Brasil no divã: como as eleições e a Copa mobilizam os sentimentos no país
- Mídia e representatividadePolarização afetiva · Representatividade no Congresso · Misoginia e racismo · Corrupção
- Copa do Mundo e Seleção BrasileiraComplexo de vira-lata · Arrogância brasileira · Identidade colonial · Copa do Mundo
- Violência fundadora e territórioViolência contra a natureza · Questões ecológicas · História de violência
Há poucos momentos em que um país inteiro parece compartilhar o mesmo sentimento. A nossa trajetória na Copa do Mundo, por exemplo, foi um deles.
Nação é um conceito que a gente repete para caramba.
A gente é nacionalista, o Brasil precisa ser mais nacionalista, a gente faz parte da nação brasileira. E nação nada mais é do que um grupo de pessoas que acreditam porque tem mais ou menos a mesma história, fazem parte de uma mesma comunidade, Mas há outros momentos que parecem fazer o oposto, nos dividir.
E um deles está por vir: as eleições.
Na democracia é onde mora a tolerância. Da janela dá para ver os diferentes convivendo entre si, porque na democracia se pretende que todos sejam iguais. Na frente da urna, cada voto conta.
Importante vir votar, né? Um voto faz a diferença.
Os conflitos, né, de ideia Os partidos que as pessoas tomam, né? Mas é isso, faz parte. Não vou mentir, eu tava ansioso pra, pra pivotar.
Tava mais ansioso do que o jogo ontem do meu time, que ganhou, graças a Deus.
São ocasiões em que a conversa muda, o humor oscila, as redes sociais fervem. Esperança, medo, orgulho, frustração, raiva, muita raiva. Sentimentos que ao mesmo tempo tomam conta de milhões de brasileiras e brasileiros. Mas o que será que essas emoções dizem sobre nós?
E cada um celebra do seu jeito: calmaria, euforia, apreensão, tristeza e alegria. Na capital do país, elas foram tomadas pela tristeza de quem perdeu e pela festa de quem ganhou, porque na democracia ganhar e perder faz parte.
O que essas emoções revelam sobre um país tão diverso, tão desigual e tão polarizado? E se esse gigante decidisse passar por uma sessão de análise? Que angústias levaria para a primeira sessão? Que padrões continuaria repetindo? E o que esse Brasil descobriria sobre si mesmo?
Quem nasce aqui hoje é quase sempre uma mistura grande de ancestralidades, mesmo que a gente não saiba sempre explicar exatamente quais. A escravidão é um remorso que nós carregamos todos.
Humanidade inteira.
O primeiro achado é um retrato geral. Geneticamente, o Brasil tem 60% de ancestralidade europeia, 27% de africana e 13% de indígena. Uma herança dos povos nativos maior do que se imaginava. Mas a miscigenação de hoje não começou de forma bonita. No Brasil, 71% da herança genética masculina veio de europeus e 77% da herança genética feminina veio de africanas ou indígenas, o que a outra líder da pesquisa classifica como uma violência histórica marcada no nosso DNA.
Quais os mecanismos de defesa que ainda nos impedem de olhar para dentro, para dentro da nossa sociedade? E principalmente, existem sinais de que esse analisante chamado Brasil pode enfim mudar? Pode melhorar? Da redação do G1, eu sou Nátuzaneri e o assunto hoje é: O Brasil no divã, como as eleições e a Copa mobilizam os sentimentos no país. Neste episódio, eu converso com Vera Iaconelli, psicanalista, doutora em psicologia pela USP, diretora do Instituto Gerard de Psicanálise e escritora.
Segunda-feira, 13 de julho. Vera, nos seus textos das suas colunas, você vem propondo que o Brasil precisa ir para o divã, basicamente sair de uma postura de bebezão, assumir a sua responsabilidade pelo próprio sofrimento. Então queria entender que ideia é essa, a do Brasil bebezão e a do mesmo Brasil que precisa ir para o divã.
