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O novo tarifaço de Trump contra o Brasil

03 de junho de 202630min
0:00 / 30:26
Convidado: Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly e analista político especializado em América Latina. A investigação conduzida pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos concluiu que o Brasil adota práticas desleais e propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras – o órgão incluiu uma lista de exceções para produtos considerados estratégicos pelos EUA, como carne, frutas, café, aeronaves, terras raras, entre outras. Na lista de práticas que "oneram ou restringem" os EUA, segundo a investigação, estão o PIX, o desmatamento ilegal, a pirataria e falhas na aplicação de leis anticorrupção. No Brasil, a medida já teve reverberações políticas e declarações do presidente Lula e do senador Flávio Bolsonaro. Neste episódio, Natuza Nery entrevista o analista político americano Brian Winter, especializado em América Latina. Brian explica o que está por trás da decisão da Casa Branca e analisa o impacto do novo tarifaço nas relações entre os países e na corrida eleitoral brasileira.
Participantes neste episódio9
N

Natuza Nery

HostJornalista
B

Brian Winter

ConvidadoEditor-chefe da revista Americas Quarterly e analista político
C

Celso Amorim

Convidado
E

Eduardo Bolsonaro

ConvidadoDeputado
F

Flávio Bolsonaro

ConvidadoPolítico
G

Geraldo Alckmin

ConvidadoVice-presidente da República
L

Lula

ConvidadoPresidente
M

Marco Rubio

ConvidadoSecretário de Estado americano
M

Mauro Vieira

ConvidadoChanceler
Assuntos7
  • Tarifas Americanas BrasilInvestigação do Escritório de Comércio dos EUA · Proposta de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras · Lista de exceções para produtos estratégicos · Práticas desleais citadas: PIX, desmatamento, pirataria, corrupção · Comparação com tarifaço anterior de Trump · Cronograma de audiências e prazos para definição · Repercussões políticas no Brasil · Influência na corrida eleitoral brasileira
  • O Papel do Centrão na Política BrasileiraVisita de Lula aos EUA e percepção inicial · Diferentes 'Casas Brancas' e suas prioridades · Papel de Marco Rubio e sua visão sobre a América Latina · Influência da onda conservadora na América Latina · Estratégia dos EUA em relação à China e terras raras · Lobby e interesses de grupos empresariais · Impacto na eleição brasileira e Flávio Bolsonaro · Diversificação de parcerias comerciais pelo Brasil
  • Flávio Bolsonaro articula encontro com TrumpPublicação de Trump elogiando Flávio Bolsonaro · Pedido de Flávio Bolsonaro para não taxar empresas brasileiras · Consequências políticas para Flávio Bolsonaro · Associação com a designação de PCC e Comando Vermelho como terroristas
  • Fábricas compartilhadas no BrasilPIX como prática desleal segundo investigação dos EUA · Defesa do PIX pela Febraban como infraestrutura de pagamento · Críticas à falta de entendimento do Brasil por Washington · 25 de Março como mercado de produtos falsificados
  • Tarifas dos Estados UnidosSeção 301 da Lei de Comércio Americana · Diferença entre tarifaço anterior e o baseado na Seção 301 · Decisão da Suprema Corte sobre autoridade presidencial · Uso do mecanismo para reimpor tarifas a vários países
  • Desmatamento no Brasil e políticas ambientaisDesmatamento ilegal como prática desleal citada pelos EUA · Relatório do MapBiomas sobre redução do desmatamento em 2025 · Surpresa com a inclusão do meio ambiente na decisão
  • Preparação para o BrasileirãoLei Magnitsky · IEPA · Congelamento de bens · Cancelamento de vistos
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?Voz B

Os Estados Unidos divulgaram os primeiros resultados de uma investigação sobre práticas comerciais do Brasil.

?Voz A

Como resultado dessa investigação, o governo americano propõe um novo tarifaço contra os produtos brasileiros, desta vez de 25%. Na decisão, o governo americano ataca o PIX e o Judiciário brasileiro.

?Voz C

A Casa Branca voltou à carga contra o Brasil mais uma vez. É um novo tarifaço, mas bem diferente daquele imposto por Donald Trump em abril do ano passado.

