A carta de Jair Bolsonaro aos brasileiros e os impactos políticos na candidatura de Flávio
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Saudoso do contato com o povo, ao qual devo lealdade, escrevo num momento de decisão para o futuro de todos nós. O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro.
Esse é Flávio Bolsonaro lendo um trecho de uma carta escrita à mão por seu pai, Jair Bolsonaro. Durante sua prisão domiciliar. Flávio recebeu essa carta após uma visita ao ex-presidente e, na sequência, anunciou que faria uma transmissão para compartilhar seu conteúdo. Marcou o dia, horário e local para leitura.
Meu pré-candidato, creio o seu também, meu porta-voz no qual confio para resgatar o Brasil e nos conduzir para a paz e a prosperidade. Um afetuoso abraço a todos, na certeza de que juntos tudo faremos pela nossa pátria. Deus, pátria, família e liberdade.
Na carta, Jair chama a pré-candidatura do filho de melhor opção e denomina Flávio como seu porta-voz. E ainda fala em deixar de lado possíveis diferenças. Um texto que chega em um momento conturbado na família Bolsonaro.
Seria melhor se ele não tivesse ligado. Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele. Eu falei diretamente com meu marido sobre cada um desses compromissos e ele me autorizou. Em matéria de política, eu faço somente o que eu e ele combinamos.
Mas também na campanha de Flávio.
Eu conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024. Não tinha mais governo Bolsonaro, não tinha absolutamente nenhuma acusação contra ele. Toda essa história que tá sendo veiculada agora nada mais é do que um filho procurando investidores privados para fazer um filme privado sobre a história do seu próprio pai.
A menos de 3 meses das eleições, a carta ferveu as redes sociais e não passou incólume pelo Supremo Tribunal Federal.
O ministro do Supremo Alexandre de Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai Jair Bolsonaro.
E quando concedeu essa prisão domiciliar, o ministro estabeleceu uma série de regras que Bolsonaro deve cumprir para seguir no regime de prisão domiciliar humanitária. E um desses pontos é a proibição de Bolsonaro se comunicar pelas redes sociais dele ou de terceiros.
Quero destacar aqui um trecho dessa decisão do ministro Alexandre de Moraes a respeito dessa suspeita de propaganda eleitoral antecipada. Ele diz o seguinte: ressalto ainda que a conduta de Flávio Bolsonaro como como instrumento de promoção política de sua pré-candidatura a presidente da República, com a divulgação de vídeo em rede social e utilização de expressões com carga semântica equivalente a pedido explícito de voto, pode configurar propaganda eleitoral antecipada em período vedado pela legislação, devendo ser apurada pelo Ministério Público Eleitoral.
Outro aspecto importante: a gente tá falando de uma medida cautelar que não deveria ser descumprida, e portanto o ministro pediu ali um prazo de 48 horas para que a defesa de Bolsonaro explique o fato dessa carta, portanto, ao Supremo.
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: a carta aos brasileiros de Jair Bolsonaro e os impactos políticos para a candidatura de Flávio. Neste episódio, eu converso com Rafael Moraes Moura, repórter da coluna da Malu Gaspar, no jornal O Globo. Quarta-feira, 15 de julho. Rafael, para toda audiência do assunto ficar na mesma página, por que a leitura da carta aos brasileiros de Jair Bolsonaro, feita pelo filho dele, o senador Flávio, no último sábado, foi considerada uma violação das regras da prisão do próprio pai?
Natuza, o ministro Alexandre de Moraes concluiu que houve um desvio de finalidade do direito de visita. Significa que, pelo menos na opinião do ministro, o Flávio Bolsonaro utilizou o direito de visita ao pai para obter, na verdade, um documento de cunho eleitoral e, com aval de Jair Bolsonaro, divulgá-lo nas redes sociais. Um documento que foi usado por Flávio Bolsonaro para reafirmar a candidatura dele à presidência no momento em que a pré-campanha dele tá abalada com dois focos de crise: a guerra com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro e as investigações do caso Banco Master.
Então assim, desde julho do ano passado, ou seja, quase um ano, Bolsonaro tá proibido por decisão do ministro Alexandre de Moraes de utilizar as redes sociais.
