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A fotografia das pesquisas eleitorais às vésperas do 1º turno

01 de outubro de 202629min
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Convidado: Felipe Nunes, cientista político, professor da FGV-SP e diretor da Quaest. A linha do tempo das pesquisas de intenção de voto já há algum tempo apresenta um cenário estável: Lula lidera no 1º turno, com vantagem estreita para Flávio Bolsonaro, enquanto os demais candidatos seguem com um dígito; no 2º turno, o cenário é de empate técnico entre os candidatos do PT e do PL. Mas quando se olha com lupa para os números, há muitos movimentos que apontam mudanças nas tendências do eleitor. Dois dados importantes são a rejeição dos candidatos e a aprovação ou rejeição do governo, mas estratificações das preferências por renda, gênero ou religião podem indicar o que veremos nas urnas no domingo (4). Neste episódio, Natuza Nery recebe Felipe Nunes para analisar muitos desses movimentos captados nas pesquisas de opinião. O cientista político explica por que o medo é o sentimento que mais mobiliza os eleitores e avalia os impactos do Caso Master, da crise do STF e da polêmica envolvendo N. S. Aparecida nas preferências do eleitorado.
Participantes neste episódio2
N

Natuza Nery

HostJornalista
F

Felipe Nunes

ConvidadoCientista político
Assuntos6
  • A volatilidade e instabilidade do eleitorado brasileiro em 202630% de eleitores indecisos·25% podem mudar de voto·eleição morna e desengajada·exaustão do conflito político
  • A consolidação da polarização religiosa entre evangélicos e católicosdivisão por gênero e religião em 2018·evangélicos votam em Bolsonaro·católicos votam em Lula·caso Nossa Senhora Aparecida mobiliza
  • A calcificação do eleitorado e a polarização afetiva em 2022 e 2026rejeição acima de 50% para candidatos·polarização afetiva em 2022·polarização de identidade em 2026·diminuição da violência no debate
  • O paradoxo da aprovação do governo Lula e seu impacto eleitoralsaldo negativo de avaliação do governo·Lula não aumenta aprovação na campanha·economia não impulsiona campanha·eleitor interpreta o mundo pela predisposição
  • O paradoxo de Flávio Bolsonaro e a expectativa de vitória do eleitoradoFlávio competitivo no segundo turno·60% esperam vitória de Lula·Flávio não inspira confiança no eleitor·efeito de manada no voto
  • A importância da abstenção e do engajamento regional no segundo turnoperfil do eleitor que mais se abstém·engajamento de governadores eleitos·aumento de 2 pontos na abstenção·diferença de engajamento por região
Transcrição38 segmentosassemblyai/universal-3-5-pro
?Voz A

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FNFelipe Nunes

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NNNatuza Nery

Esta é uma eleição que parece uma grande distopia. O noticiário foi tomado por escândalos diversos. A maior potência do mundo está com as garras em cima de nós e as campanhas não apresentaram marcas claras para o eleitorado. Diante de tantas incertezas, a pergunta que resume tudo isso é: que Brasil sai das urnas no domingo? Quest divulgou nova pesquisa de intenção de voto para presidente. Esse levantamento mostra Lula com ligeira vantagem sobre Flávio Bolsonaro no primeiro turno e rigorosamente empatado com ele no segundo.

A Quest pesquisou 5 cenários de segundo turno. No principal deles, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem em empate cravado. A guerra de rejeições também está equilibrada. A Quest perguntou aos eleitores sobre o que eles têm mais medo: um novo mandato de Lula ou o retorno do clã Bolsonaro ao poder. E as duas alternativas receberam um alto índice de respostas. Em um cenário de empate nas intenções de voto e também de empate na rejeição dos candidatos, a reta final da eleição deixa mais dúvidas do que certezas.

FNFelipe Nunes

As pesquisas não apontam com segurança, além de não serem prognósticos, não apontam com segurança favoritismo para um lado ou para o outro, e nem tem como a gente descartar ou precisar qual vai ser o peso do chamado voto útil, do voto de chegada.

