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Donald Trump de olho na eleição brasileira

25 de junho de 202631min
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Convidado: Christopher Garman, diretor executivo das Américas na Eurasia Group, consultoria voltada em analisar tendências geopolíticas, eleições e mudanças regulatórias no continente. Nesta terça-feira (23), o presidente dos Estados Unidos compartilhou em sua rede social um artigo publicado pela emissora NewsMax que cita o Brasil como o próximo “teste” de Trump no processo de “ressurgimento conservador” da América Latina. É mais um sinal de que a Casa Branca está com a eleição brasileira na mira. A relação entre Trump e Lula, que já foi descrita pelo americano como uma “excelente química”, agora está estremecida – depois do encontro do G-7, ele também disse que “não pensa” e “não se importa” com Lula. Na relação entre os países, as últimas semanas registraram o anúncio de um novo tarifaço sobre produtos brasileiros e a classificação das facções CV e PCC como organizações terroristas por parte do governo americano. Neste episódio, Natuza Nery conversa com o analista internacional Christopher Garman sobre o que quer Donald Trump no Brasil e qual o tamanho da influência que ele pode ter nas eleições daqui. Garman avalia o impacto das ações da Casa Branca nas demais eleições latino-americanas e analisa as perspectivas de Lula e Flávio Bolsonaro até outubro.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Christopher Garman

ConvidadoDiretor-executivo
Assuntos4
  • Relação Trump-BrasilRelação Trump-Lula · Artigo da NewsMax sobre Brasil · Ações da Casa Branca contra Brasil · Classificação PCC e CV como terroristas · Impacto de Trump na eleição brasileira · Donald Trump · Flávio Bolsonaro · Lula
  • História econômica do BrasilTerras raras · Minerais críticos · Cadeias de suprimento · Redução da presença chinesa · Marco regulatório de minerais · Mina Serra Verde
  • Pressões Políticas e Eleitorais nos EUASegurança pública como desafio · Custo de vida e inflação · Guerra no Oriente Médio · Aprovação de Lula · Vantagem de incumbência · Lula · Flávio Bolsonaro
  • Eleições América LatinaEleições na Argentina · Eleições em Honduras · Eleições no Peru · Eleições na Colômbia · Apoio a Javier Milei · Perdão a Juan Orlando Hernández · Donald Trump
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NNNatuza Nery

Depois de uma química conquistada a duras penas, veio a refrega. Trump resumiu ao se referir a Lula numa entrevista: "Eu realmente não penso nele. Não poderia me importar menos." A relação de altos e baixos entre Lula e Donald Trump parece ter chegado ao momento mais crítico. Depois de farpas trocadas durante e pós o encontro do G7 na semana passada, Donald Trump deu um passo adiante. Na última terça-feira, o presidente americano compartilhou um texto na sua rede social.

Um artigo elogioso a ele próprio, da emissora Newsmax, que cita o Brasil como o próximo teste para o ressurgimento conservador na América Latina.

?Voz B

O texto enaltece a vitória de candidatos de direita e também com ideologia pro-Trump, segundo a reportagem, em países como El Salvador, Argentina e Peru. O próximo grande teste, de acordo com esse texto, é o Brasil. E diz: as atenções voltam-se agora para o Brasil, a maior nação da América Latina e a potência política da região.

NNNatuza Nery

E isso, claro, fez soar mais uma vez um alerta no Palácio do Planalto. O primeiro alerta foi em julho do ano passado, quando a Casa Branca aplicou a Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes e cancelou vistos de ministros do governo Lula. O segundo foi o próprio tarifaço em si, uma taxação sem precedentes contra o Brasil. Conduta que naquela época caiu na conta da família Bolsonaro.

?Voz C

Chantagem de Donald Trump resultou em melhora na avaliação do trabalho de Lula.

CGChristopher Garman

Politicamente fica claro que qualquer derivação, qualquer consequência do tarifaço no Brasil, férias coletivas, demissões, etc., etc., Tem nome, nome do meio, custo Bolsonaro. Existiu custo Brasil, agora existe o custo Bolsonaro. O que acontecer com o Brasil em alguns setores será um custo Bolsonaro, porque é o que eles dizem, é o que eles avocam para cima.

