As boas notícias da ciência no combate ao câncer
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Natuza Nery:Esses aplausos são de mais de 50 mil médicos e pesquisadores no maior congresso de Oncologia do mundo, realizado em Chicago no início de junho. Aplausos são incomuns em eventos assim. São mais raros ainda quando as pessoas, quando a plateia fica de pé e com lágrimas nos olhos, reagem ao que ouvem. E o que comoveu doutores no auditório lotado foi o impressionante resultado de uma droga. O nome é difícil: Daraxom-Hacib. Uma pílula que dobrou a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas que já não respondiam ao tratamento convencional.
Voz B:O medicamento foi tomado em casa, por via oral, uma vez por dia, por 500 pacientes em estado grave que já não reagiam à terapia convencional.
Fernando Maluf:O objetivo era verificar se a droga poderia melhorar a sobrevida dos pacientes em comparação com a quimioterapia. De uma forma impressionante, Ela dobrou a sobrevida desses pacientes.
Voz B:Dobrou de quase 7 meses para 13 meses. A nova droga conseguiu bloquear uma proteína que chama KRAS, que age como um interruptor que liga e desliga a multiplicação das células. Só que no câncer, esse interruptor fica sempre ligado e as células não param de se multiplicar.
Natuza Nery:E é importante que se diga: um resultado como esse, que seguiu o mais rigoroso padrão metodológico, é uma luz em um túnel onde normalmente não se vê muita saída. O câncer de pâncreas é considerado por oncologistas o mais letal dos tumores. Infelizmente, apenas 13% dos pacientes sobrevivem após 5 anos do diagnóstico.
Voz B:O Daraxom Razib deve ser aprovado em breve para uso comercial. Nos Estados Unidos, o acesso já está autorizado para casos em que não há alternativa. Mesmo com o reconhecimento científico, pesquisas inovadoras como essa ainda são encaradas com medo e preconceito. A tendência é que ela abra portas para outros estudos e medicamentos ainda melhores.
Fernando Maluf:Espero que esses tratamentos se tornem amplamente disponíveis para pacientes onde quer que estejam no mundo. Acho que devemos lutar por isso.
Natuza Nery:Aqui no Brasil, um outro tratamento oncológico também trouxe otimismo. Desenvolvida na USP de Ribeirão Preto, a terapia CAR-T cell modifica as células do sistema imunológico. Nessa terapia, as células T dos linfócitos de defesa do corpo são retiradas do próprio paciente e levadas para o laboratório. Lá são modificadas geneticamente para produzir uma molécula chamada pelos cientistas de receptor de antígeno quimérico. Ou CAR em inglês. Essas células T modificadas são multiplicadas aos milhões e reintroduzidas no paciente. Na última semana, os pesquisadores anunciaram que esse tratamento apresentou quase 90% de eficácia em pacientes com linfoma, um tipo de câncer no sangue que se origina nas células de defesa.
Fernando Maluf:Esse tipo de terapia, chamada terapia por células CAR-T, ou terapias avançadas, é principalmente para 3 tipos de cânceres, todos hematológicos. Então é os linfomas, de células B, as leucemias agudas linfoblásticas de células B até 25 anos de idade e o mieloma múltiplo.
Natuza Nery:Essa história ganhou noticiário com uma fotografia que todo paciente quer ver: um exame de imagem onde as manchas dos tumores simplesmente desapareceram. Esse é o caso de Paulo Pelegrino, diagnosticado com linfoma e um dos primeiros pacientes tratados com a terapia da USP.
Paulo Peregrino:E até agora eu olho aquilo Assim, aquelas duas imagens, uma que foi tirada dia 6 de março e a outra dia 24 de abril, às vezes fico me perguntando quem conseguiu sair desse estágio e passou para o outro. Eu não imagino. Eu não consigo acreditar que fui eu.
Natuza Nery:Paulo lutava 13 anos contra a doença e aceitou fazer parte do estudo. Eu conversei com ele em 2023, no episódio de número 988, chamado A Terapia Revolucionária que Cura. 3 anos depois, ele voltou a conversar com a equipe do assunto. Hoje, como uma referência de quem viveu todo o tratamento e agora pode atestar o sucesso da ciência.
