A guinada à direita na Colômbia e no Peru – e seus efeitos para a América do Sul
- Eleições PeruKeiko Fujimori e Roberto Sánchez no Peru · Abelardo de la Espriella e Iván Cepeda na Colômbia · Alberto Fujimori · Gustavo Petro · Nayib Bukele · Donald Trump · Processos eleitorais e contagem de votos · Discursos de campanha e estratégias eleitorais
- Governos de direita na América LatinaAscensão de líderes conservadores · Javier Milei · Daniel Noboa · José Antonio Kast · Rodrigo Paes · Influência de Donald Trump · Mudança de ciclo político e desapontamento com governos progressistas · Ênfase em segurança pública e combate ao crime
- China e Estados UnidosDisputa geopolítica EUA-China na região · Interesses americanos e a agenda de Trump · Comércio e investimentos chineses na América do Sul · Pragmatismo de líderes sul-americanos em relação à China · Brasil e China · Argentina e China · Peru e China · Colômbia e Estados Unidos
- Crime OrganizadoClassificação de PCC e Comando Vermelho como terroristas · Estratégias de segurança de Nayib Bukele · Violência e crime organizado no Equador · Impacto do crime organizado nas eleições · Cooperação internacional no combate ao crime
- Relação Brasil-EUA e EleiçõesEnvolvimento do eleitor brasileiro com temas internacionais · Relação Brasil-Estados Unidos e a agenda Trump · Classificação de PCC e Comando Vermelho como terroristas · Alianças internacionais da família Bolsonaro · Polarização política e relações entre países sul-americanos · Brasil e Argentina
- Crise Política na VenezuelaSucessão de presidentes em 10 anos · Mecanismo de 'vacância' presidencial · Fragmentação do Congresso · Economia peruana resiliente apesar da instabilidade política · Papel do Banco Central do Peru
América Latina com calendário eleitoral intenso, disputas que podem redefinir o cenário político da região, inclusive aqui do Brasil.
Dois países, duas eleições presidenciais apertadíssimas, dois resultados ainda sob contestação. E na Colômbia teve eleição presidencial e apurações preliminares dão vitória para o candidato da direita, Abelardo de la Espriella, mas uma vitória com uma margem muito apertada, 250 mil votos, o que é menos de um ponto percentual.
Os candidatos à presidência do Peru disputam voto a voto o segundo turno das eleições. A candidata de direita, Keiko Fujimori, está levemente na frente, mas o candidato de esquerda, Roberto Sánchez, vem diminuindo a diferença. O Peru é um dos países com maior instabilidade política na América do Sul.
No dia 7 de junho, os peruanos foram às urnas para decidir o novo ou a nova presidente do país. Com 99,7% dos votos contabilizados, Keiko Fujimori tem cerca de 40 mil votos a mais do que Roberto Sánchez, o candidato da esquerda. Keiko é filha do ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000 com as bandeiras do liberalismo econômico e do conservadorismo. Depois de sair do poder, Fujimori pai foi condenado por crimes de corrupção e contra a humanidade.
Ele morreu em 2024. Vamos à Colômbia. Os colombianos votaram neste último domingo para presidente e elegeram Abelardo de la Espriella, de acordo com a contagem preliminar terminar de votos. Apoiado por Donald Trump, o candidato da direita na Colômbia fez um discurso inspirado no presidente de El Salvador, Nayib Bukele. A estratégia surtiu efeito, mas ele venceu por pouco. Foram menos de 250 mil votos de vantagem sobre Ivan Cepeda, candidato da esquerda e apoiado pelo atual presidente Gustavo Petro.
A América do Sul está agora dividida ideologicamente.
Essas eleições recentes, somadas a outras, indicam um continente mais à direita. Políticos conservadores foram vitoriosos nas últimas eleições. Rodrigo Paes, por exemplo, venceu as eleições e se tornou presidente da Bolívia em março deste ano. No Chile, José Antonio Kast venceu as eleições de dezembro do ano passado. No Equador, Daniel Noboa também foi reeleito em 2025. Além, claro, de Javier Milei na Argentina.
Abelardo de la Espriella é o mais novo representante dessa corrente política que se vende como antissistema, mas tem muitos traços ali de um ultranacionalismo que flerta com a religião,— também é nisso que eles se inserem, né? E que, digamos, para muita gente, muitos analistas, é visto também como são correntes políticas que acabam minando a democracia por dentro, através desses ideais da extrema-direita.
Um movimento que tem a benção da Casa Branca. Desde que voltou ao poder, Donald Trump não mede esforços para fazer valer seus interesses no continente. Seu secretário da Guerra, Pete Hegseth, foi claro ao falar da América Latina em abril do ano passado: Assim disse ele: "Vamos recuperar o nosso quintal".
O governo americano finalmente já disse que quer ter uma América, ou seja, América do Norte, Central e do Sul, profundamente alinhada com seus interesses. E a gente tem visto, pode considerar qualquer coisa como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, passível, portanto, de uma eventual intervenção, como a gente viu na Venezuela. Portanto, o Brasil também Tem razões para ficar preocupado, desconfortável, porque vai que Donald Trump acorda um dia e acha que o Brasil tem relações demais com a China ou com outros parceiros, né?
Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é: a guinada à direita no Peru e na Colômbia e seus efeitos em toda a América do Sul. Neste episódio, eu converso com Danilo Alves, editor da Globo News Internacional, que fala comigo diretamente de Bogotá. E com Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Ele é colaborador do Centro de Estudos Políticos Estratégicos da Marinha do Brasil.
Terça-feira, 23 de junho. Danilo, você esteve em Lima, no Peru, em abril e agora no começo de junho, cobrindo as eleições por lá. E agora você fala com a gente direto de Bogotá, onde corre o segundo turno da eleição presidencial na Colômbia. Bom, nos dois casos, os resultados que as urnas mostraram ainda não foram oficializados, ou seja, em ambos há um indicativo claro de vitória por parte dos candidatos conservadores, mas o processo de contagem ainda não chegou ao fim.
Eu quero te ouvir sobre esse cenário eleitoral, tanto aí na Colômbia quanto no Peru. Conta para gente, por favor.
São processos que têm suas diferenças e suas semelhanças. Nesse caso, No caso, os dois precisam de passar por checagens e é um processo padrão, assim, não é nada sobrenatural. Não é porque um lado ou outro tá questionando a eleição. O que acontece? As cédulas de votação são checadas e aí com a participação de juízes eleitorais. Então eles vão checar cada voto desse e só depois que essa checagem é feita é que então a gente tem um resultado oficial.
O que a gente tem agora é o que eles chamam de pré-contagem. Então esse é um processo padrão tanto aqui na Colômbia quanto lá no Peru. Só que no Peru a gente tem um problema um pouco maior, porque as autoridades por lá, que são duas que são responsáveis pela organização das eleições, estão sendo muito pressionadas porque o processo lá é muito mais lento. E isso acaba comprometendo um pouco o processo eleitoral e aumentando a desconfiança tanto dos candidatos quanto dos eleitores, né.
Depois disso, é possível contestar na justiça mais uma vez. Então, uma vez que você tem um resultado oficial, eles então podem entrar na justiça contra esses, contra essa contagem oficial.
No entanto, é preciso apresentar algum tipo de prova, o que não tá acontecendo, né?
O Ivan Cepeda ontem chegou a dizer que ia contestar 33 mil sessões eleitorais. Hoje ele disse que recebeu milhares de queixas sobre o processo eleitoral, mas não apresentou nenhuma prova. A situação do Peru é um pouco diferente, porque lá no Peru a gente teve problemas um pouco mais graves. Se a gente parar para pensar, no primeiro turno algumas sessões abriram com atraso, 15 nem sequer abriram. Com isso, 63 mil eleitores não puderam votar.
E aí o Peru teve que fazer um segundo dia de votação no primeiro turno. A eleição que aconteceu no domingo eles tiveram que fazer de novo, de novo não, né, tiveram que fazer para essas 63 mil pessoas poderem votar na segunda-feira. No segundo turno isso quase se repetiu, alguns postos de voto abriram com atraso, mas no final das contas todos foram abertos. A coisa ficou um pouco mais complicada porque pelo menos 12 mesários chegaram a ser detidos, suspeitos de algum tipo de interferência no processo eleitoral lá no Peru. Então isso tudo pode agravar a situação.
Já que você citou o Ivan Cepeda, queria que você falasse um pouco sobre esse cenário aí na Colômbia, que é onde você está agora. Quem são os candidatos? De que lado do espectro político eles estão? E o que a candidatura deles representa?
Então, de um lado a gente tem aí despontando à frente, né, aparentemente segundo o resultado da pré-contagem, vencedor, o Abelardo de la Espriella, que é um advogado de direita, tem 47 anos, nunca ocupou nenhum cargo público, e ele é uma direita não do modelo tradicional, porque a direita tradicional também disputou a eleição aqui no primeiro turno com a Paloma Valencia. Ele é um outro tipo de direita, essa nova direita que a gente começa a ver a crescer por aqui na América Latina e outras partes do mundo, né?
Ele é um advogado, ganhou muito dinheiro e ele divide a vida dele entre Itália e Estados Unidos. Isso acabou pesando um pouco contra ele, que algumas eleitores dizem que ele não conhece muito bem a Colômbia, e é muito criticado por ter defendido diversos criminosos. E aí o De La Sperla vem com uma campanha de defesa da democracia, um discurso de defesa da democracia, de defesa da liberdade. Com isso, ele conquistou o apoio de eleitores mais religiosos, fez um discurso muito voltado ao combate à criminalidade.
Uma das políticas dele foi copiar o modelo do Nayib Bukele lá em El Salvador. Ele promete construir 10 megaprisões espalhadas pelo país em áreas remotas. Então, foi com base nesse discurso que ele ganhou mais espaço e apoio dos eleitores. Do outro lado, do lado esquerdo, a esquerda, a gente tem o Ivan Cepeda, 63 anos, um senador, tem apoio do presidente Gustavo Petro, porque aqui não tem reeleição, né? Então o Ivan Cepeda é visto como um cara que poderia dar continuidade ao governo do Gustavo Petro.
