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Juros e meta de inflação: o quadro atual é viável no Brasil?

29 de junho de 202628min
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Convidados: André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, professor e coordenador universitário do curso de Ciências Econômicas e autor do livro ‘O Salto do Sapo: a difícil corrida brasileira rumo ao desenvolvimento econômico’; e Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos, professor do IDP, ex-secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente. Em meados de junho, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu por um corte tímido na Selic, que é a taxa básica de juros: uma redução de 0,25 ponto percentual. A decisão unânime do Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano e a ata da reunião sinalizou que os cortes podem parar por aí. A definição da taxa de juros é a ferramenta que o BC tem para cumprir uma de suas atribuições, que é perseguir a meta de inflação, atualmente em 3% ao ano – essa meta é definida por um conselho formado pelos ministérios da Fazenda, do Planejamento e pelo próprio BC. Atualmente, o Brasil tem o maior juro real do mundo – que é a diferença entre a taxa básica e a inflação, que está em 4,72% no acumulado dos últimos 12 meses). Neste episódio, Natuza Nery promove um debate com os economistas André Galhardo e Felipe Salto para responder a duas questões principais: a meta de inflação 3% ao ano é viável para o Brasil hoje? E o que o país precisa fazer para ter condições de conviver com juros menores?
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
A

André Galhardo

ConvidadoProfessor e economista-chefe
F

Felipe Salto

ConvidadoEconomista-chefe
Assuntos4
  • Inflação no BrasilHistórico da inflação brasileira · Papel da taxa Selic · Meta de inflação de 3% · Juros reais no Brasil · Impacto dos juros altos na economia · Viabilidade da meta de inflação · Custo social e econômico da meta · Política fiscal e meta de inflação
  • Inflação e Política MonetáriaProposta de superávit de 2% do PIB · Proposta de meta de inflação de 4% · Rigidez orçamentária no Brasil · Gastos sociais e benefícios · Renúncias fiscais e gastos tributários · Subsídios creditícios · Spending review (revisão de gasto público)
  • Próximo compromisso contra o MéxicoTaxa de juros no México · Política monetária do Banco Central Mexicano · Reservas internacionais do Brasil vs México · Fragilidade externa da Argentina
  • Construção e Manutenção de Reputação e CredibilidadeImpacto da mudança de meta na credibilidade · Risco de desancoragem das expectativas · Dívida pública indexada à Selic · Janela de oportunidade para discussão da meta
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NNNatuza Nery

Pra explicar essa história, a gente precisa voltar alguns anos atrás. Em abril de 2022, a inflação brasileira estava em franca aceleração e chegou a passar de 12% ao ano, a maior da última década. Você que faz compra no mercado, que paga contas, sentiu, claro, o aumento dos preços espalhado por todos os cantos. Os manuais de economia recomendam um remédio: Aumentar os juros. E foi assim que, naquele momento, o Banco Central reagiu e subiu a Selic, a taxa básica que regula todos os juros da economia.

Tudo isso para tentar manter a inflação dentro da meta. Essa meta é definida por um trio: o Ministério da Fazenda, o Ministério do Planejamento e o próprio Banco Central. Hoje essa meta é de 3% ao ano. Pode ter uma sobrinha a mais, uma sobrinha a menos, mas o centro da meta é esse mesmo, 3%. Só que nos últimos 12 meses a inflação ficou acima disso, bem acima disso, chegando a 4,72% ao ano. E é aí que o calo aperta. Juros altos arrebentam a economia.

O crédito fica mais caro, os investimentos recuam, o consumo diminui. Resultado: o PIB desacelera. Aqui é que entra nosso dia a dia, é que se a inflação estiver acima da meta, o Banco Central acaba elevando a taxa de juros para conter o aumento de A taxa Selic é o que a gente chama de taxa básica de juros na economia.

?Voz B

É ela que afeta as outras taxas de juros do país e faz com que o dinheiro fique mais caro ou mais barato. Se a taxa Selic está alta, então os juros daquele empréstimo que você queria pegar pra trocar de carro vão ficar maiores. Isso acaba controlando a inflação porque desestimula o consumo. E é aí que entra a política monetária.