NNNatuza Nery

Da redação do G1, eu sou Natuzaneri e o assunto hoje é: os últimos dias antes do primeiro turno. Neste episódio, eu converso com Felipe Nunes, cientista político, professor da FGV de São Paulo e diretor da Quest. Quinta-feira, 1º de outubro. Felipe, eu quero conversar com você sobre um artigo que você publicou no jornal Valor Econômico. E nesse artigo você fala que a eleição mal esquentou. Eu queria te ouvir sobre as razões disso.

E eu sei que você coloca os eleitores indecisos, independentes, melhor dizendo, como um fator muito importante para entender esse estado de coisas. Fala melhor para gente, explica melhor para gente.

FNFelipe Nunes

Natuza, faz um tempo, né, que eu tô acompanhando a dinâmica de formação de opinião pública desse ciclo eleitoral. A Quest começou a fazer pesquisa no governo Lula já em janeiro, logo no 8 de janeiro a gente já tinha ali um resultado mostrando como a opinião pública tava reagindo aos fatores importantes do governo. E o que mais me chamou atenção nessa corrida presidencial, a gente tá aqui nas vésperas do primeiro turno, né, é que o número de brasileiros que dizem neste momento que não tem uma opinião formada ainda sobre uma candidatura a presidente é de aproximadamente 30%, quer dizer, um terço dos brasileiros a essa altura, com tanta informação, com tanta discussão, com tanto debate, não sabe ainda o que vai fazer na eleição.

Para piorar esse cenário, o número de brasileiros que diz que pode mudar de voto também é significativo, alguma coisa em torno de 25%. Então nós estamos vivendo um cenário de muita volatilidade, instabilidade. E embora os brasileiros estejam informados, porque eles, o país conversa sobre política o tempo todo, em casa, no trabalho, nas reuniões familiares, né, nos bares, a gente fala de política, mas tá todo mundo com muito medo de se posicionar publicamente sobre política.

A essa altura do campeonato, o número de indecisos em 2022 era muito menor, 10 pontos percentuais menor. Ou seja, essa foi uma eleição morna. E curiosamente, se não for o segundo turno para esquentar, acho que essa é uma característica que marca 2026. Renato Meirelles, o presidente do Instituto Locomotiva e colunista também no jornal O Globo. Você escreveu uma coluna no jornal falando porque o pleito, a eleição de 26, pode ser definido como a eleição do cansaço.

?Voz D

E o que a gente tá vendo hoje é o eleitor que não tá com raiva de ninguém, é um eleitor que não tá votando porque espera um Brasil melhor ou porque simplesmente odeia o adversário. É um eleitor que tá cansado de brigar por pessoas que não têm mais disposição em falar os assuntos que realmente interessam aí pro brasileiro, que um presidente da República proponha pro país. Então é um brasileiro cansado, é um brasileiro que tá pensando duas vezes em sair pra votar no domingo agora.

NNNatuza Nery

Bom, e é importante dizer que a moldura dessa eleição é uma moldura, no aspecto que eu vou dizer agora, muito parecida com a eleição de 2022, mas há nuances. Que moldura é essa? É a moldura que você cunhou junto com Thomas Trauman, que é a calcificação do eleitorado, né? Polos muito rígidos nesses dois campos que lideram as pesquisas de intenção de voto. Quando você olha para eleição de 2022 e para esta eleição, partindo do princípio dessa calcificação, você enxerga alguma diferença entre uma e outra?

FNFelipe Nunes

Natuza, primeiro, essa calcificação que dura aí 3 ciclos eleitorais, ela é fundamentada na ideia da rejeição, né? Você imagina, a gente tá chegando numa eleição de primeiro turno em que os 2 prováveis candidatos que devem ir ao segundo turno, se ele acontecer, tem rejeições acima de 50%. Isso é algo que a gente não tava acostumado na política brasileira. A diferença de 22 para 26 é que lá 2022, Natuza, junto com a calcificação, veio o que eu sempre chamei de polarização afetiva, que era uma violência, que era um debate moral em torno do que é certo, do que é errado.

Era um debate de intolerância que contrapunha duas visões de mundo muito diferentes. Em 26, o nível de polarização afetiva é muito menor. Então, embora a gente tenha continuado polarizado, embora a gente tenha continuado calcificado, há uma diferença no tipo de polarização. Essa ficou sendo uma polarização mais de identidade, de disputa política, de grupo e menos uma disputa afetiva em que eu não tolero o outro, em que o nível de violência, inclusive do debate, né, esse ano foi bem menor do que em 22.

