Venezuela: o terremoto e a crise generalizada
- Terremoto na VenezuelaMagnitude e impacto dos tremores · La Guaira · Caracas · Contagem de mortos e desaparecidos · Trabalho de busca e resgate · Ajuda humanitária internacional · ONU
- Crise Política na VenezuelaCrise econômica e social · Crise política · Legitimidade do governo de Nicolás Maduro · Eleições na Venezuela · Intervenção americana · Controle do setor petrolífero · China e Rússia · Donald Trump
- Comparação com precedente venezuelanoDesafios da reconstrução · Recursos e vontade política · Ajuda internacional emergencial · Disputa geopolítica (EUA, China, Rússia) · Eleições livres
- Storytelling Desastres PessoaisHistória de Nelson Torrealba · História de Yulis e Anderson · História de Aaron Cantillo · Impacto emocional nos repórteres
Antes de começar, um aviso: este episódio tem relato e descrições de cenas fortes.
Sim, claro, é a esperança, a última que se perde.
É por essa esperança que Nelson Torrealba continua dormindo na calçada em frente ao prédio que ele morava e que não existe mais. A construção ficava em La Guaira, uma das cidades mais bonitas da Venezuela. Foi ali que ele construiu um lar para sua família, onde viveram juntos por mais de uma década. Moravam com ele a esposa e seus dois filhos, um de 10 anos e outro de 14.
O dia 1 a que ele se refere foi quarta-feira passada, 24 de junho.
No final daquele dia, terremotos chacoalharam parte da Venezuela. Foram dois grandes abalos de magnitude de 7,2 e de 7,5 num intervalo de 39 segundos. Um tremor comparável aos terremotos que ocorreram no Haiti em 2010 e no Japão em 2011. Nelson escapou da morte por acaso. Ele tinha acabado de sair de casa para fazer compras quando, segundos depois, viu o edifício inteiro desabar.
Lo recuerdo muy poquito, segundos. Salí y 3, 2 minutos después, antes de salir él de la residencia, todo se llenó. Tembló fuerte, pues en ese segundo, puedo calcular, que no sé, 30 segundos, 40 segundos, cuando mucho exagerando un minuto.
Desde aquel día él no duerme.
No, dormir no, una cosa es dormir, otra cosa es descansar. Descansar a espalda, descansar o corpo, os braços, as pernas, mas a mente continua funcionando.
E mesmo cheio de esperança, ele já se prepara para o pior, mas não deixa de fazer um último pedido.
Se estão com vida, excelente. E no pior dos casos, resgatar os corpos para brindar-lhes uma sepultura digna.
Nelson fez esse relato ao jornalista Pedro Panunzio, que eu vou entrevistar logo mais neste episódio. A história dele é uma entre milhares de tragédias. Na contagem oficial, os terremotos causaram pelo menos 1.900 mortes e deixaram 10 mil feridos até o fechamento desta edição. O número de desaparecidos é de mais de 50 mil pessoas.
Yulis é mãe de Anderson, de 21 anos. Ele morava nos Estados Unidos. Trabalhava na construção civil e sustentava a família. Em situação irregular, foi detido pela imigração e deportado pela Venezuela. O avião pousou em Caracas 7 horas antes dos terremotos. Anderson passou quase 2 dias soterrado. Agora está entubado e teve as duas pernas amputadas.
Primeiro, o pedido de silêncio.
Silêncio total!
Depois, o socorrista solta o cão farejador. O tsunami procura sinais de vida debaixo dos escombros. Todos aplaudem quando um homem é resgatado com vida. O tsunami faz parte de uma equipe venezuelana. Ele é experiente, participou das operações de resgate de vítimas dos terremotos na Turquia em 2023.
Esses socorristas de El Salvador vasculhavam um prédio quando ouviram latidos no meio dos destroços. A equipe conseguiu resgatar o filhote que estava preso. Em Caracas, bombeiros da Jordânia passaram horas até conseguirem resgatar um menino de 3 anos. Ele sobreviveu preso nos escombros por 6 dias e agora se recupera no hospital.
O tamanho da tragédia ainda é muito difícil de estimar. As contas são macabras. A ONU já avisou que vai fornecer 10.000 sacos mortuários para acomodar as vítimas.
