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A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas

29 de maio de 202631min
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Convidado: Lincoln Gakiya, promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo. Na noite de quinta-feira (28), o Departamento de Estado americano anunciou que irá classificar as facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho como organizações terroristas. O anúncio foi feito na mesma semana em que Flávio Bolsonaro se encontrou com Donald Trump e com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. No Palácio do Planalto e entre instituições que combatem o crime organizado, o tom é de apreensão em relação aos efeitos práticos da medida. Neste episódio, Natuza Nery entrevista o promotor Lincoln Gakiya, uma das maiores referências ao enfrentamento das facções criminosas no Brasil. Gakiya vê a decisão de Washington como “muito grave” e explica por que ela pode interferir nas investigações contra o crime organizado.
Participantes neste episódio3
N

Natuza Nery

HostJornalista
L

Lincoln Gakiya

ConvidadoPromotor de justiça
O

Oliver Stunkel

ConvidadoProfessor de Relações Internacionais
Assuntos6
  • PCC e Comando Vermelho TerrorismoPCC · Comando Vermelho · Organizações terroristas · Combate ao crime organizado · Cooperação Brasil-EUA no combate ao crime · Operações da CIA no México
  • Flávio Bolsonaro articula encontro com TrumpFlávio Bolsonaro · Donald Trump · Crise política de Flávio Bolsonaro · Banco Master · Eleições brasileiras · Influência americana nas eleições brasileiras
  • Interferência dos EUA nas eleições brasileirasGoverno Biden · Governo Bolsonaro · Forças Armadas · Estabilidade institucional · Ordem constitucional · Soberania digital · Algoritmos de redes sociais
  • Apoio de latinos a Donald TrumpDonald Trump · Javier Milei · Daniel Noboa · José Antônio Kast · Rodrigo Paes · Tito Asfura · Abelardo Espriella · Viktor Orbán · Eleições na Argentina · Eleições em Honduras · Eleições na Hungria · Eleições no Canadá · Eleições na Austrália
  • Relações Brasil-ChinaEstados Unidos · Brasil · China · Terras raras · Concorrência global
  • Big Techs· TecnologiaElon Musk · X (Twitter) · AfD · Liberdade de expressão · Influência algorítmica
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Flávio Bolsonaro foi a Washington em busca de uma foto. Mas não uma foto qualquer. Ele queria aparecer ao lado do seu ídolo. E conseguiu. Primeiro tem uma foto do Flávio Bolsonaro ao lado de Trump. Flávio em pé, Trump sentado. E depois Trump na mesma posição, atrás dele com Flávio, Eduardo e Paulo Figueiredo.

Sabe aquele clichê famoso segundo o qual uma imagem vale mais do que mil palavras? Pois é, e é com essa imagem que o pré-candidato à presidência da República aqui no Brasil pretende superar a crise política que abalou a sua campanha. O grande objetivo dessa visita para Flávio Bolsonaro é...

desviar a atenção, o foco, os comentários, as análises do escândalo que o envolve junto com o banqueiro em decadência, o ex-banqueiro Volcar, que tirou o Flávio Bolsonaro do país e desse cenário em que surgem novas informações a cada dia sobre a história do Banco Master.

Os bolsonaristas estão comemorando. E, de fato, tirar uma foto com o presidente dos Estados Unidos, podemos dizer que foi um feito. Então, o Trump abriu um espaço na sua agenda, havia uma certa tensão ali entre os interlocutores de Flávio Bolsonaro sobre o risco de um encontro não se realizar, mas acabou acontecendo e não foi exatamente o que eles gostariam.

Eles preferiam ali uma foto de aperto de mãos entre Trump e Flávio Bolsonaro. Isso não aconteceu. Então o entendimento do governo brasileiro é que não foi positivo para o Flávio, porque a foto traz algumas mensagens que podem ser entendidas de forma negativa. O Brasil vai continuar batendo na tecla de que Flávio Bolsonaro e os bolsonaristas estão agindo contra a soberania brasileira.

Foi na tarde de terça-feira que Donald Trump recebeu o senador na Casa Branca. Segundo Flávio, na pauta do encontro estava o crime organizado. Flávio Bolsonaro disse que foi convidado pelo governo americano e que pediu a Trump que classifique facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. O presidente americano não se manifestou oficialmente.