Por que que isso é importante? Porque as pessoas, como a gente acabou de falar, como elas estão desanimadas, desinteressadas, e elas demoraram a engajar na eleição, os grandes debates que dividiram as famílias brasileiras esse ano não aconteceu.

NNNatuza Nery

Me parece mais forte, e aí é, não é dado de pesquisa, é impressão mesmo, um sentimento que soa crescente de uma parcela da população meio farta da polarização, né?

FNFelipe Nunes

Muito. O motivo desse não aquecimento ter acontecido é justamente uma exaustão do que foi o conflito político em 2022. Eu acho que os brasileiros estão de luto ainda em relação à eleição de 22. Eles ainda estão tratando as feridas do que foi, né, esse dilaceramento social, esse esgarçamento das relações de pai e filho, de irmãos, primos, né, de gente que não foi no Natal, que deixou de ir no aniversário. É muito sério o que aconteceu em 2022.

A gente ainda tá tratando isso, e para evitar aquelas consequências, a gente acabou diminuindo o tom e o envolvimento agora em 2026, já que os dois personagens basicamente permanecem os mesmos. Essa é uma eleição de Lula contra Bolsonaro. Acho que não é uma eleição de Lula contra Flávio, é uma eleição de lulismo contra bolsonarismo, né? Essa exaustão sobre o que aconteceu em 22, ela traz consequências para esse ano, que é esse distanciamento, essa apatia, que obviamente, Natuza, pode inclusive ter efeitos, porque a abstenção esse ano é uma variável que eu tô muito atento Acho que ela pode ser decisiva nessa reta final.

NNNatuza Nery

E quando a gente olha para dados específicos da abstenção, a gente pode chegar a pistas diversas. Daqui a pouco a gente trata sobre isso, mas antes de chegar nesse ponto, eu queria falar um pouco dos paradoxos dessa eleição de 2026. Nesse mesmo artigo do Valor Econômico que você escreve, você fala de um paradoxo de Lula que tem a ver com as taxas de aprovação ao governo dele. Explica para a gente que ideia é essa.

FNFelipe Nunes

A principal variável explicativa de sucesso eleitoral na ciência política é aprovação do governo. A tese é muito simples, Natuza: presidentes bem avaliados tendem a ser reconduzidos, presidentes mal avaliados tendem a ser punidos nas urnas. É uma ideia clássica na ciência política. E o que a gente tá vendo esse ano é que, curiosamente, o Lula é o primeiro presidente a disputar a reeleição que primeiro tem saldo negativo de avaliação.

Hoje ainda há no Brasil mais gente dizendo que o governo dele é ruim ou péssimo na comparação com quem diz que é ótimo ou bom. Então o saldo continua negativo. E o Lula, até a semana passada, não vinha conseguindo aumentar o seu nível de aprovação, o que também é inédito. Todo presidente, até o Bolsonaro que perdeu, melhorou sua aprovação durante a campanha, e o Lula não tava conseguindo fazer isso. Então reside aí um paradoxo que nos traz, né, para um dilema muito interessante, que é talvez a primeira eleição brasileira em que ninguém citou a famosa frase do James Carville: é a economia, estúpido.

Porque não é a economia, estúpido, né? Nós estamos no menor nível de desemprego, o menor nível de inflação. Assim, a gente olha, né, para o que os economistas chamam de misery index, que é uma combinação desses dois elementos. O Brasil tá no seu low histórico. E isso não está impulsionando a campanha presidencial. Acho que isso é um efeito prático da dinâmica da calcificação, em que o eleitor, mais do que analisar racionalmente os indicadores da sua vida e a percepção, ele interpreta o mundo à luz da camiseta que ele veste, ou seja, da sua predisposição.

Isso para mim marca é um novo ciclo de análise política que obviamente mantém a polarização nos termos que ela tá hoje, mas também leva desafios, que é: se o eleitor parar de punir o mau governo e parar de premiar o bom governo, qual vai ser o indicador que a gente que a gente vai utilizar daqui para frente para avaliar o que que é bom ou o que que é ruim. Então isso traz, eu acho, uma reflexão para gente que é muito importante nessa eleição de 26, até porque vai dar uma louca nos ponteiros de medição, né?