NNNatuza Nery

Na semana retrasada, o COPOM, que é o Comitê de Política Monetária, que define na prática, no Banco Central, qual vai ser a taxa de juros, decidiu o seguinte: O Banco Central divulgou a ata da reunião mais recente do Comitê de Política Monetária.

FSFelipe Salto

O COPOM reduziu a taxa básica de juros para 14,25% ao ano.

NNNatuza Nery

Houve um corte tímido de 0,25 ponto percentual e junto a ele um alerta: a qualquer momento o Banco Central pode rever a redução dos juros que começou lá em março deste ano.

FSFelipe Salto

O Brasil está na liderança mundial de juros reais. Que que é o juro real? É a diferença entre a taxa SELIC para a inflação.

NNNatuza Nery

A economia brasileira se vê então entre a cruz e a espada. De um lado, juros altíssimos. Do outro, uma inflação que insiste em ficar acima da meta. E é aí que entra o debate: essa meta de inflação em 3% ao ano é uma meta viável? Da redação do G1, eu sou Natuza Nery e o assunto hoje é: a meta de inflação e os juros no Brasil. Neste episódio, eu converso com André Gagliardo, economista-chefe da consultoria Análise Econômica, professor e coordenador universitário do curso de Ciências Econômicas.

Gagliardo é autor do livro O Salto do Sapo: A Difícil Corrida Brasileira Rumo ao Desenvolvimento Econômico. E com Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investments e professor do IDP. Salto foi secretário da Fazenda e do Planejamento do Estado de São Paulo e o primeiro diretor executivo da Instituição Fiscal Independente, o IFI. Segunda-feira, 29 de junho. Bom, já que a gente começou o nosso papo aqui, eu queria ser bastante didática para quem nos ouve.

Eu queria te ouvir, Galhardo, o que que significa para a economia brasileira mudar a meta de inflação?

AGAndré Galhardo

Bom, Natuza, neste momento significa um custo social, um custo econômico muito menor. A meta de inflação estabelecida pelo ser monetária nacional, ela é bastante audaciosa. Eu tenho dito em alguns lugares que é uma meta irrealista perseguir uma meta de inflação tão audaciosa. Tem exigido um custo muito alto para a sociedade brasileira. A gente normalizou, por exemplo, desembolsar mais de R$1 trilhão com juros da dívida pública no ano passado.

É claro que essa é uma visão, uma interpretação de como nós deveríamos proceder em relação à perseguição de uma meta inflacionária. Mas a gente sabe o custo político que isso tem, sobretudo Nesse ano eleitoral, né, que pesam muitas desconfianças em torno da condução da política fiscal, alterar a meta de inflação pode passar um recado equivocado para o mercado financeiro, que pode ver nessa revisão da meta de inflação um esforço para poder gastar mais.

Então a gente precisa encontrar um meio termo, né, uma meta de inflação que seja factível, que o Banco Central possa perseguir essa meta inflacionária sem onerar tanto, por exemplo, a dívida pública do país, ao mesmo tempo em que a gente precisa passar, o governo precisaria passar um recado de que a condução das contas públicas seria mais amigável.

NNNatuza Nery

Bom, então é bom explicar que não é só a mãe de família, o pai de família, o empresário, a empresária que paga mais se os juros estão altos. O governo também paga mais porque ele vai ter que pagar um juro maior da sua dívida. Eu quero te ouvir Filipe, à luz do que o Gagliardo disse, se o teu entendimento sobre uma mudança na meta fiscal é o mesmo. Mas antes, a tua interpretação.

FSFelipe Salto

Bom, eu diria o seguinte: nós temos hoje no Brasil um regime de metas à inflação, vem desde 99, mas uma mudança recente que foi positiva, a meu ver, que é a chamada meta contínua. O Banco Central, por meio do seu Comitê de Política Monetária, o COPOM, ele tinha que perseguir no ano-calendário a meta de inflação, ou seja, janeiro a dezembro. Isso mesmo. Então, se acontecesse alguma coisa nos últimos meses, algum choque de preços de alimentos, algum evento externo, o Banco Central ficava à mercê desse compromisso.