Flávio diz que ficou na Casa Branca por cerca de duas horas, um pouco mais ou um pouco menos, mas não revela quanto tempo ficou reunido com Trump.

A visita de Flávio a Trump ocorre cerca de 20 dias depois de uma outra visita, a do presidente Lula à Casa Branca. Eu acho que, na verdade, os dois ganharam com essa reunião. Vamos começar primeiro pelo Lula. Digamos, veio do céu. Tinha tido uma semana muito difícil com a rejeição do Messias. E aí se pergunta, mas por que para o Trump foi bom? Porque o Trump tem um momento terrível. Um momento em que ele não consegue sair de uma guerra, que só perde popularidade.

Mas há uma diferença entre os dois. No caso do petista, a visita era uma visita de Estado. Já o encontro de Flávio aconteceu fora da agenda oficial. De olho nas eleições brasileiras de outubro, Donald Trump coloca um pé em cada canoa. Pelo menos até agora. O que ainda não está claro é se o presidente americano está disposto a ter algum papel, direto ou indireto, no resultado das urnas brasileiras.

Da redação do G1, eu sou Natu Zaneri e o assunto hoje é o encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump e o alcance da influência americana nas eleições brasileiras. Neste episódio, eu converso com Oliver Stunkel, professor de Relações Internacionais da FGV, pesquisador da Universidade de Harvard e do Carnegie Endowment. Quinta-feira, 28 de maio.

Oliver, antes de te fazer a pergunta, quero trazer uma lista aqui para nortear nossa conversa. Javier Milei, Argentina. Daniel Noboa, Equador. José Antônio Casti, no Chile. Rodrigo Paes, Bolívia. Tito Asfura, em Honduras. Abelardo Espriella, na Colômbia, que pode ser eleito neste domingo, antes da nossa gravação.

Todos são de direita, passaram por eleições importantes recentemente e todos eles receberam as bênçãos publicamente do presidente americano Donald Trump. Apesar da foto, não houve uma declaração pública de apoio de Trump a Flávio Bolsonaro em relação a outros.

candidatos da região da América Latina, Trump se posicionou. Eu te pergunto por que isso não aconteceu, se pelo menos ainda não aconteceu. Qual é a tua avaliação? Eu acho que há duas hipóteses. A primeira...

é que o presidente Trump estabeleceu uma relação produtiva com o Lula e endossar um apoio explícito ao candidato Flávio Bolsonaro pode complicar essa relação que foi construída ao longo dos últimos meses.

A notícia da Bela Megali. A Bela está contando que o Trump falou sobre o presidente Lula no encontro com Flávio Bolsonaro. No encontro que teve com Flávio Bolsonaro, o Trump citou que recebeu o presidente Lula há poucas semanas e voltou a chamar o brasileiro de, aspas, dinâmico. Ela está lembrando que o Trump já tinha chamado Lula de dinâmico numa rede social depois do encontro deles em Washington. O relato foi feito por Flávio Aliados, mas mantido em reserva pelos participantes do encontro com o Trump.

Na conversa com o Flávio, o Trump ainda exaltou as reformas que tem feito na Casa Branca.

Em segundo lugar, me parece que é preciso levar em consideração que o Brasil é um ator muito importante do ponto de vista estratégico para os Estados Unidos, no âmbito das terras raras, olhando para o tamanho do mercado brasileiro.

Existem numerosos atores dentro do governo Trump que defendem uma relação pragmática com o Brasil, mesmo numa situação em que há uma divergência ideológica entre Trump e Lula. Afinal, há dois grupos no governo Trump. Um defende uma abordagem ideológica na América Latina, isto é, defender lideranças políticas com visão ideológica similar à de Trump.

Mas há um outro grupo que defende que a prioridade é conter a China. E são objetivos não só distintos, mas mutualmente exclusivos. Porque se existe uma abordagem ideológica, isso quer dizer que qualquer eleição de uma liderança de esquerda na América Latina automaticamente afeta a qualidade da relação que os Estados Unidos têm com este país. Se a prioridade for conter a China...

