EXTRA: Natuza Nery entrevista Lázaro Ramos sobre IA e arte
- Questões raciais e interseccionalidadeDificuldade de reconhecimento facial de rostos pretos · Máscara branca para ser reconhecido · Responsabilidade das empresas de IA · Injustiças em sistemas policiais · Viés de gênero em algoritmos · Joy Buolamini
- Arte e FinitudeAutoria e trabalho de artistas · Impacto da IA no cinema e teledramaturgia · Racismo algorítmico · Lázaro Ramos · Natuza Nery
- Regulação de IAPreservação de valores no trabalho criativo · Direitos sobre a imagem manipulada por IA · Impacto no mercado de trabalho audiovisual · Regulação para casos extremos (amigo virtual, suicídio) · IA na saúde e agricultura · Debate jurídico sobre obrigações
- Carreira e mercado de arte digitalDublagem em outros idiomas com voz original · Uso de IA em cenários de novelas · Desafio de oferecer o que a IA não oferece · Experiências autorais e humanas no audiovisual · Obras que marcam o público · IA como referência, não única referência
- Ética e responsabilidade da IAPermissão para discursos nazistas, racistas e violentos · Intenção das empresas em manter o uso da tecnologia · Mercado vs. ética · Avanço tecnológico com ética e humanidade · O direito de espairecer · Conversacionismo
- Experiências de InfânciaConversa com os filhos sobre tecnologia · Equilíbrio entre tecnologia e brincadeiras · Uso da IA para aprendizado escolar · Risco de perda da capacidade de reflexão · Comportamento de máquina vs. comportamento humano · Subtexto e aprofundamento nas relações
Natuza Nery:Do palco do Web Summit, eu sou Natuza Nery e o assunto hoje é Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos:O assunto é Lázaro Ramos?
Natuza Nery:É Lázaro Ramos.
Lázaro Ramos:Tem certeza?
Natuza Nery:Tenho certeza absoluta. E pensa como eu tô feliz de fazer esse assunto, Lázaro Ramos. Para você que é assunter, hoje eu trago um episódio extra com Lázaro Ramos. Você já parou para pensar o que acontece quando a inteligência artificial encontra arte? Como é que fica a autoria e o trabalho de quem vive de imaginar, de escrever, interpretar, contar histórias em um mundo cada vez mais atravessado por robôs? Pois bem, este episódio foi gravado ao vivo, com plateia, no Web Summit Rio 2026, uma das maiores conferências de tecnologia e inovação do mundo. Então, fica comigo para acompanhar esse Papo Especial. Lázaro, a gente evidentemente está tratando aqui de inteligência artificial, então antes de mais nada quero te perguntar: Qual é a tua relação assim? O que que o seu coração diz quando a pauta é inteligência artificial?
Lázaro Ramos:Pois é, eu vindo para cá eu fiquei preocupado porque eu falei: nossa, vou para um evento que vai falar sobre tecnologia, várias pessoas que trabalham com isso, e eu tenho uma relação conflituosa. Se por um lado eu sou absolutamente apaixonado por todas as possibilidades que a IA pode trazer para agricultura, para aceleração de processos no campo da saúde, no campo das avaliações. Por outro lado, eu sou uma pessoa também preocupada com a IA porque eu acho que tem uma regulação que é importante ser feita de várias instâncias, né? E essas regulações, acho que a gente vai poder falar um pouquinho mais, ela tem a ver com preservar alguns valores que eu prezo muito, principalmente dentro do meu trabalho, dentro do que me motiva criativamente, dentro do que eu sinto que toca as pessoas. A minha profissão é trazer as sensações humanas mais espontâneas, um riso largo, um choro que você não sabe pelo que é, uma reflexão. E isso é produzido com alguns processos que a IA ainda não consegue atingir. Então eu reflito muito sobre isso, tenho usado com parcimônia, como pai também tenho conversado muito com meus filhos. E ainda tô com algumas frases, pode ser que daqui algum tempo eu diga diferente, mas eu ainda prefiro uma música feita por Cartola do que uma feita pelo Suno. Eu tô aqui assim nesse momento.