Com o sistema da meta contínua, agora avalia-se todo mês se o Banco Central tá conseguindo cumprir ou não a meta pelo acumulado em 12 meses da variação do IPCA, que é o índice de referência. Tem vários índices de inflação no Brasil, herança ainda da nossa hiperinflação, que foi debelada lá em 94 com o Plano Real.

?Voz B

O IPCA é um índice utilizado para medir a variação de preços, ou seja, a inflação de uma cesta de produtos e serviços consumidos pelas pessoas do país num determinado período. Esse período pode ser de 1 mês, de 3 meses, de 1 ano ou dos últimos 12 meses. E o objetivo desse índice é representar o consumo de pelo menos 90% da população que vive em áreas urbanas do país. Ele indica a inflação no país a partir de uma verificação mensal de 430 mil preços em 30 mil locais de 16 diferentes centros urbanos do Brasil.

FSFelipe Salto

Então, o que acontece é que essa meta de 3%, ela me parece muito ousada pro nosso histórico e pro nosso desempenho, digamos, das contas públicas. Porque só em 3 ocasiões, se a gente pegar os anos fechados desde o pós-Plano Real, lá em 94, o Brasil teve uma inflação em torno de 3% no encerramento do ano. Então isso é uma primeira evidência que mostra que talvez a gente tenha sido exagerado ao fixar uma meta tão ousada, o que não significa que a gente tem que chutar o balde, abandonar os compromissos que estão estabelecidos.

Mas é preciso, na linha do que o Gagliardo também falava, repensar um pouco esse arranjo da política monetária, dos juros, à luz dos outros eixos da política econômica e da dinâmica também da economia brasileira. Por exemplo, o lado fiscal, que a gente poderia migrar para uma meta um pouco mais flexível, um pouco mais alta, desde que a gente adotasse também um compromisso mais firme do lado das contas públicas. E o mercado, que é quem financia o governo, também perceberia um maior compromisso intertemporal, né, com a responsabilidade com dinheiro público, e isso também ajudaria a ter juros mais baixos.

AGAndré Galhardo

Me permite complementar? Foram apenas 2 anos em que a taxa de inflação brasileira ficou abaixo de 3%. Uma vez foi lá em 1998, e nós tínhamos um câmbio supervalorizado, né? E em 2017, quando o Brasil ainda se recuperava dos graves efeitos da crise econômica de 2015, de 2016, eu trouxe isso aqui para o debate, porque dá para fazer, dá para fazer com que o IPCA converja para um patamar tão baixo para padrões brasileiros como essa meta de 3%.

Então, a pergunta que a gente precisa fazer é: qual o custo para operacionalizar isso? Como Felipe Salto falou aqui, a gente tem uma taxa de juros muito alta. Eu sei que a taxa de juros deriva de outros elementos além da meta de inflação, mas uma delas é a própria meta de inflação. Então a gente tem uma taxa básica de juros que é uma das mais altas em cerca de 20 anos aqui no Brasil, e é uma das taxas reais de juros. Essa taxa real é uma das mais altas do mundo hoje, equiparada a países que estão em guerra, como por exemplo a Rússia.

E isso é um custo muito grande para o país, e isso acaba reverberando, perpassando essa, essa parte macroeconômica e chegando ao bolso dos empresários e familiares e famílias brasileiras.

NNNatuza Nery

Então o sumo que eu tiro desse é que uma meta de inflação de 3% é irrealista para o histórico brasileiro e para o contexto brasileiro. A dúvida é o que fazer e como fazer. O Felipe Salto já deu ali uma pista do que ele avalia como sendo o caminho para poder fixar uma meta maior de inflação, que é fazer um ajuste fiscal. A gente sabe que o orçamento público é um orçamento hiperengessado, o governo tem muito pouco dinheiro para investimento, este governo atual não abre mão de programas sociais.

Cuidar das contas públicas significa, em boa parte, cortar investimento social também. Então eu queria entender com vocês se é possível mexer nessa meta de inflação agora ou no ano que vem, para ver se a gente cria soluções ou situações mais propícias a uma queda de juros. E como fazer, aplicar esse remédio? De que forma?