Na decisão que determinou a prisão domiciliar, Moraes afirmou que apenas advogados e pessoas autorizadas pelo Supremo podem visitar o ex-presidente e não podem usar celular, tirar fotos ou gravar imagens. Bolsonaro também está proibido de usar o celular dele e o de qualquer outra pessoa. Moraes também manteve a proibição de Bolsonaro manter contato com embaixadores e autoridades estrangeiras e de usar redes sociais. As dele e as de terceiros.
E o que que foi que o Flávio Bolsonaro fez após visitar o pai? Ele foi às redes sociais ler a carta em que o Jair Bolsonaro dizia que o Flávio era o seu porta-voz e conclamava a militância bolsonarista para se empenhar na candidatura do Flávio. Então, para o ministro Alexandre de Moraes, o objetivo da visita do Flávio foi exatamente esse: obter a carta para divulgá-la nas redes sociais. E por isso ele teria descumprido essa medida cautelar que, repito, tá em vigor há quase um ano.
E na própria decisão, Natuza, o ministro Alexandre de Moraes um trecho desse vídeo em que o senador Flávio Bolsonaro divulga a carta. O pré-candidato do PL à presidência diz, abre aspas, é imperdível, é um recado muito importante que ele quer. Que ele, no caso, é o Jair Bolsonaro. Então, na opinião do ministro Alexandre de Moraes, esse trecho mostra que o Jair Bolsonaro tinha dado aval e tinha plena ciência de que essa carta ia ser sim divulgada nas redes sociais.
E aí toda essa confusão toda traz duas implicações possíveis. Tanto no âmbito criminal quanto no âmbito eleitoral, para Flávio e para Jair Bolsonaro. No âmbito criminal, o temor é que Jair Bolsonaro perca a prisão domiciliar por conta da divulgação da carta. E para o Flávio, o risco é muito menor. É o risco de ser alvo de uma multa por propaganda eleitoral antecipada lá no TSE, que pode ficar entre R$5.000 e R$25.000. Para efeito de comparação, o PL pagou R$22,9 milhões em 2022 por ter pedido anulação do resultado das eleições de 2022 e ter levantado suspeitas infundadas sobre as urnas.
Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Alexandre de Moraes, negou o pedido, aquele pedido de verificação extraordinária do resultado do segundo turno das eleições apresentado pelo PL. O ministro ainda condenou a coligação da campanha de Bolsonaro a pagar uma multa de quase R$23 milhões de reais. Por quê? Por litigância de má-fé. Na prática, quando a justiça entende que foi acionada de forma irresponsável.
Ou seja, para quem já pagou R$22,9 milhões, R$25 mil por propaganda eleitoral antecipada não é nada. Mas me parece aqui que a maior condenação já foi imposta para o Flávio, que é a proibição de ver o pai até o primeiro turno das eleições, porque isso cria muitos entraves, né?
Eu conversava com uma das pessoas importantes ali da pré-campanha do senador Flávio, que dizia o seguinte: não ter contato com o Jair Bolsonaro nesse período, por 90 dias, até o primeiro turno da eleição, é um risco enorme. Primeiro porque é uma campanha eleitoral constituída por muitos percalços, e aí não ter a palavra de Jair Bolsonaro facilitada é ruim. Mas esse não é o único aspecto dessa história. Essa não é a única leitura política dessa história.
Que agora, Rafael, eu quero te indagar sobre um outro aspecto. Qual é a imagem que o bolsonarismo está vendendo a partir dessa decisão do ministro Alexandre de Moraes?
Pelo menos para o entorno bolsonarista, existe a leitura de que essa decisão do ministro Alexandre de Moraes vai reforçar o discurso de perseguição e de vitimização do clã Bolsonaro, aquela narrativa de que existe um Supremo parcial e autoritário que está contrariando os interesses do antigo clã presidencial. Até o integrante da cúpula do PL me disse depois da decisão do Alexandre de Moraes: se a equipe de marketing quisesse ter encomendado um fato político bom, não poderia ter encomendado um melhor.
E o presidente nacional do PL, o Valdemar Costa Neto, afirmou para gente no blog da Malu Gaspar uma leitura muito semelhante, dizendo que o Flávio pode até subir nas pesquisas porque, pelo menos perante os eleitores, ninguém gostaria de ver um filho ser proibido de visitar o pai. E a gente sabe que essa questão da pauta anti-Supremo, da pauta de impeachment de ministro do Supremo deve nortear um pouco do debate eleitoral, inclusive na questão da formação das bancadas do Senado.