?Voz D

Essa tarifa, ela é muito mais perigosa do que a outra. A outra foi mais alta, chegou a 50%, como se sabe, que foi uma coisa intempestiva de Donald Trump, com aquela cartolina na porta da Casa Branca, uma coisa improvisada. Tanto que houve condenação, a justiça americana condenou o tarifaço, né?

?Voz C

Aquele tarifaço de Trump foi esvaziado ao longo do tempo. Aumento da inflação dentro dos Estados Unidos, negociações com setores produtivos e até a decisão da Suprema na corte deram conta de reduzir o poder daquela medida. Agora a roupagem é outra. A imposição de taxas sobre mercadorias brasileiras é uma punição. É o resultado de uma investigação que acusa o Brasil de práticas desleais no comércio com os americanos.

?Voz B

Entre os pontos citados estão o uso do PIX, desmatamento, falha na aplicação de leis anticorrupção e acesso ao mercado de etanol.

?Voz E

O cronograma daqui para frente é o seguinte: dia 6 de julho vai ser feita uma nova audiência pública para debater as ações propostas. E enquanto Além disso, o representante de comércio dos Estados Unidos disse que vai continuar o diálogo com o governo brasileiro. 15 de julho é o prazo então final para definir a aplicação das medidas contra o Brasil. O representante de comércio aqui nos Estados Unidos sugeriu uma tarifa de 25% sobre praticamente todos os produtos brasileiros, não apenas aos setores investigados.

?Voz C

O resultado dessa investigação dá a Trump mais poder para decidir o que fica e o que sai da lista de produtos sobretaxados.

?Voz E

Uma lista de exceções que inclui itens que o governo americano considera estratégicos ou que também tem uma oferta doméstica insuficiente, né, como matérias-primas e também produtos que os Estados Unidos não conseguem produzir em quantidade suficiente nem obter de outras formas. Entre eles, algumas carnes, frutas, minerais, café, chá, cereais, também aeronaves e peças Além também de terras raras e farmacêuticos estão incluídos também entre os isentos. E também os produtos já sujeitos a outras tarifas aqui no país.

?Voz C

Em Brasília, ministros do governo fizeram uma reunião de emergência com o vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir uma resposta. O Tarifaço 2.0 de Donald Trump é mais um capítulo da influência americana nos meses que antecedem a eleição brasileira. Ela ocorre depois que Flávio Bolsonaro se encontrou com Trump na Casa Branca e após os Estados Unidos designarem o PCC e o Comando Vermelho como acusações terroristas.

?Voz F

Publicação de Donald Trump na rede social dele sobre a visita à Casa Branca do pré-candidato à presidência aqui no Brasil, Flávio Bolsonaro. A postagem foi feita uma semana depois do encontro entre os dois. O Trump, ele posta essas duas fotos e aí ele escreve assim: "Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca, um jovem inteligente que ama muito seu país, o Brasil." No Palácio do Planalto, Lula já tem um discurso pronto.

?Voz G

O que eu quero dizer com isso? É que esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele e são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. São traidores.

?Voz C

E Flávio Bolsonaro foi instado pela imprensa a dar explicações.

?Voz H

Eu pedi expressamente nas 3 reuniões que nós tivemos com o presidente Trump, o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Marco Rubio, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras.

?Voz C

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o novo tarifaço de Trump contra o Brasil às vésperas das eleições. Neste episódio, eu converso com Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly e analista político especializado em América Latina. Quarta-feira, 3 de março. Pra gente começar, o que que os Estados Unidos estão querendo em relação ao Brasil? Qual é a estratégia?

?Voz I

Natuza, eu imagino que muita gente deve estar coçando a cabeça e pensando: mas espera aí, a visita do Lula foi há um mês e parecia ter sido um sucesso. Como chegamos a esse ponto tão rapidamente?

?Voz J

E eu acho que tem duas explicações.

?Voz I

O primeiro é uma Casa Branca que sempre improvisa com grupos diferentes procurando diferentes prioridades.

?Voz J

E segundo, ninguém em Washington entende o Brasil.

?Voz I

Isso não é de hoje, é um problema antigo.

?Voz C

Nesse caso não é culpa só de Washington, né?

?Voz J

Claro, porque quem coloca o PIX no centro do caso claramente não entende o Brasil.

