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O fator Netanyahu na busca por um acordo de paz no Oriente Médio

09 de junho de 202628min
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Convidado: Hussein Kalout, PHD em Política Internacional, professor de Relações Internacionais da USP, pesquisador da Universidade de Harvard e ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Neste domingo (7), um ataque israelense ao subúrbio de Beirute, capital do Líbano, rompeu a trégua que estava em vigor entre os dois países: Israel afirmou que buscava atingir alvos do Hezbollah; o governo libanês informou que o bombardeio deixou mortos e feridos. Em resposta, o regime iraniano afirmou agir em defesa do Líbano e lançou uma onda de mísseis em direção ao território israelense. O governo de Israel, por sua vez, reagiu e atacou alvos iranianos. A escalada entre Irã e Israel colocou em xeque o cessar-fogo firmado em abril entre os dois países, em um acordo mediado pelos EUA. Diante do risco de mais hostilidades, Donald Trump fez um apelo para que ambos parassem imediatamente os disparos e foi atendido – pelo menos, num primeiro momento. Nos dias anteriores, Trump já havia pressionado Benjamin Netanyahu a evitar uma escalada militar e ampliar as operações na região. Neste episódio, Natuza Nery entrevista Hussein Kalout, analista de política internacional, para explicar quais os interesses dos principais atores envolvidos: Israel, Estados Unidos, Irã e Líbano. Kalout destaca o papel de Netanyahu no conflito e nas negociações – a permanência do primeiro-ministro de Israel no cargo será definida em eleições marcadas para outubro.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
D

Donald Trump

ConvidadoPresidente dos Estados Unidos
H

Hussein Kalout

ConvidadoProfessor de Relações Internacionais
Assuntos6
  • Benjamin Netanyahu e seus processosBenjamin Netanyahu · Interesses eleitorais · Estratégia para colapsar acordo Irã-EUA · Processos de corrupção · Falhas de segurança de 7 de outubro
  • Ataque aéreo EUA-Israel ao IrãAcordo nuclear rompido por Trump · Guerra contra o Irã · Netanyahu como passivo estratégico · Desconfiança dos EUA no Golfo Pérsico
  • Ataques EUA e IrãDonald Trump · Eleições de meio de mandato · Acordo nuclear iraniano · Enriquecimento de urânio · Influência iraniana na região
  • Conflito Israel-Hezbollah no LíbanoHezbollah · Governo libanês · Uso da força · Negociações com Israel · Desmilitarização do Hezbollah · Financiamento e armas do Irã
  • Ataques israelenses no LíbanoBombardeio em Beirute · Uso de fósforo branco · Reação do Irã · Escalada militar
  • Guerra no Oriente MédioVítimas civis · Deslocamento de pessoas · Impacto econômico global · Preço do petróleo e gás
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NNNatuza Nery

Domingo de manhã em Beirute, no sul da capital do Líbano, um bombardeio deixou mortos e feridos. O ataque veio de Israel e rapidamente se tornou um empecilho para um cessar-fogo. E essa não é a primeira vez que isso acontece. Desde o cessar-fogo costurado pelos Estados Unidos, Irã e também Israel, firmado em abril, ocorreram mais de 3 mil ataques israelenses, segundo o Ministério da Defesa do Líbano. E o jornal americano The New York Times informa que há evidências até de que foi usado fósforo branco nesses ataques.

Trata-se de uma substância química altamente incendiária e que causa queimaduras severas, tanto que convenções internacionais condenam o uso desse material em ataques a civis. Desta vez, a ofensiva israelense gerou reação imediata.

HKHussein Kalout

O Irã voltou a atacar Israel depois de 2 meses de cessar-fogo.

NNNatuza Nery

A Guarda Revolucionária iraniana confirmou que disparou mísseis balísticos contra uma base aérea no norte de Israel. Esse é o primeiro ataque iraniano a Israel desde o cessar-fogo no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos em abril. Mas a resposta veio também de Washington. Por telefone, Donald Trump pressionou Benjamin Netanyahu pela suspensão dos ataques israelenses. Segundo o jornal israelense Haaretz, o presidente avisou Netanyahu que é ele, Trump, quem dá as cartas em relação ao conflito e que o primeiro-ministro não tem escolha além de aceitar as exigências do Irã para um cessar-fogo com os Estados Unidos.