FSFelipe Salto

Eu tenho defendido uma proposta que eu tenho chamado de proposta 2-4: superávit de 2% do PIB e meta de inflação de 4%. O presidente Lula perdeu a oportunidade no início do mandato, em 2023, de fazer esse debate, porque com aquela discussão da reforma tributária, do novo arcabouço fiscal, havia ali um crédito do governo junto ao mercado, junto à sociedade, aos formadores de opinião, e optou-se pela história da meta contínua e tal, e a meta de inflação de 3%, que já estava posta na sistemática anterior pelo governo e pelas gestões anteriores também, do Banco Central, etc.

Acabou sendo ratificada. Então agora em 2027 é uma nova oportunidade, porque como as contas públicas estão muito engessadas, a rigidez orçamentária, pela minha conta, já chega a 95,3%. E para quem tá nos ouvindo entender, significa que só pouco mais de 4%, 4,5%, é o percentual que o governo consegue ter alguma liberdade para decidir sobre o gasto público, sobre os recursos arrecadados, que são as despesas discricionárias, não obrigatórias.

Então é preciso colocar o dedo nas feridas abertas, que são aquelas que você começou a falar, Natuza. Por exemplo, a questão dos gastos sociais. Hoje a gente tem uma multiplicidade de benefícios, benefícios de prestação continuada, sem contar a Previdência Social, o seguro-desemprego, o Bolsa Família, o abono salarial. Então são várias iniciativas que foram tomadas em algum momento do passado e que foram se acumulando.

NNNatuza Nery

Incentivos fiscais e desonerações também entram nessa conta, só para a gente sair do social clássico, né?

FSFelipe Salto

É um segundo grupo de transferências, são as chamadas renúncias fiscais ou gastos tributários. Um terceiro problema também envolvendo o lado da despesa são os subsídios creditícios. Então, o Plano Safra, que cresceu bastante. É preciso ter uma espécie de pente fino no orçamento público e olhar linha por linha do orçamento adotando aquilo que lá fora se convencionou chamar spending review, revisão periódica do gasto público. O primeiro passo para poder conter o crescimento da despesa não é nem cortar, é fazer com que ela cresça menos do que a capacidade de geração de receita. Que é medida, por exemplo, por meio do Produto Interno Bruto.

NNNatuza Nery

E para você, Galhardo?

AGAndré Galhardo

Então, essa confiança no mercado ali, ela sempre foi muito frágil. E tanto é que quando ventilou-se a possibilidade de debater a meta de inflação, a conversa rapidamente fluiu do campo econômico para o campo político. Ao defender, por exemplo, uma revisão na meta de inflação para deixá-la mais compatível com o nosso estágio de desenvolvimento, com a nossa própria estrutura, a gente costuma perceber que as pessoas interpretam essa defesa e mudança da meta como uma defesa pro governo.

Bom, então eu quero que a meta de inflação seja de 4%, por exemplo, como propôs o Felipe Salto aqui, porque eu quero juros mais baixos. Com juros mais baixos, economia cresce mais. Isso é capital político para o presidente se reeleger. Não se trata disso. A grande questão é a seguinte: eu preciso estabelecer uma meta de inflação razoável que defenda o poder de compra das famílias, o poder de investimento, de consumo das empresas brasileiras, sem que isso tanto os cofres públicos e a sociedade de modo geral.

Então, a disputa, a defesa em torno da mudança da meta de inflação é mais para que ela seja realista, condizente com o nosso estágio de desenvolvimento. Digo, se o governo recuperar a capacidade de criar superávites primários, que é importante, eu concordo integralmente com o que o Felipe Salto falou aqui. Se o governo criar capacidade de gerar mais receita do que gasta, isso é importante por si só, mas não traz a garantia de que o Brasil seja capaz de fazer inflação convergir para 3%.

