Eduardo Bolsonaro condenado por coação de Justiça
- PGR pede condenação de Eduardo BolsonaroCoação no curso do processo · Supremo Tribunal Federal · Alexandre de Moraes · Lei Magnitsky · Sanções americanas ao Brasil · Inelegibilidade
- Ações de Eduardo Bolsonaro nos EUARelações com governo Trump · Jason Miller · Steve Bannon · Mar-a-Lago · Lobby contra o Brasil
- Impacto político das condenaçõesPlano eleitoral da família Bolsonaro · Flávio Bolsonaro · Jair Bolsonaro · Eleições presidenciais · Resistência do bolsonarismo
- ONG ligada a produtora de Dark Horse· SociedadeDaniel Vorcaro · Banco Master · Produção de filme · Investigação judicial · Mário Frias
- Análise da influência de advogados e a anulação de condenaçõesImpacto na candidatura de Flávio Bolsonaro · Pesquisas eleitorais · Eleitorado de direita
Eduardo Bolsonaro:Com todo respeito aos demais parlamentares, não é um deputado federal do Brasil que tá chegando, é o Eduardo, né? O Eduardo que participou do CIPEC, é o Eduardo que já foi não sei quantas vezes lá no Mar-a-Lago, que já jantou umas 3 vezes com Trump, é o Eduardo que, poxa, que conhece o Jason Miller, que fala com o Steve Bannon. Então a gente chega aqui com uma credencial de relacionamento pessoal, e isso de fato só eu consigo fazer.
Natuza Nery:Esse Eduardo Bolsonaro, deputado federal cassado em março de 2025, Naquela época, o Supremo Tribunal Federal julgava se aceitaria a denúncia contra Jair Bolsonaro no caso da tentativa de golpe. No mês anterior, em fevereiro de 2025, o filho 03 do ex-presidente foi aos Estados Unidos em busca de ajuda do governo americano para livrar o pai. Mas não adiantou. Dias depois, o STF colocou o capitão reformado no banco dos réus.
Eduardo Bolsonaro:Além do ex-presidente, Mais 33 pessoas foram denunciadas por crimes como golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa.
Natuza Nery:Eduardo e seu aliado de primeira hora, Paulo Figueiredo, já circulavam pelos corredores de Washington desde a posse de Trump. Um parênteses: Paulo Figueiredo é neto de João Figueiredo, o último presidente dos anos da ditadura militar no Brasil. A dupla virou habitué da Casa Branca. Sempre tirando fotos ao lado de integrantes do alto escalão do governo Trump.
Eduardo Bolsonaro:Correspondente Raquel Cramboa encontrou o deputado licenciado do PL Eduardo Bolsonaro perto da Casa Branca em Washington. Eduardo disse que tava lá a convite de autoridades americanas para uma atualização sobre as reações no Brasil às tarifas. O que vai ser ninguém sabe, porque agora está tudo dependendo, tudo está na mão do Trump, né? Ele puxou para si esse problema.
Natuza Nery:Até que em julho do mesmo ano veio o primeiro resultado.
Eduardo Bolsonaro:O presidente americano Donald Trump deu início a uma fase sombria nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil.
Vera Magalhães:Do nada, Donald Trump deu ao Brasil o pior tratamento entre todos os países atingidos pela guerra comercial que ele deflagrou: 50% sobre todas as nossas exportações para os americanos. Algumas horas depois, publicou nas redes sociais a carta que enviou ao presidente Lula.
Natuza Nery:A carta começou: A maneira como o Brasil tratou o ex-presidente Jair Bolsonaro é uma desgraça internacional.
Eduardo Bolsonaro:Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou que está sancionando, punindo o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O governo americano se baseou na Lei Magnitsky, que é usada para punir estrangeiros.
Natuza Nery:Eis que Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais reivindicar o feito e prometeu dizendo que ainda havia muito mais por vir. Paulo Figueiredo foi na mesma linha e disse assim textualmente: "Não há um cenário onde vocês saiam vitoriosos nessa história". Os dois nunca esconderam que o objetivo era pressionar as decisões da Justiça brasileira.
