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Caso Master chega ao líder do governo no Senado

19 de junho de 202633min
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Convidado: Reynaldo Turollo Jr., repórter do g1 em Brasília. A 9ª fase da Operação Compliance Zero teve como principal alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), nesta quinta-feira (18). A Polícia Federal suspeita que ele tenha usado de sua influência política no Congresso para favorecer os interesses do Banco Master; em troca, o senador teria recebido “vantagens indevidas” que incluem a aquisição de um apartamento de luxo em Salvador (avaliado em R$ 2,5 milhões) e repasses milionários para empresas de familiares. A PF destaca conexão entre Jacques Wagner e o banqueiro Augusto Lima, também alvo da operação: uma relação que se consolidou a partir de 2018, quando o governo do Estado da Bahia, à época sob gestão de Rui Costa (PT), privatizou uma empresa pública de supermercados e criou um cartão de crédito consignado para servidores estaduais – uma operação que, posteriormente, foi incorporada pelo Master e replicada em outros estados do país, com alta lucratividade para o banco. Neste episódio, Natuza Nery entrevista o jornalista Reynaldo Turollo Jr., que acompanhou de perto a operação da PF nesta quinta-feira. Turollo explica em detalhes as suspeitas sobre o senador petista e a relação dele com Augusto Lima, e analisa o impacto da notícia dentro do governo Lula.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
D

Daniel Sousa

Co-hostJornalista
R

Reynaldo Turollo Jr.

ConvidadoRepórter
Assuntos6
  • Messias e Jaques WagnerSuspeita de recebimento de apartamento de luxo · Repasses milionários para empresas de familiares · Jaques Wagner · Augusto Lima · Apartamento Poeme Horto
  • Operação Compliance Zero e Banco MasterFraude financeira bilionária · Daniel Vorcaro · Augusto Lima · Banco Master · Polícia Federal
  • Investigações e CPI do MasterPrivatização da rede estatal de supermercados 'A Cesta do Povo' · Criação do cartão de crédito consignado Credicesta · Augusto Lima · Rui Costa · Banco Master
  • Comissão Parlamentar de Inquérito da COVIDEmenda para ampliar limites de crédito consignado · Emenda Master sobre Fundo Garantidor de Crédito (FGC) · Tentativa de venda do Master para o BRB · Jaques Wagner · Ciro Nogueira · BRB
  • Avaliação do Governo LulaPressão pela saída de Jaques Wagner da liderança do governo · Relação de Jaques Wagner com Ricardo Lewandowski · Recepção de Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto · Lula · Ricardo Lewandowski · Daniel Vorcaro
  • Perfil político de João PirisMinistros do Supremo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli · Senador Flávio Bolsonaro · Ex-governador Cláudio Castro · Flávia Arruda · Ciro Nogueira
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Voz A:Nós estamos fazendo uma operação importante, né, numa integração inclusive com o Banco Central, com o COAF, e atuando em conjunto para um crime contra o sistema financeiro, e que leva aí a monta, enfim, isso está sendo apurado, mas fala assim de cerca de R$12 bilhões que envolvem esse crime, está sob investigação hoje com várias prisões.

Natuza Nery:Você acabou de ouvir o que disse Andrei Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, no dia 18 de novembro do ano passado. Foi nessa data que a PF expôs a fraude financeira bilionária do Banco Master. E uma das prisões apontadas por Andrei Passos Rodrigues foi a do então presidente do Banco Master, apontado como cabeça do esquema.

Voz C:O banqueiro Daniel Vaccaro foi preso em São Paulo e as investigações apuram a prática de crimes contra o sistema financeiro nacional: corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual e obstrução da justiça.

Natuza Nery:Tal qual uma reação em cadeia, diversos nomes ligados a Daniel Vorcaro entraram na mira da PF. E quando a Operação Compliance Zero chegou à sua quinta fase, a investigação transbordou o sistema financeiro e entrou no mundo da política.

Voz C:Aqui a PF começa a apontar qual seria a contrapartida para Ciro, para fazer a emenda master, para apresentar a emenda master entregue no envelope. Na verdade seria uma mesada que ele estava recebendo, que os investigados tentavam parecer como rendimento mensal de um fundo que ele comprou. A Polícia Federal está na casa do ex-governador Cláudio Castro. A operação agora é para investigar o envolvimento dele nas transferências de dinheiro público do Fundo de Previdência de Servidores do Estado, o Rio Previdência.