NNNatuza Nery

Mas aquela tensão toda do ano passado acabou sendo interrompida na Assembleia Geral da ONU, ocorrida em setembro de 2025, quando os dois líderes se cruzaram entre um discurso e outro.

?Voz B

Foi um encontro rápido, que o americano descreveu assim: Trump falou o seguinte: "Eu estava entrando e o líder do Brasil estava saindo. Nós nos vimos. Eu o vi, ele me viu e nos abraçamos. Então eu disse: 'Você acredita que daqui a 2 minutos apenas eu vou falar sobre esse encontro?' Mas ele parecia um homem muito legal. Na verdade, ele pareceu gostar de mim e eu gostei dele. E eu só faço negócios com quem eu gosto." Quando eu não gosto dele ou de alguém, eu não gosto da pessoa. Mas tivemos pelo menos 39 segundos de uma química excelente.

NNNatuza Nery

Tempos depois, uma reunião bilateral ajudou a selar a aproximação. E no começo de maio, Lula chegou a ser recebido na residência oficial de Trump. O Trump publicou em sua rede social que tinha acabado de se reunir com o dinâmico presidente do Brasil, que discutiram diversos temas, especialmente tarifas, que a conversa foi muito boa e que agora seus representantes vão discutir outros pontos-chave, podendo até agendar novas reuniões.

Mas rapidamente tudo mudou. 20 dias depois desse encontro, Trump também recebeu Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca. E começou o bombardeio.

?Voz F

O governo americano anunciou que os Estados Unidos decidiram classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras.

NNNatuza Nery

Flávio Bolsonaro reivindicou para si o mérito da decisão tomada pelo governo americano. Mas a história não parou por aí. O representante de comércio aqui nos Estados Unidos sugeriu uma tarifa de 25% sobre praticamente todos os produtos brasileiros, não apenas aos setores investigados. Dessa medida, porém, Flávio tentou se desvincular e o governo brasileiro passou a desconfiar ainda mais do que a Casa Branca é capaz de fazer por aqui.

?Voz F

O envio de uma carta de Flávio Bolsonaro para o secretário de Estado Marco Rubio. Eu escrevo primeiro para agradecer você pela cordialidade com quem nós fomos recebidos durante a visita recente a Washington. Nossa conversa reafirmou minha convicção sobre a nossa amizade entre as duas nações e os valores em comum e a visão comum sobre a segurança e a prosperidade do hemisfério ocidental. Eu continuo à sua disposição e ansioso para a gente aprofundar essa relação entre o Brasil e os Estados Unidos.

God bless America. Deus abençoe a América. Deus abençoe o Brasil. Respeitosamente, Flávio Bolsonaro.

NNNatuza Nery

Acontece que um eventual apoio explícito a Flávio pode ter um custo eleitoral para ele próprio, para o próprio candidato, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A pesquisa Quest de segunda-feira passada dá pistas disso. No espaço de um mês, a imagem negativa de Trump cresceu 6 pontos percentuais no eleitorado brasileiro e chegou a 45%. E metade dos eleitores afirma temer uma intervenção ou uma interferência americana no Brasil.

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: Donald Trump de olho na eleição brasileira. Neste episódio, eu converso com Christopher Garman, diretor executivo das Américas na Eurasia Group, consultoria voltada para analisar tendências geopolíticas, eleições e mudanças regulatórias no continente. Quinta-feira, 25 de junho. Carma, antes de mais nada, quero te fazer uma pergunta para começar nossa conversa. Você considera que o governo americano já está influindo, interferindo nas eleições brasileiras?

CGChristopher Garman

A palavra interferência talvez seja forte demais. Claramente nós temos uma Casa Branca no presidente Trump tem uma predileção ideológica. Ele tem deixado isso muito claro, de querer apoiar candidaturas e partidos e movimentos políticos da direita. Isso não deve ser diferente no caso do Brasil. Mas quando a gente olha sobre a capacidade da Casa Branca influenciar eleições na região, eu acho que é mais limitada. Mas eu diria que a ação americana está tendo uma influência porque as sanções e as tarifas virar um tema de debate político no Brasil, sem dúvida nenhuma, e vai fazer parte da campanha presidencial.

