Por que o Brasil não ganha mais a Copa?
- Seleção BrasileiraHistórico de títulos da Copa do Mundo · Copa de 2002 (Penta) · Eliminações recentes (2006, 2010, 2014, 2018, 2022, 2026) · 7 a 1 contra a Alemanha · Comparação com jejum de 1994
- Campeonato Brasileiro de FutebolCaos na CBF · Disputas políticas e escândalos · Falta de constituição de uma liga · Sucessão de técnicos na Seleção Brasileira · Dependência de patrocínios de apostas (bets)
- Desenvolvimento de JogadoresSaída precoce de jovens jogadores · Perda do vínculo afetivo com o futebol brasileiro · Obsessão por exportar jogadores de lado de campo · Falta de 'pensadores' no meio de campo · Drible e ginga como características perdidas
- Campeonato Africano de FutebolNivelamento técnico global · Surpresas na Copa do Mundo · Cabo Verde na Copa · Evolução do futebol africano · Técnicos com sensibilidade africana
- Críticas à Arbitragem e Pressão da FIFAÁrbitro da Somália barrado nos EUA · Subserviência da FIFA a Donald Trump · Padrão FIFA e o Maracanã · Exílio da seleção do Irã · Insensibilidade a questões de arbitragem
Em 1958, o Brasil descobriu o gosto de ser campeão de uma Copa do Mundo. A primeira estrela na camisa veio na Suécia, colocando fim ao trauma do Maracanaço.
Em 1958, o Brasil descobriu o gosto de ser campeão de uma Copa do Mundo.
A primeira estrela na camisa veio na Suécia, colocando fim ao trauma do Maracanaço. Depois vieram bicampeonato em 1962 e o Tri em 1970. Na Copa que levou o verde e amarelo à TV em cores, Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino e Carlos Alberto consagraram o Brasil como a maior potência das Copas.
Jair era 10 no Botafogo, Pelé era 10 no Santos, Rivelino era 10 no Corinthians, Gerson 10 no São Paulo, Tostão 10 no Cruzeiro. Era futebol, um futebol de arte, né?
Mesmo quando não levava a taça, a seleção mantinha o legado e continuava sendo referência para nós e para o mundo todo. Em 1982, Zico, Sócrates, Falcão e companhia limitada fizeram o planeta se apaixonar pelo futebol brasileiro.
Cruzamento para Zico, bateu! Sócrates, olha como sai bonito, tudo bonito! Vai embora, Falcão, vai para grande área, faz o seu também! Olha aí, ganhou, bateu! Olha o Serginho!
Brasil! O jejum de 24 anos, acabou em 1994. Éramos os únicos tetracampeões e chegamos à final em 1998.
Zidane é do título inédito do futebol francês.
Só o Brasil podia ser penta e fomos em 2002 com Ronaldo Fenômeno, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos.
Pro Rivaldo, abre o espaço, bateu pro gol. Olha, vem aqui, Ronaldinho bateu, gol! É penta!
Parecia o começo de uma nova era, mas a última estrela parou ali. Desde então, a seleção não voltou a disputar uma final, e o momento mais doloroso de todos veio em casa: o 7 a 1 para a Alemanha em 2014.
Olha a bola tocada, virou passeio! As lágrimas do menino ainda não entende direito exatamente o que seja o futebol e uma movimentação tática dentro de campo, e não consegue entender por que com 25 minutos, a Alemanha ganha por 4 a 0. Gol da Alemanha!
Mais uma vez o Hexa fica para a próxima.
Termina o sonho do Hexa, se repete a história de 2006, 2010, 2018 e agora em 2022.
O maior campeão do mundo no seu período mais longo de seca.
Conseguiu cruzar para o Haaland aí, não. Gol da Noruega e acabou cedo demais. A gente vai agora para o maior período sem um título, serão 28 anos. O Brasil nunca ficou 6 Copas do Mundo sem ganhar. A história do futebol brasileiro não merece o que tá acontecendo aqui. Eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo, nosso Ancelotti tá triste.