Natuza Nery:Eis que fora do âmbito das investigações, mais figuras importantes da República foram relacionadas ao escândalo do banco. É o caso dos ministros do Supremo Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e do senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro.

Voz A:Saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso do Banco Master foi decidida por unanimidade, com todos os ministros aqui do Supremo Tribunal Federal. Senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à presidência da República, cobrou dinheiro de Daniel Vorcaro numa mensagem de áudio. Nessa mensagem enviada ao dono do Banco Master, o senador afirma que precisava concluir um filme sobre o pai o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro confirmou ter enviado o áudio e disse que não cometeu irregularidade.

Natuza Nery:Agora, a nona fase da operação leva a investigação pela primeira vez a um importante nome da esquerda, hoje líder do governo no Senado Federal.

Voz A:O senador Jacques Wagner, do PT, líder do governo Lula, foi alvo de busca e apreensão da Polícia Federal, que investiga o escândalo do Banco Master.

Daniel Sousa:A nova fase da Operação Compliance Zero apura se o esquema do banqueiro Daniel Vorcaro deu para Jacques Wagner um apartamento de R$2,5 milhões e também propina no valor de R$3,5 milhões.

Natuza Nery:Para a gente entender melhor esse enredo todo, eu vou recuperar uma história que começou em 2018. Na época, o governador da Bahia era Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil deste terceiro governo Lula. Na ocasião, ele decidiu privatizar a rede estatal de supermercados, chamada de "A Cesta do Povo". O problema é que em 3 leilões, ninguém apareceu para comprar. Jax Wagner era o então secretário de desenvolvimento econômico do estado e recebeu um conselho de um empresário baiano. O nome dele: Augusto Lima. O conselho: colocar uma operação de crédito consignado no pacote. Assim, aquele negócio estatal passaria a ser mais interessante. Nascia o Credicesta, um cartão de crédito oferecido com exclusividade a todos os servidores públicos do Estado, com 5% de juros ao mês. Mas para dar conta de oferecer aquele tipo de crédito aos servidores do Estado, o Credicesta precisava de ter um banco por trás dele. E foi assim, a partir de 2019, que os destinos do empresário baiano Augusto Lima e do banqueiro Daniel Vorcaro se cruzaram. A operação cresceu vertiginosamente e passou a ser replicada por outros estados. Se tornando um dos ativos que gerou mais lucro para o Banco Master. Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: O caso Master chegando ao líder do governo no Senado. Neste episódio, eu converso com Reinaldo Turolo Júnior, repórter do G1 Brasília. Sexta-feira, 19 de junho. Turolo, no momento em que a gente grava, Jax Wagner ainda é líder do governo no Senado. Então eu começo te perguntando como é que a Polícia Federal chegou até ele, como o senador petista entrou na mira da PF no dia de hoje.

Voz A:Essa investigação do Banco Master entrou hoje na nona fase e ela chega no senhor Jax Wagner por meio de materiais apreendidos em fases anteriores, notadamente lá em novembro do ano passado e também em abril desse ano. Falando um pouco da operação, essa operação hoje teve 18 mandados de busca e apreensão. Brasília, São Paulo, Bahia, foram 15 alvos, 10 pessoas físicas, incluindo o senador e o ex-banqueiro Augusto Lima, e 5 empresas teriam sido usadas aí para escamotear a passagem de dinheiro.

Voz E:Falando do banqueiro baiano Augusto Ferreira Lima, do Banco Pleno, ele que foi um dos alvos da operação. Ele é banqueiro, ex-CEO do Banco Master, e segundo as investigações da Polícia Federal, fazia a ponte entre núcleo político e seu ex-sócio Daniel Vorcaro. Augusto Lima teria usado a influência em Brasília para viabilizar a compra de carteiras do Master pelo BRB. A influência política começou após a compra da rede de supermercados Sexta do Povo durante a privatização da empresa baiana de alimentos em 2018. Ele também adquiriu o Credicesta, um cartão de crédito com benefício consignado voltado para servidores públicos, que é um cartão que nasceu na Bahia e depois foi expandido para outros estados em parceria com o Master.