O Ivan Cepeda, ele também é apontado como um dos arquitetos daquele acordo de paz que foi fechado com as FARC há 10 anos.
Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Foi um reconhecimento pelos esforços em busca de fechar um acordo de paz com as FARC, encerrando um período de mais de 50 anos de conflito no país. A negociação desse pacto, que durou mais de 4 anos, dividiu o país num plebiscito e, reconfigurado, foi aprovado com ampla maioria pelo parlamento.
E uma das propostas dele é de combater a criminalidade no modelo tradicional, mas também adotando esse tipo de negociação para desarmar grupos armados. E quando a gente fala de grupos armados aqui na Colômbia, É uma outra conversa, porque aqui a gente está discutindo dissidentes das FARC, Exército da Libertação Nacional, e também a gente tem atuação de milícias e de narcotraficantes. É importante a gente lembrar, a Colômbia é responsável por cerca de 2/3 da produção de cocaína que abastece, exportada, que é traficada pelo mundo afora.
E que tradicionalmente votou em candidatos de direita, né? O Gustavo Petro foi um ponto fora da curva na história das eleições. E é curioso que um outsider como é o candidato conservador, ele consiga conquistar tantos corações e mentes. É só o discurso da segurança pública que o fortalece ou ele tem outros tipos de discurso? Você chamou ele de nova direita, que a direita tradicional foi derrotada nas eleições. Que mais de nova direita você enxerga nele?
Esse tipo de político que adota uma campanha um pouco mais palatável, faz um discurso fácil de se entender, É uma direita que sabe usar os meios de comunicação, sobretudo as redes sociais e a inteligência artificial. Ele foi um cara que tirou muito proveito disso, um pouco na linha do Javier na Argentina, que se chamava, né, de O Leão. Ele por aqui se chamava de El Tigre. Então acho que todos esses elementos visuais e discursivos acabam sendo um pouco mais fáceis de serem compreendidos.
E aí fica uma situação um pouco complexa por aqui, porque como você falou, Gustavo Petro é um hiato, 4 anos de uma esquerda. Historicamente a Colômbia sempre foi governada por governos de direita. E aí então ele acha uma opção que o colombiano tá um pouco desesperado, tentando encontrar uma solução nos problemas que ele tem por aqui. Por aqui os eleitores têm apontado uma preocupação enorme com a corrupção, com a violência e com a saúde.
Foi o que algumas pesquisas apontaram, e o que você mais escuta na rua quando você conversa com os colombianos. E não importa se é de esquerda ou de direita, eles acabam citando esse mesmo problema.
O que é diferente do desenho, né, ou da coreografia do Peru, a Keiko Fujimori No, I don't worry, no, nada mais tradicional do que o nome dela, né, filha de um ditador que morreu não tem muito tempo. O que que você destaca no Peru e o que que você vê de semelhança com a Colômbia e de diferença com a Colômbia na eleição de lá?
De semelhança eu vejo que esses candidatos todos acabam apostando num primeiro momento em um discurso um pouco mais radical tentando construir bases, buscando eleitores que são um pouco mais fanáticos com aquelas ideias. E com isso eles conseguem votos suficientes para ir para um segundo turno. Uma vez no segundo turno, eles abandonam um pouco esse discurso porque eles já têm esses eleitores garantidos. E aí eles passam a adotar um discurso um pouco mais moderado, tentando conquistar os eleitores de centro e esses eleitores indecisos.
Acho que esse modelo a gente, eu notei um pouco tanto no Peru quanto na Colômbia.
Eu acho que é um modelo que tem funcionado.
Mundo afora, né, aparentemente. E você, eles fazem acenos para o centro mais radicais e depois vão para o centro tentando conquistar votos suficientes para ganhar o segundo turno, e estão conseguindo, né. Uma coisa que me chamou muita atenção e que me impressiona um pouco é a habilidade do discurso, que eles conseguem passar uma mensagem, as pessoas acreditam nessas mensagens e preferem ignorar outros fatos. O discurso às vezes ele parece muito focado numa solução simples e ele às vezes é um pouco abstrato.
Por exemplo, Você vai ouvir um candidato dessas campanhas dizendo: ah, temos que acabar com a violência. Como? Que tipo de violência? Do que que a gente tá falando? E aí parece que eles criam problemas fáceis de serem compreendidos e com soluções um pouco irreais. Assim, é fácil compreender: vamos construir 10 mega prisões, mas como isso vai conter a criminalidade? Isso não tá claro. Qual o custo disso? De onde vai vir esses recursos?
E os eleitores, eu tenho a sensação, às vezes eles compreendem essa mensagem e não tem noção do todo. Isso foi um grande problema aqui Colômbia, principalmente porque os candidatos não tiveram debate. O eleitor foi para a UNA sem ouvir um debate entre esses dois candidatos, então eles não sabem exatamente como essas propostas vão ser aplicadas.