A gente tem sempre um mito de origem, né, uma história de fundação da nossa família, né, da nossa origem, de quem somos. A gente precisa disso. Mas ela tende a ser carregada nas tintas às vezes para esconder as coisas ruins ou enaltece demais as coisas boas, né? E sem essa revisão de quem fomos e de onde viemos, fica difícil a gente saber por que que a gente sofre hoje. E eu acho que o Brasil, ele é, ele padece muito dessa dificuldade de rever a própria história porque ela é muito sofrida.
E isso faz com que a gente fique Marcando passo em sofrimentos que a gente não reconhece de onde vem, como se eles fossem externos a nós, acontecimentos que surgem do nada. E aí a chance da gente tratar alguma coisa fica praticamente impossível, né?
E aí eu acho que vale a pena você explicar o que acontece quando alguém vai para um analista, né? Por que que ela precisa saber a origem do seu próprio sofrimento?
A primeira coisa é que a gente vai para o analista porque a gente sofre, né? Essa ideia de que eu vou para o analista porque eu quero me conhecer a fundo perdido, ai, que legal. Não é, não é verdade, porque é dispendioso, não só financeiramente como o teu tempo. Olhar para si não é fácil, né? Então a gente vai porque sofre, mas não sabe exatamente por que sofre. Você até reconhece o teu sofrimento, mas não sabe de onde ele vem.
Porque o analista significa que você tá procurando alguém que vai te ajudar a pensar qual é a tua parte nesse sofrimento, né? Senão você iria num advogado, você iria num professor, seria num pastor. Tem uma outra, tem uma outra conotação. Quando você acha que você precisa se escutar, significa que eu tenho que entender qual é a minha parte no sofrimento do qual me queixo, que é uma frase muito freudiana, né? Então a pessoa tá sofrendo, ela acha que ela pode entender esse sofrimento a partir de um outro lugar, e esse lugar é me ver diante das circunstâncias da minha vida e quais foram as soluções que eu encontrei para essas circunstâncias, e o que que eu poderia fazer ou deixar de ter feito, né?
No passado é mais difícil, mas o que que eu posso vir a fazer a partir dessa reflexão. Então essa é a condição que a gente tem para parar de repetir o próprio sofrimento, porque você fala assim, ah, fui casado com um homem horrível, tá, mas quantas vezes, né? Você casou com aquele, você separou, você arranjou um outro homem horrível, você separou, você arranjou um outro homem horrível, né? Você tá sempre em trabalhos horríveis, você não tem amigos, tem alguma coisa que você repete mesmo quando as circunstâncias mudam, e é isso que uma análise pode te ajudar. O Brasil não é diferente disso não.
Esse analisante chamado Brasil, ele precisa se implicar. É isso que você tá dizendo quando diz que ele precisa ir para o divã?
É perfeito, Natuza, porque a ideia é a seguinte: então você se implicar é você tomar uma posição ética de responsabilização, não sobre tudo que te aconteceu, mas sobre o que você fez com o que te aconteceu. Porque nunca vai existir uma vida livre de sofrimentos e percalços e desafios e dificuldades, né? Tá vivo já é saber que se vai morrer, então a gente tem essa relação diferente dos outros animais com a própria existência, mas o que que a gente faz com isso?
E o Brasil tá exatamente nesse lugar. Bom, a gente tem uma história, é uma história que a gente talvez não tenha escolhido a princípio, de invasão do território dos povos originários que estavam aqui e depois essa invasão ultraviolenta, uma miscigenação forçada, escravização dos povos africanos que também chegam aqui numa condição terrível e que também sofrem dessa violência, dessa miscigenação forçada. A gente é resultado disso daí, cada um, né, quem tem uma ascendência indígena, quem tem uma ascendência negra, quem tem uma ascendência branca, está se havendo com as consequências desse ato.
Isso a gente sabe que é a nossa história. Bom, mas o que que dessa história a gente hoje reproduz, por ação ou por omissão? O que que dessa história, quando a gente pensa no abismo social, né, nas diferenças, nas injustiças, em grupos ultraricos, pessoas pobres que não têm acesso a O que que a gente vive hoje, que a gente se queixa tanto da insegurança nas ruas, que tem a ver com aquilo da nossa história que a gente nunca olhou, mas continua a repetir? As repetições no Brasil são evidentes, mas é doloroso olhar para trás.