Trump teria exigido que Netanyahu não ataque o Irã em resposta aos mísseis Mas mesmo assim Netanyahu atacou. Em retaliação a um ataque de mísseis lançado pelo Irã, Israel bombardeou alvos militares em várias cidades iranianas, como Isfahan e a capital, Teerã. O apelo de Donald Trump era para que não houvesse uma nova escalada na guerra. E quando as hostilidades pareciam escalar, Israel e Irã anunciaram que interromperiam as operações militares, pelo menos por enquanto.

HKHussein Kalout

Uma decisão de Israel e Irã de suspender a escalada militar depois que o presidente americano Donald Trump exigiu que os dois lados parassem os bombardeios.

NNNatuza Nery

O presidente Donald Trump tem pressa para acabar com essa guerra que já dura mais de 3 meses, muito além das 4, 5 semanas que ele disse que duraria, e ele não quer lidar com uma escalada militar nessa semana. Da redação do G1, eu sou Nathuzaneri e o assunto hoje é: O fator Netanyahu na busca por um acordo de paz no Oriente Médio. Neste episódio, eu converso com Lucien Kalou, PhD em Política Internacional, professor de Relações Internacionais da USP, pesquisador da Universidade de Harvard e ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

Terça-feira, 9 de junho. Bom, Kalu, esse conflito no Oriente Médio tem 4 atores principais: de um lado, Israel e Estados Unidos, e do outro, o Irã e o próprio Líbano. Eu quero a tua ajuda para a gente destrinchar os objetivos de cada um desses atores, começando por Israel. Quais são os interesses israelenses nessa etapa do conflito?

HKHussein Kalout

O Netanyahu e Israel nessa etapa do conflito têm procurado ampliar o escopo do confronto, por um lado com o Líbano, por outro lado tentar implodir a negociação entre Estados Unidos e o Irã. O Netanyahu, ele precisa de uma saída para o processo eleitoral israelense, cujo qual ele se encontra debilitado. Então o conflito no Líbano torna-se uma peça central em sua campanha eleitoral. Em termos objetivos, no Líbano ele não há como ganhar nada.

A explicação dele de que ele precisa ocupar uma faixa territorial denominada de zona amarela para garantir a segurança de norte de Israel, ela na prática não garante a segurança do norte de Israel porque o Hezbollah é capaz de atacar o norte de Israel e provou isso nos últimos dias. No fim de semana, depois de novos ataques do Hezbollah ao norte de Israel, hospitais transferiram pacientes para instalações subterrâneas. O Netanyahu atacar Beirute faz parte de sua estratégia para, na verdade, colapsar o acordo entre o Irã e Estados Unidos.

NNNatuza Nery

Mas ele não é aliado do Trump? Por que que ele tá querendo fazer isso?

HKHussein Kalout

Pelo seguinte, o Netanyahu, ele quer que o Líbano seja destacado para fora do acordo, seja dentro do entendimento entre Irã e Estados Unidos, que o Líbano não seja contemplado no acordo geral de paz entre os lados. O Irã não abre mão, no âmbito do acordo, que o Líbano não esteja presente. Do lado americano, os americanos concordaram que o Líbano esteja presente, em que o cessar-fogo e a paralisação da guerra seja entre todos os atores.

Netanyahu precisa separar o portfólio libanês dessa equação. A forma dele, Netanyahu, atrapalhar o acordo é atacar Beirute. Porque os iranianos haviam anunciado, na hipótese de Netanyahu atacar Beirute, os iranianos atacariam, revidariam em contrarresposta ao Netanyahu, atacariam território israelense, atacariam o norte de Israel. Isto significa que o Netanyahu, no fundo, desejava atrair os iranianos de volta para o conflito. E isso tá plasmado na insatisfação do Trump na última ligação telefônica com Netanyahu, cujo qual a Casa Branca vazou para Axios.

