Episódios de O Assunto

Caso Master: o passado e o futuro da investigação

18 de junho de 202632min
0:00 / 32:33
Convidada: Consuelo Dieguez, repórter da revista piauí e autora dos livros "Bilhões e Lágrimas - A economia brasileira e seus atores" e "O Ovo da Serpente - Nova direita e bolsonarismo: seus bastidores, personagens e a chegada ao poder". Nesta segunda-feira (16), a Segunda Turma do STF votou para manter o pai e o primo de Daniel Vorcaro em prisão preventiva. O único voto contrário foi do decano Gilmar Mendes, que fez uma série de críticas à condução da investigação do Caso Master e a comparou com a Operação Lava-Jato. O relator do caso, o ministro André Mendonça, defendeu o processo e fez mais que isso: horas antes, ele havia retirado o sigilo de novas informações apuradas pela investigação. As revelações implicam ainda mais algumas figuras importantes da política brasileira, e Mendonça afirmou que "tem mais coisa por vir." Neste episódio Natuza Nery entrevista a jornalista Consuelo Dieguez, que acompanha o Caso Master antes mesmo das investigações da Polícia Federal virem à tona. Consuelo refaz a linha do tempo do escândalo, explica quem são os vários personagens envolvidos e aponta que novos caminhos a investigação pode seguir.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Consuelo Dieguez

ConvidadoRepórter da revista piauí
Assuntos6
  • Fraudes Bancarias CaixaMaior fraude financeira da história do Brasil · Operação Compliance Zero · Risco para o sistema financeiro · Capital do banco vs. CDBs na praça · Fundos de investimento com empresas podres · Fundo Garantidor de Créditos (FGC) · Manipulação de preço de ações · Banco Máxima
  • Indícios contra Ciro NogueiraFotos de proximidade e viagens · Acusações de mesada e atuação em favor do banqueiro · Financiamento de eventos de luxo · Emenda parlamentar para aumentar limite do FGC · Indicação de vice-presidente da Caixa · Ciro Nogueira · Daniel Vorcaro · Hugo Mota
  • Crise do Caso Master e Credibilidade do STFTensão no Supremo Tribunal Federal · Prisão preventiva de familiares de Daniel Vorcaro · Voto divergente de Gilmar Mendes · Críticas à condução da investigação · Comparação com a Operação Lava Jato · Retirada de sigilo de novas informações · André Mendonça · Dias Toffoli
  • Implicações e Investigação PolíticaDiálogos de Hugo Motta com Vorcaro · Liberação de empréstimo do Banco Master · Envolvimento de figuras do Centrão · Fundos de pensão e investimentos de risco · Operações suspeitas do Banco de Brasília (BRB) · Cláudio Castro · Davi Alcolumbre · Arthur Lira
  • Delação premiada e investigaçõesDificuldade de emplacar delação premiada · Possibilidade de Daniel Vorcaro ser salvo · Comparação com o resultado da Lava Jato · Medo de delatores e ameaças · História do sicário que se matou na prisão · Flávio Bolsonaro
  • Regulação Banco CentralDificuldade de compreensão sobre a autorização · Alerta de instituições sobre riscos · Recomendações do Banco Central ao Banco Master · Autorização no governo Bolsonaro · Tentativa de autorização no governo Temer · Roberto Campos Neto · Banco Central
Transcrição53 segmentosassemblyai/universal-3-pro-async

Voz A:A gente viu muito mais do que uma decisão do Supremo, da segunda turma, sobre medidas cautelares. Foi uma sessão que expôs a tensão no Supremo, uma tensão que estava nos bastidores e agora veio à superfície.

Natuza Nery:No mérito do julgamento, os ministros da segunda turma do Supremo Tribunal Federal precisavam decidir se o pai e o primo de Daniel Vorcaro seguiriam presos preventivamente. Dias Toffoli tem se declarado suspeito nos julgamentos do caso Master e não votou. O relator André Mendonça votou a favor e foi seguido por Luiz Fux e Nunes Marques. Somente o decano da corte abriu a dissidência.