Agora, eu queria lembrar também que essa não é a primeira vez, Natuza, que o Flávio Bolsonaro, digamos assim, coloca o pai em maus lençóis. Em agosto do ano passado, o senador colocou o ex-presidente Bolsonaro no viva-voz durante uma manifestação em Copacabana. E logo depois, justamente por descumprir as medidas cautelares de uso de redes sociais, ou seja, a mesma medida cautelar que a gente está falando agora, o ministro Alexandre de Moraes colocou Bolsonaro numa prisão domiciliar mesmo antes da conclusão do julgamento da trama golpista.
O ministro do STF, Alexandre de Moraes, decretou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro. Moraes considerou que as condutas de Bolsonaro desrespeitaram deliberadamente as decisões da corte. A decisão ocorre um dia depois de Flávio Bolsonaro ter ligado para o pai durante uma manifestação na praia de Copacabana. E com o telefone no viva-voz, o senador transmitiu mensagem de Bolsonaro ao vivo para os apoiadores e depois publicou em rede social.
E olha aqui a ironia do destino: o Flávio Bolsonaro, no ano passado, botou o pai em viva-voz e fez com que o Alexandre de Moraes o colocasse em prisão domiciliar. E agora, ao ler a carta, ele pode fazer o Moraes tirar o pai da prisão domiciliar e levá-lo, pelo menos em tese, de volta pra Papudinha.
Desculpa te interromper, antes de você passar para essa segunda etapa do teu raciocínio, teve um outro momento em que Flávio também prejudicou o pai. Depois que Alexandre de Moraes decretou a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, antes mesmo da condenação, ainda teve o episódio de Flávio Bolsonaro conclamando os bolsonaristas para uma vigília na frente do condomínio onde o pai estava em prisão domiciliar. E aquela conclamação foi entendida pela Polícia Federal e pelo próprio Alexandre de Moraes como uma tentativa de reedição dos atentados do 8 de janeiro.
E aí colocou Bolsonaro dentro da Polícia Federal, levou, tirou Bolsonaro da domiciliar, né? Depois ele até volta, mas naquele momento também houve esse prejuízo.
Agora, essa questão do risco papudinha que a gente tava falando é uma coisa incrível, que existe uma frente ampla nos bastidores de Brasília para o Bolsonaro continuar na prisão domiciliar, porque tudo que o governo do DF não quer, e até mesmo integrantes do governo Lula com quem eu conversei, integrantes do Supremo Tribunal Federal e da Procuradoria-Geral da República é que eles não querem mais tensionamento, acirramento de ânimos.
Avaliação é que seria melhor deixar o Bolsonaro esquecido, escanteado na prisão domiciliar, do que botá-lo no presídio comum, devolvê-lo para Papudinha, com risco dele eventualmente sofrer uma questão médica grave e aí sim virar o mártir que os bolsonaristas querem que ele seja. Então existe um cálculo político também por trás disso, em torno da questão de onde o Bolsonaro fica e se ele deve continuar ou não na prisão domiciliar.
Eu quero sondar a tua avaliação acerca de um argumento que tem sido usado pelos bolsonaristas. Eles dizem o seguinte, pelo próprio Flávio, Flávio também usou esse argumento, que o pai é tratado de uma maneira diferente da forma que o Lula foi tratado quando o Lula estava preso, porque ele escrevia cartas, ele recebia autorização para conceder entrevistas. Explica pra gente a diferença desses dois casos, por favor.
A diferença principal é que no caso de Jair Bolsonaro havia essa proibição expressa de utilizar as redes sociais, sejam dele mesmo ou de terceiros, enquanto que no caso do presidente Lula, no período em que ele ficou detido na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, não houve nenhuma decisão do então juiz federal Sérgio Moro restringindo a comunicação de Lula com o mundo exterior. Na época, avaliação do Moro é de que, por mais incômodas que fossem as declarações de Lula, seria ilegal impor essas restrições.
Agora, Natuza, para a gente entender por que que o Bolsonaro teve essa restrição e o Lula não, a gente precisa olhar para o ano passado, fazer uma curta cronologia para o nosso ouvinte e olhar para um outro filho do ex-presidente que também causa dor de cabeça para ele, que é o Eduardo Bolsonaro. Porque a medida cautelar contra Jair Bolsonaro que proibia o uso de redes sociais foi imposta pelo ministro Alexandre de Moraes em julho do ano passado, por conta daquela investigação de que o Eduardo Bolsonaro praticou coação no curso do processo para interferir na ação da trama golpista.