Natuza Nery:Não, tá tudo certo. Eu acho que muita gente compartilha das mesmas angústias que você. E aí a minha grande dúvida nessa história toda é a relação do artista com o IA. Você já teve alguma imagem tua manipulada por IA?
Lázaro Ramos:Você já passou por Já passei por uma experiência que era de um anúncio de um produto. Felizmente, um seguidor me avisou com antecedência, a gente entrou em contato e esse anúncio saiu do ar. Mas por outro lado, a novela que eu tô fazendo atualmente, algumas pessoas fazem versões da novela com imagem dos personagens e que estão aí disponíveis. Por enquanto tá na instância da brincadeira, da diversão, do entretenimento. Tem algo que eu me preocupo hoje em dia, por isso que eu falo sobre regulação, É assim, porque eu sou um profissional das artes que eu escolho muito bem o que eu quero falar, em que projeto eu quero estar envolvido, que assunto eu quero levar para as pessoas, que conteúdo e que gênero eu quero fazer parte. Uma imagem manipulada minha utilizada num produto, num filme, num discurso que eu acredito, eu acho um grande problema. Porque tem muita gente que, por exemplo, assiste as minhas coisas porque sabe que tem uma curadoria um pensamento, né, uma ética, um tipo de humor que eu faço. E isso é algo que eu acho que é um direito meu, a minha imagem estar a serviço disso. Hoje em dia eu não sei bem se a gente tem este controle, mas eu acho que é uma reflexão importantíssima.
Natuza Nery:E daí entra o aspecto da regulação, né, porque se não tiver regulação, daqui algum tempo podem dizer que a sua imagem feita por AI não é sua.
Lázaro Ramos:Exato.
Natuza Nery:Portanto, você não tem direito sobre essa imagem, inclusive financeiro.
Lázaro Ramos:Exatamente. Financeiro, principal também, né? Uma das outras coisas que eu, no começo da conversa com a IA para usar no meu setor de trabalho no audiovisual, que eu fiquei muito preocupado, foi assim, eu falei: nossa, vai acelerar vários processos, mas vai acabar várias profissões com muita rapidez. Hoje em dia, por exemplo, para você fazer um storyboard de um filme, que você contratava um designer, sentava, conversava, planejava, Você consegue fazer um storyboard em 20 segundos com um AI. Então esses profissionais que viviam disso não tiveram exatamente um tempo para se adaptar para essa nova realidade. Eu acho que foi um bonde que a gente perdeu, né? E é toda uma indústria que se mantém disso. As pessoas estão correndo, estão se adaptando, estão entendendo como é que vai ser, estão caindo os rendimentos, que eu acho que é uma coisa natural que vai acontecer no mercado da gente. Eu acho que não vai ter mais os super salários. Essa é uma verdade. Mas só que eu sinto falta da gente ter tido esse tempinho de adaptação. Assim como eu sinto falta desse debate juridicamente. O que é que a gente vai regular? Quais vão ser as obrigações? Uma das preocupações que eu tenho é hoje em dia a gente nas IAs, a gente não ter regulação para casos extremos, como por exemplo um jovem que entra numa IA agora e cria um amigo virtual. A gente não tem uma regulação que a IA, se esse jovem começar a falar sobre suicídio, ela precisa indicá-lo a um médico ou para conversar com o familiar. Isso é muito sério. Tem alguns casos extremos que eu acho que precisam ser regulados, sabe? Não dá para você conversar até o fim. A gente tem alguns, inclusive programas de televisão internacionais, que já mapearam vários desses casos de jovens que estavam conversando, que se suicidaram. Então esse tipo de conversa eu acho importante. Quando eu falo sobre isso, não tem nada a ver com impedir o avanço da tecnologia, porque é claro que eu quero que a IA ajude no diagnóstico precoce de câncer. Eu vi inclusive em Dubai um scanner de IA maravilhoso, que era assim, você passa pelo scanner e ele já dá um primeiro diagnóstico, já vê se você já tá com febre. Achei fascinante. Eu quero que a IA chegue na agricultura e veja como é que a gente usa menos agrotóxico e ainda assim florescem mais alimentos. Tá tudo certo, é tudo legal, mas tem algumas coisas muito ligadas à nossa saúde, ao humano, à empregabilidade, que eu acho que a gente precisa legislar.
