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A disputa pela Presidência: o que esperar da reta final para o 1º turno

02 de outubro de 202631min
0:00 / 31:37
Convidado: Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group. A dois dias da eleição, o país acompanha uma corrida para o Palácio do Planalto entre dois candidatos que disputam a liderança cabeça a cabeça. Neste 1º turno, Lula (PT) sustenta a ponta desde o início das pesquisas, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) conquistou pontos percentuais a ponto de empatar tecnicamente com o atual presidente. Na reta final, a vantagem dos dois candidatos em relação aos demais só aumenta, ainda que o número de eleitores indecisos siga alto. O cenário é imprevisível e a possibilidade de que a eleição presidencial se resolva já neste domingo não está descartada. Neste episódio, Natuza Nery recebe Christopher Garman. Na entrevista, Garman explica por que o modelo analítico da consultoria internacional Eurasia, da qual é diretor executivo para as Américas, indica Lula com 55% de chances de vitória – a análise considera o resultado das pesquisas, precedentes históricos e dados de conjuntura. Garman também comenta quais são as forças e as fragilidades das candidaturas de Lula e Flávio e avalia a hipótese de que a eleição possa se encerrar já no 1º turno.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
C

Christopher Garman

ConvidadoDiretor-executivo
Assuntos6
  • Análise da Eurasia Group sobre a probabilidade de vitória de LulaModelos de previsão eleitoral·Aprovação de governo e reeleição·Preocupações eleitorais do eleitor·Vantagem de incumbência
  • A disputa pela Presidência entre Lula e Flávio Bolsonaro na reta finalLula em sua sétima eleição·Flávio Bolsonaro como novato·Campanhas com objetivos distintos·Raios e trovões na campanha
  • Chances de definição no primeiro turno e o cenário do segundo turnoImprobabilidade de definição no primeiro turno·Migração de votos alternativos·Vantagem do candidato na frente·Importância da campanha e debates
  • Vulnerabilidades de Flávio Bolsonaro e o impacto da corrupçãoInvestigações por corrupção e lavagem de dinheiro·Caso Master e implicações·Impacto da crise do STF·Subestimação do voto conservador
  • Imobilidade das pesquisas e o cenário eleitoralCrise do Banco Master e STF·Ajustes na campanha do PT·Estabilização da sangria de votos·Vantagem do Flávio nas pesquisas
  • A percepção da campanha petista sobre Flávio BolsonaroLula incomodado com Flávio·Subestimação do ambiente de opinião pública·Sentimento de estagnação do eleitor·Complacência da campanha do PT
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CGChristopher Garman

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?Voz B

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NNNatuza Nery

Uma eleição totalmente aberta, com dois protagonistas. De um lado, o candidato que mais vezes concorreu ao Palácio do Planalto. Lula chega à sua sétima eleição para presidente. Desta vez, assim como em 2006, em busca da reeleição. De outro, um novato em eleições presidenciais. Uma indicação direta do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que em 2018 alcançou mais de 57 milhões de votos. Em que em 2022 foi derrotado, mas que recebeu 58 milhões de votos.

?Voz B

Tomo a decisão de indicar o Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República em 2026. Entrego o que há de mais importante na vida de um pai, o próprio filho, para a missão de resgatar o nosso Brasil. Porque eu posso.

CGChristopher Garman

Ser mais calmo, mais sorridente, mais tranquilo e moderado.

?Voz B

Mas aqui, aqui tem sangue de Bolsonaro.

NNNatuza Nery

Duas campanhas com objetivos completamente distintos. Lula tenta mostrar ao eleitor que pode fazer um governo melhor do que o seu terceiro mandato e que a volta da família Bolsonaro é um risco para o país.

?Voz B

Recebemos um país destruído e foi preciso muito trabalho para colocar ele de pé novamente. Recuperamos a economia, controlamos a a inflação, batemos recorde na geração de emprego e restabelecemos programas sociais que tinham sido abandonados.