NNNatuza Nery

E só para contextualizar, o James Carville era o estrategista do Bill Clinton, ex-presidente democrata americano, e cunhou essa expressão para explicar o sucesso de candidatos do partido, em particular Bill Clinton, então nas eleições americanas. Agora eu quero pular para um outro paradoxo, que é o paradoxo de Flávio Bolsonaro. Porque na Quest vocês perguntam aos eleitores sobre as expectativas de vitória, de quem é que vai ganhar a eleição.

E aí há muitos cenários em que Lula lidera, né, nessa expectativa, nessa sensação de que ele será reeleito. Explica para gente que paradoxo é esse, o que que significa isso.

FNFelipe Nunes

O Flávio Bolsonaro vem aparecendo nos cenários de primeiro turno a uma distância média, eu diria, de 5 pontos para o atual incumbente, que é o Lula, em segundo ali com uma distância como essa. E no cenário de segundo turno, que obviamente tem várias limitações, né, simular segundo turno no primeiro, a gente tem que sempre ter cuidado. Mas nesses cenários, o Flávio aparece muito competitivo, né, ou próximo ou empatado, ou em alguns casos até durante a campanha teve a frente numericamente do Lula.

Quando a gente pergunta para os brasileiros quem vai ganhar a eleição, independentemente de quem você vota, a grande maioria dos brasileiros, quase 60%, dizem que vai ganhar o Lula. Então o Flávio Bolsonaro é curiosamente um candidato que tem até um nível de intenção de voto alto, mas que não parece inspirar confiança nem no eleitor que hoje tá votando nele. É como se ele fosse aquele candidato que tivesse um desempenho de intenção positivo, mas que sempre levantasse uma dúvida, é uma suspeita de que algo pode acontecer e que isso derreteria esse desempenho do principal candidato da oposição.

Então, é, na ciência política, a gente chama um dos efeitos, né, mais clássicos de comportamento eleitoral de bandwagon effect, ou no português, o efeito de manada. O eleitor gosta de votar em quem ele acha que vai ganhar. Tem um percentual que ainda faz faz isso. Então, Flávio talvez tenha um problema nessa eleição por não estar conseguindo inspirar tanta vantagem, confiança, mesmo no seu eleitor, de que ele é capaz de vencer o Lula.

Embora, como eu disse, nas simulações de primeiro e segundo turno ele é o candidato mais competitivo contra o Lula, com certeza.

NNNatuza Nery

Eu queria entender dois perfis nessa reta final capturados pelas pesquisas da Quest: o perfil religioso e o perfil regional. Começando com religião. Como é que está a situação de Flávio entre evangélicos no geral? Como é que tá a situação de Lula entre católicos? Depois a gente passa para as regiões de maior densidade eleitoral.

FNFelipe Nunes

Para te dar essa resposta, eu queria fazer um pouco de uma recuperação histórica, né? Porque desde 2006 a gente viu as eleições brasileiras serem marcadas por uma divisão territorial, né? O Nordeste passou a votar de maneira consistente em candidatos do PT a partir de 2006, momento esse em que a gente também viu uma outra marca se constituir e se consolidar, que é a divisão por classes. A gente viu a partir de 2006 o eleitor de renda alta votar mais de forma contrária ao PT, independentemente de quem fosse o candidato, enquanto o eleitor de renda baixa passou a votar consistentemente em favor do PT.

Essa foi a primeira grande divisão social, eu diria, que a gente viu na história brasileira. A partir de 2018, a divisão deixou de ser só regional e só de classe para ser também uma divisão de gênero e uma divisão religiosa. Foi a primeira vez em 2018 que a gente viu evangélicos que votavam da mesma forma que os católicos no passado dividirem seu voto. A partir de 2018, os evangélicos passaram a votar no Bolsonaro contra o PT.

Em 22, a grande marca, né, da consolidação dessa divisão social foi justamente essa: os evangélicos continuaram votando no Bolsonaro, e isso passou a fazer parte de um aspecto da disputa que trouxe os valores, os costumes, as visões de mundo para o debate público. E em 26, uma das perguntas era: será que o bolso dos evangélicos vai pesar para eles voltarem a fazer um voto menos bolsonarista ou não. E o que a gente tá vendo nas pesquisas é que não, há uma consolidação nesse caso muito clara.