A derrota para Noruega expôs como a seleção brasileira anda distante do próprio DNA. Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: por que o Brasil não ganha mais Copa? Neste episódio eu converso com Paulo Vasconcelos, jornalista esportivo e comentarista na SporTV. Terça-feira, 7 de julho. PC, eu quero analisar contigo o nosso fracasso ao longo de 24 anos e tentar entender contigo como é que a gente vai superar esse gosto amargo até 2030.
Mas eu quero falar de estrutura, menos do jogo que nos tirou da Copa e mais do que está nos levando a esse quadro dramático de infelicidade, posso dizer assim. A gente tem alguns sintomas, mas também tem causas bastante estruturais. Fuga das chuteiras e chuteiras pouco usadas aqui no Brasil, ou seja, muitos jogadores jovens indo embora. A gente tem um problema de desorganização, disputa política, escândalos por quem organiza o nosso futebol, a CBF.
A gente tem um problema de não conseguir constituir uma liga como fazem França, Alemanha e por aí vai.
Mas por onde você quer começar?
Fuga de chuteiras.
Essa exportação de pé de obra nesse século ela se intensificou de maneira muito acentuada e você tocou num ponto que é muito interessante. Você tem hoje jogador vestindo a camisa da seleção brasileira que não fez o circuito Morumbi/Pacaembu, Maracanã, Mineirão, Fonte Nova, Ibera Rio ou Olímpico. Ele não fez esse circuito. Eles simplesmente não têm essa intimidade com o que é o brasileiro no estádio, porque alguns saem na adolescência, outros na pré-adolescência, e aí fica se esperando o tempo adequado para, enfim, poder começar a atuar num clube.
E é óbvio que isso impacta na formação e isso, ao mesmo tempo, tem um efeito no vínculo. O vínculo afetivo, né, da seleção dos jogadores É exatamente com esse vínculo afetivo fica distante. E além de tudo, nessa obsessão da exportação de pés de obra, o Brasil decidiu o seguinte: nós vamos exportar jogadores que atuam pelo lado do campo. Aí você tem uma proliferação, Natuza. Você tem de grandes nomes como Vinícius Júnior, Rodrigo, até nomes altamente promissores como o do Estevan, você tem o Luiz Henrique, porque houve uma obsessão seguinte: o que que o mercado quer?
Ah, o mercado quer pé de obra que atua pelo lado direito ou pelo lado esquerdo do campo. Então vamos mostrar para o mercado que ninguém mais do que nós sabe abastecer esse mercado com esse perfil. E aí sabe o que aconteceu? Os europeus pararam e falaram assim: tudo bem, esse mercado brasileiro nos abastece com esse tipo de jogador. Nós precisamos ter pensadores. Os pensadores formamos nós. E é o que está acontecendo e impacta diretamente na seleção brasileira, Natuza.
Para quem é leigo em futebol, mas ouve o assunto, o que é esse pensador em campo?
Nós tivemos a patente dessa escola. O pensador é aquele jogador número 8. Vou pegar, e é melhor nominar que fica mais fácil de entender. O Falcão era um pensador, o Cerezo era um pensador. Boa abertura, Falcão! Cerezo passou para receber, Falcão limpou, vai bater, bateu! Lá atrás, lá atrás, no nosso primeiro título mundial, o Didi foi um pensador em 58 e 62. O Gerson foi um pensador em 70. Há algum tempo a gente deixou de ter esse tipo de jogador que vai dar um andamento da partida.
Uma hora ele vai dizer, é para acelerar. Outra hora ele vai dizer, não, vamos pausar. Ele faz isso dentro do campo. É como todos nós gostamos e alguma vez na vida assistimos ao desfile da escola de samba e vemos o que que o mestre de bateria faz. Uma hora é só o repique, outra hora entram as caixas, daqui a pouco os tamborins. Mas tem um mestre que diz isso. O que nós vimos na partida contra a Noruega foi o Odegaard fazendo isso o tempo inteiro.