Qual é o objetivo do Netanyahu? O Netanyahu hoje na corrida eleitoral, ele está atrás, ele está em desvantagem significativa. Os três partidos de oposição se uniram numa coalizão contra ele e estão liderando a corrida eleitoral. Na hipótese, hoje, dado o cenário, se tivesse eleição hoje em Israel, ele perde. Quais são as consequências do Netanyahu? Ele vai imediatamente responder aos processos de corrupção. Significa que ele está na iminência de ser preso.

Mas, além disso, ele terá que responder às falhas securitárias de 7 de outubro, que, por hora, o seu governo e ele, pessoalmente, não respondeu.

NNNatuza Nery

Um ataque surpresa pelo ar e também por terra. Uma infiltração no território israelense sem precedentes, no ataque mais pesado contra Israel desde os atentados suicidas da Segunda Intifada, há cerca de duas décadas. Centenas de homens armados do grupo extremista Hamas entraram nos edifícios e cercaram uma base militar.

HKHussein Kalout

Então, enquanto houver guerra, a posição do Netanyahu, ela fica protegida. Por isso que ele precisa arrastar o seu governo, Israel, em guerra até outubro, até o período eleitoral. Sem guerra e sem o Irã engajado, a sua posição no contexto interno, ela fica bastante enfraquecida.

NNNatuza Nery

Só para dar um contexto aqui, para não ficar fora de esquadro, você disse que a Casa Branca vazou para o portal Axios uma conversa de Trump com Netanyahu. Só para esclarecer que nessa conversa o Trump teria dito para Netanyahu que se não fosse por ele, o Netanyahu estaria na cadeia. Ou seja, foi uma conversa, segundo Axios, bastante tensa.

HKHussein Kalout

Simplesmente, o que o Irã quer é estabelecer um novo padrão para as regras de engajamento com Israel. É limitar a capacidade de ação e de intervenção de Israel na região. Então, a proposição do Irã de que se Israel atacar Beirute, Irã vai retaliar, se enquadra nesse novo marco, que é a busca do restabelecimento de um novo padrão e de novas regras de engajamento. Significa que Israel não terá, digamos, a mão livre para fazer o que bem entender no Oriente Médio.

A leitura iraniana é que Netanyahu, ele está afundado no Líbano. Ele na verdade ele está tendo perdas maiores do que se esperava no Líbano. A perspectiva, Renata, é que ao bombardear Israel, eles vão afundar Netanyahu no processo eleitoral ao ponto que isso vai levá-lo a uma derrota. E que uma vez consolidada a derrota do Netanyahu, aí sim vai ser muito mais fácil chegar-se a um acordo com os americanos, com Netanyahu fora do cenário.

NNNatuza Nery

Você citou o quadro eleitoral em Israel, que a Netanyahu interesse é estar constantemente em guerra para se fortalecer lá internamente. Mas o Trump também tem uma eleição, a eleição em Israel você citou, outubro. O Trump também tem uma eleição que é eleição de meio de mandato que é em novembro. E aí eu te pergunto, como é que esses interesses conflitantes dos Estados Unidos e de Israel vão se encontrar?

HKHussein Kalout

Uma pergunta chave. Por isso que o Irã opera de forma, digamos, confortável Os iranianos, eles não têm pressa para nada. Eles sabem que o Trump tem as eleições do meio de mandato em novembro, eles sabem que Netanyahu terá que disputar as eleições em outubro. Eles não têm pressa nenhuma para fechar o acordo, entende? Quanto mais demora, na visão iraniana, melhor. Agora, essa visão, você mencionou muito bem, ela é conflitante entre os interesses de Netanyahu e do Trump.

O Trump, de fato, precisa de um acordo viável em que ele, digamos, saia com uma imagem de vitorioso no contexto do acordo. Em que o acordo possa ser, digamos, é vendido para a opinião pública americana e para o eleitorado republicano como um acordo melhor, digamos, do que o acordo assinado pelo Barack Obama em 2015 com o Irã.