Eduardo Bolsonaro:O Trump não vai recuar diante do Alexandre de Moraes. Se houver o cenário de terra arrasada, pelo menos eu estarei vingado desses ditadores de toga.
Natuza Nery:E segundo a Procuradoria-Geral da República, isso tem um nome: coação no curso do processo, ou seja, quando se utiliza uma grave ameaça para favorecer o interesse de um denunciado. A Procuradoria-Geral da República pediu a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro por crime de coação no curso do processo. Segundo a PGR, as condutas criminosas ocorreram quando Eduardo Bolsonaro atuou para que os Estados Unidos impusessem sanções contra ministros do Supremo e contra o governo brasileiro. Tempos depois de acatar a denúncia da PGR, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu. Eduardo Bolsonaro foi condenado por 4 votos a 0.
Eduardo Bolsonaro:Eduardo Bolsonaro foi condenado a 4 anos e 2 meses de prisão em regime semiaberto. Também vai ficar inelegível até 2038 e perder o cargo de escrivão da Polícia Federal. A defesa ainda pode recorrer.
Natuza Nery:Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: Eduardo Bolsonaro condenado por coação à justiça. Neste episódio, eu converso com Vera Magalhães, colunista do jornal O Globo e âncora e comentarista da rádio CBN. Quarta-feira, 17 de junho. Vera, como esse processo do Eduardo Bolsonaro começa? Conta um pouco para gente, bem antes da denúncia da Procuradoria-Geral da República por coação no curso do processo da trama golpista.
Vera Magalhães:Vamos fazer então uma linha do tempo aqui, Natuza. O Eduardo Bolsonaro se muda para os Estados Unidos em fevereiro de 2025. Em março de 2025, ele pede licença do mandato ali, né, por uma licença temporária, e assume que vai ficar um tempo nos Estados Unidos. E aí passa a deliberadamente, a partir de lá, a fazer várias declarações mesmo contra o Judiciário brasileiro, mesmo contra o Legislativo. Em muitas dessas publicações ou em vídeos, ele atacava inclusive o presidente da casa a qual ele até então era filiado, a Câmara, né? Então ele fez ataques também ao presidente Hugo Motta e falava em tom de ameaça nesses vídeos, nessas postagens, que o Brasil poderia sofrer consequências por parte do governo americano caso Jair Bolsonaro e os outros réus da trama golpista fossem condenados. E ele vai num crescendo nessas ameaças e um pouco antes do início do julgamento se efetivam as punições, né, tanto pela lei magra, outro ministro Alexandre de Moraes e outros, quanto a supressão de vistos de autoridades brasileiras. Então, a primeira acusação contra ele na Polícia Federal, que depois vira uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República, se dá por acusação de coação no bojo da ação penal da trama golpista para tentar coagir as autoridades brasileiras fazendo ameaças a elas para que não condenassem o Bolsonaro e os demais integrantes ali da trama golpista, né? Acusação do procurador Paulo Gonê, a denúncia, e ele apresenta essas três provas da materialidade da coação: a sanção pela Lei Banca e a supressão de vistos, e também o tarifácio. Essas são as evidências materiais de que houve realmente uma ação efetiva do então deputado Eduardo Bolsonaro para agir autoridades e para provocar prejuízos políticos e econômicos ao Estado brasileiro.
Eduardo Bolsonaro:Em que pese, mesmo que não licenciado estivesse, é a necessidade É dos atos praticados terem relação com o exercício do mandato. Não é função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio país. Isso não consta desde a Constituição do Império até a atual, não consta como função de deputado federal.
Natuza Nery:Quando a gente toma conhecimento, né, quando o país toma conhecimento de que ele não estava mais no Brasil, de que ele havia se transferido para os Estados Unidos, ele disse sente que estava sendo perseguido. Havia algo nesse sentido para justificar a mudança de Eduardo Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos?