Esse é o pensador. E com um detalhe, Natuza, o futebol ele cada vez menos tem espaço. Consequentemente, se os espaços estão menores, é necessário alguém que enxergue esses espaços e dê andamento ao jogo. O Brasil deixou de ter isso.
Pois bem, agora eu queria então a tua avaliação sobre a organização que estrutura o nosso futebol, a CBF. É uma organização que passou por muitas trocas de comando, que tem uma disputa política enorme, que foi alvo de diversos escândalos. Qual é o teu olhar sobre a atuação de quem estrutura o nosso futebol aqui no Brasil?
De absolutamente, é de uma pessoa que enxerga ali o mais bem acabado exemplo do caos. A maior parte dos presidentes que antecederam o Al-Samir Chalhoub, esses presidentes, esses dirigentes que o antecederam, eles ficaram mais preocupados em conversar com advogados do que olhar para o futebol brasileiro. Eles estavam mais preocupados em saber como negociar em Brasília do que olhar para o futebol brasileiro. Quando você tem uma linha sucessória a partir do Ricardo Teixeira terminando com Edinaldo Rodrigues, em que todos os presidentes foram afastados, evidentemente isso reflete no futebol brasileiro.
O Tite, que foi o técnico na última Copa do Mundo de 2022, ele em dezembro de 2021 anunciou que aquela seria a Copa de despedida dele. Olha que coisa maravilhosa para quando você tem uma administração preocupada com o que você cuida. Teve um ano para escolher o sucessor e o que que aconteceu? Não escolheu. Entre a saída do Tite e o desembarque do Carlo Ancelotti como técnico da seleção brasileira na estreia contra Marrocos, passaram por lá o Ramon Menezes, o Fernando Diniz, o Dorival Júnior. O Carlo Ancelotti foi o quarto dessa sucessão.
Ou seja, em 4 anos a gente teve 4 técnicos, né?
E cada um com um perfil, cada um com um conceito, cada um com um olhar. Isso impacta numa seleção. Além de tudo, é um outro detalhe que nós não podemos nesse instante ignorar. E isso é revelador da escassez de jogador acima da média, um jogador craque com caixa alta, que o futebol brasileiro sempre teve mais de um. Nos últimos 16 anos, Natuza, esse trono, ou essa prateleira, trono só o Pelé sentou, Mas essa prateleira só teve um jogador, o Neymar. É muito pouco, é muito pouco para o futebol brasileiro.
Nas principais potências do futebol, os clubes administram o campeonato justamente por meio da liga. E a liga que define regra da competição, negocia contrato, distribui as receitas entre os participantes. Função essa que aqui no Brasil está a cargo da CBF. O que que a gente pode falar sobre, sobre o fato da gente não ter uma liga aqui?
Eu vou recorrer a uma frase que eu ouvia quando criança, e ela sempre me incomodou muito, e eu vou compartilhar com você e com todos os ouvintes desse podcast: farinha pouca, meu pirão primeiro. Isso é o mandamento mais bem acabado do egoísmo, né? Farinha pouca, meu pirão primeiro. Então você pega dirigente de 40 clubes, todos eles têm essa frase como manual, não vai sair liga na Tusa. Isso é uma utopia. Como é que eu vou ceder?
Eu sou extremamente cético exatamente por causa desse cruel mandamento de que vá surgir uma liga, pelo menos a curto prazo, no futebol brasileiro.
E se surgisse, vamos aqui imaginar um cenário hipotético, que mudanças isso provocaria na estrutura? O que seria bom para a gente extrair, para a nossa seleção?