Voz A:Os principais alvos dessa operação foram Jax Wagner, líder do governo no Senado, e o Augusto Lima. Mas também teve alguns alvos secundários que é importante a gente ter em mente para poder entender depois como é que a polícia descreveu esse suposto esquema, que são o enteado do Jax Wagner, o Eduardo Sodré, o pai desse enteado, que é o Guilherme Sodré, Também tem uma personagem que é muito citada, que não foi alvo da operação, que é a Bonnie Bonilla, que é casada com enteado, portanto é a nora do Jax Wagner. Ela não foi alvo da polícia. E outra pessoa que não foi alvo da polícia, mas pode aparecer algum desdobramento em relação a ela, é a Flávia Pérez, que é casada com Augusto Lima. Portanto, eles moram juntos, né? Ela também teve a Polícia Federal hoje batendo na porta dela às 6 da manhã.

Natuza Nery:Só para eu entender, a Flávia Pérez, a Flávia Arruda, ex-ministra do governo Bolsonaro, então articuladora política do governo Jair Bolsonaro.

Voz A:É isso, é isso mesmo, Natuza. Ela foi casada com o ex-governador aqui do Distrito Federal, o Arruda, por mais ou menos uns 16 anos. Eles terminaram e hoje ela é casada com o ex-banqueiro Augusto Lima.

Natuza Nery:Então eu vou pedir para você segurar um pouco do porquê você tá tratando dessa personagem, para a gente terminar de entender como Jax Wagner entra na mira da Polícia Federal, e a gente mais para frente fala dela.

Voz A:Hoje as investigações da polícia indicam que o senador Jax Wagner estaria para o ex-banqueiro Augusto Lima, assim como o senador Ciro Nogueira está para o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Ele é mais uma, segundo a polícia, mais uma autoridade, né, agraciada por favores do Banco Master, dessa vez chegando a ele pelo intermédio do Augusto Lima, que foi sócio do Daniel Vorcaro. Essa história de que Jax Wagner e membros do PT da Bahia poderiam ser alvo da Polícia Federal, ela vem correndo nos bastidores de Brasília pelo menos desde novembro do ano passado, quando o Augusto Lima foi alvo da Operação Compliance Zero pela primeira vez, lá na primeira fase. Só que se esperava que o que se fosse apontado contra Jax Wagner e membros do PT da Bahia fossem benefícios prestados para o Master lá no início do Master apenas, né, lá em 2018, 2019. Mas não, que essa operação tá dizendo hoje é que Jax Wagner teria atuado em prol do Banco Master na atual legislatura enquanto ele é senador da República, dentro do Senado. Isso, se as investigações estiverem corretas e procederem e forem provadas, isso amplia muito a gravidade da atuação.

Natuza Nery:Pelo que eu tô entendendo aqui, a polícia tá dizendo que a relação do senador Jax Wagner não é diretamente com Daniel Vorcaro, e sim com Augusto Lima, ex-sócio do dono do Master, certo? Então, a partir desse ponto, eu queria entender melhor como é a relação do senador com Augusto Lima, uma relação que Pelo que eu entendo, ultrapassaria, conforme a polícia diz, a fronteira social. Era uma relação muito mais próxima. Isso mesmo.

Voz A:Tem duas frases, Natuza, na decisão do ministro André Mendonça que resumem muito bem isso. Primeiro, eles dizem, a polícia disse para o Supremo que essa relação entre os dois seria, abre aspas, antiga, próxima e marcada por um elevado grau de confiança pessoal. E tem um outro momento da decisão em que o Mendonça diz o seguinte, que tem uma mensagem na época em que o master tava tentando ser vendido para o Banco Regional de Brasília, o BRB, em que o Augusto Lima escreve para o Jax Wagner, abre aspas: você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso. Isso foi em março de 2025. E o Mendonça disse que essa frase indica que o Jax Wagner não é um mero destinatário passivo das informações, mas ele é um interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado. Então é nesse sentido que eles estão vendo que essa relação extrapola. As suspeitas contra o Jax Wagner, elas partem da apreensão do celular do Augusto Lima lá em novembro de 2025, quando a polícia apreende mensagens, áudios e outros registros. E o principal, né, dessa relação agora que tá se delineando: a polícia encontrou indícios de que o Jax Wagner dentro do Senado teria atuado em prol do Master de várias maneiras. E também a polícia encontrou indícios de que possivelmente o senador recebeu vantagens em troca dessa atuação. Entre as vantagens tem essa questão de um apartamento, que seria uma propina maior, e também repasses para empresas da família dele. Mas também tem São questões que o ministro chama de laterais, né, que é uso de avião, ingressos para shows. Então nesse uso de avião, aeronave, tem um episódio ali de outubro de 2023 em que o Jax Wagner vai para uma ilha, pertence ao Augusto Lima, ali no litoral da Bahia, chamada Ilha da Paixão.