Voz C:O ministro Gilmar Mendes foi o único que votou a favor da prisão domiciliar. Mas não só isso, além do voto divergente, ele fez uma série de críticas ao processo, à condução da investigação e chegou a comparar o episódio do Master à Operação Lava Jato.

Consuelo Dieguez:A operação Compliance Zero tem se valido de expedientes que guardam essa desconfortante semelhança com a Lava Jato.

Natuza Nery:André Mendonça defendeu a condução do caso.

Consuelo Dieguez:Não vou avaliar a Lava Jato, não é o objeto do julgamento. Nós estamos aqui a julgar a maior fraude financeira da história do nosso país e, se não a maior, certamente uma das maiores do mundo, da história.

Natuza Nery:Mas não foi só. O ministro relator retirou parte do sigilo das investigações poucas horas antes dessa sessão. E o conteúdo desse material aumenta a temperatura da frigideira de Brasília. Em fogo alto, um importante senador.

Voz C:O relatório da PF reúne fotos que ilustram a relação próxima entre Daniel Vorcaro e o senador Ciro Nogueira, que teria usado o mandato a favor dos interesses do banqueiro. Em outros registros, o ex-banqueiro e o senador estão juntos dentro de um jatinho. Martim. As imagens são de 2024, durante uma viagem aos Estados Unidos.

Voz F:O relatório afirma que, além das viagens que a gente viu aí no telão, senador recebeu mesadas, primeiro de R$300 mil e depois de R$500 mil por mês, totalizando um montante estimado em R$6 milhões. Em troca dessas vantagens, o senador atuava em favor do banqueiro no Congresso.

Natuza Nery:Tudo isso acontece enquanto o dono do Banco Master tenta sem sucesso emplacar sua delação premiada.

Voz C:A Procuradoria-Geral da República informou ao ministro do Supremo, André Mendonça, que rejeitou a segunda proposta de delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro.

Natuza Nery:E os próximos passos da investigação podem chegar a mais figuras que estão no centro do poder.

Voz G:Jornal Estado de São Paulo publicou que a PF encontrou diálogos de Hugo Motta pedindo a Vorcaro a liberação de um empréstimo do Master à empresa da cunhada. Segundo a reportagem, as conversas detectadas abordam a liberação de um empréstimo de ao menos 22 milhões R$ 1 milhão do Banco Master para Bianca Medeiros, irmã da mulher do parlamentar, Luana Mota, em março de 2024.

Consuelo Dieguez:Tem mais coisa por vir.

Natuza Nery:Da redação do G1, eu sou Natuzaneri, e o assunto hoje é o caso Master, o passado e o futuro da investigação. Neste episódio, eu converso com Consuelo Diegues, repórter da revista Piauí, e autora dos livros Bilhões e Lágrimas: A Economia Brasileira e Seus Atores e O Ovo da Serpente: Nova Direita e Bolsonarismo, Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder. Quinta-feira, 18 de junho. Consuelo, eu quero abrir citando uma reportagem que você escreveu em outubro de 2024. Essa reportagem que você assina foi a primeira de uma série sobre o Banco Master. Então, antes da gente conversar sobre o momento o presente, o futuro das investigações, eu quero voltar àquele momento com você. E é muito impressionante o que você relata nessa reportagem, porque você viu primeiro, ou você relatou primeiro, algo que a gente só foi ver confirmado muito tempo depois pelas investigações. Você começa essa sua reportagem citando uma visita que você faz a um escritório de Daniel Boccardo, num encontro que você tem com ele. E você relata, e me pareceu, né, impressionada com a riqueza ali do ambiente em que você estava nesse escritório. Só para situar os nossos ouvintes, né, os nossos assunters, você fazia uma espécie de linha do tempo e contava como é que um banco que entrou para o jogo em 2019 e em 5 anos tenha se tornado um banco tão rico, um Daniel Vorkaro, um personagem tão influente. Então leva a gente pra lá, pra 2024, por favor.

