Episódios de Mulheres Elétricas, com Carol Gilberti

Humor Corporativo

04 de maio de 202626min
0:00 / 26:43
Participantes neste episódio2
C

Carol Gilberto

HostApresentadora
A

Abadia Vieira

ConvidadoEspecialista em humor organizacional e palestrante internacional
Assuntos7
  • Humor e ComédiaHumor intencional em vez de espontâneo · Liderança e a criação de um ambiente seguro · Uso de teatro e vídeos para feedback · Jogos, exercícios e dinâmicas para identificar problemas · Combate à fofoca através da comunicação direta
  • Ambiente de TrabalhoHumor corporativo não transforma gestores ou elimina reuniões inúteis · Leveza e resiliência no ambiente corporativo · Vida pessoal além do trabalho · Produtividade sem ser chato · Imediatismo e a busca por soluções fáceis
  • Apresentação Abadia VieiraCarreira como especialista em humor organizacional · Visão sobre diversão e produtividade · Humor como ferramenta estratégica
  • Humor e saúde mentalDicotomia entre discurso e prática corporativa · Burnout e sofrimento no ambiente de trabalho · Saúde emocional individual e intransferível · Riscos psicossociais e NR1
  • Casos de empresas com humor corporativoFoco no mercado europeu e no Brasil · Trabalho com empresas de telecomunicação · Treinamento de formadores na TAP · Workshops na Claro · Trabalho com temas sensíveis na Rocha · Atividades voltadas para segurança na Light
  • Gestão humanizada e produtividadeDeloitte e Gallup sobre colaboradores engajados · Impacto do engajamento emocional no trabalho · Redução de turnover em empresas
  • Cultura e Humor BrasileiroCultura brasileira e o humor · Fazer piada com a própria desgraça
Transcrição74 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Esse podcast é um oferecimento da Wise, o app feito para você ser do mundo. Com a Wise, você pode enviar, receber e pagar com o cartão em mais de 40 moedas, economizando na conversão. Seja enviando dinheiro para um parente que mora fora, pagando com o cartão da Wise em uma viagem para o exterior ou recebendo dinheiro de outro país. Com a Wise, você faz tudo de forma prática, segura e rápida.

Mais de 15 milhões de pessoas do mundo todo já usam e confiam. Afinal, quem sabe, vai de Wise. Baixe o app da Wise hoje ou visite wise.com. Termos e condições se aplicam. Mulheres Elétricas, com Carol Gilberte.

Olá, pessoal, sejam muito bem-vindas e bem-vindos a mais um episódio de Mulheres Elétricas. Eu sou a Carol Gilberto e é um prazer enorme estar aqui com vocês. Muito obrigada pela presença, pela audiência. Essa semana a gente vai falar sobre um tema que muito me agrada, mas que é um tema relativamente novo. Na verdade, não é um tema novo, mas talvez a união desse tema junto.

ao trabalho, ao mundo corporativo, seja uma certa novidade. E a gente vai falar sobre o humor corporativo. A gente sempre fala de humor no âmbito pessoal, na vida entre amigos, entre familiares, até mesmo na vida individual, para assistir um filme, uma comédia, uma peça. Mas agora o tema está sendo levado para...

grandes empresas. A gente está vendo aí um movimento onde ele ganha espaço e também pode se tornar um diferencial competitivo no Brasil neste ano de 2026. Olha, me parece uma excelente notícia, mas para a gente poder saber um pouco mais sobre isso, eu trouxe aqui como convidada a Abadia Vieira, que é especialista em humor organizacional e palestrante internacional. E ela chega ao Brasil para discutir como o humor pode aumentar a produtividade, o engajamento.

e resultados nas empresas. Abadi, é um prazer enorme tê-la aqui conosco. Muito obrigada, seja muito bem-vinda aqui em Mulheres Elétricas. Bom, antes da gente começar esse bate-papo, que eu estou super curiosa para saber, eu queria que você fizesse aí uma breve apresentação sobre você, sua carreira, sua vida pessoal, para que os nossos ouvintes te conheçam um pouquinho mais. Olá, Carol, bom dia. Muito obrigada pelo convite.

Mulheres elétricas é um nome ótimo, que traduz muito essa energia que você tem. Me apresentar é um negócio muito curioso, porque a vontade, o primeiro impulso é dizer as minhas qualidades. A gente não começa se apresentando pelos defeitos. Então a gente acaba tendo até um discurso muito ensaiadinho sobre quem somos, como somos.

