O lugar da mulher no bolsonarismo
- Participação política das mulheresVoto feminino e sua importância eleitoral · Contradições ideológicas do bolsonarismo em relação às mulheres · Disputa pela base eleitoral feminina · Michelle Bolsonaro como potencial herdeira do movimento · Damares Alves e o ECA Digital
- Histórico de conflitos na família BolsonaroMichelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro · Disputa por espaço feminino no PL · Renúncia de Michelle à presidência do PL Mulher · Declarações de Paulo Figueiredo sobre voto feminino · Reação de Flávio Bolsonaro à fala de Figueiredo
- Conflitos internos no bolsonarismoRacha entre Michelle Bolsonaro e filhos de Jair · Disputa pelo controle do movimento bolsonarista · O papel de Jair Bolsonaro na crise · Valdemar Costa Neto e o PL
- Saúde de Bolsonaro e pressão políticaConstrução de uma persona política própria · Formação de uma bancada feminina no PL · Apoio de Valdemar Costa Neto · Apoio a Damares Alves e Ana Campanholo
- Voto FemininoImportância do voto feminino para a direita · Características do eleitorado feminino conservador · Pautas relevantes para mulheres conservadoras
- Damaris Alves· SociedadeDefesa do ECA Digital por Damares Alves · Críticas ao ECA Digital por setores do bolsonarismo · Cisão na base do bolsonarismo entre machismo e direitos das mulheres/crianças
Aqui no Brasil há mais de 80 milhões de eleitoras. Isso significa quase 8 milhões a mais de votos de mulheres do que de homens. Também são elas as que mais comparecem nos dias de votação.
E em pleno 2026, ainda tem gente que diz isso aqui: Mulher vota estatisticamente muito mal.
A fala é do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo, neto do último presidente da ditadura militar e aliado de primeira hora de Eduardo Bolsonaro, mas também de Flávio. E a declaração não parou por aí, foi além.
Principalmente mulheres solteiras, mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras não.
Paulo Figueiredo fez essa declaração preconceituosa em resposta ao vídeo publicado pela ex-primeira-dama Michele Bolsonaro na semana passada, aquele em que ela acusa o enteado Flávio de maltratá-la durante uma conversa telefônica.
"Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política." Mas não foi só isso.
Na gravação, Michele também questiona: "Por que só a mulher tem que ceder? Não dá pra aceitar." Ali, naquele vídeo de quase 27 minutos, ela expunha as dificuldades de manter frente à cúpula do partido as únicas 3 vagas que havia solicitado para candidatura de aliadas suas, das 17 que o PL Mulher tinha direito pela cota partidária. Além da referência à cota, termo que o bolsonarismo rechaça tanto quanto rechaça a palavra feminismo, o tom de Michele destoa de outras declarações que ela mesma deu, como estas duas, uma de março de 2024 e outra de novembro de 2025, durante eventos do partido que abriga a família Bolsonaro.
A nossa política é diferenciada, a nossa política é feminina e não feminista. Nós estamos aqui— Para sermos ajudadoras. Esse é o nosso papel como esposas.— E a Bíblia fala da submissão da esposa ao marido, mas é a submissão saudável. Mas sabe por quê? Existe um contexto na palavra de Deus sobre a mulher ser submissa ao seu esposo.
A ironia é que Michele agora passou a ser pintada de feminista e até de esquerdista por gente do seu próprio campo e próxima à sua família. E é bom que se diga: feminismo, pros homens do bolsonarismo, é coisa de esquerda.
É uma ideia marxista, uma ideia feminista e, portanto, marxista.
No meio desse incêndio, a ex-primeira-dama decidiu deixar a presidência do PL Mulher às vésperas de uma corrida eleitoral super acirrada. E até aqui não há bombeiros suficientes pra conter o fogo, sobretudo com Jair Bolsonaro preso e proibido de falar em público. Até mesmo a senadora Damares Alves foi dragada pra confusão por defender o ECA Digital algumas semanas atrás. O projeto que Damares apoiou impôs às redes sociais o respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente, endurecendo o combate à pedofilia digital.
Mesmo assim, foi largamente criticada por gente que viu o gesto como feminista. E o resultado de tudo isso é que a campanha de Flávio nesses últimos dias pós-vídeo entrou em modo crise.
