Episódios de O Assunto

Lula: Alckmin de vice e discurso de candidato

01 de abril de 202625min
0:00 / 25:56
Convidado: Guilherme Balza, repórter de política da GloboNews em Brasília. Nesta terça-feira (31), o presidente Lula comandou a primeira reunião ministerial de 2026 e sinalizou o início extraoficial de sua candidatura à reeleição. No evento, ele anunciou que vai repetir nas urnas a dobradinha com Geraldo Alckmin (PSB), chapa que venceu a eleição de 2022. Lula também anunciou a troca no comando de 14 ministérios, entre eles alguns do primeiro escalão no Executivo – caso da Casa Civil (Rui Costa, PT), Educação (Camilo Santana, PT), Planejamento (Simone Tebet, PSB) e Meio Ambiente (Marina Silva, Rede). O presidente deu aos agora ex-ministros a missão de defender o governo em seus palanques regionais. No mesmo dia, o Palácio do Planalto confirmou que enviará ao Senado a indicação de Jorge Messias, atual advogado-geral da União, como novo ministro do Supremo Tribunal Federal. Neste episódio, Natuza Nery conversa com Guilherme Balza, repórter de política da GloboNews em Brasília, para explicar as mensagens por trás de cada uma das movimentações do governo nesta terça-feira. Natuza e Balza também analisam o discurso de Lula e dos ministros governistas, que apontam a principal estratégia para a corrida eleitoral deste ano: comparar as realizações deste governo com o anterior, de Jair Bolsonaro.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
G

Guilherme Balza

ConvidadoRepórter
Assuntos3
  • Conselhos de LulaGeraldo Alckmin · Reunião ministerial · Troca de ministros · Eleições de 2026
  • Estratégia eleitoral de antagonismoComparação com governo Bolsonaro · Defesa do governo · Alianças regionais
  • Desafios da governabilidadeRejeição ao governo Lula · Crise do incumbente · Impacto da guerra na economia
Transcrição68 segmentoswhispermlx/large-v3-turbo

Quem vê a rotina da esplanada pode nem desconfiar, mas Luiz Inácio, Lula da Silva e Geraldo Alckmin são nomes que nem sempre estiveram na mesma página. Os dois caminharam em direções opostas em boa parte de suas trajetórias políticas. Protagonizaram embates, trocas de farpas, foram oposição um ao outro. Chegaram até a duelar nas urnas para ver quem ficaria com a cadeira de presidente no ano de 2006.

Quando o Lula entrou, tinha 8 milhões de desempregados. Hoje tem 9 milhões de desempregados, um milhão a mais. O Alckmin adora brincar com números, possivelmente porque ele imagina que o povo não vai checar os números deles. O desemprego tem decrescido no Brasil.

Acontece que a política é uma arena onde disputas e acordos se dão o tempo todo. E em 2022, ela colocou Lula e Alckmin não frente a frente, mas lado a lado. O fato de o Alckmin e eu estarmos juntos nessa disputa, é preciso a gente aprender que é o grande fato novo da política brasileira. Eu jamais imaginei que a gente pudesse estar juntos numa campanha.

E de repente a gente está junto. Mas vocês passaram a vida inteira o PSDB e o PT se digladiando aí nas campanhas. Agora estão juntos? Pois é. O que é mais importante? As disputas do passado ou a necessidade do futuro? Na manhã desta terça-feira, Lula anunciou que eles vão repetir a dobradinha. Companheiro Alckmin, que vai ter que deixar o Midic. Ele vai ter que deixar porque ele é candidato a 20 para o dentro da república outra vez.

A manutenção da chapa se deu depois que o vice marcou posição. Alckmin teria dito aliados que não disputaria nenhum outro cargo, que, sem a vaga de vice, voltaria a seu sítio em Pindamonhangaba. Agora, a dúvida acabou. Geraldo Alckmin continuará ao lado de Lula, na condição de candidato a vice-presidente para o próximo período. Na terça-feira, Lula reuniu todo o seu ministério e anunciou 18 ministros vão deixar seus cargos.