Natuza Nery:Senador Jax Wagner divulgou uma nota por meio da assessoria, disse que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados, que acompanha com tranquilidade o andamento das investigações, que o apartamento investigado jamais integrou o patrimônio dele e negou a atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira. Então deixa eu só colocar um pouco mais de contexto aqui, porque você citou o BRB, que é o Banco de Brasília, um banco vinculado ao governo do Distrito Federal. Qual é essa história do banco e do Banco Master? O Master, fazendo operações fraudulentas, se descobriu depois por meio de CDBs, chegou num beco sem saída. Fez um monte de operação que não tinha lastro, não podia fazer e precisava ser salvo. Daniel Alvorcar então começa a instruir figuras públicas a atuar para viabilizar a venda do Banco Master para o BRB, ou seja, o BRB com dinheiro público ia comprar um banco que organizou e estruturou uma operação fraudulenta. E aí a polícia diz que diversas autoridades, que a gente ainda está se deparando com elas, entendendo se elas fazem ou não parte desse universo, atuaram para fazer lobby pelo Daniel Forcaro, para pressionar o Banco de Brasília, o Banco Regional de Brasília, o BRB, a assumir o prejuízo do Master.

Voz C:O Banco Central vetou a compra do Banco Master pelo BRB, que é o Banco de Brasília. O BC tinha um ano para analisar essa fusão e a decisão veio depois de 5 meses. Essa compra já tinha sido aprovada pela Câmara Legislativa do DF, sancionada pelo governador Ibanez Rocha, mas faltava o aval mais importante do Banco Central que não veio. O Banco Master é conhecido no mercado por oferecer rendimentos muito acima da média. Só que para pagar esses rendimentos, o Master usa ativos difíceis de vender: precatórios, participação em empresas com problemas financeiros. Então, se o Master quebrasse, o Fundo Garantidor, que é formado com contribuições de diversos bancos, teria de arcar com volume alto, relevante, e isso é considerado um problema para o sistema financeiro.

Natuza Nery:Então, só para fazer esse contexto, para juntar essas duas coisas, né, onde é que o BRB e o Master se encontram? Pois bem, pelo que eu tô entendendo, você tá dizendo o seguinte: que a Polícia Federal tá apontando 3 eixos de atuação. O primeiro eixo de atuação que mostra o vínculo do empresário Augusto Lima com o senador Jax Wagner é por meio de favores, uso de jatinho, você citou agora a Ilha da Paixão, o compra de ingresso. Esse é o que o ministro André Mendonça chama de uma relação mais lateral. Mas há uma relação mais central e mais grave, que é a compra de um apartamento, que eu queria que você descrevesse para gente o que que a polícia encontrou, e também repasses do Augusto Lima para uma empresa em nome da Nora e do enteado do senador.

Voz C:Isso.

Voz A:Sobre o apartamento, Natuza, eu acho que esses dois são os dois principais eixos das supostas vantagens que o senador teria recebido segundo a investigação. O apartamento se trata de uma unidade de luxo que tá em construção numa área nobre de Salvador, é de um empreendimento chamado Poeme Horto. E a polícia encontrou uma mensagem em que o próprio Jacques Wagner envia para o Augusto Lima lá em novembro de 2024 dados sobre esse apartamento e fala, entre aspas, a unidade é a 1702 e o preço é 2,45 mil, ou seja, 2 milhões e 450 R$1.000. Depois, a polícia encontra, uns meses depois, umas mensagens do senador com a filha falando justamente desse apartamento, de como regularizá-lo na documentação. Para essa operação, a polícia disse que o apartamento ia ficar em nome de terceiros e tava contando ali com ajuda de um outro personagem que foi alvo da Operação Compliance Zero na fase de abril dela, que é um advogado que atuava para o Banco Master chamado Daniel Monteiro. Ele inclusive tá preso em São Paulo desde abril. O irmão desse advogado, Daniel Monteiro, que Daniel Davi Monteiro, e foi alvo da operação hoje da Polícia Federal, teria ajudado a dissimular a propriedade desse apartamento. Então a polícia encontra os indícios do apartamento quando apreende lá em novembro o celular do Augusto Lima, e quando apreende o celular do Daniel Monteiro, o advogado do Master, em abril. Tem até uma mensagem desse Daniel Monteiro para o Guilherme Sodré, que é o pai do enteado do senador, falando assim: é, a altura do vão é 2,45 m. Como se fosse metros. A polícia disse que isso é uma mensagem cifrada, o que obviamente aumenta suspeitas, né, porque não tinha contexto nessa conversa. Então a polícia disse que esse 2,45 metros na verdade é o 2,45 milhões, que era o valor do apartamento.