Primeiro, do ponto de vista do negócio, daria aos clubes autonomia de negociação. Segundo, você deixaria com a Confederação Brasileira de Futebol o cuidado só com as seleções de todas as bases masculina e feminina. Terceiro, a negociação dos contratos de transmissão e de publicidade estariam a cargo dos clubes, mas com um detalhe: Para você formar uma liga, você tem que— olha como a lei vai vigorando, farinha pouca. Quem vai ser o executivo dessa liga?
Todo executivo vai ter um time. Ele não pode ser visto sob a ótica desse time, muito pelo contrário, tem que ser visto pela capacidade de organização e de trabalho que ele tem. Mas enquanto isso não vem, vai ser muito difícil fazer. Agora, sem a liga não há salvação a médio prazo para o futebol. O futebol, os clubes brasileiros hoje eles são dependentes dos patrocínios das bets. Se por acaso as bets deixarem de patrocinar os clubes brasileiros, os clubes brasileiros não terão como se sustentar.
Agora, se você cria uma liga, você vai ter alguém que vai tentar viabilizar outras formas de patrocínio e também outras formas de arrecadação para cada uma das marcas dos clubes, da marca barra clube, entendendo qual é o tamanho de cada um dentro do cenário. Então seria altamente benéfico, mas teria se despir de todas essas questões tacanhas, atrasadas e que são impeditivas de um desenvolvimento.
Quando é que a gente perdeu o chamado futebol-arte, né? Aquele futebol intuitivo, futebol de rua. Muito analista esportivo dizendo o seguinte: olha, hoje o futebol é meio que nivelado, né? Porque como as ligas na Europa movimentam milhões e levam muitos, muitos jogadores de outros países, a coisa chegou num nível técnico muito alto. Tanto é que essa Copa é uma Copa de muitas surpresas, né? Muitas seleções ou pequenas ou médias e que bateram um bolão.
Eu cito Cabo Verde, por exemplo. Foi a gente que piorou na nossa estrutura e na nossa falta de visão, de não ter meio-campo, de não ter, de não investir em pensadores e tal? Ou foram eles que melhoraram? Ou as duas coisas juntas?
Eles melhoraram, isso é fato. Uma das piores manifestações que a gente pode ter, porque ela nos estaciona, é a soberba. Quando eu começo a me achar superior aos outros, eu não me desenvolvo. O que que aconteceu com o futebol no mundo? Vamos ficar nesse século 21. 2008, 2009, surge a Espanha e surge o Barcelona e surge a seleção espanhola criando um novo modo de jogar, aquilo que foi definido do tic-tac, né? Toca para aqui, toca para lá, toca para cá.
Lindo, maravilhoso. Mas o que que nós tínhamos de diferente? Nós tínhamos o drible, a ginga, e nós deixamos de ter isso. Você sabe como é que são orientados hoje os garotos em formação nas divisões de base? Você sabe o que que eles mais escutam? Domina e toca, domina e toca, domina e toca. E o drible? E a subversão? E o desafinar o coro dos contentes? Cadê? Nós somos capazes disso, nós sempre tivemos isso. Mas quando você começa com a ditadura do domina e toca, você vai se nivelando a essa prateleira.
E aí, aonde você vai fazer a diferença? Você não faz a diferença, você começa a ser igual às outras equipes. E aí, como é que você vai fazer a diferença se você tá jogando igual? Se você teve sempre como principal característica o drible, uma palavra que foi banida do futebol brasileiro, até porque essa frase é 100% nossa, A ginga. Gingou, passou, driblou. Cadê? Não tem mais. É toca daqui, toca dali. O jogo de ontem, há muitas observações, especialmente quando saíram o Rayan e o Martinelli.
E uma das coisas que se diz sobre o Rayan é o seguinte: ele marca muito. Ora, bolas! O Rayan dribla para burro. O Rayan tem uma força de um touro do drible e do arremate. Mas o que é observado é que ele marca muito. Tá errado. Enquanto a gente não perder a soberba de celebrar que a Alemanha foi desclassificada da Copa, então ninguém pode nos alcançar no número de títulos. Dane-se que podem nos alcançar ou não no número de títulos.