Pelo menos 14 companheiros já comunicaram que deixarão o governo a partir de hoje. Mais quatro companheiros que vão anunciar daqui a pouco. E depois, quem sabe, mais alguns, porque até quinta-feira à noite é tempo de me avisar.

Entre os ministros que deixam o governo estão o da Casa Civil, da Educação, do Planejamento e do Meio Ambiente. Tudo há tempo de se colocarem à disposição para a eleição de outubro. Eles voltam aos seus redutos eleitorais e vão trabalhar na construção de alianças regionais. E todos têm a mesma missão.

Eu fico pensando quando vocês falam, dizendo, porque no governo do presidente Lula, no governo do presidente Lula, dá a impressão que vocês não são governo, ou seja, vocês estão comigo esse tempo todo, então o governo não é do presidente Lula, o governo é nosso. O governo é de quem está no governo.

Da redação do G1, eu sou Natuza Neri e o assunto hoje é Lula se pinta para eleição. Neste episódio, eu converso com Guilherme Bauza, repórter de política da Globo News em Brasília. Quarta-feira, 1º de abril.

Bausa, enquanto os pré-candidatos de oposição se mexiam nas últimas semanas, nos últimos dias, o governo não dava sinal de movimentação eleitoral, não. Mas, né, terça-feira, nesta terça-feira, que é quando a gente grava, isso mudou. Num único evento, Lula falou como candidato, anunciou Alckmin na sua chapa, na vaga de vice, e mandou 18 ministros para os seus redutos eleitorais para fazer campanha e defender o governo.

Na sua avaliação, dá para dizer que esse foi o pontapé extraoficial da campanha pela reeleição? Eu acho que sim, Natuza. Dá para dizer que o presidente Lula, nessa reunião de passagem de bastão dos ministros atuais para os substitutos, ele tenta inaugurar uma espécie de nova fase, de nova etapa no governo nessa reta final, já direcionando as atenções.

para as eleições. Ele está, na verdade, se preparando, se pintando, colocando o figurino do candidato, nesse momento, um momento bastante conturbado, é para o governo. Então, nessa reunião, ele convoca os ministros que estão saindo do governo, inclusive ministros de peso, ministro da Casa Civil Rui Costa, Glaise Hoffman, da articulação política, enfim, Camilo Santana, ministro da Educação, nomes de peso do governo.

Ele convoca esses ministros para defenderem o governo daqui para frente nos estados, na construção dos palanques, enfim, na campanha dos estados, não só ministros do PT, mas também de outros partidos que compõem o governo. Ele dá esse recado de forma muito clara. Daqui para frente vocês precisam defender o governo onde vocês estiverem. Então, eu acho que isso ficou muito evidente.

Ele também tira alguns assuntos que estavam no caminho, que estavam, de certa forma, gerando ruído, atrapalhando o andamento do governo. Por exemplo, a definição sobre quem será o seu vice. Durante muitos meses ficou esse debate, a possibilidade de o MDB entregar a vice para o MDB, algo que não fica, não fica. O PSB, que é um partido que é um aliado de primeira hora hoje do PT, incomodado com essa situação.

Lula mandou recado, sim, nos últimos dias para Gilberto Kassab, dizendo que quer conversar sobre vice. Falou para... Três pessoas me relataram isso. Que ele disse, manda o Kassab vir aqui conversar sobre a vice. O problema é trocar algo certo, que é a aliança com o PSB e o Alckmin, que já foi testado e passou no teste ali da lealdade, etc., por algo bem certo, que é a aliança com o MDB.

Então o presidente Lula, na parte que foi transmitida dessa reunião, ele anuncia que Alckmin será o seu vice. Mais uma vez elogia a Alckmin e faz esse anúncio acabando com essa temporada longa de especulações. Ele também anuncia, no momento reservado da reunião, que ele vai enviar ao Congresso Nacional a mensagem indicando o advogado-geral da União, o Jorge Messias, para ocupar a vaga do ministro Luiz Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal.