?Voz K

Sobre as críticas ao PIX, a Febraban disse em nota que trata-se de uma infraestrutura e pagamento, não um produto comercial, e que não há qualquer restrição à entrada de novos participantes, desde que operem no mercado nacional, já que é um sistema de pagamentos que usa o real.

?Voz J

O governo não vai ceder nunca nesse ponto.

?Voz C

O governo brasileiro você tá falando?

?Voz J

Exatamente. E também é verdade que essas tarifas claramente acabam prejudicando o senador Flávio Bolsonaro.

?Voz C

Por quê?

?Voz J

Bom, olha o distanciamento que ele já fez dizendo que pediu para o presidente Trump fazer exatamente o contrário. Ele lembra da experiência do ano passado quando o primeiro tarifaço de 50% acabou ajudando o Lula, os números de aprovação dele.

?Voz I

Então acho que a reação do Flávio foi imediata.

?Voz C

Você já disse então que tem várias casas brancas, né? Tem uma casa branca de pendor pro MAGA, que é o grupo ideológico que dá sustentação a Trump. Marco Rubio, secretário de Estado, me parece o principal exemplar disso.

?Voz L

Marco Rubio é senador de carreira, ele foi eleito em 2010 pelo estado da Flórida quando então se tornou secretário de Estado do governo de Donald Trump, conhecido por uma posição linha dura em relação a Cuba, Venezuela e também China. Você sabe que aí a gente tem um triângulo bastante importante para esse debate. A China, inclusive, tem sido seu principal alvo desde que assumiu o comando da política externa dos Estados Unidos.

E o Rubio, enquanto senador, inclusive chegou a criticar essa relação do Brasil com os chineses. Rubio tem mostrado uma posição combativa em relação ao governo brasileiro. Lembrando, né, que ele fez vários tweets. O secretário liderou às sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, o Alexandre de Moraes. Foi ele quem traz essa informação a público, vai lá nas redes sociais. Teve na frente também da revogação de vistos de outras autoridades brasileiras, como a gente sabe, do ministro da Saúde, por causa do programa Mais Médicos.

E o Rubio criticou o presidente Lula no passado e não visitou o Brasil desde que se tornou o secretário de Estado. E também a gente sabe que ele não tem muita simpatia, vamos dizer assim, né, pelo presidente Lula. O presidente chegou a dizer que o ex-senador não tem o conhecimento real do Brasil, não conhece a realidade brasileira.

?Voz C

Tem uma Casa Branca à la Trump, em que Trump conversa diretamente com grupos empresariais. Então, o lobby antes feito no mundo da diplomacia, agora ele entra direto, né, dentro do Salão Oval. O presidente conversa com essas, com esses empresários, conversa, por exemplo, com Joesley Batista, o empresário do Império da Carne, o empresário brasileiro. A outra Casa Branca, mais pragmática, aquela que acha que empurrar os Estados Unidos mais para perto o apoio da China seria um erro estratégico? Quem que tem mais peso em todas essas versões da Casa Branca?

?Voz I

Depende do dia e depende da hora. Eu não vejo uma coordenação, eu vejo um presidente bastante indeciso, que para ser justo tá com duas prioridades um pouco contraditórias. Por um lado, a prioridade de ajudar essa onda conservadora da direita que estamos vendo em praticamente toda a América Latina desde o ano passado. É um grupo que quer que essa onda Peru e tem grandes possibilidades de líderes de direita ganharem eleições ainda esse mês em Peru e na Colômbia.

Esse grupo vê Lula talvez não exatamente como uma ameaça, mas como um aliado de figuras como Nicolás Maduro, por exemplo, que enfim já tá numa prisão aqui nos Estados Unidos, de Cuba.

?Voz J

E bom, tem outro grupo que está pensando mais pragmático, talvez, que está olhando para o mundo, vê a ameaça que é a China e viu a ameaça chinesa de não mandar mais terras raras para os Estados Unidos.

?Voz I

Essa ameaça foi no ano passado.

?Voz M

O governo americano convocou 54 países, mais a União Europeia, para uma reunião. O Brasil era um deles. O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que os minerais estão muito concentrados num único país, a China, que usa essa dominância como ferramenta de influência geopolítica. Atualmente, a China controla 70% da extração e 90% do processamento mundial de minerais críticos e terras raras. E os Estados Unidos agora tentam reverter esse cenário, buscando um domínio maior sobre a produção, o refino e, é claro, os preços.