Paulo Peregrino:Eu sou muito grato a Deus, a ciência, claro, mas acima de tudo a Deus por ter me dado a oportunidade de ter estado, né, por exemplo, quando eu encontrei com as pessoas lá no Hemocentro, que foram aquelas pessoas que estavam no laboratório manipulando as células, estavam no chão da fábrica. Foi um dos encontros mais emocionantes que eu tive na minha vida. Porque encontrar aquele grupo de 10, 15 pessoas, 90% eram mulheres, moças, né? Pessoas novas e tudo. Algumas vieram chorando falar comigo, emocionadas, dizendo pra mim de ter encontrado, ter a oportunidade de encontrar o resultado do trabalho delas. Então, atrás de cada pesquisa, de cada ciência, tem corações que batem, tem pessoas comprometidas, pessoas que estão ali dando o máximo que pode para poder no final salvarem vidas.
Natuza Nery:Essa esperança pode chegar agora a milhares de brasileiras e brasileiros. Na última semana, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, prometeu que a terapia estará em breve no SUS.
Fernando Maluf:Vamos ter isso no SUS, de graça, como um direito. É uma grande esperança. O Ministério da Saúde investiu R$100 milhões nesse projeto e a partir desses dados preliminares, a Anvisa Anvisa acolhe esses dados no seu comitê de inovação e começa a acompanhar os resultados finais com a perspectiva da gente registrar como produto desenvolvido 100% aqui no Brasil.
Voz D:A Anvisa agora tem que acompanhar por mais um ano, então a expectativa é que até maio do ano que vem as pesquisas continuem acontecendo para que depois esse tipo de tratamento seja incorporado ao SUS.
Natuza Nery:Da redação do G1, eu sou Natuza Nery e o assunto hoje é: as boas notícias para pacientes com câncer. Neste episódio, eu converso com Fernando Maluf, médico oncologista e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, e com Diego Villaclé, professor, doutor de hematologia da Universidade de São Paulo e coordenador de biotecnologia e do núcleo de terapias avançadas do Hemocentro de Ribeirão Preto. Segunda-feira, 15 de junho. Doutor Fernando, você estava em Chicago num congresso de medicina em que foi apresentado um medicamento para câncer de pâncreas. E a cena que a gente viu aqui no Brasil foi a plateia levantando emocionada, muita gente chorou, aplaudindo efusivamente. Não era uma cena típica desses congressos. O que que se mostrava ali que causou tanta repercussão?
Fernando Maluf:Bom, Natuza, esse evento, Congresso Americano de Oncologia, ele junto com Congresso Europeu são os dois maiores congressos do mundo que trazem estudos que impactam a prática clínica. São mais de 7 mil estudos submetidos por ano para esse evento. E esse estudo de câncer de pâncreas foi um dos 5 estudos mais importantes dos 7 mil trabalhos. Então a gente imagina a amplitude dos resultados nesse sentido. E a comoção aconteceu, né, com pessoas aplaudindo e se emocionando, porque o câncer de pâncreas é uma doença extremamente grave. Eu diria que de todos os tumores do corpo humano é o mais grave ou um dos mais graves. E os avanços que foram conquistados em câncer de pâncreas aconteceram, mas foram muito modestos ao longo do tempo.
Voz B:Como o câncer de pâncreas não costuma dar sintomas no começo, quando é diagnosticado, geralmente já se espalhou pelo corpo. E só no Brasil, em 2024, 14 mil pessoas morreram com a doença.