A Organização Mundial da Saúde alertou que milhares de venezuelanos agora podem enfrentar fome e o risco de doenças como dengue e febre amarela. O sistema de saúde venezuelano opera no limite, segundo Segundo a OMS, os terremotos danificaram a estrutura de 9 hospitais, que tiveram que reduzir ou suspender os atendimentos. Em muitos centros clínicos, o cenário é de caos. Além disso, há médicos e enfermeiros entre os milhares de desaparecidos.
Foram mais de 4 dias soterrados nos escombros. 106 horas. O resgate terminou com uma salva de palmas para celebrar mais um sobrevivente. No hospital, Aaron Cantillo, de 21 anos, contou que foi o único encontrado vivo no prédio onde estava.
Ele chamou de anjos os bombeiros que o retiraram com vida dos destroços.
E tudo acontece em um país que já vivia um terremoto institucional. Foram muitos anos de crise profunda: econômica, social, política. E desde janeiro, quando Nicolás Maduro foi capturado e transferido para os Estados Unidos, os venezuelanos se perguntam: o que vai acontecer conosco? Agora, o desafio é ainda maior. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o terremoto e a tragédia generalizada na Venezuela. Neste episódio, eu converso com Pedro Panunzio, correspondente em Caracas, e com Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Quarta-feira, 1º de julho. Pedro, você mora na Venezuela desde novembro, portanto conhecia o país antes dessa tragédia. Já faz uma semana que esses terremotos aconteceram. Eu queria que você nos desse uma fotografia da Venezuela de antes e de depois dos terremotos.
Natuza, é um país completamente diferente do que eu conhecia. Inclusive, eu moro num bairro de Caracas que foi a região mais afetada da capital venezuelana. O trajeto que eu fazia todos os dias para chegar em casa agora ele tá bloqueado porque no meio dele tem dois prédios que desabaram completamente. A situação em La Guaira, que é o estado litorâneo que fica a uma distância de 20 a 30 minutos aqui de carro de Caracas, é ainda pior.
Por lá o cenário é de destruição completa. A gente anda pela cidade e perde as contas. De quantos prédios foram abaixo. Lá na Venezuela, os dois terremotos aconteceram relativamente perto da superfície terrestre. Se o movimento para separar as placas acontece bem lá no fundo da Terra, a energia vai se dissipando até chegar à superfície e os terremotos não são tão devastadores. Mas não foi isso que aconteceu na Venezuela. É por isso que houve tantos estragos.
Os tremores sacudiram e quebraram os vidros de vários prédios em Caracas. Pouco depois, a poeira transformou a cidade em um cenário de guerra. Imagens aéreas mostram prédios inteiros no chão, outros cortados pela metade. Esse edifício em Caracas ficou completamente esmagado. Entre os tijolos e ferros retorcidos, restos de eletrodomésticos e até um carro. Moradores se abrigaram na rua mesmo, tentando descansar Depois da tragédia.
Há um desespero muito grande das pessoas por lá, pessoas que tentam salvar seus familiares, que tentaram nos primeiros dias salvar seus familiares com as próprias mãos. A gente vê uma presença muito forte de voluntários nos primeiros dias, principalmente. Agora a gente já tem uma presença maior de equipes estrangeiras, né, que auxiliam nessas buscas. E os voluntários agora, eles estão dedicados a tentar resgatar os corpos dos seus familiares.
Essa é uma cena muito comum ali, alguns escombros onde já se sabe que não há sobreviventes. A gente vê pessoas com as próprias mãos, às vezes usando luva, capacete, máscara por conta da poeira, e ali tentando retirar os escombros para tentar salvar, para tentar remover o corpo de uma vítima, muitas vezes filha, filho, irmão, tia, sobrinho. É uma situação devastadora, um país que tá muito diferente. La Guaira era o lugar onde, por exemplo, muita gente aqui de Caracas ia para passar os finais de semana, para se divertir, para ir para praia, para encontrar os amigos. E agora é uma cidade que praticamente não existe mais, né?
E Pedro, eu queria falar dessa ajuda internacional, sobretudo dos Estados Unidos, se você consegue enxergar essa ajuda chegando aí a outros países que enviam tanto ajuda humanitária como força capaz de ajudar no resgate de vítimas. A essa altura do campeonato, as chances de se encontrar pessoas com vida diminuem a cada hora. Diante de tudo, o que que você tá enxergando?