Vera Magalhães:Até então ele não era investigado na trama golpista, então não havia nada em relação a ele naquele processo que nem de longe indicasse uma necessidade de fazer isso por alguma razão. A decisão sempre foi política, a meu ver, e ela fica evidenciada quando ele passa a contestar em várias ocasiões que estava trabalhando ativamente por sanções contra o governo brasileiro, contra o judiciário brasileiro e outras autoridades. Ele e o Paulo Figueiredo, que também é réu nesse processo, mas não tá, não foi julgado hoje, para eles a autoria dessas sanções e o acesso a autoridades do governo Donald Trump que poderia levar aquelas se concretizassem. Comemoraram quando elas vieram, disseram em tom ali: "Nossa, nós dissemos que isso ia acontecer e pode piorar." A alegação do ex-deputado agora, na reta final do processo, é que não há nenhuma materialidade, que não há nenhum crime provado contra ele, porque não teriam sido ameaças, teriam sido apenas alertas. Enfim, tem uma série de alegações, mas uma delas é a de que ele sofreu violações de direitos humanos e de que não há materialidade nas acusações contra ele. Mas as várias postagens, os vários vídeos que inclusive foram exibidos pelo ministro relator Alexandre de Moraes no julgamento, elas falam no sentido contrário, elas mostram ações deliberadas e reiteradas por parte do Eduardo Bolsonaro e também do Paulo Figueiredo no sentido de obter essas sanções.
Eduardo Bolsonaro:Eduardo Bolsonaro vinculava a cessação da aplicação de sanções ao livramento do seu pai, Jair Messias Bolsonaro. Nesse vídeo, ele vincula a cessação da aplicação de sanções ao livramento de seu pai. Podem colocar, por favor. Se Bolsonaro for condenado, eu acho capaz demais que o Trump, por exemplo, se ele receber essa notícia no meio dessa coletiva de imprensa, de entrar no Salão Oval e começar a tomar medidas. E aí, aí sim não vai ter mais volta. Aí as autoridades brasileiras vão querer uma segunda chance e vão pouco se importar com o seu, com a sua foto que vai sair no jornal. Com, ah não, isso demonstração de fraqueza, porque visto você consegue reverter do dia para noite. Lei Magnitsky não.
Natuza Nery:E como é que foi a atuação de Eduardo Bolsonaro ao longo da tramitação dessa ação? Eu te pergunto isso porque no mês passado ele faltou ao interrogatório no STF no âmbito dessa ação penal sobre a qual falamos, e ele também não indicou um advogado. Como é que foi vista a conduta dele ao longo desse tempo.
Vera Magalhães:Ele tá sendo julgado, digamos assim, à revelia, de certa maneira, porque não houve nenhuma citação stricto sensu a ele, porque ele se evadiu do país, como a gente falou, evitou receber qualquer tipo de citação, como você disse, não indicou um advogado e tá sendo representado pela Defensoria Pública da União, e a sua citação se deu por edital, que é alguma outra reclamação que ele faz e que a Defensoria também encampou, dizendo que ele deveria ter sido citado por um instrumento de direito internacional que se chama carta rogatória.
Eduardo Bolsonaro:O defensor público Esdras dos Santos Carvalho pediu a anulação do processo. Disse que Eduardo Bolsonaro estava em endereço conhecido nos Estados Unidos e não deveria ser citado por edital. Pediu a absolvição do réu, alegando que ele não tinha poder nos Estados Unidos para coagir autoridades do Brasil. O que se tinha, e obviamente ficou muito bem claro nos seus vídeos, nas suas exposições, era essa facilidade de interlocuções e demonstrar o seu descontentamento com a política então produzida no Brasil. Mas essa interlocução política, por si só, ao nosso sentir, não configura A grave ameaça.