?Voz D

Os republicanos, por exemplo, e até alguns democratas inclusive, temem que o Irã possa trapacear e continuar enriquecendo urânio, por exemplo, a ponto de produzir a temida bomba atômica. Com o fim das sanções, os iranianos vão ter acesso a bilhões de dólares que estavam congelados em bancos do exterior. E com mais dinheiro, podem, em tese, comprar mais armas, aumentar o poder na região. O Irã já exerce uma influência crescente no Iraque e na Síria.

Agora, os apoiadores de Obama, os aliados de Obama, lembram que o presidente fez o que prometeu: investiu na diplomacia, costurou um acordo com a comunidade internacional, já que os Estados Unidos não queriam entrar em mais uma guerra.

HKHussein Kalout

Só que o marco temporal, ou seja, a régua temporal do Trump, ela não pode chegar até outubro. O Trump precisa de acordo logo. Então, o Trump precisa de acordo mês que vem, em agosto. Ele não pode esperar até outubro ou novembro, porque até lá isso lhe gerará enormes custos para sua base de apoio. E por isso a irritação dele com Netanyahu, entendeu? Porque o Trump já entendeu o que Netanyahu quer. A tentativa do Netanyahu de atrapalhar o acordo entre Irã e Estados Unidos e a tentativa do Netanyahu de separar da negociação o Líbano como se fosse um assunto à parte e não como um assunto que engloba o todo, isso faz com que os iranianos não queiram assinar um acordo.

E isso atrapalha o plano político do Trump, entendeu? Então essa é a razão pela qual os atritos entre esses dois aliados, Israel e Estados Unidos, acabam se sobressaindo e acabam vazando para a mídia americana e para mídia internacional. Agora tem que se ver até que ponto o Trump Trump terá a capacidade de pressionar o Netanyahu a aceitar esse acordo com a inclusão do Líbano no contexto do acordo geral que vai se firmar com os iranianos.

NNNatuza Nery

Mas se o Trump não consegue impor a sua vontade ao Netanyahu, a imagem de força que ele gosta tanto de exibir, ela se deteriora. Que se você não consegue convencer o seu aliado, que depende, diga-se de passagem, de você abater em retirada, se recuar, significa que o Trump vai ser visto como um líder fraco.

HKHussein Kalout

Na minha visão, acho muito difícil o Netanyahu ceder e recuar em relação ao Líbano. Ele só irá recuar em relação ao Líbano numa única possibilidade: se o Trump conseguir oferecer ao Netanyahu uma alternativa que consiga catapultá-lo dentro do cenário eleitoral israelense. E essa alternativa hoje não está disponível. O que poderia ser essa alternativa? Desmantelamento do programa nuclear iraniano por inteiro. Essa possibilidade não está disponível.

Fora essa possibilidade, não vejo o Netanyahu recuar. E obviamente que o Trump nessa equação, ele terá que confrontar o seu aliado. Porque o seu aliado nessa circunstância, ele só está pensando na sua sobrevivência política. Ele não tá preocupado com os interesses estratégicos dos Estados Unidos, ele não está preocupado com o interesse político eleitoral do seu aliado político, que é o presidente Trump, ele só tá preocupado com a sua sobrevivência.

Foi capaz de arrastar os Estados Unidos para uma guerra sob, digamos, o guarda-chuva de que eles seriam capazes de derrubar o regime iraniano em questão de dias. Ele vendeu a possibilidade para o seu aliado que, eliminando a cadeia de comando, assassinando o Ayatollah Ali Khamenei, mais lideranças políticas mais as lideranças militares, o regime ruiria. Isso não aconteceu. E hoje, da perspectiva estratégica, os Estados Unidos perderam a guerra com o Irã.

