O 'Super El Niño' e as mudanças climáticas: o novo normal infernal
- Previsão climática El NiñoSuper El Niño · Ondas de calor sem precedentes · Temperaturas recordes nos oceanos · Impactos no Brasil (Sul, Norte, Nordeste) · Aumento da frequência e potência de eventos extremos · Mudanças climáticas provocadas pela ação humana · Pontos de não retorno (Amazônia, Groenlândia, Antártida, Ártico) · Ecocídio e risco de aquecimento de 2 a 2,5 graus
- Impactos do El Niño no BrasilChuvas na região Sul · Estiagem nas regiões Norte e Nordeste · Aumento da temperatura em todo o território · Risco de secas históricas na Amazônia e Cerrado · Vulnerabilidade de cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro) · Impactos no setor agrícola (soja, milho, arroz, café, cana-de-açúcar) · Impactos no setor hídrico e produção de energia
- Crise ClimáticaQueima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás natural) · Emissões de gases de efeito estufa (CO2, metano) · Aumento da temperatura global (1,5 graus) · Responsabilidade histórica dos países (EUA, China) · Desmatamento e agropecuária como fontes de emissão no Brasil · Necessidade de políticas públicas e ação individual
- Adaptação e Prevenção de Desastres ClimáticosPacote de R$ 10 bilhões do Governo Federal · Sistema nacional de alerta · Capacidade técnica e institucional do Brasil (monitoramento, previsão) · Ações antecipatórias em vez de reativas · Iniciativa 'Adapta Cidades' · Planos de adaptação para municípios · Restauração florestal em cidades (telhado verde) · Zerar o uso do fogo e combater o crime organizado
- Riscos ClimaticosRemoção de vegetação em cidades brasileiras · Aumento da temperatura em favelas sem vegetação · Impacto de telhas de zinco e amianto · Risco para idosos e bebês · Aumento de casos de arboviroses (dengue)
Em pleno inverno, você acorda com o celular apitando: alerta de calor extremo. Dias depois, uma chuva torrencial alaga cidades inteiras. Em outro canto do país, a terra racha de tão seca. Parece contradição, mas por trás de tudo isso pode estar um mesmo fenômeno: o El Niño.
Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o CEMADEM, há 80% de chance do El Niño se estabelecer no Oceano Pacífico Equatorial, perto da linha do Equador, e pode provocar um desastre térmico. Climatologistas acreditam que este El Niño poderá ser o mais forte dos últimos 140 anos.
O El Niño ocorre quando as águas da superfície do Oceano Pacífico, que fica entre a América do Sul e a Oceania, esquentam mais do que o normal. Isso muda a direção dos ventos e das chuvas em boa parte do planeta. É como mexer numa peça de dominó e ver— todas as outras começarem a cair.
No século 19, foi registrado um de excepcional intensidade. No Nordeste do Brasil, uma das piores estiagens já relatadas destruiu lavouras e causou êxodo em massa. Seca, fome e doenças associadas ao aquecimento das águas do Pacífico mataram milhões de pessoas ao redor do mundo. Esses episódios potentes com a superfície do Pacífico mais de 2 graus acima da média ocorreram mais 4 vezes nos últimos 150 anos. No último, o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos, com mais de 80% dos municípios afetados, quase 1.400 de forma extrema.
Vamos voltar a 2024. Ano em que cerca de 30 milhões de hectares arderam em chamas pelo Brasil, uma área 60% maior do que a média histórica. A Amazônia, por exemplo, nunca tinha queimado tanto.
A gente teve essa situação também que a água que nós tava bebendo, né, parecia que tava fervendo. A gente descia pra beira pra pegar água umas 3 horas da tarde, 2 horas da tarde, a água tava quente mesmo. Bastante quente e tava ruim para beber, para tomar banho.
Seca total de um lado, chuva extrema do outro. E foi também em 2024 que o Rio Grande do Sul viveu uma das suas maiores tragédias: 185 mortos. Uma estimativa de 6 milhões de pessoas afetadas.
A maior enchente que já aconteceu aqui foi a de 2010 e ficou coisa de 1,5m, 2m abaixo do que tá hoje. Muita diferença, muito mais água. Alguma coisa assim sem comparação do que já ocorreu aqui outra vez.
O El Niño daquele ano foi considerado pela Organização Mundial da Saúde o quinto mais poderoso da história. Só que o de agora, o previsto para este ano, pode ser muito pior.