Trazendo para o nosso presente, o que eu tô entendendo que você tá nos dizendo é o seguinte: a sociedade toda se implicar nessa desigualdade abissal que existe no Brasil, a sociedade toda, inclusive elite, inclusive pessoas brancas, se implicarem. O racismo racismo que está presente, né, em todas as pessoas não pretas, por exemplo, e por aí vai. É isso que você tá querendo dizer?
Exatamente isso. Então, quando você se implica, tem assim fases do luto, vamos dizer assim, que é quando você começa a ver a tua parte nessa história. Então, eu como uma mulher branca que me acho, tenho uma autoimagem, nós todos temos uma autoimagem, nós defendemos essa autoimagem com unhas e dentes, porque é muito doloroso reconhecer em si coisas que você não que não compõem com essa autoimagem. Então, eu me reconhecer racista, eu me reconhecer classista, tudo aquilo que a gente reputa como uma coisa que a gente não deveria ter, é muito duro para mim.
Então, tem um processo no qual você fala, nossa, mas eu sou herdeira de uma certa condição como mulher branca, que, por exemplo, se eu passar pela polícia, eu não me sinto ameaçada, eu me sinto protegida. Mas se eu fosse um rapaz negro periférico, provavelmente eu me sentiria ameaçada. Então, meu próprio corpo no espaço social, ele tem um privilégio de ir e vir que outras pessoas não têm. Quando você percebe isso, é doloroso, porque eu gostaria de acreditar que eu não compactuo, que eu não participo do racismo, mas eu participo.
Então tem um momento em que você tem que reconhecer isso, e não é fácil. Cada um de nós, quando vai reconhecendo a sua parte nessa encenação do que é o Brasil hoje, das relações sociais, vai sofrer de olhar para isso. Mas é um sofrimento que também tá reconhecido na psicanálise como um sofrimento de uma implicação com o que nos faz sofrer, e em busca de uma liberdade. Porque na hora que eu começo a ter coragem de encarar isso daí, eu vou me sentir menos paranoica, porque é claro, se eu tô fingindo para mim mesmo que eu não tenho nada a ver com isso, imagina, não escravizei ninguém, eu não tenho nada a ver com as mazelas do Brasil, eu me safo um tanto.
Mas tem um outro lado meu que fala, nossa, eu sei que eu tenho parte nessa história. E isso vem como uma paranoia, né? Tenho medo que isso do qual eu participo uma hora se volte contra mim. É um mecanismo complexo, né, no qual o que liberta é poder ver, mas este ver não é sem sofrimento. E todo mundo tem uma parte sim nesse sofrimento, inclusive as na medida em que elas reconhecem que elas se identificaram com o agressor, né? Eu acho que tem várias coisas para a gente ver aí, mas todas caminham para um desfecho de libertação, mas não sem pagar o preço de você reconhecer que você não é exatamente aquilo que você imaginava ser, né?
E nesse ano, talvez a gente fale de um ano em que há duas oportunidades de nos olharmos no espelho de uma forma diferente, de ter que conviver com as nossas próprias fragilidades, né? Então a gente tá no meio de uma Copa do Mundo, em que todos nós nos frustramos porque fomos eliminados. E a gente tem eleições gerais pra Presidência da República, pra governadores, pra senadores, deputados e por aí vai. Na véspera da Copa de 58, foi a primeira vez que o Brasil se consagrou campeão.
E naquele ano, Nelson Rodrigues cunhou a expressão complexo de vira-lata, né? Uma espécie de subserviência brasileira diante do mundo. E durante essa Copa, um jornalista britânico, o nome dele é Tim Vickery, ele mora no Brasil faz 30 anos e ele deu uma entrevista em que ele comenta que há uma arrogância brasileira no futebol. E se o futebol é o espelho, talvez exista algo de arrogância, né, em nós da mesma forma. Mas aí parece haver um paradoxo, né?