Natuza Nery:Mas tem outro ponto, né, Turolo. A polícia também encontrou uma mensagem do enteado do senador para o Augusto Lima falando de boletos altos e atrasados. Que seriam do apartamento.

Voz A:Exato, que fortalece essa suspeita que a polícia coloca de que houve o recebimento desse imóvel como uma suposta propina. Então a outra são repasses não diretos para o senador, mas por meio de familiares que têm uma empresa. Esses repasses teriam se dado, segundo a investigação, para a BAE Financeira, que é uma empresa no nome desse enteado, né, o Eduardo, e também da esposa dele, que é a Bonnie Bonilla. E segundo a polícia, essa empresa BN Financeira, ela não parece ter operação, ela não tem funcionários, mas ela recebe R$3,5 milhões de uma outra empresa chamada P1 Participações, que é uma empresa de propriedade da Andreana Novaes, que é um outro alvo da operação de hoje e é prima do Augusto Lima. Ou seja, toda a família ali, segundo a polícia, estaria envolvida em fazer essas transações de modo a ocultar o real intuito dessas transações. Também, Natuza, se chegou nesses repasses pela apreensão feita anteriormente, lá em abril, no celular do Daniel Monteiro, porque a polícia encontrou no celular dele registros de pagamentos para uma pessoa chamada Dudu, que a polícia veio a descobrir, ou pelo menos apontar como sendo o enteado do Jax Wagner. E um detalhe curioso nessa história é que esse Dudu, né, que é o Eduardo Sodré, ele é secretário de Meio Ambiente da Bahia. Essa questão também dos repasses, Natuza, já tava mais ou menos no radar desde que a CPI do Crime Organizado tinha quebrado sigilo do Master, né, recebeu ali detalhes das declarações que o Master fez para Receita Federal e tinha ali pagamentos feitos para essa empresa, a BN Financeira, que era direcionados para essa Boni Bonilha, nora do senador. Então já havia essa suspeita, mas agora a polícia traz isso para o inquérito do caso Master.

Natuza Nery:Bom, você citou uma atuação parlamentar do senador que, segundo a Polícia Federal, seria uma atuação para privilegiar o Banco Master. Do que que a Polícia Federal está falando quando se refere a isso?

Voz A:São 3 frentes dessa suposta atuação parlamentar. A primeira delas, a polícia diz que o Jax Wagner se envolveu pessoalmente na tentativa de ampliar os limites ali do crédito consignado. Isso numa atuação parlamentar lá em 2022, ou seja, no governo ainda Bolsonaro, não no atual governo. Segundo a polícia, o Jax Wagner apresentou uma emenda para uma MP, uma Medida Provisória, que ampliava a margem do crédito consignado, ou seja, o percentual que um aposentado, um trabalhador consegue gastar do seu salário como pagamento para parcelas de empréstimo consignado. E a polícia diz que o Jax Wagner conclama os parlamentares a aprovar essa MP. De fato, essa MP foi aprovada, ampliou naquela ocasião, os limites do crédito consignado, a margem para ele. Mas a emenda em específico que o senador Jax Wagner apresentou, que era a emenda número 30, não passou. Essa emenda tratava de juros para o consignado.

Natuza Nery:Essa emenda tratava de juros em que sentido, você sabe?

Voz A:Ela propunha um limite, mas era um limite relativamente alto para que se pudesse cobrar juros de empréstimos consignados. É, ainda não tá muito claro porque a investigação não delineia completamente o porquê que isso seria de interesse do master, Não fica muito claro, mas o que a polícia destaca, inclusive numa nota de rodapé na decisão do ministro André Mendonça, é que independentemente dessa proposta de emenda ter sido aprovada ou não, e não foi, o empenho do Jax Wagner em aprovar, em converter essa medida provisória em lei, é o que caracteriza essa atuação em favor do Master. E existe um segundo momento, que é um aumento da cobertura do FGC. Essa é aquela emenda Master que ficou famosa porque foi apresentada em agosto de 2023 pelo senador Ciro Nogueira, que também é investigado nessa Operação Compliance Zero.