Natuza Nery:Já que você citou esse aspecto, né, de ser pai, de se preocupar com isso, Qual é o tipo de conversa que você tem com seus filhos sobre tecnologia? Eu te pergunto porque eu fiz um episódio de O Assunto faz algum tempo, que a gente detectou esse fenômeno de pessoas, muitas que não conseguiam pagar um psicólogo, se consultando com a inteligência artificial. E aí isso tem um debate social importantíssimo, né? Porque profissional não está sempre disponível para todo mundo e a gente sabe que a gente mora num país muito desigual. E ao mesmo tempo, Mesmo pessoas jovens, gente da nossa idade, da nossa faixa etária, idosos que se consultavam com o IA. E aí eu fiz um episódio de O Assunto dizendo: olha, qual é o limite disso? Aí você fala: bom, aí tem que ter um limite. Se a pessoa sinaliza com suicídio, sinaliza com automutilação, tem que ter algum alerta, tem que ter algo que diga. Tem IA que já faz isso, que recomenda que se consulte um profissional da área, mas tem a que não faz. E aí eu te pergunto: que tipo de conversa você tem com os teus filhos sobre tecnologia? Você proíbe eles de fazer alguma coisa? Você não proíbe? Você conversa? Você alerta?
Lázaro Ramos:É, tô na fase da proibição e muita conversa. E é muito engraçado, vou citar até uma coisa que eu aprendi lá nos idos de 2004.
Natuza Nery:Outra era geológica.
Lázaro Ramos:Outra era, quando eu resolvi escrever um livro infantil para falar sobre uso de tecnologia. E olha como são as coisas, eu uso muito isso para conversar com meus filhos. Eu criei a história de uma menina que era muito parada porque ficava o tempo todo na frente da televisão e do computador e nos joguinhos. Ela não brincava, não corria na rua. E um dia ia uma vizinha na casa da mãe dela e dizia assim: "Nossa, essa sua filha é muito parada, parece que ela tem uma velha sentada na cabeça." Isso era um livro infantil, chama "A Velha Sentada". E aí essa menina acreditava nisso e entrava na própria cabeça para procurar a velha, para tirar a velha de lá. Essa velha que fazia com que ela ficasse parada. A menina procurava no olho, no paladar, no olfato, na audição. E aí eu parei o livro, porque quando a menina encontrou a velha, eu não sabia o que fazer, porque o primeiro texto que eu escrevi foi assim: tecnologia é um absurdo, tem que brincar na rua, não se aproxime do joguinho, não pode assistir. Eu falei: gente, mas não é possível, isso não é real. E eu parei esse livro por 3 anos, até que através de uma piada eu falei: já sei onde é que tá a velha. A piada é o seguinte: a velha estava na via que liga o cérebro ao coração. Ela tava bem no meio. E aí eu falei: por quê? Porque é justamente o equilíbrio, né? É saber onde usar e aonde recolher também e viver outras experiências. É esse tipo de infância que eu tento proporcionar a meus filhos. Hoje em dia, o meu filho outro dia me mostrou uma coisa que eu achei maravilhosa. O conteúdo que ele recebeu da escola, ele pegou, colocou dentro da IA e pediu para que a IA criasse um joguinho para ele. Para ele pegar o assunto que ele já sabia e estudar. Eu achei maravilhoso porque ele se apropriou da tecnologia criando uma coisa que ia ajudar ele a compreender mais o assunto. Mas eu já vi situação de outras crianças, é, que estavam perdendo a capacidade de reflexão, queria acelerar tanto o processo, queria já fazer o trabalho pronto, pedir para o chat fazer o trabalho, entregar para escola sem nem ler. E os professores estão tendo uma questão grande, né, de trabalhos feitos no chat. E quando chega, diz: olha, isso aqui foi feito do chat. Não é só para para você me dar o trabalho, é para você refletir, para você ler, para você criar. Então a minha conversa com meus filhos é muito sobre a importância