Por que não houve debate?
É porque eles não quiseram, eles preferiram falar com as suas bases e investir nas redes sociais. No Peru, a situação foi um pouco mais complexa porque você tinha no primeiro turno 35 candidatos.
35, Danilo?
No primeiro turno. Então, fisicamente impossível você colocar todo mundo no estúdio, então eles repartiram os debates. O eleitor pode assistir debate, mas assim, a pessoa tem que perder horas ali assistindo cada um e não teve exatamente um confronto entre um ponto e outro porque não dava para você colocar 35 pessoas se revezando uma contra a outra, né? Uma coisa engraçada, porque as pessoas até comparavam se a cédula de votação do primeiro turno no Peru é uma caixa de pizza de tão grande que ela era.
Uma eleitora com quem eu encontrei lá, ela falava: é vergonhoso, parece uma cartolina de escola que você abre. Os nomes eram pequenininhos para para que pudesse caber todo mundo. E ela falou: não consegui enxergar, mesmo aquela folha daquele tamanho. E ela perdia, ela falou: perdi 20 minutos preenchendo tudo aquilo, porque eles botaram também para o Congresso por lá, né? Voltou a ter um sistema bicameral.
Danilo, muito obrigada por ter topado parar para conversar com a gente. Eu sei que sua vida aí tá uma loucura.
Eu que agradeço o espaço e o carinho. Um abraço enorme, minha amiga.
Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Maurício Santoro. Professora, eu conversava agora com o Danilo Alves, que acompanha pela GloboNews in loco as eleições na Colômbia, mas também acompanhou no Peru e continua acompanhando. E os candidatos vencedores são ambos de direita, mas com características diferentes. Por exemplo, a Keiko Fujimori, ela representa a direita mais tradicional do campo dela, que foi um campo dominante por muito tempo.
Já o Abelardo, ele é um outsider clássico na política colombiana e fez um discurso que emplacou com parte do eleitorado. O que que explica, na tua avaliação, a força desses dois perfis?
Nós estamos vivendo, pelo menos desde o final da pandemia, um movimento rumo à direita na América Latina. Sobretudo nos países sul-americanos vizinhos ao Brasil, onde quase sempre nas eleições o resultado tem sido a vitória de candidatos conservadores. Isso vem sobretudo por conta de uma questão mesmo de mudança no ciclo político e do desapontamento dos eleitores com promessas não cumpridas, com expectativas não realizadas de governos progressistas na região.
E com uma ênfase também em questões ligadas à segurança pública, ao combate ao crime organizado, Não é tanto uma questão ligada à economia, à inflação, ao desemprego, é mais a preocupação com o crime. Em alguns países também questões ligadas à imigração. No Peru, como você bem mencionou, fato essencial sobre a Keiko Fujimori é ela ser a filha do ex-presidente, ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru nos anos 90. Fujimori teve um bom desempenho como gestor da economia e também no combate à esquerda armada peruana, o Sendero Luminoso.
Mas ele fez isso com um regime autoritário, com gravíssimas violações de direitos humanos, né? Ele foi preso no fim da sua vida.
Morreu aos 86 anos o ex-presidente do Peru, Alberto Fujimori. Fujimori foi apresentador de TV e governou o Peru de 1990 a 2000. Em 92, deu um autogolpe, foi condenado por corrupção e crimes contra os direitos humanos. Ele fugiu para o Japão, onde ficou em autoexílio. Acabou preso durante uma visita ao Chile e foi extraditado de volta para o Peru. Passou 16 anos preso com uma série de problemas de saúde. A condenação dele foi revogada.
E enquanto Alberto Fujimori, né, Fujimori pai, esteve vivo, isso foi um problema para Keiko. Ele morreu alguns anos, isso em grande medida a libertou desse fardo. Essa é a quarta vez que ela foi candidata, mas agora já sem esse ônus, né, de o que que ela faria se fosse presidente, se ela libertaria o pai que estava previsão domiciliar. Agora ela não tem mais isso, ela herdou em grande medida esse eleitorado fiel ao Fujimori. Isso foi muito benéfico para ela.
E no caso da Colômbia, a questão ali foi muito mais o aspecto da segurança pública, do crime organizado, da guerrilha, né, ainda é uma ferida ali aberta na Colômbia. E um homem que está estreando na política, o De La Espriella, era um advogado criminal super estrela, muito famoso, cidadania americana, que morava nos Estados Unidos, e de repente ele entra como esse cometa na política colombiana e questionando ali o que foi o primeiro governo de esquerda do país, Gustavo Petro, que tá chegando agora ao fim.
A gente sabe que Donald Trump apoiou essa candidatura, e aí logo depois do resultado ele fez uma publicação nas redes sociais onde ele disse parabéns ao tigre, né, como a gente sabe que ele é chamado, o tigre Abelardo de la Espiera. O novo presidente da Colômbia. Foi uma grande honra para mim apoiá-lo. Estou ansioso para trabalharmos juntos na construção de uma relação sólida entre a Colômbia e os Estados Unidos da América, que levará nossos dois países a novos patamares de grandeza. Presidente americano Trump.
