À espera do tarifaço: as consequências econômicas para Brasil e EUA
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Antes da aplicação definitiva de qualquer sanção ou qualquer medida corretiva, o governo dos Estados Unidos estabeleceu um cronograma de audiências e consultas públicas para coletar depoimentos de pessoas interessadas, empresários, produtores, quem quiser contribuir com essa discussão a respeito dessa relação entre Brasil e Estados Unidos. No dia 6 de julho é a realização dessa audiência pública. Para debater essas ações propostas e trazer também todas essas contribuições que foram entregues previamente.
Representantes do setor produtivo querem mostrar ao governo dos Estados Unidos que uma sobretaxa de 25% vai prejudicar não só empresas do Brasil, mas a indústria e os consumidores americanos.
Essas audiências públicas sobre o novo tarifaço de Trump são praticamente a última oportunidade para que o Brasil consiga evitar o pior. Elas começaram na segunda-feira, seguiram pela terça e a decisão final vai vir até dia 15 de julho. Grandes empresas e representantes do setor produtivo brasileiro estiveram lá, mas não só. Na semana passada, Flávio Bolsonaro enviou uma carta ao Escritório de Comércio americano solicitando a sua participação nessa audiência.
No documento, Flávio Bolsonaro afirmou que pesquisas brasileiras de opinião pública mostram que a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos Estados Unidos foi mais evidente. Fala ainda que as tarifas propostas entregariam ao atual governo exatamente a vitória política que ele vem tentando construir, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos.
A surpresa foi que no documento Flávio Bolsonaro pediu o adiamento das tarifas para depois das eleições e não a extinção da taxação. O presidente Lula aproveitou a deixa e virou a sua artilharia para o adversário, acusando-o de traidor da pátria. O desgaste do que foi escrito acabou exigindo um ajuste no discurso de Flávio. Durante sua fala em Washington, que durou quase 5 minutos, ele insistiu no argumento.
Flávio Bolsonaro disse ao governo dos Estados Unidos que em cerca de 90 dias o Brasil vai passar por um novo processo eleitoral. E aí, nas palavras dele, a política brasileira vai ser inteiramente diferente e que, portanto, impor agora tarifas contra produtos brasileiros vai acabar prejudicando aquelas pessoas que não são responsáveis pelos atos questionados pelo governo americano. E aí ele afirma em determinado momento que impor a tarifa de 25% vai penalizar toda a população brasileira.
Mas depois, para jornalistas brasileiros, usou o termo cancelamento das tarifas e não mais adiamento delas. Ele tá pedindo cancelamento das tarifas ou apenas o adiamento para depois da eleição?
Cancelamento.
Não quero tarifa no Brasil.
Só quem quer tarifa é o Lula. Analistas dizem que a decisão de Trump sobre o tarifaço é muito mais política do que econômica. É verdade, mas acontece que essas tarifas mexem e muito com o bolso de gigantes. Empresas como a Coca-Cola, a Nestlé, a Tesla e o eBay também enviaram cartas tentando sensibilizar o governo americano. E elas alertam: a sobretaxa vai desestruturar cadeias de suprimentos e aumentar a inflação para o próprio consumidor americano.
A Tesla afirmou que depende de insumos industriais vindos do Brasil para setores como veículos elétricos, baterias e robótica. A Nestlé pediu que o café solúvel e o colágeno bovino importados do Brasil fiquem livres das novas taxas. Já a Coca-Cola defende a manutenção da isenção do suco de laranja brasileiro e pede a inclusão do limão na lista de produtos livres de tarifas. O eBay, por sua vez, solicitou uma exceção para os produtos usados e seminovos, alegando que a cobrança atingiria principalmente pequenos vendedores e consumidores de baixa renda.
Empresários brasileiros também se mobilizaram.
Ainda nesta semana, equipes técnicas dos dois países devem se reunir para preparar uma última rodada de negociações entre ministros brasileiros e Jameson Grier, representante de comércio dos Estados Unidos.