Lembra que o Eduardo ia para as redes sociais, fazia reuniões nos Estados Unidos tramando sanções e retaliações contra autoridades brasileiras para impedir a condenação do pai. E qual era uma das principais ferramentas do clã Bolsonaro nessa guerra de narrativas? As redes sociais. Então, em julho do ano passado, o ministro Alexandre de Moraes concluiu que havia uma estratégia de alcançar parcela do público, inclusive no exterior, para interferir e embaraçar o andamento da ação da trama golpista.
E ele alegou que o Bolsonaro pai e o Eduardo passaram a instigar os seguidores contra o Poder Judiciário, chamando o processo da trama golpista de aberração jurídica, falando em perseguição política e tuitando declarações inclusive do presidente americano Donald Trump que falava em caças-bruxas. Então é por conta desse comportamento beligerante nas redes sociais que o ministro Alexandre de Moraes deu essa medida cautelar impondo o uso das redes sociais.
Então no caso do presidente Lula, ele foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mas não houve esses elementos de usar as redes sociais para tramar sanções contra autoridades e atacar o processo e a soberania do Poder Judiciário. Foram esses elementos que o Alexandre de Moraes viu no caso do Bolsonaro e que Sérgio Moro não viu no caso do presidente Lula.
E tem ainda o episódio da tornozeleira, né? Porque quando Bolsonaro, em prisão domiciliar, rompe a tornozeleira eletrônica, ele tá descumprindo uma medida cautelar. Lula teve a sua prisão decretada e foi lá cumprir a sua pena. Bolsonaro teve a sua prisão decretada e, no meio da história, o departamento da polícia recebeu um alerta de rompimento da tornozeleira eletrônica, né? Em outras palavras, aquele preso não mereceu a confiança de que ele estava cumprindo corretamente a decisão da justiça. Faz sentido isso?
Exatamente. No caso, Alexandre de Moraes lembra na decisão que o Bolsonaro é reincidente no descumprimento de medidas cautelares. E também, Natuza, vale a pena a gente lembrar para o nosso ouvinte que nas eleições de 2018, o presidente Lula foi proibido de dar entrevistas no segundo turno das eleições. Houve uma decisão, aí nesse caso não foi do Sérgio Moro, uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, que proibiu Lula de dar entrevistas.
Também outra diferenciação entre os dois casos. Sobre a alegação de que iria tumultuar as eleições, foi um pedido do Partido Novo ajuizado para o presidente do Supremo, Fux, na época.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Rafael Moraes Moura. Agora, Rafael, sobre a decisão que levou o Flávio a ler a carta, há quem veja nesse movimento uma tentativa de desviar o foco do Judiciário. Para a gente recapitular aqui, Flávio Bolsonaro vem vindo de um período difícil politicamente, né? Primeiro, o próprio, a iminência do próprio tarifaço e o resquício do tarifaço anterior, porque caiu na conta da família Bolsonaro.
Depois veio a história mal contada até hoje do financiamento do filme Dark Horse. Isso deixa Flávio Bolsonaro numa situação em que ele tem que ficar se explicando o tempo inteiro. E por último veio o fatídico vídeo da Michele Bolsonaro, que ganhou ampla notoriedade, mais até do que o vídeo da carta, né? Eu via durante um pouquinho antes da nossa gravação o Otávio Guedes na GloboNews fazendo a comparação, né, entre as interações do vídeo da Michelle, em que ela faz uma série de críticas ao Flávio, e as interações ao vídeo, com o vídeo do Flávio.
As da Michelle foram muito maiores. E aí vem essa história da carta para o Flávio dizer: olha, quem fala pelo Jair Bolsonaro sou eu, Flávio. Umas de quem diz não é a Michelle. Então queria entender o episódio, ou pelo menos o fator Michele nessa história da carta.
Eu particularmente vejo o episódio da carta como uma tentativa do Flávio de tentar afastar o fantasma da madrasta e se reafirmar como herdeiro do espólio do pai. Convenção do PL é no dia 25 de julho, ou seja, daqui a menos de 2 semanas. Flávio não tem vice ainda. A guerra com Michele é mais um entrave para o senador angariar o apoio do eleitorado feminino, justamente onde ele enfrenta mais rejeição, considerando a divisão do eleitorado por gênero, né?