Consuelo Dieguez:Eu tomei conhecimento dessa história porque, pra te ser bem franca, eu nem conhecia Daniel Vorkaro, nunca tinha ouvido falar nem em Daniel Vorkaro, nem em Banco Master. Me liga uma fonte minha, de uma corretora aqui no Rio, e me liga assim quase que em desespero mesmo. Falou: Consuelo, vocês têm que denunciar isso, porque o que tá acontecendo no mercado é um escândalo. E mais do que um escândalo, é um risco pro sistema. Tem um banco chamado Master, do Daniel Vorcaro, que tá com 40 bilhões de operações. Aí é um banco que tem um capital de 4 bilhões, tem 40 bilhões de CDBs na praça, pagando 140% do CDI, quando a maioria dos bancos, dos bancos grandes, não chegam a 100% do CDI. Ele tá pagando 140%, e pra lastrear esses CDBs que ele tem aí, pra dar garantia a esses CDBs, Ele tem fundos de investimento recheados de empresas podres. Ou seja, se ele não conseguir cobrir esses CDBs, se houver uma corrida a esses CDBs, ele não tem dinheiro, porque esses fundos dele não valem nada. Então, obviamente, ele vai se socorrer junto ao FGC e ele vai levar pelo menos metade do patrimônio.

Voz F:O FGC é uma associação privada que protege o dinheiro aplicado nos bancos. Funciona como um seguro. Quando um banco é liquidado ou fechado, O fundo garante parte desses valores para os clientes. Essa garantia cobre até R$250 mil por cliente, por CPF. Quem tiver mais do que isso no banco só recebe até esse limite.

Consuelo Dieguez:Eu já fiquei apavorada quando ele me contou isso. Bom, aí ele me passou algumas histórias operacionais, aí eu fui atrás de buscar. O escritório era um... O banco ficava no Pátio Vitor Malzoni, que é um lugar mais conhecido ali, o prédio mais conhecido, mais badalado da Faria Lima. Que tem grandes empresas ali. Natuza, um andar ali custa, na época que eu fiz a matéria, R$560 mil. Ele tinha 4 andares, um banco minúsculo. Era evidente que tinha uma coisa muito estranha. E junto ali, naqueles andares, o que você via é que tinham empresas que não deveriam estar ali. Por exemplo, como a Reagi, que era uma administradora dos recursos dele. Então, por que que a Reagi tava fazendo na sede do banco? Porque administradora, ela tem Ela tem que ficar independente do banco que está emitindo os papéis, porque ela de alguma forma é meio fiscal daqueles papéis que o banco está colocando nos seus fundos. E ela estava ali.

Voz H:A REAG e o Master são investigados pela Polícia Federal por suspeitas de fraude contra o sistema financeiro. E técnicos do Banco Central identificaram que fundos administrados pela REAG foram usados em operações estruturadas para inflar artificialmente o patrimônio do master.

Consuelo Dieguez:Então assim, já era estranho, o mercado já achava estranho, inclusive porque o João Mansur não era uma pessoa que tinha boa fama no mercado. Então você tinha uma série de problemas já ali que eu via desde o começo, e o Daniel Vorcaro absolutamente tranquilo. Natuza, ele dizia para mim que era inveja dos grandes bancos, que ninguém queria que ele competisse porque os grandes bancos, aqui havia concentração muito grande no mercado, que na verdade existe, mas você não acaba com a concentração permitindo que bandidos entrem no sistema, que era o caso dele, né? Ou seja, era uma situação já muito problemática ali. Quando você via, sabe uma coisa que não se sustenta? Inclusive ele, a forma dele falar e dele explicar não era de uma pessoa que tinha um grande conhecimento do sistema, nem da economia, nem nada, por mais que ele tentasse. Olha, eu converso muito com pessoas do mercado, você não tinha a sensação de que ele tinha um conhecimento.

Natuza Nery:Ele não falava como banqueiro, é isso, Consuelo?