deles manterem a capacidade criativa deles e de reflexão. E se eles tiverem alguma dúvida, alguma coisa, eles conversarem com a gente. Agora, é exaustivo, Natura, é exaustivo, porque tem dias que eu digo assim: eu preciso tirar eles disso, que eles só querem ficar nisso. Então é uma vigilância constante. E tem dias que eu estou exausto, eu falo: "Tá, isso hoje é com você." A gente reveza, porque realmente a nossa presença como pais, ela precisará ser constante. Não tem outro caminho, porque a gente vai precisar conduzi-los ainda. Eles estão em formação, né? Assim, falar sobre, por exemplo, eu vejo eles se divertindo muito com alguns vídeos de IA. Aí eu falo: "Para aí, agora a gente tem uma conversa." Minha filha já fala assim: "Ai, já sei, dramaturgia." Aí eu falo: é, vamos sair disso aqui, a gente vai ver dramaturgia. Por quê? Porque tem algumas coisas que a dramaturgia vai te oferecer que a IA não oferece. Você sabe o que é subtexto? Outro dia a gente teve essa conversa. Subtexto, o sentimento, ele não vai vir chapado. Às vezes a atriz vai estar sorrindo, mas tá chorando. O que é que quer dizer isso? É esse aprofundamento nas relações que eu acho muito importante para falar com meus filhos, porque senão a gente começa a reproduzir comportamentos de máquina. O que é o comportamento de máquina para mim? É ficar passando o dedo eternamente vendo uma coisa sem fixar em nada. O que é o comportamento de máquina? Você saber que tem um chat que vai fazer o serviço para você, que ele vai repetir aquele processo, você já vai ter pronto. E aí, onde é que vai ficar as outras coisas que são tão importantes, né? A sensibilização, a reflexão, a criatividade. Então é conversa chata. Eles já sabem que a gente é chato, mas essa é a nossa função. Outro dia minha filha falou assim: eu tô "Eu tô com raiva." Aí eu falei: "Não tô nem aí, eu sou seu pai, é nessa que eu ando." Você sabe que recentemente meu filho recebeu um texto e aí o texto era horrível, eu não entendi o texto.
Natuza Nery:Aí eu falei: "Você leu? Lê de novo." Ele falou: "Continuo perdido." Aí eu falei assim: "Então você tem o texto em PDF?" "Tenho o texto em PDF." "Então joga na IA." Jogou, jogou. "Pede para ele te dar os pontos principais." Aí adeus, o texto continuava horrível. Eu disse assim: "Pede para te explicar em linguagem de boteco." E aí o mundo se abriu para mim e agora tudo que eu quero falar simples eu preciso falar em IA. Eu falo assim: "Como é que eu explico esse conceito aqui em linguagem de boteco?" E aí a minha IA já diz assim: "OK, Natuza, é em linguagem de boteco." Então agora eu consigo simplificar temas muito complexos, comunicar, na verdade, temas muito complexos me valendo da IA, mas é um uso superficial, ele não é um uso profundo, né? E eu queria te perguntar uma outra—
Lázaro Ramos:Peraí, deixa eu só dizer uma coisa: você usa assim porque você é uma pessoa elevada, né? Eu uso no geral para ser cínico. Por exemplo, quando eu quero brigar com uma pessoa, eu tô com raiva, eu escrevo no chat umas coisas bem raivosas e falo: agora transforma isso tudo numa mensagem mais cínica. Aí resolve muitos problemas para minha vida.
Natuza Nery:É a alter ego, né? Excelente! Eu não fiz esse uso da— Eu não fiz esse uso da—
Lázaro Ramos:Menina, mas livre de tanta briga, tem que fazer.
Natuza Nery:Muito bom. Agora, quando você olha para o teu mundo, que é o mundo artístico, você já revelou aqui uma preocupação com o mundo do trabalho, né? Como ficarão as pessoas ultrapassadas pela IA ou atropeladas pela pela IA. Como é que você enxerga o teu mercado com a IA daqui a 10 anos? Tô fazendo só um exercício aqui para a gente ver o que que tá na tua, até onde vai a sua criatividade em relação à inteligência artificial.