Esse é um desafio que nós estamos enfrentando de uma maneira muito preocupante e objetiva, já que os Estados Unidos é o mais importante parceiro de produtos manufaturados do Brasil. Nós temos que continuar fazendo o nosso papel, que é negociando, discutindo, debatendo tecnicamente, demonstrando quais são de fato os interesses do país. Com o Brasil, os Estados Unidos têm superávit que ele não tem com o resto do mundo. Então não se justifica.
A Confederação Nacional da Indústria calcula que se as tarifas adicionais de 25% e de 12,5% forem adotadas, mais de 4 mil produtos exportados pelo Brasil serão afetados, o que representa quase 15 bilhões de dólares.
Da redação do G1, eu sou Nátaly Zaneri e o assunto hoje é: à espera de um novo tarifaço. As consequências econômicas para o Brasil e para os Estados Unidos caso Trump avance com as taxas. Neste episódio, eu converso com Daniel Souza, comentarista da GloboNews, criador do podcast Petit Jornal e professor de economia do IBMEC. Quarta-feira, 8 de julho. Daniel, o Flávio Bolsonaro chegou aos Estados Unidos depois de enviar na semana passada uma carta de 86 páginas.
A gente fez aqui um episódio sobre isso e ele falou por quase 5 minutos na USTR, né, que é o escritório de representação comercial nos Estados Unidos. Eu queria comparar a fala dele nessa audiência com a carta de 86 páginas. Dá para ver alguma mudança de tom ou de conteúdo nessas duas falas, de uma para outra?
Sim, Natuza, dá para ver uma mudança tanto de tom quanto de conteúdo. A carta, ela foi mais explícita, ela pedia o adiamento das tarifas para depois das eleições e trazia ali uma defesa do Pix em particular. O discurso acabou sendo muito mais sucinto, ele acabou apresentando o Pix como uma solução. Ele também traz ali uma acusação, discurso de exploração política do governo Lula, e reclama um pouco do timing das tarifas. Na prática, o Flávio Bolsonaro, ele evitou repetir em público aquele argumento de que as tarifas deveriam ser adiadas para depois das eleições, em função da péssima repercussão que acabou gerando.
Ficou muito claro que houve ali um certo oportunismo por parte do candidato a presidente, que tava mais preocupado, ou pelo menos projetou uma imagem de estar mais preocupado com questões pessoais, com as suas ambições eleitorais do que efetivamente com os interesses do Brasil e com o potencial que essas tarifas poderiam trazer de dano à economia brasileira.
Daniel, vou te pedir para que você nos explique como é que foram esses 2 dias de audiência, né? Esse processo ainda pode, ou essa audiência ainda pode mudar alguma coisa, influenciar alguma coisa? Porque o que eu tenho ouvido e lido é que os empresários brasileiros estão cada dia mais desesperançosos.
Em tese, Natuza, sim, é possível que essas audiências tragam algum tipo de alteração, mas na prática a expectativa é de que isso não aconteça. Nós tivemos aí uma sucessão de painéis, tivemos uma grande quantidade de inscritos, o governo brasileiro só mandou observadores. O Azevedo, Roberto Azevedo, ex-OMC, já teria ouvido inclusive do Departamento de Estado que a tarifa seria efetivamente implementada e que consequentemente nós já estaríamos contando com esse tipo de punição para os próximos dias.
Existe ali a possibilidade de alguma mudança, ao surgimento de algumas exceções pontuais, etc., alguma flexibilização. É claro que a gente tá falando de uma parte importante do protocolo dessa investigação, mas a expectativa de que algo substantivo mude é muito pequena. O que a gente tá observando de forma mais concreta é que existe um viés muito político na decisão e que, consequentemente, a expectativa de qualquer tipo de mudança acaba sendo muito baixa, muito remota.