Eu recentemente estava refletindo sobre isso e a gente sempre vai pelo lado muito profissional. Eu gosto muito de fazer esse exercício. E é engraçado que eu nem sempre me apresento do mesmo jeito, tá? Se for olhar outras entrevistas minhas, depende, depende do dia. É muito mais quem estou eu no dia de hoje. E é muito interessante porque eu estou hoje, nesse momento, uma pessoa que...

está com muito foco em cuidar de mim, cuidar dessa correria do mundo corporativo. Eu sou essa pessoa, mãe de dois homens adultos, jogadora de videogame, gosto de me divertir. Acho que um dos meus valores é a diversão, porque eu acho que para ser produtivo a gente não precisa ser chato.

E eu tenho minha formação, não só a acadêmica, mas a minha formação e a minha compreensão, por exemplo, é de que realmente o humor se tornou uma ferramenta estratégica para a minha vida. Não só para o trabalho, mas também pela forma como eu encaro as dificuldades. Eu gosto sempre de trazer essa reflexão sobre quem eu sou nesse formato, essa pessoa que está cada vez num desenvolvimento, que depende, tem os humores que variam, mas que os valores são mais...

são mais fixos, que é um desses é isso, é entender a diversão, a alegria, o bom humor, como ferramentas de, eu diria sobrevivência, mas fica um pouco sério, né? Sobrevivência, mas é um pouco isso também. Concordo plenamente, a vida tem que ter pitadas de humor, senão a gente não sobrevive, e isso não significa que...

somos menos profissionais, somos menos produtivos, menos que levamos a sério, né, menos a sério as questões sérias da vida, mas a gente tem que ter essa leveza, até mesmo para os nossos próprios defeitos, como você mesmo falou, é difícil a gente começar com os nossos defeitos, mas é interessante quando a gente traz uma leveza para eles, e isso não significa que você está fazendo, entre aspas, vista grossa, porque precisa ser melhorado.

pode ser uma questão leve. E esse novo cenário aí, que inclusive foi trazido por estudos recentes, feitos pela Deloitte e Gallup, que diz que empresas com colaboradores engajados e emocionalmente conectados ao ambiente de trabalho são até 23% mais produtivas do que aqueles que não mostram essa leveza, ou que não estão emocionalmente engajados ou conectados.

E também apresentam menor turnover, ou seja, a empresa sofre menos com requalificação de pessoas, de ficar refazendo times o tempo inteiro, que isso custa, isso custa para a empresa. Então, eu queria entender um pouquinho mais esse conceito do humor corporativo, o que ele significa e como que ele é praticado.

na prática do dia a dia mesmo, e como que ele é aplicado como estratégia do próprio negócio, que inclusive é um tema central do livro Gargalhadorismo, empreendedorismo com humor.

né? Então, eu acho que isso vale muito. E o Brasil é um país cômico, né? Eu acho que as pessoas sabem, a nossa cultura sabe trazer bastante do humor pro dia a dia. A gente faz piada com a nossa própria desgraça, como se diz. É a política, é a economia, é a cultura. A gente tem esse dom de trazer essa leveza, porque fazer humor é um olhar, né? É uma arte.

E se isso pode trazer produtividade e resultado positivo para a empresa, por que não? Agora, é claro que tem que ser uma coisa estruturada dentro de uma estratégia, né? Não é, tipo, colocar um palanque ali de humorista fazer um stand-up todo dia na empresa, né? Eu queria saber aí como que funciona na prática a inserção do humor dentro do mundo corporativo. Carol, muito interessante esse olhar que você tem sobre o Brasil ser um país.

de rir das próprias tragédias. Mas tem uma coisa muito interessante. Isso é humor espontâneo. E esse humor espontâneo, que é originário nosso, porque a gente também faz isso como estratégia de sobrevivência, ele não é o mesmo humor.

O humor corporativo é um humor intencional. E qual é a grande diferença entre uma coisa e outra? O humor espontâneo não tem tecnicamente uma regra. O humor espontâneo é aquilo que você tem o ímpeto de fazer uma piada, seja com qualquer circunstância, sobre qualquer tema, sobre qualquer coisa.