Consuelo Dieguez:Ele não tinha profundidade nas coisas que ele falava, sabe? Pra explicar as operações dele, como que ele conseguia fazer aquilo. Por exemplo, ele dizia: "Não", quando você perguntava: "Olha, você tem muito precatório, isso não é um risco?" "Por que precatório?" Porque assim, "Ah, esse meu CDB se garantem também com precatórios." Mas precatórios depende da justiça aprovar se vai pagar ou não. Ele não conseguia explicar isso. Ele não explicava nada. Ele só dizia que as operações eram muito boas. Aí você mostrava pra ele: "Olha, mas essas empresas aqui, por exemplo, Light, era uma empresa quebrada, em recuperação judicial." Ele dizia: "Não, mas nós estamos recuperando a empresa." Era tudo assim, sabe, fantasioso. Não tinha nada consistente no que ele falava. Quando você pedia pra ele explicar cada empresa que tava naquele fundo, que não rendia nada, e como o fundo dele poderia render tanto se as ações dessas empresas estavam lá embaixo, ele não explicava. E aí o que que eu descubro? Porque apuração dessa, ela não fica apenas na primeira informação que você recebe e nem na conversa com ele. Você começa a ir atrás. E aí começam a surgir pessoas pra te trazer informações. E uma das coisas que a gente publicou na Piauí também foi como eles manipulavam o preço das ações pra dar a impressão de que esses fundos dele valiam mais do que valiam. Então eles combinavam no final do mês, por exemplo, pessoas do Master com outras pessoas do mercado: "Vamos subir hoje." Então alguém entrava comprando Algum agente do mercado comprava, comprava, o preço das ações subia, os fundos dele pareciam mais robustos e, por causa disso, ele podia colocar ainda mais CDBs no mercado. E aí eu fui descobrindo isso. Antes dele comprar o Master, que se chamava Máxima, que pertencia a um Saul Sabá, que era um banqueiro cujo banco já estava quebrado, esse Máxima, ele já fazia operações irregulares. Com esse Banco Máxima, através das empresas dele que eram do mercado imobiliário lá em Belo Horizonte, junto com o pai dele, que está preso agora, o Henrique Vorcaro.

Natuza Nery:E você não saiu dessa conversa se perguntando como é que um personagem que já tinha o seu nome sido ligado a irregularidades com um banco, como esse personagem que havia entrado nesse jogo apenas em 2019 conseguiu uma autorização do Banco Central para operar, vamos a gente explicar para quem nos ouve que uma reportagem dessa monta, como você escreveu, ao longo de tantas outras, ela não é uma reportagem rápida. É como se fosse descascar uma cebola grande, você vai tirando camada a camada e descobrindo uma coisa nova a cada momento em que você vai apurar. Qual foi a dúvida da repórter nesse momento quando você viu o Banco Central de um lado e esse personagem de outro?

Consuelo Dieguez:Eu não conseguia compreender quando eu vi aquilo, porque assim, existe um limite para o repórter, né, ele investigar. Só que ali, conforme eu ia recebendo essas informações, eu ficava: "Como que o Banco Central não percebeu isso? Se eu, uma repórter, que estou aqui pedindo para as pessoas documentos, conseguindo documentos, o Banco Central, que tem todos esses documentos na mão, não viu isso?" Inclusive tinha uma pessoa na minha matéria, que nessa minha primeira matéria ele aparece, que eu conheço em off, que é o Vladimir Timerman, ele me passa umas informações, muitas informações sobre as fraudes que o Master estava cometendo, ele avisa o Banco Central. E outras pessoas avisaram o Banco Central. E o Banco Central dizia: "Não, tá tudo certo, tá tudo certo". O Banco Central dizia que tava tudo certo, Natuza. O Banco Central fez 18 recomendações para o Banco Master. Na terceira você já tem que ver que esse banco não tem mais a menor permissão de operar. Imagina, Natuza, esse banco começa a operar em 2019 com R$2 bilhões de CDBs que ele coloca, depois ele vai para R$7, depois ele vai para R$15, e depois em 2024 já tem R$40. E o Banco Central enxerga isso? Um banco com R$4 bilhões só de patrimônio, o Banco Central não tem que chegar em cima desse banco, botar toda fiscalização em cima desse banco e justiça seja feita? Isso foi na época do governo Bolsonaro. Ele recebe autorização para operar no governo Bolsonaro. É o Roberto Campos Neto que autoriza. No governo do Temer, ele tenta, porque ele começa a tentar operar desde 2017, e o Banco Central não dá autorização. Ele vai receber essa autorização em 2019 pelo Campos Neto, que depois alega que não chegou até ele. Tudo bem que não tivesse chegado até ele 2020, 2021, mas em 2022 ou 2023, quando esse banco, esse tamburete, como o mercado chama um banco pequeno, já tinha quase uns 30 bilhões de CDBs na praça, isso não era para ter acendido a luz vermelha?