NNNatuza Nery

Já Flávio Bolsonaro bate na tecla da mudança com o tom de varrer o adversário da presidência e tenta se apresentar como uma versão mais moderada do seu clã.

?Voz B

Bom, todo mundo conhece meu pai, né? Mas, ó, minhas filhas, minha esposa, minha mãe me fizeram ser assim, do jeito que eu sou. Meu pai vivia trabalhando muito, sempre trabalhou muito. Eu passava o tempo todo mais com a minha mãe. Ela me passou a visão de mundo dela, do jeito dela, a sensibilidade dela.

NNNatuza Nery

Acontece que nos meses que precederam a eleição, raios e trovões tomaram os céus do país. As campanhas foram chacoalhadas por inúmeros momentos turbulentos. Primeiro, o Caso Master, a maior fraude financeira da história do Brasil.

?Voz B

Como Daniel Vorcaro transformou um banco quebrado no império bilionário em apenas 5 anos? De Daniel Vorcaro mantinha muitos amigos e uma rede ampla de relacionamentos, inclusive políticos, da qual se valia para fazer negócios avançarem. Entre os casos que tiveram sigilo retirado está a investigação sobre a atuação do senador Ciro Nogueira, do Progressistas. A Polícia Federal afirma que o senador, presidente do partido, e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro recebeu pagamento de vantagens financeiras para atuar em benefício do Master no Congresso Nacional.

Outra investigação com sigilo retirado pelo ministro André Mendonça é a que apura a relação do senador Jax Wagner, do PT da Bahia, ex-líder do governo no Senado, com o ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima. O candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, do PL, é investigado no inquérito que procura o financiamento do filme Dark Horse, que conta a vida do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma.

Bom, aqui a gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, né?

NNNatuza Nery

E depois, uma crise inédita na história do Supremo Tribunal Federal.

?Voz B

Então tá tudo fora do lugar num momento delicado de eleição, né? Uma eleição importante para o país, e de repente o Supremo parece que vira um campo de guerra, com os lados declarando ali ataques mútuos. O que a gente tá vendo aqui é uma crise que já era muito grave se aprofundar de uma forma nunca vista. Existe uma guerra que era interna e que agora está escancarada. O ministro André Mendonça retirando o sigilo, inclusive, e pedindo ao presidente do Supremo uma investigação na prática, na prática, sobre Alexandre de Moraes, por conta das mensagens do celular de Daniel Vorcaro.

Nós estamos vendo um pedido do ministro Alexandre de Moraes dizendo que André Mendonça tem que ser investigado por uma série de irregularidades, mas na prática por investigar colegas. E aí ele cita os nomes: ele próprio, O decano Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques. Realmente é uma situação pra lá de volátil, explosiva dentro do Judiciário brasileiro nesse momento de reta final em direção a uma eleição no Brasil.

NNNatuza Nery

E assim, a corrida presidencial chega aos seus últimos dias, com as pesquisas mostrando que cerca de um terço do eleitorado ainda não decidiu em quem votar.

?Voz B

A campanha mais pobre que nós tivemos desde 89. Foi a mais pobre, a mais despolitizada de todas, que você não discutiu política, só discutiu esses temas colaterais, fazem parte da política, mas não são. Ninguém vai votar para ministro do STF, ninguém vai votar para santo, para santa, mas enfim, é o que temos.

NNNatuza Nery

E tem também um problema: a migração de voto para os dois principais candidatos, para o presidente Lula e para o senador Flávio Bolsonaro, tem um problema, um obstáculo, que é a rejeição dos dois, que é muito alta.

?Voz B

No primeiro turno eu vou votar naquele que eu acho que mais representa representa aquilo que eu penso. No segundo turno eu vou votar no Ciro, é o menos pior.

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: o que esperar da reta final no primeiro turno? Neste episódio eu converso com Christopher Garman, diretor executivo para as Américas na Eurasia Group. Sexta-feira, 2 de outubro. Bom, Cris, o relatório divulgado para os clientes de vocês agora em setembro, a Eurásia analisa que Lula tem 55% de probabilidade de vitória. De onde vem essa vantagem? Que tipo de cálculo vocês estão fazendo?