O Brasil é um país extremamente vulnerável não só à mudança do clima, mas aos efeitos do El Niño. E quando uma coisa é agravada pela outra, Isso pode representar impactos que atingem diretamente a população.
E aí é que está o pulo do gato. Apesar de ser um fenômeno climático natural, esta é uma crise resultante da combinação de diferentes fatores. Entre eles, um se destaca: a cúpula de calor que hoje sufoca o planeta.
A união do aquecimento global com um El Niño potencialmente intenso pode agravar eventos climáticos extremos.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a dura verdade é que falhamos em garantir que o aquecimento da Terra seria mantido em menos de 1,5 grau e que isso foi uma falha moral e uma negligência mortal.
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Os cientistas alertam que as ondas de calor estão ficando mais intensas e mais longas, consequência da poluição provocada pela queima de combustíveis fósseis.
O climatologista da Universidade do Colorado, Scott Tannen, explicou que o mundo vem esquentando Aumentando há 50 anos. Isso acontece porque a gente queima carvão, petróleo e gás para fazer energia elétrica. O carbono vem dessas queimas e fica na atmosfera, e vai continuar lá, fazendo o mundo cada vez mais quente.
É como se o clima naturalmente instável passasse a funcionar sob uma panela de pressão, uma panela que nós mesmos colocamos no fogo ao negligenciar as mudanças climáticas. E o resultado? Ondas de calor mais intensas, mais duradouras e mais perigosas. E a partir daí, eventos mais intensos, mais longos e mais difíceis de prever.
Os médicos do serviço de urgência deste hospital nos arredores de Paris começaram a usar gelo em grandes quantidades para fazer baixar a temperatura corporal dos doentes que têm dado entrada na unidade com hipertermia. "Por aqui, o número de internações duplicou por causa do calor." É um desafio para toda a Europa, que está aquecendo mais rapidamente que o resto do mundo. O Reino Unido é um exemplo disso. O país registrou em junho o dia mais quente da sua história.
Na Espanha, o mês passado terminou com mais de 1.000 mortes associadas às altas temperaturas.
Governos do mundo todo se mobilizam para enfrentar o segundo semestre de 2026. O governo brasileiro inclusive anunciou um pacote de quase R$10 bilhões para preparar os sistemas de saúde e de assistência social. Isso porque a questão já não é apenas se o El Niño vai chegar, é o tamanho do estrago que ele pode causar ao encontrar um planeta cada vez mais quente.
Agora não se tem tempo para se preparar infraestrutura, mas as medidas de resposta, sim. Qual serão os agentes públicos acionados e todas as medidas de resposta de evacuação, de preparação daquela cidade para ela responder ao desastre, que como eu disse, o Brasil é um país de dimensão continental e os desastres são muito diferentes dependendo da região que você olha.
Brasil, tá preparado para responder a esse desafio?
Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o super El Niño, as mudanças climáticas e o novo normal infernal. Neste episódio, converso com Carlos Nobre, climatologista e cientista sênior da Universidade de São Paulo. Ao lado de outros cientistas, Carlos Nobre recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007 como um dos autores do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU. Eu converso também com Lincoln Alves, coordenador-geral do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e autor líder do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.
Sexta-feira, 3 de julho. Professor, muitos cientistas estão dizendo que o El Niño deste ano vai ser o pior em 140 anos. Eu queria te perguntar, começar te perguntando, por quê?
As projeções dos centros climáticos meteorológicos do mundo todo estão indicando que esse El Niño pode atingir a categoria muito forte, até ser, como você falou, um El Niño dos mais fortes aí por mais de um século.
A Organização Meteorológica Mundial divulgou um estudo que indica extremos climáticos com temperaturas excepcionalmente altas em quase todas as partes do planeta nos próximos 3 meses e alertou para uma maior probabilidade de chuvas fortes e secas. O secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que o El Ninho vai alimentar ainda mais o aquecimento global, que os impactos serão ainda mais severos, cruzando fronteiras com uma velocidade devastadora, e que o mundo deve tratar isso como um alerta climático urgente, que é.
E se mede muita temperatura ali do Oceano Pacífico Equatorial, a superfície do mar. A gente chama Ninho 3.4, que é ali no meio do Oceano Pacífico Equatorial. E muito forte é quando a temperatura ali passa passa de 2,5 graus da média. De março para abril, para maio, para junho e agora em julho, essa temperatura já chegou a 1,2 grau. E as projeções são que continua a aumentar e atingiremos essa forte setembro, outubro, novembro e dezembro.