Fernando Maluf:Então a gente esperava, né, os pacientes esperavam, as famílias esperavam algo melhor do que a gente podia oferecer. Então nesse sentido, né, esse estudo ele comparou em pacientes que haviam já recebido um tratamento quimioterápico e deixaram de responder, um novo tratamento quimioterápico ou esse medicamento que é uma medicação oral chamado Daraxon-Razi, que o que ele faz, ele inibe uma proteína que advém de uma mutação do tumor de pâncreas, que é presente em mais de 90% dos casos. E essa proteína, quando ela tá muito alta, ela causa uma agressividade típica do tumor de pâncreas em termos de invasão, proliferação e metástases. Então neutralizando essa proteína, o câncer de pâncreas obviamente se enfraquece de modo muito importante. Então nesse estudo onde foram 500 pacientes estudadas entre mulheres e homens. Comparou-se então quimioterapia ou essa nova droga, que é uma droga oral. E o que se viu foi que o braço que recebeu essa droga oral teve uma redução do risco de morte comparado com quimioterapia de 60%, uma redução do risco de progredir a doença em 55%, um aumento na taxa de resposta de 3 vezes mais do que a taxa de resposta que era com quimioterapia. E muito interessante, com menos efeitos colaterais. Portanto, é muito interessante que essa droga sim foi muito melhor que quimioterapia em termos de resposta, de sobrevida, de evitar progressão da doença, e muito mais bem tolerada. Bom, qual que é o caminho agora? Essa droga vai ser agora avaliada para uma aprovação urgente do FDA, e a partir dessa aprovação, essa empresa chamada Revolution vai tentar então trabalhar com aprovações em outros lugares do mundo. Então essa é a parte do dia a dia, e essa Essa droga também começa a ser estudada agora em outras fases da doença mais precoces para tentar, junto com procedimentos cirúrgicos, curar mais pacientes. Então, hoje, em fases muito avançadas, ela não é curativa, mas ela aumenta a sobrevida. Agora, a pergunta é: será que essa droga, combinada com outros tratamentos em fases mais precoces, pode aumentar a curability desse tumor, que é um tumor tão desafiador?
Natuza Nery:Eu não sei se procede, se é impressão de leiga, mas a sensação que eu tenho é de que há uma série de boas notícias para tratamentos de diversos tipos de câncer nesse congresso, por exemplo, para além desse medicamento para câncer de pâncreas, o que houve de notícias sobre outros tipos de abordagens ou de medicamentos? Conta para a gente.
Fernando Maluf:Eu acho que na verdade, e não acho, eu tenho certeza, não é uma impressão sua. Hoje a gente está curando muito mais tumores que eram ditos incuráveis no passado. Hoje a gente consegue controlar doenças por muito tempo que eram incontroláveis. Hoje a gente consegue oferecer taxas de resposta com novas drogas que eram nunca antes vistas. Então, na verdade, existe uma completa revolução no tratamento e nos resultados de pacientes oncológicos. O que não significa que nós chegamos no ponto ideal onde todas as pessoas que têm um diagnóstico de câncer estão bem. Não, isso não é o caso, mas significa dizer que hoje a gente consegue atingir resultados que eram absolutamente inimagináveis no passado. E por que isso? Número 1, porque a gente começa a entender melhor como cada tumor de cada paciente funciona. Então, no passado, por exemplo, câncer de mama, câncer de pulmão, é como se a gente tivesse andando de avião, helicóptero, olhasse para baixo. E quando você olha para baixo uma altura muito alta, você acha que aquelas pessoas que estão andando na rua são todas parecidas. Só que agora, com avanço da tecnologia, a gente desceu com helicóptero no nível de 2, 3 metros do chão e a gente a gente começa a enxergar que as pessoas não são parecidas. Elas têm alturas diferentes, cores de cabelos diferentes, pesos diferentes, características dos olhos diferentes, e assim o tumor de cada paciente. E aí então, entendendo como cada tumor funciona e quais são os mecanismos que levam esse tumor a crescer, a provocar a metástase, são desenvolvidas drogas que vão neutralizar especificamente esses pontos de cada tipo de