Também está travancado há alguns meses, uma vez que o Davi Alcolumbre não deu, o presidente do Congresso, o Davi Alcolumbre, o presidente do Senado, não deu qualquer sinalização ao governo de que marcaria uma sabatina e que se empenharia a ajudar o Messias a ser aprovado na sabatina na CCJ e também no plenário do Senado Federal.

Não dá para dizer que Alcolumbre não sabia que o nome iria ser enviado em breve, sabia. Aí agora fica a questão, Alcolumbre vai criar dificuldades para a aprovação de Jorge Messias ou não? Então, o Lula, de certa forma, tenta limpar a pauta e no discurso ele dá pistas de qual vai ser a linha política daqui para frente. Ele abre a fala dele fazendo uma comparação com o governo Bolsonaro.

dizendo que ele assumiu o governo em 2023 e hoje entrega um governo, um país, numa situação muito melhor do que a que ele herdou quando houve a troca de governo, saiu Bolsonaro e começou o terceiro mandato dele. Então ele estabelece ali já um antagonismo, que é um terreno que o PT está acostumado a jogar desde o início dos anos 90, quando havia a polarização.

com o PSDB. O PT perdeu eleições com o PSDB, depois ganhou várias eleições. Então, é um jogo que o PT acredita está credenciado para jogar. E também o presidente Lula nessa reunião, ele faz, na parte reservada, ele faz ataques ao senador Flávio Bolsonaro. Ele disse que o Flávio Bolsonaro, numa viagem recente que fez para os Estados Unidos para participar da CEPAC, que é aquele organismo que reúne figuras do campo da direita, da extrema direita, o Flávio fez um discurso longo, abordando vários tópicos.

esse encontro. Então, o presidente Lula diz que o Flávio está indo para os Estados Unidos porque ele quer forçar o Donald Trump, ele quer estimular o Donald Trump a interferir no Brasil no processo eleitoral. E qual é o cenário desse lançamento informal da candidatura pela reeleição, Balsa? O que tem na atmosfera política que atrapalha ou ajuda o atual presidente da República?

Um cenário bastante adverso, Natuzi, um cenário muito diferente daquele que os auxiliares do presidente esperavam nesse março, abril do ano de 2026. Por quê? Primeiro você tem questões estruturais que já dificultam a vida do incumbente, a tal da crise do incumbente. Ou seja, os candidatos à reeleição já têm uma dificuldade por uma falta de perspectiva generalizada, não só no Brasil, mas no mundo inteiro você tem essa crise do incumbente.

que é uma falta de ânimo da população, de esperança, etc. E aí aqui no Brasil você tem aquelas posições muito calcificadas, a rejeição do Lula muito calcificada. Enfim, ao mesmo tempo, uma espécie de fadiga de material relacionada ao presidente Lula, porque ele já foi presidente por três mandatos, concorreu diversas eleições, então tem uma rejeição grande.

essa fadiga de material, isso até é admitido por pessoas próximas ao presidente Lula. Então você tem fatores estruturais, mas tem fatores conjunturais, digamos assim, de impacto imediato. Começo do ano é sempre difícil, muita conta para pagar, você tem alimentos, muitas vezes o preço aumentando, então gera uma insatisfação maior na população. Tem esses fatores conjunturais e o curto prazo, digamos assim, mas tem fatores conjunturais que vão durar muito tempo ainda. Por exemplo, a crise do Máster, a crise do Máster, o escândalo do Máster.

desorganizou completamente os arranjos políticos aqui em Brasília, balançou essa aliança que existia durante os últimos anos entre o governo, entre o Executivo e o Supremo Tribunal Federal. E é uma crise que, apesar de não ter o governo no centro, o governo não está no centro da crise do Banco Master, acaba respingando muito no governo porque afeta o Supremo Tribunal Federal, que teve essa aliança, alguns ministros, os ministros de importância.