O eleitor evangélico continua votando mais no Bolsonaro. Não havia uma reação católica em relação a isso. Os católicos até votavam mais no Lula, mas eu diria que era muito mais por uma questão econômica ou mesmo de identidade, tinha muito menos a ver com fé. Nessa eleição, esse gap, ele ganhou um contorno de polarização real. Católicos, é até onde eu interpreto, as lideranças católicas tomaram uma postura anti- missionário no mesmo patamar ou no mesmo nível que as lideranças evangélicas vinham fazendo.

Claro que eu não quero aqui generalizar, porque nem o campo católico nem o campo evangélico é homogêneo, né, tem diversidade ali no meio. Mas majoritariamente as lideranças evangélicas estão com Flávio e as lideranças católicas agora fazem esse movimento com Lula. Então 26 vai ficar marcado como eleição da consolidação da polarização religiosa, em que evangélicos e católicos em 3 ciclos eleitorais votam diferente.

NNNatuza Nery

E esse caso envolvendo Nossa Senhora Aparecida, ele foi o que ajudou, ao lado de proibição de bets, a movimentar as redes sociais no último fim de semana, né?

FNFelipe Nunes

Então é algo muito forte nos dois lados, né, Natuza? Porque o eleitor do Flávio tá associando aí a essa ideia de, ah, isso é uma fake news, etc., e o eleitor do Lula tá tratando isso como um tema sagrado. Olha, existe ali uma suspeita de que algo pode acontecer. Quer dizer, a própria narrativa dos dois lados ela conflagra essa disputa que a gente tá conversando.

?Voz E

Houve um aumento inclusive nas redes sociais de que havia um plano de se retirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. Isso não há nenhum projeto, né? Na Câmara dos Deputados houve um projeto lá atrás, mas o projeto está arquivado. Aí Flávio Bolsonaro acionou Tribunal Superior Eleitoral. Quem julgou esse caso foi o ministro André Mendonça, e o ministro decidiu porque haveria ali notícias falsas e apontou a necessidade de se retirar conteúdos envolvendo essa questão.

Que o ministro Flávio Dino então fez? Ele decidiu suspender, na verdade, a decisão de André Mendonça e dizer que havia ali a questão da liberdade de expressão. E a gente viu também aí crescendo uma fala do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro. Ele chegou a dizer que o PT, o Partido dos Trabalhadores, tinha criado a maior fake news dessa eleição com a ajuda de gente que integrava a CNBB, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil.

E o CNBB emitiu uma nota dizendo que essa fala era uma fala injusta, que a igreja não autorizou e não fez nenhum tipo de atividade para poder disseminar esse tipo de informação nas redes sociais.

FNFelipe Nunes

A novidade é que isso de fato mobilizou um eleitor que tava desengajado. Eleitor católico de fato olhou para essa disputa, né, e falou: pera aí, agora eu preciso me movimentar, agora eu preciso me posicionar.

NNNatuza Nery

E é isso que a gente tá vendo nas Espera um pouquinho que eu já volto para continuar minha conversa com Felipe. Agora, sobre o aspecto regional, quando a gente olha para as regiões do país, para os eleitores dessas regiões, e olha por baixo dos números grandes, o que que a gente enxerga? O que que você consegue enxergar nessa disputa presidencial em estados do Sudeste, do Nordeste, Centro-Oeste. Faz um sobrevoo para mim, por favor, Felipe.

FNFelipe Nunes

Natuza, neste caso, essa dinâmica regional que eu descrevi e que começou em 2006, ela só se intensificou ao longo dos últimos ciclos eleitorais, né? O PT tem conseguido ter em média 70% de votos válidos no Nordeste. Obviamente eu tô falando aqui de um número médio, né? Variou, mas é na média, tô falando de 70%. E na soma, os candidatos antipetistas no Sul e no Centro-Oeste também conseguiam ter 70% do voto, de modo que é como se esses dois elementos ali ficassem no mesmo patamar de divisão.