Lázaro Ramos:Nossa, primeiro assim, eu tenho muita consciência de que tudo vai mudar, né? A gente, por exemplo, alguns setores, dublagem, hoje em dia você dubla em qualquer idioma com a voz do ator original um filme.
Natuza Nery:Isso é incrível, né?
Lázaro Ramos:É, isso é incrível, mudou, mudou, é outra coisa. É, você já não precisa mais de storyboard, efeito Gostos especiais, a novela que eu faço, A Nobreza do Amor, recomendo, está passando nesse minuto, a novela é ótima. Alguém aí já assistiu? Vou aproveitar e dizer: viva a batanga! A novela é maravilhosa. A novela tem uso de IA, tem alguns cenários que são feitos por IA, que a gente captou primeiro em Mossoró, no Rio Grande do Norte, e agora a gente trabalha com a IA e ficam assim que ninguém percebe o que é IA e o que não é. Isso é muito legal. Tudo isso é muito bom, mas eu como criador, eu me sinto desafiado a oferecer ao meu consumidor, ao meu público, aquilo que a IA não vai oferecer. E isso eu associo muito a uma coisa que aconteceu no Brasil aqui nos últimos anos e que foi um aprendizado, que foi assim: o mercado do audiovisual entrou numa crise grande, como vários mercados, durante a pandemia, né? Muita gente sem trabalho e muita gente, quando a pandemia foi passando, começou a ser cliente, trabalhar e produzir e criar para streamings. Num determinado momento, os streamings começaram a trabalhar com padrões algorítmicos com pesquisas e testes e produziu, por exemplo, um monte de filme que a gente até assistia, mas acabava o filme e você não sabia o nome do protagonista, você não lembrava o início do filme. Que tipo de experiência é essa que tá sendo criada, né? O que que a gente tá perdendo e que o entretenimento pode nos oferecer, né? Os filmes que ficam com a gente para sempre. Você chega em casa, você lembra de uma piada e ri, você lembra de uma cena romântica A cena do Hamnet, por exemplo, todo mundo fala, para dar um filme recente, daquela atriz assistindo o espetáculo pela primeira vez. De vez em quando eu lembro e falo: nossa, que bonito! É uma experiência que fica na gente, fica tatuada. E a gente, durante um período, produziu um monte de coisa que passava. Acho que aprendemos, porque eu já vejo alguns novos filmes sendo feitos até para streaming que estão sendo mais autorais, que estão sendo mais imperfeitos, que usam o algoritmo como referência, mas não como única referência. Mesmo porque o estudo do algoritmo geralmente é para saber o que foi sucesso, mas ele não antecipa a tendência. Até quando a gente vai para IA perguntando qual é o caminho de criação aqui, ela dá umas opções, mas não é uma certeza. Como é que a gente vai fazer uma grande obra de arte? Não tô falando assim da gente fazer o Cidadão Kane, mas de uma obra que faça sentido a pessoa sair da sua casa e ir para um cinema, ligar a televisão para assistir. É sendo autoral, é sendo muito humano, é criando experiências diferentes. Eu acho que é esse o grande desafio que a gente tem. A gente não vai poder ficar acomodado em fazer apenas o que é padrão. A gente vai ter que atiçar muito a criatividade, pensar nos processos criativos, pensar nos novos estímulos e narrativas, para a gente continuar fazendo sentido na vida das pessoas, para continuar fazendo sentido a pessoa querer assistir a gente e ouvir o que a gente está falando. Alguém aplaudiu aí, deve ser algum parente. Tem algum parente?
Natuza Nery:E se daqui, vamos fazer um outro exercício que me veio à cabeça agora te ouvindo. E se daqui a 20 anos um diretor de cinema te fizesse um convite e dissesse assim: "Lázaro, eu quero fazer um filme todo em áudio, você não precisa atuar." E 1 hora e 50 depois você assiste ao filme e 1 hora e 50 depois você Disse: "Sou eu todinho. Se eu tivesse feito esse filme, seria eu nesse papel." Você autorizaria esse filme recebendo inclusive por ele?