Essa decisão de Michele Bolsonaro de deixar a presidência do PL Mulher vai ter um desdobramento em palanques, em apoio, vem na esteira daquele vídeo que ela fez em que ela expôs divergências com Flávio Bolsonaro, que é o candidato à presidência desse grupo político. Isso caiu como uma bomba na campanha do Flávio. Desde a semana passada eles estão tentando diminuir esses desgastes desse vídeo, tentando diminuir essa exposição toda.
Só que você tem hoje uma crise externa, que é essa envolvendo Michele Bolsonaro, da campanha do Flávio, e você tem uma crise interna. Também a gente viu uma fala de um aliado de primeira hora do Flávio Bolsonaro, que é o Paulo Figueiredo, que tá lá nos Estados Unidos dizendo que mulher não sabe votar. Então isso também caiu como uma bomba. São dois vídeos que estão causando esse desgaste para campanha do Flávio.
O fato é que uma semana depois do fatídico vídeo de Michele Bolsonaro, a fala de Paulo Figueiredo sobre as mulheres não saberem votar acabou pegando no candidato Flávio Bolsonaro, levando o presidenciável a se explicar. E um destaque: essa resposta veio somente dias depois da fala inicial do aliado.
Eu repudio ardentemente a fala do Paulo Figueiredo sobre as mulheres. Não concordo com o que ele falou. Foi completamente equivocado.
E as mulheres conservadoras, essenciais para o desempenho do seu candidato, agora querem entender que espaço real elas têm nesse território político. E é aí que surge um verdadeiro paradoxo: a direita bolsonarista precisa do voto feminino para vencer, mas seu núcleo ideológico é estruturalmente antifeminista. E por muitas vezes, misógino. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o lugar da mulher no bolsonarismo.
Neste episódio, eu converso com Maria Cristina Fernandes, colunista do jornal Valor Econômico e comentarista da CBN e da Globo News. Quinta-feira, 2 de julho. Maria Cristina, que tipo de caixa de Pandora foi aberta depois do vídeo da Michele Bolsonaro? Que que aconteceu e continua acontecendo no campo bolsonarista desde então?
O que aconteceu foi antecipação de um cenário que tava marcado para acontecer no pós-eleição, em que o bolsonarismo viesse seja derrotado. Porque o que a gente está vendo desde 2018 é o bolsonarismo como vetor da direita. A dificuldade do Ronaldo Cunhado, do Romeu Zema nessa eleição, está mostrando isso, né? Toda direita está vetorizada pelo bolsonarismo. E o que a gente está vendo agora com este embate entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-ministra Michele Bolsonaro é que se o Flávio perder, não apenas o bolsonarismo perde essa condição de vetor, como pode se fraturar internamente.
Muita gente fala do pós-Lula, né? Agora pouca gente fala do pós-Bolsonaro, porque ele tem 4 filhos na política. E então esse bolsonarismo seria, digamos assim, estendido. Mas o vídeo da Michele mostra que há uma disputa por esses pólios muito mais aberta do que no lulismo. E é uma disputa de matar ou morrer. É, o lulismo lava roupa suja dentro de casa, mas, né, o bolsonarismo expõe nas redes, que é, digamos assim, é o batismo deles é nas redes, tudo que eles fazem é nas redes.
É isso que tá acontecendo. A Michelle está trabalhando para ser a herdeira não de um sobrenome, mas de um movimento que resiste a uma ofensiva machista de dominação. Logo, ela que, ao contrário do que diz o Paulo Figueiredo, nunca foi feminista, né? A gente viu bastante desse governo Bolsonaro para saber disso. Ela disse amém até aqui a esse bloco político que sempre tratou as mulheres por um viés de subalternidade. E vamos lembrar que tem um detalhe: o ex-presidente não se pronunciou.
Ele é um prisioneiro em casa, mas é prisioneiro, está impedido de se pronunciar. Não sabemos o que ele tá achando disso tudo, mas é Michele quem até o momento tem, digamos assim, a guarda dele, né, para usar essa expressão que pai e mãe usam em relação a filho. Enquanto ele estiver em prisão domiciliar, é ela quem tem a guarda do ex-presidente. Então, em todos os pronunciamentos dela, e não foi diferente, né, essa carta dela por último, ela diz falar também em nome do marido.