Aí é preciso deixar de lado essa questão biológica e trabalhar com quem estiver no poder para ampliar a relação e para mostrar que os Estados Unidos gostariam que a América Latina se afastasse de Pequim. Mas não dá para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. E essa abordagem mais pragmática tem visibilidade aqui em Washington e é possível.

E a decisão de Trump de ainda não apoiar ou de não apoiar Flávio Bolsonaro por enquanto tem a ver com essa preocupação de que o Brasil tem uma relevância enorme nessa situação, nessa concorrência global que Washington tem com Pequim. Portanto, você não enxerga esse encontro de Trump com Flávio, pelo menos até aqui, como sinal de apoio, né?

Bom, certamente receber o líder da oposição é algo um pouco comum na política externa americana. A gente agora entra numa nova realidade em que esse tipo de apoio, de alinhamento ideológico, de rede, tanto de líderes de esquerda quanto de direita, independentemente de se eles estão no poder ou não, virou mais comum.

Então, claramente, receber Flávio Bolsonaro, também feito para, de repente, ajudá-lo na campanha, mas é algo mais sutil do que fazer um tweet que diz o candidato Flávio Bolsonaro seria um ótimo presidente, ele tem meu apoio. Isso é diferente, isso pode vir lá na frente, mas tem uma outra vertente importante aqui. No caso argentino, e também Honduras e os outros que você citou,

Há uma percepção de que o apoio de Trump ajudou. É porque, no caso argentino, antes das eleições legislativas do ano passado, Trump chegou a oferecer muito dinheiro e disse, olha, se vocês elegerem o Milley, eu vou colocar dinheiro sobre a mesa para estabilizar a economia argentina.

Dois pequenos pronunciamentos, um do Trump elogiando muitíssimo o Milley, do Milley agradecendo muito ao Trump por tê-lo recebido. Algumas coisas interessantes que dá para depender aí. Aparentemente, o Trump fala que está apoiando a Argentina e vai oficializar o apoio ao Milley para a eleição. Acontecem eleições legislativas na Argentina no final desse mês.

Mas aparentemente, pelo jeito que o Trump está falando, ele está tratando como se fosse eleição presidencial. Porque ele fala assim, ele pode ganhar ou ele pode não ganhar, mas seria importante que ele ganhasse, porque do outro lado o adversário dele, que eu acho que eu sei quem é, é de esquerda radical e foi o que botou a Argentina no buraco. No caso do Hondurenho, ele fez ameaças com...

Ele disse que se vocês não elegerem o Asfura, a relação bilateral vai sofrer. Nesses dois casos, são países um pouco mais dependentes dos Estados Unidos. No caso brasileiro, esse tipo de ameaça ou apoio pode até ter...

o efeito contrário ao desejado. Pode acabar fortalecendo o Lula e, obviamente, aqui em Washington tem gente que sabe disso e que sabe que as tarifas do ano passado provavelmente fortaleceram o presidente Lula. Então, as opções que o governo Trump tem para interferir no processo eleitoral brasileiro estão um pouco mais limitadas do que quando quer interferir no processo de Honduras, onde provavelmente muitos eleitores hondurens com o governo Trump.

disseram, olha, se o Trump apoia esse candidato e não quer nos apoiar economicamente, no caso de uma eleição de um outro candidato, eu vou apoiar aquele candidato porque ele acaba tendo uma melhor relação com o Washington. Eu quero até entrar um pouco mais nas brechas de uma potencial influência americana nas eleições aqui do Brasil, mas mais adiante. Antes, eu queria falar do outro lado da lista, porque há diversos políticos e depois, eu vou apoiar o outro lado da lista.

que concorreram a eleições mundo afora, que receberam o apoio inequívoco público de Donald Trump e perderam as eleições. Eu queria que você falasse um pouco dessa porção. Em alguns países esse apoio americano teve um efeito claro, positivo para quem recebeu essa bênção.

de Trump, como foi o caso de Milley e de Asfura em Honduras. Por outro lado, há uma consciência crescente no governo Trump que esse apoio pode acabar sendo tóxico e contraproducente. E a gente viu isso claramente no caso canadense, onde o candidato...

ideologicamente alinhado a Trump, sofreu porque Trump vinha pressionando o Canadá, ameaçando o Canadá. Isso complicou demais a vida do candidato maga canadense, porque ele teve que defender a soberania canadense. Então ficou numa situação muito difícil e provavelmente foi graças a Trump.