Lula é mais forte entre mulheres e Flávia é mais forte entre homens. Então, na minha opinião, ele tentou buscar apagar o incêndio dentro da família, mas ele acabou criando outro, que é irritar o Alexandre de Moraes e colocar sob ameaça a própria prisão domiciliar do pai. Agora, Natuda, se você me permite, eu gosto muito de uma série que se chama Guerra dos Tronos, que tem tudo a ver com o que a gente tá vendo, intrigas familiares, disputas de reinos.
E um dos personagens diz que qualquer homem que precise dizer eu sou o não é o rei de verdade, fecha aspas. Então o Flávio ficar reafirmando o tempo todo que ele é o candidato, para mim pode produzir um outro efeito, que é o de levantar questionamentos de que até que ponto a candidatura dele é para valer e se realmente é viável e competitiva.
Eu acho que abre até uma outra possibilidade de interpretação para além da sua, que é a seguinte, e eu não sei se essa possibilidade que eu vou dizer agora é necessariamente ruim para Flávio junto aos seus eleitores mais que é a seguinte: se eu for eleito, quem vai mandar é meu pai. O próprio Valdemar Costa Neto diz que no dia seguinte da eleição do Flávio é o Bolsonaro voltar a despachar no PL. Mas eu acho que o Flávio não se incomoda com essa ideia de que o pai seria o verdadeiro presidente, o presidente de fato, né?
Embora Flávio, se ganhasse a eleição, fosse, seria o presidente de direito. Então acho que tem esse aspecto também, que eu não sei se é ruim para o Flávio no momento em que ele rivaliza com a madrasta na própria base bolsonarista. Bolsonarista, né? Agora eu queria entrar contigo num outro ponto. Eu conversei com algumas pessoas do núcleo bolsonarista para avaliar o paradoxo da carta lida por Flávio, né? Porque o primeiro efeito colateral foi esse, de colocar em risco o status da prisão do próprio pai.
O segundo efeito colateral, e esse potencialmente negativo para É que se o Eduardo Bolsonaro não pode falar com o pai, porque já teve decisão do Alexandre de Moraes proibindo, em razão do que você explicou ali da tentativa de influenciar no julgamento da trama golpista. Então, se hoje Bolsonaro não pode falar com o Eduardo Bolsonaro, se ele não pode falar com Flávio Bolsonaro, dos filhos que estão na política e que tem alguma influência nacional, ele só poderia falar com o Carlos.
Mas Carlos é considerado um personagem muito complexo, muito difícil, e em que políticos têm muito pouco acesso a ele, e que aí a interlocutora privilegiada na família seria a própria Michele. E aí eu fui consultar um importante integrante da cúpula bolsonarista que disse o seguinte: Natuza, à primeira vista pode até parecer que Michele se beneficia disso por ser ela a única interlocutora, já que os canais de comunicação com Flávio diretos, esses canais diretos ficam interrompidos.
Só que o Bolsonaro já disse na carta que é ele. Então, se o Flávio fala, se o Flávio toma decisões sobre de palanques estaduais, o Flávio tá falando por Bolsonaro. Se a Michele aparecer e falar novamente, ela estará falando apesar de Bolsonaro. Então, que a própria carta já teria um fim em si mesma de dizer o seguinte: o interlocutor é o Flávio e ponto final. Mas aí tem uma outra leitura também, que é a seguinte: esse mesmo importante bolsonarista disse assim na Tuzão: uma campanha eleitoral tem muitos percalços.
Muitos. O fato de não ter um contato direto com o próprio pai pode induzir o Flávio a erro nesses percalços, né? O que que ele tem que fazer com a campanha? Que rota ele tem que assumir? Que desvio ele tem que fazer? E que há esse aspecto negativo desse distanciamento maior com o próprio mentor intelectual da candidatura do Flávio.
Ainda tem um outro personagem que também tá proibido de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que é o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Que naquele processo da trama golpista foi reaberta a investigação contra ele. Então ele ainda é formalmente investigado e, por conta desse episódio, não pode se encontrar pessoalmente com Jair Bolsonaro. Então é uma série de fatores que trazem uma série de complicações para a campanha do Flávio.
Falando com integrantes do núcleo duro da campanha do senador, avaliação de que a decisão do Alexandre proporcionou realmente a Michele Bolsonaro uma espécie de acesso desproporcional e privilegiado ao E é importante acrescentar, Rafael, que não é só parte dos filhos de Bolsonaro que não pode ter acesso a ele.
