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O acordo de paz entre EUA e Irã: agora é pra valer?

16 de junho de 202627min
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Convidado: Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM. Nesta segunda-feira (15), EUA e Irã assinaram eletronicamente o documento que estabelece as condições para um acordo de paz definitivo entre as partes – do lado americano, assinaram o presidente Donald Trump e o vice J.D. Vance; do lado iraniano, o responsável foi o presidente do Parlamento, Mohammed Qalibaf. O conteúdo do documento será apresentado na íntegra apenas na sexta-feira (19), para quando está marcada a cerimônia de assinatura presencial. O que se sabe do acordo é que ele prevê a reabertura imediata do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio marítimo dos EUA ao Irã, garantias do regime dos aiatolás de que não desenvolverá armas nucleares e desbloqueio de ativos financeiros iranianos. Neste episódio, Natuza Nery entrevista o professor de relações internacional Leonardo Trevisan. Ele avalia a chance de sucesso deste acordo e analisa quem mais ganha e quem mais perde nesta nova fase de negociações.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
B

Benjamin Netanyahu

ConvidadoPrimeiro-ministro de Israel
L

Leonardo Trevisan

ConvidadoProfessor de Relações Internacionais
Assuntos7
  • Relação Trump-Netanyahu e Conflito Israel-HezbollahSobrevivência política · Guerra eleitoral em Israel · Controle sobre o Hezbollah
  • Negociações de PazAssinatura digital do memorando de entendimento · Donald Trump · J.D. Vance · Mohammed Qalibaf · Cerimônia de assinatura presencial · Reabertura do Estreito de Ormuz · Fim do bloqueio marítimo dos EUA ao Irã · Garantias do Irã sobre armas nucleares
  • Conflito Israel-LíbanoBenjamin Netanyahu · Hezbollah · Grande Israel · Sul do Líbano · Bombardeio em Beirute
  • Exigências americanas e o plano de TrumpEncerramento do programa nuclear iraniano · Fim do regime iraniano · Diminuição do poder dos mísseis iranianos · Joe Kent · Pressão de Israel e lobby nos EUA
  • Conflito Israel-Hezbollah no LíbanoEquação Líbano engole equação Irã · Mortos na guerra do Líbano vs. Irã · Potencialidade do estrago no Líbano
  • Sistema internacional e geopolíticaPapel da China · Países árabes moderados · Xi Jinping · Mohammed Bin Salman · Mudança no xadrez geopolítico
  • Impacto nos mercadosIbovespa · Dólar · Preços de commodities · Petróleo · Inflação
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Natuza Nery:A semana começa com muita expectativa no mundo inteiro pela implementação do acordo entre Irã e Estados Unidos para acabar com a guerra no Oriente Médio. A gente já ouviu essa história de acordo antes. Será que dessa vez pode ser diferente? Vamos então aos sinais. Mediados pelo Paquistão, os Estados Unidos e o Irã dizem ter chegado a pontos comuns para uma pausa mais duradoura nessa guerra.

Voz B:O primeiro-ministro paquistanês escreveu: ambos os lados declararam o encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, inclusive no Líbano.

Voz C:Os Estados Unidos e o Irã assinaram um memorando de entendimento.

Leonardo Trevisan:Foi uma assinatura digital. Participou o vice-presidente norte-americano, J.D. Vance, e o presidente do parlamento do Irã, Mohammad Ghalibaf.

Voz B:Comunicado de Shehbaz Sharif afirmou que a cerimônia oficial de assinatura do acordo vai ser na próxima sexta-feira na Suíça e que os mediadores vão ter uma série de reuniões nesta semana.

Natuza Nery:As partes concordaram em dar uma pausa de 60 dias nas hostilidades para negociar um fim de fato no conflito.

Voz B:A Casa Branca disse que o acordo foi uma vitória do presidente Donald Trump, enquanto o Irã apresentou como uma vitória para o regime. Trump queria fazer o anúncio no dia do aniversário dele neste domingo, mas o Irã esperou o dia virar por lá para enfraquecer essa narrativa.

Natuza Nery:Mas apesar dos sinais, é bom que se diga, Irã Irã e Estados Unidos têm exigências e versões diferentes para esse acordo. Os iranianos querem que as sanções contra o país sejam encerradas, que seus ativos bilionários sejam desbloqueados e que as tarifas comerciais voltem ao patamar pré-conflito. Já os americanos solicitam a abertura imediata do Estreito de Hormuz. Um esforço de Trump para resolver o problema que vem derrubando a sua popularidade interna.

