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Brasil x EUA: o apelo de Flávio Bolsonaro pela intervenção de Trump

06 de julho de 202628min
0:00 / 28:45
Convidado: Guilherme Casarões, cientista político, professor da Florida International University (EUA) e um dos coordenadores do Observatório da Extrema Direita. A investigação da "Seção 301" pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA concluiu que o Brasil mantém práticas desleais na economia – casos do Pix e da 25 de Março, centro popular de São Paulo. O resultado disso é a ameaça de taxar os produtos brasileiros em 25%. De um lado, o Ministério das Relações Exteriores enviou ao governo americano um documento para defender os interesses brasileiros e negociar uma solução. De outro, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro também despachou aos Estados Unidos uma carta com algumas propostas para sensibilizar Trump e adiar a aplicação das tarifas – acontece que Flávio pediu para postergar o tarifaço por um prazo de 180 dias, ou seja, para depois das eleições, sob o argumento de que as taxas dariam vantagem política para o atual governo. Neste episódio, Natuza Nery entrevista o cientista político Guilherme Casarões, que fala diretamente dos Estados Unidos. Casarões analisa as propostas de Flávio Bolsonaro (que envolvem limitações ao Pix e à participação do Brasil no Mercosul) e avalia os ruídos que uma “diplomacia paralela” pode provocar em meio a uma negociação entre representantes dos Estados nacionais.
Participantes neste episódio5
N

Natuza Nery

HostJornalista
D

Daniel Sousa

ComentaristaJornalista
G

Guga Chacra

ComentaristaComentarista
G

Guilherme Casarões

ConvidadoCientista político
V

Victor Boyadjian

ComentaristaJornalista
Assuntos4
  • Influência de Donald Trump nas eleições brasileirasTarifas de importação sobre produtos brasileiros · Investigação da Seção 301 · Pix · 25 de Março · Jair Bolsonaro · Donald Trump · Luiz Inácio Lula da Silva
  • Pesquisa eleitoral Lula vs Flávio BolsonaroRelação com os EUA como âncora de campanha · Falta de propostas concretas · Submissão aos interesses americanos · Comparação com governo Vargas
  • Associação Movimento Brasil Laico· SociedadeReleitura da Doutrina Monroe · Contenção da influência chinesa · Segurança pública · Designação de PCC e Comando Vermelho como terroristas · Corolário Trump
  • Agenda e declarações de Flávio BolsonaroInteresses nacionais vs. eleitorais · Visão parcial do Pix · Saída do Mercosul · Submissão aos EUA
Transcrição46 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

O presidente americano Donald Trump deu início a uma fase sombria nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil. Ele tornou pública uma carta dirigida ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que anuncia a aplicação de tarifas de importação de 50% sobre produtos brasileiros.

?Voz B

A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente Jair Bolsonaro é uma desgraça internacional. Esse julgamento não deveria estar acontecendo, é uma caça às bruxas que deve terminar imediatamente. Só então o entrou na questão comercial. Além disso, tivemos anos para discutir nossa relação comercial com o Brasil e concluímos que precisamos nos afastar da longa e muito injusta relação comercial gerada pelas tarifas e barreiras tarifárias e não tarifárias do Brasil.

Trump acionou uma lei que existe há 51 anos para apurar práticas comerciais que os Estados Unidos consideram desleais.

NNNatuza Nery

Em meados do ano passado, antes do julgamento que viria a condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, Trump tentou tentou interferir na justiça brasileira. Ele impôs uma tarifa adicional de 40% sobre os nossos produtos. Produtos que já tinham uma tarifa de 10%, diga-se de passagem. E iniciou uma investigação sobre supostas práticas desleais da economia brasileira, entre elas o Pix e a 25 de Março, centro de compras popular em São Paulo.