CGChristopher Garman

A gente chega a um cálculo de probabilidade eleitoral fundamentado em primeiro lugar em 3 modelos de previsão eleitoral que a gente gosta de utilizar na Eurásia. A gente gosta de triangular perspectivas e modelos modelos analíticos distintos. O primeiro modelo, a gente olha aprovação de governo e utilizamos um banco de dados de quase 500 eleições mundo afora, coletada pela Ipsos Public Affairs, onde você mensura aprovação de governo na escala binária, aprova, desaprova.

É que quando o governante tem uma aprovação de 45%, que é ao redor onde o presidente Lula se encontra hoje, esse governante ganha a reeleição 78% das vezes. Então, de acordo com esse modelo analítico, aponta para nós um claro favoritismo do presidente Lula. De pesquisas no Brasil, eleições no Brasil, a gente prefere olhar um banco de dados muito maior e global para chegar a essas conclusões. Segundo modelo, a gente olha quais são as principais preocupações eleitorais e você mensura isso ao indagar ao eleitor qual sua principal preocupação.

Em quase 80% das eleições, o candidato mais forte na principal preocupação do eleitor ganha. Se você usar essa perspectiva, você concluiria que o Flávio Bolsonaro, a oposição, é favorita nesse pleito, porque as duas principais preocupações são segurança, dependendo do instituto. Você tem várias pesquisas qualitativas que revelam que existe uma enorme sensação de estagnação nessa eleição. Pesquisas qualitativas atentam que a classe média se sente que tá trabalhando, não consegue subir na vida.

Isso é uma marca dessa eleição em comparação com a última. Então é um ambiente eleitoral de estagnação, corrupção, segurança. Claramente, o presidente Lula, esses temas não conspiram ao seu favor. Então nós temos dois modelos apontando para direções opostas. Aí a gente jura um terceiro modelo que você olha probabilidade de vitória olhando intenção de voto. Quem usa esse modelo reconhecidamente é o cientista americano Nate Silver.

Um mês atrás o presidente Lula tava na frente 3, 4 pontos percentuais. Esse modelo daria uma probabilidade de vitória do presidente Lula aí na casa de 80%, 70%, mas essa liderança se evaporou para zero nas pesquisas hoje. Então esse modelo tá dando meio a meio, ou talvez um viezinho inflado. Então eu só diria o seguinte, Natuza, e a gente tem sido muito claro com os nossos clientes da Horázio: se você fizer uma leitura fria dos modelos analíticos de previsão eleitoral, não dá para concluir que tem um favorito claro.

E a gente tem dado um viés para o presidente Lula numa eleição que parece analiticamente meio a meio, porque a gente tem experiência que estar no governo num desempate, você dá uma vantagem para o governante. O governante consegue anunciar novas medidas, deslocar o eixo do debate nacional. E a gente viu isso nos últimos 10 dias ou 2 semanas, onde o governo anunciou várias medidas: aumento de Bolsa Família, restrição às bets, renegociação da dívida.

E que se deslocou, pelo menos, o debate nacional fora de corrupção e Supremo Tribunal Federal para debater essas medidas. Isso é chamado vantagem de incumbência. E o segundo é que avaliamos que a candidatura do Flávio Bolsonaro tem mais vulnerabilidades em um eventual segundo turno, com possíveis novas denúncias. As pesquisas de segunda pareciam mostrar que o presidente Lula cresceu um pouco, tanto a pesquisa Genial Quest e a Nexus, mas aí as pesquisas do meio da semana estão mostrando nenhuma mudança em comparação com a semana anterior.