Voz C:Nos Estados Unidos, os preços ao consumidor avançaram mais uma vez. Subiram para quase 4%, nível mais alto em 3 anos. A meta de inflação por lá, vamos lembrar, é de 2%. Foram impulsionados pela elevação nos custos de alimentos e energia, principalmente gasolina, com impacto direto nas expectativas em relação aos juros.

Natuza Nery:Trump exige também uma velha pauta: que o regime dos aiatolás se comprometa a não desenvolver nenhum tipo de arma nuclear. E esse é um ponto particularmente importante para Trump. Ele precisa vender a versão de que esse seu acordo, o de agora, é melhor do que aquele firmado por Barack Obama com o mesmo Irã no ano de 2015.

Voz C:Houve no passado um acordo nuclear em que o Irã concordava em restringir o enriquecimento de urânio um pouco abaixo de 4%. Isso é muito próximo, por exemplo, ao que o Brasil faz. O Brasil enriquece urânio em Resende a 5% para gerar combustível para energia nuclear, para usinas nucleares. A proposta do governo Trump, no seu primeiro mandato, na década passada, é que mesmo esses 4% eram demais.

Natuza Nery:O conteúdo do documento vai ser apresentado na íntegra somente na sexta-feira, quando os líderes de Irã e Estados Unidos devem se encontrar para assinatura. E como quem se agarra a qualquer pedaço de boa notícia, o mercado já reage bem à nova fase de negociações.

Voz E:No Brasil, a gente percebe então o mercado mais otimista diante dessa expectativa. O Ibovespa, que é o principal índice da Bolsa de Valores, subindo 0,7%. Mas o índice chegou a passar de 1% de alta e o dólar também operando praticamente estável. O que os analistas projetam é que com essa expectativa da assinatura de acordo, a gente tem um impacto em relação aos preços de commodities que foram muito afetadas entre altos e baixos desde o início desse conflito no Oriente Médio. Estou falando, por exemplo, de petróleo. O barril, ele tinha uma queda de quase 5% cotado a quase $84, mas a gente viu o barril do petróleo sendo negociado a mais de $110 durante esse conflito.

Natuza Nery:O problema é que há um fator de risco para o sucesso do acordo, e ele tem nome e sobrenome: Benjamin Netanyahu.

Benjamin Netanyahu - 1:Disse que as tropas israelenses não vão sair do território ocupado no sul do Líbano e que inclusive vão retaliar se o Irã voltar a atacar. Além disso, o ministro de segurança nacional israelense afirmou que o acordo não é vinculante a Israel, ou seja, não inclui Israel, não vale para Israel, porque não garante a segurança ao país. O presidente Donald Trump disse que o primeiro-ministro de Israel é um— palavras dele— é um cara muito difícil e que Netanyahu deveria ser grato pelo que Washington está fazendo, pois Se o Irã já tivesse uma arma nuclear, disse Trump, Israel não estaria de pé.

Natuza Nery:Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o acordo entre Estados Unidos e Irã. Neste episódio sobre a guerra, eu converso com Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM. Terça-feira, 16 de junho. Professor Trevisan, antes de entrar nos termos desse acordo, eu lhe pergunto se agora dá para considerar que ele é para valer.

Leonardo Trevisan:É um primeiro passo, então caminhando no sentido da paz. É paz, é isso mesmo, né? Vamos com calma. Na verdade, quando a gente olha para isso, a gente tem que dar razão para quem foi— todo mundo ficou de nariz assim virado para ela, né? Mas é economy sustentou. Não é um tratado de paz, É um compromisso de se continuar negociando. É disso que nós estamos falando. E sente clareza de que o que aconteceu é que os dois pontos assim absolutamente negociáveis para os dois lados foram colocados.

Voz B:Presidente Donald Trump declarou que o acordo com Irã estava concluído. Autorizo plenamente a abertura do Estreito de Hormuz sem cobrança de taxas e simultaneamente autorizo a imediata suspensão do bloqueio naval dos Estados Unidos.

Leonardo Trevisan:Então, primeiro de tudo, quer Os Estados Unidos queriam abertura de Hormuz para estancar a sangria de petróleo. Hoje se estima uma falta entre 14 a 20 milhões de barris dia. Tem que repor os estoques. Então tava todo mundo olhando para isso. Inverno tá, vai chegar, como é que tá fazendo, como é que vai fazer? Então de algum modo tava todo mundo olhando para realidade de reabrir Hormuz e dar algum equilíbrio no mercado. O agradecimento por Xi Jinping é nessa direção, porque o Xi estava igualzinho ao Trump, também querendo que o mercado se equilibrasse. Sem petróleo tem inflação, com inflação você cresce menos, se você cresce menos você compra menos produtos exportados chinês. O Xi Jinping não quer ouvir falar disso. Então, para eles, o que eles queriam era efetivamente a reabertura de Hormuz.