Isso porque a economia brasileira é altamente indexada. Então o seu contrato de aluguel, quem tá ouvindo a gente aqui tem uma casa alugada, o contrato de aluguel provavelmente é reajustado através do IGP-M. 60% do IGP-M, que é um dos índices de preços que o Brasil dispõe, é índice de preço ao produtor, muito sensível a choques externos. Então quando eu tenho um aumento do choque, um aumento do preço do petróleo, como a gente teve recentemente, eu tenho um aumento do IGP-M, consequentemente um aumento do contrato aluguel. A economia brasileira é mais ou menos como a coisa funciona.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com André Gagliardo e com Felipe Salto. Eu fico sempre me perguntando o seguinte: se um governo hoje, não esse, qualquer governo, tá, vamos nos desprender aqui, resolvesse hoje aumentar a meta de inflação para 4%, o que que aconteceria em em termos de credibilidade, esse governo teria credibilidade de que ele vai conseguir reduzir um pouco da dívida em relação ao PIB no longo prazo?

Ou vai ter uma gritaria geral, independentemente do governo, não dá para aumentar essa meta? Embora vocês estejam concordando, e muita gente concorde, que é uma meta difícil para nós aqui no Brasil.

FSFelipe Salto

É extremamente rigorosa a meta de inflação atual. Só que jabuti não sobe em árvore sozinho, né? Ele tá lá em cima da copa da árvore.

NNNatuza Nery

Alguém botou ele lá, né?

FSFelipe Salto

E alguém botou ele lá. Ou é enchente ou é mão de gente, né? Mas é preciso entender que existe uma realidade da economia brasileira de baixa poupança e também uma dívida pública muito indexada à própria Selic. Que que significa isso? O governo, ele tem uma dívida, ele precisa tomar emprestado porque a receita tributária não é suficiente para cobrir os gastos, né? Toda vez que o Banco Central decide subir a meta Selic, ou seja, o juro básico da economia, a dívida cresce automaticamente só pelo fato de que o Banco Central decidiu aumentar o juro.

Foi feito esse arranjo lá atrás, no final dos anos 80, porque ninguém acreditava no Brasil, tinha um risco de quebrar muito grande, o histórico do Brasil era muito ruim. Então criou-se essa dívida atrelada ao próprio juro para que as pessoas não tivessem medo e o risco fosse muito mais baixo para comprar títulos da dívida pública. E desde então a gente não conseguiu se livrar desses títulos, as chamadas LFTs ou Tesouro Selic. Isso parece uma coisa lateral, mas é central, porque é o único lugar no mundo que tem uma dívida cuja participação de títulos pós-fixados é gigantesca.

Quer dizer, isso dificulta a tarefa do Banco Central para manejar Selic. Porque ao manejar Selic, ele também tá definindo, de certo modo, as regras e atratividade para dívida pública brasileira. Então isso é bastante relevante para explicar o problema do juro alto no Brasil. Agora, voltando mais ao ponto que você trouxe, que nesse momento simplesmente mudar a meta de inflação não seria desejável, porque o tiro poderia sair pela culatra.

Nós já estamos com a eleição posta, os candidatos estão aí discutindo, os nervos à flor da pele, o mercado com uma desconfiança tremenda. Emenda, qualquer comunicado do Banco Central, ruídos nesse momento devem ser afastados, devem ser evitados. Mas eu entendo que uma discussão de mudança da meta para o início do próximo mandato presidencial seria bem-vinda, acompanhada dessa estratégia de política fiscal também mais dura.

NNNatuza Nery

E para você, Galeardo?

AGAndré Galhardo

Discutir a meta pura e simplesmente não funcionaria, mas isso deveria vir acompanhado de outras medidas. O Banco Central tá numa espécie de camisa de força e o Conselho Monetário Nacional também, né? Nós teremos provavelmente a menor taxa de inflação acumulada para um governo na história do Brasil nesse Lula 3. E mesmo assim, eu sei que a população sente pouco em função da mudança de patamar dos preços pós-pandemia, mas é o que o IPCA diz.

Nós teremos uma inflação bastante controlada e mesmo assim uma das taxas reais de juros mais altas do mundo. Então é camisa de força no Banco Central, camisa de força no Conselho Monetário Nacional. E aí quando eu olho para frente, eu fico eu fico um pouco preocupado. Em primeiro lugar, porque qualquer medida que vise reequilibrar as contas públicas no Brasil terá de tocar em pontos muito sensíveis, como por exemplo os pisos constitucionais, BPC, gastos previdenciários.