E o que faz a diferença nesse caso é para onde vai o Sudeste, né? O Sudeste é uma região em que o candidato antipetista tem conseguido levar vantagem, em alguns casos vantagens muito grandes, outras menores. E isso é que tem sido o fiel da balança. Em 2018, por exemplo, quando Bolsonaro venceu, e as pesquisas mostraram isso, a vantagem do Bolsonaro sobre o Haddad era muito grande no Sudeste. Agora a gente tá vendo, do mesmo jeito que em 2022, uma vantagem menor do Flávio sobre o Lula.

E isso faz a diferença. Diferença, porque todo contingente eleitoral do Nordeste, que é a segunda região mais populosa do país, acaba compensando essa vantagem menor, pelo menos como a gente tá vendo hoje nos números, que o Flávio tem sobre o Lula. Aí, no caso do Norte, tem uma divisão. O Pará tem um papel importante em ajudar o Lula alavancar sua campanha. O Amazonas, a depender de como ele se comporta, porque Manaus é muito mais bolsonarista, o interior do Amazonas é muito mais lulista, então tem ali uma disputa territorial.

Mas claro, é uma região menos populosa. Então a diferença vai ser feita novamente na região Sudeste, Sudeste. Mas em Minas a gente vai continuar vendo, na minha visão, a bússola brasileira, né? Neste momento o Lula tem 41% das intenções de voto em Minas e o Flávio 40%. Quer dizer, é um empate quase numérico que revela esse país dividido que a gente tem acompanhado nos últimos tantos anos, né? 6, 7 anos.

?Voz F

Lula venceu em Minas, né, com essa porcentagem de 48,29% dos votos, mas Bolsonaro ganhou em Belo Horizonte, no maior colégio eleitoral, né? E Bolsonaro ganhou nas maiores cidades do estado, em Belo Horizonte, Uberlândia, e também em Contagem. Já Lula venceu em Betim, Ribeirão das Neves e no interior do estado, em cidades como Juiz de Fora e Montes Claros. Aqui em Belo Horizonte, a diferença entre Bolsonaro e Lula foi de pouco mais aí de 60 mil votos.

Norte, Nordeste do estado, uma predominância maior onde Lula teve mais êxito. Nas cidades aqui do Triângulo, Alto Paranaíba, sul do estado, onde Bolsonaro teve mais votos que o candidato do PT.

NNNatuza Nery

Eu quero falar então de abstenção a partir de um outro aspecto, que é o aspecto de engajamento de uma eleição presidencial no no segundo turno quando se tem, por exemplo, um grande conjunto de estados com vitórias dos seus governadores já no primeiro turno? Por que que isso afeta tanto uma campanha presidencial numa segunda rodada, num segundo turno?

FNFelipe Nunes

Muito, muito bacana perceber o amadurecimento da análise política brasileira, né, que compreendeu depois de 22 que não dava para cobrir a eleição assumindo que só porque o voto é obrigatório todo mundo vai votar e ponto. Embora seja obrigado a votar, você precisa passar a considerar não só a intenção de voto deles, tem que também passar a considerar a probabilidade dele comparecer no dia do voto. O que que a gente aprendeu lá atrás?

Duas coisas. Primeiro, o perfil do eleitor que mais vota ou menos vota faz a diferença na eleição. Que o que a gente descobriu é que mulheres ou mais de 70 anos de ensino fundamental são as que mais se abstêm na eleição. Então, depois que elas deixam de ter obrigatoriedade de participar, elas participam menos. Enquanto elas têm obrigação, elas são as que mais participam. As mulheres são muito engajadas até os 70 anos. Esse engajamento cai significativamente, em especial nas mulheres, depois que cai a obrigatoriedade de idade.

Então, levar isso consideração é super importante. Mas tem uma segunda variável, que é, como você disse bem, o nível de engajamento dos candidatos eleitos ou não no governo ao primeiro turno e o envolvimento que eles têm na campanha presidencial. A discussão é quando é que eles podem tirar férias, né? Os presidentes geralmente preferem que os governadores eleitos em primeiro turno não tirem férias no segundo, porque isso é que vai fazer a diferença.

O que que os dados do TSE, estudados profundamente pelo time de inteligência da Quest, dizem sobre isso? Uma campanha num estado que já terminou a eleição do primeiro turno tende a observar um aumento médio de 2 pontos percentuais na abstenção. Ou seja, se acaba a eleição logo no dia 4 de outubro, as pessoas tendem a se engajar menos, aí votar menos no segundo turno. E a gente tá falando de um percentual aí próximo de 2 pontos percentuais.