tumor, de cada tipo de paciente. E aí então a gente começa a ver resultados absolutamente fantásticos. Então, por exemplo, hoje a imunoterapia, que estimula o sistema imune atacar o tumor— lembrando que o tumor muitas vezes passa pelo corpo desapercebido porque ele vem do nosso corpo, ele não é um agente externo que nem uma bactéria, um vírus ou uma picada de cobra, ele é algo que vem de dentro da gente— então muitas vezes ele passa como algo que faz parte do organismo. Mas você começa a usar, por exemplo, drogas que aumentam a capacidade do nosso organismo de localizar essa doença, de expô-la. Então essas drogas imunoterápicas hoje em vários tumores, como câncer de útero, seja endométrio, colo de útero, em câncer de bexiga, em câncer de rim, em câncer de mama, conseguem respostas incríveis e até cura num grupo de pacientes. Então a imunoterapia é um dos grandes avanços. Aí existe outras formas de imunoterapia, o CAR-T cell, por exemplo, que é tão falado e que hoje é uma realidade como parte do tratamento para linfomas, leucemias e mielomas, que tá sendo estudado em tumores de mama, de cérebro, de intestino, de ovário. Nós temos as novas vacinas sendo covidas com as mesmas tecnologias da vacina de RNA na época do covid. A imunoterapia, eu diria, Natuza, que é um enorme avanço. Várias imunoterapias já fazem parte do tratamento hoje e várias vão fazer parte no futuro.
Natuza Nery:E tem alguma tecnologia, algum tipo de medicamento em estudo que possa chacoalhar o universo da pesquisa, trazer um medicamento ou um tratamento novo?
Fernando Maluf:Ah, não tem dúvida. E aí a gente entra numa outra camada que são, por exemplo, drogas radioativas. Hoje estão sendo desenvolvidos pelo menos 20 drogas que se ligam especificamente no tumor, em receptores que o tumor expressa e não o organismo, e jogam para dentro dele doses letais de radiação. A gente vê isso, por exemplo, em câncer de próstata, em tumores chamados de neurose, agora em tumores de rim. Então essa é uma área, por exemplo, que vai literalmente invadir a oncologia. Existe uma outra área que é incrível, que são os novos anticorpos. São mísseis teleguiados que entram no corpo e que grudam no tumor, não no resto do organismo, e quando grudam, como um mecanismo de cavalo de Troia, né, Essas drogas, essas drogas inteligentes chamadas anticorpos conjugados à droga, são drogas que ligam ao tumor e quando o tumor então é grudado, aí o remédio tóxico entra para dentro da célula tumoral. Então é uma outra linha de remédios que vem invadindo de modo extremamente importante. E aí tem outras drogas que silenciam o tumor de vários jeitos. A mensagem aqui é que essas drogas vão sendo agora conjugadas Lembrando que o câncer não cresce só por um mecanismo, então você vai ter que ir atacando mecanismos diferentes por qual essa doença cresce. E mais importante, né, lembrar que essa doença não é igual, mesmo dentro do nosso organismo. Essas células vão se proliferando, elas vão mudando as características das células mães para as filhas, para as netas e bisnetas, e a gente tem que encontrar uma combinação de remédios que vai absolutamente abarcar tudo isso.
Natuza Nery:Bom, e agora voltando à pílula do câncer de pâncreas e esses novos tratamentos, quando é que isso chega aqui no Brasil? Qual é a expectativa de acesso dos nossos pacientes brasileiros a essas terapias e em que prazos?
Fernando Maluf:A boa notícia é que a Anvisa é um dos órgãos, uma das agências no mundo que mais aprova rápido medicações que são eficazes e seguras. Essa é a boa notícia. A má notícia é que, infelizmente, quando a gente fala de acesso, a gente fala de acesso quase que somente para pacientes que têm um plano de saúde. A gente tá falando só de 25% da população. O SUS para câncer ainda é uma área extremamente carente, particularmente porque o câncer é uma doença complexa que remete várias tecnologias e obviamente num sistema com orçamento baixo que nem o nosso, a gente tem um gargalo e a gente não consegue oferecer para o paciente quase nenhuma dessas novas tecnologias, além das filas enormes para cirurgias, radioterapia, etc.