O que a gente precisa é voltar a jogar um futebol melhor. Se a gente voltar a jogar um futebol melhor, a gente vai disputar título. Agora, quando a gente começa, por soberba, a comemorar que a Alemanha não saiu da Copa e com isso ninguém nos alcança, É muita soberba para pouca bola, Natuza.
PC, eu queria te ouvir sobre o show que deu a África nessa Copa.
A mim, como homem do povo preto, me orgulha muito a evolução do futebol do continente africano. Ela tá se dando também porque quando começou, você, as seleções africanas não eram treinadas por pessoas que tivessem sensibilidade e sentimento. Muitas vezes eram técnicos vindos do leste europeu, que tem um olhar e uma maneira de se relacionar completamente completamente diferente da maneira e do olhar do continente africano. Estamos vendo nessa Copa a seleção de Cabo Verde, que fez para mim, ou escreveu, um dos roteiros mais bonitos da história das Copas, pela sua capacidade de doação, pela sua capacidade de desfrutar do jogo, procurando o tempo inteiro jogar futebol e jogando bem.
Cabo Verde garantiu um lugar eterno. O time do Vozinha perdeu para Argentina, mas ganhou o coração de quem ama futebol. Mostrou que na vida algumas vitórias não cabem no placar.
Os cabo-verdianos tentavam gravar na memória o que estava diante dos olhos. Não queriam que essa história acabasse, nem os jogadores que lutaram até o fim. O que é um resultado diante da emoção de quem viu o próprio país sendo reconhecido pelo Isso é outra coisa que nós abrimos mão. A gente tem há algum tempo no Brasil uma resistência a essa expressão: vamos jogar bem? Não, o que importa é ganhar. Ignorando que o caminho mais curto para você obter uma vitória é jogando bem.
Então ver os países do continente africano treinados por pessoas que entendem e sentem a sensibilidade africana É muito bonito, é um dos grandes saldos dessa Copa. Essa é uma Copa em que o capítulo da participação do continente, das seleções do continente africano, é um capítulo especialíssimo, Natuza.
PC, a gente já viveu traumas bem terríveis na história da nossa seleção, mas parte desses traumas acabou produzindo transformações. Então tem o trauma de 1950, que mudou a forma de como a seleção era pensada, o de 82 que abriu um debate sobre estilo do jogo, o 7 a 1 produziu, expôs problemas estruturais, mas de lá para cá a gente não voltou a ser o que era. A gente tem condição de voltar a ser o que era? E eu te pergunto isso com o coração doído, porque quando a seleção brasileira falha, a sensação que eu tenho é de que a gente falha em em tudo.
Meu filho, por exemplo, depois da, depois do jogo, meu filho que nunca viu a seleção brasileira campeã, ele disse assim: que desapontamento, torcer para o Brasil é muito difícil. E ali eu vi a decepção de uma geração que tá machucada, né? Não só pelo jogo contra a Noruega, pelo resultado que a gente teve na Copa de 26, mas também por todas as outras.
Para deixar de ser um retrato na parede, como, como era Itabira para o Drummond, primeiro de tudo a gente precisa se despida soberba. Segundo é passar a tratar da doença e não ficar pontualmente discutindo se o Vinícius Júnior tinha que ter batido o pênalti, se o fulano tinha que ter feito isso, se o Beltrano tinha que ter feito aquilo. A gente tem uma enorme dificuldade para tratar dos nossos problemas, né? Então a gente vai, a gente opera muito no escapismo, a gente vai para um ponto aqui e aí fica apertando aquele ponto o tempo inteiro, o tempo inteiro.