Natuza Nery:Sobre a personalidade de Vorkar, sim, você tem uma leitura apurada de repórter. Ele te pareceu o tipo que delata? Ele te pareceu o tipo espertão? Ele te pareceu que tipo depois do seu contato com ele?

Consuelo Dieguez:Olha, a primeira impressão que dá é que ele é uma pessoa meio boba assim, sabe? Mas aí depois, meio, não sei, é um jeito assim meio deslumbrado, uma certa humildade, sem levantar o tom de voz, sem se movimentar muito, sabe? Voltei a falar com ele na segunda matéria que a gente fez, que saiu acho que em fevereiro ou março de 2023. 5, que era o salvamento, que era para contar como que o movimento político tava agindo para salvar aquele banco, que era estranhíssimo. Você tem ali Ciro Nogueira, você tinha o Ibanez através do BRB querendo salvá-lo, você tinha o Campos Neto, era uma esteia de gente grande querendo salvá-lo, salvar um banco minúsculo num país que o Banco Central já tinha liquidado bumerindos nacional, econômico, com medo de liquidar um banco com patrimônio de 4 bilhões? Aí, enfim, tava aquela confusão se ele ia conseguir vender o Baixa para o BRB e eu ligo pra ele. Era véspera de carnaval, Natuzzi, esse cara, tava organizando festa no camarote da escola de samba, festa pra namorada dele no Parque Lage, alugando Parque Lage pra não sei quantos convidados. Uma pessoa que tá lá com 40 bilhões, quebrado, o Banco Central já descobrindo as fraudes dele, ele falando comigo numa tranquilidade, Natuza. Não era normal uma pessoa não emitir nenhuma coisa, nem um espanto, sabe, nem uma preocupação. Consuelo, eu realmente estou muito preocupado, a gente tem que resolver isso logo. Não, ele dizia assim: Consuelo, tudo tranquilo.

Voz C:Vamos falar agora da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro. Essa prisão trouxe à tona evidências de uma fraude financeira estimada em cerca de R$12 bilhões. A Polícia Federal e o Ministério Público Federal investigam os caminhos desse desvio e apuram a relação entre o Banco Master e o Banco de Brasília, que teriam realizado operações suspeitas na venda de carteiras de crédito. Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. Ele embarcava num jatinho rumo à Ilha de Malta, no Mediterrâneo.

Natuza Nery:Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Consuelo Diegues. Bom, agora eu quero a tua ajuda para olhar para as notícias mais recentes. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de inquéritos relacionados ao assunto. Ele que é relator do caso Master no Supremo. No mesmo dia em que isso aconteceu, a segunda turma manteve os familiares do Daniel Vorcaro presos. Esse é um ponto da questão. O outro ponto é o seguinte: com essa estrutura cada vez mais clara, né, desse emaranhado de Daniel Vorcaro, agora se fala em um novo contorno para a história. E aí o que começou como um caso de crime financeiro, o maior de todos, né, de que se tem registro no Brasil, agora parece apontar para algo ainda mais amplo. Como é que você vê esse momento atual dessa investigação e desse enredo todo?

Consuelo Dieguez:A gente tá vendo nesse país, eu acho que a gente nunca viu. Você imaginar que todos os poderes estão contaminados e que isso começa desde lá de estados e municípios até o Supremo Tribunal Federal e o Banco Central, eu acho absolutamente assustador, porque é um envolvimento, sabe, das maiores figuras do nosso mundo político. Inclusive também do nosso mundo jurídico. Então é muito dramático, eu acho, para o país isso, e muito traumático também depois da gente já vir de uma operação que foi a Lava Jato, que foi muito traumático para o país, você ter um outro escândalo como esse, né?