É, a gente nota assim uma presença dos Estados Unidos aqui na Venezuela, e que na verdade acho que tem uma relação muito forte com o que aconteceu já desde o dia 3 de janeiro, né, quando os Estados Unidos fizeram uma operação aqui em Caracas e capturaram o então presidente Nicolás Maduro. Desde então, a relação entre os dois países tem sido cada vez mais estreita, e Donald Trump inclusive foi um dos primeiros líderes mundiais a se manifestar depois dos tremores, já dizendo que os Estados Unidos iriam ajudar a Venezuela no trabalho de reconstrução.
O país anunciou uma liberação de um crédito de 150 milhões de dólares ali, dividido entre repasse à agência da ONU e outra parte a partir de acordos bilaterais. Mas não é só a presença dos Estados Unidos que a gente nota aqui nas ruas, principalmente de La Guaira. São muitos países trabalhando aqui, ajudando nesses resgates. São 30 países ao todo, de acordo com o governo venezuelano.
Pelo menos 30 países mandaram ajuda para Venezuela e mais de 3.600 socorristas estrangeiros estão no país. Os Estados Unidos enviaram mais de 300. Além de navios, aeronaves e caminhões que podem ser usados como ambulância.
Passadas as primeiras 72 horas depois dos tremores, a janela para encontrar sobreviventes é cada vez menor. Por isso, uma enorme força-tarefa age com pressa. Países que enfrentam as próprias crises humanitárias também resolveram ajudar. A Síria anunciou o envio de 15 homens. São ex-integrantes dos capacetes brancos, organização humanitária que ficou conhecida mundialmente por resgatar vítimas de bombardeios durante os 14 anos de guerra civil.
O incansável trabalho de buscas resultou em 33 resgates no final de semana, entre eles um bebê de 9 meses, salvo com a ajuda de socorristas americanos enviados à Venezuela.
E essa ajuda que vem de fora é o que tem feito a diferença, porque agora sim há equipes especializadas que podem auxiliar nessa busca busca e não deixar todo o peso dos resgates na mão dos voluntários, né? E há uma questão que a gente nota, né, que também é o aumento da presença dos resgatistas especializados venezuelanos. Eu tô indo para La Guaira desde sábado, todos os dias indo para La Guaira, né? Então a gente tem observado algumas mudanças por lá.
Na segunda-feira foi o primeiro dia que eu realmente vi ali equipes venezuelanas. E equipes que eu digo são agentes da Defesa Civil E também agentes do Corpo de Bombeiros, né, os órgãos especializados nesse tipo de busca. Isso coincide com a chegada do apoio especializado que vem de outros países. A questão é que todo esse trabalho começou tarde. É claro que ajuda que vem de fora não vai conseguir chegar de uma forma tão rápida, porque isso demanda uma operação logística muito grande, né.
Só a missão brasileira, por exemplo, para vocês terem uma ideia, tem mais de 130 pessoas. Não é tão simples mandar um contingente tão grande do dia para noite. E essas pessoas que estão na missão brasileira estão dormindo em barracas com condições às vezes que não são as ideais. Os fuzileiros navais da Marinha Brasileira montaram um hospital de campanha também em La Guária, também estão dormindo em barracas. Quer dizer, não é uma estrutura também que você monta do dia para noite.
A questão é que a ajuda especializada demorou para chegar. E aí a gente tá falando principalmente do esforço que deveria ter sido feito pelas autoridades venezuelanas. Os primeiros dias em La Guaira foram desesperadores. As pessoas estavam desesperadas porque não encontravam agentes do Corpo de Bombeiros nem da Defesa Civil para auxiliar nos resgates enquanto ainda havia possibilidade de encontrar pessoas com vida. É claro que ainda existe, mas as chances são cada vez menores.
E a gente está falando de um reforço que chegou no quarto dia dos resgates. A gente teve, claro, nesse período algumas histórias, né, de pessoas que conseguiram ser resgatadas. Mas eu tava conversando com um agente da Defesa Civil da Venezuela nesta terça-feira, que me disse o seguinte: para encontrar alguém com vida agora, só um milagre.
Pedro, para terminar, eu queria saber como é para você, do ponto de vista pessoal mesmo, testemunhar cenas tão dramáticas, ouvir relatos tão terríveis na sua condição de repórter?