E o Irã, na verdade, acabou se reposicionando no contexto regional e global a partir de uma posição de força, a partir de uma posição em que o Irã se tornou um player capaz de impactar a economia global e um player capaz de impactar a segurança energética internacional. A diretora-geral do FMI, o presidente do Banco Mundial e o chefe da Agência Internacional de Energia alertaram que a guerra está tendo um impacto substancial na economia, principalmente nos países que importam energia.

Também alertaram sobre o efeito cascata que o bloqueio do Estreito de Ormuz tem provocado. Reforçaram que a crise aumenta o preço do petróleo, do gás, dos fertilizantes e de outras commodities, o que tem consequências para a segurança alimentar e para o mercado de trabalho. Portanto, o erro estratégico que o Trump cometeu, induzido por Netanyahu a fazer esse, a se encaixar nessa operação militar, ela acabou impingindo graves custos estratégicos para os Estados Unidos.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com você. Agora eu queria falar do Líbano, mas dividindo o Líbano entre o governo central do país e o Hezbollah, porque eles estão longe de serem a mesma coisa.

HKHussein Kalout

Primeiro, o Hezbollah é parte do governo. Hezbollah tem dois ministros no contexto do governo libanês. O governo libanês, ele é um governo de coalizão nacional. Tanto oposicionistas, quer dizer, quanto partidos de centro, quanto partidos aliados do presidente, do primeiro-ministro. Então todos dentro da mesma coalizão e da mesma formação ministerial. No que diz respeito à dissonância entre, digamos, Hezbollah e governo central, é que na percepção do governo central, o uso da força só deve pertencer ao governo.

O uso constitucional da força deve pertencer ao exército libanês e o Hezbollah não deveria ser ser o ator, detentor, digamos assim, do processo decisório de paz e guerra. Essa é a principal divisão.

?Voz C

Esse grupo extremista, assim como os terroristas do Hamas, recebe financiamento e armas do Irã. O Hezbollah surgiu nos anos 1980, quando o regime iraniano de muçulmanos xiitas tentava ampliar a influência no Oriente Médio. O Irã decidiu apoiar um grupo também xiita Hezbollah, no Líbano, que pegou em armas para se opor à presença dos israelenses que tinham invadido o sul do território libanês em 1982. Nos anos seguintes, o grupo extremista foi responsável por uma série de ataques e atentados.

O Hezbollah, que significa Partido de Deus, tem ainda um braço político que ganhou força no Líbano em 2000, depois da retirada do exército de Israel.

HKHussein Kalout

Segundo ponto de inflexão: diz respeito ao processo de negociação com Israel. Da perspectiva do Hezbollah ou da coalizão aliada ao Hezbollah, eles entendem que não há problema em negociar com Israel, desde que as negociações sejam negociações indiretas. Enquanto o governo central optou por negociações diretas com Israel sob a mediação americana. Qual é a leitura? O bloco pro-Hezbollah entende de que negociações diretas significa reconhecer a legitimidade de Israel.

Negociações indiretas significa não reconhecer a legitimidade. Esse é um ponto. De acordo com a Constituição libanesa, são países em guerra, são países inimigos, portanto não se pode negociar de forma direta. Essa visão do bloco pro-Hezbollah. No entanto, no que diz respeito às demandas, as demandas, o que o Estado libanês deve demandar de Israel, aí os dois lados concordam. Aí são 5 itens, basicamente esses 5 itens, tanto Hezbollah quanto o governo central, eles concordam com as demandas: a retirada das forças israelenses de todo o território invadido e ocupado por Israel, retorno dos refugiados libaneses aos seus vilarejos, reconstrução das áreas destruídas libanesas, retomada do exército do sul do Líbano para exercer o controle de fronteira e desmilitarização ocupação da margem do sul do Rio Litânia.

Quanto a isso, há uma concordância quanto a esses 5 pontos centrais. Agora, obviamente que há uma discordância que aí é maior, que é quanto à desmilitarização do Hezbollah ou não. Partidos políticos que apoiam o governo central entendem que o Hezbollah tem que se desmilitarizar.