que o candidato centro-esquerda acabou vencendo a eleição. O mesmo ocorreu no caso da Austrália, onde a direita se enfraqueceu frente às ameaças feitas por parte de Trump contra o país. E no caso da Hungria, houve uma interferência muito explícita também, uma viagem de numerosas lideranças do governo americano para apoiar o Viktor Orban.

e acabou perdendo a eleição, também porque a oposição conseguiu se projetar como defensores da pátria, da soberania contra uma possível interferência americana. Orbán é amigo do Putin, mas olha que interessante, também é considerado o maior aliado do governo Trump na Europa.

O vice-presidente americano, inclusive, o J.D. Vance, desembarcou nessa semana na Hungria para ajudar a promover, dar uma bombada ali na campanha do Orbán. O Vance acusou a União Europeia de ameaçar o que ele considera liberdade de expressão e de também interferir nas eleições húngaras.

Então, diante disso, nas minhas conversas com integrantes do governo, há uma percepção que possivelmente o Brasil faça parte dessa segunda categoria de países onde tentativas de interferência podem ter o efeito contrário ao desejado por Washington.

Eu quero agora aproveitar a tua presença para analisar a foto que Flávio Bolsonaro divulgou ao lado de Trump. Do lado brasileiro, há diversas análises. Há análises mais negativas para Flávio Bolsonaro que dizem o seguinte.

Se a tentativa dele era desviar o foco do Dark Horse, se era desviar o foco do dinheiro que foi para um filme e que ninguém sabe se de fato foi, não surtiu o resultado esperado, porque ninguém vai se esquecer que ele precisa se explicar.

Há uma versão mais benevolente dizendo que, apesar do desgaste sofrido por ele detectado na pesquisa, que um encontro com Trump dá fôlego para Flávio Bolsonaro. Há outras versões, mas essas são as mais recorrentes. Mas eu quero falar do lado americano contigo. Eu quero explorar esse aspecto. Como é que você interpreta...

Os bastidores, a própria foto, o que você ouviu, mas também o que você enxergou nessa fotografia? Esse encontro ocorre no momento em que Trump enfrenta numerosos desafios no âmbito externo. A principal preocupação na Casa Branca é o conflito com o Irã, que produziu um surto no custo do petróleo, que tem um impacto também sobre a inflação de forma mais geral.

Aquilo realmente é a principal dor de cabeça do governo americano nesse instante. Existem também muitas conversas sobre Venezuela, sobre Cuba. Então, o Brasil não está no centro da discussão aqui em Washington, mas existe aí uma parte do movimento Magas que se preocupa, que prioriza.

a defesa de lideranças ideologicamente alinhadas ao redor do mundo e é por meio dessas pessoas que o Flávio conseguiu, de fato, emplacar essa reunião. O fato de Trump ainda não ter falado ou tweetado sobre esse encontro sugere que não existe aí uma grande prioridade, uma preocupação por parte de Trump de interferir nesse momento nas eleições brasileiras.

É claro que o Trump constantemente precisa atender demandas às vezes contraditórias entre grupos mais ideológicos, que, como eu disse, defendem que a América Latina seja tratada aí como uma extensão da política partidária andecana, que é fundamental apoiar políticos de direita. E uma comunidade mais estratégica que diz, olha, na verdade política externa e ideologia não se misturam tão bem, a gente precisa pensar mais de longo prazo, a gente precisa trabalhar com outros tipos de governo.

E eu acho que esse encontro sem manifestação, depois sem tweet, pode ser um compromisso, pode ser uma forma de atender esses dois grupos com visões distintas, uma dizendo que é preciso apoiar o Flávio, e outra dizendo que é preciso ter uma relação produtiva com o Lula, que pode se eleger. E a gente precisa trabalhar com o Brasil, que é um parceiro fundamental no âmbito de terras raras e outras áreas, e para conter o avanço da China no âmbito internacional.

Então, eu acho que foi provavelmente nesse contexto que essa reunião aconteceu e a gente agora precisa também aguardar se haverá ou não uma decisão por parte do governo americano de designar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas. Isso tem sido aí uma questão que o Flávio queria priorizar durante a conversa, que tem alguma relevância eleitoral para o Trump, que quer se projetar como líder forte no combate contra o crime.

segurança de fronteiras e também um crime transnacional e que pode internamente no Brasil possivelmente apoiar ou fortalecer a campanha do Bolsonaro também.