O Ministério das Relações Exteriores chinês criticou o que denominou de iniciativas que prejudiquem a ordem econômica e comercial internacional.

?Voz J

Eles olharam o mapa e, bom, quem tem as segundas reservas de terras raras no mundo é o Brasil.

?Voz I

E esse grupo que, digamos, que quer uma posição mais pragmática com o Brasil, seja quem for o presidente, porque acham que é importante para a segurança nacional dos Estados Unidos, porque sem essas terras raras tem um problema terrível com a produção de várias coisas, telefones móveis e também aviões, e é nocivo para a defesa dos Estados Unidos não ter essas terras raras.

?Voz J

Então estamos vendo uma batalha entre esses dois grupos com ações totalmente contraditórias num período de um mês, com a visita do presidente Lula e poucas semanas depois não só a visita do Flávio Bolsonaro, senão agora esses anúncios.

?Voz C

Tem alguém que represente esse grupo mais pragmático? Porque se o Marco Rubio representa a turma do MAGA dentro da Casa Branca, quem é o exemplar que fala por essa corrente mais pragmática?

?Voz J

Não sabemos com certeza.

?Voz I

São vozes do Pentágono, por exemplo, ligados à segurança nacional, forças armadas, talvez alguns no Tesouro que têm uma visão mais econômica das coisas, talvez um pouco menos ideológica.

?Voz J

Mas não quero exagerar porque é um governo, é uma Casa Branca que tem contradições por todos os lados, começando com o presidente Trump. E eu acho que é importante importante aqui sair um pouco da relação bilateral e entender que houve essa postura de avançar com um pé e recuar com outro com outros países, como a ndia, por exemplo, ou com o México, que também teve essas decisões contraditórias.

?Voz I

E eu vejo, Natuza, tudo isso como produto de um país onde as instituições pesam menos, o poder de toma de decisões está muito concentrado na Casa Branca e com o mesmo presidente E isso torna tudo muito menos previsível.

?Voz C

Bom, vamos então viajar aqui no tempo e voltar a abril de 2025, no chamado, entre muitas aspas, dia da libertação. Naquele momento, os produtos brasileiros passaram a ser tarifados em 10%. E aí, meses depois, após uma articulação de um dos filhos do presidente Bolsonaro e o aliado dele, Paulo Figueiredo, houve um anúncio de que o Brasil seria taxado bem acima de outros países em 50%.

?Voz A

A correspondente Raquel Carambu encontrou o deputado licenciado do PL Eduardo Bolsonaro perto da Casa Branca em Washington. O deputado licenciado voltou a defender a taxação de 50% de produtos brasileiros, relacionou a sobretaxa de Trump a decisões tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes do Supremo e manifestou opinião pessoal sobre uma possível aplicação de outras sanções de Donald Trump contra o Brasil. Ele chamou essas medidas de alavancas.

?Voz H

Eu não falo em nome de nenhuma autoridade, mas desse jeito, muito provavelmente, o Trump também vai utilizar, vai apertar outras alavancas para responder ao Brasil.

?Voz E

Que outras alavancas seriam essas? O que que você tá ouvindo por aqui?

?Voz H

A disposição dele, né? Você tem Lei Magnitsky, você tem IEPA, você tem congelamento de bens, você tem cancelamento de vistos.

?Voz C

E aí, na ocasião, o Trump justificou a medida com uma motivação política. Ele dizia que havia uma caça às bruxas contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Brasília reagiu buscou negociação, não deu muito certo. E aí teve aquele encontro de Lula e de Trump na Assembleia Geral da ONU, e Trump acaba dizendo que rolou química entre ele e Lula. Bom, a relação vai para um outro lugar. Passa-se o tempo, o Brasil consegue reverter depois de muito esforço, depois de prejudicar muitos setores da economia brasileira.

Isso pareceu ter ficado para trás. Ato contínuo: a eleição, processo eleitoral começa. Flávio Flávio Bolsonaro vai ao encontro de Donald Trump, consegue o que queria, né? Não dá para a gente— não tem elementos para dizer que Flávio pediu e Trump aceitou, né? Já tava tudo meio que escrito nas estrelas para Trump aceitar a proposta de considerar Comando Vermelho e PCC como crime organizado, algo que tem consequências para o sistema financeiro ainda em avaliação, mas que tem uma consequência potencialmente ruim.