Então são dois políticos com trajetórias muito distintas, mas o que eles têm em comum é estar em ascensão nesse momento de uma guinada direita na América do Sul. E com implicações também muito profundas para as relações com os Estados Unidos, nas disputas entre americanos e chineses na região. Tudo isso entra misturado também nesse balaio eleitoral.
Primeiro falando de Estados Unidos, qual foi o peso de Trump nessas eleições, tanto no caso do Peru quanto no caso da Colômbia?
Bom, vamos começar pela Colômbia, que é o país onde essa influência do Trump se fez mais presente. Nessas eleições. A Colômbia é um país na linha de frente das disputas envolvendo os Estados Unidos e América do Sul, país importantíssimo da questão do combate ao crime organizado. Tinha um governo de esquerda, né, o presidente Petro está no finalzinho de seu mandato, muito próximo historicamente ao chavismo na Venezuela, defensor do governo da Revolução Cubana.
Então tudo isso colocou o Petro numa rota de confronto com Trump, e várias vezes eles trocaram ofensas, teve muita instabilidade, teve muito conflito por ali.
A imprevisibilidade e o O hábito de dizer o que pensam sem filtros são as poucas coisas que Gustavo Petro e Donald Trump têm em comum. Petro se recusou a receber aviões americanos com imigrantes deportados. Petro sugeriu que militares americanos desobedecessem as ordens de Trump.
Desobedeçam a ordem de Trump.
Em resposta, o governo americano revogou o visto do presidente colombiano.
He's a lunatic who's got a lot of problems.
Sem mostrar qualquer evidência, Trump acusou Petro de ser traficante de drogas e o governo bloqueou os bens dele nos Estados Unidos. Depois da captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, Trump chegou a dizer que uma intervenção na Colômbia parecia uma boa ideia.
Petro rebateu, disse que Trump tinha um cérebro A Colômbia também hoje é um raro exemplo de país sul-americano que tem mais comércio com os Estados Unidos do que com a China. Então isso também torna a Colômbia muito mais vulnerável diante das pressões americanas, diante do risco de sanções. Então isso foi também um tema na eleição, principalmente com Delas Prielas se colocando como alguém que é um defensor de várias políticas, tanto na área de segurança quanto na questão econômica.
Basicamente, delas, 3 grandes referências políticas ideológicas: Donald Trump, o Javier Milei da Argentina e o Nayib Bukele de El Salvador.
Bukele já se descreveu como o ditador mais descolado do mundo.
Ele ficou extremamente popular por causa da estratégia de segurança pública. O presidente salvadorenho governa por decretos de estado de exceção desde 2022 e prendeu 75 mil pessoas, mais de 1% da população, sob alegação de que elas pertencem a gangues criminosas. A taxa de homicídios despencou, o que alavancou a campanha do presidente, apesar do crescimento da pobreza. Organismos internacionais de direitos humanos afirmam que parte das pessoas detidas é de jovens pobres que moravam em bairros de gangues, mas que não tinham relação com a criminalidade.
Hillary. Esses três juntos ali, isso foi um coquetel poderoso na campanha colombiana. E no caso peruano, essa influência dos Estados Unidos não é assim tão forte. O Peru depende muito economicamente da China. Inclusive, depois do Brasil, o Peru é o país sul-americano em que os chineses mais investiram. Por exemplo, há 2 anos a China inaugurou um mega porto na cidade de Xangai, perto de Lima, que é realmente um um marco, né, nessa história comercial entre a China e América do Sul.
Então há também um limite até onde qualquer presidente peruano pode se aproximar dos Estados Unidos ou se afastar da China. E uma população ali, uma política muito mais instável e fragmentada. E vai ser a nona presidente do Peru em 10 anos. Então é um nível ali de instabilidade enorme. Agora, o que é curioso, estive no Peru recentemente e conversei com muita gente da elite peruana, da elite política, ex-ministros, embaixadores, e eu perguntei para eles quem quem vai ganhar a eleição no ano que vem?
Que todos eles me disseram: é imprevisível, são 35 para candidato, mas quem ganhar não vai ter maioria no Congresso. Keiko vai levar essa eleição, mas ela vai herdar também um Congresso muito fragmentado, vai ter que fazer acordos.
Ou seja, essa instabilidade que marcou essa última década, como você disse, ela tende a permanecer. Exatamente.
O que os peruanos fazem, algo chamado vacância, que é mais simples e mais rápido que um processo de impeachment, basicamente é um voto de desconfiança essa parte do Congresso no presidente da República. Então nem precisa haver, por exemplo, uma investigação ou ali uma atribuição de um crime ao presidente. É basicamente o Congresso dizer: olha, a gente não confia mais em você, vai para casa. Isso tem resultado em todo esse cenário que tá ótimo na política peruana, ainda que curiosamente a economia peruana está indo muito bem. Nesses 10 anos de instabilidade, o país cresceu, inflação baixa, juros baixos.
Professor, como é que explica isso?