Agora, do ponto de vista econômico, essa conta fecha para Trump? Porque a gente tá vendo a inflação em alta nos Estados Unidos. Inflação, não tem nada mais corrosivo do que inflação para popularidade de um presidente da República. O argumento de empresários brasileiros é de que isso vai encarecer produtos lá, isso pode ter um impacto inflacionário nos produtos consumidos. Por exemplo, cito aqui um produto em particular que o americano consome muito, que é o café. Para você, essa conta fecha?
Natuza, a conta não fecha, mas para o Donald Trump não é só a questão da inflação que tá em jogo. Nos Estados Unidos, os preços ao consumidor avançaram mais uma vez. Subiram para quase 4%, nível mais alto em 3 anos. A meta de inflação por lá, vamos lembrar, é de 2%. Foram impulsionados pela elevação nos custos de alimentos e energia, principalmente gasolina, com impacto direto nas expectativas em relação aos juros. A gente tá falando de um presidente dos Estados Unidos que genuinamente acredita nas tarifas como estratégia de desenvolvimento econômico para os Estados Unidos.
Ele defende isso há décadas. Ele realmente acredita nesse mecanismo como impulsionador. Ele sempre fez referência ao William McKinley, que foi um presidente americano da virada do século 19 para o século 20, que através das tarifas conseguiu industrializar o país. E o Trump almeja de alguma forma remontar esse período glorioso. Além disso, a gente tá falando de um Donald Trump com a sua doutrina Donroi, na prática fazendo ali uma referência justamente à doutrina Monroe do século 19.
É uma política de 200 anos atrás para reafirmar a soberania dos Estados Unidos sobre o Ocidente.
O objetivo agora é barrar a influência da China e da Rússia deste lado do planeta.
Aliás, isso está documentado. Gostaria de um alinhamento por parte do governo, dos governos da região da América Latina em relação à política externa dos Estados Unidos. Há uma expectativa por parte do governo Trump, se isso vai ser cumprido ou não é uma outra questão, mas afastar a influência chinesa. Ou seja, a ideia das tarifas também como mecanismo punitivo, as tarifas como mecanismo realmente de impor uma determinada agenda dos Estados Unidos pelos americanos considerarem que eles são absolutamente incontornáveis em função do seu gigantesco mercado consumidor.
Pessoalmente, acho que essa estratégia não deve dar certo, mas você tem ali alguns outros aspectos que precisam ser levados em consideração além do aspecto inflacionário. O governo americano está atento a isso e vai tentar calibrar um pouco para que o impacto seja minimizado, sim, mas me parece que não é apenas inflação que tá em jogo na na cabeça da administração Trump. Existe uma lógica de tentar industrializar o país, de trazer produção para dentro dos Estados Unidos, e existe também uma lógica de tentar pressionar o Brasil a cumprir determinados pré-requisitos ou determinados alinhamentos em relação à política externa dos Estados Unidos.
Agora, Daniel, por que que empresas como Coca-Cola, Tesla, Nestlé, Siemens, eBay e outras estão pressionando o USTR para culpar produtos brasileiros de novas tarifas. O que que isso diz sobre a integração entre essas economias, a brasileira e americana?
Isso mostra que a gente tá falando de duas economias bastante integradas e que consequentemente essas empresas se mostram preocupadas justamente com a imposição de tarifas que podem atrapalhar os negócios dessas empresas. E claro, são grandes empresas americanas que têm a capacidade de lobby, têm a capacidade de tentar influenciar de alguma forma uma decisão do governo americano. Isso é algo que chama bastante atenção, mas não algo exclusivo do Brasil.
Muitas empresas americanas já pressionaram o governo americano em diferentes tarifaços contra diferentes países, justamente para evitar que os seus negócios sejam prejudicados. É importante sempre lembrar que a gente tá falando de um mundo que ao longo das últimas décadas acabou se integrando em cadeias globais de valor. Ou seja, determinados produtos acabam tendo diferentes etapas produzidas em diferentes países. Consequentemente, se você coloca tarifas na jogada, esse processo produtivo acaba sendo comprometido, os custos aumentam, aumentam, a eficiência diminui.