Na articulação dessa carta estava o então deputado federal Eduardo Bolsonaro, que abandonou suas atividades parlamentares e foi para os Estados Unidos se dizendo perseguido. Fala, pessoal, mais uma ida aqui para Washington, D.C.

?Voz D

Se for necessário, iremos sim sacrificar tudo, queimar toda a floresta.

NNNatuza Nery

À época, o filho 03 de Jair Bolsonaro ameaçou: tem muito mais por vir, escreveu ele numa rede social. O presidente Lula, por sua vez, adotou o discurso interno de soberania e acusou Jair Bolsonaro e sua prole de inimigos da pátria.

?Voz D

O que eu quero dizer com isso é que esse filho do Bolsonaro consegue ser pior do que ele, e são na verdade vendilhões da pátria.

?Voz A

Foram pedir para de um país estrangeiro se intrometer nas decisões brasileiras.

?Voz D

É isso que vocês têm que dizer ao Timoção: são traidores.

NNNatuza Nery

Já no front das negociações, o Itamaraty e o empresariado brasileiro se empenharam para tentar furar o bloqueio bolsonarista e falar diretamente com a Casa Branca. Tamanha era a dificuldade de estabelecer canais oficiais de comunicação, pois era o bolsonarismo que dialogava com o governo Trump. Mas houve uma inflexão nessa história. Na Assembleia Geral da ONU, Lula e Trump se cruzaram rapidamente. E foi aí que a alegada química entrou em cena.

?Voz A

Eu estava chegando e o líder do Brasil estava saindo. Nós o vimos, eu vi ele, ele me viu e nós nos abraçamos. Por uns 39 segundos nós tivemos uma ótima química e isso é um bom sinal.

NNNatuza Nery

No fim, a sobretaxa caiu. A Suprema Corte americana decidiu que o tarifaço de Donald Trump é ilegal porque ele toma como base uma lei de emergência nacional, que não poderia ser usada para um tarifaço, que não caracteriza uma emergência nacional. Tudo parecia mais ou menos resolvido na relação entre Brasil e Estados Unidos, mas o vento mudou de novo. E isso tem tudo a ver com a postura mais intervencionista de Trump na América do Sul.

E foi aí que entrou em campo um outro filho de Bolsonaro, o filho que foi indicado por Jair Bolsonaro a concorrer à presidência da República.

?Voz D

O objetivo central da minha visita foi oferecer aos Estados Unidos uma alternativa ao que o Lula veio fazer aqui há poucas semanas. Enquanto o Lula veio à Casa Branca fazer lobby para traficantes, eu vim fazer exatamente o contrário. Pedi enfaticamente ao presidente Trump que designe o quanto antes o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.

NNNatuza Nery

Mas lembra que, além das tarifas, Trump também abriu uma investigação contra o Brasil? Pois é, essa investigação seguiu o seu curso e concluiu isso aqui.

?Voz E

Essa tarifa, ela é muito mais perigosa do que a outra, porque é feito tudo dentro dos conformes. É uma legislação de 74, 1974, a Seção 301. Ela tem rito, o rito foi cumprido. Eles abriram um prazo para o Brasil se defender, o Brasil foi lá se defender e usou todos os argumentos que tinha. Os empresários foram lá, apresentaram, contrataram advogados, apresentaram sua defesa, e mesmo assim eles continuaram nos acusando. E agora o Brasil foi condenado.

Sancionado. É isso que aconteceu. O escritório comercial da Casa Branca chegou à conclusão que sim, o Brasil é culpado dessas acusações vagas de comportamento contra a competição, e portanto eles estão autorizados a aplicar uma tarifa.

?Voz D

Lembrando que o prazo para que o governo americano implemente a tarifa de 25% sobre os produtos brasileiros é 15 de julho.

NNNatuza Nery

Mais uma vez, o tarifaço caiu no colo dos Bolsonaro. E para tentar evitar uma contaminação na sua campanha, Flávio Bolsonaro decidiu enviar uma carta aos Estados Unidos. Nela, ele argumenta que o tarifaço tem produzido efeitos políticos favoráveis ao presidente Lula e pediu que a taxação fosse suspensa até as eleições.