Voz F:A Polícia Federal apura se, em contrapartida, Jax Wagner atuou no Congresso Nacional para atender a interesses do Banco Master. A PF cita uma emenda apresentada pelo senador sobre empréstimos consignados para funcionários aposentados e beneficiários de programas sociais, além de uma conversa entre Augusto Lima e Jax Wagner sobre a chamada emenda master,, apresentada pelo senador Ciro Nogueira, do Progressistas, em 2024. A proposta poderia ampliar o alcance dos negócios de Daniel Vaccaro. O texto aumentava de R$250 mil para R$1 bilhão o valor que o Fundo Garantidor de Crédito dá a clientes quando um banco quebra. Segundo a Polícia Federal, no dia 13 de agosto de 2024, data da inclusão da emenda de Ciro no sistema do Senado, Augusto Lima realizou chamada de voz para Jax Wagner com duração de 9 minutos e logo depois encaminhou ao parlamentar o link da emenda. E duas semanas depois, em 27 de agosto de 2024, após encontro presencial, Augusto reencaminhou o link da emenda de Ciro a Jax Wagner. A emenda não foi aprovada.

Voz A:Ela tratava de uma emenda à PEC 65, né, e ela ampliava a cobertura do FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, de R$250 mil por do depositante para R$1 milhão. Ou seja, dava uma garantia para que as pessoas pudessem botar dinheiro no Master e receber do fundo garantidor até R$1 milhão caso o Master desse calote. Se isso tivesse passado, os especialistas dizem que o rombo no FGC teria sido 3 ou 4 vezes maior do que foi atualmente. E existe, Natuza, por fim, uma terceira frente que a polícia aponta de uma suposta atuação parlamentar do senador, que é ali de março de 2025, que é no contexto da tentativa de vender o Master para o BRB, o Banco de Brasília. Foi aí então que o Augusto escreve: "Você, melhor que ninguém, sabe da minha história e faz parte disso", escreve para o Jax Wagner, né? A polícia não especifica muito bem, ou pelo menos o André Mendonça não transcreve integralmente o que a polícia diz sobre isso, mas ele diz que existe, entre aspas, uma iniciativa parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação BRB Master. Não existem ainda detalhes conhecidos sobre como foi essa atuação em prol da venda do Master para o BRB.

Natuza Nery:Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Reinaldo Turolo. Bom, o que que tem de concreto segundo a Polícia Federal e que parecem exigir bastante explicação do senador é que um apartamento para beneficiar a família do senador petista foi pago pelo Augusto Lima. Segundo ponto dessa história é que há repasses de uma empresa da família do Augusto Lima para a família do senador Jax Wagner, num valor que a polícia considera incompatível com o tamanho da empresa, uma microempresa. E o terceiro ponto é atuação parlamentar. Essa me parece menos clara, o que não significa que a polícia não tenha. Significa só que no despacho do ministro André Mendonça foi isso que nós tivemos acesso. Ainda preciso entender melhor esse eixo da atuação parlamentar. Faz sentido?

Voz A:Faz total sentido, Natuza. A transcrição que o ministro André Mendonça faz da representação feita pela Polícia Federal é muito sucinta. A gente não tem ali ainda a descrição e o teor das conversas. Então, por exemplo, nesse eixo dessa atuação que eles chamam de iniciativa parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação entre o Master e o BRB, a gente não sabe quase nada. É muito possível até que as defesas digam, né, que a defesa diga o seguinte: bom, tudo o que a polícia tá apontando que o senador Jax Wagner fez em prol do Master, nada se concretizou, né, porque nem a emenda que ele apresentou vingou na MP sobre a margem do consignado, vingou. Nem a emenda master, como a gente sabe, do Ciro Nogueira, vingou. E nem a compra do master pelo BRB vingou, foi barrada pelo Banco Central no segundo semestre do ano passado. Agora, tem-se que investigar isso tudo à luz dessas possíveis vantagens, né? Porque, claro, você pode dizer que é uma atuação parlamentar legítima. Agora, como Ciro Nogueira disse, né, que a apresentação da emenda master foi atuação parlamentar legítima, ela é legítima, obviamente, desde que não haja precisa um pagamento de benefícios para que essa atuação aconteça.