Empresas que têm uma atuação global podem ser bastante prejudicadas. As empresas americanas, inclusive, ao longo das últimas décadas atuaram de forma a justamente surfar nesse novo ambiente, a buscar eficiência através de um espalhamento da sua estrutura produtiva. E esses tarifações sucessivos do governo Trump, muitas vezes pouco planejados, desorganizados e até de surpresa, dependendo do caso, acabam desorganizando a estrutura dessas empresas e por isso elas acabam pressionando muito o governo dos Estados Unidos.
E com o Brasil não é diferente. O Brasil é uma economia grande, é uma economia que tem relações profundas e antigas com os Estados Unidos. Isso traz preocupações não apenas para empresários brasileiros, mas também para empresários americanos e para grandes corporações como essas que você citou.
Um dos pontos aqui que me parece uma ironia é o argumento sobre a nossa carne, né, que a nossa carne, a produção se dá em cima de desmatamento. Trump nunca se preocupou com meio ambiente na vida e não podia se preocupar menos com isso. Com as minhas ações, vamos acabar com aquela lei, a lei ambiental, e vamos acabar com a ideia mandatória dos carros elétricos. Também vou declarar uma emergência energética nacional. Vamos perfurar, bebê, perfurar.
Mas isso vira um argumento contra o Brasil, e os produtores de carne dizem o seguinte: olha, o que a gente aumenta de produção não é de área desmatada é de aumento de produtividade. Achei curiosa essa argumentação de que aqui a gente exporta carne de área desmatada. Não tô dizendo que não seja verdade em todos os aspectos, mas me parece uma ironia.
É uma ironia porque a gente tá falando na prática de um governo Trump, como você muito bem pontuou, que nunca considerou a proteção das florestas de pé uma das suas prioridades, ainda mais num país como o Brasil. Fica sempre a impressão de que o governo Trump tá tentando buscar algum argumento para dar ali um verniz de legitimidade, de credibilidade para uma decisão que no fundo acaba sendo muito mais política do que técnica. Existe ali uma preocupação por parte do governo Trump de proteger os produtores americanos, que reclamam muito da carne brasileira, que acaba sendo uma carne bastante competitiva.
Nós tivemos ganhos de produtividade substantivos nesse setor no Brasil ao longo das últimas décadas, e consequentemente você precisa de algum argumento para justificar.
Sim, é bom explicar a diferença das coisas, porque no caso de de café, no caso de carne e de outros produtos, o que o setor americano reclama é que esses produtos hoje, sem nenhuma taxação, passem a integrar a lista de produtos tarifados.
Um dos argumentos que você pode sacar é dizer justamente isso: ah, não, o Brasil é super competitivo porque desmata, e ao desmatar consegue oferecer uma carne muito mais barata. Tecnicamente não para de pé, assim como não para de pé, não param de pé uma série de outros argumentos e críticas estabelecidos pelo governo americano trazendo nessa investigação é a questão do Pix, que a gente tá falando de uma infraestrutura e não de uma empresa que almeje lucro, qualquer coisa nesse sentido, ou então de tarifas preferenciais que são resultado de acordos que o Brasil celebrou no âmbito do Mercosul e que estão permitidas no âmbito de acordos celebrados pela Organização Mundial do Comércio.
Enfim, a gente tá falando de um Brasil que tecnicamente tem uma boa defesa, mas fica sempre a impressão de que a técnica não é realmente o elemento central aqui nessa investigação.
E aí, Daniel, eu queria que você abordasse um aspecto que me parece um paradoxo, porque com esses movimentos todos do governo Trump contra o Brasil, e aí eu remonto ao primeiro tarifação e outras ações do governo americano, isso não empurra o Brasil para mais perto ainda da China, para o colo da China?