E ministros do Supremo, inclusive, esperavam que Lula agisse diferente, que tivesse uma conduta de defesa de Dias Toffoli, por exemplo? Exatamente. Ficaram incomodados os ministros do Supremo, por exemplo, quando o delegado-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, levou até o presidente do Supremo, Edson Farquim, as denúncias que apareceram nas investigações da Polícia Federal contra o Dias Toffoli.

Isso foi um ponto. Outro ponto é uma queixa de que o presidente Lula, que o governo não defende o Supremo Tribunal Federal, o Supremo que foi um aliado do governo na defesa da democracia, o Supremo que conduziu o julgamento histórico do golpe, etc. Então, de fato, há uma espécie de ressentimento do Supremo em relação ao governo. Mas o Supremo, durante os últimos meses, ficou no centro, apesar de também não ser exatamente o centro do escândalo do Másquer.

ficou muito em evidência em função da suspeita sobre o Toffoli e o Alexandre de Moraes. Isso tudo, o escândalo do Márcio, Natuza, vai criando um ambiente de insatisfação generalizada com a política, com as instituições, etc. Isso acaba afetando muito o governo.

Ainda que o governo não esteja no centro das investigações, ainda que as investigações tenham avançado nesse governo, o Master tenha sido liquidado na atual gestão, etc., o Daniel Vorcaro preso pela Polícia Federal, isso cria um caldo muito ruim para o governo, o sentimento da população de que está tudo errado e que é preciso mudar. Então, para o governo tem esse fator que não é pouca coisa.

Além disso, tem um outro fator que é conjuntural, mas que vai demorar muito tempo para dissipar, que é a guerra mirã, que impacta muito o preço dos combustíveis. E a gente sabe que preço de combustível no ano eleitoral é uma notícia muito ruim para o governo. Então, você tem questões estruturais que já dificultariam a vida de Buda. Hoje, a regra pelo mundo é o incumbente, o presidente.

tem muita dificuldade para se reeleger, ao contrário do que acontecia em outros períodos. Isso está sendo estudado ainda pelos especialistas, pela ciência política, etc., mas é um dado da realidade. O governo precisa, tenta nesse momento, inclusive acho que essa reunião dos ministros tem a ver com isso, encontrar um discurso, encontrar uma unidade para lidar com esse cenário bastante adverso. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Guilherme Bausa.

E o que o governo acha que joga a seu favor? Porque você pintou aqui um quadro do que o governo não controla num cenário que não é nada róseo. O que o governo calcula? Como vão ser na avaliação das suas fontes os próximos meses? Há sinal de melhor, a despeito, por exemplo, dos efeitos da guerra? O governo está apostando em quê?

O governo acha que as medidas que estão sendo tomadas para frear o aumento do diesel, a subvenção, a isenção de impostos, etc., a fiscalização que o governo está fazendo, segura um pouco o preço do dinheiro. Então esse é um ponto. Além disso, o governo entende que o Flávio Bolsonaro, que está empatado nas pesquisas com o presidente de Lula,

Ele até agora jogou parado. Ele não foi escrutinado, ele não foi criticado, ele não foi questionado. Enfim, ele fez as movimentações já como pré-candidato, mas sem ser criticado. Ele está jogando parado. Eu vi isso de mais de um auxiliar do presidente Lula, inclusive auxiliares incomodados com o fato de o próprio Lula e de governo como um todo, enfim, o PT, não direcionar as críticas ali ao Flávio Bolsonaro. Então, há uma aposta de que quando o eleitor começar a comparar o governo Bolsonaro...

com o governo Lula, melhore um pouco a imagem do governo. Então tem essa crença dentro do governo, essa convicção de que fazer um antagonismo com o bolsonarismo pode ajudar o governo. Inclusive o Rui Costa, agora ex-ministro da Casa Civil, fez algumas comparações de A a Z em diversas áreas de governo.