Ser um dos mais fortes El Niño. Quase todos aqueles meses, agosto de 2023 até abril 2024, foi um El Niño moderado. Mas esse será forte, mais provavelmente muito forte. Então nós temos que estar muito preparados.
A gente vive a nossa história marcada por eventos climáticos extremos. Eles não existem desde recentemente, existem já há muito tempo, mas eles se tornaram mais avassaladores, mais frequentes, mais intensos. E eu queria te perguntar o que que nós, humanidade, temos a ver com isso?
É nossa responsabilidade, porque fomos nós que praticamente, desde que começamos a utilizar combustíveis fósseis, carvão, petróleo, gás natural, isso começou lá no fim do século 18 na Inglaterra, depois a industrialização levou isso no século 19 em muitos países, e depois no século 20 praticamente em todo mundo.
As mudanças começaram a ser percebidas já no fim do século 19. O grande pintor francês Claude Monet retratou a poluição em Londres na época. Há quem diga que a névoa misturada com a fumaça das fábricas durante a queima do carvão influenciou Monet nas suas técnicas impressionistas de pintura. Mas foi no fim do século passado, depois do início do uso do petróleo como combustível, que as evidências científicas começaram a comprovar a relação direta do aumento das emissões do dos gases do efeito estufa com o aumento da temperatura na Terra.
E essas são as principais fontes dos gases de efeito estufa, o gás carbônico, e 75% das emissões dos gases de efeito estufa vem dos combustíveis fósseis. Então nós é que causamos esse aumento da temperatura. A ciência já vem dizendo há muitas décadas que se a gente continuar emitindo esses gases Principalmente o gás carbônico, ele vai manter o aquecimento global. E pela primeira vez na história recente das civilizações, a temperatura atingiu 1,5 graus.
Segundo semestre de 2023, 2024, o ano mais quente. E a ciência já mostrou: nós vamos atingir 1,5 graus permanentemente até 2030. E nós cientistas climáticos, nós estamos há mais de 30 anos dizendo: olha, na hora que atingir 1,5 graus de aquecimento, todos os eventos extremos, ondas de calor, chuvas excessivas, secas, incêndios florestais, vendavais, ressacas, tudo vai aumentar demais, não vai aumentar um pouquinho. Exatamente o que aconteceu nesses últimos 3, 4 anos.
Então Nós temos que estar muito preparados porque não estamos, mundialmente falando, não estamos adaptados para esses eventos climáticos extremos que já estão ocorrendo.
Se a gente continuar nesse passo, o que vai acontecer com a gente daqui a 30 anos, já que o senhor citou esse marco temporal dos últimos 30?
É muito grave, porque nós tínhamos uma enorme expectativa. A COP30 seria a mais importante das 30 COPs, porque todos os países países concordariam e acelerar demais a redução das emissões. Infelizmente, poucos países não concordaram. As emissões aumentaram em 2025, continuam altas agora no começo de 26. Aí sim, respondendo sua pergunta, em 25, 30 anos, nós lá na década de 2050, nós podemos chegar a 2, até 2,5 graus de aquecimento.
Se isso acontecer, é o que a gente chama ecocídio, É um suicídio ecológico pro planeta. Nós temos muitos pontos de não retorno no planeta.
E esses são os chamados pontos de não retorno. Eles são limites que, se forem cruzados, desencadeiam mudanças graves e sem volta. Na Amazônia, o risco é da savanização. Já na Groenlândia e na Antártida, a preocupação é com o gelo. Se as temperaturas continuarem subindo, partes das camadas de gelo podem começar a derreter sem parar. E tem mais, tá? O permafrost, um solo congelado do Ártico, tá começando a descongelar e ele libera gás metano, um super poluente climático. Se o aquecimento passar de 1,5°C, essa liberação pode sair do controle.
E muito triste pra nós aqui do Brasil, nós vamos passar do ponto de retorno da Amazônia do Cerrado, da Caatinga e do Pantanal. Vamos perder a maioria desses biomas. Isso significa o quê? Nós chegaremos em 2100 com 3 a 4 graus de aquecimento. Isso é o que nós chamamos ecocídio, né? Nós vamos causar a sexta extinção de espécies e também, mesmo para nós humanos, vai ser muito perigoso. Por exemplo, lugares tropicais no nível do mar Lá por 2070, 2080, Belém seria inabitável.