Ou a gente é vira-lata ou a gente é arrogante. Explica pra gente, do ponto de vista da análise, o que que a gente é de verdade, se é uma coisa ou se é outra, ou se é possível ser as duas em circunstâncias diferentes.
É super possível ser as duas, Natuza, porque arrogância é a compensação de uma sensação de inferioridade. É só a gente pensar no dia a dia, as pessoas arrogantes, no fim, elas são muito frágeis, né? As pessoas que são cônscias de si mesmos, na medida em que dá para a gente saber de si, elas não têm por que ficar se arrogando a nada sobre o outro, né? Elas não têm por que impor a sua posição. Então, a gente é arrogante justamente na medida em que, no fundo, no fundo, a gente se sente vira-lata, né?
E isso tem a ver com o fato de que a projeção que a gente faz do que seria de valor continua sendo, pela nossa história colonial, a matriz e não a colônia, né? A gente continua se espelhando: eles é que têm, a Europa é que é legal, né? O norte global é que é legal. Quem somos nós? Nós somos pobres colonizados. Isso, esse é o problema da identidade brasileira, né? E ao invés de reconhecer que é um povo que sobreviveu e vive e se constrói apesar de tudo que sofreu, e que ainda permanece um povo alegre, criativo, que produz uma arte lindíssima, que tem pessoas de extremo valor aqui nesse país, né, que tem as pessoas que batalham para sobreviver todo dia.
Ao invés da gente se preencher com a nossa história, a gente finge que não tem nada a ver com isso e que legal mesmo é morar em Miami, legal mesmo é falar línguas estrangeiras, que legal mesmo. Claro que não! Legal mesmo é aqui, para nós que nascemos aqui, temos uma história com a qual a gente se identifica. Então a Copa é esse lugar duplo onde eu sou reconhecida fora como uma identidade, brasileiro joga bem futebol, e ao mesmo tempo eu pertenço ao grupo dos brasileiros.
Eu me sinto, eu sei que tem na casa do lado aqui, as pessoas estão torcendo na frente da televisão, eu sei que o vizinho de cima pintou uma bandeira do Brasil na rua, que eu participo de alguma coisa. Então a Copa é um lugar muito especial para nós em vários sentidos. E quando a gente perde, ela remete a gente para essa sensação de, ah, mas é porque a gente é sul global, é porque a gente talvez não seja tão branco quanto os europeus, é porque— e a gente vai voltando para uma situação que a gente nunca resolveu direito sobre a nossa origem, né?
Que a gente volta para a primeira pergunta, para tua resposta à primeira pergunta, né?
Exatamente assim, eu acho que a gente vai, vai se desconhecendo e se identificando de novo com violências que são as violências que nos formaram, que disseram: olha, isso aqui não é um país para você existir, esse é um país para a gente extrair tudo que tiver dele e levar para o exterior. O melhor café vai para fora, a música, a melhor música tem que se apresentar fora porque aqui a gente não consome tanto quanto deveria. Então os jogadores, melhores jogadores vão para fora.
Então isso é pura cultura extrativista do começo da nossa formação. O Brasil não foi criado para se tornar um país para se viver, era para se extrair coisas daqui. E a gente continua nessa lógica, né? Então, e aí a gente vai para a segunda questão que você traz, que, bom, e a eleição? A eleição, ela é muito linda de se estudar, embora seja sofrida de se viver, porque nós vamos escolher os nossos representantes. Quem nos representa, Natu? Qual que é a cara do Brasil?
Desculpa te interromper, Vera, mas esse é um ponto que eu bato constantemente, né? Eu vou, morei em Brasília 16 10 anos, eu cubro política há muito tempo, o Congresso Nacional não tem cara de Brasil.