Eu até diria que esse eixo que a Casa Branca tem colocado, sanções e tarifas sobre o Brasil, até pode facilitar a campanha de reeleição do presidente Lula.

NNNatuza Nery

Gostaria de te ouvir sobre a atuação da Casa Branca, que até aqui tem variado muito na região. A gente fez um episódio esta semana falando, né, desse movimento à direita que a região tem feito, e foi reforçado agora nas eleições da Colômbia e também no Peru. Só que na terça-feira, o presidente Donald Trump compartilhou na rede social dele uma análise de alguém que o apoia, muito elogiosa, dizendo que tudo, todas essas eleições na região que penderam para direita foram por interferência ou influência ou até mérito de Donald Trump.

?Voz C

Uma postagem de Donald Trump indicando que ele pretende sim se meter na eleição brasileira de outubro.

CGChristopher Garman

Donald Trump republicou uma reportagem que atribui para ele próprio resultados eleitorais na América Latina. A reportagem ainda destaca a eleição presidencial de outubro no Brasil como o próximo grande teste de Trump após vitórias conservadoras na região. Diz que seria a disputa mais importante do hemisfério e que o processo eleitoral brasileiro tem sido alvo de intenso debate sobre a integridade do sistema de votação.

NNNatuza Nery

Eu queria saber como é que você avalia um gesto como esse de Trump compartilhar um texto com o teor que teve, né, de dizer que a eleição brasileira É um grande teste. E qual é o nível de interferência que a gente pode esperar? Seria, por exemplo, apenas uma declaração de apoio de Trump para Bolsonaro? Seria alguma ação do governo americano contra PCC e Comando Vermelho que ultrapassasse a fronteira da soberania nacional? Ou seria algo como uma influência que Trump tem nas big techs que são donas de redes sociais para influir no debate público da eleição.

CGChristopher Garman

Do meu ponto de vista, a Casa Branca teve pouca influência nas eleições da América Latina. Teve dois casos onde a Casa Branca pode ter impactado o resultado. O primeiro foi na Argentina, aonde o governo americano deu uma linha de crédito de 20 bilhões de dólares que evitou a crise cambial nas vésperas da eleição lá. Então, evidentemente, isso acabou ajudando o partido do presidente Milei.

?Voz E

2 pequenos pronunciamentos, um do Trump elogiando muitíssimo Milei, do Milei agradecendo muito ao Trump por tê-lo recebido. O Trump fala que tá apoiando a Argentina, vai oficializar o apoio ao Milei para eleição. Acontecem eleições legislativas na Argentina no final desse mês, mas aparentemente, pelo jeito como o Trump tá falando, ele tá tratando como se fosse eleição presidencial, porque ele fala assim, é, ele pode ganhar ou ele pode não ganhar, mas seria importante que ele ganhasse, porque do outro lado o adversário dele que eu acho que eu sei quem é, é de esquerda radical e foi que botou a Argentina no buraco pelos últimos 20 anos.

Mas nós vamos ajudar. Se ganhar o outro lado, essa ajuda pode não durar tanto tempo.

CGChristopher Garman

E também é quando a Casa Branca perdoou, não é, a condenação, absolveu a condenação do ex-presidente na Honduras na véspera da eleição, e ele foi uma liderança do partido do candidato Tito, que acabou prevalecendo.

?Voz C

Para falar de Honduras, veio a público que Trump concedeu perdão a um ex-presidente do país condenado no ano caçado nos Estados Unidos por tráfico de drogas. Trump disse que Juan Orlando Hernández foi alvo de perseguição política por parte do governo de Joe Biden, que foi quando saiu a condenação. O ex-presidente hondurenho é acusado de fazer parte de um esquema que teria enviado mais de 500 toneladas de cocaína para os Estados Unidos ao longo de 20 anos.