Esse enredo tem muitas ironias, mas uma delas fica me martelando o juízo, Maria Cristina. Eu tive com Bolsonaro em 2025, fevereiro de 2025, numa conversa de 2 dias com ele, uma entrevista para um outro projeto, e ele disse textualmente que a Michelle, esposa dele, é mais radical do que ele, e que quando ela pegava alguém para Cristo, saísse de perto. Então, só pra gente botar aqui numa cronologia: ela divulga o vídeo na semana passada, o vídeo cai como uma bomba na pré-campanha de Flávio Bolsonaro, Flávio Bolsonaro responde, mas sem acusar o golpe, evitando brigar com Michele, Michele faz uma carta deixando a presidência do PL Mulher, fatalmente surge a dúvida sobre se ela seguirá sendo candidata ao Senado ou não.
Ela replica um post do ex-governador Antony Garotinho falando de uma festa patrocinada por Vorkaro com autoridades políticas e mulheres estrangeiras com capacetes de astronauta, supostamente despidas. Antes disso ainda teve um outro acontecimento. Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro de primeira hora, também próximo a Flávio Bolsonaro, faz uma fala machista, misógina, dizendo que mulher não sabe votar. E aí Flávio Bolsonaro entra em cena repreendendo o Paulo Figueiredo, dizendo que o Paulo Figueiredo não fala por ele.
Mas ele também faz uma referência à repostagem de Michele Bolsonaro em relação à festa das astronautas, dizendo que ele não participou de festa alguma, dizendo que Michele tava equivocada. Ou seja, o Flávio tá entendendo a indireta para ele. E cá estamos nós fazendo esse episódio. Eu queria entrar então nessa fala do Paulo Figueiredo, porque ele dá uma resposta também a Michele Bolsonaro. Quando eu falo em abertura da caixa de Pandora, eu falo disso também, de ele expor uma frase misógina e o candidato Flávio Bolsonaro ser obrigado a discordar do aliado para não perder o voto feminino.
Sim, ele não tinha alternativa, né? Porque verdade que as mulheres, como disse o próprio Figueiredo, voltam mais à esquerda no Brasil e também nos Estados Unidos. Mas essa fala do Paulo Figueiredo só vai empurrá-las ainda mais à esquerda. Tem uns números que eu acho importante sempre lembrar: o eleitorado feminino não apenas supera o masculino em 7 milhões e 800 mil votos, Como para o desgosto do Paulo Figueiredo, as mulheres comparecem mais para votar que os homens.
Em 22, o comparecimento feminino foi 2 pontos percentuais acima do masculino. Isso não é pouca coisa. E isso se deve em grande parte à escolaridade, porque se você pegar a eleição municipal passada, agora de 24, o número de eleitoras com ensino superior completo superava em 3,8 milhões o número de eleitores com o mesmo nível de instrução. O comparecimento das eleitoras com nível superior foi de 83,4%. É o maior nível de comparecimento que se tem de qualquer extrato de instrução.
Então, você imagina, eleitoras com diploma superior, pobres e ricas, de onde quer que elas venham, ouvir uma fala dessa, de que mulher não sabe votar, e se for solteira, então pior ainda. Então, Flávio Bolsonaro tem que buscar, sim, reverter esse cenário, porque pra mim tá muito claro que tudo Tudo é cálculo, né? Porque é assim que age o bolsonarismo, tá sempre colocando um tema em pauta para ofuscar outro. Então, ao trazer à baila a história do feminismo que é marxista, das mulheres que não sabem votar, o que o Paulo Figueiredo tá fazendo é encobrindo ali essa disputa dos palanques, porque ao fim e ao cabo é disso que se trata.
As convenções se iniciam em 20 de julho, que é quando são definidas os palanques, as candidaturas, e o que tá em disputa é quem vai poder apresentar as chapas ao Senado, as chapas de deputado federal. E aí vai começar disputa por dinheiro, né, do fundo partidário, fundo eleitoral. E o que a Michele quer é formar a sua bancada dentro do PL. Não é à toa que ela não se desfilhou, deixou em aberto não apenas a sua candidatura como a vinculação a um partido onde ela quer fazer bancada.
Porque se a Michele fizer bancada dentro do PL, ela pode acabar desbancando os enteados, né?
É porque aí a força dela vira concreta e não somente simbólica.