A outra coisa é nós entendermos, mas isso é uma coisa até da sociedade brasileira, a gente tá à espera sempre do salvador da pátria, né? E essa Copa, ela foi reveladora de uma questão muito interessante e alimentado, digo aqui, por uma parte da imprensa. Foram eleitos dois salvadores da pátria, um com 34 anos chamado Neymar e o outro com 19 anos, um adolescente chamado Endrick. Olha como é que nós operamos, Nós precisamos do salvador da pátria.
Mas os 4 anos antes, o que a gente fez? Nada. Nada. Rigorosamente nada. A primeira transformação, Natuza, pra que o seu filho, pra que o meu neto de 7 anos não caia aos prantos como caiu assim que terminou o jogo, é internamente a gente brigar por um futebol melhor. Vai começar daqui a pouco o Campeonato Brasileiro. E aí o que você vai ver? Jogador peitando juiz, jogador simulando falta, o goleiro faz uma defesa e fica no chão, é técnico sendo expulso.
E a gente não pode normalizar isso. A gente tem que entender o seguinte, olha só, a gente quer mudar? A gente quer chegar na Copa de 30 dizendo assim, cara, tô animado, essa é a seleção brasileira, tá bacana de ver, tá jogando. Mas então vamos olhar pros nossos problemas, vamos tratar dos nossos problemas. Como é que tá o jogo praticado aqui? Como é que é um jogo de futebol no Brasil? É bom ou ruim? É ruim, porque é briga com o árbitro o tempo inteiro, é jogador simulando.
Enquanto a gente não tratar desse problema, Natuza, dizer o seguinte, o futebol brasileiro, esportivamente tá ruim, como espetáculo, não quero ver isso. Eu fico sempre pensando assim, será que aquele jogador que acabou de simular que levou uma cotovelada, e aí quando a imagem é repetida você vê que a mão foi no peito, será que ele chega em casa, olha para o filho e diz, pô, papai tá voltando do trabalho? E será que o filho não vai dizer, pô, papai, você fingiu hoje no jogo, hein?
Que coisa feia. Então eu acho que assim, o primeiro passo é tratar dos nossos problemas aqui, brigar por uma qualidade de jogo melhor. A qualidade de jogo melhor, praticar que certamente ela vai refletir na seleção brasileira, não é, Tuza?
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com PC Vasconcelos. E para a gente terminar, infelizmente ou felizmente, os problemas não são só nossos, né? Eu acho que essa, de todas as Copas que eu vi, é a Copa que me engajou mais. Tenho achado a Copa muito legal, mas aí a gente é surpreendido com uma série de novidades bem ruins. Então, um árbitro da Somália não pôde, já selecionado, já treinado, não pôde entrar em solo americano, e a FIFA concordou com isso.
E o árbitro da Somália barrado nos Estados Unidos foi recebido como herói na volta de casa, né? Os torcedores lotaram o estádio na capital, Mogadíscio. Nas arquibancadas, a multidão agitava as bandeiras Alice cantavam e dançavam solidariedade a Omar Artan, que seria o primeiro árbitro da Somália a atuar numa Copa do Mundo. Mas ele foi barrado pela imigração americana no aeroporto de Miami. O governo Trump afirmou que a entrada foi recusada porque Artan teria ligações com suspeitos de pertencer a organizações terroristas.
O árbitro não vai mais poder participar da Copa. Ele agradeceu a FIFA FIFA e ao povo da Somália.
Você tem jornalistas, torcedores de determinados países que não podiam entrar devido a uma regra muito restritiva dos Estados Unidos. A FIFA concordou com isso. E aí a gente tem o mais recente capítulo dessa história de uma Copa, por um lado extraordinária, e por outro cheia de ineditismos. Um cartão vermelho dado por um árbitro brasileiro num jogo dos Estados Unidos em que o presidente americano, presidente Donald Trump pede e a FIFA concede o direito à reversão daquele cartão vermelho.