CGChristopher Garman

O resto, dando declaração de apoio público para um candidato, como foi feito na Colômbia, tem um impacto muito pequeno, quase nulo. Porque os eleitores, na maior parte, não reagem ou são influenciados pelo endosso de um presidente americano. São fatores locais que acabam ditando o voto. E eu diria o mesmo para o Brasil. Eu acho que o mais provável que ocorra, não é certo, mas eu apostaria que o presidente Donald Trump em algum momento venha dar um endosso para uma candidatura de oposição, provavelmente do senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro, ao longo da campanha.

E repercussão mesmo eleitoral deve ser pequena quase nula no resultado como um todo. Aí a sua pergunta: será que pode ter outras ações, como uma ação mais efetiva contra o PCC e o Comando Vermelho, que agora são denominados como grupos terroristas? E eu também acho improvável que algo venha acontecer, tanto que a denominação do PCC e o CV como grupos terroristas eu não vi como motivado por uma decisão na Casa Branca de tentar punir o Brasil individualmente, ou nem mesmo tendo uma, um vistas com repercussão eleitoral, de aceitar um pedido do candidato Flávio Bolsonaro.

Isso foi uma decisão que faz parte de uma política regional. Cinco outros países tiveram denominações de grupos terroristas, de grupos narcotraficantes nos seus países. Dois desses países são aliados muito fortes à Casa Branca. Aqui eu me refiro especificamente ao Equador e ao Salvador. São governos da direita e nem por isso houve uma denominação de grupo terrorista, de narcotraficantes nesses países. A Casa Branca já estava estudando essa medida há meses, há muito tempo.

Talvez o pré-candidato Flávio Bolsonaro influenciou o timing da decisão, mas isso já estava contratado. E a gente olha as prioridades da Casa Branca, estão muito mais no México, América Central, onde tem a rota de tráfego para os Estados Unidos, não tanto PCC e Comando Vermelho. Então a minha aposta é que podemos ter uma declaração pública do presidente Trump a favor do Flávio Bolsonaro, mas Outras medidas tendem a não ocorrer.

O que você colocou na mesa, que é o mais difícil de averiguar, que pode ter atuação de empresas de mídia social com algoritmos que ampliam mensagem de conservadores na campanha. Eu acho difícil a gente apostar nisso, até porque são empresas privadas e não controladas pelo governo. Mas isso eu diria que é uma área que não é transparente, não dá para poder avaliar.

NNNatuza Nery

Eu te perguntei isso porque existe uma avaliação dentro do governo brasileiro de que esse poderia ser um tipo de interferência que daria muita dor de cabeça, né? Então tá no radar do governo, pelo menos.

CGChristopher Garman

A minha pergunta vem daí: se existe uma interferência que pode acontecer, talvez seria nessa área. Eu não vejo interferências e capacidade de influenciar de outras formas.

NNNatuza Nery

Muito bem. Você disse que poderia, o que você enxerga como mais factível, digamos assim, seria uma declaração de apoio a Trump. E aí eu te pergunto se isso não seria inclusive prejudicial ao próprio Flávio Bolsonaro. Percepção opinião pública aqui no Brasil tem mostrado que parte dos eleitores coloca na conta da família Bolsonaro, né? O primeiro, Tarifaço, a própria declaração de organização terrorista que o Flávio Bolsonaro tentou faturar para ele.

E aí tem a percepção disso na opinião pública. Meu ponto é o seguinte: uma declaração de apoio de Trump pode até atrapalhar mais Flávio Bolsonaro do que ajudar, não é?

CGChristopher Garman

O fato é que quando o governo americano colocou as tarifas proibitivas, não é, no ano passado, de 50% sobre o Brasil, e a alterações da Lei Magnitsky, a atuação do governo Trump, né, ele se transformou uma figura mais impopular no Brasil e acabou sendo um tiro no pé para a família Bolsonaro naquela época. Isso vai ser utilizado na campanha, sem dúvida nenhuma. A campanha do presidente Lula vai argumentar que a família Bolsonaro foram traidores da pátria, de fazer lobby para medidas punitivas contra o Brasil, que tirou empregos do país.