Natuza, é muito difícil. Durante muitos anos eu trabalhei como repórter da Editoria de Cidades em São Paulo, e ali a gente de alguma forma se acostumou, entre aspas, né, a cobrir dramas desse tipo. Mas havia uma diferença, porque eu tinha a impressão que eu voltava para casa e eu conseguia me desligar daquilo. Aqui é diferente, porque o terremoto ele afeta Todo mundo. Pra vocês terem uma ideia, meu apartamento tá cheio de alguns destroços ali, caiu parte das paredes.
Eu vou ao mercado, eu não encontro água pra comprar. Mas isso é muito pequeno perto do que as outras pessoas estão passando. Faz 1 ou 2 dias eu tava circulando ali por La Guaira e aí eu vi em frente a um prédio uma lista de nomes de desaparecidos, né, de pessoas que estavam naquele edifício quando o prédio veio ao chão. Naquele momento não se trata— essa lista, esse nome de pessoas não é de forma alguma algum tipo de homenagem.
É uma forma que as pessoas estão encontrando para tentar evitar que os corpos das vítimas fiquem largados, sejam levados para um necrotério e fiquem estirados com outras centenas de corpos, como muitos estão agora numa zona portuária de La Guaira que virou um necrotério improvisado.
Corpos são colocados no asfalto à espera de identificação. Um cenário parecido no porto da cidade. Dezenas de milhares de pessoas ainda estão desaparecidas.
Centenas de caixões empilhados ao lado de uma construção destruída pelos terremotos. Esse é o porto de La Guaira, a principal porta de entrada marítima da Venezuela, agora funciona como necrotério improvisado. O governo venezuelano atualizou o número de mortos para 1943.
E aí nesse prédio onde tinha uma lista de nomes de possíveis vítimas, tinha um rapaz que tava deitado num colchão, só ele sozinho, sim, é, embaixo do parapeito do que tinha sobrado da portaria. E aí eu comecei a conversar com ele e ele me contou que tinha acabado de perder a mulher e as duas filhas e que basicamente a vida dele tinha acabado. E ele tava naquele lugar quase que numa inércia assim. Eu conversei com ele, ele não quis gravar entrevista, obviamente eu também não insisti porque, né, a gente tem que respeitar o momento das pessoas.
A gente até gravou uma entrevista em áudio com ele, mas ele disse que não queria ser gravado em vídeo. Eu perguntei pra ele, né, porque ele me contou que foi por pouco que ele se salvou, que ele tinha saído de casa pra ir ao mercado e quando voltou, enquanto eu tava saindo, os tremores começaram, ele tentou voltar pro edifício e aí já viu tudo caindo. E aí eu perguntei se ele preferia trocar de lugar com elas, né? E ele me disse que na verdade não, mas que ele queria estar com elas, que ele preferia estar com elas no apartamento.
E ele tinha um olhar assim de isolado, um olhar meio perdido, uma sensação de que ele passava uma sensação de que a vida já não fazia mais sentido. Claro que é um momento de luto muito próximo, né, mas é, e com o tempo talvez essas feridas sarem, mas nunca completamente, né. Então tem sido difícil ouvir relatos dessa magnitude assim. Às vezes, às vezes é difícil fazer as entrevistas.
Eu sinto muito por tudo que você tem ouvido, relatado, presenciado, e eu te desejo boa sorte nessa cobertura tão difícil. Pedro, muito obrigada.
Valeu, Natuza, é um prazer participar aqui com vocês.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Paulo Velasco.
Se você ainda usa toner para imprimir, tá na hora de você saber que o principal componente é o plástico. Um ano de impressão com toner em todo mundo equivale a 20 bilhões de sacolas plásticas. É muito plástico, não é? Chegou a hora de reduzir o plástico nas suas impressões e ainda diminuir também o consumo consumo de energia. Mude para uma impressão toner-free escolhendo as impressoras empresariais de jato de tinta Epson WorkForce com a tecnologia PrecisionCore.
Você não vai querer continuar usando impressoras com toner, vai? Saiba mais em epson.com.br/tonerfree. As estimativas da Epson são baseadas em dados internos e de terceiros.
Professor, antes da gente entrar mais a fundo na situação da Venezuela, eu queria te pedir para dar um passo atrás explicar qual era o cenário social, político e econômico da Venezuela antes dessa tragédia.