Voz F:O Inca estima que o Brasil pode ter 781 mil novos casos de câncer por ano, de 2026 a 2028. Desses, 263 mil devem ser tumores de pele não melanoma, o tipo mais comum e com alta chance de remissão quando tratado precocemente. Com isso, a estimativa é que os casos de outros tipos de câncer cheguem a 518 mil por ano. As estimativas feitas pelo Inca servem para o Ministério da Saúde planejar as ações de prevenção e combate ao câncer no país inteiro. Elas demonstram que a doença seguirá sendo um desafio para o SUS nas próximas décadas, principalmente com relação ao diagnóstico precoce e reduzir o tempo entre a identificação da doença e o começo do tratamento. Há ainda as diferenças regionais de acesso aos serviços de saúde em cada canto do país.
Fernando Maluf:Então, se você perguntar se essas drogas novas vão, estão aqui no Brasil, se elas estão sendo usadas, a resposta é sim. A do Pankreas ainda não, porque ainda tá agora na fase de aprovação, mas as outras sim. Se você perguntar se elas estão sendo usadas no SUS, a resposta é não. E qual que é o impacto disso? Recentemente nós publicamos vários artigos nas revistas mais importantes do mundo, e quando a gente compara a sobrevida de uma mulher com câncer de mama no SUS versus uma mulher que tem um plano de saúde, o índice de mortalidade dessa mulher do SUS pode chegar a 2, 3 vezes mais do que de uma mulher que tem um plano de saúde. O índice de mortalidade de uma moça com câncer de colo de útero no SUS é pelo menos de 2 a 3 vezes mais. Se é um câncer de próstata, é pelo menos 2 vezes mais. Se é um câncer de bexiga, 2 a 3 vezes mais. Portanto, a mortalidade no SUS em todos os tumores, em todas as fases da doença, é muito maior do que no sistema privado. Por quê? Porque a doença, ela não espera. A doença não fala: bom, essa pessoa não tem condição de comprar o remédio, então eu vou "Ser mais ameno com essa pessoa." Não, a doença é implacável e se você não tem armas para combater e destruí-la, aí você tá numa situação ainda mais difícil, que é o que acontece muito no SUS.
Natuza Nery:E aí falta recurso, é isso?
Fernando Maluf:É falta de recurso, certamente, apesar da boa vontade dos profissionais de saúde do SUS, falta de recurso eu diria que é um dos motivos mais importantes. Outra vez, falta de medicações muito eficazes, número 1, a falta de tempo adequado para tratamento cirúrgico, com filas enormes. Eu sou um cofundador do Instituto Vencer o Câncer e presidente do Conselho do Instituto Vencer o Câncer. Nós temos trabalhado fortemente estratégias para melhorar o acesso. E uma das estratégias que nós fomentamos foi montar no SUS os hospitais que prestam assistência do melhor que eles podem prestar, mas outra vez com recursos limitados, transformá-los em unidades de pesquisa, em centros de pesquisa internacional. Que quer dizer com isso? Nós capacitamos médicos e enfermeiras, criamos o fluxo e aqueles hospitais passam a participar, depois de um selo de qualidade, dos protocolos mais incríveis, inovadores e promissores de drogas novas que estão sendo feitos nos melhores centros do mundo. Então nós temos já 20 centros inaugurados, a maioria no Norte e Nordeste. Então você imagina, Natuza, por exemplo, no Hospital Público de Manaus, uma mulher que tem acesso a pouquíssimos remédios contra o câncer de mama avançado, e ela acaba de adentrar um estudo clínico de uma droga que está sendo estudada em Harvard, está sendo estudada em Paris, está sendo estudada em Nova York, né? Então a gente começa a dar a propriedade para que pacientes do SUS, pacientes carentes, possam entrar nos estudos mais incríveis e promissores de drogas, que talvez sejam as drogas que vão virar o novo tratamento padrão depois de 2 ou 3 anos, a custo zero para o sistema de saúde público, e dando um enorme benefício para a população. Esse trabalho que nós temos feito é um dos trabalhos para criar um acesso incrível para as pessoas ao melhor do melhor do melhor do melhor, não onerando o sistema e mudando a história da medicina do país.