?Voz E

Ele pediu um prazo de 180 dias. Fala ainda que as tarifas propostas entregariam ao atual governo exatamente a vitória política que ele vem tentando construir, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos.

NNNatuza Nery

Em 86 páginas, Flávio Bolsonaro sugere a saída do Brasil do Mercosul, defende o fim da tarifa sobre o etanol americano, afirma que o Pix não deve se conectar a sistemas de pagamento fora do eixo ocidental e indica que os Estados Unidos priorizem sanções contra indivíduos específicos, como ministros do Supremo Tribunal Federal.

?Voz E

Tinha muita gente em Brasília fazendo uma ironia se a carta não tinha sido produzida pelo adversário, que é a campanha do presidente Lula à reeleição. Depois ele tem um super sincericídio na carta quando ele diz que vamos adiar e não vamos acabar, porque ele poderia dizer: tem que acabar com o tarifação, não leva a lugar nenhum para a gente, principalmente para vocês.

?Voz D

Eu faço uma sugestão para o Flávio Bolsonaro para depois da eleição.

?Voz B

Ele fala que depois da eleição pode pôr as tarifas.

?Voz D

Eu faço uma outra sugestão para ele, para depois da eleição, para ele escrever um manual: como enterrar a sua própria candidatura.

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Nátaly Zaneri e o assunto hoje é: o apelo de Flávio pela intervenção de Trump. Neste episódio, eu converso com Guilherme Casarões, cientista político, professor na Florida International University, nos Estados Unidos. Casarões também é coordenador do Observatório da Extrema-Direita. Carta, segunda-feira, 6 de julho. Casarões na Carta do Flávio Bolsonaro tem um pouco de tudo, né? Tem uma limitação à integração do Pix com sistemas de pagamento não ocidentais, tem a defesa de operadoras de cartão de crédito para que se reduza a tributação delas.

Tem até a saída do Mercosul. Então eu queria entender, do ponto de vista dos interesses do Brasil mesmo, dos interesses nacionais, se esses pontos ou algum desses pontos faz ou fazem sentido para você.

?Voz D

Existem duas cartas em jogo e talvez uma terceira, que é a carta do Marco Rubio. Flávio, é o pré-candidato Flávio Bolsonaro, enviou uma carta ao senador Marco Rubio, atual secretário de Estado norte-americano, no dia 2 de junho. E essa carta já começou a produzir um certo um burburinho, porque coloca uma questão importante, que é: se eleito for, diz Flávio Bolsonaro, eu me prontifico a colocar uma equipe de transição dedicada junto ao governo americano, num ato que me pareceu naquele momento de extrema subserviência.

Então, Flávio Bolsonaro, ele teve, sentiu o reflexo negativo desse anúncio dos Estados Unidos e tentou agir, mostrar que tem influência no governo norte-americano. Segundo a pré-campanha dele, a equipe dele de pré-campanha, Hugo respondeu: agradeço profundamente seu apoio à nossa decisão de designar o Comando Vermelho, o primeiro comando da capital, como terroristas globais, especialmente designando— designados em organizações terroristas estrangeiras sob a lei dos Estados Unidos.

E o Marco Rubio responde essa carta algumas semanas mais tarde, agradecendo essa disposição do pré-candidato Flávio Bolsonaro a basicamente fazer concessões aos Estados Unidos em campos estratégicos da política externa americana e naquilo que bolsonarismo e trumpismo vem convergindo já há algum tempo.

NNNatuza Nery

Só para tirar uma dúvida contigo sobre essa primeira carta, ali ele pedia para que o governo americano não tarifasse o Brasil, certo?