Exatamente. E vamos combinar, né, ela tem tido apoio discreto, mas me parece que um apoio bastante explícito do presidente do partido.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, também emitiu uma nota sobre essa questão da saída da Michele da presidência do PL Mulher. Ele fala o seguinte: Michele fez um excelente trabalho à frente do PL Mulher, mas nesse momento decidiu deixar a presidência nacional do PL Mulher porque fez a opção de concentrar suas atividades em cuidar do nosso presidente. Temos que respeitar essa decisão.
Valdemar lhe deu todo o espaço, um salário, está apostando nessa bancada de mulheres evangélicas, periféricas, negras. E vamos lembrar também que ele não tem uma relação tão fácil assim com os filhos do Bolsonaro. Ele teve que criar lá atrás um cargo pro ex-deputado Eduardo Bolsonaro, uma secretaria de relações internacionais, lembra? Porque houve uma disputa lá pelo caixa do partido. Ele teve que criar esse cargo pra poder ele ter um destaque, ter um orçamento, ter como se movimentar sozinho, de maneira independente, com protagonismo na bancada do PL, a queixas e preocupação em relação à distribuição de verba, justo no momento em que há evidências de sobra de que um financiamento desse filme da Cross embutiu ali um caixa 2 de campanha.
Mas não é a primeira vez que a Michele faz esse jogo de disputar indicação de nomes na disputa. Esse jogo ela começou a pavimentar Lembra o que aconteceu em 22 no Distrito Federal? A Michelle bancou Damares Alves, que tinha sido ministra do Bolsonaro. O Bolsonaro bancou a Flávia Arruda, que também tinha sido ministra dele. E ela não fez campanha pro marido no primeiro turno. Ela fez a Damares, ela elegeu a Damares, e ela foi entrar na campanha do marido no segundo turno.
E eu me lembro que os auxiliares de Bolsonaro que atuavam ali na comunicação, se ressentiam muito da ausência de Michele Bolsonaro. E aí eu sempre perguntava: e a Michele vai aparecer quando? Não, ela tá difícil, ela não tá disponível, não, ela não tá fazendo. Então naquele primeiro turno ela de fato não se envolveu, para desgosto de muita gente da campanha.
E agora ela tá mostrando o quanto que a Damares, que esse movimento dela para emplacar Damares como senadora foi importante para sua própria sobrevivência no partido e para implantação do seu projeto dentro do PL, que hoje talvez seja sua principal aliada. A Damares, ela tem uma característica importante e ela talvez mais do que nenhuma outra parlamentar do bloco conservador de direita no Congresso, ela encarna essa transversalidade da pauta da bancada feminina, né?
Ela apoia os projetos da deputada Tabata Amaral, ela no ECA Digital que é um projeto muito importante, aprovado recentemente. Ela encabeçou no Senado a defesa do ECA Digital, que é o transplante por meio digital do Estatuto da Criança e do Adolescente, que é para proteger as crianças de pedófilos e de aliciadores de toda ordem, e contra a vontade do bolsonarismo. Os pastores é que tiveram que convencer a bancada, porque eles iam para os cultos nos fins de semana e as mulheres bolsonaristas evangélicas de suas igrejas diziam: pelo amor de Deus, votem isso, as nossas crianças estão expostas.
O ECA Digital reconhece que crianças e adolescentes são mais vulneráveis às funções das redes sociais que estimulam comportamento compulsivo. Por isso, determina que as plataformas adotem medidas concretas. A nova lei exige ainda que as plataformas controlem o acesso e removam conteúdos nocivos. Também determina a participação dos pais.
E aí o bolsonarismo, a contragosto, votou Mas o que a gente tá vendo agora é uma tentativa de reverter o eca digital.
E Damares sendo chamada de feminista, já ouvi até esquerdista, uma loucura.
Chamam de PSOL do PL, né? Ela lidera a bancada do PSOL do PL.
Quem diria, hein, Maria Cristina?
Já pensou? Então, o que eu acho importante a gente trazer essa coisa do eca digital é porque essa história ela mostra uma cisão na base do bolsonarismo, que é essa machosfera muito agressiva e uma base de mulheres conservadoras, mas que querem preservar suas crianças e seus próprios direitos, não querem abrir mão disso. Então a cisão se deu aí, eles estão colocando em risco essa base do partido, né, que foi conquistada aí desde 2018.
Então não é um movimento qualquer o que a gente tá assistindo, não é uma treta familiar, não é uma briga de madrasta e enteado.