Essa é uma possibilidade real, Nath. Aliás, nós tivemos aí inclusive nos últimos dias uma visita do ministro da Fazenda a China, com o objetivo ali de comercializar panda bonds, ou seja, títulos brasileiros que acabam sendo precificados na moeda chinesa. A China, inclusive, sempre que pode, acaba piscando para o Brasil em momentos ali de maiores dificuldades no relacionamento com os Estados Unidos. De maneira bastante sincronizada, os chineses acabam aumentando o número de frigoríficos que podem exportar para os chineses, acabam oferecendo ali o tempo todo algum tipo de sinalização para para o Brasil que os chineses estão abertos a um processo de aproximação.
A China tem uma política externa onde ela se coloca não como um país imperialista, mas como um país em desenvolvimento. E consequentemente, o subtexto que acaba passando para países como o Brasil é: ao contrário dos Estados Unidos, eu sou um parceiro. Ao contrário dos Estados Unidos, eu não sou um país imperialista. Se isso é verdade ou não é uma outra discussão, mas sim existe aí um mecanismo de incentivo que tá sendo criado pelos americanos para que o Brasil se aproxime dos chineses.
Nesse sentido, é um tiro que pode sair pela culatra. Hoje a China já é comercialmente muito mais relevante para o Brasil do que os Estados Unidos. Segundo o último dado da Apex, o Brasil exporta pouco mais de 10% para os Estados Unidos, e a China acaba sendo muitíssimo mais relevante do que isso. A partir do momento em que os Estados Unidos fecham a porta para produtos brasileiros, o Brasil acaba buscando uma diversificação. É claro que idealmente o Brasil não deveria deveria trocar os Estados Unidos pela China e ficar altamente dependente da economia chinesa.
O Brasil deve diversificar, abrir cada vez mais mercados e pulverizar o destino das suas exportações. Mas é inegável que você passa a ter ali algum incentivo para o envio de produtos brasileiros em direção ao mercado chinês, na medida em que o mercado chinês é imenso e consequentemente tem uma capacidade potencial de absorção de produtos brasileiros muito significativa.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Daniel Souza. Olhando para frente, qual deve ser o próximo capítulo dessa história? Se você acha que ela vai acabar mal para os produtos brasileiros, o que que dá para a gente esperar, Dani?
Natuza, o cenário mais provável é que sim, essa negociação, ou melhor, essa investigação acabe para os produtos brasileiros. Existe aí, quando a gente pega todos os sinais, todas as sinalizações, existe uma decisão política que aparentemente já tá tomada. O governo americano na prática tá buscando alternativas para tarifar países ao redor do mundo depois daquela derrubada das tarifas que foram, que foi imposta no início desse ano pela Suprema Corte.
Fica realmente a impressão de que a decisão já tá tomada. O que pode mudar realmente é uma pequena calibragem. Você pode ter alguns produtos saindo, ou você pode ter ali alguns produtos tendo uma tarifação um pouco menor. Você pode ter algum tipo de composição em função de algum lobby específico, de alguma pressão que foi feita por empresários americanos, ou de alguma articulação que foi feita por empresários brasileiros. Mas fora isso, a expectativa é assim que nós tenhamos o Brasil tendo tarifas, estando sujeito a tarifas mais altas nos Estados Unidos em uma série de produtos num futuro próximo.
De novo, é claro que a gente tá falando de um mercado americano que já foi muito mais importante para o Brasil do que é hoje. O impacto do ponto de vista macroeconômico é pequeno. O Brasil exporta pouco para os Estados Unidos, e o Brasil é um país que exporta pouco em proporção do PIB. Quer dizer, as exportações brasileiras são pequenas em proporção do PIB, E dentro dessas exportações brasileiras, que são pequenas em proporção do PIB, as exportações americanas representam ali algo em torno dos 10%, e uma parte substantiva dessas exportações não estão e não estarão sujeitas a tarifas por parte dos americanos.
O impacto sobre o PIB tende a ser pequeno, embora o impacto sobre alguns setores específicos, sobre algumas cidades específicas no Brasil, tende a ser muito grande. E isso merece, claro, a atenção do governo brasileiro, porque para esses segmentos o impacto tende a ser bastante forte.