E agora veio essa, esse tarifaço 2.0. Eu queria entender isso no âmbito de uma investigação que é chamada de investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio Americana. Qual é a diferença entre o tarifaço do Dia da Libertação e o tarifaço baseado nessa legislação, nessa Seção 301?

?Voz I

Natuza, é uma grande telenovela essa história, né?

?Voz J

Mas para responder a sua pergunta, basicamente a Seção 301 é um uma lei, um código que vem dos anos 70 e dá um sustento mais sólido legalmente para as tarifas do presidente Trump.

?Voz I

Isso se tornou importante a partir da decisão da Corte Suprema nossa em fevereiro desse ano, que encontrou, ou que disse que o presidente Trump não tinha autoridade para impor tarifas sozinho.

?Voz J

E ele tá usando esse mecanismo para reimpor essas tarifas a vários países no mundo. E Brasil não é o único, mas fica entre os primeiros onde vemos o resultado do caso, que também implica ou sugere no mínimo um elemento político.

?Voz I

Também é verdade que essas alegações que o caso faz são bastante amplas. Tem aqui questões, eu já mencionei o PIX, mas também fala de propriedade intelectual.

?Voz C

25 de Março, né? Quando fala de propriedade intelectual são os produtos vendidos na 25 de Março. Se o Trump soubesse como a 25 de Março é popular não só em São Paulo, mas para muita gente que vem de fora do estado para comprar e vender nas suas regiões, ele saberia do quão impopular é falar mal da 25 de Março.

?Voz I

É, nem o Pix, né?

?Voz C

Exato, assim como o Pix.

?Voz O

O governo americano afirma que a 25 de março é a década um dos maiores mercados mundiais de produtos falsificados. No documento diz: o Brasil não conseguiu abordar de forma eficaz a importação, distribuição, venda e uso generalizado de produtos falsificados, consoles de jogos, dispositivos de streaming ilegais e outros dispositivos de violação. Quanto ao Pix, o documento afirma O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com relação aos serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando, a tirar vantagem dos serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo.

?Voz I

Outras coisas como etanol, a suposta leniência do governo brasileiro com a corrupção e até o desmatamento, que é uma grande surpresa ver esse reclamo aqui nessa decisão, porque digamos o meio ambiente não tem sido exatamente uma prioridade dessa Casa Branca.

?Voz P

O Brasil registrou em 2025 a menor área desmatada nos últimos 7 anos, segundo um novo relatório do MapBiomas. Ao todo, o país teve menos de 1 milhão de hectares desmatados no ano passado. Foi uma queda de 20%, pouquinho mais de 20% de queda em relação a 2024. Todos os biomas do país tiveram uma redução na área desmatada, com destaque que para o Pantanal quase 50% de redução em relação ao ano anterior.

?Voz J

Mas enfim, esse é o mecanismo que eles estão usando agora.

?Voz I

E eu interpreto tudo isso como que esse grupo mais focado no Departamento de Estado, que tem o hábito de ver a América Latina em grupos de esquerda e direita, que está mais preocupado em temas como crime organizado e menos na economia, acho que esse grupo está em ascenso de novo. É notável que o secretário de Estado Rubio não esteve presente para o encontro do presidente Lula. Eu achei naquele momento que era uma coincidência, embora estou começando a achar que não foi e que ele voltou e que houve uma série de pressões por parte de aliados bolsonaristas também para reverter um pouco o sucesso dessa visita.

?Voz J

E também outro fator foi todo esse caso do Banco Master. Basicamente, o Flávio Bolsonaro precisava de uma vitória, precisava mudar a narrativa. E de fato, aqui estamos agora falando do presidente Trump e não do caso Master, que implica que talvez essa estratégia produza alguns efeitos.

?Voz C

Essa é minha dúvida, Brian, porque o tarifaço não foi bom politicamente para família, E é possível que esse novo tarifaço não seja bom para Flávio Bolsonaro. Não à toa, Flávio Bolsonaro escreveu agora um ofício em inglês como senador da República pedindo, na prática, para dizer que ele é contra, pedindo ajuda ao governo americano, né? Essa é uma sinalização de que ele pode sentir esse golpe também, assim como o bolsonarismo sentiu no primeiro tarifaço de Trump.