Vera Magalhães:Mas segundo Eduardo Bolsonaro, ele falou isso no curso do processo, isso não foi feito deliberadamente pelo Supremo porque eles temiam levar uma outra bronca, um outro sermão, foi a palavra que ele usou, do Departamento de Justiça norte-americano, porque teria que tramitar via Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Então em todo momento ele procurou não reconhecer ser a legitimidade do julgamento, dizer que é um julgamento político, que ele se dá fora do que prevê o Código Penal, Código de Processo Penal, e levar o governo dos Estados Unidos de alguma maneira para dentro do processo. Então ele cita o governo Trump a todo momento como para obter uma espécie de aval dos Estados Unidos e para que o governo americano chancele a ideia de que ele, assim como seu pai, é vítima de um julgamento político, de um julgamento por um juiz ilegítimo. Tanto ele quanto a Defensoria Pública da União colocam isso, a questão do impedimento do ministro Alexandre de Moraes nesse processo e a inexistência tanto de uma materialidade de conduta quanto de provas de que ele tentou de alguma maneira coagir autoridades no processo da turma golpista.
Natuza Nery:Agora, tem um ponto importante nessa história, é que Eduardo Bolsonaro é condenado pela mesma turma que condenou o pai dele, Jair Bolsonaro. Mas você citava que ele fez o tempo inteiro gestos para não reconhecer a legitimidade, né, do colegiado. Mas Jair Bolsonaro não fez isso, né? Ele foi na contramão. Ele não só reconheceu a legitimidade, porque foi, prestou depoimento, chegou a dizer lá no caso da trama golpista, do processo da trama golpista, chegou a brincar convidando Alexandre de Moraes para ser vice dele. Você vai se lembrar desse momento curioso, né, da crônica política.
Eduardo Bolsonaro:Se ele permitir, logicamente, eu posso mandar umas imagens para o senhor aqui, como é que o povo nos trata a gente na rua, tá? Eu declino. Declino?
Vera Magalhães:Sim, senhor.
Eduardo Bolsonaro:Posso fazer uma brincadeira? Eu perguntaria aos seus advogados antes. Eu gostaria de convidá-la para ser meu vice em 26. É isso aí. Eu declino novamente.
Natuza Nery:Agora, Eduardo Bolsonaro, uma vez condenado, o que que acontece a partir de agora?
Vera Magalhães:Ele tem uma condenação por uma corte colegiada, que é a primeira turma do Supremo Tribunal Federal. Então isso o torna inelegível pela lei da ficha limpa. Ele já tinha tido seu mandato cassado de deputado federal em dezembro do ano passado, mas essa cassação se deu por faltas. E uma cassação por faltas não o tornava inelegível. Ela, em nenhum momento, a cassação previu a inelegibilidade, que vem agora.
Natuza Nery:E ele foi cassado por faltas porque ele se evadiu para os Estados Unidos e deixou de comparecer ao trabalho.
Vera Magalhães:Isso, ele chegou a reivindicar que pudesse, a partir dos Estados Unidos, registrar presença, participar remotamente das sessões. Isso não foi aceito pela Câmara, considerou que não havia amparo no regimento para esse regime de trabalho de zero por zero que ele tava propondo lá a partir de outro país, né? A Constituição diz que deputados e senadores não podem faltar a um terço das sessões durante um ano. No caso de Eduardo, por exemplo, filho zero três de Bolsonaro, ele faltou a 63 de 78 sessões, mais de 80%. Ele tentou driblar as regras da Câmara, chegou a pedir uma licença do mandato e depois tentou virar o líder da minoria, mas o Gumota não permitiu essa estratégia e disse que é impossível alguém ser deputado fora do país. Então agora ele fica inelegível e isso acaba de vez com o plano eleitoral que a família Bolsonaro tinha traçado para ele, né? Ele era o primeiro colocado na fila para ser o sucessor do pai numa campanha presidencial. A ida para os Estados Unidos o tirou do páreo e colocou Flávio Bolsonaro na sua frente. Ele também era citado como um forte candidato ao Senado e seria mesmo, ele tinha sido deputado federal muito votado por São Paulo e é de imaginar que ele tivesse uma campanha muito forte para o Senado, se no Brasil estivesse, mas não está. E a última tentativa que havia era que ele fosse suplente de senador na chapa do André do Prado aqui em São Paulo também. A inelegibilidade agora o tira também dessa última trincheira. E as últimas manifestações todas dele têm sido no sentido de que o julgamento é político, para que ele saia do páreo e para que o bolsonarismo não eleja uma bancada forte de senadores que faria com que avançassem, por exemplo, processos de impeachment contra ministros do Supremo, entre eles o ministro Alexandre de Moraes.