Isso é um humor espontâneo. Ele pode dar certo, pode dar muito errado. Depende do contexto. Humor intencional não, que é exatamente aquilo que eu estudo. A construção do humor intencional é você criar um ambiente, o que as pessoas chamam de ambiente de segurança psicológica, é você criar um ambiente onde não seja mal visto as suas variações de humor. Então, o humor corporativo é o bom e o mau humor.

que é inerente a todos os seres humanos. O que acontece é que acontece essa confusão entre o humor intencional e o humor espontâneo. E as empresas têm pavor do humor espontâneo, porque o humor espontâneo, como o próprio nome diz, é espontâneo. Ele não é pensado, ele não pensa nas consequências. E aí, realmente, a gente tem casos onde você olha e fala, está vendo como o humor não dá certo? Claro.

Porque aquilo não foi estruturado. E aí eu entro numa resposta muito pontual. Tá bom, e como é que entra o humor não espontâneo, né? Intencional. Quando você consegue construir com o seu time, com a sua equipe, aquilo que funciona para vocês. Que tipo de coisas, de erros e falhas, vocês podem compartilhar sem que aquilo seja um peso trágico? E sim, de fato, a missão do erro que é para trabalhar a melhoria contínua.

Mas isso vem das lideranças. Se as lideranças são treinadas para ler os pequenos sinais, para conseguir construir essa comunicação, você começa a ter os resultados. Acho que o que tem hoje e que dá esse desconforto é exatamente porque não se sabe construir esse humor intencional. E aí, não sabendo isso... Imagina que eu sou líder e eu tenho no meu discurso que errar é muito importante. Mas eu, tecnicamente, nunca erro.

Se você tem um ambiente onde eu nunca erro, dificilmente, quando eu, como líder, não compartilho os meus erros, não rio desses erros junto com a minha equipe, dificilmente eu abro espaço para alguém da minha equipe compartilhar os próprios erros. E aí você começa a criar uma camada pseudo-perfeita, que é exatamente o adoecimento das pessoas, porque, no fundo, todo mundo sabe, acaba virando um grande teatro corporativo.

Porque todo mundo erra, todo mundo falha, mas ninguém assume que erra, ninguém assume que falha. E essa, eu vou dizer falsidade, é duro, mas essa falsidade corporativa está criando esses ambientes que nunca se falou tanto em felicidade, tanto se falou em humor e nunca se viu tanta gente em burnout e em sofrimento. Porque existe essa dicotomia, essa discrepância entre o que eu falo e o que eu faço. Eu acho que basicamente, para fazer da minha resposta longa mais curta...

é criar esse ambiente através do humor intencional para que haja ali uma comunicação leve, honesta, sincera e que se construa uma relação de confiança. Falei tudo isso para resumir nesse pouquinho. Está vendo como é que a gente é prolixo? O ser humano é maravilhoso. Não, mas a sua resposta foi sensacional. É isso mesmo. Eu acho que a gente vive personagens que não somos nós, né? Como se a gente vestisse uma armadura.

para estar dentro do mundo corporativo e aí você tira para estar no mundo social e de vida pessoal, só que somos uma só pessoa. E eu acho que as mulheres também sofrem muito com isso, né? Seria um outro assunto, mas até na vestimenta, no porte, na forma como se fala.

enfim, e a gente vive essas pseudo-verdades, igual você mesmo falou agora, interessante porque eu gosto muito de tangibilizar, sabe? a teoria é maravilhosa, ela é necessária mas eu acho que a gente precisa colocar a prática em prática é redundante, mas é praticamente isso

Mas enfim, como que isso funciona no dia a dia numa empresa? Você falou muito sobre lideranças. Como é que as lideranças podem estruturar essa intencionalidade de ter esse humor intencional e não espontâneo, como você mesma disse?

para que realmente haja a intencionalidade de trazer resultados positivos e criar esse ambiente mais produtivo, sem essa sobrecarga das equipes. Como uma liderança, eu fico pensando, será que eu faço isso? Será que eu promovo isso? Como que eu faço? Será que a minha equipe entende essa abertura, essa leveza, essa liberdade de poder ser, sem medo de perder o emprego, sem medo de errar?

Eu estou muito na área do empreendedorismo, né? Eu sou praticamente, atuo aí, mas a gente não consegue fugir do mundo corporativo, porque está tudo conectado. No empreendedorismo, a gente tem o erro como um grande aliado para o aprendizado.

E eu acredito que no mundo corporativo, quando a gente bota o pé lá dentro, isso vai por água baixa, essa teoria. A gente já tem que entrar perfeita, como se o entrante, iniciante, ele não entende nada e nunca vai entender. Mas, na verdade, é necessária essa jornada para poder adquirir essa experiência. Então, é meio ambíguo o conceito.