Os Estados Unidos estão tão difíceis de serem entendidos quanto o Brasil, e a gente Mas você já viu que nessa história do Trump, a cada passo que ele der rumo ao processo eleitoral brasileiro, talvez ele mais prejudique Flávio Bolsonaro do que ajude, não?

?Voz I

Eu alertei no momento da visita do Flávio Bolsonaro para a Casa Branca que era um risco, porque você, quando você entra no Salão Oval, você nunca sabe o que o presidente Trump vai fazer.

?Voz J

Ele tentando ajudar pode acabar te prejudicando.

?Voz I

Aconteceu na primeira visita, nessa primeira ocasião do primeiro tarifazo no ano passado, onde aparentemente o Eduardo Bolsonaro naquele momento não pediu tarifas.

?Voz J

Foi uma ideia do presidente Trump. E bom, deu no que deu, né?

?Voz I

E essa vez é verdade, parece que a família Bolsonaro está entendendo mais rapidamente que realmente pode ter um efeito contrário a eles como consequência desse novo, esse novo tarifácio, esse segundo tarifácio.

?Voz J

Embora haja mais elementos talvez técnicos e uma estratégia global por trás, o timing no mínimo cria a impressão de uma decisão política por parte do governo do presidente Trump.

?Voz I

E eles entendem que o efeito pode ser Negativo mesmo.

?Voz Q

E o tarifaço por Flávio é ruim. A internet já tá chamando de tariflávio. Como é que ele vai justificar que ele foi o responsável por classificar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, mas essa parte da tarifa que ele, a família Bolsonaro, já comemorou, dessa vez eu não quero, eu sou contra? Então acredito que o governo americano deu sinais claros com fatos de que tirou o título de eleitor para participar das eleições brasileiras.

?Voz C

Espera um pouquinho que eu já volto para falar com Brian Winter. Se a gente for entrar um pouco mais nessa segunda versão do tarifaço, tem alguns setores que ficaram fora da taxação. Frutas, e aí tem laranja, tem outros itens como café, carne bovina, minerais, terras raras você citou, né? Combustíveis, produtos químicos e farmacêuticos, componentes da aviação civil, metais preciosos, papel, madeira. Por que que esses produtos ficaram de fora?

É para não causar nenhum risco de desabastecimento ou um risco inflacionário que possa se reverter contra Trump?

?Voz I

Voltando um pouco no tempo, eu acho que houve 2 fatores que explicaram o recuo do presidente Trump. No primeiro, o tarifácio. O primeiro foi, já que o que já mencionei sobre a necessidade das terras raras, esse encontro entre o presidente Trump e Lula nas Nações Unidas foi uma coisa orquestrada. A decisão estratégica já tinha sido tomada. Essa química entre eles, eu acho que foi mais uma narrativa para vender um pouco o que já foi acordado, que já foi feito.

Feito, o que foi uma decisão de deixar o tarifácio para começar a negociar um acordo sobre as terras raras.

?Voz J

O segundo ponto era o efeito do tarifácio contra o Brasil sobre a inflação aqui nos Estados Unidos, no momento quando a popularidade do presidente Trump estava e ainda está em queda.

?Voz I

É uma queda lenta, mas contínua. É pressionada principalmente pela inflação, pelo aumento dos custos, é o que nós chamamos aqui a agenda da affordability. E então esse novo tarifácio, esse segundo tarifácio, possível tarifácio agora, porque não foi oficializado ainda, tenta evitar esse risco isentando, deixando alguns produtos por fora. Tem outro motivo também na Tusa que acho importante falar, de maneira direta, que é o lobby, né?

Tem muito negócio aqui, tem vários interesses que procuram essas isenções e muitos grupos que ganham ao procurar o acesso necessário para garantir essas exceções. Então, isso também é um fator.

?Voz C

Bom, Brian, sobre as falas que aconteceram nesta terça-feira, que é quando a gente grava, Lula disse que o secretário Marco Rubio é anti-América Latina, Também neste dia em que a gente grava, o próprio Marco Rubio listou países amigos dos Estados Unidos, deixando o Brasil como uma exceção. E eu queria tentar entender o que que você acha que vai acontecer a partir de agora. O Lula também disparou contra Flávio Bolsonaro, chamando de paria, diz que os filhos de Bolsonaro são piores do que ele, que vendem o Brasil, etc.