Você acha que Flávio Bolsonaro sai como dessa, desse giro pela audiência? Porque a origem do tarifaço vem da sua própria família, né?
A origem do tarifaço foi reivindicada pela sua própria família. Quer dizer, houve ali um movimento, por mais que agora eles tentem se distanciar disso, de reivindicação de que as tarifas teriam sido realmente obra de uma intermediação feita pelo grupo político do Flávio Bolsonaro. E o que a gente pode pode observar é que essa presença do Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos tem por finalidade tentar minimizar danos. Aquela carta na semana passada foi muito desastrosa, quer dizer, sinalizando ali, olha, pode tarifar, mas tarifa depois da eleição.
Pelo menos foi isso que acabou sendo projetado para o grande público. E fica ali realmente uma impressão de que o governo brasileiro defende os interesses do Brasil e o grupo Bolsonaro acaba defendendo os interesses interesses do próprio Grupo Bolsonaro, em algumas situações até o grupo dos Estados Unidos, interesse dos Estados Unidos. É interessante porque durante muito tempo no Brasil se utilizou o termo entreguista. Em muitos casos esse termo era empregado de forma muito injusta.
Por exemplo, na década de 90 ele era utilizado para classificar o governo Fernando Henrique Cardoso. O governo Fernando Henrique Cardoso estava implementando uma agenda de reformas. Você poderia discordar da agenda de reformas, e tudo, mas classificar o Fernando Henrique Cardoso como entreguista me parece uma enorme injustiça. Agora não, a gente fala de um grupo político que parece colocar os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar, em detrimento dos interesses do Brasil.
Os argumentos que o Flávio Bolsonaro apresenta são, com todo respeito, ridículos. E ele ainda faz uma série de posições que reforçam o argumento dos Estados Unidos para sancionar o Brasil. Ah, realmente vocês têm razão, o Supremo Tribunal Federal atacou a liberdade de expressão e atacou empresas americanas. Ou seja, ele não tenta defender os interesses brasileiros, não tenta defender os interesses das empresas brasileiras. Ele, um, reforça os interesses dos Estados Unidos, quer dizer, os motivos americanos para fazerem essa decisão.
Dois, ele faz uma oferta que ela quebraria toda a lógica lógica da cadeia produtiva industrial brasileira. E 3 é, mas não faz isso não, deixa eu ser eleito presidente e depois a gente negocia, no sentido de que eu serei mais fácil de negociar e menos duro do que o governo Lula.
Ainda é cedo para saber qual vai ser o tamanho do dano, mas me parece que numa sociedade tão polarizada quanto a sociedade brasileira, você tem ali um impacto apenas numa pequena, uma pequena fenda da sociedade que não, que não vai votar no Lula de qualquer forma, nem vai votar no Flávio Bolsonaro de qualquer forma. Eu acho que a grande curiosidade é como sobre essas pessoas, pessoas que acabam sendo um pouco mais independentes, elas vão perceber justamente esse fenômeno do tarifação e também essa disputa que o Brasil tá tendo com os Estados Unidos.
E fica sempre muito claro que por mais que o governo Trump possa ter algum tipo de simpatia pela candidatura do Flávio Bolsonaro, os interesses dos americanos para o governo Donald Trump estão em primeiro lugar, independentemente de algum tipo de dano que isso possa causar à candidatura do Flávio Bolsonaro.
E isso pode provocar o quê, Daniel, no discurso do Flávio Bolsonaro? Porque o Flávio Bolsonaro, ele tenta se desvincular, né, do próprio irmão, mas hoje mesmo gravou um vídeo dizendo que o tarifácio era culpa do Lula, mas tá lá do lado do autor intelectual de punições ao Brasil. E o tarifácio veio a reboque disso, e o Eduardo Bolsonaro inclusive faturou à época tarifação, né, como sendo algo de pelo menos coautoria dele.