Eu tinha essa dúvida e me explicaram isso muito bem no Peru. E basicamente a estabilidade econômica vem de um Banco Central muito qualificado do ponto de vista técnico, uma equipe muito boa de economistas que estão lá há 20 anos, o mesmo presidente do Banco Central desde o início do século.
Nossa, ou seja, a instabilidade ela fica a cargo dos políticos, né? O presidente do Banco Central é a pessoa mais estável do país.
Exatamente, né? Isso até levou um certo descolamento entre uma economia que está indo bastante também, e uma política mais complicada, mas que às vezes faz os próprios peruanos se questionarem, no fundo, qual é a importância desse jogo político, como é que isso afeta o seu cotidiano, como é que isso afeta as suas possibilidades de emprego, prosperar. Então é um cenário muito à parte hoje na América do Sul.
E no caso da Colômbia, a gente tem ali um sistema mais parecido do resto da região, né, uma polarização entre direita e esquerda, com agravante na Colômbia dessa longa história de conflito armado, e como tudo isso até hoje tem repercussões Eu queria entender como é que esses governos de direita que já estão nos seus cargos e os que vão assumir, no caso da Colômbia e do Peru, como é que vai ser o relacionamento com a China na região, né, tendo em vista que Donald Trump clama por transformar novamente a região no seu, no seu quintal de esfera de poder?
A percepção que existe hoje nos Estados Unidos, não só no governo Trump, também no Partido Democrata, é de que os Estados Unidos perderam liderança, influência política na América Latina para os chineses e, em alguns casos, também para os russos ao longo dos últimos anos. Isso é um dos pilares dessa nova agenda intervencionista de Trump na região. A gente não tinha uma intervenção militar dos Estados Unidos na América Latina há quase 40 anos.
Então é uma mudança, um retorno a uma história que parecia muito antiga, bastante significativo, e motivada, entre outras coisas, por essa rivalidade com a China, por essa disputa geopolítica mais ampla. Se a gente olhar um país como Peru, algo em torno de 45% das exportações peruanas vão para China. Isso é um número absurdamente alto. Então você tem uma nova geografia econômica na região, e por mais que a gente tenha hoje a ascensão de líderes conservadores com discurso muito crítico da China, a partir do momento em que eles de fato sentam na cadeira de presidente, eles têm que assumir um certo pragmatismo.
Há um limite até onde eles podem ir com relação a uma postura mais hostil aos chineses. A gente viu isso no Brasil, no caso do governo Bolsonaro, teve ali um momento de bastante tensão, em particular na pandemia, depois as coisas ficaram mais ou menos como eram nos últimos anos.
O presidente Jair Bolsonaro também mudou de tom em relação à China. Bolsonaro, que já insinuou que o coronavírus teria sido criado intencionalmente pelo governo chinês, em inglês, elogiou a parceria entre os países na pandemia.
Essa parceria se tem mostrado essencial para a gestão adequada da pandemia no Brasil, tendo em vista que parcela expressiva das vacinas oferecidas à população brasileira é produzida com insumos originários da China.
Em diversas ocasiões, o presidente questionou a eficácia da Coronavac, vacina desenvolvida no país asiático e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan.
Estamos vendo isso no caso da Argentina. Javier Milei entrou também com um discurso bastante duro contra os chineses, mas aos poucos a coisa foi se acomodando. Provavelmente será o mesmo com o Rodolfo Castro no Chile e com a Keiko Fujimori no Peru. O caso da Colômbia é um pouco diferente, porque ali realmente o vínculo econômico mais forte continua a ser com os Estados Unidos pela questão do petróleo, pela questão do café, E por todo esse vínculo muito duro, muito complicado, ligando o crime organizado da Colômbia aos Estados Unidos. Ali é um cenário geopolítico à parte.
Agora, professor, um ponto importante nessa história, né? O Brasil vai às urnas agora em outubro para escolher o próximo presidente da República. Pensando nos vizinhos, qual é a tua percepção sobre o papel, o impacto dessas vitórias da direita aqui na região olhando aqui para o nosso país?
Desde o início do ano eu tenho conversado muito com diplomatas estrangeiros aqui no Brasil, sobretudo da Europa, e eles têm me dito que essa eleição é atípica no Brasil, porque a gente vai ter um nível muito alto de envolvimento do eleitor com temas internacionais, de política externa, principalmente no que diz respeito a essa relação do Brasil com os Estados Unidos, que anda muito conturbada, né, com disputas tarifárias, com sanções, com a questão da classificação do Comando Vermelho e do PCC como terroristas pelo governo americano.
Então tudo isso trouxe o tema dos Estados Unidos para dentro da disputa eleitoral brasileira, na medida em que muitos candidatos no Brasil, sobretudo aqueles de um perfil mais conservador, vão incorporar parte dessa agenda do governo Trump. Essa questão de que sim, o Comando Vermelho e o PCC são grupos terroristas, que o Brasil deve trabalhar em cooperação com os Estados Unidos, O Daniel Espruela fez isso com muita força na Colômbia, aliás, usando não só os Estados Unidos, mas também Israel, defendendo uma cooperação maior do governo colombiano com esses dois países.