Natuza Nery:Eu quero falar de um personagem em particular contigo, que é o senador Ciro Nogueira. Quando é que o caminho dele se cruza com o caminho de Daniel Vorcaro? E o que a Polícia Federal descobriu sobre essa relação do ponto de vista financeiro?

Consuelo Dieguez:Natuza, o Ciro Nogueira, ele já tá nessa história desde o começo. E eu começo, a primeira vez que eu trato desse assunto, que é nessa reportagem que a gente faz pela Piauí em 2024, né, chamada Alta Atenção.

Voz A:O presidente do Progressistas foi um dos principais auxiliares do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi ministro da Casa Civil por um ano e meio no governo passado e é uma das principais lideranças do Centrão no Congresso.

Consuelo Dieguez:O Ciro Nogueira já estava ali, ele já estava presente pela força que ele tinha ali. Ele indicou o vice-presidente da Caixa, que indicou ex-diretores do Master. Ou seja, ele já tinha um envolvimento com o Vorkado desde o começo. Só que você não tinha comprovação, né? Você tinha conversas, você tinha pessoas falando, você sabia dessas relações, mas agora Tá evidente a participação dele, inclusive com essas fotos todas que estão sendo mostradas. Ele abraçado com o Vorkaro, quer dizer, o Vorkaro pagando vários hotéis e restaurantes de luxo, mas isso já vem desde lá de trás, Natuza, de estar financiando eventos em Nova York, dos quais ele participava, eventos em Portugal, dos quais ele participava. O Ciro Nogueira tá presente nessa história desde o começo. E ele nega, ele nega, né? Até poucos dias ele disse: "Alguém comprovar algo dessa minha relação com o Volcaro que não seja republicana, eu renuncio." Então não sei como é que vai ficar agora essa promessa dele, porque não tem mais o que comprovar, já tá tudo exposto, né? Esse personagem é um personagem central nessa história, inclusive porque ele ajudou muito no Congresso. Inclusive com aquela emenda master que ele propunha um aumento do socorro para os investidores dos bancos, que é um limite de R$250 mil para o investidor de um banco que quebrar, ele ser ressarcido pelo Fundo Garantidor de Créditos. Ele propôs essa emenda de passar para R$1 milhão.

Voz A:Segundo os autos, o texto da emenda, elaborado pela assessoria do Banco Master, encaminhado por André Lima a Daniel Vulcaro, impresso e entregue em envelope endereçado a Ciro, no endereço residencial do senador, coincidente com aquele constante de seus dados fiscais. Ainda de acordo com a Polícia Federal, o conteúdo da versão entregue é reproduzido de forma integral pelo parlamentar ao Senado, tendo Vôrcaro afirmado logo após a publicação da proposta de emenda que o ato legislativo saiu exatamente como mandei.

Voz D:Numa das mensagens de celular o celular de Vorcaro em 2024. O banqueiro comemora com a namorada a apresentação de uma emenda parlamentar feita pelo senador Ciro Nogueira, que é do Progressistas do Piauí, que segundo o diálogo favoreceria o Banco Master se aprovada. Nas mensagens trocadas em 13 de agosto, Vorcaro diz: Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro. Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes. Está todo mundo louco. Para se ter uma ideia da importância dessa matéria para o grupo, num depoimento à Polícia Federal no final do ano passado, Forcaro chegou a dizer que o modelo de negócio do Master era baseado no FGC. Cerca de 5 meses antes, num diálogo entre Forcaro e a namorada, ela pergunta: Quem é esse outro com você? Não conheço, né? Daniel Vorcaro responde: Ciro Nogueira é um senador muito amigo meu, quero te apresentar, um dos grandes amigos de vida.

Consuelo Dieguez:Se o Vorcaro já tinha colocado 40 bilhões de CDBs na praça com limite de 250 mil no EC, imagina se isso chega a 1 milhão.

Natuza Nery:O que que teria acontecido se a emenda do Ciro tivesse passado?

Consuelo Dieguez:Seriam operações muito maiores. Então esse rombo agora, não é, que chegou a 60 bilhões, com limite de R$250 mil, que o FGC teve que cobrir, imagina o que que não ia acontecer com 1 milhão de reais. Isso ia para, sei lá, 200 bilhões.