E aqui o crédito rural, 117% de crescimento do volume de recursos em comparação ao período anterior. Financiamento, Minha Casa Minha Vida, olha o subsidiado, 177%.

Não é 177%, 177 vezes construção de casa com subsídio em relação ao governo passado. É só comparar e mostrar à população, porque é gigantesca a diferença.

Tem outras pautas em discussão no Congresso Nacional, por exemplo. O fim da escala 6 para 1, uma PEC, que é de autoria da Érica Carril, uma deputada da base, outras PECs de outros parlamentares, o Hugo Mota quer reunir tudo e votar isso logo. Essa PEC tem o aval do governo, o governo está defendendo isso. A oposição já não faz uma defesa dessa PEC, então o governo acha que o fim da escala 6 para 1 pode ser uma entrega que a população veja como algo que tem a digital do governo e pode ter um impacto em termos de popularidade.

Além do que o governo tem a máquina na mão, isso a gente sabe o peso que tem que ter a máquina na mão, tem uma série de políticas, de medidas que podem ser anunciadas e que podem ter um impacto na imagem do presidente, melhorar a avaliação e tudo mais. Agora, tem um ponto para a gente observar aqui na turma, o governo esperava que algumas ações, algumas medidas que foram anunciadas, surtissem um efeito maior do que surtia.

Você citou Flávio Bolsonaro. Lula hoje pareceu dar pistas de que ele vai passar a escrutinar o adversário. Eu queria entender com você, primeiro que você nos informe o que Lula disse sobre Flávio Bolsonaro e se de fato é uma pista do que ele vai começar a fazer a partir de agora. Porque me chamou a atenção que ele cita Flávio Bolsonaro e ignora Ronaldo Caiado, que teve a sua pré-candidatura anunciada na véspera.

Pois é, Natuza, o presidente Lula falou sobre Flávio Bolsonaro na parte reservada dessa reunião, não foi na parte que foi transmitida. Mas a gente conversou, nós conversamos com ministros que acompanharam essa parte, que estavam nessa reunião, e eles diziam o seguinte, o Lula mencionou essa presença de Flávio Bolsonaro no exterior, nos Estados Unidos, participando desse encontro da CEPAR.

E disse que o Flávio estava tentando estimular uma interferência do governo Trump no processo eleitoral brasileiro. E também ele afirma, que acusa o Flávio Bolsonaro de não ser alguém preocupado com a soberania nacional, de ser vassalo dos Estados Unidos, entreguista. Não ser patriótico, né?

de não ser patriótico, que de certa forma é o presidente Lula retomando o discurso que o governo utilizou no ano passado, quando o Trump anunciou o tarifácio. E aí o governo criou aquela coisa do Brasil soberano e tudo mais, e isso rendeu dividendos políticos.

O governo conseguiu melhorar a sua imagem naquele momento nessa reação ao tarifácio. Então, basicamente, ele está dizendo que o Bolsonaro não é um patriota. O patriotismo é um elemento caro ali para o campo da direita. Eles sempre se colocaram como os verdadeiros patriotas e tudo mais. Então, o Lula tenta atingir o Flávio naquilo que incomoda.

E tem um ponto aí que é uma estratégia bem clara do governo. Eles vão colar o filho ao pai. Todo desgaste da administração do pai vai ser colocada na conta do filho. Afinal de contas, é o mesmo sobrenome.

E ao que tudo indica, Natuza, o presidente Lula, a partir de agora, vai incorporar esse discurso, essa retórica, nas suas falas, depois dessa reunião, porque pela primeira vez, pelo menos em muito tempo, ele faz ataques diretos ao Flávio Bolsonaro. Então, me parece que o desenho, que a estratégia que o Lula deve adotar daqui pra frente é buscar esse antagonismo com o Flávio e, consequentemente, com o ex-presidente Jair Bolsonaro. Sobre o Ronaldo Caiado...