É um movimento político divulto cujas consequências a gente ainda não conhece, é sobre isso que eu Eu gostaria de te ouvir. Pelas reações do Flávio Bolsonaro, ele tá sentindo esse golpe da crise, mas a gente já consegue dizer qual é o tamanho, se houver de fato, do dano que essa altercação com a Michele Bolsonaro causa para ele e para base eleitoral dele? Ou ainda é cedo, a gente precisa ver mais pesquisas, a gente precisa entender como o eleitorado conservador está decantando essa treta?
Eu acho que é cedo. As pesquisas, os trackings que têm vindo não têm exatamente mostrado um estrago grande, mas ok, foi uma outra época, foi uma época sem redes sociais, mas eu ainda me lembro do que aconteceu quando Pedro Collor falou em maio, o irmão dele só foi cair em setembro. Essas coisas demoram a decantar. A pré-campanha lulista não encampou porque tem medo que a Michele assuma a candidatura se o Flávio derreter. Então não tem ninguém além do jornalismo e das claques de cada um, não tem ninguém batendo bumbo em cima disso. Então a exploração deste tema no espectro maior ainda não começou.
E só para contextualizar, o Pedro Collor, irmão do então presidente Fernando Collor de Mello, que denunciou o próprio irmão de liderar o esquema chamado esquema PC Farias, que foi o tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello.
A Polícia Federal, a Receita Federal e o Banco Central vão trabalhar juntos no inquérito para apurar as denúncias feitas pelo empresário Pedro Collor de Mello, irmão do presidente Fernando Collor. Ele acusa o empresário Paulo César Farias de enriquecimento ilícito e tráfico de influências. As denúncias envolvem o presidente Fernando Collor.
Um esquema de corrupção e tráfico de influência, só para botar todo mundo na mesma página.
E vamos lembrar também, você historiou ali os capítulos dessa briga. Ela já avisou e tem mais bala na agulha, né? Eu falei quase tudo no vídeo, né? Isso, naquele vídeo. Então o que que tá dito aí nas entrelinhas? Que eu tenho mais munição. Essa coisa dela ter repostado o garotinho. Então há sinais de que ela está ali ameaçando. Ela calcula bastante todos os passos. As pessoas reclamam que não há renovação na política. Michelle tá mostrando que é um quadro da direita e está querendo se fazer valer.
É um movimento muito claro para mim de quem tá querendo criar uma persona na política e não foi feita só pelo sobrenome. Ela cavou o seu espaço na política. Essa briga que ela está cavando aí é para mostrar isso, que ela conquistou um espaço no PL e na política, por seus próprios méritos e por seus próprios meios, comprando briga dentro da sua própria família, dentro do seu próprio grupo político, porque foi agredida por eles.
Essa é a história que ela está querendo montar. Não vai ser um cenário fácil que os filhos do Bolsonaro vão enfrentar, seja em toda a campanha, seja no pós-eleitoral, que eventualmente traga a derrota do Flávio Bolsonaro.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Maria Cristina Fernandes. A história mostra Pelo menos nesses anos de Bolsonaro e depois, que aqueles que romperam com um Bolsonaro ou com parte da família ou até com a família inteira não tiveram um destino de sucesso ou eleitoral ou político. Você acha que pode acontecer a mesma coisa com Michele Bolsonaro?
A questão é que justamente ela tá com uma guarda do marido, né? Para que ela seja considerada uma traidora, uma desertora, é preciso que o marido o diga.
E ele não pode dizer.
Ele não pode dizer. A gente não sabe o que ele está pensando, não é apenas o que ele está dizendo. A gente não sabe nada sobre Bolsonaro. Sabe que tem uma decisão dele voltar ou não para o regime fechado, mas a gente não sabe nada. Esta é uma lacuna gigantesca de toda essa história. O que o Bolsonaro está achando de tudo isso?
Porque nem lá na casa dele foi gravado esse vídeo, né?
Tem uma diferença importante de alguns dissidentes. Primeiro, ela aparentemente tem o apoio do presidente de um partido que não é um partido qualquer, o maior partido hoje no Brasil, é o PL. Ela está salvaguardada, tanto que o Valdemar fez esta homenagem: ele extinguiu o cargo de presidente do PL, como quem dissesse assim: se Michelle não pode ocupá-lo, ninguém mais pode fazê-lo. Então ela tem ainda um espaço no partido, ela tem apoio e ela tem já uma bancada, e uma bancada que se constituiu no enfrentamento dos enteados.