Natuza Nery:Isso podia criar um problema sistêmico no sistema financeiro, um problema sistêmico no mercado financeiro, né?

Consuelo Dieguez:Completamente. O FGC, ele tinha um caixa de R$132 bilhões, o caixa dele agora tá em R$70 bilhões. Com a operação de R$250 mil. E agora, se você pensar, teria um problema muito maior que a gente não está falando, que é o BRB. O BRB tem um rombo de R$17 bilhões, que agora foi feito esse acordo com o Supremo para que os bancos socorram, deem a garantia de R$6 bilhões. Senão, FGC ia ter que entrar com mais R$17 bilhões, que é mais uma operação fraudulenta do Master. E aí, com BRB, e com o envolvimento do Ciro Nogueira aí também, porque ele que indicou o presidente do BRB, ele que apresentou, que indicou junto com o Ibanez para o presidente do Paulo Henrique Costa para presidir o BRB.

Natuza Nery:Ou seja, havia uma relação mais do que uma relação de amizade, né? Havia uma relação ali de troca. Isso a própria Polícia Federal deixou bastante evidente no relatório, que na representação, melhor dizendo, que enviou ao Supremo Tribunal Federal, afirmando que o Daniel Vorcaro dava um tratamento privilegiado e diferenciado ao senador Ciro Nogueira, inclusive com pagamento de mais de R$400 mil em viagens internacionais de luxo. Agora, quando você que acompanha essa história desde de lá de trás mede a temperatura das águas, o que dizer sobre outras figuras do Centrão que também são apontadas como tendo algum tipo de relação com o Daniel Borcaros? Que outros personagens da política do Centrão vão acabar aparecendo mais e mais ao longo dessa história?

Voz H:O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não só pelas operações com fundo de pensão Em Macapá, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em uma operação que investiga os crimes de gestão temerária e de gestão fraudulenta na aplicação de recursos do regime de previdência do Amapá. A Amprev aplicou R$400 milhões em letras financeiras do Master, uma operação considerada de alto risco e que não tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos. O diretor-presidente da Amprev, Josildo Silva Lemos, e mais dois conselheiros do Comitê de Investimento foram alvos de buscas na operação. Josildo foi indicado para o cargo pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União. Alcolumbre não foi alvo da operação e, em nota, defendeu a apuração do caso com transparência e respeito ao devido processo legal.

Consuelo Dieguez:E isso para mim, ô Natuzi, isso para mim é uma das coisas mais criminosas. São os fundos de pensão. Você usar os recursos dos aposentados e dos funcionários públicos para fazer uma fraude gigantesca, né? Então, o Columbi já tá envolvido nessa questão do fundo de pensão do Amapá, porque o irmão dele era do conselho lá do fundo, e eles fazem esse investimento no Banco Master, e esse dinheiro já virou pó. Você tem o Antônio Rueda do União Brasil, que também participa disso, principalmente influenciando o governo do Rio. O Rio foi o que mais investiu, 3 bilhões.

Voz A:Um personagem que se enredou ainda mais na teia do Master, Cláudio Castro. A operação joga a luz sobre a proximidade do ex-governador do Rio com Daniel Porcaro. Segundo a PF, ele operou politicamente a favor do dono do Master, viabilizando transferências suspeitas da Rio Previdência que superam R$3,5 bilhões. Também chama a atenção a quantidade de alertas sobre esses investimentos. Desde 2024, diferentes instituições do Rio de Janeiro apontavam para o risco de colocar dinheiro dos aposentados no master.

Consuelo Dieguez:O Arthur Lira já tava envolvido nessa história da Câmara também, pela indicação do presidente da Caixa. E na época, Caixa Caixa queria fazer operações com Master, e foi a primeira denúncia grande que saiu, que os 3 gerentes da Caixa não concordaram em aplicar 500 milhões da Caixa nos fundos do Master, e eles foram afastados das suas funções. E nessa época quem comandava a Caixa era o Arthur Lira e o Ciro Nogueira, que tinham comando ali sobre o presidente, vice-presidente da Caixa. Então você vê que isso já vem desde 2024, esse envolvimento desses políticos todos. Agora você tem mais ainda o presidente da Câmara, Hugo Mota, envolvido. Onde vai parar isso?