NNNatuza Nery

Você mencionou a vulnerabilidade de Flávio Bolsonaro e ela é alcançada pelo segundo modelo, o modelo dos anseios da população. Eu queria te perguntar especificamente para o fato de que Flávio, que é o candidato que você disse que se beneficia com esse sentimento, se não se leva em conta o fato dele ser investigado por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisa, para a gente entender por que isso pode favorecer o Flávio, sendo que no caso Master ele acabou sendo bastante implicado e foi investigado. Isso pesa nessa avaliação, Cris?

CGChristopher Garman

E entra indiretamente quando eu digo que o Flávio tem vulnerabilidades que podem ser exploradas no segundo turno. O que a gente vê nesse primeiro turno, entretanto, é a gente olha o tema de segurança pública, o Flávio Bolsonaro, olhando as pesquisas, tem uma vantagem comparativa com relação ao presidente Lula. Então nesse tema ele tem uma clara vantagem. No tema de corrupção, nenhum candidato é visto como muito crível perante o eleitor.

O que a gente vê em pesquisa qualitativas, é que Brasília inteira é corrupta, farinha do mesmo saco. Então talvez dos dois principais temas o Flávio tem uma vantagem clara em um e não tão clara no segundo. Mas eu diria que quando você tem um escândalo de corrupção tão grande quanto a gente viu no Supremo Tribunal Federal, o que isso acaba fazendo é que acaba, acabou reforçando o pessimismo que a gente já via em pesquisas qualitativas antes desse escândalo e reforçou a visão do eleitor que o país está na direção errada.

E também o eleitor raciocina que se tem Supremo Tribunal Federal corrupto, o presidente Lula E o PT, por estar no poder, né, 18 dos últimos 23, 24 anos, tem mais culpabilidade porque fez mais indicações para esse Supremo.

?Voz B

A crise do STF prejudica ou não a campanha dos candidatos a presidente? E se sim, quais serão prejudicados? Então, Lula, 38%. Flávio, 31%. Isso aqui vai muito numa linha de algumas métricas que nós trouxemos de repercussão na internet, que mostravam que, ao contrário do que a gente pressupunha, muita gente criticava Alexandre de Moraes, mas as críticas a André Mendonça também estavam muito grandes.

CGChristopher Garman

Eu diria que o escândalo de corrupção impactou mais negativamente o presidente Lula por essa via indireta. Mas você tem toda razão, na medida que sai mais denúncias ou notícias sobre, envolvendo as investigações sobre o senador Flávio Bolsonaro, isso é uma vulnerabilidade dele que pode ser explorada mais em um eventual segundo turno.

?Voz B

No dia 8 de setembro do ano passado, quando o Master já estava sendo investigado, Flávio enviou um áudio para Vôrcaro E você também, eu sei que você tá passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda.

CGChristopher Garman

Em outra conversa do dia 16 de novembro, um dia antes de Boccaro ser preso pela primeira vez, Flávio Bolsonaro escreveu ao banqueiro com nova cobrança. Ele enviou duas mensagens de visualização única que se apagam logo após a leitura e em seguida escreveu em mensagem normal: irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente, só preciso que me dê uma luz. Abraços. É por isso que quando a gente vê modelos analíticos apontando por meio a meio, a gente deu um viezinho para o presidente Lula, mesmo que uma leitura fria dos modelos não apontam um favorito claro.

NNNatuza Nery

Você mencionou fatores externos que não foram capazes de provocar grandes alterações. É muito impressionante porque quando eu recebo das minhas fontes das campanhas os seus trackings, né, que são as pesquisas que as campanhas contratam para medir o humor do eleitorado todos os dias. Eles fazem essas pesquisas por telefone, contratam seus institutos. Essas pesquisas não são públicas, mas servem de ponteiro para nortear a campanha e os impactos dos debates públicos.

As coisas se mexem muito pouco. Então o presidente da República fez o anúncio de bets, a gente passou por um debate acerca de Nossa Senhora. Nada disso parece ter sido capaz de fazer ou de provocar grandes alterações no cenário de intenção de voto. O que explica esse cenário praticamente imóvel das pesquisas ao longo dos últimos dias?