Vamos lembrar, ela tem uma, ela fala muito nessa Priscila Costa, que é essa vereadora lá de Fortaleza, mas ela tem a Ana Campanholo lá em Santa Catarina, que foi uma deputada estadual, aliás muito bem votada, uma deputada que é historiadora e tem livros contra o feminismo, para a gente ver a fauna que tá esse negócio. Ana Campanholo foi quem liderou a campanha em Santa Catarina, contra a migração do domicílio eleitoral do Carlos Bolsonaro para o estado para disputar o Senado, em defesa da Carol de Tone.
E esta luta que ela encampou com apoio da Michele Bolsonaro acabou que tirou a vaga do Espiritão a mim e as duas vagas ficaram, uma com o Carlos Bolsonaro, outra com a Carol de Tone. Este é outro grande apoio que ela tem.
Então, ao contrário de outros dissidentes que foram varridos da história, Tipo Joyce Hasselman, que foi líder do governo, que era, digamos assim, uma francotiradora.
A Michelle, ela já tem uma bancada e ela ainda pretende ampliar esta bancada nesta eleição. E aparentemente o Valdemar Costa Neto não vai impedi-la de fazê-lo, como ao que tudo indica está ajudando.
Agora, para a gente se aproximar do nosso final do episódio, eu queria entender de que base feminina é essa que a gente está falando um bloco que se conecta com Michele Bolsonaro?
Eu não acho que dá para falar de um bloco ideologicamente constituído. Acho que ela não tem nem essa preocupação. Ela quer primeiro consolidar a sua turma, né? Como eu disse, tem uma pauta aí que é muito representada pela Damares, que é transversal ideologicamente hoje no Congresso. A senadora Tereza Cristina, que é uma parlamentar que nunca se filiou, digamos assim, essas pautas mais de educação, saúde, sempre militou ali, foi ministra da Agricultura, Jair Bolsonaro, atua em questões de política externa e agora meio que prestou como se fosse uma solidariedade a Michelle não comparecer nesse encontro que o Flávio promoveu com mulheres e deixou muito claro que não quis ir porque discorda dessa violência com que a coisa está sendo tratada.
Então eu acho que não dá para falar ainda dos traços ideológicos deste movimento. Que ela tá montando. Assim, eu acho que tem alguns traços talvez de camada social, porque eu tive aqui semanas atrás no encontro do Flávio com mulheres executivas. Me chamou muita atenção porque a pauta delas era revogação da reforma tributária, liberdade de empreendedorismo, segurança. Não tinha uma pauta feminina, sabe? E a Michelle me dá impressão de investir numa pauta das mulheres evangélicas das mulheres mães, esposas, muito embora as pessoas tenham falado muito nessa teocracia, de um patriarcado bíblico, e eu não sei se é muito o da Michelle, sabe?
Essa transplantação de realidades de um país para outro é um negócio sempre que eu tenho cuidado em fazer isso. Por exemplo, nos Estados Unidos hoje tem um movimento para tirar o voto das mulheres. Agora, se nos Estados Unidos há um número representativo de mulheres que podem se dar à luz, que que tirem seu próprio voto. Aqui no Brasil, as mulheres não apenas de esquerda ou de direita, as mulheres de todo espectro ideológico batalham pela vida porque é o que lhes resta fazer.
Elas têm que sustentar a família, elas tiveram que começar a trabalhar cedo, criam seus filhos sozinhas ou porque foram abandonadas ou porque se rebelaram contra situações de opressão e se impuseram como chefes de família, né? Vide o Bolsa Família, que elas são titulares. Então, Esse transplante de situações eu acho complicado. Então eu acho que a Michelle está querendo criar o seu grupo político dentro de uma conformação social, política brasileira, conhecendo aí este eleitorado conservador que ela está tentando cativar entre as mulheres.
Ela viajou para esses 27 estados, não vamos esquecer que ela conheceu aí este rebanho que ela agora tá querendo capturar.
Maria Cristina Fernandes, como sempre, muito obrigada por topar conversar aqui com a gente, jogar luz sobre esses temas nossos de cada dia da política. Bom trabalho para você, minha amiga.
Eu que agradeço, Natuza, sempre uma alegria.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe Atrás do assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui, até o próximo assunto.
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