Eduardo Bolsonaro:Eduardo Bolsonaro divulgou uma nota, afirmou que tem endereço conhecido nos Estados Unidos, que deveria ter sido notificado por carta rogatória. Disse que o devido processo legal não foi cumprido e que por isso a sentença é nula. Afirmou também que o objetivo do julgamento seria tirá-lo das eleições.
Natuza Nery:Espera um pouquinho que eu já volto para falar com a Vera. Quando o Tarifaço chegou ao Brasil foi anunciado pelo governo Trump, o Eduardo Bolsonaro, você já mencionou isso, falava com orgulho do feito que tinha construído. E naquele momento, muita gente, eu me lembro de você dizer que Eduardo Bolsonaro corria um risco de estar ali dando o seu atestado de culpa nessa história. Do ponto de vista jurídico, o destino dele está traçado porque foi condenado. Você já falou do ponto de vista eleitoral, ele tá fora do radar das eleições, não pode se candidatar. O que o futuro reserva para Eduardo Bolsonaro no contexto da própria família?
Vera Magalhães:Eu acho que tudo isso depende do resultado das eleições de outubro, Natuza, porque uma vez que Flávio Bolsonaro seja eleito presidente, se for, eles vão fazer de tudo para obter indulto para o Jair Bolsonaro E também alguma forma de perdão judicial pro Eduardo Bolsonaro. Aí a tendência que eles tentem, e aí tem várias possibilidades, uma anistia via Congresso ou um indulto via Presidência da República, cessar toda e qualquer punição contra a família sob essa alegação de que houve um processo viciado, de que houve uma perseguição política reiterada e deliberada, etc. Se isso prosperar, e veja, vai ser um caminho longo e uma batalha jurídica e judicial encarniçada, aí ele voltaria com o manto de herói, com a ideia de que foi por sacrifício em nome do pai, toda essa narrativa que tá se tentando vender desde sempre. Mas eu me pergunto, será que vai ter clima no país para que tudo pare, para que se reverta a situação judicial da família Bolsonaro? Será que investidores, empresários do agronegócio, empresários do setor produtivo, que de alguma maneira têm simpatia pela candidatura de Flávio Bolsonaro, enxergam nessa trincheira jurídica, de novo, encarniçada e demorada, aquele ideal de estabilidade política e institucional para o país? Então eu acho que isso não é unânime nem entre os apoiadores do Flávio. A gente tem uma clara distinção de perfis ou de perfis buscados pelos dois irmãos. Enquanto Eduardo aposta na radicalização e vai para o tudo ou nada contra a justiça brasileira, o irmão dele vem tentando se mostrar mais moderado que o pai, que os irmãos. E isso não cola inteiramente. A gente viu a pesquisa Quest na semana passada que mostrou que essa ideia, segundo a qual Flávio Bolsonaro é mais moderado que a sua família, não chega ao coração e à mente dos eleitores. Então tudo isso vai tema da campanha. Tudo isso certamente vai estar presente em debates e nas análises da imprensa ao longo dos próximos meses, mas o fato é que o Eduardo Bolsonaro desde sempre decidiu ser aquele que vai para o tudo ou nada e que faz o enfrentamento político ao Supremo Tribunal Federal a partir dessa trincheira dos Estados Unidos.