Então será difícil tanto para um eventual quarto mandato do governo Lula quanto para um mandato da oposição. Então quando eu olho para frente, vejo vejo grande dificuldade em dar uma nova dinâmica às despesas públicas no Brasil. Por outro lado, vejo também essa dificuldade de alterar a meta de inflação, porque fazê-la sozinha, sem que esse movimento de alteração da meta de inflação seja acompanhado, por exemplo, de um reequilíbrio mais forte, né, das contas públicas, poderia trazer danos e efeitos colaterais indesejados, como por exemplo desancoragem das expectativas que é quando o mercado começa a projetar uma inflação muito mais alta para os 2, 3, 4 próximos anos.

Mas algo precisa ser feito. A gente tem uma meta de inflação que parece muito mais uma meta europeia do que brasileira. A meta de inflação do Banco Central Europeu é de 2%. A do Federal Reserve, que é o Banco Central norte-americano, também de 2%. A do Brasil, que a gente já se acostumou, tem uma inflação mais alta, bem mais alta do que nos países desenvolvidos, é de apenas 3%. E aí que reside o grande problema.

NNNatuza Nery

Existe algum um país parecido com o Brasil que fez esse caminho, que aumentou a meta de inflação, e isso gerou resultados positivos, como até mesmo crescimento do PIB? Claro, tô falando tudo isso dentro de uma inflação minimamente controlada.

AGAndré Galhardo

Que eu sei que os pares brasileiros na América Latina, como por exemplo México, tem taxas de inflação equivalentes à brasileira, e com uma taxa de juros em torno de 6,5%, como é o caso do México. É uma taxa de juros muito baixos, inclusive há uma crítica do mercado em relação à condução da política monetária por lá, e não tem grandes prejuízos, né, da condução, né, da evolução dos preços, da atividade econômica mexicana. Existem diferenças fiscais, econômicas, estruturais, que permitem também esse movimento divergente, mas nós não podemos deixar de olhar com bastante inveja, né, como o Banco Central mexicano vem conduzindo a sua política monetária à luz de todos esses riscos inflacionários aos quais o México também tá submetido, né?

O aumento do preço do petróleo também acabou esbarrando e trazendo problemas ao México, assim como aconteceu no mundo todo. Há uma parte da explicação também dessa condução da política monetária brasileira vem da forma como o mercado doméstico encara a política monetária e o governo. Uma parte da explicação desse stress dentro da política monetária e condução da taxa Selic vem da forma como o mercado interpreta. Então criou-se também uma atmosfera muito ruim nomeação do Gabriel Galípolo.

E o Galípolo, talvez nessa tentativa de se mostrar— ele não decide a taxa de juros sozinho, o COPOM, que é o Comitê de Política Monetária, tem 9 membros— mas nessa tentativa de mostrar que o COPOM de fato estaria, não seria condescendente com uma inflação mais alta e tal, perdeu o timing. Infelizmente começou a fazer esse movimento no momento mais delicado dos últimos 2 anos, para dizer o mínimo. E agora essa janela de oportunidade se fechou.

Não por acaso, depois da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária, alguns economistas interpretam eu acho que o comitê pode fazer uma pausa nesse breve ciclo de ajuste da Selic.

NNNatuza Nery

Agora, Felipe, eu queria entender um pouco mais isso. O México mantendo essa meta de inflação de 3%, não que eu queira manter a meta, mas que eles conseguem juros menores, eles são organizados do ponto de vista fiscal por lá? Como é que é a situação lá?

FSFelipe Salto

A Moody's, aquela agência de classificação de risco internacional, reduziu recentemente a nota do Ou seja, não dá para ser México, é isso?

NNNatuza Nery

Porque a Moody's, essa agência de classificação de risco, ela dá um selo de bom ou mal pagador, né? Então quando ela baixa a nota, ela ou outras baixa a nota de um país, fica mais arriscado investir naquele país e afugenta investidores, né?