Então, é, o governo PT vai querer associar a candidatura Flávio Bolsonaro a essas medidas punitivas que foram feitas no passado e parcialmente retiradas com a recomendação de tarifa de 25% feita pelo USTR, né, que é o órgão do governo americano que maneja a política tarifária. Então você tem razão, eu acho que uma associação forte e apoio do presidente Trump ao Flávio Bolsonaro pode ser, na margem, eu diria na margem, mais prejudicial à candidatura dele.

Agora, quando você veio no tema de denominar o PCC e CV como grupo terrorista, na margem isso ajuda a campanha do Flávio, porque as pesquisas têm mostrado que a maioria dos eleitores apoiam uma medida dura contra o crime organizado. Então criticar uma medida americana de denominar a PCC e CV como grupo terrorista vai um pouquinho contra a opinião pública, mesmo que esse apoio à denominação arrefeceu um pouco depois que as preocupações econômicas foram colocadas na mesa dessa denominação.

Então diria que é por isso mesmo que o Flávio Bolsonaro tentou capitalizar em cima disso, porque ele tá querendo explorar a principal fragilidade eleitoral do presidente Lula, que é a baixa credibilidade no combate ao crime organizado e o tema de segurança pública.

NNNatuza Nery

Eu vi um aspecto trazido pelo Datafolha, né, na sua pesquisa, que a maior parte dos brasileiros e brasileiras concorda com essa classificação de terrorista, mas a maior parte também discorda que tenha que ter atuação do governo americano, interferência do governo americano nesse combate. Depois dessa declaração, ela era potencialmente favorável ao Flávio, mas é algo que ainda precisa ser testado para as próximas rodadas de pesquisa, dependendo da conduta de Donald Trump, que é um aliado da família Bolsonaro em contexto, mas é um aliado muito volátil, né?

Ele disse que o presidente Lula era muito volátil já na fase que não era um céu de brigadeiro, mas isso me pareceu mais um espelho de si mesmo quando ele diz que Lula é volátil. Volátil é ele.

CGChristopher Garman

É verdade, Natuza. E é interessante a gente comparar as pesquisas de opinião sobre a classificação do PCC e CV como grupo terrorista antes da decisão americana e posterior à decisão americana. Até houve uma pesquisa, se eu não me engano, da Ambedeira, que mostrava que quase 90% da população concordava em classificar o PCC e o CV como grupo terrorista. Mas depois da decisão americana e toda a cobertura da imprensa de uma ação americana que pode trazer danos econômicos ao país e todas as repercussões dessa decisão, o apoio caiu.

Tanto que só uma maioria, uma pequena maioria, apoiava com esses condicionantes que você Então a própria ação do governo americano pesada gerou uma reação muito mais mista na opinião pública e ficou misturado uma medida dura contra o crime organizado, que tem apoio de um lado, interferência americana que não tem apoio.

NNNatuza Nery

Agora, agora, mas eu queria tentar entender contigo o que que os Estados Unidos estão querendo com esses movimentos, hein? O que que eles estão querendo com Tarifaço? O que que eles estão querendo com essa associação à família Bolsonaro? Quais são os interesses econômicos em jogo? O que que você tá enxergando nessa coreografia?

CGChristopher Garman

Olha, a doutrina tá Casa Branca com a América Latina claramente não é uma doutrina bem estabelecida. A equipe do Donald Trump sinalizou cedo que eles vão priorizar o hemisfério, até para ter um foco maior numa região, em um ambiente de conflito geopolítico global maior, competição com a China. Existe até um interesse de segurança nacional americana compreensível de focar na região, fazer cadeias de suprimento com seus vizinhos e tentar reduzir a presença chinesa e de outros países no hemisfério.

Aliás, na tua Zé, eu até conversando com alguns operadores do Partido Democrata, eles discordam dos mecanismos, mas reconhecem que não é uma estratégia de toda ruim focar na região. Então existe um intuito, é claro, aí você coloca a ideologia do governo Trump de querer é governos mais aliados e também um foco no combate ao crime organizado, porque faz parte de uma estratégia de lei e ordem doméstica, faz parte de uma estratégia eleitoral doméstica é do Donald Trump.