O presidente Lula não mencionou o Caiado, que lançou a pré-caminizatura essa semana, não fez qualquer menção, o que indica também que, para o Palácio do Planalto, o adversário é o Flávio. Não há uma percepção no governo Lula de que o Caiado vai ter musculatura para incomodar, para atrapalhar os planos de Lula e que ele vai ser uma figura periférica.

na disputa, como a própria ministra Glaze Hoffman disse essa semana. Na visão dela, o Caiado não vai conseguir quebrar essa polarização. Há uma percepção também no governo de que o Caiado vai, a partir de um momento, adotar aquele tom muito duro contra o Lula, que é tradicional do Caiado.

Ele costuma ser muito enérgico, fazer ataques à Lula, que isso vai aparecer bastante na campanha, em que ele vai ser uma espécie de linha auxiliar do Flávio, que vai buscar votos ali que estão no campo da direita, vai tentar, de alguma forma, ser a figura da direita nesse ambiente de polarização.

mas que num dado momento, na reta final da eleição, ele deve ser uma linha auxiliar do Flávio Bolsonaro. Na minha avaliação, o Ronaldo Caiado, quando ele faz o discurso anunciando a pré-itamigiatura, a primeira coisa que ele fala é que ele vai dar anistia a Bolsonaro, a todo mundo, vai anistiar todos logo no começo do governo, como primeira medida do governo. É um aceno ao eleitorado.

do Flávio Bolsonaro. E a partir daí ele tenta começar a se diferenciar do Flávio, dizendo que ele é um gestor, que ele valoriza a ciência, que a segurança pública no estado de Goiás é muito boa, etc. Enfim, não é uma missão fácil, é do Caiado, mas a avaliação é que ele passa a ser uma linha auxiliar provavelmente na reta final da campanha e eventualmente no segundo turno. Mas, de fato, a visão que tem hoje aqui no governo é que a disputa é com o Flávio. O foco está em antagonizar com o Flávio Bolsonaro.

Você pintou, de novo, insisto nisso, um quadro labiríntico para o governo, pelo menos neste momento. Claro que eleição não se ganha nem se perde de véspera, né? Tem um bom tempo pela frente, muitas coisas podem mudar, algumas podem se agravar, podem melhorar, enfim, para um lado e para o outro. Não dá para prever e a gente não tem essa pretensão da bola de cristal.

Mas tem algo que me parece uma situação quase kafkiana para o governo, porque é uma queixa que eu ouço de integrantes do governo desde o primeiro momento, que é a seguinte frase. O governo faz, tem muita entrega de desemprego numa baixa histórica, tem ampliação da renda, ou seja, o governo tem entregado.

melhoras, mas isso não se reverte em popularidade. E aí o governo fica meio perdido. Eu digo isso porque na reunião com os ministros, o ministro da Casa Civil, que agora deixa a Casa Civil para disputar a eleição, o Rui Costa,

Ele falou o tempo inteiro, olha, essa comunicação, essa melhora precisa chegar na ponta, não está chegando na ponta. E aí eu queria te perguntar onde é que está morando o perigo para o governo nesse particular, porque já são três anos e quatro meses de governo, sem que o governo consiga explicar de maneira muito simples por que ele diz que faz e por que a população não sente na mesma proporção.

É curioso, porque, de fato, o Rui Costa, nessa apresentação que ele fez para todos os ministros, ele começa a mostrar ali ações que o governo fez e reclama, olha, mas isso não está chegando na população, ninguém está sabendo disso. Então você tem uma crítica ali, velada, mas muito clara também, à comunicação do governo. No caso, é conduzida pelo Silvano Palmeira.