A correspondente Raquel Crambú encontrou o deputado licenciado do PL Eduardo Bolsonaro perto da Casa Branca em Washington. Eduardo disse que tava lá a convite de autoridades americanas para uma atualização sobre as reações no Brasil às tarifas. O deputado licenciado voltou a defender a taxação de 50% de produtos brasileiros e manifestou opinião pessoal sobre uma possível aplicação de outras sanções de Donald Trump contra o Brasil. Ele chamou essas medidas de alavancas.
Como é que fica o discurso do Flávio? Porque se ele era influente, foi aos Estados Unidos, conseguiu cavar o PCC e o Comando Vermelho como organização terrorista, só que na segunda página desse livro ele não consegue convencer convencer o aliado a recuar, a imagem dele fica de que forma para o eleitorado brasileiro que vai às urnas em outubro?
Ela fica desgastada, claro, porque cria-se uma percepção que a família Bolsonaro acabou abrindo espaço para um dano relevante aos interesses do Brasil. Mas me parece que, num certo sentido, eles vão tentar se descolar disso de uma forma ou de outra, mesmo que seja muito difícil. Eles vão negar, dizer que não tem, que o tarifácio não tem nada a ver com isso, então não tem nada a ver com eles, que eles lutaram até o último momento para evitar que o tarifácio fosse implementado, que o Flávio Bolsonaro mandou carta, que o Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos, que o Flávio Bolsonaro defendeu o Brasil, mas que infelizmente o presidente Trump, por razões internas, teve que colocar esse tarifácio em vigor.
E esse tarifácio é culpa do presidente Lula, é culpa do presidente Lula porque acabou entrando em rota de colisão com os Estados Unidos, acabou aproximando afastando demais o Brasil da China. Me parece que é por aí que eles vão tentar construir a história ou a sua versão. Política é feita de versões, né, claro. Então você tenta ali de alguma maneira dizer: olha, eu não tenho nada a ver com isso, na prática eu até tentei evitar que isso acontecesse, é culpa do presidente Lula porque ele tem uma relação ruim com Trump.
Se eu fosse o presidente, nós estaríamos perto dos Estados Unidos e nada disso teria acontecido. Inclusive você observa em algumas falas deles, que já começou um certo cavalo de pau para dizer, olha, a gente não tem nada a ver com isso, é culpa do atual governo. E para uma parte relevante do eleitorado, aquela que vai votar em Flávio Bolsonaro não importa o que aconteça, vai colar. E para militância é importante, a militância precisa ter algum tipo de argumento, a militância precisa ter algum tipo de argumento para tentar convencer os independentes, para tentar convencer aquelas pessoas que não vão votar automaticamente no Lula nem votar automaticamente em Flávio Bolsonaro.
Então a gente tá falando de uma estratégia onde um desgaste me parece, me parece real nesse momento, mas onde a candidatura do Flávio vai tentar de alguma forma reverter isso através de uma história a ser construída e que ser contada para sua militância através de replicadores, quem sabe chegar aos independentes.
E para esses independentes, você acha que esse discurso pode colar ou vai prevalecer o que o governo brasileiro diz?
Acho que num primeiro momento é difícil de colar na Tusa, porque realmente você precisaria esquecer um pouco o que aconteceu no ano passado e todos aqueles foguetes que a família Bolsonaro, particularmente o Eduardo, soltaram quando as tarifas foram decretadas pelo governo americano. Mas é difícil sempre cravar, e me parece que o grupo do Flávio tem que tentar algum tipo de estratégia para minimizar danos e para tentar reverter uma situação que se tornou adversa para a candidatura dele.
Então, num primeiro momento, me parece que é difícil fazer essa versão colar, mas essa tentativa tem que ser feita e ela pode eventualmente ter algum grau de sucesso, que já ajudaria a diminuir o impacto que foi muito relevante sobre a candidatura do Flávio e que tende a ser muito relevante nos próximos meses.
Meu amigo Daniel Souza, muito obrigada por ter topado conversar conversar aqui comigo mais uma vez no Assunto.
Obrigado, Natuza, até a próxima.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuza Neri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.