Então, eu acho que a gente está quebrando esse padrão, e eu acho que pode ser através de vários fatores, inclusive esse que você está trazendo, sobre a questão de trazer uma leveza, o humor como ferramenta, mas eu queria entender um pouquinho mais isso na prática. Vamos lá, Carol. É importante o que você está trazendo por um olhar.

Como o tema é novo, humor não, mas o humor corporativo, eu trabalho com isso desde 2009, para você ter uma ideia da brincadeira. E eu me lembro que quando eu entrei no doutorado, eu faço um doutorado na Universidade Nova de Lisboa, quando eu fiz uma entrevista com a minha orientadora, eu falei, não, mas eu sei que o humor é um fator de transformação. Ela falou, bom, se você sabe, você não precisa nem fazer o doutorado, já que você sabe de tudo.

E aí eu entendi nessa hora que era o momento de recuar. Falei, nossa, talvez eu tenha sido arrogante. Mas por quê? Porque por trabalhar desde 2009 com isso, a gente começa a identificar os fatores. Só que eu nunca metrifiquei isso. E agora, com o meu estudo, meu estudo é prático, está acontecendo numa empresa, vai terminar no final desse ano. E aí a gente vai ter esses números direcionados principalmente para os brasileiros e portugueses, que é...

a linguagem. Em geral, os estudos de Stanford e de Harvard são muito baseados em outras culturas, principalmente na cultura americana, vários estudos. Existem estudos mundiais, eu não quero ser leviana com isso, mas o que eu quero trazer e o que essa experiência desde 2009 me traz das empresas?

Imagina que quando você está lidando com adulto, quando você cria, por exemplo, ou uma cena de teatro, ou um vídeo, alguma circunstância que você já mapeou, que acontece e gera um desconforto na empresa.

Você não precisa chamar essa pessoa propriamente dita e falar, oi fulano, está acontecendo isso, olha que feio que você fez. Não, você às vezes usa o humor, o exagero daquele comportamento, a gente não ri de pessoas, a gente ri de comportamentos, então você exagera naquele comportamento, numa cena de teatro ou no vídeo, e as pessoas se identificam imediatamente com aquela circunstância, e isso é que promove a mudança e a transformação. Quando há aquele momento onde o adulto olha,

nessa metodologia e olha e fala, meu Deus, eu faço isso. E quando você se conecta com, meu Deus, eu faço isso, a primeira postura das pessoas normais, vamos excluir as psicopatias, as doenças comportamentais.

Mas nas pessoas normais, o primeiro impulso é preciso mudar, preciso melhorar, já que eu identifiquei isso. O grande, a minha grande ponto de observação é que boa parte das vezes, e o feedback é muito importante, eu não quero desmerecer o feedback one to one, mas o feedback one to one, às vezes, o outro lado entende como uma crítica.

Olha que interessante. E essa crítica vindo do outro, às vezes a gente fica surdo, a gente não ouve aquilo. Mas quando você se vê naquela situação, você fala, meu Deus do céu, eu faço isso. Ou, às vezes, acontece, você identificar no outro, falar, caramba, fulano faz isso. Eu não quero fazer isso, porque eu vou tomar cuidado para não.

Em termos práticos para você visualizar, é isso. E como que isso se procede no dia a dia das empresas? Uma vez que você faça diagnósticos com a empresa, identifique os principais motivos. Esses são os visíveis, que estão na superfície, mas existem os motivos que estão debaixo do tapete. E como que você faz emergir esses motivos que estão debaixo do tapete? Através de repertório. Jogos, exercícios, dinâmicas.

atividades que os líderes, uma vez capacitados, conseguem fazer com que os seus colaboradores identifiquem e coloquem para fora aqueles problemas.

Bom, dito tudo isso, os problemas na superfície, ali, transparentes, da maneira mais crua e nua, você consegue trabalhar. Qual é o grande desafio das organizações? É que como está todo mundo no teatro corporativo do eu sou, mumumu, eu sou mimimi, eu sou mumumu, me-me-me, mumumu, ti-ti-ti, tatatá, o que acontece? As pessoas escondem o que de fato...

às vezes transformam sintomas em causas, e não é, entendeu? Então, por exemplo, a fofoca. A fofoca é um efeito de quando você não tem espaço seguro para falar diretamente com as pessoas. Aí o que você faz? Você precisa desabafar, você conversa com o outro. Mas se ninguém...