?Voz C

Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha consideram o Hezbollah uma organização terrorista. É uma das forças paramilitares mais bem equipadas do mundo, considerada mais poderosa que o próprio exército do Líbano. O grupo extremista tem um arsenal de 150 mil foguetes e mísseis. A maior parte é de curto alcance, são foguetes que alcançam algumas dezenas de quilômetros, como o norte de Israel. O grupo também tem mísseis de longo alcance que podem atingir todo o território vizinho.

HKHussein Kalout

O Hezbollah não aceita a desmilitarização. Ali de delegação do Hezbollah e dos outros partidos políticos que apoiam Hezbollah entendem que o exército libanês é muito fraco. Ele é um exército que não tem armamentos capazes de fazer frente a Israel, e as pressões internacionais, especialmente dos Estados Unidos, impedirão o exército libanês de defender o território libanês se Israel decidir invadir o Líbano no futuro. Portanto, esse grupo aliado ao Hezbollah entende que o Hezbollah não deverá depor as armas.

Tem um fator agregado: a base popular do Hezbollah, quer dizer, aí nós estamos falando da base, digamos, sociopolítica, base popular, base de apoio, ela não admite em nenhuma circunstância que o grupo se desarme, porque ela entende que não dá para confiar no governo central, porque o governo central Ele é um governo subserviente aos Estados Unidos, que por conseguinte não é um mediador neutro, ele é um mediador que defende primeiro os interesses de Israel e não defende os interesses do Líbano, e que sem a força da resistência, o sul do Líbano todo estaria hoje ocupado se não fosse o Hezbollah.

Essa leitura dessa massa populacional. E o Hezbollah já declarou inúmeras vezes que não irá se desmilitarizar. A proposta americana hoje que está na mesa é: o Hezbollah se desmilitariza, depois Israel sai. Bom, essa proposta, da perspectiva que o governo central apoia, da perspectiva dos apoiadores do Hezbollah, seja eles a base popular, seja a base, digamos, política dos outros partidos políticos que apoiam o Hezbollah, essa proposta não é confiável.

Os Estados Unidos não são atores em que se pode confiar em suas garantias, porque no passado ofereceram garantias libanesas e as garantias não foram cumpridas. Em outubro de 2024, houve um cessar-fogo estabelecido sob a mediação americana. Os israelenses naquele momento deveriam se retirar do Líbano no prazo de 90 dias. E durante 15 meses, ao largo de 15 meses, ou seja, desde aquele período de novembro, outubro de 2024 até a presente guerra, durante todo esse período, Israel não se retirou do território libanês.

Pelo contrário, expandiu a ocupação e Ao invés de haver cessar-fogo, Israel durante esse período de 15 meses atacou diversas posições não só do Hezbollah, mas atacou infraestrutura civil do Estado libanês, que é propriedade da população libanesa, levou ao assassinato de mais de 500 civis libaneses durante esse período, efetuando ataques praticamente diários. Esse acordo foi mediado, negociado sob a tutela americana. Então, e naquele momento foi dado garantias ao Líbano de que Israel se retiraria.

Naquele momento, o Hezbollah se comprometeu a entregar as armas que tinha na margem sul do rio Litâni e se retirar, e comprometeu-se em não atacar Israel. Hezbollah cumpriu com todo esse combinado. Então, se a gente olha esse cenário hoje, né, hoje essa base de apoio do Hezbollah, ela diz o seguinte: olha, este grupo cumpriu, os americanos deram garantias que Israel não faria isso, Israel furou as garantias. Se você olhar para Gaza, Gaza.

Hoje Israel se comprometeu em Gaza com uma série de acordos, Israel segue bombardeando Gaza. Israel se comprometeu, não invadiu território sírio, hoje ocupa, digamos, cerca de quase 10% do território sírio. Então, na visão, digamos, dos apoiadores do Hezbollah, a leitura que se faz é que Israel não cumpre nenhum acordo e os americanos, qualquer garantia que eles venham a oferecer, são garantias falsas.