Natuza Nery:E você acha que essa condenação de Eduardo Bolsonaro tem impacto na candidatura de Flávio Bolsonaro? Se sim, qual impacto seria esse? Vera?
Vera Magalhães:Eu acho que isso vai ter de ser medido em pesquisas, mas o fato é que o que a gente tem visto ao longo de anos já, não só meses, é que dificilmente fatos de grande gravidade têm um forte impacto sobre a família Bolsonaro. A gente já viu o 8 de janeiro sem que isso tivesse um grande impacto sobre a popularidade do Jair Bolsonaro. A gente viu a condenação do próprio ex-presidente, uma condenação que é inédita na democracia brasileira de um ex-presidente por tentativa de golpe de Estado. E isso também não o fez uma carta fora do baralho da política. Ele indicou, a partir da prisão, o seu filho como seu sucessor, e rapidamente ele virou segundo colocado e depois chegou a empatar com o Lula no segundo turno. Agora é que a distância abriu um pouco, mas isso pode ainda voltar a emparelhar ao longo da campanha. Então essa força do bolsonarismo parece resistente a todo e qualquer revés político, jurídico e judicial que a família enfrente. Parece haver um eleitorado, aquele mais ali fechado com o bolsonarismo, mas também um eleitorado de direita não bolsonarista que está disposto a fechar os olhos para toda e qualquer condenação ou todo e qualquer fato que seja negativo para a família, caso Master, filme Dark Horse, novo Tarifaço contra o Brasil, parece que tudo isso passa ao largo e prevalece a ideia de que ele é o candidato mais viável para vencer o Lula e que para uma parcela do eleitorado isso é o mais importante e o resto é um preço a se pagar por isso. Então, até aqui não houve um abalo consistente capaz, por exemplo, de fazer surgir um outro nome a direita para rivalizar com o Lula.
Natuza Nery:De uma forma direta ou indireta, essa condenação por coação no curso do processo, ela faz com que a justiça afirme que Eduardo Bolsonaro foi responsável por articular e conseguir um tarifácio e outras medidas contra o Brasil e contra autoridades brasileiras. De alguma maneira, essa condenação reforça a ligação de Flávio com esse segundo tarifaço? Eu falo, eu chamo de ligação a percepção de parte do eleitorado brasileiro de que esse segundo tarifaço é resultado do primeiro tarifaço, que é resultado de um esforço de Eduardo Bolsonaro, portanto da família Bolsonaro, de uma vez prejudicando o Brasil, provocar uma reversão no resultado de um julgamento contra o pai.
Vera Magalhães:De novo, acho que a gente vai ter que esperar a próxima rodada de pesquisas se houver uma pergunta específica a esse respeito. A gente viu na última quest, um questionário muito, muito, muito detalhado, que desceu às minúcias dessas questões que você tá levantando, sem esse encadeamento talvez total, mas pegando os fatos mais recentes. E o que essa pesquisa mostrou é que o eleitorado sim atribui ao Flávio Bolsonaro e a visita que ele fez à Casa Branca o novo tarifácio e também a decisão do governo americano de classificar as organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas e que isso não foi bom para ele. Mesmo essa classificação de terrorismo, sobre a qual aí sim ele se vangloriava, não foi recebida com apreço pela maioria do eleitorado. O eleitorado se divide e a maioria acha que sim, é correto classificar esses grupos, essas facções como terroristas, mas desde que essa classificação parta do governo brasileiro e não de um outro governo e não como uma intromissão na soberania brasileira. Então foram dois tiros, foi o mesmo tiro, mas que saiu duplamente pela culatra. Assim como o caso Master também respingou no Flávio Bolsonaro e o estrago se mostrou nos números. Acontece que isso parece ter um piso, não é que ele despenque, não é que ele se inviabilize, não é que ele derreta. Ele tem ali um abalo que pode ser momentâneo e que não é muito grave, é um um pouco mais que uma oscilação, uma queda, mas para um patamar ainda muito competitivo. Então a gente não sabe se mais essa notícia vai criar uma ideia de: é, realmente essa candidatura parte de um princípio muito ruim, essa candidatura tende a se inviabilizar, e aí isso vai fazer com que haja uma erosão do apoio ao Flávio Bolsonaro. Até aqui isso não é verdade, até aqui isso não se realizou.