Numa eleição apertada, Natuza, empatada, aberta, esses 2 pontos podem fazer a diferença. Mas eu faço aqui um comentário adicional: o nível de engajamento nas regiões brasileiras, embora na média seja de 2 pontos, tem diferença. O eleitor de São Paulo é mais engajado, eleitor do Nordeste é menos, engajado. Isso também pesa, né? Quer dizer, uma eleição finalizada no primeiro turno na Bahia é um pouco diferente da eleição terminada no primeiro turno em São Paulo.

Embora no geral o que a gente observe é justamente isso: as pessoas se envolvem menos quando não tem um governador disputando o voto delas no estado.

NNNatuza Nery

Felipe, já que você citou o segundo turno, eu queria só checar contigo sobre a possibilidade de um encerramento dessa eleição ainda no primeiro turno.

FNFelipe Nunes

Natuza, as pesquisas de hoje mostram que a probabilidade da eleição ir para o segundo turno é muito maior do que a probabilidade de nós termos um vitorioso, né? Eu digo isso porque o contingente de eleitores que dizem hoje que tem intenção de votar em Caiado, Zema, Renan, Cury ainda é muito expressivo. É verdade que até publiquei um artigo ontem no G1 explicando a dinâmica do voto útil. Ele tá acontecendo, tá havendo uma diminuição da empolgação, né, do eleitor de terceiras alternativas nesse momento da campanha.

Mas ele teria que ir quase a zero, né, teria que ir muito baixo, a 3%, 4%, para que a gente tivesse uma chance maior da eleição terminar no primeiro turno. Então, por enquanto, eu trabalho com os números da pesquisa que sugerem neste momento que a gente deve provavelmente ter um segundo turno mais provável do que uma eleição definida já de cara.

NNNatuza Nery

Bom, e agora para a gente encerrar a nossa conversa, eu quero retomar um papo excelente que a gente teve em abril no episódio de número 1697. É um dos meus favoritos. Inscritos do assunto neste ano. Recomendo para quem não ouviu voltar lá. E naquela ocasião você nos contou sobre a dinâmica das pesquisas qualitativas, as chamadas salas de espelhos. Depois de 6 meses daquela nossa conversa, o eleitor de lá tá buscando a mesma coisa, tá dizendo a mesma coisa agora? O que que você tem ouvido nas suas pesquisas qualitativas?

FNFelipe Nunes

Dentro da sala de espelho, Natuza, a gente observou ao longo desse ciclo eleitoral vários temas passando por ali, mas majoritariamente a gente ouviu muito sobre uma falta de perspectiva de futuro, né, um certo incômodo de que as pessoas não conseguem de fato encontrar uma melhora de vida. Você vai se lembrar que naquele episódio eu falei de bets, né, eu já tava ouvindo os homens, por exemplo, dizendo que jogavam, mas não falavam isso nos grupos perto das mulheres, as mulheres reclamando muito de A gente já tinha antecipado isso lá atrás.

Também naquele debate a gente discutiu a dinâmica do status social na sociedade brasileira. Eu mostrei para você como tinha mudado a perspectiva e por que que os programas sociais tinham efeito menor, né? O eleitor tá mais calejado, ele até gosta dos programas, mas acha que eles são direitos, deixaram de ser favores. A gente tá vendo exatamente o efeito disso. Tudo que o governo propõe tem efeito de curtíssimo prazo na campanha.

Então acho que as salas de espelhos, os grupos qualitativos, realmente ajudaram a entender os efeitos dessa eleição. E agora, Natuza, o tema mais importante nos grupos não é o Supremo, não é corrupção. O brasileiro não tá falando disso espontaneamente, especialmente o eleitor independente. O que tá realmente ressoando é a ideia de medo. O que pega hoje, o que me parece vai ser decisivo nesse 4 de outubro, é a discussão que coloca dois candidatos liderando pesquisa, portanto liderando a corrida presidencial, com rejeições muito altas.