Perfil médio do parlamentar lá da Câmara eleito é homem branco, casado, com ensino superior e com 49 anos, né? Agora, quando a gente olha mais a fundo, encontra aí as tendências de mudança, né? O que tem em 2022 e não tinha lá em 2018. Número de mulheres eleitas: Olha só, subiu de 77 em 2018 para quase 100 agora em 2022. Esse é o grande paradoxo da gente. Embora a gente não tenha nessas instâncias de poder a representatividade do povo, do cidadão, por um outro lado, esses sujeitos, eles representam uma certa ideia que o brasileiro tem do Brasil.
Quer dizer, então, muitas vezes mulheres elegem homens misóginos, por exemplo, né? Ou pessoas negras elegem pessoas brancas sabidamente que não têm nada em comum com a sua existência, né? Porque em algum lugar o brasileiro leva um susto a cada 4 anos, cada 2, ele vai mudando os seus representantes, né? Porque ele vê ali espelhado também o ar conservador que nos representa, né? A misoginia que nos representa, o racismo que nos representa, porque por conta a gente não olhar a nossa própria história, a gente segue reproduzindo nesses nossos representantes a nossa fantasia de quem somos.
Então, Natuza, tem uma coisa muito assustadora que a gente percebe, por exemplo, quase uma aceitação da roubalheira, porque é como dissesse assim: não, o candidato que é muito honesto e que não enriqueceu como político, aí ele deve ser um cara meio trouxa, né? O outro, por mais que eu condene a corrupção, de algum jeito eu digo assim, ah, mas puxa, talvez se eu estivesse no lugar dele também fizesse isso, sabe? Tem uma ideia de que a elite tem que se— tem que extrair tudo do Brasil e não trazer de volta.
Essa é a ideia colonial, né? Então você vê como repete, reproduz de novo um modelo no qual o nosso representante, um dia a gente acorda e foi eleita uma pessoa e a gente leva um susto falando, não é possível que esse cara represente o Brasil. É possível sim, porque é assim também que o brasileiro se enxerga, como alguém que não se leva a sério, como alguém que não se acha digno de valor, como alguém que tá aí para ser explorado.
Então a gente vai ter que olhar para isso com bastante cuidado, para o brasileiro, para as mulheres, para os negros entenderem quem somos. Senão a gente só vai encontrar essas figuras autoritárias, figuras violentas, que também quem, paradoxalmente, nos representam. Esse é o susto que a gente tem a cada eleição.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Vera. Agora, a gente chega nessas eleições de outubro muito dividido, né? A gente vive a chamada polarização afetiva, que é a polarização que não basta você discordar da identidade ideológica do outro. Você o odeia por isso, você o renega por isso, né? Então tem o elemento ódio intrínseco a essa polarização. E ao contrário da Copa, em que todos os brasileiros e brasileiras estavam torcendo para um time só, se a eleição fosse a Copa do Mundo, a gente diria que a seleção brasileira teria metade da população querendo que a seleção se estrepasse e a outra metade querendo que O que que explica isso para além dos efeitos contemporâneos, redes sociais, ascensão de grupos políticos de extrema-direita?
Qual é a hipótese de uma analista consagrada como você para esse mal-estar no Brasil?
A gente é tomado por paixões e elas nos mobilizam muito mais do que a paz, a tranquilidade e o bem-estar. Inclusive, quando você tá diante de um desafio, de uma grande questão, com raiva, tendo que enfrentar um desafio, você se organiza, você se põe em ordem para enfrentar aquilo lá, e aquilo é organizador, né? Nós contra a rapa, vamos dizer assim. Quando você tá numa situação de paz e tranquilidade, as bordas ficam mais fluidas, você relaxa, você fica mais à mercê de riscos.
Então você não tá preparado para, você não tá organizado para enfrentar as coisas, né? Então essas, as raivas, né, os ódios, os apaixonamentos brutais, eles nos organizam, nos colocam em ação E eles são extremamente manipulados, sempre foram, né, por lideranças. Só que agora a gente vive essa polarização monetizada, né, porque a gente tem as redes sociais que transformaram isso em dinheiro, né. Quer dizer, então você sabe, né, a gente tá bem mais alerta, mais consciente disso, como as redes que eu chamo de redes antissociais, porque elas não criam sociedade, que elas, né, atrapalham bastante, elas vão manipulando, vão fazendo com que as pessoas recebam cada vez mais essas informações que mexem com os afetos, que mexem com a nossa libido.