Voz G:Só que para sair do papel ele depende de uma lista com 14 exigências apresentadas pelo governo iraniano. Uma das principais é o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano. O Irã também quer que os EUA respeitem a soberania do país e parem de interferir em assuntos internos. Na lista também estão a retirada das forças americanas dos arredores do Irã, a suspensão completa do bloqueio naval e a reabertura do Estreito de Hormuz em até 30 dias. Outro ponto é o fim das sanções sobre a venda de petróleo, produtos petroquímicos e derivados. O governo iraniano também quer que os EUA e os aliados apresentem um plano de reconstrução de pelo menos $300 bilhões e liberem $24 bilhões em recursos iranianos bloqueados.

Natuza Nery:Então deixa eu entender aqui só um ponto: a gente não está falando de um acordo de paz estrito senso, a gente está falando de um acordo para o fluxo comercial do petróleo ser retomado e ganhar tempo, e o Irã seja de certa forma respeitado naquilo que são os princípios básicos dele.

Leonardo Trevisan:Tem um óbice nessa história, tem um obstáculo, né? Chama Líbano essa pedra.

Natuza Nery:Quero chegar lá, mas eu não quero avançar o sinal ainda. Você cita o Estreito de Hormuz. O Irã divulgou uma lista de exigências para formalizar esse pacto, vamos chamar assim. Queria lhe perguntar quais são eles e o que o estreito, o que que está previsto para o Estreito de Hormuz nesse acordo?

Leonardo Trevisan:Qual é o ponto de diferença fundamental no Estreito de Hormuz entre Estados Unidos Irã, pedágio. O Irã diz o seguinte: vocês destruíram 40% das construções no meu país, eu quero repor isso aí, eu preciso de recurso para repor isso aí. Para isso eu vou passar a fazer vocês pagarem aquilo que vocês estragaram. É disso que nós estamos falando, Natuza. O Irã exige o pedágio com essa função. Os Estados Unidos dizem: com pedágio, petróleo fica mais caro. Porém, alguns fatos das exigências do Irã foram atendidos. Primeiro fato: fim do bloqueio naval dos produtos iranianos. Estava ficando caro para o Irã se alimentar por terra, via Paquistão, tudo mais. Dois: o programa nuclear é objeto de um retorno a 2015. Goste Trump disso ou não, o Irã permanece com o direito de enriquecer urânio como Todos os países que o fazem, são mais de 40 no mundo, incluindo o Brasil, viu, Natuza? É só ir aí na USP, no IPEM, você vai lá e vê. Vigiado pela IEA, nós também, nós também enriquecemos urânio, como 40 países no mundo. O Irã diz: nós temos essa estrutura e queremos ser respeitados nisso. Ah, eu tenho compromisso de não fazer uma bomba atômica. Nós já dissemos isso, que nós não queremos fazer bomba atômica. O terceiro ponto tem a ver com o que nós estamos falando. Então, O primeiro: para de bloquear os portos iranianos com a Marinha americana. Dois: programa nuclear, nós vamos sentar para conversar como adulto. Três: os fundos que o Irã tem nos países árabes moderados, especialmente no Qatar, nos Emirados Árabes Unidos, bom dia Dubai, eles querem de volta. Não é pouca coisa. Então eles querem usar isso para, de certa forma, voltar a andar num ritmo que é o iraniano. Alguns pontos seguem pendentes. O principal desses pontos, você mencionou já, é quem é, como será administrado Hormuz. Sabe o que aconteceu na Tusa? Deu tudo errado. Na ausência de planos de Trump, o Irã percebeu que ele consegue, do mesmo jeito que ele faz com drones, com lanchas rápidas e com minas locadas, ele consegue bloquear Hormuz.

Natuza Nery:É como se o Irã tivesse, através do Trump, descoberto o poder que tem.