Então isso já entrou aqui com muita força. A gente vai ter provavelmente também uma nova crise diplomática com os Estados Unidos pela questão do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Se os americanos vão ou não aceitar deportá-lo para o Brasil, provavelmente não, inclusive porque dentro da família Bolsonaro O grande papel do Eduardo Bolsonaro sempre foi o de ser o articulador dessas alianças internacionais. E a mais importante, família Bolsonaro, sempre foi a ligação com o Donald Trump, seus aliados.
Donald Trump virou um ator na eleição brasileira. Presidente Lula tentou evitar isso, tentou tomar medidas para neutralizar esse pacto americano, mas ele não conseguiu. E a gente viu também nessa recente cúpula do G7 e aquela breve lua de mel entre Lula e Trump, sem está agora num cenário de tensões, de faíscas, conflito entre os dois governos.
A gente for puxar das eleições do Equador no ano passado, né, com a reeleição do Daniel Noboa ainda em 2025, depois com o José António Kast em dezembro do ano passado no Chile, né, foi eleito, e também na Bolívia com o Rodrigo Paz que venceu em março deste ano. Tô falando só de candidato candidatos do campo da direita, por óbvio. Houve uma interferência direta dos Estados nessas eleições? Você acredita que isso vai acontecer? Essa interferência direta pode acontecer aqui no Brasil?
No caso brasileiro, eu diria que nós já temos uma interferência dos Estados Unidos na eleição. Não precisa o Trump vir a público e declarar explicitamente o apoio a um determinado candidato, a um partido. As ações do governo americano já se manifestam nessa região. Nos países vizinhos isso aconteceu em maior ou menor grau, inclusive porque muitos desses políticos que estão sendo eleitos na América Latina estão dizendo com todas as letras que eles querem ser aliados, eles estão defendendo aquela agenda do Trump para América Latina.
Tem ali um— a partir do momento em que há uma nova intervenção dos Estados Unidos na região, uma nova doutrina mais assertiva americana, isso muda o sistema de incentivos para os políticos da e muitos deles passam a se posicionar de uma maneira bastante direta, né, como possíveis aliados, como possíveis seguidores. Aqui no Brasil mesmo nós já tivemos em vários momentos do passado políticos brasileiros vestindo o boné do Trump, vestindo a camisa, repetindo os slogan.
É uma coisa nova também no relacionamento dos políticos da América Latina, os Estados Unidos.
Com a diferença é que aqui nós somos taxados impiedosamente, né. Então talvez a relação com Trump possa trazer mais ônus Que bônus, a ver. Agora, tem um ponto importante aí nessa, nessa história, é que se Lula for reeleito presidente do Brasil, o Brasil vai ficar mais isolado. Você acha que o pragmatismo da diplomacia faz com que todo mundo se converse e se converse bem, independentemente do apito político?
No passado, o Brasil teve uma política externa bastante pragmática em termos da integração regional na América do Sul, e que superava essas divisões político-partidárias. Por exemplo, quando Lula foi presidente pela primeira vez, na década de 2000, ele tinha um ótimo relacionamento com todos os presidentes da América do Sul, inclusive com presidentes conservadores. Na época, por exemplo, era o Álvaro Uribe na Colômbia. Funcionava bem, mas esse não é mais o cenário.
E essa polarização, essa divisão ideológica extrema que a gente tá vendo em vários países da América do Sul, Argentina, no Brasil, Chile, na Colômbia, ela ultrapassou as fronteiras e ela está afetando também de maneira negativa as relações entre os vários países. A gente tem um cenário hoje em que o presidente do Brasil e o presidente da Argentina mal se falam, que a Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil. Claro, as coisas até em termos assim da cooperação entre os ministérios, do diálogo entre os embaixadores, Brasil fez uma série de acordos energéticos importantes com a Argentina do Miley, sobretudo na questão do gás natural de Vaca Muerta.
Brasil protegeu a embaixada da Argentina na Venezuela naqueles momentos mais críticos, né? O governo brasileiro é o responsável pela custódia da embaixada argentina em Caracas. O Brasil atendeu a um pedido do governo de Javier Miley após Nicolás Maduro expulsar diplomatas da Argentina e de outros países que não reconheceram o resultado das eleições venezuelanas.
E como tem que ser, né? Quer dizer, como países que compartilham aqui um espaço geográfico, nós deveríamos ter um interesse regional acima das divisões político-partidárias. Infelizmente, isso não tem sido possível muitas vezes nos últimos anos. Houve uma fragmentação, uma paralisação da agenda da integração regional, né, que hoje está basicamente paralisada. E se a gente olhar hoje o cenário da América do Sul, como você ressaltava, Ana Cusa, o Brasil é mais a exceção do que a A gente tem o caso do Brasil, do Uruguai, do Suriname, da Guiana, que tem governos progressistas eleitos, né.