Então isso no campo político, isso é terrível, né? Tem uma nota de corte aí entre o tempo em que a gente tinha eleições com partidos diferentes, esquerda, direita, existia centro, né? Hoje quem que é o centro? A gente quase não tem mais Porque foi polarizando e foi monetizando e foi sendo explorado. E enquanto a gente não parar tudo e dar uma olhada nessa regulamentação das redes antissociais, que são redes de propaganda e de monetização, quando a gente não olhar esse plano de negócio, a gente vai continuar reclamando que a coisa ficou insustentável.
Ficou insustentável porque as paixões humanas estão sendo manipuladas e usadas usadas para fins que não são de conciliação social, não tem nenhuma intenção de se haver com o bem comum, são só lucros de poucos pensando em si mesmos e não pensando em absoluto na humanidade. Então isso a gente vai ter que encarar de frente, eu não acho que isso seja uma coisa extra, um ponto fora da curva no sentido de, ah, então a gente sempre foi assim.
Não, a gente sempre foi assim, só que tem algo aí que vai ter que ser mexido porque é central.
Você no começo da nossa conversa falou que o marco fundador da sociedade brasileira é a violência, né? O patriarca branco que violenta a mulher indígena, que escraviza os povos africanos, pessoas negras que seguem sendo violentadas. Enfim, você falou bastante sobre isso e que também há uma resistência muito grande de se admitir essa história de violência. Portanto, essa história não ficou no passado e você já escreveu inclusive que ela está sentada conosco busco a mesa de jantar.
Pois bem, se o Brasil fosse então para o divã, como você propõe, você diria que é possível a gente transformar tudo isso em algo que nos coloque num novo lugar? Assim, é possível mexer nisso? E como isso poderia ser feito?
Eu queria só acrescentar uma quarta coisa, né, entre o gênero, a classe, a raça, que é o território, né, Natuza? A violência também também sobre a natureza, né? Então, o que a gente tá arrastando desde então com as questões ecológicas. Então, território também foi sempre tratado com absoluta violência, né? Ah, é possível sim, Natuza. Quer dizer, eu dediquei não só, mas vários colegas meus, a gente dedica a nossa vida, experiência na qual o sujeito vem com uma questão inconsciente, ele tem a ética, é uma posição de tentar olhar para isso, ele enfrenta esse sofrimento de poder se reconhecer e algo se torna mais libertador na vida deles, não seria só um exercício de sofrimento, de masoquismo.
A verdade nesses casos é extremamente libertadora. Eu acho que a gente vai ser sempre uma sociedade, como sociedade teremos conflitos, desafios, desavenças, diferenças, problemas, né, disputas, mas quanto mais a gente puder conhecer a nossa história, encarar ela e nos livrarmos da manipulação que é feita em cima dela, mais a gente tem condição de olhar para si falar, puxa, que legal ser brasileiro, que legal esse país, esse país é maravilhoso, que a gente enfrentou, que a gente encarou, que a gente já criou, que a gente tem de bom.
Quer dizer, é claro que a gente pode olhar para si de um jeito mais benevolente, mais comunitário, e passar a se entender como um país, como um grupo, e não como pessoas isoladas tentando sobreviver. A conscientização de uma verdade subjetiva pode nos libertar. Libertar, dentro do que é possível libertar o humano, que não é sem sofrimento, que não é sem dificuldades, né? Mas a gente pode viver melhor, sim.
Vera Iaconelli, que prazer enorme ter você aqui de novo no assunto. Muito, muito bom te ouvir mais uma vez.
Ah, é ótimo estar com você porque eu te ouço todo dia. Agora eu vou me ouvir a mim, vai ser curioso.
Obrigada, Vera, bom trabalho.
Obrigada, querida, você também. Também.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.