A Venezuela vive já há bastante tempo, podemos dizer aí pelo menos uns 15 anos, um quadro bastante desafiador do ponto de vista político. Temos visto um cenário de crise e incerteza institucional e esse cenário é progressivo, ele vem se agravando com o tempo. Ao cabo de determinado período, a cada eleição que acontece, as eleições lá são a cada 6 anos, temos uma deterioração no que que é a legitimidade do governo de Nicolás Maduro, né.
Isso traz toda uma incerteza institucional bastante importante, né, que começou ainda no final da era do Hugo Chávez, né. Então, politicamente, né, há muita frustração, especialmente é da parte de um segmento social que é opositor ao chavismo e ao madurismo, né, e que não vê de fato pela via legítima eleitoral uma chance de mudança. Do ponto de vista econômico, né, vemos, né, também uma situação de crise profunda, né, com alguns momentos, né, de certo alívio, mas um alívio muito transitório e pequeno, né, diante, né, de desafio econômico, financeiro e macroeconômico, né, muito relevante, né.
Em vários momentos, uma crise de desabastecimento na Venezuela, faltando gêneros básicos, alimentos, né, mantimentos no supermercado, faltando medicamentos, né. Uma situação econômica de penúria. Temos, né, uma população, repito, né, que perdeu, né, boa parte do apoio social do governo. Isso levou ao empobrecimento. E a partir daí, claro, né, mais questionamentos contra o Maduro, mais repressão contra os opositores, né, contra a sociedade, né, ou parte dela.
Que se opunha ao modelo de governo do Maduro, inclusive com mortes, né, muitas vezes repressões. E tudo isso acabou evidentemente criando toda uma espiral de incerteza na Venezuela. Então, uma combinação de variáveis, né. Eu costumo dizer que a Venezuela tem vivido uma policrise, uma crise que não é só econômica, não é só social, não é só política, uma combinação disso tudo trazendo um quadro de incerteza, de frustração, né, para população, para sociedade.
Evidentemente que as feridas e as fraturas acabam se tornando ainda mais paupérrimos.
Alguma coisa mudou nesses termos depois da intervenção americana?
Houve algumas mudanças, especialmente do ponto de vista econômico, né? A Venezuela, né, ela vinha de um sucateamento muito rápido do setor petrolífero, né, que responde por boa parte da economia do país. E a partir da captura do Maduro no início de janeiro, tivemos uma mudança em grande medida na administração, né, desse setor petrolífero, né, que acabou passando em grande medida para um controle norte-americano, né, a partir de empresas norte-americanas, né?
Aliás, o próprio Donald Trump E não escondeu, né, que esse era um dos objetivos da própria ação ali em 3 de janeiro, né, assumir em alguma medida o controle do setor de petróleo, né, para permitir uma recuperação da produção, né, em termos de barris por dia, né. A Venezuela estava nos piores índices de produção de petróleo nas últimas 4 décadas, né, exatamente por conta do sucateamento, defasagem desse setor, né. O setor do petróleo, como a gente sabe, exige um reinvestimento permanente, exige, né, uma manutenção de todas as máquinas envolvidas— na extração e produção.
Grande parte do petróleo venezuelano é extra pesado, o que exige tecnologia avançada e altos investimentos. Ao longo dos anos, a combinação de infraestrutura deteriorada, a falta de investimentos, sanções internacionais e gestão ineficiente derrubou a produção. Só que o petróleo sempre foi o pilar da economia venezuelana, respondendo por mais de 90% das exportações durante décadas. Essa dependência deixou o país vulnerável quando a produção caiu e as sanções aumentaram.
Depois que o governo nacionalizou a indústria petrolífera, em 1976, a estatal perdeu técnicos, sofreu cortes e interrompeu manutenções.
De janeiro para cá, né, há uma progressiva recuperação, né, nessa produção, que ainda não está nos níveis, né, naturais, históricos, né, mas há uma certa melhora. O que não significa, evidentemente, né, que essa melhora do setor, especificamente do petróleo, né, ainda que paulatina e ainda embrionária alcance a população de um modo geral, né? Podemos dizer, portanto, na Tusa não deu tempo, né? Podemos dizer que a sociedade em si, né, os cidadãos venezuelanos não foram alcançados por qualquer tipo de melhoria do ponto de vista socioeconômico, né, no que é o seu dia a dia, no que é a sua vida mais cotidiana.