?Voz D

Exato, exato. E foi uma carta publicada pouco tempo depois da decisão dos Estados Unidos de impor novas sanções ao Brasil após o fim da investigação da Seção 301 da Lei de Comércio americana. Flávio Bolsonaro identificou, entendeu que aquilo era um desastre político para campanha dele. Ele decide escrever essa carta em inglês, em tom oficial, de senador para secretário de Estado, justamente para poder pedir de que aquilo não acontecesse, meio que dizendo nas entrelinhas da carta que aquilo não era desejo da pré-candidatura Flávio Bolsonaro.

Esse é o primeiro episódio da história. O segundo episódio é mais recente. Flávio Bolsonaro submete à Comissão de Comércio Internacional do governo norte-americano, que tá preparando uma audiência pública a respeito das medidas a serem tomadas contra o Brasil em defesa da soberania brasileira, teoricamente. Contrário, portanto, às tarifas. Mas esse documento que ele submete agora no fim de junho, e que enfim em tese vai embasar uma fala do senador no dia 6 de julho, é um documento muito longo, cheio de explicações sobre plano de governo.

São 80 e tantas páginas esse documento, com muitos anexos, mas que podem ser entendidos como um documento de cunho eleitoral, né? É o Flávio tentando de alguma forma embasar a sua posição de crítica às tarifas, mas ao mesmo tempo deixando uma janelinha aberta para que essas tarifas venham depois das eleições. E isso chamou muito atenção de analistas, da imprensa como um todo, porque é um documento que eu diria que não tem precedentes na história do Brasil de um candidato, um pré-candidato à presidência da República, acessar canais oficiais do governo americano para o ajudarem na sua eleição em outubro.

NNNatuza Nery

Isso porque governos falam com governos, né? Um senador da República, em tese, ele falaria com homólogo, ou seja, um senador senadora da República, um parlamentar. Enfim, não é normal esse tipo de caminho da comunicação, é isso?

?Voz D

Se a gente fosse seguir o protocolo da diplomacia tradicional, deveria ser governo com governo, representante do Executivo com representante do Executivo, senadores com senadores e assim por diante. Não é isso que vem acontecendo nos últimos anos, e eu diria que essa nem é uma invenção de Flávio Bolsonaro ou do bolsonarismo. A diplomacia global, ela tá conectada por muitas vias distintas, Esse é um efeito da própria, se a gente quiser, da própria globalização, da expansão das redes sociais, da formação de redes ideológicas que não necessariamente obedecem às fronteiras nacionais.

É novo, é estranho de alguma forma, porque isso bagunça um pouco a nossa ideia de relações internacionais ou de política exterior pensada a partir do Estado, obviamente, e acrescenta um elemento de complicação numa equação que, mesmo que não houvesse bolsonarismo, Flávio Bolsonaro nessa história, já seria suficientemente difícil de encaminhar, porque são relações que envolvem interesses ora de Estado, mas ora também interesses específicos de grupos internos ou de figuras específicas dentro de governos, mas que colocam ali muita pressão sobre esse relacionamento de Brasil-Estados Unidos que vem evoluindo de um ano para cá.

NNNatuza Nery

Eu queria sondar aqui com você, e esse é um dos propósitos deste episódio, para saber se as medidas abordadas por Flávio Bolsonaro nessa mais recente carta, elas te parecem atender aos nossos interesses. Eu vejo o problema em várias delas.

?Voz D

É um documento que calca todos os argumentos contra as tarifas, ou pedindo para postergar-se as tarifas, ou mesmo que oferece propostas aí no campo do Pix. E é uma pauta que tá muito ligada, no caso do Flávio Bolsonaro, ao que ele chama de desdolarização da economia global, que é um tema muito caro ao governo Trump, que o Trump já vem falando dele desde a campanha de 2024. Em todos esses elementos e argumentos que a gente vê no documento, tem ali uma questão de fundo, que é: eu quero, Flávio dizendo isso, eu eu quero que o governo americano, eu quero que as instituições americanas me ajudem a ganhar as eleições presidenciais de outubro.