Quando está muito quente e úmido, muito mais quente que a nossa temperatura do corpo, 35 graus, a gente morre. E isso o ano todo. Por exemplo, outras partes do Brasil, o Sudeste, o Sul, mais de 100 dias durante o verão inabitável também. Então só estou mencionando o risco que nós estamos colocando o planeta.
Eu queria conectar essa previsão, ou esse risco, melhor dizendo, né, mais do que uma previsão, é um risco, para uma pessoa que mora na cidade de São Paulo ou no Rio de Janeiro, se nada for feito e continuar nesse passo até 2070. Como é que será a nossa vida no verão do ano de 2070, se nada for feito?
Sem dúvida, um enorme risco. E qual é o risco que aumenta muito de viver em cidades brasileiras? Nós removemos as vegetações quase totalidade das cidades brasileiras. O Rio de Janeiro tem mais Mata Atlântica que São Paulo, mas tem muitos bairros, principalmente as favelas, sem vegetação. São Paulo quase a totalidade de onde moram as populações da cidade de São Paulo, praticamente não tem vegetação. Então isso, além do aquecimento global, quando você tem uma favela totalmente sem vegetação, a temperatura nos dias muito quentes do verão chega a ser 6 a 11 graus mais quente nesses locais comparado com um local de bastante vegetação. E muitos estudos já têm mostrado isso.
No Rio, a brisa fresca que A sopra do mar não chega longe, muito menos ao Complexo do Alemão, na zona norte da cidade, onde a sensação térmica já bateu 50 graus. Becos sem ventilação, nenhuma vegetação, casa colada uma na outra, telhas de zinco e de amianto que armazenam o calor e transferem para dentro das casas. Nos dias mais quentes do ano, esses são os lugares que mais sofrem. Isso aqui parece um caldeirão de fervura. Nas últimas semanas de 2025, aqui no Alemão e nas outras favelas nas mesmas condições, o calor foi mais insuportável do que em qualquer outro lugar da cidade.
Um enorme risco. E lógico, tirando a vegetação, as chuvas seriam mais fortes, porque quando a temperatura tá mais alta, forma nuvens mais altas, cúmulos nimbos. Então isso é terrível. 2070, Se a gente continuar com aquecimento global e não aumentar demais a restauração florestal dessas cidades, inclusive o que a gente não tem no Brasil, muito comum em Singapura, em cidades chinesas, é o telhado verde, né? Coloca plantas no telhado.
Isso em dias muito quentes do verão, ele baixa 4 a 6 graus dentro da residência e também Quando a gente restaura a vegetação, põe o verde, a gente retém muito da chuva forte e diminui demais as inundações. Então, além de combater a emergência climática do aquecimento, mas nós temos que fazer uma mega restauração florestal nas cidades brasileiras, inclusive com telhado verde. A China começou a fazer a restauração florestal das cidades 25, 30 anos atrás e tem mais de 100 cidades totalmente reflorestadas.
Todas as avenidas têm árvore dos dois lados, o telhado verde, muitos parques muito grandes nas cidades. Então esse é um desafio a mais para a gente não tornar as cidades brasileiras quase que inabitáveis até o final desse século.
E o senhor mencionou a China. A China tem uma grande parcela, né, nessa, nessa responsabilidade, né, porque é um grandíssimo emissor de gases do efeito estufa. Aliás, os países países ricos são mais responsáveis. Eu queria terminar pedindo para o senhor nos orientar como é que nós, nós que fazemos o assunto, nós que, as pessoas que ouvem o assunto, uma ação que elas puderem fazer na vida delas, uma mudança que elas podem fazer que ajuda a contribuir para evitar esse cenário devastador.
Deixa eu primeiro só falar da China. De fato, ficamos muito desapontados Porque esperávamos que a China fosse assumir uma grande liderança na COP30. É o país que desde 2000, 25, 26 anos, o que mais emite historicamente. Desde 1850, os Estados Unidos, 25% das emissões, mas agora é a China, 23, 24% das emissões. Ela equilibrou as emissões nos últimos 2 anos, mas ainda é muito alta. E nós esperávamos que a China na COP30 fosse assumir uma enorme liderança, até porque historicamente o maior emissor, Estados Unidos, nem estava lá.
Infelizmente, a China e vários outros países não concordaram com o mapa do caminho de zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis. Mas respondendo a sua pergunta, eu acho que cada um de nós tem que ter uma política de combater a emergência climática. Não é só esperar políticas públicas, nós temos que ter as emissões. Por exemplo, no Brasil, 70% das emissões são mudanças dos usos da terra, desmatamentos, principalmente nas últimas décadas, Amazônia e Cerrado, e agropecuária.