FSFelipe Salto

Isso mesmo. E na verdade a situação do Brasil é melhor que a do México. A gente tem reservas internacionais, por exemplo, que são de 50 a 60% maiores que as do México. Ou seja, tem as contas externas equilibradas. Isso é muito importante quando a gente olha para o país como Argentina. Muito se fala sobre o Javier Milei, o programa de ajuste fiscal que ele fez por lá. Pode até ter produzido alguns resultados, como reduzir a inflação anual aí para casa dos 30, 40% lá na Argentina, mas não vai resolver em definitivo a questão da economia argentina, porque lá existe uma fragilidade adicional à questão fiscal, principal, que é o desequilíbrio externo no balanço de pagamentos, a transação ou conjunto das transações de residentes com não-residentes.

Nós já tivemos isso no passado. Todas as nossas crises, Brasil conhece isso muito bem, todas as nossas crises tinham um componente externo, ou a dívida pública muito dependente de recursos externos. E hoje não existe mais isso. Então a gente tem uma dívida que tá nas mãos de brasileiros.

NNNatuza Nery

Bom, para a gente finalizar, eu queria saber se vocês enxergam janela de oportunidade para fazer essa discussão de aumento da meta de inflação? Se ainda este ano, para o ano que vem, se no ano que vem apenas. Um rápido palpite aí de cada um dos dois.

AGAndré Galhardo

Acho que é para esse ano, por ser um ano eleitoral, e fazer esse debate sobre a meta de inflação há poucos meses da eleição seria, talvez traria mais efeitos ruins, né, mais efeitos colaterais do que a resolução do problema que a gente tratou aqui. Então acho que uma eventual principal debate sobre esse tema que precisa ser feito, tempo já passou, nós perdemos o timing não só do início do ciclo de cortes da Selic, mas também desse debate feito dentro do Conselho Monetário Nacional.

Então isso ficaria para o ano que vem com o suporte, com sorte, com suporte de uma política voltada a dar uma evolução mais branda para as despesas obrigatórias, sobretudo as despesas obrigatórias aqui no Brasil. Então seria Se nós de fato tivermos algum tipo de reforma nas despesas brasileiras já endereçada esse ano após as eleições e discutida a partir do ano que vem, seria um momento bastante importante, bom para discutir essa meta de inflação em julho do ano que vem, provavelmente.

FSFelipe Salto

Eu entendo que poderíamos caminhar por duas vias, né? A primeira, logo depois das eleições gerais, em outubro, então, então ali naquele período do chamado governo de transição, convocar essa discussão, né, fazer esse debate sobre as metas de inflação. Tem economistas que estão estudando isso no Brasil e fora do Brasil também. Nada impede que o Conselho Monetário Nacional faça, por exemplo, audiências públicas para começar a trazer esse estado da arte do que, do que está se produzindo em matéria de teoria e também de análise dos dados, para a gente tentar desvendar equalizar essa diferença tão grande que existe na taxa de juros do Brasil em relação a países comparáveis.

E num segundo momento, aí acho que só para o ano que vem mesmo, rediscutir a meta. Lembrando que a meta ela tá balizada hoje por um decreto presidencial. Esse decreto só permite que o Conselho Monetário Nacional mude a meta para um horizonte de 3 anos à frente. Isso precisaria ser alterado também, mas como é decreto presidencial eu não vejo tanta dificuldade. E fazendo isso junto com aquele plano de um superávit primário em pelo menos 2 anos de 2% do PIB.

Acho que essa seria a composição de política ideal, já que a gente tem esse espaço aqui para poder imaginar qual seria esse desenho, digamos, ótimo de política pública.

NNNatuza Nery

E segundo eu entendi, esse plano serviria para que o próximo governo mostrasse um compromisso de não explodir seus gastos, para que não se imagine que o governo muda a meta para poder desembestar e gastar muito, e aí ter o efeito inverso, que é uma inflação de fato mais alta. Felipe, eu te agradeço muito. Galhardo, te agradeço também. Muito obrigada por toparem conversar aqui comigo no assunto.

FSFelipe Salto

Eu que agradeço, Natuza. Parabéns pelo podcast, obrigado pelo convite.

AGAndré Galhardo

Obrigado, Natuza, bom estar aqui com vocês. Obrigado.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.

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