Natuza Nery:Em termos do que, o que dói em um irmão dói no outro. O caso Dark Horse é um exemplo disso, né? O Tarifaço, se o Tarifaço é um exemplo disso, porque no caso de um vem a condenação, no caso de outro vem uma associação de causa e efeito, no caso de Flávio, no Dark Horse também, né? Porque não se sabe ainda, não se é esclarecido para onde foi o dinheiro. E o dinheiro foi para um fundo administrado por um advogado do próprio Eduardo Bolsonaro, né?
Vera Magalhães:É, existe a hipótese que vai ser investigada, porque vai ter uma investigação específica sobre isso, de que esses recursos iriam para, em parte, para custear a vida do Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que reportagens e até a realidade, né, dos deslocamentos dele mostram que não é uma vida barata. Uma vez que ele perdeu seus proventos como deputado federal e também não pôde reassumir, entre aspas, o seu cargo na Polícia Federal, porque também foi administrativamente punido e afastado do cargo de escrivão da Polícia Federal. Então ele tem uma vida custeada de alguma maneira. É uma hipótese que vai ser investigada, é se esses recursos do Banco Master, portanto do Daniel Vorcaro, foram destinados também a bancar a vida de Eduardo Bolsonaro no exterior.
Eduardo Bolsonaro:O documento é datado de novembro de 2023 e foi assinado por Eduardo Bolsonaro em janeiro do ano seguinte. Nele, a Go Up, empresa com sede nos Estados Unidos, é apontada como produtora do filme, que inicialmente se chamaria O Capitão do Povo. O ex-deputado aparece como produtor executivo, ao lado do deputado federal Mário Frias, do PL, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro. Studio, com poderes sobre a definição de orçamento, gestão financeira e estratégias de financiamento. O ex-deputado, que teve o mandato cassado, afirmou ter deixado a posição de produtor executivo quando o dinheiro do filme passou a ser direcionado para o fundo administrado pelo advogado dele. A essa época, o meu contrato era com a produtora, que basicamente disse o seguinte: Eduardo, bota esse dinheiro aqui, como o risco tá 100% seu, eu vou te de você ser diretor executivo do filme. Quando essa estrutura passou a ser uma estrutura de fundo de investimento, começou a ter outra estrutura, eu saí dessa posição de diretor executivo.
Natuza Nery:E essa investigação, para a gente finalizar, está com que juiz hoje?
Vera Magalhães:Tá com o ministro Flávio Dino, em parte, né, porque ele tem uma investigação lá sobre o uso de emendas, produção do filme Dark Horse, e tem uma parte que vai também estar na investigação do caso Master. A gente não sabe de que maneira. Ministro André Mendonça, que é o relator dessa outra parte, ainda não se manifestou. E tem também uma iniciativa do próprio Alexandre de Moraes de levar para o bojo do inquérito das fake news uma parte dessa investigação. Então tá mais ou menos pulverizado dentro do Supremo Tribunal Federal E tem até uma expectativa que o ministro Fachin, o presidente do Supremo, direcione, indique como vai ser investigada essa questão do filme Dark Horse dentro do STF, por essa, digamos, concorrência de ministros em várias frentes de investigação.
Natuza Nery:Vera, minha amiga, muito obrigada. Tudo fica realmente muito mais claro quando você explica. Bom trabalho para você.
Vera Magalhães:E para você também, Natuza.
Natuza Nery:Obrigada pelo convite, sempre uma honra participar do Este episódio usou áudios da CNN e do canal Cláudio Dantas. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaneri, fico por aqui. Até o próximo assunto.