Então, hoje, se nós apoiarmos agricultura pecuária regenerativa, ela é zero novos desmatamentos e também reduz muito as emissões. E nós podemos também, cada um de nós começar a apoiar muito a restauração florestal do país, principalmente na cidade, né? 86, 87% dos brasileiros são urbanos. Acelerar a restauração, inclusive uma coisa cultural, o telhado verde. Claro, não é só uma solução natureza. Nós temos que ir reduzindo as emissões e adaptação todos esses eventos climáticos extremos.
Tem que prestar atenção nos alertas e buscar salvar vidas. No médio prazo, milhões e milhões de brasileiros e brasileiras que moram nessas áreas de risco de chuvas intensas têm que retirar essas pessoas e ter residências em lugares totalmente seguros, sustentáveis. A outra coisa um enorme perigo na Amazônia, no Nordeste, no Cerrado, quando há mega-secas, como o El Niño leva a uma mega-seca nessas regiões, né? Nós temos que zerar o uso do fogo, convencer o setor da agropecuária a não usar mais fogo, e também combater o crime organizado, que em 2024 bateu o recorde de incêndio dentro da floresta Amazônica.
E lógico também, o que mais leva à morte por eventos climáticos extremos no mundo são as ondas de calor. Na França, mais de 1.500 mortes. Esse número deve ser muito maior.
O calor mexe com o nosso corpo. Ele acelera os batimentos, aumenta a pressão, desidrata mais rápido e sobrecarrega o sistema circulatório. Quanto mais calor, mais o nosso corpo fica estressado, tentando regular a temperatura. Isso traz consequências para órgãos importantes como o coração, pulmão e E ainda tem mais: o calor também aumenta o caso de arboviroses, como a dengue. A temperatura acelera a reprodução do mosquito, o que aumenta o número de casos.
Quem é uma idosa, um idoso muito suscetível a uma onda de calor? Bebês. Quando a projeção da onda de calor ocorrer, as pessoas têm que procurar lugares seguros. Então, as pessoas que não têm ar-condicionado têm que procurar lugares seguros. As ondas de calor duram 5, 8, 9 dias. Uma pessoa idosa, doente, que fica esse número de dias na onda de calor, principalmente quando a temperatura mínima é acima de 23 graus, que é muito comum nas ondas de calor, leva muitas, muitas milhares de pessoas à morte.
Professor Carlos Nobre, é sempre uma honra poder entrevistar o senhor. Muito obrigada pelo seu tempo. Espero que muitos líderes possam nos próximos anos ouvir os seus alertas. Muito obrigada.
Eu que agradeço. Muito obrigado, Natuza.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Lincoln Alves.
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Lincoln, olhando para o mapa brasileiro, eu vou te pedir para fazer um exercício de desenhar na nossa cabeça aqui um mapa dos principais impactos do El Niño no Brasil, onde deve ter onda de calor, onde deve ter chuva excessiva ou risco de queimada ou um longo período de estiagem. Faz esse mapa para a gente, por favor.
O importante é mencionar inicialmente que os impactos esperados, eles são regionalmente distintos. Em geral, a maior probabilidade de chuva abaixo da média em boa parte do centro-norte do Brasil, Brasil, né, especialmente o Nordeste e pontos do Oeste e região Norte, né. Por outro lado, a maior probabilidade de chuva acima da média na maior parte da região Sul. E além disso, a maior parte do país apresenta probabilidade de temperatura acima das normais climatológicas, com aumento potencial aí, né, de ondas de calor, secas e queimadas.
O El Niño não é um fenômeno novo, o Brasil já viveu eventos climáticos extremos Nos últimos anos a gente não se recuperou, o país não se recuperou, né, do que viu da tragédia no Rio Grande do Sul. O Brasil hoje ele está mais preparado para enfrentar o El Niño do que estava antes ou a gente andou muito pouco nesse sentido?
Olha, de uma maneira bem objetiva eu diria que o Brasil conseguiu avançar em vários aspectos. O Brasil hoje ele tem uma capacidade técnica e institucional, seja de monitoramento, seja de previsão ou até mesmo de preparação efetiva para uma resposta, né, para eventos extremos. E isso é reflexo, claro, do envolvimento de diversas instituições, como por exemplo Instituto Nacional de Meteorologia, o CEMBEM, o INPE, a ANA, um trabalho bastante coordenado.