Voz C:Nessa viagem a Lisboa, além do senador Ciro Nogueira, também estaria o deputado Hugo Mota, presidente da Câmara.

Voz G:As investigações mostraram que Daniel Vorgaro pagou diárias em um hotel de luxo em Lisboa para o deputado Hugo Mota, do Republicanos, e para o senador Ciro Nogueira, presidente do Progressistas. Hugo Mota confirmou à TV Globo que viajou em 2024 no jato do banqueiro Daniel Vorcaro a convite do senador Ciro Nogueira.

Voz F:Essa viagem foi em 2024, foram 5 diárias no hotel de luxo. O custo estimado, segundo a PF, foi de mais de R$91 mil para cada um, Ciro e Mota. A polícia teve acesso a um áudio enviado por Vorcaro a um funcionário pedindo cuidado com exposição dos políticos no evento que ele promovia. Forcaro diz: "Leo, preciso muito que você dê atenção na questão da segurança. A cidade está lotada. Tem que ter certeza o lugar em frente ao restaurante também esteja privatizado, porque senão dá para ver tudo lá dentro." E fala ainda: "Pode ser o Papa, não pode entrar ninguém que não esteja na lista." Consuelo, do ponto de vista do que a gente tende a observar a partir de agora, você acha que a gente tá em que momento dessa história?

Natuza Nery:Eu te pergunto isso porque há diferentes avaliações sobre o destino desse escândalo. Você já relatou aqui o seu espanto com ele, da quantidade de teias e emaranhados do caso master, mas a gente sabe que tem uma delação que não emplacou com a PF, não emplacou com a Procuradoria-Geral da República. Daniel Vaccaro claramente não está a fim de colaborar. E a minha suspeita é de que ele não esteja a fim de colaborar porque ele está esperando ser salvo. Quais são as chances que você enxerga disso acontecer? De Daniel Vaccaro ser salvo e não expor aquilo que a PF não sabe? A PF já descobriu muita coisa. Mas há muito ainda por ser descoberto.

Consuelo Dieguez:Certamente, né? Porque assim, para ele fazer uma boa delação, ele realmente teria que entregar muito mais, porque o que a PF tem em mãos é o que a gente está vendo, já é suficiente para ele ser preso e ficar muitos anos na prisão. Que eu acho, outro dia conversando com o procurador, eu não sei, tá, Natuza? Eu tô te dando a impressão que esse procurador me deu, que o Volcaro, ele realmente está brincando de delação, talvez esperando pelas eleições, contando, não sei, com a vitória do Flávio Bolsonaro, que recebeu 140 milhões dele para fazer o tal filme sobre o pai. Então não sei se ele tá contando com isso. O que esse procurador me chamou atenção também foi que na Lava Jato muita gente delatou, e o resultado foi que todas as pessoas delatadas elas foram perdoadas no final. E quem acabou ficando mal na história foram os delatores. Então, até que ponto também as pessoas não estão querendo delatar? Pra que eu vou delatar se depois vão perdoar as outras pessoas e eu que sou o delator é que vou ficar como culpado nessa história? E também, até que ponto o Borcaro também não tem medo? Porque muita gente grande envolvida. A gente não sabe também se ele recebeu alguma ameaça, alguma coisa pra ele ficar calado. Eu acho que tem várias pontas aí que a gente ainda não sabe. Que essa história do sicário, né, que se matou na prisão já é estranha. Eu acho uma coisa tão escandalosa, é tão criminosa e envolve tanta gente do topo da República que eu não sei até que ponto ele também não tá com medo. Se é melhor ele não ficar quieto, também não sei.

Natuza Nery:Consuelo, muito obrigada por ter contado essas histórias todas pra gente. Foi muito bom te ouvir aqui no Assunto, volte sempre, por favor.

Consuelo Dieguez:Obrigada, adorei a conversa também, Natuza.

Natuza Nery:Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuza Nery, fico por aqui. Até o próximo assunto.