Natuza Nery:Doutor Fernando, muito obrigada por ter topado conversar com a gente. Um bom trabalho para você.
Fernando Maluf:Obrigado, é uma honra poder falar com você.
Natuza Nery:Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Doutor Diego Villacler. Doutor Diego, neste mês a gente teve boas notícias da ciência, novos tratamentos para pacientes com câncer, algumas tecnologias promissoras. Eu queria focar numa pesquisa brasileira. O que são as células CAR-T e por que essa terapia representa um avanço tão importante da ciência aqui no nosso país? Explica pra gente. Para a gente, por favor.
Diego Villa Clé:Olha, Natuza, as células CAR-T, elas são um tratamento inovador porque elas utilizam o próprio sistema imunológico do paciente para tratar doenças. A gente começa com o câncer, mas existe uma infinidade de doenças que podem ser tratadas com essa tecnologia. A técnica é simples: a gente retira uma célula de defesa do organismo da pessoa que são as principais combatentes que a gente tem, tanto para infecções, mas também para câncer. E a gente ensina essa célula em laboratório a tratar uma doença, a combater uma doença. Essa programação é feita geneticamente. Então, inicialmente com linfócitos que chamam linfócitos T, que é um dos tipos da célula de defesa do paciente, por isso que o nome CAR-T. porque a gente faz isso em linfócitos T e a gente leva para o laboratório e reprograma elas geneticamente para que elas expressem na superfície delas o CAR, que é um receptor novo que vai reconhecer então um tipo de doença, que a gente desenha isso em laboratório, né. No caso aqui de Ribeirão Preto, do Hemocentro de Ribeirão Preto, a gente desenvolveu toda a tecnologia para fazer o CAR-T contra linfomas e leucemias. A gente dominou toda a técnica nacionalmente, então é 100% feito no Brasil e isso nos permite evoluir para tratar no futuro outros tipos de câncer também, mas outros tipos de doença. A gente tá planejando fazer agora, quer dizer, já tá em fase de aprovação para lançarmos esse novo estudo para tratar doenças imunológicas, doenças autoimunes. A primeira delas vai ser o lupus eritematoso sistêmico, mas existem outras células, outras doenças que podem ser tratadas com essa tecnologia. Então, da sua pergunta, eu acho que o mais importante é o estabelecimento dessa infraestrutura aqui no país, que nos permite desenvolver outros tratamentos para outros tipos de doença numa tecnologia que é o que está na ponta hoje em dia, né? Na medicina. É um tratamento que não usa quimioterapia, não usa transplante, não usa cirurgia. A gente usa as próprias células do paciente para combater uma doença.
Voz B:Quando uma droga é descoberta, ela passa por uma série de estudos laboratoriais, depois é testada em animais, e só aí é que vai ser usada em seres humanos. De início, para estudar as propriedades dela, a toxicidade, saber como ela se distribui no organismo e quais são as doses ideais. Na fase final você vai comparar o melhor tratamento existente para aquela doença com essa droga. E aí são estudos feitos em diversos hospitais, várias partes do mundo, centenas, às vezes milhares de pacientes. E aí você faz a comparação. Se ela demonstra que é mais eficaz do que o tratamento convencional, se ela tem resultados melhores, só aí que ela vai para o comércio.
Voz D:Depois que ele for incorporado ao SUS, claro que tem toda uma parte burocrática para acontecer, a expectativa é que ele chegue o quanto antes para os pacientes e que consiga principalmente atingir aí a remissão dessa doença, que é uma alternativa bastante eficaz, é o que tem sido comprovado e testado até agora.
Natuza Nery:Agora, você diria que esse é o melhor momento dos estudos oncológicos em muito tempo aqui para o país, ou a gente já vem nessa toada? Eu queria entender que lugar nós estamos nesse tipo de tratamento.