Lázaro Ramos:Eu ia cobrar mais caro do que eu cobro e enquanto o filme estivesse sendo exibido, eu ia fazer teatro. Eu ia ganhar dinheiro duas vezes. Aceito propostas.
Natuza Nery:Desde que a atuação fosse impecável, né?
Lázaro Ramos:É, e não tivesse nude. Ou se tivesse nude, que melhorasse minha barriga. Esse tipo de piada, Iá não faz. Eu só queria registrar isso aqui, tá?
Natuza Nery:Tem uma outra discussão que eu queria muito ter com você, que é sobre os Limites da IA a partir do algoritmo racial. Eu queria te falar de uma pesquisadora americana, canadense, melhor dizendo, preta, que foi fazer uma pesquisa no MIT e ela começou a ter dificuldade de ter o rosto preto dela reconhecido. E aí ela mandou fazer uma máscara branca. Então, o sistema de reconhecimento facial puriá, não a reconhecia pelo rosto preto dela. O que ela fez? Ela botou uma máscara e automaticamente ela passou a ser— uma máscara branca— e automaticamente ela passou a ser reconhecida. O nome dela é Joy Buolamini e ela acabou sendo responsável por alertar grandes empresas, de Amazon abaixo, sobre como A inteligência artificial precisa ser responsável. Muita gente a ouviu, na época ela conseguiu uma audiência com o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Então eu queria muito falar do viés racial nos sistemas de reconhecimento facial por IA, porque tem aí um debate se a IA é feita por pessoas brancas sem ouvir ou sem ter no board pessoas pretas, a gente vai reproduzir no mundo artificial da inteligência artificial a prática racista do mundo real. E isso vai produzir injustiças atrás de injustiças. Tanto é assim que há muitos relatos de pessoas, de um homem, por exemplo, ela cita o caso desse homem injustamente preso porque a IA o associou a alguém que tinha cometido um crime, ele foi preso, ficou uma noite preso porque o sistema de reconhecimento facial falhou.
Lázaro Ramos:Pois é, isso é importantíssimo, é esse tipo de debate que a gente precisa ter, né? Que inclusive são questões que já nos permeiam na sociedade, né? Alguns anos atrás, quando você começou a me falar, eu me lembrei de um movimento que teve para os sites de pesquisa, porque quando você pesquisava assim "homem", só eram homens brancos. Para você achar uma imagem de homem negro, você tinha que colocar "homem negro". Quando você colocava "mulher bonita", eram só mulheres brancas. Se você quisesse uma mulher, você tinha que colocar o negro junto, né? Olha que injustiça, olha que problema. E quando você fala sobre isso, imagina um sistema policial usando reconhecimento facial. Quantas injustiças não podem ser cometidas, né? Então esse tipo de sutileza, esse tipo de avanço precisa ser discutido também.
Natuza Nery:É, e tem uma discussão no mundo que eles estão fazendo agora Que é quando você vai fazer um sistema, desenvolver um sistema de inteligência artificial. Ah, e por que não há só o algoritmo racial nessa história, né? Há o algoritmo de gênero também. Então você vê o risco de preconceitos da própria sociedade, da humanidade, sendo produzidos e desenvolvidos e cometendo erros na vida real das pessoas.
Lázaro Ramos:E aí a pergunta que me fica, ai meu Deus do céu, Nós lutamos tanto contra violências, contra injustiça, contra preconceitos. Realmente tem que ser permitido tudo na IA? Realmente tem que ser permitido produção de um discurso nazista, de um discurso racista, de um discurso violento? Que sociedade a gente quer? A liberação tecnológica deve ser tanta assim? Aonde é que a gente vai chegar se a gente não pensar numa ética que nos proteja. Eu acho isso um assunto muito sério e eu acho que as empresas precisam ser responsabilizadas e pensar nisso, porque muitos dos donos de empresas falam assim: olha, é, isso é um serviço livre, a internet é livre, a tecnologia é livre. E tem uma intenção por trás também, é de que nós usemos essa tecnologia por mais tempo possível. Inclusive, por isso algumas empresas se recusam a regular os casos de pessoas começam a falar em suicídio, porque se você regula, a pessoa abandona a tecnologia. Então a gente está falando de mercado e de ética, né? A gente está chegando aqui no fim e eu acho que é muito importante a gente ter isso na consciência. E eu acho que é totalmente possível a gente avançar tecnologicamente, a gente produzir dinheiro, produzir renda, mas ainda assim sermos éticos e humanos.