CGChristopher Garman

A ressalva que eu colocaria é que o que realmente mexeu nessa campanha foi a crise do Banco Master no Supremo Tribunal Federal. Porque antes, no início do horário televisivo, final de agosto, início de setembro, que é quando a campanha começa a pra valer mesmo, né, o presidente Lula entrou no período de campanha com uma vantagem de média de uns 4 a 5 pontos. E na primeira quinzena de setembro, essa média caiu para zero. A média das pesquisas até caiu para Flávio um pouco na frente.

E aí o noticiário mudou, a campanha do presidente Lula deu uma reequilibrada, Na minha avaliação, a campanha do Flávio tava melhor do que a do presidente Lula na primeira quinzena de setembro. Ele tinha uma comunicação mais direta, ele se apresentou bem para o eleitor, ele tava focado no tema de segurança. E a campanha do Lula tava muito dispersa, listando vários programas de governo, mas sem um foco. Houve uma ajustada, eles melhoraram nas mensagens, e aí o noticiário começou a migrar para os temas que o governo tava anunciando. É, e aí estabilizou a sangria.

?Voz B

De acordo com Datafolha, há poucos dias da eleição, Lula lidera no primeiro turno. Lula, do PT, aparecia com 39% na primeira pesquisa em agosto, depois 38%, 39% em duas rodadas, em seguida 40%, agora 42%. Flávio Bolsonaro, do PL, tinha 33% em duas rodadas, Depois 35, 36 em duas pesquisas, e agora 38, com a margem de 36 a 40. Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados no limite da margem de erro.

NNNatuza Nery

De acordo com o Datafolha, no segundo turno Lula e Flávio empatam tecnicamente. Lula do PT tinha 47%, depois 46 em três pesquisas, na sequência 47, agora 48. Flávio Bolsonaro do PL aparecia com 43%, depois 44% em 3 rodadas, em seguida 45%, e agora manteve os 45%. Lula e Flávio Bolsonaro estão empatados dentro da margem de erro.

CGChristopher Garman

Eu diria que a campanha do presidente Lula, ao fazer esses anúncios, eles não necessariamente persuadiram eleitores para virarem para o lado deles, mas pelo menos deslocou o debate para um terreno um pouco mais favorável. Metade da batalha de uma campanha é poder focar o eleitor nos temas que lhe favorecem. Acho que nesses nesse sentido limitado, a campanha do PT foi bem-sucedida. Agora, eu também diria, se a gente olha a média das pesquisas todas publicadas, estão quase empatadas hoje, né?

Mas a gente também tem aprofundado na pergunta se os institutos têm um viés de subestimar o voto conservador, e a gente enxerga que quase todos os institutos estão fazendo correções nas suas metodologias para tentar evitar o equívoco de subestimação do voto da direita que ocorreu 4 anos atrás. Mas na nossa visão, na Eurásia, em média eles ainda não estão plenamente capturando quem é mais provável para comparecer nas urnas, que é esse modelo de comparecimento.

Então a gente tá achando que se existe um viés, é um viés de subestimar o voto conservador ao redor de 1 ponto percentual. Então não é um grande equívoco, mas eu diria tem um viezinho para o Flávio tá um pouquinho na frente na simulação de segundo turno, entrando no voto de domingo.

NNNatuza Nery

Cris, eu ouvia recentemente, faz umas 2 semanas, de uma importante fonte da campanha petista, a seguinte avaliação: que durante muito tempo Lula ficou incomodado com o fato de Flávio Bolsonaro ter chegado tão longe e que ele, na avaliação dessa fonte, que ele respeita Jair Bolsonaro pela liderança política que Jair Bolsonaro se afirmou. Não é que ele tenha simpatia por Bolsonaro, mas ele respeita o quão longe Jair Bolsonaro chegou e que ele não tem esse respeito pelo Flávio porque o Flávio, na avaliação de Lula, não seria um quadro político preparado e que ele se debateu com isso durante muito tempo.