O caso da Venezuela, que é um regime autoritário de esquerda, mas muito peculiar, é um regime que está cada vez mais implementando a agenda do Donald Trump por conta desse cenário pós-intervenção militar. Então, no Cone Sul da América Latina, por exemplo, sobrou o Brasil e Uruguai de governos progressistas, com governos vizinhos que em maior ou menor grau estão alinhados ao A França. Então não é por acaso também que o governo americano está colocando tanta pressão nas eleições brasileiras, e percebem o Brasil como sendo um ator-chave para virar esse cenário político na América do Sul.
Agora, a dúvida é se essas intervenções de Trump vão ser vantajosas do ponto de vista eleitoral para os seus aliados. Por exemplo, ao longo do ano passado, quando houve ali o primeiro choque tarifário do Trump no Brasil, a reação brasileira foi muito nacionalista assim, da população, foi de rejeitar essa intervenção. Inclusive caiu muito avaliação positiva que os brasileiros têm dos Estados Unidos. Esse movimento do Trump não caiu bem aqui no Brasil, pelo menos no ano passado.
Vamos ver o que vai acontecer agora nas eleições, inclusive porque são intervenções muito distintas, né? A gente tem essa questão econômica das tarifas, tem a questão da segurança pública, do terrorismo, que aí em geral as pessoas estão olhando no Brasil com uma chave mais favorável a essa posição do Trump. Então isso tá muito misturado, vai ser um grande tema das eleições de 2026. Um grande desafio também para os políticos, seja do governo, seja da oposição, como é que eles vão se posicionar nesse cenário internacional mais complicado.
E você mencionou um aspecto dessa interferência que você já acha que existe, já vê existindo na prática, do Trump, que é a classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Com esse braço do Trump, me parece que o Flávio Bolsonaro ganha aí uma importante muleta, digamos assim, né, do presidente americano. Se o tarifaço foi algo muito mal visto, como você diz, essa classificação nova para Comando Vermelho e PCC pode ajudá-lo.
Exatamente. E essa é muito aposta da campanha do Flávio Bolsonaro nesse momento, porque as pesquisas mostram segurança pública é um tema absolutamente prioritário para o eleitor brasileiro nessa eleição. É um assunto que historicamente foi muito difícil para esquerda, políticos progressistas em geral se sentem muito incomodados em discutir segurança, em especial quando o que está em pauta é um tipo de pena mais dura, um tipo de repressão policial, jurídica mais acirrada.
E essa classificação do PCC e do Comando Vermelho como "purpos terroristas", os impactos práticos disso são muito discutíveis, são muito controversos, mas o efeito simbólico é muito forte. É como se o eleitor escutasse que finalmente alguém está fazendo alguma coisa para combater esses grupos, para tentar alguma coisa para diminuir a influência dessas quadrilhas na vida cotidiana das pessoas. Isso é muito poderoso. E muito também essa noção de que esses países sozinhos, os países da América Latina sozinhos, não estão conseguindo lidar com o crime organizado e que eles precisam de ajuda internacional.
Num mundo também que está totalmente, né, conflagrado por esse tipo de conflito entre Estados Unidos, China, Rússia, isso aparece também no discurso conservador como um desejo de um fortalecimento das relações com os dos Estados Unidos. Os Estados Unidos podem ajudar o Brasil, a Colômbia, o Peru a combater os problemas de insegurança. E se a gente olhar, por exemplo, um país como Equador, né, você mencionou agora poucos minutos, as mudanças do crime organizado no Equador foram avassaladoras nos últimos anos e transformaram um país que era bastante seguro, os padrões da América Latina, num país muito violento onde as pessoas estão com muito medo.
O número de assassinatos aumentou numa maneira exponencial. Não é uma, não é um problema que tem uma solução, sim, mas essa questão do terrorismo, uma intervenção americana, isso acabou ganhando uma enorme importância nas disputas desse ano, até em países que estão seguros, como Chile, por exemplo.
E o que que aconteceu no Equador que fez o Equador sair desse lugar relativamente seguro para esse lugar muito perigoso, inclusive para as autoridades políticas?
Basicamente porque uma série de grupos do crime organizado, não só da América Latina, mas também da passaram a usar o Equador como um corredor de transporte de droga para a Europa e para a África. Então, um país que não é um grande produtor de droga, mas que virou ali, digamos assim, uma rodovia dentro desse circuito internacional de drogas. Por que o Equador? Porque a situação estava ali mais difícil para essas quadrilhas do crime organizado em países vizinhos.
O crime está o tempo inteiro também se modificando, se adaptando, respondendo a essas ondas repressivas em outros países. Risos. Por azar do Equador, o país entrou ali em cheio dentro desse novo cenário.
Professor, foi um prazer como sempre te receber e te ouvir aqui no Assunto. Muito obrigada pelas iluminações todas para o nosso debate aqui.
É um prazer como sempre, né, mas fico particularmente gratificado por a gente estar conversando aqui sobre a América do Sul, que é um tema que me é muito caro, e a gente precisa falar mais sobre isso no Brasil.
Por isso te trouxemos aqui. Bom trabalho para Muito obrigado. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.