Leonardo Trevisan:Perfeita frase, é exatamente disso que nós estamos falando. O Irã saiu dessa refrega toda, desses 3 meses de guerra, muito mais fortalecido do que ele estava. Hoje os países árabes moderados, este é o ponto mais grave, batem na porta de Pequim a conversar com o Irã e não na porta de Washington para serem protegidos. Esta situação é muito séria, tem um giro geopolítico, tem uma mudança no xadrez geopolítico no Oriente Médio que importa para o mundo inteiro. No último mês, todos os países árabes moderados mandaram os seus chanceleres para Pequim. Todos foram lá, incluindo Mohammed Bin Salman, o próprio príncipe herdeiro da Arábia Saudita, visitou o Xi e conversaram, porque o fator China é hoje um dado, um ponto essencial na equação de poder no Oriente Médio. Isso nós temos que cumprimentar a ausência de planos do senhor Donald Trump. Foi ele que permitiu que isso acontecesse.

Natuza Nery:Tá bem claro o raciocínio de que Os Estados Unidos, com essa guerra sem planejamento, acabou fazendo com que o Irã se tornasse mais forte. Eu quero só fazer uma ressalva aqui: o Irã foi bastante destruído militarmente, os Estados Unidos não tem comparação com a força bem menor do Irã, mas do ponto de vista da importância para o comércio global, o Irã acabou aumentando importância. Isso tá bastante claro. Agora eu quero te ouvir sobre as exigências americanas nessa história, porque a gente sabe que Trump busca um discurso de vitória. Explica para gente o que que os Estados Unidos colocaram na mesa e se isso que foi colocado à mesa é o suficiente para dar essa retórica para o presidente dos Estados Unidos.

Leonardo Trevisan:Natuza, quando a gente olha para o comportamento do Trump, para te responder o que os Estados Unidos querem, a gente tem que observar aquela imagem que foi o jornalista Bob The World, que criou num livro de 2018. Tiraram os adultos da sala, não tem planejador, tem só gente obediente a Trump, ninguém o questiona de nada. Toda capacidade que você tem de um secretário de criar argumentos, não, não existe. É isto que explica a entrada da guerra contra o Irã. Três pontos eram iniciais. O primeiro ponto era: vamos encerrar o programa nuclear iraniano. Desculpa, isso é impossível com força militar. Israel já tentou e não conseguiu. 2: nós vamos de alguma forma encerrar o regime, acabar com o regime iraniano. Eu matei todas as lideranças iranianas e elas que nem cabeça, rabo de jararaca, elas voltavam. O que que tá acontecendo? O que tá acontecendo é que o Irã percebeu o risco e todas as autoridades no Irã têm pelo menos 2 ou 3 autoridades já nomeadas até elas morrerem. Isso vale para todos, incluindo o aiatolá. Não adianta nada matar. Precisa entender que não tem um fator cultural nesse processo. Os mesmos oposicionistas que em janeiro perderam 7 mil pessoas com tiro na cabeça da Guarda Revolucionária Iraniana passaram a apoiar o regime quando os Estados Unidos começaram a bombardear. Presta atenção nisso. Quando nós olhamos para esse quadro, então nós temos a primeira exigência: o programa nuclear não era possível, acabar com o regime não era possível. Terceira exigência: diminuir o poder dos mísseis iranianos, como se isso fosse mágica. Natuza, quando a gente olha para o poder militar iraniano, nós temos que olhar para um quadro político completamente novo do ponto de vista militar. O Irã descentralizou toda a sua potência militar. O Irã fez um mundo de várias empresas militares pelo Irã inteirinho, muitas. A guerra na Ucrânia mudou de jeito com os drones iranianos. O primeiro país que mais produz engenheiro é a China, segundo é os Estados Unidos. O Irã é hoje o quinto país que mais produz engenheiro. É uma mentalidade diferente, eles se prepararam para guerra desde a guerra com Saddam Hussein em 1980, a guerra não parou. Os mísseis Shahed, do 5 ao 16, mudaram o curso da guerra na Ucrânia. A Rússia compra deles. E que destruição dos mísseis iranianos você está falando? 2: os mísseis iranianos em plena guerra agora, um mês atrás, o Irã deu um recado ao mundo. A base militar de Diego Garcia, que é americana e inglesa, 4.000, 3.800 km de Teherã, foi atacada por um míssil iraniano. Opa! Quer dizer que os mísseis iranianos romperam a barreira dos 2.000 e estão em 4.000 km de alcance. Quando a gente olha para esse quadro, a gente percebe que Foi mal planejada ou não houve planejamento algum. Um senhor chamado Joe Kent era o diretor do setor antiterrorista do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos. MAGA de carteirinha, Make America Great Again, totalmente apoiador do Trump, e diretor do contraterrorismo do Conselho de Segurança. Ele renunciou. A renúncia dele veio acompanhada de uma série de frases. Era quem era, chefe do setor Contra terrorismo, dizendo que a guerra do Irã foi começada, foi iniciada sem nenhuma provocação do Irã para os Estados Unidos, que a guerra do Irã foi iniciada por razões políticas de apoio a Israel, e não havia razão nenhuma.