Oliver, e por que esse tema das facções criminosas classificadas potencialmente como terroristas é tão importante para o Trump? O que ele de fato ganha com isso? O tema se encaixa perfeitamente na narrativa de Trump de segurança de fronteiras, de uma atuação forte militarizada contra o crime.

Isso, conversando com integrantes do governo de Trump, é evidente, eles dizem que o presidente gosta dessas imagens de operações militares. Então, essa designação facilita essa narrativa que ele prioriza o combate contra o crime transnacional, mesmo com vários especialistas nos Estados Unidos e também no Brasil, dizendo que isso pode, na verdade, complicar a cooperação entre os dois países.

Porque o Brasil tem a sua maior capacidade de combate contra o crime no nível estadual, policial. Mas quando o tema vira contraterrorismo, aí tudo vai diretamente para a esfera federal. Isso pode dificultar a troca de informações entre forças policiais dos dois países. Então não está claro se essa designação, de fato, facilita ou atrapalha.

o combate contra o crime organizado. Vários especialistas questionam isso. Então faz parte, acima de tudo, dessa narrativa. E, obviamente, pode ser uma cilada para o Lula, porque no debate público, muitas vezes, onde há pouco espaço para nuances desse tipo, pode facilitar uma tentativa do Flávio Bolsonaro de dizer que o Lula é contra essa designação porque, na verdade, ele não quer intensificar o combate contra o crime organizado.

Então isso tem sido uma temática que facilita um pouco essa narrativa de estratégia de mão dura contra o crime, apesar de a gente não saber se de fato trará resultados concretos, como no caso do México, onde apesar da designação de vários cartéis como grupos terroristas, não se sabe se a militarização de fato trará resultados, o que sabemos é que aumentará muito o número de vítimas civis. Além disso...

A designação de cartéis brasileiros como grupos terroristas poderia facilitar uma atuação autônoma de forças de segurança e inteligência dos Estados Unidos em território brasileiro, sem anuência.

do governo brasileiro, como já vem acontecendo no México. Então, isso também explica por que há uma relutância por parte de Lula, ou por que o governo Lula é contra essa designação, porque pode elevar o risco de operações militares ou de serviços de inteligência dos Estados Unidos em território brasileiro.

Eu não tinha essa informação, porque a CIA que já estaria fazendo operações no México sem autorização da Cláudia Schembao? Exatamente, temos evidência já concreta, inclusive recentemente morreram dois agentes da CIA num acidente de trânsito dentro do México, que estavam envolvidos numa operação de destruição de um laboratório.

E foi por causa desse acidente que a imprensa ficou sabendo da presença desses agentes em território mexicano. Aquilo foi uma surpresa para o governo Sheinbaum, que obviamente gera uma situação complicada, porque é visto por muitos eleitores mexicanos como uma interferência. Se existe uma operação envolvendo o uso da força.

sem reconhecimento público do governo mexicano, aquilo gera uma série de dúvidas também sobre o que acontece se esses agentes cometem crimes, por exemplo, ou se envolvem em tiroteios, a questão de accountability, eles têm alguma responsabilidade, eles podem responder à polícia mexicana. Então surgem aí numerosas questões e dúvidas sobre até que ponto o México sabe da presença dessas forças americanas em território mexicano.

Então tudo isso gera desafios para a Shinebound e precisa, por um lado, manter uma relação produtiva com os Estados Unidos, mas, por outro lado, também precisa, em última instância, defender a soberania mexicana. Espera um pouquinho que eu já volto para falar com o Oliver.