Diante disso, eu te pergunto: durante muitos meses, a campanha petista, ou o próprio Partido dos Trabalhadores, evitou mirar Flávio para tentar impedir que um nome alternativo do campo da direita subisse. Você diria que eles demoraram muito tempo nessa estratégia, deixando Flávio ficar forte demais? Ou Flávio ficaria forte porque estaria escorado nos ombros do sobrenome do próprio pai?

CGChristopher Garman

O que a sua fonte transmitiu faz certo sentido. A campanha do PT enxergando o Flávio Bolsonaro como adversário mais frágil. Reportagens que têm saído essa semana de um ex-sócio do senador Flávio Bolsonaro numa loja que ele tinha de Copenhague, aonde esse ex-sócio estava chantageando o senador e ameaçando revelar evidências de receber presentes indevidos ou participar de festas comprometedoras. Nenhuma dessas denúncias que estão saindo deve mexer o voto tanto, mas é um acúmulo de notícias que podem começar a pesar, né?

Mas na minha avaliação, talvez a campanha do PT subestimou o ambiente de opinião pública do país, que quando você tem um ambiente aonde houve ganhos de renda real, sim, então você olha os dados macroeconômicos, não são ruins, a renda real subiu 19%, desemprego tá a 5%, o PIB crescendo em um patamar até acima do esperado na maioria desse terceiro mandato. Mas o que as pesquisas qualitativas mostram é que essa classe média tá se sentindo sufocada.

Eles estão muita reclamação de custo de vida, muito, muito sentimento de você trabalha duro, não consegue subir na vida. Como eu disse anteriormente, uma sensação de estagnação. E aí quando você pergunta para o eleitor qual a principal preocupação do país, eu vejo esse sentimento de estagnação conectado com a resposta de corrupção, insegurança. Avança. Porque se você está se sentindo estagnado na sua vida, aí você pergunta qual o principal problema do país, você procura uma razão mais estrutural de por que que o país não avança e eu também não avanço na minha vida.

O que isso sugere, inclusive, que qualquer candidato de oposição ia ser competitivo contra o presidente Lula, mesmo que seja o filho do ex-presidente. Então eu não sei se a força eleitoral do Flávio é explicada exclusivamente de estar nos ombros do seu pai. É claro que ele começa bem, porque tem um conhecimento, e o pai dele, maior liderança da direita. Mas o que realmente explica a competitividade do Flávio é esse sentimento, não é, de estagnação e preocupação do eleitor.

Mas aí o que segura, e não é uma lavada, ou o presidente não perde tão fácil, é que esse governo entregou benefícios É tanto que 45% da população avalia o governo bem, né? Houve uma queda de inflação de preço de alimentos no primeiro ano de governo. É nesse momento aonde a aprovação do presidente Lula tava acima de 50%. Então eu diria que, e aí é claro que houve todo endividamento das famílias, começou a pesar ao longo dos últimos 2 anos e comprometimento da renda com dívidas.

Então eu diria que se a gente olha o próprio ambiente econômico É um ambiente econômico muito misto, aonde o governo deu entregas, mas também tem sensação de estagnação. Então a gente até pode ter uma explicação, independente de um ambiente polarizado, de país dividido, voto calcificado, que tem uma explicação um pouco econômica para esse sentimento misto no eleitor. Tanto que eu acho que nessa eleição não é tanto voto calcificado, essa é uma palavra correta, É um desalento dos dois lados, é um eleitor que perdeu a esperança com o futuro.

Não vemos ânimo na base lulista a favor do presidente e nem muito ânimo na base conservadora bolsonarista a favor do senador Flávio Bolsonaro. E aí o que aconteceu, eu acho que a campanha do PT subestimou esse vento contrário. E aí, será que atacando o Flávio Bolsonaro mais cedo teria ajudado? Eu acho que não, para ser sincero, porque o eleitor também começa a prestar atenção na campanha televisiva. E se você olha a campanha televisiva do PT, ele dedicou 1 minuto e meio dos 5 que tem para poder atacar o Flávio Bolsonaro.