Voz G:Do Partido Republicano do presidente Donald Trump publicou numa rede social a carta de demissão: não posso em sã consciência apoiar a guerra no Irã. O Irã não era uma ameaça iminente à nossa nação e ficou claro que começamos esta guerra por pressão de Israel e de seu poderoso lobby nos Estados Unidos, escreveu. A imprensa americana já citava que Kent apoiava teorias da conspiração, era ligado a associações de supremacia branca e extrema-direita, e um representante ferrenho dos apoiadores de Trump do grupo MAGA, que significa faça a América grande novamente.

Leonardo Trevisan:E aí ele faz, toca no ponto mais grave. A guerra começou no dia 28 de fevereiro, que foi um sábado. No dia 26 de fevereiro, o Whitcoff e o Jared Kushner, que eram os negociadores do Trump, vieram com a proposta iraniana de exatamente fazer o que tá feito agora, de que eles iriam negociar para entregar para algum país os 440 kg de urânio enriquecido, iriam aceitar a presença da IEA no controle do programa nuclear, iriam de alguma forma iniciar um processo de aceitar vigilância internacional no serviço de mísseis deles. Tudo isso foi jogado à terra. A quem interessava? Benjamin Netanyahu.

Natuza Nery:Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Leonardo Trevisan. No começo das suas respostas, você fala do fator Líbano. Quero entender o que você queria dizer em relação ao fator Líbano e quero te perguntar como é que está a relação entre Donald Trump e Benjamin Netanyahu, tendo em vista os relatos de Donald Trump, de que Donald Trump tem feito críticas bastante duras ao seu aliado.

Leonardo Trevisan:Um sujeito muito difícil. O que nós temos que entender quando a gente começa a falar dessa situação é que Netanyahu pressionou Trump para que ele o ajudasse a ganhar a guerra eleitoral em Israel. A guerra do Irã não foi uma guerra feita para os Estados Unidos, foi uma guerra feita para que Netanyahu pudesse continuar no poder. Natusa, se a guerra acabar amanhã efetivamente de Israel, se Israel ficar sem guerra amanhã, isso já não é mais possível. Mas se Israel, estamos falando de 100 dias atrás, ficasse sem guerra, Netanyahu perderia fatalmente a eleição. Ele deve perder a eleição. Todas as pesquisas do Haaretz, do Jerusalem Post, dão o mesmo canal de que Netanyahu perde a eleição. Quando a gente fala disso, nós temos que falar de Líbano. Israel tem na cabeça— a sustentação política de Netanyahu é feita pela extrema, pelos ultraortodoxos. Eles têm na cabeça o plano de uma grande Israel. Não é só a Israel Israel, é Israel que inclua Gaza, que inclua partes da Síria e que inclua o sul do Líbano. Com o desaparecimento do Irã, Você vai me perguntar: "Mas isso é impossível." É impossível para você. Para eles, eles acham e eles perseguem isso como razão de existência. E aí, quanto que Netanyahu obedece a Trump? Nada. O que vai acontecer? Os fatos estão provando. No domingo de madrugada, o Shehbaz Sharif, que é o primeiro-ministro do Paquistão, anunciou o acordo. 4 horas depois, A área sul de Beirute, onde estão os Hezbollah, são bombardeados.

Natuza Nery:Então a gente tá numa situação muito parecida com as outras vezes em que se falou de acordo. Se Trump não exerce controle sobre Israel, se o fator Líbano pode desandar esse acordo que tá previsto para sexta, então a gente tá falando de um potencial acordo, as coisas continuam muito parecidas com que eram antes e que não viabilizaram um cessar-fogo.

Leonardo Trevisan:Você começou essa conversa no ponto exato. O que é que os Estados Unidos querem? O fim da guerra, algum equilíbrio no posto de petróleo, para que o eleitor americano, quando for a primeira semana de novembro, não chegue na urna para votar muito bravo.

Natuza Nery:Ah, então Trump pode conseguir uma suspensão na guerra e voltar a atacar o Irã depois das eleições de meio de mandato?