A grande dúvida aqui, professor, é saber como é que vai se dar esse processo de reconstrução da Venezuela, né? Porque é uma reconstrução que não data dos terremotos, é uma reconstrução que data de muito antes, a partir do que você nos conta. E em que medida essa reconstrução vai ser disputada por Estados Unidos de um lado e por China e Rússia do outro? Qual é a capacidade de reconstrução da Venezuela hoje?
Então, o desafio é imenso, né? É imenso porque, como você muito bem coloca, essa destruição alcançou proporções ainda maiores por tudo que vinha acontecendo em anos anteriores, né. Então, sucateamento, como eu falei, não só do setor de petróleo, mas das questões mais básicas e fundamentais do dia a dia na Venezuela, né. Então, as construções, por exemplo, deixaram, né, de ter nenhuma fiscalização, monitoramento, né, importante, né, para verificar o estado dos materiais, os desgastes materiais, para verificar infiltrações, por exemplo.
Então, edificações que estavam aptas a certa altura deixaram de estar aptas, né, e acabaram naturalmente ruindo, né, diante do quadro do terremoto. E tudo isso é por esse cenário, né, de descaso, de sucateamento, e às vezes inclusive de corrupção, né, entre esferas de autoridades que deixaram de fazer o acompanhamento necessário. É falta de planejamento em equipes de resgate, bombeiros, é falta de material mesmo, de equipamento, né, para eles poderem trabalhar.
Passamos a ver uma Venezuela nos últimos anos, né, que vivia muito na base do improviso e muito de maneira reativa, né, reagindo, né, aos episódios, né, e as questões que eventualmente surgiam. Só que não se esperava que surgisse nenhuma questão da magnitude dos terremotos da semana passada. Então, quando se fala em reconstrução, é porque reconstrução mesmo, né, são muitas regiões, né, parcial ou quase que completamente destruídas pelo terremoto.
Então isso vai exigir recursos, vai exigir vontade política. Nesse primeiro momento é natural, né, que muita gente se dispõe a ajudar, vários países se colocando numa postura solidária, organizações internacionais liderando esforços de ajuda em plano emergencial.
Mas depois que passa esse primeiro momento, por experiência do que eu vi no Haiti, essas ajudas cessam.
É isso, esse é o ponto fundamental, né. Então, com o passar do tempo, esse tipo de ajuda vai acabar minguando. E aí a recuperação ou reconstrução da Venezuela não será feita da noite para o dia, thread, né, de fato meses, anos, né, de esforço, de coordenação. E aí de novo entra a questão geopolítica em meio. É um país que já vinha sendo geopoliticamente, né, impactado, né, por tensões, né, de um mundo cada vez mais fraturado, né, muito na órbita de China e de Rússia, né, nos últimos 20, 25 anos.
E agora, né, depois que o Trump volta à Casa Branca, né, alvo também, né, de uma tentativa de maior projeção de poder hemisférica por parte dos Estados Unidos, né. Então claro, né, que a Venezuela, né, agora devastada, aí precisando de recuperação e reconstrução, vai também nesse alvo desse tipo de disputa e de tensionamento geopolítico. Político, né, o que acaba sendo na verdade, né, é muito ruim para os interesses do próprio cidadão venezuelano, né, que quer evidentemente que haja não fraturas, disputas, mas que haja um esforço mais coordenado e melhor coordenado em favor do futuro do país, que por enquanto é muito incerto.
Para finalizar, é impossível e até inadmissível falar em reconstrução que não passe por algo central nessa história, que são eleições livres. Ok, os Estados Unidos fizeram a intervenção, deixaram lá o o establishment político que resolveu aderir, né, aos Estados Unidos. Do que se fala em termos de eleição livre? E com isso, e quão difícil isso fica com os terremotos?
Então esse talvez seja o fator de maior frustração desde, né, a operação norte-americana ali, determinação absoluta em 3 de janeiro, e houve a captura do Maduro.
A história da América Latina registrou um capítulo inédito: os Estados Unidos depuseram Nicolás Maduro do poder. Anunciaram que vão administrar a Venezuela por algum tempo e controlar a indústria do petróleo.