Natuza Nery:Porque não pode haver dois mundos, né? Um mundo desse nosso em que estamos todos aqui, de carne e osso, trabalhando, vivendo, amando, e a regra valer para isso aqui e não valer para um outro lugar, né? Não valer para uma extensão dessa realidade que nós vivemos. Então, já que você É um otimista pessimista, né? Acho que dá para a gente— e eu também me encontro nesse teu— se é que eu traduzi bem a sua relação de amor e medo com a inteligência artificial, que é uma relação que acho que muita gente aqui pode ter também. Eu tenho. Eu queria que você se despedisse desse episódio dizendo: no mundo em que o Lázaro Ramos se você fosse o líder principal, como é que seria?
Lázaro Ramos:Olha aí, eleição para presidente está chegando.
Natuza Nery:Como é que seria esse mundo? Como é que seria a IA nesse seu mundo se você tivesse esse poder, esse domínio?
Lázaro Ramos:Nossa, eu tenho um sonho que é muito grande. I have a dream. Foi sem querer, tá? Juro por Deus. Mas eu tenho um sonho. Outro dia eu tava conversando com um amigo e eu fiz uma brincadeira que assim, gente, não tem embasamento científico, sociológico nenhum. Mas eu falei assim, nossa, a gente tá indo para um tempo que a gente tá tão ansioso, tá tão inseguro. Eu fico pensando assim, coletivamente, o que é que a gente vai querer, né? Um mundo de tanta disputa, de tanta incerteza. Aí eu falei assim, já sei qual é o meu sonho, porque eu acho que assim, nos anos 70, enquanto sentimento coletivo, a gente lutava pelo direito de ser. Nos anos 80, e não tem embasamento científico, tá, gente? Pelo amor de Deus, eu sou artista. Nos anos 80, a gente lutava coletivamente pelo direito de ter. Aí vem ombreira grande, cinto largo, roupas coloridas. Nos anos 90, a gente vai pra, enquanto sentimento coletivo, para o direito de aparecer. Aí vem reality show e etc. Tá massa a tese, né? Aí quando chega nos anos 2000, a gente vai tentando o direito de parecer. É o quê? É o Instagram com a foto bonita, tá tudo bem, é o prato de comida. A gente parece alguma coisa, a gente se vende. Aí, qual é o meu desejo para o futuro? Que a gente tenha o direito de espairecer, de não ficar com tanta angústia, com tanta incerteza e etc. E isso eu acho que vai ser produzido numa coisa que assim, eu vou discordar de você, você falou que eu sou um otimista pessimista. Eu não sou nenhum dos dois, eu sou um conversacionista. Eu acho que a gente tem que conversar sobre os assuntos, por mais delicados que eles sejam. A gente só não pode silenciar, entubar e achar que a vida vai seguir assim. E a gente tem essa capacidade de conversar, conversar sobre ética, sobre afeto, sobre a luta contra os preconceitos e sobre o uso responsável da inteligência artificial.
Natuza Nery:É isso. Desculpa ter te definido, hein?
Lázaro Ramos:Eu pensei isso agora. Não tinha essa certeza, não.
Natuza Nery:Lázaro, foi um prazer. Entrevistá-lo neste episódio de O Assunto. Foi um prazer entrevistá-lo aqui diante de vocês. Muito obrigada.
Lázaro Ramos:Nobreza do amor, de segunda a sábado, novela é ótima.
Natuza Nery:Este foi O Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stefani Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.