Diego Villa Clé:Ah, certamente, Natuza, nós estamos na, podemos dizer, na era ou nos anos de ouro aí da Oncologia. A cada ano a gente vem tendo grandes descobertas, grandes revoluções aí na medicina, E os estudos não param, a gente tem uma infinidade, um grande número de estudos em Oncologia hoje no nosso país. O nosso país hoje ele é protagonista também no cenário internacional em incluir pacientes, em tratar pacientes, e com esse tratamento desenvolvido aqui, o CAR-T feito no país, a gente passa a ser um protagonista também no desenvolvimento dos tratamentos. A gente passa a não depender mais apenas de tratamentos internacionais, São poucos que tem no mundo com desenvolvimento próprio, que a gente chama de acadêmico, como o nosso, né? E na América Latina nós somos os pioneiros também. Não existe nenhuma outra estrutura que se assemelhe a esse nosso desenvolvimento aqui na América Latina.
Natuza Nery:Durante a apuração desse episódio, a gente encontrou dados mostrando uma maior incidência de leucemia aguda em crianças. O nome correto é leucemia linfoblástica aguda em crianças. Os estudos com a terapia CAR-T caminham para essa faixa etária? Ou seja, essas crianças podem ser beneficiadas num futuro?
Diego Villa Clé:Sim, sim, exatamente. A Leucemia Linfoblástica Aguda, que a gente chama de LLA, é o câncer mais frequente na população pediátrica e ela é 60%, mais ou menos, dos casos acometem crianças. Então não há como a gente tratar esse tipo de doença sem considerar essa população. Então sim, o estudo das células CAR-T aqui no Brasil, está sendo realizado na população pediátrica também. Na verdade, ele vai de 3 a 25 anos, é crianças e adultos jovens que a gente chama, né? Essa é a população principal que é acometida com a leucemia aguda.
Natuza Nery:O que que a produção dessa tecnologia aqui no Brasil pode representar em termos de acesso da população, não só para pacientes, mas também em termos de possíveis avanços em relação a outras doenças?
Diego Villa Clé:Isso é muito importante, Natuza, porque existe já esse tipo de tratamento oferecido comercialmente. As células são retiradas aqui no Brasil, levadas para outro país por indústrias farmacêuticas, que há um custo de mais ou menos R$2,5 milhões por tratamento, um tratamento individualizado, que é feito para cada paciente. Então é um tratamento que é muito caro e dispendioso. E o fato de a gente oferecer isso e produzir aqui no país com uma tecnologia numa universidade, na Universidade de São Paulo, com apoio do Instituto Butantan, nos permite, além de baratear esse tratamento, facilitar a entrega aqui para o sistema de saúde brasileiro. Então com certeza vai ser um tratamento mais barato, muito mais barato do que esses valores que eu te disse. E que vai com certeza ampliar o acesso na população. Para você ter uma ideia, pouco mais de 100 casos foram feitos no país até o momento. É muito pouco perto dos Estados Unidos, que já fez mais de 30 mil casos. Então a gente quer realmente, com esse desenvolvimento no país, ampliar o acesso à população. Mas isso nos permite, desenvolvendo essa tecnologia, como você bem disse, ampliar a oferta de doenças que vão ser cobertas com essa mesma tecnologia. Nós estamos falando agora de doenças autoimunes, nós vamos fazer os tratamentos para lúpus, nós vamos fazer os tratamentos para outra doença que chama miastenia gravis, que é uma doença neurológica que também pode ser combatida com o CAR-T. Então a gente começa a dominar a tecnologia e ampliar o número de doenças, o número de pacientes que podem ser beneficiados com esse tipo de tecnologia no nosso país.
Natuza Nery:E isso soa revolucionário num país que destina tão poucos recursos para pesquisa, para ciência a gente sabe que sem isso a gente não chega muito longe, dá um alívio no coração de ouvir. Doutor Diego, muito obrigada pelas explicações e pela entrevista. Bom trabalho.
Diego Villa Clé:Eu quem agradeço, Natuza. Muito obrigado, um grande abraço.
Natuza Nery:Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Nathuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.