nasce homossexual. A gente nasce sexual.
E aí o ambiente, cultura, vão nos oferecendo determinados caminhos e aí a sexualidade vai se organizando. Por isso que a Rigor, uma vez eu disse isso, eu acho que é uma formulação boa, a Rigor, cada pessoa tem uma orientação sexual peculiar, única, particular. A gente fala de heterossexual porque a gente tá pegando um atacado. Quando você vai ver no varejo, cada pessoa tem uma orientação sexual específica.
Mas vamos supor que você tem uma pessoa que se reconhece como heterossexual, ele foi educado dessa forma, entendendo que ser heterossexual é uma coisa não só...
natural, digamos assim, uma coisa que a maioria das pessoas é, mas é algo que ele deve ser, é o ideal. Ser heterossexual é o ideal de sexualidade. Ser homossexual é ser inferior, é ser pecaminoso, é ser errado, etc.
Só que esse mesmo sujeito, de repente, na infância, ele teve determinadas experiências que tornaram a inclinação homossexual para esse sujeito algo muito importante.
Só que isso não pode entrar na identidade dele, não pode entrar no modo como ele se reconhece, porque por outro lado ele aprendeu que ser homossexual é errado, é uma coisa feia, é uma coisa baixa, etc, etc, etc. Então, pra proteger essa imagem de si, ele precisa, digamos assim, fingir que esse outro lado dele não existe. Então, isso pra ele se torna insuportável.
Enquanto pra, sei lá, uma pessoa bissexual ou pra um homossexual, ele olha e fala assim, mas gente, qual que é o problema de você reconhecer que você tem interesse também por pessoas do mesmo sexo? Pra essa pessoa aquilo ali é um filme de terror porque coloca em risco a identidade que ela construiu. E a gente, às vezes, não...
percebe ou não se dá conta do quanto a identidade, uma identidade estável é importante para nós. Eu sempre conto esse caso. Eu era estudante de psicologia, eu fazia um estágio num ambulatório de lesões dermatológicas. E nesse ambulatório, eu ficava ali junto com a equipe de enfermagem, eles limpavam as feridas das pessoas, as pessoas iam uma vez por semana, mais ou menos.
E tinha gente que tinha uma ferida aberta há 20 anos. Tinha um senhor lá que a ferida dele ia e voltava há 50 anos. Então pensa, esse cara tinha, sei lá, 70, 75 anos. Durante toda a vida desse cara, ele teve aquela ferida. A ferida às vezes fechava, ficava uns meses fechado, depois abria de novo.
ficavam os mesmos fechando a briga de novo. De modo que aquele cara ficou sendo conhecido como o cara da ferida. Aquilo se tornou parte da identidade dele, parte do modo como as pessoas o reconhecem. Então, se esse cara perde a ferida, ele não perde só a ferida. Ele perde uma parte da identidade dele. E às vezes era difícil pra equipe de enfermagem entender quando a gente conversava sobre isso, né? Gente, vocês podem...
Vocês podem mexer na ferida desse senhor, vocês podem usar qualquer tipo de medicamento. Se a gente não conseguir trabalhar a relação psicológica dele com a ferida, esse negócio vai abrir toda vez. Ele vai esquecer de fazer o curativo em casa, ele vai, sem querer, querendo tropeçar e acabar fazendo a ferida abrir de novo. Não adianta, porque aquilo tem a ver com a identidade dele.
E da mesma forma, quer dizer, se eu, se a heterossexualidade pra mim é uma coisa essencial pra minha identidade, tudo aquilo que não couber nisso eu vou fingir que não existe. E aí vai ser insuportável pra mim.
E aí, gostou desse corte? Se você quiser assistir a entrevista completa que eu fiz lá no Lutz Podcast, é só acessar o link que está aqui na descrição. E também na descrição você encontrará o link para a Confraria Analítica, a minha escola de formação teórica em psicanálise.
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