Então parte dos argumentos inclusive são especificamente calcados nessa premissa. É, o argumento é muito claro: eu preciso que vocês modulem, vocês Estados Unidos, modulem as suas medidas contra o Brasil a partir do meu cálculo sobre aquilo que eu posso ganhar antes das eleições e aquilo que o Lula pode eventualmente ganhar ou perder até as eleições. Então esse me parece o elemento mais problemático de todos, porque você não pode submeter o interesse de dois países, uma relação complexa, uma relação de 200 anos de história, ao interesse eleitoral de um determinado candidato que promete, no meio disso tudo, inclusive rifar certos setores da economia brasileira em benefício próprio.

Com relação às medidas específicas, eu até entendo onde ele quer chegar quando ele fala da questão do Pix não se integrar a sistemas de pagamento não ocidentais. É uma visão absolutamente parcial, limitada do mundo. Desconsidera, por exemplo, que grande parte do nosso comércio não tá mais dentro do Ocidente. De alguma maneira, a colocação de que o Pix vai ficar dentro do Ocidente é uma forma de agradar aos Estados Unidos em algo que não os beneficia de maneira alguma.

Então esse me parece um ponto muito problemático também, pensar que você tá sacrificando um potencial que a economia brasileira apresenta desde a introdução do Pix em nome de uma circunscrição ideológica que o Flávio Bolsonaro quer fazer para agradar o seu interlocutor norte-americano. Uma outra proposta que ele coloca e que é muito problemática também é a saída do Mercosul. Ele não fala exatamente sair do Mercosul, mas ele diz: olha, eu posso estabelecer comércio, fazer comércio daqui para frente sem o Mercosul, me livrando das amarras impostas pelo Mercosul, inclusive seguindo o exemplo de Javier Milei na Argentina.

NNNatuza Nery

Com quem ele esteve recentemente, diga-se de passagem.

?Voz D

Exato. E um ponto importante a respeito disso é que o ele tem sido muito grosseiro na diplomacia conduzida com a região. Ele deliberadamente não participa de reuniões do Mercosul, por exemplo. Porém, a Argentina não saiu do Mercosul. Não tá claro o que o Flávio quer dizer com essa afirmação nesse documento específico. Se a gente lembrar de uma entrevista que o Paulo Guedes deu logo depois da vitória do Bolsonaro nas eleições de 2018, em que ele foi muito claro e até meio, meio grosseiro, dizendo: Mercosul não nos importa, a gente não quer saber do Mercosul.

Pode ser que o Flávio Bolsonaro queira seguir a mesma linha, mas lembrando que o próprio Bolsonaro pai não saiu do Mercosul enquanto foi presidente. Mas eu diria, para resumir, que a gente tem propostas que realmente são problemáticas no longo prazo, que afetam diretamente o nosso comércio, que afetam a própria institucionalidade do comércio brasileiro, que tem problemas, mas que não deve ser abandonado. E é quase uma declaração, para além da questão eleitoral que eu comentei, uma declaração de submissão completa aos interesses norte-americanos, o que não me parece, voltando à discussão de interesse nacional algo que atenda aos nossos interesses de longo prazo.

É quem que a gente quer ser no mundo? A gente quer ser um vassalo dos Estados Unidos ou a gente quer ser um país autônomo, independente e soberano? Essa é basicamente a escolha que tá sendo colocada. De novo, há quem diga que ser submisso aos Estados Unidos é parte do nosso interesse nacional, mas eu pessoalmente acredito que não seja.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Guilherme Casarões.