Natuza Nery:Exato. Isso não exclui que um político, um agente público, possa ter atuado por meio de pagamento de vantagem ou por meio de propina, mesmo que o negócio não tenha sido bem-sucedido, mesmo que a atuação não tenha sido bem-sucedida. Turolo, a polícia traz alguma coisa que implique o presidente da República ou que implique o próprio governo nesse caso em que o Jax Wagner salvo.

Voz A:Natuza, até agora o que a polícia apontou não implica o governo, não mostra um comprometimento sistêmico do governo, de outras pessoas. E isso, a depender das investigações, pode ficar restrito à atuação pessoal ali do Jax Wagner. Agora, tem alguns elementos que chamam a atenção e que podem representar algum desgaste para o governo, principalmente porque devem ser explorados pela oposição. Um deles é o fato de que o próprio Jax Wagner já admitiu que quem levou o ex-ministro do Supremo, Ricardo Lewandowski, para trabalhar trabalhar no Banco Master como consultor, no momento em que ele tinha saído do Supremo e não tinha virado ainda Ministro da Justiça do governo Lula, foi o próprio Jax Wagner, né, com a intermediação ali e a pedido do Augusto Lima. Então isso é um aspecto que demanda alguma atenção para ver se isso não vai respingar nessa indicação que depois veio a ser de um ministro do governo que assumiu ali a pasta da Justiça.

Daniel Sousa:Eu tive com o Daniel apenas duas vezes. Uma vez quando ele veio se apresentar, porque tava entrando de do Augusto Lima na questão do Credsextra. E a segunda vez, quando o Augusto Lima me pediu uma indicação para— ele queria melhorar o nível do banco, ele queria uma indicação para a área jurídica do banco. O ministro Lewandowski tinha acabado de se aposentar do Supremo por conta dos 75 anos. Eu digo: olha, eu acho que não tem pessoa melhor. Foi a segunda vez que eu vi Quando eu fui apresentar o ministro Lewandowski para eles, só essas duas vezes, não tem nenhuma relação com Daniel Vorkaro.

Voz A:E o outro elemento que a gente já vê nas redes sociais é a oposição e críticos do governo Lula dizendo que Lula recebeu no Palácio do Planalto, junto com Gabriel Galípolo, que à época estava indicado para assumir o Banco Central, em dezembro de 2023, é, recebeu o banqueiro Daniel Vorkaro, que foi lá se queixar das investigações que tava sofrendo, como já veio público. Então são elementos que podem colar no governo de alguma maneira, embora eles não mostrem uma atuação do governo até aqui em prol do Master.

Natuza Nery:E o caso Master vem incomodando muito a oposição, incomodou Flávio Bolsonaro, que tá tendo que dar explicação até agora, o próprio Ciro Nogueira. Há outras figuras do universo político que vão ser, né, ao que tudo indica, bastante importunadas pelas investigações. Mas o fato é que o dia passou e Jax Wagner continua líder do governo de uma história que já se falava há muito tempo. Então eu te pergunto, qual é o destino dele, né? O que que o governo tá dizendo de como Lula vai tratar essa pedra no sapato, por exemplo?

Voz A:Natuza, até o final da tarde, quando a gente tá gravando, Jax Wagner continua. Nosso colega Gerson Camarote já publicou no G1 que existem pessoas dentro do Palácio do Planalto que defendem a saída dele, que ele entregue a liderança. Isso é especialmente importante nessa questão da liderança no Senado nesse ano, porque tem pautas importantes que o governo Lula pretende passar.

Natuza Nery:E ano de eleição, né?

Voz A:É ano de eleição, mas tem ali a questão do fim da escala 6 por 1, a PEC da segurança pública, que tá travada no Senado e é uma pauta importante para o governo. Então existe uma expectativa de que ele entregue a liderança, se coloque essa função à disposição do governo. Por outro lado, você vê que tão logo a operação hoje foi para as ruas, 6 horas da manhã, uma ou duas horas depois o PT já soltou ata, dizendo que acredita na inocência dele, de Jax Wagner, na lisura, na correção dos atos dele, e que ele vai se explicar para a justiça. Então agora é preciso ver como é que isso vai desenrolar, o que que vai pesar mais para o governo Lula.