Então, e toda vez que você ataca um candidato, você corre um pouco de risco também, em vez de apresentar suas ideias e vender o peixe do porquê que tem que votar de novo para 4 mais anos para o presidente. Mas eu acho que houve um pouco de complacência. E aí a mensagem do presidente Lula e do PT não tava tão bem definida, não tava fazendo uma história de reconhecendo a sensação de estagnação. Então, e também tentando argumentar: eu sei que a vida tá dura, mas olha o que nós entregamos e temos que— olha o que nós vamos fazer para o futuro.

O ajuste da campanha do PT foi esse na última quinzena de setembro. Na primeira quinzena era só listando os programas de governo sem nenhum reconhecimento da dificuldade. E o Flávio foi muito bem na maneira que ele se apresentou ao eleitorado. Então eu acho que isso explica mais, menos o erro de cálculo de não atacar o Flávio tão cedo.

NNNatuza Nery

Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Christopher Garmo. Cris, e as chances de uma definição de primeiro turno? Não são as chances mais prováveis, mas eu queria saber qual é o teu a tua expectativa em relação a isso?

CGChristopher Garman

A gente acha razoavelmente improvável na Eurásia que tenha uma definição no primeiro turno. A gente não formalizou probabilidades, mas não seria acima de 20%. As pesquisas mostram uma pesquisa muito apertada no segundo turno, como a gente já comentou, e a gente, a soma dos votos que estão sendo colocados para candidatos alternativos representa ao redor de 13% do eleitorado ainda está dizendo para os institutos nessa semana que vão votar em candidatos alternativos.

É provável que parte desse grupo migre para o Flávio ou para o Lula, tanto que a vantagem que o presidente Lula tem sobre Flávio deve diminuir no dia da eleição, no primeiro turno. Mas a soma de votos alternativos, na nossa estimativa, deve cair uns 8%, 9%. Então você tem 8% e 9% do eleitorado que não estão votando por Flávio ou por Lula numa disputa de segundo turno muito apertada. Para nós, a matemática não fecha para chegar a 51%, então, ou 50% mais 1%.

O que sugere para nós é Se houver uma definição no primeiro turno, seria uma combinação de dois fatores: que a migração é bem maior do que a gente está estimando, que é o voto útil estratégico, ou as pesquisas erraram subestimando o voto de um lado ou para o outro. Acredito que as pesquisas vão ser mais apuradas, mais certeiras, porque eles corrigiram para os erros passados. Na Eurásia, a gente cobre eleições globais e muitas vezes institutos corrigem pelos equívocos de 4 anos atrás e novos equívocos aparecem.

Então é difícil a gente saber onde onde é que vai a distribuição desses erros. Mas eu seria aqui, uma vitória no primeiro turno seria por essas duas razões.

?Voz B

Edição do New York Times, primeira edição no mês de outubro de 2026, né, primeiro de outubro de 2026. E aí tem essa longa reportagem do New York Times que eles dizem que ouviram muitas pessoas sobre o medo entre brasileiros do governo, alguns analistas de que o governo Trump possa tentar interferir na eleição brasileira.

NNNatuza Nery

E sim, ele tá preocupado e ele gostaria sim de uma vitória de Flávio Bolsonaro, e ele faz, fez todas as demonstrações disso. A gente se habituou nas nas disputas que vão para segundo turno no Brasil, haver um candidato que começa em primeiro lugar no segundo turno vencer as eleições. Mas num cenário de muita proximidade entre os dois candidatos, há uma distância muito pequena, talvez esse modelo possa mudar, pelo menos esse modo de enxergar e de fazer previsão.

Faz sentido isso para você? Uma uma eventual inversão de um e de outro não seria algo tão, tão absurdo assim de se imaginar. O que que dá para dizer sobre isso?