?Voz A

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NNNatuza Nery

O mais impressionante ali na carta, entre muitos pontos impressionantes, é quando ele fala na suspensão do tarifaço, pelo menos até as eleições. Ele não tá questionando a sobretaxa, ele tá dizendo que, olha, vamos suspender para ver o resultado da eleição, tá? E se ele perder a eleição, ele defende o quê? Que possam tarifar. Então essa, esse ruído acabou se voltando contra a própria campanha de Flávio Bolsonaro. Então eu quero te perguntar se você acha que a estratégia de Flávio Bolsonaro está se mostrando bem-sucedida até aqui.

?Voz D

Natuza, eu diria que há momentos variados dentro dessa estratégia que foram positivos para campanha do Flávio e alguns que são desastrosos. Eu diria que durante um bom tempo da pré-campanha, a gente ainda tá em pré-campanha, o Flávio Bolsonaro vendeu uma ideia fictícia, falaciosa, mas uma ideia de que só ele ou só um representante do bolsonarismo poderia manter uma boa relação com os Estados Unidos, principalmente os Estados Unidos de Trump.

Relação positiva com os Estados Unidos seria um dos principais pontos do programa de governo de Flávio Bolsonaro. Lembrando que o senador não tem exatamente muito a oferecer até aqui, né? Ele é quase como se fosse um um recipiente vazio do ponto de vista de proposta, né? Então, é, como ele tem pouco a oferecer, como ele não tem exatamente um programa de governo, pelo menos até aqui não mostrou absolutamente nada para o público, essa relação com os Estados Unidos meio mistificada virou a grande âncora da campanha dele por muito tempo.

E até ali a coisa parecia estar funcionando, sobretudo se a gente levar em consideração que o Trump de fato parece, na sua relação com o resto do mundo, dar preferência a aliados ideológicos Quando questionado sobre a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, Donald Trump respondeu que estava muito descontente.

?Voz B

Ele falou que não conhecia Bolsonaro tão bem, como ele já tinha falado antes, mas que o considerava um bom presidente. Trump disse ainda que foi surpreendente que a condenação tenha acontecido e lembrou que tentaram fazer o mesmo com ele aqui nos Estados Unidos e não conseguiram.

?Voz D

E a outra coisa que o governo Lula e o Alexandre de Moraes tem que levar em porque se as eleições de 2026 ocorrerem sem o presidente Bolsonaro, nós temos sim um previsível e trágico destino de a eleição aqui não ser sequer reconhecida pelos Estados Unidos. Aí veio o dia seguinte das primeiras sanções, em que o governo brasileiro, tanto pela figura do presidente Lula, mas também por vários ministros, o Haddad, o Alckmin, o Mauro Vieira, a Simone Tebet, começaram a fazer negociações intensas ali no sentido de reduzir os impactos das tarifas, da Lei Magnitsky, de outras sanções que foram colocadas sobre autoridades brasileiras, a investigação comercial.

E a coisa pareceu se normalizar durante um tempo, que colocou a campanha do Flávio Bolsonaro numa dificuldade temporária, porque por meses havia aquela percepção, inclusive era que eu tinha naquele momento, né, entre o final do ano passado e começo desse ano, de que as coisas se normalizariam sem a necessidade de mais uma interferência norte-americana, que o Trump provavelmente não faria nada com relação às eleições brasileiras e assim por diante.

E isso nos leva ao encontro do Lula com Trump em Magno. Ali o Lula demole completamente aquele argumento de que só um Bolsonaro seria capaz de ter interlocução naquela Casa Branca. E naquele momento eu achava que esse, esse elemento Estados Unidos da campanha do Flávio Bolsonaro teria sido apagado completamente. Agora, 3 semanas mais tarde, Flávio Bolsonaro consegue marcar um encontro com Trump. Essas 3 semanas foram muito críticas porque foram aquelas em que foi muito, muito comentado na imprensa em função do seu envolvimento com Daniel Vorcaro do Banco Master.

Então, a ida do Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos no final de maio foi uma tentativa de virar a página com relação às críticas que ele vinha recebendo e, de alguma maneira, fazer ressurgir essa ideia de que o Trump dá de fato preferência, prioridade aos aliados ideológicos. E, de certa forma, a decisão logo na sequência de designar o PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas, ela veio a reboque disso.