Então a gente pega o O assessor que foca no tema de imigração, Stephen Miller, foi exatamente o assessor que está protagonizando a denominação de grupos narcotraficantes nas regiões como se fossem grupos terroristas. Então, isso faz parte de uma política regional. Agora, para o Brasil, houve um componente claramente político-ideológico no ano passado de fazer uma medida punitiva ao Brasil com o intuito de livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro dos seus passivos jurídicos.

Havia um grupo na Casa Branca, no Departamento de Estado, achando que as sanções poderiam coagir o Supremo Tribunal Federal a não condenar o ex-presidente ou levar o Congresso Brasileiro a aprovar um projeto de anistia contra o ex-presidente.

?Voz C

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, falou sobre a condenação de Bolsonaro numa entrevista à Fox News.

?Voz E

E foi feita uma pergunta especificamente sobre o que vai acontecer agora que saiu a sentença do ex-presidente Bolsonaro, como Trump havia feito, de uma caça às bruxas. E a resposta dele parece não deixar dúvida duvidas de que deve vir mais coisa ali. Ele falou que a resposta mais simples que tem é que o Estado de Direito no Brasil está acabando, e disse que ameaçou ir ainda mais longe a esse respeito. Então, diz ele, vai haver uma resposta dos Estados Unidos a isso.

CGChristopher Garman

Quando isso não aconteceu, o presidente Trump ficou frustrado, ele até perdeu um pouco de confiança na estratégia. E ao mesmo tempo houve um foco muito grande na Casa Branca sobre a necessidade de reduzir a dependência americana de minerais dos países críticos e terras raras chinesas. E nesse intuito, o Brasil cumpriu um papel importante de suprir os Estados Unidos desses minerais. Então, quando o Trump teve aquela proximidade com o presidente Lula, o encontro na ONU, aí outras conversas telefônicas, o encontro na Malásia, no fundo foi o presidente Trump que puxou o tapete dos assessores mais ideológicos de ter uma postura muito punitiva com relação ao Brasil.

Eu acho que esse equilíbrio se mantém, porque a decisão de dominar o PCC e CV como grupo terrorista, eu não acho uma volta de uma linha dura da Casa Branca com o Brasil. E também a tarifa de 25%, no fundo, foi o intuito de reconstruir tarifas que foram derrubadas pelo Supremo americano. Então eu acho que o presidente Trump ainda tá com uma visão mais moderada e amena com o Brasil, e não é uma volta para aquela política de júri do ano passado, é que era muito mais política ideológica.

Então eu acho que é uma mistura onde o Brasil tá sendo mais punido porque Houve aquela política do ano passado de políticas de tarifas exorbitantes. Os Estados Unidos voltou parcialmente atrás, mas não plenamente, porque o Brasil também não deu muitas concessões na política tarifária comercial.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Garbo. Por que essas ações lá no caso da Lei Magnitsky, por exemplo, Por que que naquele momento prevaleceu essa abordagem dirigida pela ideologia? E qual é o interesse pela família Bolsonaro? Assim, por que que a Casa Branca tá fazendo isso pela família Bolsonaro se o próprio Trump dias atrás falou em Bolsonaro Júnior, que é uma pessoa que não existe na família Bolsonaro, né?

?Voz C

Ele parece não saber quem é quem.

CGChristopher Garman

Quando a gente olha a política de um ano atrás, né, aquelas, a Lei Magnitsky e a tarifa de 50%, naquela época acho que havia sim uma avaliação na Casa Branca que era possível influenciar as decisões judiciais ou até colocar pressão no Brasil para ter um projeto de anistia aprovado para livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro de uma condenação. E tem um elemento pessoal do presidente Trump onde ele se identificava com a pauta da família Bolsonaro, Bolsonaro, o presidente Trump.

A gente pega a sinergia, não é, entre a política americana e a brasileira, é impressionante. O presidente Trump, ele se sentiu censurado pelas empresas de tecnologia americana, ele se sentiu perseguido pelos tribunais americanos, ele se sentiu injustamente acusado de uma ameaça à democracia. Então, quando você tem o ex-presidente Jair Bolsonaro fazendo argumentos muito semelhantes no Brasil, com a família Bolsonaro tem argumentado que tem passado sendo vítima de vítima de injustiça nos tribunais, a reação do presidente Trump era: 'Eu me vejo em você.' E ele tem, ele falou isso publicamente.