A posição de viralatismo da FIFA em relação aos Estados Unidos do presidente Donald Trump, ela já tinha sido revelada quando no sorteio dos grupos o presidente da FIFA, que é suíço, Gianni Infantino, deu um prêmio da paz ao Donald Trump. A gente tá vendo imagens do presidente Donald Trump, que a FIFA vai estabelecer no sorteio um prêmio pela paz mundial. Surpresa de zero pessoa. O escolhido foi o presidente dos Estados Unidos, amigaço do Gianni Infantino, Donald Trump.
Obrigado, senhor presidente. Senhor presidente, esse é o seu prêmio, o Prêmio da Paz. E há também uma linda medalha para o senhor, que o senhor pode usar onde quiser. Pera aí, eu vou botar bem agora, inclusive. Deixa eu segurar o seu microfone. Ah, foi fantástico! Excelente.
Ali ficou registrada a relação de subserviência daquela mesma FIFA que, quando a Copa foi disputada no Brasil, era de uma valentia impressionante. Se você voltar um pouquinho no tempo, você vai falar assim: todos os estádios do Brasil hoje, quando você vê um jogo de futebol, eles são iguais. Por quê? Porque a FIFA disse que os estádios tinham que ter padrão FIFA. Ela matou o Maracanã. Aquele Maracanã que eu frequentei, que entrei levado pelas mãos firmes do meu pai quando eu tinha 5 anos de idade, não existe mais, porque o padrão FIFA.
E agora o que que você vê? A FIFA se submetendo a todas as manifestações do presidente Donald Trump. Os Estados Unidos disseram para FIFA: você pode ter o seu padrão, mas numa Copa nos Estados Unidos quem manda sou eu.
E ainda impediram que uma seleção ficasse baseada, até jogasse no país, mas ficasse baseada jogada em outro país, né?
E a FIFA achou isso absolutamente normal. É como se não houvesse nenhum tipo de problema você ter que viajar 6 horas, 4 horas, jogar e novamente voltar para o seu exílio. Porque a FIFA criou para seleção do Irã um exílio dentro da própria competição. Essa decisão, ela, ela simplesmente joga a credibilidade da FIFA num canal lodoso, imundo, e que não vai a FIFA conseguir agora resgatar uma imagem de credibilidade. Porque nós conhecemos o presidente Donald Trump, ele não é homem de agir pelos bastidores e não contar, não.
Ele faz questão de contar porque ele se orgulha dessas situações. Então ele jogou a imagem da FIFA no lixo, isso é problema do Gianni Infantino. Ao mesmo tempo, tenta desmoralizar um árbitro brasileiro, e a CBF já se manifestou protestou fazendo o que é muito comum no presidente Donald Trump: insinuações sobre a honestidade desse árbitro brasileiro. E quando ele faz insinuações sobre a honestidade desse árbitro brasileiro, ele tá fazendo insinuações sobre arbitragem no Brasil.
O Brasil está lá representado por 3 árbitros, e um desses árbitros pode inclusive apitar uma final da Copa porque o Brasil não participa mais da competição. Acho que a FIFA não sai arranhada na dessa, dessa Copa do Mundo, que ainda não terminou, a FIFA sai, eu te diria, é esquartejada dessa Copa do Mundo. A credibilidade da FIFA não existe mais, além da jurisprudência que a própria FIFA, ao aceitar uma ordem do presidente Donald Trump, criou para as outras seleções.
PC Vasconcelos, meu caro PC, muito obrigada por esse sobrevoo nas nossas angústias, e torcendo para que esse desânimo nos largue aqui para que a gente consiga chegar em 2030 pelo menos numa posição melhor. PC, muito obrigada.
Ó, eu é que digo obrigado, sempre um prazer participar. E te digo o seguinte: o Brasil precisa no futebol se refundar. E se refundar é ter a humildade de dizer: tá ruim, precisamos melhorar. E essa melhora tem que começar pelo futebol que nós jogamos aqui.
É isso. Um beijo, PC, super obrigada. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.