NNNatuza Nery

E coincide com o momento de queda ficha de que os Estados Unidos precisam, aos olhos do Trump e do seu entorno, exercer uma influência maior na região, né? Voltou ao que eles estão chamando, que se chama, alguns analistas, de doutrina Monroe. É uma releitura da doutrina Monroe, aquela política de 200 anos atrás para reafirmar a soberania dos Estados Unidos sobre o Ocidente. O objetivo agora é barrar a influência da China e da deste lado do planeta.

?Voz D

Estados Unidos já tinham, já tinham esse plano colocado sobre a mesa há muito tempo, desde a campanha do Trump em 24, mas sobretudo desde a publicação do documento A Estratégia de Segurança Nacional em novembro de 2025. Isso já tava muito claro lá. O Trump chama de Corolário Trump a Doutrina Monroe. Então é uma leitura um pouco diferente do que aquela que a gente tá acostumado a ver, mas de todo, de toda forma, essa percepção de que seria fundamental que os Estados Unidos de alguma maneira se projetassem sobre a América Latina, né, para que os Estados Unidos pudessem inclusive tirar a China da regional, reduzir a influência de competidores estrangeiros.

Enfim, tudo isso parecia se alinhar com esse objetivo do Flávio Bolsonaro, inclusive ao pedir oficialmente a designação desses grupos criminosos como grupos terroristas. Então tudo aquilo parecia estar fazendo muito sentido. E a questão do PCC, do Comando Vermelho em particular, ainda tocava em algo muito crucial para campanha do Flávio Bolsonaro e para disputa eleitoral como um todo, que é a questão da segurança pública. Pública.

Mas veja, o grande problema é que atrelado a essa decisão, essa decisão de designar esses grupos como grupos terroristas, veio uma nova rodada de tarifas, uma nova ameaça de tarifas por parte dos Estados Unidos. Então a estratégia do Flávio bagunçou-se completamente de novo. Você tem um candidato, no caso o presidente Lula, que busca manter uma relação com os Estados Unidos a partir dessa perspectiva de Estado, de relação entre governo externos, é uma política externa reativa com relação às medidas que os Estados Unidos tomam, mas ela não deixa de ser construtiva dentro daquilo que é possível ser construtivo diante das ameaças que vêm sendo colocadas contra o Brasil.

E você tem um outro candidato que, até para fazer contraponto ao presidente Lula, oferece fazer todas as concessões possíveis e imagináveis para garantir que seja eleito em primeiro lugar e que possa manter uma relação especial com Trump em segundo lugar.

NNNatuza Nery

Eu quero congelar essa tua, esse final da tua fala, porque eu tô querendo te perguntar isso desde que a gente decidiu fazer o episódio a esse respeito. Os sinais que o Flávio Bolsonaro está dando até aqui são sinais de que se ele for eleito ele vai ter uma relação altiva, né, de igual para igual, aqui claro fazendo todas as relativizações possíveis do tamanho dos Estados Unidos e do tamanho do Brasil, mas uma relação de respeito é uma relação de entrega, de entreguismo.

?Voz D

É uma relação de entrega. E veja que entreguismo é um termo que foi muito usado nos anos 50, naquele segundo governo Vargas, eleito democraticamente ali em 50, quando entreguismo foi o rótulo usado pelos nacionalistas pró-Vargas para caracterizar membros do próprio governo ou membros da oposição no Congresso que queriam manter uma relação mais estreita com os Estados Unidos. Então, a palavra entreguismo no nosso léxico político, ela tá historicamente associada a essa relação com os Estados Unidos, que foi sempre a relação mais importante para nós, pelo menos no período republicano, e que tem, claro, um peso muito grande no nosso imaginário coletivo.