Na quarta-feira, Oliver, o Flávio Bolsonaro, se seroneado por Eduardo Bolsonaro e por Paulo Figueiredo, esteve no Departamento de Estado e posou para uma outra foto, dessa vez com o número 2 da diplomacia americana, o Christopher Landau, e também com o Doran Beatty, que é um conselheiro sênior.

do presidente Trump para política externa com o Brasil, para o diálogo com o Brasil. Isso indica alguma coisa? Bom, é mais fácil conseguir essas reuniões do que com o Trump. O governo americano é muito centralizado. Isso quer dizer que qualquer questão relevante passa pela Casa Branca. O departamento de Estado hoje é muito fragilizado.

sofreu aí uma fuga de cérebros enorme, tem numerosos postos-chave para embaixadores que estão vagos. Então, o Departamento de Estado importa muito menos hoje do que em qualquer outro governo americano ao longo das últimas décadas. Tendo dito isso, muitas vezes o presidente americano não presta atenção numa determinada área, num país, e é nessas horas que, sim, essas pessoas conseguem avançar com determinadas pautas.

A gente viu isso um pouco ao longo dos últimos meses, que o Lula e o Trump iam ter uma reunião já em março, e aí começou a guerra entre os Estados Unidos e o Irã. E aí o Trump parou de prestar atenção na relação bilateral com o Brasil, porque teve outras prioridades, e nesse intervalo houve uma série de eventos que pareciam agravar a crise na relação bilateral.

E isso mostra que existem no Departamento de Estado pessoas como o Darren Beatty que possuem uma visão mais ideológica e que querem claramente fortalecer o Flávio Bolsonaro, que tem uma visão muito crítica em relação ao Lula e que podem avançar enquanto a Casa Branca estiver ocupada com outras questões.

E aí o Lula conseguiu emplacar a reunião com o Trump, que deu um sinal muito claro, falando bem do Lula, para que esse pessoal do Departamento de Estado desse uma freada nessa postura mais agressiva. E vai ser assim que se define a política dos Estados Unidos em relação ao Brasil. Quanto mais conflito lá fora, maior a chance do Trump ficar distraído, dando mais espaço para essas figuras do Departamento de Estado.

e claramente estão mais mobilizados para olhar a relação bilateral com o Brasil como uma extensão da batalha ideológica americana e que, portanto, são mais suscetíveis e provavelmente querem interferir de forma mais direta no processo eleitoral brasileiro.

Oliver, em março de 2024, você nos revelou aqui no assunto que o governo americano fez uma movimentação para desencorajar qualquer tentativa de golpe, no seguinte sentido, olha, mandou recados, o governo Joe Biden na época mandou recados a emissários do então governo Bolsonaro dizendo qualquer que seja o resultado da eleição, nós não reconheceremos um governo que não for.

democraticamente eleito. Os bolsonaristas, inclusive, disseram que houve interferência e tal. Queria que você explicasse esse ponto. Agora a gente está falando de uma outra coisa, mas que também tangencia esse argumento de interferência nas eleições. Eu queria saber qual é o limite para isso, se você acha que tem limite ou se você acha que há um risco de a Casa Branca interferir nas eleições gerais aqui do Brasil.

Eu acho que houve uma diferença fundamental entre a movimentação do governo Biden e o que a gente está vendo hoje em relação a Trump e vários países latino-americanos e possivelmente o Brasil. Na época, o governo Biden não apoiou explicitamente nenhum candidato. A principal preocupação do governo americano no último ciclo eleitoral foi de que o Brasil não deveria passar por instabilidade institucional e que seria fundamental.

que as Forças Armadas e todos os atores brasileiros respeitassem o resultado. A principal preocupação da equipe do Biden na época foi evitar uma grande instabilidade na América Latina, porque naquele momento tinha muitas outras questões que eram vistas como prioritárias para Biden. A questão com a China, várias outras crises acontecendo. Então, o que Biden não queria...

era um golpe de Estado no Brasil que pudesse desestabilizar toda a América Latina, obrigando o Washington a prestar muita atenção na região. Então não houve uma tentativa de fortalecer o Lula nesse sentido, houve uma tentativa de mostrar nos bastidores.

sobretudo às Forças Armadas e a vários outros integrantes do governo Bolsonaro, de que seria péssimo para a relação bilateral se houvesse qualquer violação da ordem constitucional brasileira. Então, aquilo foi visto por vários bolsonaristas como uma interferência, mas, na verdade, houve apenas uma pressão americana para que o vencedor...

do pleito no Brasil fosse respeitado e se tornasse de fato presidente. O governo Biden não teria feito nada se o Bolsonaro tivesse vencido as eleições, se ele tivesse sido reeleito. Então a principal preocupação de Biden não foi uma vitória de Bolsonaro, foi uma vitória de Lula e uma não aceitação por parte de Bolsonaro.