Se quando alguém vem fazer uma fofoca determinada de outra pessoa, você não ouve, não recebe aquela fofoca, dificilmente essa fofoca vai se proliferar. Então, como é que a gente faz? Se você cria um ambiente que você pode chegar para a pessoa e falar meu amigo, olha só, isso aqui, porque não adianta nada eu falar de você se eu quiser que o outro mude. Então, se eu consigo falar diretamente com a pessoa que precisa sofrer essa transformação...

ou mudar determinada atitude, ou determinada postura, o nível de fofoca diminui. Então, assim, são coisas que são pequenas, que você vai dizer, ai, Abadinha, mas parece muito fácil. É, é.

Em termos teóricos é fácil. E por que não é fácil na prática? Porque a gente não usa determinados repertórios, porque a gente não pratica constantemente essa construção e aí você vai ter fatores externos. Ah, tem turnover. Então, depois que eu acabei de construir isso com a minha equipe, acabou saindo uma pessoa, entrando outra. Tem que construir de novo. Então, essa sensação de estar sempre fazendo isso, às vezes a pessoa fala, ah, não vou fazer isso não. E aí isso acaba complicando, porque a pessoa não tem um repertório.

Como é que eu vou extrair isso das pessoas? E aí é um humor intencional, quando você começa a ter essas ferramentas para você usar. Espero que eu tenha explicado aqui nessa definição. A gente vai para um rápido intervalo, mas a gente volta já já com a entrevista dessa semana. Não saiam daí. Mulheres Elétricas.

Estamos de volta com a entrevistada dessa semana e ela está contando um pouquinho da experiência dela. Vamos continuar com esse bate-papo. Abadia, eu ouvindo você, o simples não deveria ser complicado. A gente não deveria complicar o que é simples. Essa leveza do ser humano... E a gente falou isso no início da nossa entrevista.

Não é porque a gente é leve ou às vezes é engraçado, ou às vezes você é mais sincero, mais transparente, que você deixa de ser mais profissional, ou você é menos profissional, ou você é visto como uma pessoa mais frágil. Tem esses padrões que se repetem tanto, que a gente precisa quebrar esses paradigmas.

E você falou tão bem aí como que isso pode ser colocado na prática, porque eu acho, assim, essencial a gente poder tangibilizar esse trabalho, né, na prática. Agora, até para a gente poder caminhar aqui para o final do nosso bate-papo...

empresas que você já atuou dentro dessas técnicas, dessas ações que você implanta, tanto brasileiras quanto estrangeiras, que você mesmo fica em Portugal, e que tenham mostrado, e você tem observado os resultados, e as pessoas falam, poxa, realmente funciona.

Realmente, esse tipo de ambiente mais seguro, esse ambiente mais leve, mais fluido, talvez sincero, transparente, né? Ele funciona mesmo e tá aqui o resultado, tá aqui a prova disso.

Você vai falar um pouquinho sobre algum case que você teve aí dentro do seu percurso? Assim, antes de falar sobre as empresas, eu queria deixar claro que a promessa não é uma mudança no ambiente. Porque mudar o ambiente, entende que é um negócio muito fora do nosso controle? É a mesma coisa que eu dizer, olha, eu quero mudar o país, vamos mudar o Brasil?

Tá bom que as proporções são grandes, eu usei um exemplo bastante gigante, estou falando de um universo de 230 milhões de pessoas e não de uma empresa que é bem mais limitada. Mas eu quero dizer que a promessa é mudar quem a pessoa é dentro do ambiente.

Entendeu? Ou seja, dentro do ambiente, como é que essa pessoa pode encarar esses desafios de uma maneira mais leve, sabe? Porque o humor corporativo não é aquela ferramenta que vai transformar o gestor, não é o que vai fazer a Maria querer, entendeu? Não vai eliminar a Repone, que é a reunião de porra nenhuma, que é um dos maiores índices de reprovação e de problemas que gera retrabalho, recomunicação, gaps, etc.

Não é esse o objetivo, é fazer essa pessoa atravessar tudo isso sem perder a leveza, sem virar o que ela mesma odeia, sem deixar que o ambiente decida que essa pessoa é. Basicamente seria isso. Então, quando eu falo...

a questão das pessoas rirem e se identificarem muito com, não só com as palestras ou com os workshops, dá aquela sensação de leveza, mas na segunda-feira, no fim do dia, a pessoa quer chegar em casa menos destruída, a pessoa quer chegar em casa falando, bom, é apenas um trabalho, porque afinal de contas a nossa vida é muito mais do que um crachá e do que um trabalho.