É uma coisa, Natuza, é a gente admitir que a relação com os Estados Unidos é uma relação assimétrica e desigual. Ou seja, é reconhecer que no mundo do jogo de poder os Estados Unidos são muito mais poderosos que o Brasil. Outra coisa é o que se faz com isso, porque a partir do momento em que você entende que a gente tá falando de uma relação entre desiguais, entre um país muito poderoso e um país relativamente frágil, de novo, não pelo território que o Brasil tem ou pelos recursos, mas pela sua posição geopolítica, uma das opções é você buscar reduzir as assimetrias e manter um relacionamento de cabeça conseguida, como você disse, altivo com relação aos Estados Unidos.

Eu diria que essa tem sido a regra basicamente ao longo de muitas décadas no Brasil. A outra possibilidade é sempre a possibilidade da submissão. Eu não consigo compreender na cabeça de quem nesse país essa submissão pareça algo bom. Geralmente o argumento de quem defende essa submissão, uma relação mais estreita com os Estados Unidos com vistas a melhorar o comércio, com vistas a apaziguar o governo americano, geralmente foca na dimensão do comércio.

Ah, o Brasil vai ter possibilidades maiores de comércio, o Brasil vai ter transferência de tecnologia, o Brasil vai ter novas perspectivas geopolíticas se a gente abraçar esse mundo judaico-cristão ocidental. Mas a gente viu, tanto no governo Bolsonaro, governo Jair Bolsonaro, quanto na relação que os Estados Unidos mantêm com outros países do mundo, que essa lógica não se aplica nas relações internacionais. Primeiro que o fato de você ser submisso aos Estados Unidos não significa nunca é nenhum tipo de concessão adicional por parte dos americanos.

E sobretudo nesse governo Trump, a gente tá vendo que essa estratégia tem muitos problemas. Então a gente tem exemplos, o caso da Argentina é muito crítico, de promessas que foram feitas pelos Estados Unidos para salvar a economia da Argentina que não foram cumpridas, de promessas que foram feitas por governos europeus para apaziguar os interesses do presidente americano que não foram apaziguados. Então essa concessão unilateral, essa submissão, quase Brasil, ela não tem espaço na dinâmica da política internacional de um modo geral.

E por mais que a estratégia do Trump envolva você fazer elogios, você geralmente falar o que o Trump quer ouvir, né, em determinadas circunstâncias, na prática isso tem dado muito errado ao redor do mundo. E a nossa própria história, olha que eu não tô nem falando de Trump, mas se a gente pega lá governo Dutra nos anos 40, governo Castelo Branco nos anos 60, governo Collor nos anos 90. Em todos esses momentos, a submissão gerou muito mais prejuízos econômicos, inclusive para o Brasil, comerciais, do que benefícios.

Então a gente tem tanto a história quanto os exemplos contemporâneos para nos ilustrar que, olha, essa relação com os Estados Unidos ela tem que ser administrada de uma outra forma que não a forma da servilidade. O documento Flávio Bolsonaro e todas as decisões, a bem dizer, que Eduardo Bolsonaro vem tomando a partir dos Estados Unidos, que Flávio Bolsonaro vem tomando na sua pré-campanha, apontam para essa direção, que que eu pessoalmente acho que é muito perigosa e é uma direção que coloca o Brasil numa extrema vulnerabilidade.

Mesmo se Flávio Bolsonaro for eleito em outubro, a gente começa 2027 basicamente submissos aos interesses norte-americanos e restando muito pouco daquilo que o Brasil tem de margem de negociação efetiva para tentar extrair pelo menos o respeito e a dignidade junto a essa relação com os Estados Unidos.

NNNatuza Nery

Meu caro Casarões, muito obrigada por você ter voltado aqui ao assunto. A gente já tava sentindo a sua falta. Bom trabalho para você.

?Voz E

Obrigado, Natuza, um prazer falar contigo.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.

?Voz A

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