Daniel Sousa:O presidente Lula ligou para mim para se solidarizar comigo, dizer que mantém absoluta confiança nele. A gente se conhece há 48 anos e, portanto, ele sabe qual é meu jeito de agir. Aliás, eu vou repetir, eu não tenho eu não tenho CNPJ, eu só tenho meu CPF. Então ele só ligou para dizer, ó, fique firme, essa é uma tentativa de desestabilizar você, mas conte com a minha confiança. Então, do meu ponto de vista, até agora o que eu tenho do presidente Lula é a solidariedade ao ocorrido.

Natuza Nery:Bom, você citou a Flávia Pérez no começo da tua primeira resposta, que é a Flávia Arruda, ex-ministra do governo Bolsonaro. Como é que a história dela se cruza com essa etapa da operação?

Voz A:Ela não foi alvo da operação da Polícia Federal hoje, mas teve a sua casa como alvo. A Flávia Arruda, ela é casada com Augusto Lima, que tem essa relação antiga com, como a polícia disse, com Jax Wagner. Porque lá na Bahia, quando o Jax Wagner atuava lá, o Rui Costa, hoje da Casa Civil, era o governador. Eles vendem para o Augusto Lima um cartão de crédito consignado junto com uma rede de supermercados que era estatal lá da Baía. É o famoso Credicesta que a gente vem ouvindo falar muito. E esse Credicesta dava muito dinheiro, né? Era um cartão de crédito consignado que inicialmente, lá em 2018, era para mais ou menos 400 mil servidores e aposentados da Bahia.

Voz C:O Credicesta, ele era um cartão de crédito com pagamentos em desconto consignado, basicamente, como a gente tava vendo, para servidores, para aposentados, para pensionistas. E isso foi feito a partir da venda do Sexta do Povo, uma rede estatal de supermercados, que também teve o crédito cesta, esse cartão de crédito consignado. As parcelas são descontadas ali diretamente no contra-cheque dos beneficiários. Então começa assim: o Augusto Lima, ele tinha ali uma atuação bastante forte e ligada a petistas da Bahia, inclusive a Jax Wagner, em relação a isso, porque ele começa a operar esse crédito cesta nessa questão. Você consegue um esquema em que ao pagamento um desconto obrigatório e previsível, porque é desconto em folha. Depois se amplia com a atuação do Master, e aí sai do escopo da Bahia, que era o início, para o país inteiro.

Voz A:Inclusive, a repórter da Piauí, Consuelo Diegues, faz uma apuração de que isso chega no Rio de Janeiro, se expande para o Rio de Janeiro com exclusividade. O CredSexta, cartão de crédito consignado para funcionários públicos, é por intermédio ali do Rueda. Eu tô dizendo tudo isso para dizer que muitas pessoas do campo político tinham articulação com Augusto Lima, além do Jax Wagner. E a própria Flávia Arruda se insere nesse contexto, porque além de ela ser esposa do Augusto Lima, ela tem ligações muito claras com o pessoal do PP, que foi quem a colocou no governo Bolsonaro. Ela tem muita proximidade com o próprio Ciro Nogueira, com pessoas aqui do Distrito Federal, né, candidata ao governo do estado, que atual é governadora aqui do DF, que a Celina Leão, que é do PP também, e Ibanez. Então Então existe todo um trânsito de políticos que se organiza em torno da Flávia Pérez e do Augusto Lima, para além desses do campo relacionado ao senador Jax Wagner.

Natuza Nery:E nesse universo do crédito consignado, na gestão passada houve uma operação que foi aprovada inclusive no Congresso aumentando a fatia do consignado nos empréstimos, né? Era de 30%, passou a 35%, e uma articulação que foi feita pelos então líderes do Centrão, digamos assim, o Ciro Nogueira, do PP, e o Arthur Lira, também do mesmo partido, com quem a ex-ministra Flávia tinha uma relação política muito próxima, não é isso?

Voz A:Perfeito, Natuza. E aí que essa ciranda toda se fecha, porque é justamente nessa MP que você tá se referindo, que foi convertida em lei, que aumentou a margem do crédito consignado e portanto beneficiou beneficiou o Credicesta, beneficiou o Master, beneficiou o Augusto Lima, em última instância também o Daniel Vorcaro. É no âmbito dessa tramitação da SMP que o Jacques Wagner apresenta emenda, que ele conclama, segundo a PF, os seus pares a converterem a SMP em lei. Então você vê aí que toda essa ciranda política se fecha.

Natuza Nery:Turolo, muito obrigada pelos esclarecimentos, bom trabalho para você.

Voz A:Prazer, Natuza, obrigado.

Natuza Nery:Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo Assunto.