Mas do ponto de vista concreto, nada mudou, né? Ou seja, a sociedade continua vendo, especialmente os opositores ao chavismo e ao madurismo, continuam vendo no poder personagens históricos, né, do chavismo, né? Adélcie Rodríguez, o irmão dela, o Jorge Rodríguez, que preside a Assembleia Nacional, né, o parlamento na Venezuela. Então não houve uma grande mudança de direcionamento de controle, né, no país, o que naturalmente causa frustração, né, para opositores que nas eleições 2018, nas eleições de 2024, tiveram evidentemente suas expectativas frustradas, né, pela prática de fraudes variadas, né, em maior ou menor escala.
4 especialistas da ONU que acompanharam a eleição em Caracas escreveram um relatório. Segundo a ONU, o processo de gestão dos resultados do Conselho Nacional Eleitoral ficou aquém das medidas básicas de transparência e integridade que são essenciais para realização de eleições confiáveis. Os observadores afirmaram que o anúncio do resultado de uma eleição com a vitória de Nicolás Maduro sem a publicação dos registros de votação por candidatos não tem precedente em eleições democráticas contemporâneas.
Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional controlada por Maduro, disse que vai propor um projeto proibindo observadores internacionais mais em eleições no país.
Então haveria a expectativa por parte desse grupo, né, muito amplo hoje, muito representativo na sociedade, né, de justamente uma mudança política, uma transição política pacífica, ordeira, né, bem administrada. E tudo isso passa por, né, por óbvio, pela realização de novas eleições. Não parece uma prioridade, né, para a dupla Trump-Rubio. Eles entendem que por enquanto, do modo como está, as coisas funcionam bem, é porque o interesse no petróleo de fato tem sido atendido, né, ou seja, Os Estados Unidos têm conseguido assumir o controle do setor petrolífero na Venezuela, o que traz dividendos econômicos muito satisfatórios para Donald Trump, e vende isso internamente como uma vitória.
Mas ele esquece justamente dos venezuelanos, que deveriam ter sido a principal prioridade daquela ação em 3 de janeiro, no sentido de permitir a eles um futuro melhor. Isso passa por uma transição política de poder, mas que seja pacífica e muito, muito bem administrada, a partir de eleições livres, diretas, irrepresentativas, né. Se fala, né, muito vagamente, em eleições talvez para 2028, né. É longe demais, se é que de fato serão realizadas àquela altura.
E agora, com o terremoto, fica tudo ainda mais urgente, né. Claro que nesse primeiro momento, né, tem que se cuidar, evidentemente, né, desse cenário de devastação no país, tentar reverter um pouquinho a crise humanitária, que já é uma crise brutal, né. Segundo os dados do Acnur, da própria ONU, né, temos uma crise sanitária, né, uma uma crise efetivamente humanitária de proporções gigantescas. Mas evidentemente tem que se pensar também no futuro mais amplo da Venezuela.
Isso passa por algum tipo de mudança de cenário político, porque senão, reitero, a situação se manterá num quadro de incerteza e de muita, muita frustração para uma parte significativa dos venezuelanos que esperavam uma mudança um pouco mais profunda no país.
A história nos permite concluir que nunca, ou pelo menos raramente, é sobre democracia, né? É sempre sobre o líder político que está mais perto dos mais poderosos, né? E aí a população segue sofrendo muito parecido com que sofria antes. Paulo Velasco, muito obrigada por sua participação aqui no Assunto. Você sabe que você é sempre muito bem-vindo por aqui.
Muito obrigado, Natuza. Até a próxima.
Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Rafa, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.
Se você ainda usa toner para imprimir, tá na hora de você saber que o principal componente é o plástico. Um ano de impressão com toner em todo mundo equivale a 20 bilhões de só as plásticas? É muito plástico, não é? Chegou a hora de reduzir o plástico nas suas impressões e ainda diminuir também o consumo de energia. Mude para uma impressão toner-free escolhendo as impressoras empresariais de jato de tinta Epson WorkForce com a tecnologia Precision Core.
Você não vai querer continuar usando impressoras com toner, vai? Saiba mais em epson.com.br/tonerfree. As estimativas da Epson são baseadas em dados internos e de terceiros.
Epson
Impressoras empresariais de jato de tinta WorkForce com tecnologia PrecisionCore