Então eu acho que havia uma certa identificação do presidente Trump com os pleitos da família Bolsonaro. Aí tinha aqueles assessores achando que as ações punitivas poderiam gerar resultado. Aonde o presidente Trump ficou frustrado é quando ele se deu conta que não tava gerando resultado, o que os assessores estavam prometendo. Então a reação dele por esses assessores foi: pessoal, o que que estamos fazendo aqui? Não tá funcionando.

E ao mesmo tempo, o papel do Brasil geopoliticamente, dado o papel de minerais críticos e terras raras, foi reconhecido no segundo semestre do ano passado como sendo muito importante. E as repercussões econômicas foram modestas e interesses de empresas econômicas americanas estavam sendo feridas. Então Então você junta tudo isso, aí houve aquela mudança da postura do presidente. Mas o desafio, Natuza, é que para o Trump voltar totalmente atrás e aplicar tarifas para o Brasil equivalente aos outros países sem o Brasil dar nada em troca também era difícil. Por isso que a tarifa de 45% cai para 25%, não cai para 10%.

NNNatuza Nery

Agora você citou duas vezes terras raras. Os Estados Unidos continuam precisando de terras terras raras, o governo brasileiro não prometeu nada para eles. O que que eles estão levando em termos de terras raras do Brasil? Queria só entender esse teu ponto.

CGChristopher Garman

O que o Brasil tá fazendo é fazendo um diagnóstico de todos os países que conseguem fornecer terras raras para o suprimento da necessidade americana. Se tem dois países no mundo que tem capacidade de processar terras raras de forma econômica, que é a Malásia e o Brasil. E logo o governo americano tem interesse de cooperar no lado tecnológico crítico e acordo bilateral em minerais críticos e terras raras. Eles mostraram esse interesse e continuam tendo.

O governo brasileiro tá no projeto de aprovar o seu macro-relatório de minerais críticos, tá querendo uma postura de não assinar acordos preferenciais com os Estados Unidos, tão querendo negociar com vários países, mas tão abertos a uma negociação com os Estados Unidos também. Então eu acho que é mais num contexto onde Estados Unidos enxerga o Brasil como possível parceiro de médio prazo para poder suprir essa demanda tão nevralgica Aí a postura da Casa Branca é ser um pouco mais pragmática.

NNNatuza Nery

A eleição do Flávio para esse público seria melhor, é isso? Eles teriam mais chance de levar um acordo mais positivo para os Estados Unidos, no caso?

CGChristopher Garman

Eu acho que a Casa Branca claramente enxerga que o governo Flávio Bolsonaro teria uma cooperação mais forte em várias frentes, inclusive terras raras e minerais críticos. Não que um governo Trump não queira trabalhar com um governo Lula sendo reeleito, mas eles claramente têm uma preferência não só ideológica, mas reconhecimento que um governo Flávio Bolsonaro teria uma postura mais amigável desses tipos de acordos bilaterais.

O que a gente enxerga também, o marco regulatório que o governo tá querendo aprovar no Congresso Nacional, é um marco regulatório que trata o setor de forma mais estratégica e dá um papel de discricionalidade maior para o governo federal em alguns investimentos que pode ser considerado produtos de interesse de segurança nacional, que hoje eles não têm essa habilidade de tratar os investimentos dessa forma. Tanto que uma empresa americana teve uma aquisição da mina Serra Verde, né, que é uma mina que processa, ou pelo menos produz terras raras no estado de Goiás.

NNNatuza Nery

Foi uma negociação feita com o próprio ex-governador Ronaldo Caiado, né, nesse acordo.

CGChristopher Garman

É, na verdade é que o marco regulatório hoje não dá instrumentos para o governo interferir nessas transações. Então são transações entre entes privados. E até, claro que o Governador se posicionou querendo ter uma posição favorável, mas no fundo foi uma negociação entre duas entes privadas que o governo estadual nem federal tem capacidade de intervir muito.