E o que o eleitor discute nesse momento é: eu tenho mais medo de quê? Da volta do Bolsonaro e a consequência que isso pode pode trazer para o Brasil, ou a continuidade do Lula e a consequência que isso pode trazer para o Brasil. Eu tô escutando muito a respeito desse debate. É uma indecisão, uma indefinição, porque as pessoas estão sem perspectiva. E aí, Natuza, vou fazer aqui uma reflexão à luz dessa evidência para chamar atenção para a importância que talvez o segundo turno possa ter nessa campanha, né?

Até aqui a gente não viu um enfrentamento de Lula e Flávio. Até aqui a gente teve muito pouco compromisso público, tanto do Flávio como do Lula, em relação a temas que são sensíveis nos dois critica-se muito a política econômica do Lula, e a gente não sabe ainda qual é o compromisso que ele vai fazer para o próximo mandato. Critica-se muito é a visão radical de ruptura institucional possível do Flávio. Em nenhum momento a gente escutou isso de maneira concreta.

NNNatuza Nery

Até mesmo as grandes dúvidas acerca de envolvimento de Flávio Bolsonaro em casos de investigação, caso Dark Horse, as circunstâncias do áudio e do dinheiro que ele pediu para Daniel Vorcaro. Enfim, ele é formalmente, ele tá sendo investigado por corrupção. Isso também não foi respondido por ele em em nenhum momento, né?

FNFelipe Nunes

O que só aumenta a importância que eu dou para que a gente, nesse caso, talvez use o segundo turno justamente para esclarecimentos e compromissos. Porque uma eleição, Natuza, é um mecanismo para esclarecer e para criar compromissos. E é isso que infelizmente o eleitor tá reclamando nos grupos de qualitativa. Ele não viu ainda um compromisso claro das duas principais candidaturas e ainda sente falta de esclarecimentos aí de dois, né, de lado a lado, em torno de uma série de questões.

Você imagina, a saúde brasileira não foi discutida totalmente o projeto da educação dos próximos 20 anos não tá discutido. Ou seja, se a gente for para o segundo turno, talvez a gente possa ter uma conversa em torno disso. Eu tô curioso para ver como os dois candidatos vão reagir para esclarecer e se comprometer, que como eu disse é o papel que uma eleição tem no sistema democrático.

NNNatuza Nery

Olha, derivando da calcificação do termo que você, que você cunhou, eu estou em busca de um título para definir a eleição mais em aberto da nossa história, pelo menos adolescente. Então, se você tiver uma expressão ou puder pensar nela, me ajude, porque eu ainda não encontrei. Vou ficar devendo aqui em seu nome para os assuntos um título para essa eleição. A gente ainda precisa disso, né?

FNFelipe Nunes

Vamos procurar juntos esse título, Natuza, porque tem uma mistura de apatia, de identidades já concebidas e calcificadas, tem um pouco de, obviamente, de desalento. Acho que a disputa que vai se dar no domingo e eventualmente lá no dia 25 de outubro, acho que ela vai ajudar ajudar a gente a encontrar esse título, né? Porque como a gente começou esse episódio falando de uma eleição morna, é difícil achar um título, né, para uma eleição tão pouco propositiva e que esquentou tão pouco com esse patamar gigantesco de indecisão.

Natuza, 70% dos brasileiros em média não sabem quem votar para o Senado. Uma eleição tão importante como a mineira, 62% não tem candidato ao governo do estado. Em Minas Gerais, um colégio eleitoral super importante, a média, como a gente falou aqui, da indecisão é enorme para todos os cargos. Então eu acho que vamos ter que esperar o resultado para pensar retrospectivamente, mas talvez a gente esteja perto de uma eleição a mais concorrida, a mais aberta, mas também a mais morna da história brasileira.

NNNatuza Nery

Meu querido amigo Felipe Nunes, muito obrigada pela entrevista.

FNFelipe Nunes

Sempre um prazer, Natuza. Um abraço a todo mundo.

NNNatuza Nery

Este foi o Assunto, podcast diário disponível no G1, no YouTube ou na sua plataforma de de áudio preferida. Comigo na equipe do assunto estão Luiz Felipe Silva, Carlos Catellan, Luiz Gabriel Franco, Juliane Moretti, Stephanie Nascimento, Marco Antônio Martins e Tomé Granneman. Colaborou neste episódio Viviane Mateus. Eu sou Natuzaneri e fico por aqui. Até o próximo assunto.

?Voz A

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