Enfim, muito sumo para disputa eleitoral. O que que você acha que acontece a partir de agora.

?Voz J

Tem um mês agora para evitar a implementação desse segundo tarifácio.

?Voz I

E será interessante ver quem se soma a esse grupo que tá tentando evitar a sua implementação. Eu pergunto se o senador Flávio Bolsonaro vai fazer um grande esforço para evitar as tarifas. Com certeza, câmaras de comércio dos Estados Unidos e outros grupos também vão tentar evitar essas novas tarifas.

?Voz J

Mas, por outro lado, como você falou, tem o secretário Marco Rubio, que tem uma longa carreira antes de ser o secretário de Estado, de conhecer bem a América Latina, de viajar muito pela região e de perceber a região como dividida entre grupos de líderes de esquerda e direita, sem fazer muita diferença entre o grupo de esquerda.

?Voz I

Ou seja, ele associava o presidente Lula e Nicolás Maduro, o atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, como ele fez agora no seu testemunho no Senado hoje.

?Voz J

Então, eu acho que é uma visão mais ideológica das coisas.

?Voz I

É importante destacar que esse grupo acha que teve muito sucesso nos últimos 18 meses. Eles estão conseguindo eleger aliados em países como Chile, Costa Rica, Bolívia, e talvez veremos ver agora nas próximas 3 semanas se eles conseguem também na Colômbia e no Peru, onde os dois candidatos líderes nas pesquisas são também de direita. Eles também conseguiram negociar com o governo mexicano uma postura muito mais dura contra o crime organizado e contra a migração irregular.

?Voz J

E eu acho que tá claro que eles sentem, não sei se sentem invencíveis nesse mas acham que essa estratégia mais agressiva está produzindo efeitos positivos para os interesses dos Estados Unidos.

?Voz I

Querem aplicar uma estratégia parecida ao Brasil. O tema é, e aqui volto à minha provocação anterior de que ninguém entende o Brasil, o Brasil tem uma história de não se comportar como países como Honduras.

?Voz J

México também é um país grande, mas está muito exposto aos Estados Unidos porque manda mais do 80% das suas exportações para os Estados Unidos. Então, o governo Sheinbaum não tem outra alternativa. O Brasil tem, o Brasil tem peso próprio. Quer aliança com os Estados Unidos? Eu acho que quer, mas também está procurando diversificar.

?Voz I

Eu acho que essa falta de entendimento foi o que ajuda a explicar o que levou a esse episódio o ano passado e quem sabe se agora estamos se repetindo, pelo menos parcialmente, essa história.

?Voz C

E você acha que essa conduta da Casa Branca empurra mais o Brasil para perto da China, por exemplo? Eu te pergunto isso porque o Mauro Vieira, que é o chanceler brasileiro, ministro do Itamaraty, está nesse momento em Pequim. Celso Amorim já estava num evento na Rússia até a semana passada. Que tipo de movimentação relação pode haver com esses gestos de Trump?

?Voz I

Acho que é um fenômeno que estamos vendo mundialmente. O responsável pela assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, depois de 25 anos de negociação, foi o Donald Trump.

?Voz J

México também está procurando diversificar, acabou de assinar um acordo também com a Europa.

?Voz I

Lula está viajando o mundo, ele esteve em Washington, mas também nos últimos 2 anos esteve no Japão, Vietnã, na China, entre outros lugares.

?Voz J

Então, eu acho que quase todos os países do mundo estão fazendo duas coisas ao mesmo tempo: tentando atender os reclamos do presidente Trump, tentando evitar a raiva dos Estados Unidos e as consequências, mas ao mesmo tempo, meio com a outra mão, Estão tentando diversificar e minimizar o risco de lidar, de negociar com Estados Unidos e procurar outros parceiros para o comércio, investimento e outras coisas.

?Voz C

Brian Winter, meu caro amigo, muito obrigada por topar mais uma vez conversar aqui com a gente no assunto.

?Voz I

Obrigado como sempre, Natuza.

?Voz C

Este episódio usou áudios da Rádio Itatiaia. Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.