CGChristopher Garman

A gente olha estudos comparativos e nós temos um banco de dados globais na Eurásia também. Na maioria das eleições, se um candidato está na frente no primeiro turno, ele tende a prevalecer no segundo. E a probabilidade de prevalecer no segundo é mais alta, mais próxima que você tá dos 50% dos votos totais. É uma regra, não é, boa de partida, mas é claro que precisamos olhar a composição dos votos de candidatos alternativos. Quando você pega as pesquisas, a média das pesquisas, e a gente olha esses 13% do eleitorado depositando votos em outros nomes, o que que a gente enxerga?

Uns 30% deles dizem que eu não sei em quem que eu vou votar no segundo turno, ou vou votar no Então você tira esses 30% e quem sobra, próximo de 63%, dizem que vão votar no Flávio e os 37% para o Lula. Então é um voto mais conservador, não é, mas não de forma preponderante. É uma coisa que a gente tem dito para os nossos clientes, é que o mercado financeiro tem feito um certo cálculo. Se o presidente Lula está na frente do Flávio Bolsonaro por menos de 3 pontos percentuais, então 2 ou aí o Flávio é um claro favorito.

A gente discorda dessa avaliação, porque você tem que olhar a diferença dos dois candidatos em proporção com o tamanho dos votos que foram depositados em outros candidatos. E se você olha a distribuição de segundas preferências dos candidatos alternativos e tem uma vantagem de 1 ou 2 no primeiro turno, a diferença no segundo turno tende a ser em um ponto só. Então, e uma diferença de um ponto pode ser revertida de um lado para o outro dependendo da campanha.

Então, quando eu entro nesse segundo turno, a gente vai estar olhando variáveis que geralmente não explicam o resultado da eleição. A gente vai estar olhando a qualidade da campanha dos dois lados. Vai ser muito importante para a campanha do PT tentar melhorar a sua mensagem do que foi entregue e o porquê que isso pelo menos está indo na direção correta. Essa historinha melhorou, mas não foi bem contada no primeiro turno. Flávio vai ter que continuar a se apresentar, apresentar suas propostas.

É uma mensagem de lei e ordem, né? Então eu diria que a capacidade da campanha é muito importante. Os debates vão ser importantes porque no segundo turno vai ter debate entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Geralmente debate não define o resultado, mas eles são tão apertados, pode definir. Isso é um risco para o presidente Lula, porque no debate o contraste entre o vigor de um candidato mais jovem com um presidente de 80 anos de idade pode ficar mais evidente.

O presidente Lula corre um risco de escorregões num debate mais do que o senador Flávio Bolsonaro. Vamos olhar novas denúncias que podem sair, ou se vamos ter um noticiário cheio de novas denúncias de corrupção do Supremo Tribunal Federal. Isso pesaria contra o presidente Lula. Então a gente vai olhar todos esses fatores que podem definir, entrando no segundo turno, se uma vantagem de um candidato de um ponto sobre o outro, né, de um lado para o outro, pode ser revertido.

Então eu acho muito difícil sair do primeiro turno com muita convicção de quem vai ganhar. Vai ser uma eleição difícil de cravar e muito incerta.

NNNatuza Nery

Eu acho que a gente caminha para definir essa eleição como a eleição mais incerta de todas. Eu Eu tô aqui em busca de um título para definir essa eleição. A eleição não acabou ainda, mas mais para frente, quando a gente conversar de novo, vou perguntar se você arrisca um palpite, né? Como é que historicamente a gente vai poder chamar esta eleição presidencial de 2026? E já fica aqui o meu convite para um próximo episódio contigo, quando o segundo turno começar, né?

Admitindo essa probabilidade maior de haver segundo turno, para a gente avaliar esses modelos que você usa para se guiar na Eurásia. Cris, Muito obrigada pelos esclarecimentos todos, bom trabalho para você.

CGChristopher Garman

Muito obrigado pelo convite e para todos os ouvintes.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de áudio preferida. Comigo na equipe do Assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaborou neste episódio Mari Oliveira. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

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