E aí, como o Lula venceu, os Estados Unidos rapidamente reconheceram o resultado e sinalizaram às Forças Armadas e a várias integrantes que eles haviam identificado antes, como suscetíveis a dar apoio a um possível golpe, de que aquilo teria um péssimo impacto sobre a relação bilateral.

Durante a ligação, Biden elogiou a força das instituições democráticas brasileiras depois de eleições livres, justas e confiáveis. Ainda segundo a Casa Branca, os dois líderes discutiram o forte relacionamento entre Estados Unidos e Brasil e se comprometeram a continuar a trabalhar como parceiros para enfrentar desafios comuns. Para o governo americano, o que interessa mesmo é a estabilidade e a transição pacífica de poder.

Garantido isso, o resto é ganho. Agora a situação é muito diferente. Agora existe uma possibilidade de uma interferência dando apoio explícito a um candidato ideologicamente aliado a Trump, como foi o caso na Argentina, em Honduras, na Hungria.

na Alemanha e em vários outros países ao redor do mundo. É distinto e acaba sendo, em vários momentos, tem um potencial para desestabilizar a democracia, porque, no caso da Alemanha, por exemplo, o apoio que o governo Trump dá no processo interno alemão é para um partido que é visto, pela maioria dos analistas, como uma ameaça à democracia alemã.

Isso nem sempre é o caso. Em vários outros países, como o CAST no Chile, não representam uma ameaça à democracia chilena. Então, quando a gente pensa sobre possíveis formas como essa interferência pode ocorrer no Brasil, é preciso olhar todos esses casos e ver de que forma o país pode se blindar contra possíveis movimentações que podem ocorrer ou nas próximas semanas e meses ou com poucos dias ou horas faltando para o pleito em si.

Agora eu quero abordar um outro aspecto de uma potencial interferência. Eu conversava com um ministro de Estado muito próximo, muito importante do governo, que dizia o seguinte. O meu maior temor não é nem o Trump fazer uma declaração pública de voto. O meu maior temor é que haja algum tipo...

de ordem unida ou de orientação para que as big techs, por meio das redes sociais, interfiram ou influenciem o processo eleitoral. Queria te ouvir sobre isso também. Você acha que isso é possível? Falando de influência, não da influência que a gente vê nas redes sociais por meio do debate público, mas de uma influência do ponto de vista do algoritmo, por exemplo.

Bom, certamente existe uma discussão sobre a soberania digital, sobre a necessidade do governo saber da atuação das big techs em momentos eleitorais, sobre a necessidade de ser transparente em relação aos algoritmos. Isso, obviamente, tem sido uma discussão em vários países. No caso da Alemanha, por exemplo, Elon Musk.

dono de uma rede social muito influente, o X, antigamente o Twitter, dá apoio explícito e deu apoio explícito ao AfD de extrema-direita antes do pleito na Alemanha. A avaliação é que isso não teve nenhum impacto, mas é fato que é uma pessoa externa que não vota na Alemanha, que não mora na Alemanha, que não tem cidadania alemã, consegue ter uma visibilidade enorme no debate público, articulando suas preferências.

Agora, cada país precisa pensar sobre a melhor forma de lidar com isso, sem limitar a liberdade de expressão, obviamente, porque a princípio o Elon Musk, como cidadão, pode dizer o que ele quiser sobre as eleições na Alemanha. O que sim chega a ser um problema é quando os algoritmos acabam sendo alterados, etc., e alguém como o Elon Musk...

quer que pessoas pró-AFD tenham mais visibilidade por meio de ajustes no algoritmo no debate público alemão. Então essas certamente são questões que qualquer governo precisa priorizar, precisa olhar para garantir que a eleição ocorra de maneira justa e aberta sem uma interferência possivelmente decisiva vindo de fora do país.

Oliver, muito obrigada por tantos esclarecimentos. Bom trabalho para você. Obrigado, igualmente. Este foi o Assunto Podcast Diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Sara Rezende, Carlos Catelã, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento e Guilherme Gama. Eu sou Natuzaneri, fico por aqui. Até o próximo Assunto.