NNNatuza Nery

Já que você falou ali do Flávio, do ponto de vista eleitoral, eu queria te ouvir também sobre Lula. Você mencionou segurança pública como um desafio, um calcanhar de Aquiles. Que outros desafios você enxerga para o propósito de reeleição do presidente Lula?

CGChristopher Garman

Acho que é uma eleição, não é fácil de cravar. Lula deve ser considerado um ligeiro favorito. Favorito. Por que favorito e por que ligeiro? Favorito porque a gente olha a aprovação do presidente Lula, até mesmo 2 meses atrás ele tava com aprovação popular de 44% em média no aprova-desaprova. E o que a gente enxerga, tem enxergado em um banco de dados eleitorais históricos, é que geralmente aprovação de um governante sobe uns 4, 5 pontos percentuais nos 5, 6 meses antes de posição.

Então, se o Lula tava com aprovação de 44 lá em abril, a gente tava com a expectativa que a aprovação dele ia subir para uns 47, 48 antes da campanha começar, o que deixaria ele numa condição de favorito. E é exatamente isso que tá acontecendo. A aprovação do presidente Lula subiu, dado todos os programas eleitoreiros que foram implementados. E aliás, isso é uma alta na aprovação do presidente que começou a ocorrer antes do vazamento do áudio do Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcara.

Então, Não, eu diria que isso é o que a gente chama uma vantagem de incumbência. E muitas vezes, do nosso ponto de vista, analistas no Brasil estavam subestimando. Agora, quando eu olho sobre quais são os determinantes se essa aprovação vai continuar a subir ou não, o variável que a gente coloca muito peso são os fatores que impactam custos de vida, e particularmente preço de alimento, que impacta a cesta de compras do consumidor de menor renda.

Um grande risco para a reeleição do presidente Lula, a guerra no Oriente O Oriente Médio, porque a gente tem uma guerra prolongada com preço de petróleo em alta, preço de fertilizante em alta, e é um choque global inflacionário que pode traduzir e levar a inflação de alimentos maior no Brasil. Isso sim poderia ser um empecilho para a reeleição do presidente, que poderia negativamente impactar a aprovação do presidente Lula. O que está vendo hoje é que a guerra no Oriente Médio não teve aquele impacto tão grande inflacionário que muitos analistas temiam, até por causa de a capacidade da China importar tanto petróleo, tem especificidades específicas do crise do Oriente Médio, e também o preço dos fertilizantes não subiu tanto.

E agora que a gente tá com um acordo, pelo menos parcial, entre os Estados Unidos e Irã, a perspectiva são para uma normalização do Estreito de Hormuz. Então, um risco que vinha de fora parece menor hoje do que parecia 2 meses atrás. Agora, por que que é um favorito só ligeiro? Porque historicamente candidatos que ganham geralmente são os candidatos candidatos que são mais críveis na principal demanda e preocupação eleitoral. E essa eleição, o tema de segurança é a principal preocupação do eleitor, e o presidente Lula não é crível nesse tema.

Então, é um dos grandes eixos aonde uma candidatura de oposição, e agora a mais que tá posta na mesa, é a do Flávio Bolsonaro, que pode aproveitar esse calcanhar de Aquiles do presidente Lula. E também a gente vê em pesquisas qualitativas, nós temos uma eleição onde o eleitor não tá confiança com o futuro, tá muito preocupado com custo de vida, famílias estão endividadas, uma sensação que você trabalha muito, não avança na vida.

Então tem uma certa sensação de estagnação, casado com preocupação com segurança, que deixa a oposição competitiva. Então não dá para ter muita confiança em uma aposta que o presidente Lula vai ganhar. Por isso que eu digo que ele é um favorito, mas só um ligeiro favorito, não um franco favorito.

NNNatuza Nery

Carman, foi muito bom te ouvir, fazia tempo que você não voltava ao assunto, a gente estava sentindo sua de volta. Vou chamar mais vezes, com mais frequência, ao longo desse período eleitoral.

CGChristopher Garman

Pode chamar, é um prazer sempre ter essa conversa com você aqui na Tusa. Obrigado pelo convite.

NNNatuza Nery

Este episódio usou áudios da Rádio Itatiaia e do Jornal da Cultura. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.