E a minha dúvida, Sidoni, é se o povo sabe disso. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados. O povo tem o direito de conhecer. É mudança da água para o vinho. Portanto, presidente, de novo, minha pergunta, Sidoni, é se o povo consegue perceber essa diferença gritante do que era e do que nós estamos fazendo.

exatamente a mesma coisa que a gente ouvia algum tempo atrás, quando o ministro da comunicação social era o Paulo Pimenta. Era exatamente a mesma coisa. Então, me parece que nos momentos de crise, e as crises têm vários fatores, é muito fácil esse artifício que você compara a comunicação do governo pelos problemas. E, mais uma vez, a gente está vendo isso se repetir. O que eu percebo hoje, acompanhando aqui o dia a dia do governo, Natuza, é que o governo está batendo muito a cabeça.

Houve um momento, você vai se lembrar, no começo de 2025, desde a crise do PIX. Naquele momento, o Ministério da Fazenda tentou regulamentar alguns aspectos do PIX. A direita pegou isso e disse que isso aí era, o governo ia acabar com o PIX, ia taxar com o PIX, etc. Aquilo ali provocou um desgaste muito grande na popularidade.

isso se juntou com crise de alimento, preço de alimento, etc. Outros fatores e ali a popularidade do Lula caiu muito. Aos poucos, já com o Sidonio Palmeira, já com a Glaze na articulação política, o governo conseguiu reorganizar. O discurso do governo foi se reorganizando e se unificando.

E aí o trabalho do Sidonio passou a ser elogiado. Naquele momento, mesmo antes do tarifácio, o governo já tinha um discurso crítico ao Congresso Nacional, aos bancos, às bets, etc. Enfim, o governo começou a ter uma linha. Depois veio o tarifácio e essa linha ficou ainda mais clara. Só que agora, de novo, no meio desse cenário de várias crises sobrepostas, master...

guerra, enfim, outros problemas conjunturais, o governo bate cabeça e não consegue encontrar um discurso para várias coisas. Por exemplo, o Máscoa. O governo tateou falar alguma coisa sobre o assunto, responsabilizar o Roberto Campos Neto, o ex-presidente do Banco Central, por o que aconteceu. Lula chegou a dizer que o Bolsonaro, que chocou o ovo da serpente, em referência ao escândalo do Máscoa, mas o governo ficou muito passivo, sendo criticado esse tempo todo e sem conseguir organizar.

um discurso. Então, é um momento de bateção de cabeça dentro do governo. Me parece que essa reunião com os ministros e essa nova fase que Lula tenta inaugurar também tem uma perspectiva, tem um esforço para, olha, vamos tentar falar a mesma língua aqui. Então é...

responsabilizar a comunicação é sempre um caminho muito fácil, ainda que a comunicação possa, claro, sempre ser criticada, a comunicação do governo é um aspecto central do governo, mas sempre jogar a culpa na comunicação e na falta de percepção das pessoas, talvez seja um atalho que não ajude o governo a entender o que está acontecendo e essas várias crises sobrepostas.

E a realidade é normalmente muito mais complexa do que isso. Haja vista dificuldade, por exemplo, que governos no mundo inteiro, e esse não é o único, têm tido. Você até deu esse roteiro.

São sociedades muito polarizadas, então é difícil ter popularidades altas do ponto de vista nacional. Você vê governadores com popularidades mais altas, mas para presidentes da República isso é mais difícil. De todo modo, está bem entendido aqui, a partir do que você diz, que o governo está esperando começar uma nova fase. Vamos ver se essa nova fase vai se apresentar como governo.

deseja ou se vai superar negativamente essas expectativas. Eu te agradeço muito, Bausa, por você ter topado conversar com a gente para explicar esse pontapé extraoficial da campanha de Lula, mirando muito claramente naquele que ele enxerga como seu principal adversário, Flávio Bolsonaro. Obrigada, Bausa. Bom trabalho. Natuza, eu te agradeço. É sempre um prazer participar do assunto.

Este episódio usou áudio do canal Lula no YouTube. Este foi o assunto podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelã, Luiz Gabriel Franco, Juliene Moretti e Stephanie Nascimento. Colaborou neste episódio Nayara Felizardo. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.