O próprio Alexandre de Moraes restringiu bastante outros visitantes para além da família, dos advogados e dos médicos. Então fica difícil esse contato até por meio de terceiros.
E lembrando que a Michele é responsável pelos cuidados médicos do Jair Bolsonaro, cuida dele de 6 da manhã até meia-noite, dá os medicamentos ao longo do dia. E aí, como contornar isso que eu perguntei, né, para esse integrante do núcleo duro da campanha do Flávio? A aposta deles é nos advogados da campanha, no Paulo Amador Bueno, no Celso Villardi.
Inclusive, a produção do assunto entrou em contato com todos os advogados de Jair Bolsonaro, mas não obteve resposta até o fechamento deste episódio.
Sobre os outros filhos, eles acham que Carlos Bolsonaro e Jair Renan também eventualmente poderiam servir como interlocutores para neutralizar a influência da madrasta. A gente sabe que Carlos é o filho com quem a Michele talvez tenha a relação mais terrível possível, se detestam. É uma relação marcada por ressentimento, desconfiança. E até um outro integrante da campanha do Flávio falou para mim, não é uma reunião de um dia que vai resolver uma relação de rancor de 20 anos.
Então eles se detestam, mas assim, avaliação é de que, como o Carlos ele tá ocupado com a campanha ao Senado por Santa Catarina, que é uma campanha bem disputada, né, e o Jair Renan que também vai estar disputando uma vaga na Câmara dos Deputados, e como tem os advogados, eles poderiam ser usados para neutralizar a influência da Michelle e eventualmente acabar com qualquer tentativa de ruído ou de novos atritos. Então tem filhos visitando ainda Jair Bolsonaro, ainda que menor intensidade que o Flávio, e eles poderiam nesse cenário também desautorizar qualquer fala da Michelle que fuja ali do esquadro.
Eu queria aproveitar a tua presença aqui para também avaliar o impacto político da decisão do Alexandre de Moraes para além dos que a gente já tratou aqui. Um bolsonarista de proa, digamos assim, disse o seguinte na um influenciador bem raivoso do bolsonarismo não replicava uma fala minha há 15 dias. Eu tô apanhando dele faz 15 dias. E depois de 15 dias apanhando dele, porque eles se matam, né, eles vão se fustigando uns aos outros.
E aí esse influenciador raivoso, ele reproduziu uma fala minha hoje criticando Alexandre de Moraes de perseguir o Bolsonaro, mas também o Flávio Bolsonaro. O próprio Nicolas, que tava distante, já se posicionou contra a decisão de Alexandre de Moraes. Então, segundo o olhar desse bolsonarista da campanha de Flávio, essa decisão do Alexandre uniu uma parte que tava bem distante, senão brigando. Você concorda com essa avaliação?
Eu concordo. Tem até gente no entorno do Flávio Bolsonaro que tá chamando o ministro Alexandre de Moraes de camisa 10 da campanha, porque justamente o Alexandre de Moraes é o inimigo em comum desse campo da direita, esse campo mais raivoso da direita, direita e que aglutina justamente por conta dessa, dessa série de medidas que ele vem tomando. Ele foi relator da ação penal da trama golpista, do inquérito das milícias digitais, o inquérito das fake news que nunca acabou.
Então ele foi o relator das principais ações que fecharam o cerco e virou uma espécie de inimigo público número 1 do bolsonarismo. Então talvez o ódio ao Alexandre de Moraes seja o que acaba unindo mais até esses aliados do Flávio Bolsonaro. E, Natuza, eu queria chamar atenção para uma outra coisa, se você me permite. Ano que vem, se Flávio for eleito presidente da República, Um outro dado certo é de que teremos Alexandre de Moraes como presidente do Supremo.
Então os dois podem ser chefes de poderes a partir do ano que vem e ter que conviver. Esse é outro ingrediente a mais para essa combustão política, essa relação de ódio que opõe bolsonaristas e o ministro.
Pois é, fica tudo a cargo desse roteirista imaginário chamado o roteirista do filme brasileiro, né, que não deve nada para Guerra dos Tronos, não deve nada para Guerra dos Tronos, para o Game of Thrones. Rafael, muito obrigada por topar conversar com a gente e nos iluminar aqui com muitas informações importantes para compor esse mosaico.
Obrigado pelo convite. Queria convidar os ouvintes para acompanharem a coluna da Malu no site do Globo. Obrigado.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.