NNNatuza Nery

Bom, então o que você relata para a gente neste episódio é um grande impasse, muito difícil de ser resolvido. E enquanto isso, civis vão morrendo, perdendo as suas casas. E aí eu falo majoritariamente dos civis do Líbano, mas também de civis israelenses.

HKHussein Kalout

É, infelizmente, para a população civil de do Levante, por assim dizer, vai acabar sendo vítima da violência, vai acabar sendo vítima da irracionalidade dos atores políticos.

?Voz E

Questão do Líbano, onde Israel tem realizado fortes bombardeios ao Líbano porque Hezbollah lançou naquele começo da guerra mísseis em direção a Israel. O Líbano como país, o governo libanês, a sociedade libanesa é contra que o Hezbollah ataque Israel, mas também é contra os bombardeios israelenses ao Líbano, que já provocou o deslocamento de quase 1 milhão de pessoas, que representa cerca de 15% da população libanesa, matou centenas de libaneses, incluindo crianças, nesses bombardeios que alvejam a região de A Harri, que é uma região majoritariamente xiita do Irã e dos países árabes ao redor, também tem essa outra guerra no chamado Levante, ali no Líbano e Israel, entre os israelenses e o Hezbollah.

Pra deixar claro, o governo do Líbano não quer essa guerra, é contra tanto o Hezbollah como também contra os ataques israelenses.

HKHussein Kalout

Repito, eu acho que hoje tá claro que o acordo nuclear iraniano, que era uma peça central para a estabilidade do Oriente Médio, foi rompido por Donald Trump, Trump. Lembrando que esse acordo assinado por Obama teria colocado o Oriente Médio dentro de uma outra lógica, talvez hoje. Todo mundo percebeu que a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã foi um fracasso, não resultou em nada. Israel hoje está, entra praticamente no quarto ano em guerra permanente, praticamente, com pouquíssimos espasmos de momentos de paz.

São espasmos de paz, praticamente em guerra permanentemente. Eu atribuo a Netanyahu a grande responsabilidade porque foi ele que induziu Trump a derrubou o acordo nuclear naquele momento, quando o Trump assumiu o poder em seu primeiro mandato, logo em 2016. E logo quando Trump assume seu segundo mandato, foi ele que convenceu Trump de que era possível derrubar o regime iraniano e, portanto, deveria bombardear o Irã. E hoje o resultado provou-se ser contraproducente.

Portanto, eu acho que o Trump percebeu também que Netanyahu, que aparentemente se colocava como seu aliado, hoje Israel pode ser um ativo estratégico para os Estados Unidos, não há dúvida que Israel é um ativo estratégico para os Estados Unidos, mas o governo Netanyahu passou a ser um passivo para o governo Trump. Israel é um ativo estratégico para os Estados Unidos, mas o governo Netanyahu é um passivo para o Trump no atual momento.

É um passivo porque hoje a conduta estratégica do Netanyahu no teatro geopolítico militar no Oriente Médio, ela pode culminar no colapso das negociações entre Estados Unidos e Irã, que avançaram aumentaram de forma significativa e pode acabar levando Donald Trump a uma derrota acachapante nas eleições de meio de mandato. Portanto, esse é o cenário que se desenha hoje nessa intrincada equação que envolve Líbano, Israel, Irã e Estados Unidos.

E mais, os americanos hoje são vistos com maior desconfiança hoje no Golfo Pérsico, porque vários dos países árabes do Golfo abriram o seu território para instalação de bases militares. Tem base militar americana no Kuwait, nos Emirados, no Catar, no Bahrein e na Arábia Saudita. A presença de bases americanas nesses países tornaram-se um risco para esses países. Então, muitos desses países hoje estão recalculando a necessidade de terem essas bases em seu território.

Então, esse é o cenário que a gente tem hoje dentro do quadro geopolítico regional.

NNNatuza Nery

O senhor, muito obrigada por topar conversar mais uma vez com a gente sobre os aspectos desse conflito. Bom trabalho para Muito obrigado, Natuza.

HKHussein Kalout

Sempre é um prazer falar no seu programa.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuza Nery, fico por aqui. Até o próximo Assunto.

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