Leonardo Trevisan:Ele já avisou que pode fazê-lo. E esse ponto é essencial. Não é um acordo de paz, é Conversação é um compromisso de que as negociações continuam na Tusa. Se nós não entendermos isso, nós não entendemos o central desse ponto. Tem uma distância brutal entre os dois grandes aliados, e é simples entender. É efeito vital para Donald Trump que a guerra termine, para que o petróleo volte. Mesmo assim não vai acontecer de imediato, mas para que fique a sensação de que ele vai controlar a inflação. Ele precisa que a guerra termine. Netanyahu precisa que a guerra continue. O fato real é que os 3 maiores concorrentes, o Yair Lapid, o Bennett— o Yair Lapid é um centro progressista, o Bennett é um ex-ministro do Netanyahu que foi mais pro centro, e o general Netanyahu— os 3 dizem: "O nosso problema não é a guerra, o nosso problema é quem é o gerente da guerra, nós precisamos trocar o gerente". "Ah, vamos trocar o general." Netanyahu não pode sonhar com essa hipótese, porque ele tem uma possibilidade de sair do poder direto para cadeia muito real. Então, quando nós olhamos para esse quadro, a sobrevivência política dos dois, de Netanyahu e de Trump, está condicionada ao Oriente Médio. Só que, desculpe, Natuza, a dureza das palavras, o Irã todo mundo presta atenção, porque o Irã tem petróleo, envolve o emprego e a renda de qualquer cristão. Ou pagão. É completamente diferente com o Líbano, as pessoas sequer prestam atenção lá, mas o Líbano é vital para a ultraortodoxia israelense. Ele quer fazer de alguma forma que isso continue e as regras do jogo permaneçam as mesmas. Como é que as regras do jogo vão permanecer as mesmas? Qual é o sentido disso? Qual é a função disso? O Líbano é hoje uma equação muito mais difícil de ser resolvida do que Irã. O Líbano é mais tenso.

Benjamin Netanyahu - 2:Primeiro-ministro de Israel disse que a luta não acabou. Temos que continuar de guarda para nos defender como for necessário, afirmou Benjamin Netanyahu. Premier disse que vai manter militares dentro do Líbano para proteger Israel do Hezbollah, o grupo extremista apoiado pelo Irã. Netanyahu disse ainda que o acordo com o Irã é de Donald Trump e que nem sempre concorda com o presidente americano. Um alto funcionário da Casa Branca afirmou que se o Irã não controlar o Hezbollah, Israel terá o direito de se defender.

Leonardo Trevisan:É por isso que o Irã diz: "Não tem conversa sobre os meus mísseis", porque ele sabe que o jogo é mortal. O jogo, se Israel avançar e dominar o sul do Líbano, construir a Grande Israel, o próximo passo é ir para cima com toda a força militar. E 90 bombas atômicas. Desculpe, precisa lembrar disso, Israel é um país nuclear. Eles vão para cima do Irã e não é delicadamente. A ultraortodoxa israelense não fala delicadamente. A equação geopolítica no Oriente Médio mudou. Essa equação, Trump está muito aquém de compreendê-la. Aqueles brilhantes scholars americanos que são capazes de compreender isso não têm qualquer espaço de discussão. Um homem como Blinken, que era o secretário de Estado, Antony Blinken, que era o secretário de Estado de Biden, não consegue de forma nenhuma que seja ouvido. E é nesse ponto que, de algum modo, a equação Líbano, ela engole a equação Irã e engole a proposta de paz. É complexo mesmo, Natuza, é complexo e é desesperante, porque hoje já tem mais mortos na guerra no Líbano do que no Irã. 3.900 contra 3.400. A potencialidade do estrago no Líbano é maior para a paz mundial, por causa do jogo de contra-forças, do que aquela proposta no Irã.

Natuza Nery:Professor Trevisan, muito obrigada pelas explicações. Vamos aguardar a sexta-feira com um otimismo cuidadoso, digamos assim, né, que é para que não haja tanta decepção caso essa suspensão, porque o que eu tô entendendo não é um acordo para acabar com a guerra, pelo que você nos conta, e sim um acordo para suspender a guerra. E aí a gente tem que ver por quanto tempo seria essa suspensão, se ela de fato se viabilizar. Torcendo para que sim. Professor, muito obrigada, bom trabalho para você.

Leonardo Trevisan:Eu é que agradeço o convite e a excelente conversa, Natuza. Muito obrigado por ela. Muito agradecido.

Natuza Nery:Este episódio usou áudio da agência Reuters. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.