E muitas pessoas não conseguem ainda ver isso. Então, se levam a sério demais, levam o trabalho a sério demais. E eu sempre digo, para ser produtivo não precisa ser chato. Você pode ser produtivo, você pode ser compromissado, você pode dar resultados e não precisa tornar da sua vida uma verdadeira...

Um verdadeiro problema, basicamente é isso. Então, só deixando claro que é por isso que o humor causa essa identificação e a transformação da pessoa. É audacioso demais eu querer que as pessoas mudem as empresas, mesmo considerando que as empresas são as pessoas. Isso é um ponto importante. Com relação às empresas, eu tenho focado muito no mercado europeu, fundamentalmente por viver lá.

embora a gente tenha uma equipe bem menor aqui no Brasil que pode atender, mas a gente tem casos de empresas de telecomunicação, a gente já fez trabalhos para todas as empresas de telecomunicações de celulares no Brasil. A TAP, que é uma empresa de... uma companhia aérea, a gente treinou os formadores, chama-se formação de formadores.

Quem dá as aulas na TAP recebeu treinamentos nossos para usar ferramentas de humor, de leveza, na transmissão de conteúdo. Na Claro, a gente trabalhou não só com palestra, mas também com workshops. Na Rocha, a gente trabalhou fundamentalmente com a equipe, trabalhando...

Temas sensíveis. Na light a gente fez muita atividade, principalmente voltada para a segurança. O que a gente gosta muito de dizer é que no final da história, a saúde emocional é individual e intransferível. A responsabilidade de você ser feliz, ser produtivo, ser completo, é de você com você mesmo. Só que muitas pessoas não têm as ferramentas.

E, obviamente, agora com esse advento da NR1, muitas pessoas confundem que a responsabilidade... Não, agora a empresa vai se responsabilizar. Se eu burnoutar, é responsabilidade da empresa. Sim, é responsabilidade da empresa manter um ambiente seguro, manter um ambiente o mais clean possível, para que as pessoas possam ali conversar sobre isso. Mas a felicidade, o bem-estar, a saúde mental, ela é individual.

basicamente as ferramentas que a empresa vai dar podem ajudar para que o próprio indivíduo possa identificar, falar, opa, peraí, estou com sinal de alerta nisso aqui. Esse olhar para os riscos psicossociais não é meramente, na minha opinião, um cumprimento de protocolo.

Porque se for olhar para isso nesse formato, a gente vai continuar com as pessoas doentes, só que as empresas mais pobres, porque vão pagar multas. Basicamente é isso, não resolve nada. A gente precisa aproveitar esse movimento, que é importante, e transformar ele numa coisa que seja útil para o dia a dia das pessoas que estão dentro das empresas.

Mas acho que o mais importante de tudo, se eu pudesse resumir, é essa missão do humor corporativo. Não é uma tarefa fácil, né, Amadia? Mas são desafios que estão presentes no nosso dia a dia. E a gente precisa também deixar um pouco essa ideia de que o mundo precisa resolver por nós. A gente também precisa estar em dia. Igual aquela velha história, a teoria da caneta de emagrecimento, né?

Ela ajuda, ela tem bons resultados dentro de um contexto onde você também faz uma parte, que é a sua parte. De uma boa alimentação, de exercícios contínuos e rotineiros. Então é um conjunto de coisas.

Eu acho que o ser humano hoje está vivendo um imediatismo, uma sensação de resolução, através da ingestão de uma pílula mágica. E a felicidade também cai nessa categoria de querer solucionar de uma forma fácil.

E se a gente não se melhorar como seres humanos e procurar esse avanço e essa ajuda pessoal, até mesmo para nós, a gente não consegue transformar o ambiente, porque o ambiente é feito de dentro para fora. E é uma retroalimentação contínua. Ele nos alimenta, mas nós alimentamos ele. Então, eu concordo com tudo que você falou.

Não é apenas uma solução, e sim um conjunto de ações que precisam muito da nossa responsabilidade e consciência como uma pessoa inserida nesse contexto. Mas, de qualquer forma, a gente está caminhando. Imagino que estamos indo na direção certa. Com alguns passos para trás, mas sempre andando para frente.

Abadinha, eu queria muito te agradecer por esse bate-papo super rico. Adorei saber sobre o seu trabalho. Bom, excelente estadia aqui no Brasil. Que você faça bom retorno. Queria agradecer também aqui os nossos ouvintes pela permanência, a companhia de hoje. Convidá-los a acompanhar a entrevista pelos tocadores. E convidá-los também a estarem conosco na semana que vem. Um beijo enorme e até lá.

Mulheres Elétricas.