Então as ações que a gente vê no Brasil hoje, elas são mais ações antecipatórias e não reativas. Então isso faz com que o Brasil esteja melhor preparado. Isso também não significa dizer que estamos 100% preparados. O Brasil, com os eventos extremos recentes aí da última década, seja ele excesso de chuva ou até mesmo condição de seca, tem demonstrado o quanto o Brasil é vulnerável. Entretanto, essas ações governamentais têm trazido para o Brasil uma melhor segurança do ponto de vista de preparar os municípios a lidar com os eventos extremos.
E claro, O evento extremo, o impacto dele acontece de fato nas cidades. E aí, no âmbito do governo federal, estamos trabalhando numa iniciativa chamada "Adapta Cidades", que é apoiar os municípios na elaboração de planos de adaptação. Então a gente precisa preparar as cidades a lidar com esse novo normal, que é uma frequência cada vez mais de eventos extremos num futuro bem breve.
Você tem o exemplo do Rio Grande do Sul, mas não queria deixar de citar as secas históricas na Amazônia. Isso deve permanecer? A gente deve revisitar cenas que a gente viu não muito tempo atrás, cenas super tristes?
De uma maneira geral, uma condição de um cenário de uma El Niño forte, como está sendo previsto, né, com alta probabilidade de persistência até o início de 2027, os impactos realmente mais prováveis são condições de seca, de calor e de queimadas em grande parte da região norte. Então essas cenas como essa, né, de que a gente viu em eventos passados de populações isoladas, deve se repetir. Entretanto, diante das informações que a gente já tem, já existe todo um planejamento de dar suporte a essas comunidades, essas pessoas que eventualmente já sofreram no passado.
Então o impacto, ele pode ser minimizado desde que considere o potencial impacto do evento que tá sendo previsto.
A gente tá citando exemplos de, da cidade se prepararem mais em razão do El Niño, mas eu queria falar de um setor econômico que é super importante, né, para o PIB brasileiro, que é o setor agrícola. Esse também deve sofrer bastante, eu imagino, com esses eventos climáticos extremos.
Sim, sem dúvida, tanto o setor agrícola quanto o setor hídrico, e aí tá relacionado também a questão de produção de energia. É importante considerar, né, E num cenário de mudança do clima, né, exposto a maior vulnerabilidade socioambiental, esses setores precisam incorporar a agenda de adaptação como uma estratégia de desenvolvimento do setor.
E é justamente essa combinação de excesso de chuva em alguns lugares e falta de água em outros que pode afetar a produção de alimentos. No sul, mais chuva costuma ajudar culturas como soja, milho e arroz. Mas se a água vier demais, a colheita pode atrasar e a qualidade dos grãos cair. Já no Sudeste e no Centro-Oeste, o calor e a seca podem prejudicar culturas importantes como café, cana-de-açúcar, soja e milho. No Nordeste, a falta de chuva pode pesar ainda mais.
Lavouras de milho, feijão e mandioca podem ter perdas e as pastagens também podem sofrer. No Norte, a seca pode reduzir a produção de culturas como mandioca e cacau.
Bom, e aí, para a gente finalizar, né, uma medida que precisa ser tomada urgentemente pelas cidades brasileiras, pelos governos estaduais e pelo governo federal é o próprio desenvolvimento desses planos de adaptação.
Então, é fundamental que esses municípios enxerguem a sua vulnerabilidade e que fortaleça suas capacidades institucionais na construção de planos, de sistemas de alerta que integre setores estratégicos, recursos hídricos, meio ambiente, saúde, e não considere um evento extremo simplesmente como uma temática ambiental. Ele precisa ser enxergado como um tema extremamente transversal, que em todos os setores e que de uma maneira geral é um impacto socioeconômico.
Tem algum município que possa servir de exemplo do que já foi feito em termos de adaptação da cidade para enfrentar esses eventos climáticos extremos?
Em geral, os municípios que a gente tem hoje planos de adaptação são municípios já de grande porte, como por exemplo Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro. O grande problema é que a grande maioria dos municípios do Brasil são médio e pequeno porte. E aí são esses municípios exatamente que sofrem os maiores riscos.
Lincoln, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Bom trabalho para você.
Eu que agradeço a oportunidade. Obrigado, abraço.
Este episódio usou áudios da TV Cultura. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio ferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
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